27.11.09

Complexo de vira-lata

Parece ser uma necessidade psicológica da direita brasileira, classe histérica e raivosa, perpetuar o que Nelson Rodrigues identificava no povo brasileiro como "complexo de vira-lata".

Nelson definia esse complexo como "a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo". Em nossa história recente tivemos várias campanhas publicitárias, a exemplo do slogan "sou brasileiro e não desisto nunca", para aumentar a nossa auto-estima.

Mas perpetuar esse complexo não é apenas uma necessidade psicológica da direita. Não permitir que o brasileiro o supere também faz parte do projeto da burguesia nacional para o Brasil.

Qual é esse projeto? O projeto é justamente não ter projeto. É deixar que alguém "com mais capacidade" cuide disso. É vender o Brasil inteiro para que cuide dele "quem tem competência". Ela precisa convencer o resto do país de que somos todos um bando de incapazes, assim como eles, e que se não deixarmos que os estrangeiros tomem conta do que é nosso, estaremos todos perdidos. É a mesma mentalidade de povo colonizado de sempre. Mentalidade de povo escravo, submisso, subjugado.

A direita não tem um rumo a apontar para o país. Por essa razão, ao reconhecer sua incapacidade de governar um Brasil soberano, ela tenta projetar sua própria inferioridade ao resto da nação.

Renato Russo resumiu bem nos últmos versos da letra de "Que país é esse?" qual o projeto da direita para o Brasil:

"Mas o Brasil vai ficar rico
Pois vamos faturar um milhão
Quando vendermos todas as almas
Dos nossos índios num leilão"

Ou seja, para a burguesia brasileira, o caminho para a prosperidade da nação é se abrir para o capital estrangeiro, vender tudo o que ela tem, todas as suas riquezas naturais, tudo o que lhe é mais sagrado, expresso metaforicamente pelo leilão das almas dos nossos índios.

O povo brasileiro vem aos poucos superando seu complexo de vira-lata, mas não a direita. Ainda podemos ouvir os ecos dos gritos e dos esperneios de reação ao anúncio do Brasil como sede da Copa de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016. A direita não acredita que seremos capazes. Ela não julga o Brasil digno.

Se temos muitos problemas? Certamente, e muitos. Mas o brasileiro é um povo de luta e de trabalho, e não podemos deixar de acreditar em nossa própria capacidade.

Temos hoje que dar continuidade a um projeto progressista de um Brasil livre, soberano, para que possamos em muito breve chegar à superação do capitalismo parasitário através de uma sociedade superior, a sociedade socialista.

Por isso devemos deixar de lado esse complexo de vira-lata definitivamente. Não é a burguesia brasileira quem deve definir nossa auto-imagem. Deixemo-la gritando sozinha em suas crises histéricas, pois essa parolagem neurótica só interessa aos analistas. Esse tipo de enfermidade não se cura ao mostrar ao doente que "suas idéias não correspondem aos fatos".

20.11.09

"A metamorfose", de Franz Kafka: Gregor Samsa como um símbolo do conceito marxista de alienação

A obra "A metamorfose", de Franz Kafka, é um clássico no gênero de ficção simbólica experimental que surgiu no início do século XX. Seguindo estreitamente as teorias da alienação do trabalhador, de Karl Marx, o protagonista da história, Gregor Samsa, é a personificação do sufocamento da alma em meio à revolução industrial. O mais irônico na leitura de "A metamorfose" é que Gregor Samsa passa por uma metamorfose apenas no sentido físico; filosoficamente Gregor sempre foi um inseto e o fato de fisicamente se tornar um não altera em nada a sua apreciação da vida.

Gregor, depois de sua metamorfose, persiste obstinadamente na mesma mentalidade conformista que tinha antes. Apesar de Gregor acordar numa manhã e se encontrar transformado num inseto gigante, e depois de perceber que ele não é mais humano, os processos de pensamento de Gregor não passam por nenhuma mudança (Kafka, 1997). "Ao invés de reagir com franca ansiedade, Gregor pensa, o tempo todo, sobre seu emprego e sua família; ele se torna ansioso sobre a passagem do tempo e preocupado com suas novas sensações corporais e suas estranhas dores" (Bouson, 56). Em outras palavras, Gregor não pode escapar do fato de que mesmo como um humano, ele era desumanizado. Suas preocupações sobre obrigações familiares servem para ressaltar que Gregor é agora um inseto na forma física, mas que psiquicamente ele tinha sido pouco mais que isso até então.

De acordo com Karl Marx, para o trabalhador o seu trabalho "é externo a si, i.e., não é parte essencial de seu ser, de forma que ao invés de se sentir bem em seu trabalho, ele se sente infeliz, ao invés de desenvolver sua energial física e mental, ele abusa de seu corpo e arruína sua mente" (Bloom, 107). Gregor é o símbolo ideal do que Marx denuncia; ele é alienado do produto do seu trabalho porque este não lhe pertence. Além disso, ele não está nem mesmo trabalhando por um salário para si próprio; seu salário é direcionado para quitar os débitos de seu pai. Uma vez que Gregor se transforma fisicamente em um inseto ele apenas segue o que já havia lhe acontecido filosoficamente; seu isolamento e alienação se tornam completos. "A transformação de Gregor Samsa em um inseto representa a auto-alienação em um sentido literal, não é meramente uma metáfora costumeira que se torna um fato ficcional... Nenhuma forma mais drástica poderia ilustrar a alienação da consciência do seu próprio ser do que o despertar assustador de Gregor Samsa" (Bloom, 105).

Finalmente, a alienação de Gregor Samsa em relação à sua humanidade é totalmente física e realizada: "Isso é, Samsa, tendo sido um bem-sucedido vendedor, já foi o pilar de sua família, mas agora, sendo impotente, sua irmã assume na frente de seus pais o papel de liderança e força tranquilizadora que tinha sido dele" (Scott, 37). Assim como um inseto é apenas um pequeno ator no esquema maior da natureza e dele não se espera que sinta coisas como satisfação ou ambição, assim Gregor eventualmente se rende completamente à intenção de um sistema de destruir aqueles componentes essenciais de que se constituem a humanidade.


Por Timothy Sexton, tradução de Glauber Ataide. Texto original em inglês aqui.


REFERÊNCIAS:

Bloom, Harold, ed. Franz Kafka's the Metamorphosis. New York: Chelsea House, 1988.

Bouson, J. Brooks. A Study of the Narcissistic Character and the Drama of the Self A Study of the Narcissistic Character and the Drama of the Self. Amherst : University of Massachusetts Press, 1989.

Scott, Nathan A. Rehearsals of Discomposure: Alienation and Reconciliation in Modern Literature: Franz Kafka, Ignazio Silone, D. H. Lawrence . New York: King's Crown Press, 1952.

Kafka, Franz. "The Metamorphosis." The Norton Anthology of World Literature, Vol. F: The Twentieth Century. 2nd Edition. Ed. Sarah Lawall. New York: W.W. Norton & Company, 2003.

12.11.09

Hitler e a direita

A direita parece não suportar a vergonha de ter enquadrado em suas fileiras alguém como Adolf Hitler. Ela tenta a todo custo encontrar alguma forma de "transferir" essa "responsabilidade" para o campo da esquerda.

Você já reparou com que frequência vemos o socialismo associado ao nazismo em capas de revista, por exemplo? Pois é, são coisas desse tipo que a direita vem fazendo para tentar "emplacar" a idéia de que Hitler não era um dos seus.

Como um jovem pobre que foi recusado na faculdade de artes por duas vezes conseguiu chegar ao poder e causar todo o estrago que fez ao mundo? Pura habilidade política? Pura retórica? Claro que não.

No período entre as duas guerras e com o sucesso da revolução russa em 1917, o socialismo estava se tornando uma ameaça na Alemanha. O partido comunista era o maior e o mais influente. Literalmente, "um espectro rondava a Alemanha".

Para tentar conter o avanço comunista, a burguesia alemã injetou dinheiro nas campanhas de Hitler. Sim, os industriais alemães financiaram Hitler para que ele pudesse deter a "ameaça comunista". Ao se tornar chanceler, Hitler logo tratou de matar membros do partido comunista por serem da oposição no congresso. Com o apoio da igreja católica, da social-democracia e com a ausência dos parlamentares comunistas assassinados por ele, era fácil fazer aprovar suas propostas.

Contra fatos não há argumentos. As elucubrações direitistas sobre as "definições" do que é "esquerda" e o que é "direita" nunca serão capazes de alterar esse passado. Ninguém além deles pode acreditar que o passado é alterado simplesmente ao se redefinir termos. Hitler é filho da direita e foi financiado pela burguesia, pelos industriais alemães para conter o socialismo.

E no final das contas, quem é que livrou o mundo dos nazistas? Foram os socialistas. Foram as tropas soviéticas que invadiram Berlim e esmagaram as tropas nazistas em seu próprio território. Mas já imaginou quantos filmes já não teriam sido produzidos se fossem os EUA quem tivessem invadido a Alemanha e derrotado Hitler? Já imaginou as cenas das bandeiras americanas triunfantes e flamejantes adentrando Berlim?

Mas a direita prefere não comentar muito sobre o assunto. Preferem não comentar que Hitler foi uma "cria" da direita, e que a entrada dos socialistas, isso é, da União Soviética na II Guerra foi fundamental para a derrota do nazismo.

11.11.09

Mas o mundo é assim mesmo!

Essa é uma das frases mais imbecis que alguém pode ser capaz de dizer. Geralmente ela aparece como interpelação diante da exposição que alguém faz de determinada situação da realidade social.

Exemplo: alguém afirma que a classe rica do país tem aumentado os seus lucros de forma cafajeste e exorbitante, enquanto que a maioria da população tem dificuldade de garantir direitos básicos como alimentação, moradia e educação.

Então um idiota diz: "Mas o mundo é assim mesmo!".

Isso é imbecil, em primeiro lugar, porque se a pessoa tem a intenção de confirmar que a leitura que se está fazendo da realidade é correta, ficar calado ou apenas acenar positivamente com a cabeça daria o mesmo resultado.

Isso é imbecil, em segundo lugar, porque é expressão de uma concepção fatalista da História. Se o mundo "é" assim mesmo, então isso significa que somos apenas objeto da História, não os seus agentes.

Uma concepção fatalista da História é como aquela das tragédias gregas. Um oráculo é anunciado, o herói tenta fugir do destino mas ele sempre é cumprido no final das contas. É como o mito do Rei Édipo.

O oráculo dizia que Édipo mataria seu pai e se casaria com sua mãe. Logo ao nascer ele é abandonado numa floresta, pois a pessoa encarregada de o matar não teve coragem para isso. Um homem o encontra e o leva para criar. Tudo isso acontece para evitar que o oráculo se cumprisse. Mas no final nada disso adiantou. Ele acaba matando seu pai, se casando com sua mãe e ainda teve filhos com ela. Esse era o seu Destino.

Pessoas que afirmam que "o mundo é assim" têm essa mesma concepção fatalista da História. Pensam haver um plano cósmico que traçou o destino de todos os seres humanos, e assim justificam toda situação de miséria e exploração no mundo.

Mas em sua "Pedagogia da autonomia", Paulo Freire nos adverte que não somos apenas objeto da História mas seus sujeitos igualmente. E mais à frente, diz a esses fatalistas reacionários que querem manter essa ordem social de exploração:

"O mundo não é. O mundo está sendo."

Somos nós que construímos a História. O mundo em que vivemos foi construído por gerações passadas. Ele não é um mundo "dado", um mundo que "sempre esteve aí" e que não pode ser alterado.

Para finalizar, deixo um trecho desta mesma obra de Paulo Freire, em que ele comenta sobre um episódio de que todos devemos nos lembrar, pois teve ampla exposição midiática na época. Foi quando uma família, em Recife, ficou intoxicada após comer restos de um seio humano encontrado em um lixão (contendo lixo hospitalar), no qual procuravam sua sobrevivência:

"É possível que a notícia tenha provocado em pragmáticos neoliberais sua reação habitual e fatalista sempre em favor dos poderosos. 'É triste, mas, que fazer? A realidade é mesmo esta.' A realidade, porém, não é inexoravelmente esta. Está sendo esta como poderia ser outra e é para que seja outra é que precisamos, os progressistas, lutar. Eu me sentiria mais do que triste, desolado e sem achar sentido para minha presença no mundo, se fortes e indestrutíveis razões me convencessem de que a existência humana se dá no domínio da determinação. Domínio em que dificilmente se poderia falar de opções, de decisão, de liberdade, de ética."

9.11.09

Homens de cabelo grande

Pelo fato de ter tido cabelo grande por aproximadamente 10 anos, gostaria de compartilhar com os amigos do blog algumas reflexões sobre essa experiência.

Nesses últimos anos eu vinha tentando compreender a razão de eu ter cabelo grande a partir de dois eixos: o psicanalítico e o filosófico.

A partir de uma orientação psicanalítica, tentava compreender quais razões inconscientes me levavam a gostar e a manter meu cabelo grande, procurando, assim, encontrar talvez uma motivação mais geral, aplicável a um maior número de pessoas.

Acabei descobrindo, por exemplo, que o cabelo grande é um símbolo inconsciente tanto para os genitais quanto para a própria concepção de falo.

O interessante é que as primeiras pistas que encontrei sobre os cabelos representando os genitais eu não obtive diretamente da literatura psicanalítica, mas através da interpretação de um sonho que me foi relatado por uma mulher.

Após algumas dificuldades, descobrimos que os cabelos dela, os quais apareciam insistentemente por todo o sonho e com características de ter passado por um rigoroso processo de repressão, eram um símbolo de seus genitais. Seu sonho era basicamente um sonho de exibicionismo. Posteriormente pude encontrar confirmação desse símbolo na literatura psicanalítica.

Lembrem-se da história de Rapunzel, por exemplo. Para aqueles já familiarizados com a chamada "psicanálise dos contos de fadas", não é difícil perceber que os cabelos de Rapunzel, através dos quais o príncipe consegue subir ao seu quarto, representam um complexo de associações ligados à questão da sexualidade, dentre os quais podemos destacar a maturidade sexual, isso é, o preparo para o coito adquirido na adolescência.

Já na história bíblica de Sansão, vemos o cabelo grande associado a características fálicas, masculinas. Sansão tem força, tem virilidade por causa do seu cabelo. Isso é, o cabelo grande como símbolo de um pênis grande, ou para ser mais exato, de um falo grande. Quando o cabelo de Sansão é cortado, ele perde sua força, sua masculinidade, sua virilidade.1

Para determinados homens, manter o cabelo grande pode ser também uma resposta à angústia de castração. Freud afirma em "A interpretação dos sonhos" que o rabo de lagartixa é um símbolo inconsciente para essa situação, já que ele sempre cresce novamente quando é cortado. O cabelo grande, da mesma forma, pode servir a essa função.

Já de uma perspectiva filosófica, deixar o cabelo crescer é uma expressão de valores. Os filósofos do império romano eram caracterizados pelo cabelo grande, assim como pela barba, a roupa e a bolsa que utilizavam. Encontramos na literatura deste período até mesmo críticas sobre aqueles que achavam que um filósofo se fazia apenas "pelo cabelo".

Devemos observar que ter um cabelo grande não é a mesma coisa que nascer com um nariz grande. Um cabelo grande é expressão da personalidade da pessoa, representa valores. Essa é a razão de eu sempre ter considerado tão ofensivo quando alguém fazia algum comentário depreciativo sobre o meu cabelo.

Dizer a um homem de cabelo grande "por que você não corta esse cabelo?" é um eufemismo para "por que você não deixa de ser do jeito que é?". Isso é um ataque pessoal. Isso é um ataque aos valores e à personalidade da pessoa.

As pessoas tomam convenções sociais como se fossem valores absolutos. O uso masculino de cabelo curto não é nada mais que uma convenção social, uma característica de uma cultura específica.

O cabelo grande, neste aspecto, representa para o homem consciência e crítica dessas convenções sociais. Pode representar também uma vida mais natural, humana, menos plástica e artificial. É uma reação ao processo de massificação.

De forma geral, gostei de ter cortado meu cabelo. Não que eu ache que estou melhor assim, mas é que simplesmente eu estava curioso em me ver de cabelo curto. Fiquei satisfeito por ter feito algo que eu queria fazer.

Mas agora ele já está crescendo de novo. Se eu não mudei minha forma de pensar, e se minha esposa e minha filha me preferem de cabelo grande, eu não quero me dar outra opção. Alguém conhece alguma simpatia pro cabelo crescer rápido?


Notas:

1. Nessa análise da história de Sansão estamos excluindo os aspectos teológicos de que se revestem a história, tais como o fato dele ter sido um nazireu e de que esse voto exigia cabelos longos. Não são esses aspectos superficiais o objeto da análise psicanalítica.

4.11.09

Convém calçar luvas para ler "Veja"

Este título é uma paráfrase de Nietzsche, que dizia que convém calçar luvas para ler o Novo Testamento. É que após tomar conhecimento de uma "reporcagem" que Veja publicou na época dos 40 anos da morte de Che Guevara, essa frase de Nietzsche surgiu das mais profundas regiões do meu inconsciente. Talvez através da associação dos termos "Veja" e "imundície".

Venho afirmando e assim fazendo eco a vários jornalistas sérios deste país que Veja é um panfleto. Deixou de ser uma revista há muito tempo. Mas desta vez, a credibilidade de Veja é atacada por um jornalista de fora. O renomado jornalista norte-americado John Lee Anderson, autor da mais completa biografia de Che Guevara já escrita, tomou conhecimento da "reporcagem" que Veja publicou sobre Che Guevara, e ele não gostou do que leu. As cartas trocadas entre o renomado jornalista americano e o jovem jornalista de Veja fornecem um bom quadro do que Veja se tornou.

As cartas traduzidas de Anderson, assim como o material através do qual tomei conhecimento do assunto, são de autoria do jornalista Pedro Doria.

A primeira carta de Anderson é a seguinte:

Caro Diogo,

Fiquei intrigado quando você não me procurou após eu responder seu email. Aí me passaram sua reportagem em Veja, que foi a mais parcial análise de uma figura política contemporânea que li em muito tempo. Foi justamente este tipo de reportagem hiper editorializada, ou uma hagiografia ou – como é o seu caso – uma demonização, que me fizeram escrever a biografia de Che. Tentei pôr pele e osso na figura super-mitificada de Che para compreender que tipo de pessoa ele foi. O que você escreveu foi um texto opinativo camuflado de jornalismo imparcial, coisa que evidentemente não é. Jornalismo honesto, pelos meus critérios, envolve fontes variadas e perspectivas múltiplas, uma tentativa de compreender a pessoa sobre quem se escreve no contexto em que viveu com o objetivo de educar seus leitores com ao menos um esforço de objetividade. O que você fez com Che é o equivalente a escrever sobre George W. Bush utilizando apenas o que lhe disseram Hugo Chávez e Mahmoud Ahmadinejad para sustentar seu ponto de vista. No fim das contas, estou feliz que você não tenha me entrevistado. Eu teria falado em boa fé imaginando, equivocadamente, que você se tratava de um jornalista sério, um companheiro de profissão honesto. Ao presumir isto, eu estaria errado. Esteja à vontade para publicar esta carta em Veja, se for seu desejo.

Cordialmente,
Jon Lee Anderson.

A fraca resposta de Diogo foi a seguinte:

Caro Anderson,

Eu fiquei me perguntando, depois de lhe enviar um email pedindo (educadamente) uma entrevista, por que nunca recebi uma resposta sua. Agora sei que a mensagem deve ter-se perdido devido a algum programa antispam ou por qualquer outra questão tecnológica. Também não recebi sua ‘carta’ – talvez pelo mesmo problema. Tudo isso não tem a menor importância agora porque você resolveu o assunto valendo-se dos meios mais baixos – um email circular. O que lhe fez pensar que tinha o direito de tornar pública nossa correspondência, incluindo a mensagem em que eu (educadamente) pedia uma entrevista? Isso, caro Anderson, é antiético. Vindo de alguém que se diz um jornalista, é surpreendente. Você pode não gostar da reportagem que escrevi; ela pode ser boa ou ruim, bem-escrita ou não, editorializada ou não – mas não foi feita com os métodos antiéticos que você usa. Eu respeito a relação entre jornalistas e fontes. Você não. E mais: parece-me agora que você é daquele tipo de jornalista que tem medo de fazer uma ligação telefônica (assim são os maus jornalistas), já que tem meu cartão de visita e conhece meu número de telefone. Se você tinha algo a dizer sobre a reportagem — e já que sua mensagem não estava chegando a seu destino — poderia ter me ligado.
Eu não sei que tipo de imagem de si mesmo você quer criar (ou proteger) negando os fatos que o seu próprio livro mostra, mas está claro agora que é a de alguém sem ética. Você pode ficar certo de que não aparecerá mais nas páginas desta revista.

Sem mais,
Diogo Schelp

A tréplica demolidora de Anderson é como se segue:

Prezado Diogo Schelp:

Agradeço pelo sua ‘gentil’ resposta. (Soube que você é de fato uma pessoa muito ‘gentileza’; você mesmo o disse duas vezes em suas mensagens.) Só agora percebo, o mal-entendido entre nós nasceu exclusivamente por conta de meu caráter profundamente falho. Eu jamais deveria ter presumido que você recebera meu email inicial em resposta ao seu ou minha segunda mensagem a respeito de sua reportagem, muito menos deveria ter considerado que você pudesse ter decidido ignorá-los. É evidente que você tem um sistema de bloqueio de spams muito rigoroso.

Uma dica técnica: talvez devesse configurar seus sistema como ‘moderado’ e não ‘extremo’. Se o fizer, talvez comece a receber seus emails sem quaisquer problemas. Lembre-se, Diogo: moderado, não ‘extremo’. Esta é a chave.

Você me acusa de ser antiético, um ‘mau jornalista’. Questiona até se posso ser chamado de jornalista. Nossa, você TEM raiva, não tem?

Enquanto tento parar as gargalhadas, me permita dizer que, vindo de você, é elogio. Permita, também, recapitular por um momento a metodologia utilizada por você para distorcer as informações que o público de Veja recebeu:

Você publicou na capa e na reportagem uma grande quantidade de fotografias de Che, aproveitando-se assim da popularidade da imagem de Guevara para vender mais cópias de sua revista. Para preencher seu texto, você pinçou uma certa quantidade de referências previamente escritas sobre ele – incluindo a minha – para sustentar sua tese particular, qual seja, a de que o heroismo de Che não passa de uma construção marxista, como sugere seu título: ‘Che, a farsa do herói’.

Para chegar a uma conclusão assim arrasa-quarteirão, você também entrevistou, pelas minhas contas, sete pessoas. Uma delas era um antigo oponente de Che dos tempos da Bolívia. As outra seis, exilados cubanos anti-castristas, incluindo ex-prisioneiros políticos e veteranos de várias campanhas paramilitares para derrubar Fidel. (Um destes, o professor Jaime Suchlicki, você não informou a seus leitores, é pago pelo governo dos EUA para dirigir o assim chamado Projeto de Transição Cubana.) Percebi também que você prestou particular atenção no testemunho de Felix Rodriguez, ex-agente da CIA responsável pela operação que culminou na execução de Che. O fato de que você o destaca quer dizer que você o considera sua melhor testemunha? Ou terá sido porque ele foi o único que algum repórter realmente entrevistou pessoalmente? Os outros, parece, Veja só falou com eles por telefone. Mas como são rigorosos os critérios de reportagem de Veja!

Como disse em minha ‘carta aberta’ a você, escrever uma reportagem deste tipo usando este tipo de fonte é o equivlente a escrever um perfil de George W. Bush citando Mahmoud Ahmadinejad e Hugo Chávez. Em outras palavras, não é algo que deva ser levado a sério. É um exercício curioso, dá para fazer piada, mas NÃO é jornalismo. Dizer a seus leitores, como você diz na abertura da reportagem, que ‘Veja conversou com historiadores, biógrafos, ex-companheiros de Che no governo cubano’ passa a impressão de que você de fato fez o dever de casa, que estava oferecendo aos leitores um trabalho jornalístico bem apurado, que apresentaria algo novo. Infelizmente, a maior parte do que você escreveu é mera propaganda, um requentado de coisas que vêm sendo ditas e reditas, sem muitas provas, pela turma de oposição a Fidel em Miami nos últimos quarenta e tantos anos.

Minha questão não é política. Escrevi um livro, como você mesmo disse, que é ‘a mais completa biografia’ de Che. Há muito lá que pode ser utilizado para criticar Che, mas também há muitos aspectos a respeito de sua vida e personalidade que muitos consideram admiráveis. Em outras palavras, é um retrato por inteiro. Como sempre disse, escrevi a biografia para servir de antídoto aos inúmeros exercícios de propaganda que soterraram o verdadeiro Che numa pilha de hagiografias e demonizaçoes, caso de seu texto.

Não cometa o erro de me acusar de defender Che porque critico você. Serei claro: a questão aqui não é Che, é a qualidade do seu jornalismo. Sua reportagem, no fim das contas, é simplesmente ruim e me choca vê-la nas páginas de uma revista louvável como Veja. Seus leitores merecem mais do que isso e, se aparecerei ou não novamente nas páginas da revista enquanto você estiver por aí, não me preocupa. O que PREOCUPA é que, com tantos jornalistas brilhantes como há no Brasil, foi a você que Veja escolheu para ser ‘editor de internacional’.

Cordialmente,
Jon Lee Anderson.

Para ver qual a conclusão de Pedro Doria sobre isso, clique aqui.

30.10.09

Reforma na igreja evangélica

Eu não vejo nenhuma possibilidade de que a igreja evangélica das grandes massas possa experimentar qualquer forma de mudança em suas estruturas que a leve a um "cristianismo primitivo". Por igreja evangélica das grandes massas eu me refiro a essas instituições que cultuam o espetáculo, o circo, o esvaziamento, a aparência e a teologia da prosperidade - principalmente esta última.

Toda tentativa de "reforma" que se possa tentar em qualquer dessas instituições só levará a uma segmentação ad infinitum de igrejas- isso é, à criação de mais e mais delas.

A leitura que muitos crentes bem intencionados fazem dessas perversões é que "o mundo entrou na igreja". Mas eles não percebem que na verdade é a igreja que está no mundo - e ela não poderia estar em outro lugar. Talvez com o avanço das pesquisas espaciais da NASA ela possa encontrar algum outro lugar para se instalar no futuro.

A igreja, como instituição religiosa, é parte daquilo que Marx chama de superestrutura. Segundo Henri Lefebvre em seu ensaio "Marxismo", a superestrutura é o conjunto das instituições e das idéias dentro do esquema de uma estrutura social determinada, tais como as instituições jurídicas e políticas, ideologias, fetiches ideológicos, etc. É a expressão do modo de produção, isso é, do relacionamento com a propriedade.

A igreja evangélica das massas, portanto, reflete a estrutura social, pois ela é formada por pessoas, e a as idéias que as pessoas têm sobre as coisas é apenas o mundo material refletido na cabeça dessas pessoas.

Numa sociedade capitalista em que o homem se encontra alienado, em que o espetáculo, o circo, o esvaziamento, a aparência e o dinheiro são cultuados, é fácil compreender através do marxismo como tudo isso desemboca em ideologias esquizofrênicas, tais como a teologia da prosperidade.

Enquanto as condições materiais não forem alteradas, a igreja permanecerá como está, pois ela, como superestrutura, é reflexo da relação do homem com a propriedade. Uma igreja evangélica de massas1 que se assemelhe àquela saudosa igreja primitiva só será possível numa sociedade que supere esses elementos do capitalismo.

Notas:

(1) Igrejas como a Católica, por exemplo, são um caso à parte, já que possuem estruturas hierárquicas rígidas e bem definidas, sendo mais resistentes a influências externas. Mas este não é o caso das igrejas nas quais a Bíblia pode ser livremente interpretada por cada fiel e que são, por isso, mais suscetíveis a exprimir a marca de seu tempo.

23.10.09

Dois minutos do ódio

Na obra "1984", de George Orwell, há um estranho "ritual" em que as pessoas são obrigadas a participar diariamente. Ele é chamado de "Dois minutos do ódio", e consiste na exibição, em uma teletela, da imagem e da fala de Emanuel Goldstein, que no livro é o líder exilado da oposição ao governo do Big Brother, juntamente com outros opositores do "Partido" (como é chamado o partido do Big Brother, o Ingsoc).

Durante os "Dois minutos do ódio", as pessoas são levadas a um estado de exaltação histérica, de muita raiva, de ódio, onde proferem insultos e ameaças contra a imagem sendo exibida na teletela. Algumas vezes os telespectadores partem até mesmo para a agressão física contra o aparelho.

Orwell fez com isso uma referência à comum demonização dos inimigos que era utilizada durante a II Guerra Mundial através da mídia. Coisa que não precisamos recorrer aos livros de história para saber como era.

A mídia continua atuando da mesmíssima forma para desestabilizar governos e manipular opiniões. A leitura do panfleto Veja e de outros jornalões do PIG (Partido da Imprensa Golspista) não são nada mais que alguns "minutos do ódio".

Esses veículos não procuram informar, mas formar opinião - coisa de panfleto -, mostrando que deixaram de ser jornalismo há muito tempo. Segundo Diego Cruz, no artigo "Os fantasmas da revista Veja", "...a diferença entre um panfleto e um jornal é que, enquanto o panfleto lança algumas poucas ideias a fim de persuadir, o jornal ou uma revista traz informação, parte da apuração dos fatos, análise e dados, ainda que não possa ser imparcial. Veja, por esse critério, é mais um panfleto que uma revista. E, certamente, não tem nada a ver com jornalismo. "



Eis um exemplo. A exposição de "inimigos" fotografados pelos ângulos mais desfavoráveis com a intenção de provocar desprezo, levar os leitores a um frenesi, juntamente com falas distorcidas ou reproduzidas pela metade, omissão de informações e toda sorte de sujeira para defender interesses que são apresentados com um manto de objetividade.

Orwell foi perfeito em sua metáfora. Nos "Dois minutos do ódio", Goldstein aparecia na tela denunciando a ditadura do "Partido", exigindo o imediato acordo de paz com os países inimigos, exigindo liberdade de expressão, liberdade de imprensa, liberdade de reunião, de pensamento, etc.

Mas à medida que ele falava, o ódio dos telespectadores apenas aumentava. As pessoas pulavam em seus assentos, gritando como animais, com todas as suas forças, numa tentativa de calar a voz que vinha da teletela. E o pior é que sabemos que isso não é apenas ficção.

21.10.09

Para que "serve" a Filosofia?

Essa é uma pergunta capciosa. É o tipo de pergunta que devemos examinar bem antes de tentar responder na forma em que ela vem elaborada.

Imagine que alguém lhe faça a seguinte pergunta: "Por que você matou sua família ontem à noite?" Você não irá tentar responder a essa pergunta se você não matou sua família ontem à noite. Você irá imediatamente questionar a própria pergunta e chamará de louco quem a elaborou.

Isso porque você imediatamente identificou que a pergunta trazia pressupostos embutidos. Apesar de ser uma "pergunta", ela trazia implícita a afirmação de que ontem à noite você matou sua família.

Este é um exemplo bem exagerado, mas o exagero é um bom recurso didático. Estou exagerando justamente para deixar claro que perguntas (quase) sempre trazem pressupostos implícitos, e que devemos analisar bem uma pergunta antes de elaborar sua resposta.

Se você tentasse responder à pergunta do nosso exemplo acima, você estaria implicitamente admitindo que matou sua família ontem à noite. Mas se isso não aconteceu, você não diria "eu matei minha família ontem à noite porque...", mas sim "você é louco? nem eu e nem ninguém matou minha família, estamos todos vivos, e eu nunca faria isso".

Quando então alguém pergunta "para que serve a Filosofia?", essa pergunta, da mesma maneira, traz implícitos alguns pressupostos que devemos analisar bem antes de tentar responder.

E que pressupostos seriam esses? O mais evidente é o de que a Filosofia tem que servir para alguma coisa. Mas em que sentido? No sentido de que hoje em dia tudo serve para alguma coisa.

Essa é uma pergunta que não podemos desvincular do nosso período histórico, uma era de pragmatismo, de utilitarismo, em que tudo deve ser "prático". Daí as pessoas pensarem sempre nesses termos e tentarem encontrar "aplicação prática" para qualquer coisa que existe.

A essa pergunta, então, podemos responder com uma outra: "A Filosofia tem que servir para alguma coisa?" Eu não estou querendo dizer com isso que a Filosofia não tem "utilidade", mas estou fazendo um chamamento à reflexão.

Há muitas coisas que as pessoas fazem hoje e sobre as quais não questionam sua utilidade. Um exemplo é ter filhos. Para que serve ter filhos? Qual a utilidade de se ter filhos?

Outra coisa, que Aristóteles já havia identificado, é a própria felicidade. Ninguém quer a felicidade para alguma coisa, para algum outro propósito. Todos querem a felicidade simplesmente pela felicidade em si. Ainda não encontrei alguém que me perguntasse para que serve ser feliz.

Ainda em Aristóteles, lembremos que este pensador dividiu o conhecimento em três categorias, a saber: o conhecimento produtivo, o conhecimento prático e o conhecimento filosófico. O produtivo diz respeito a coisas como o conhecimento de um artesão, de um artista, de um médico, de um programador, de um pedreiro, etc. O conhecimento prático diz respeito à ética é à política (eles não "produzem" nada materialmente, mas são práticos, notem bem a distinção), e o terceiro é o conhecimento filosófico, o conhecimento sobre a realidade.

Para o estagirita, este terceiro conhecimento é pura e simplesmente "o conhecimento pelo conhecimento". É um conhecimento que tem como objetivo o próprio conhecimento, e nada mais.

Mas podemos ir um pouco além desta definição de Aristóteles e terminar este texto citando o último parágrafo do capítulo I do livro "Convite à Filosofia", de Marilena Chauí, intitulado "Para que Filosofia?". Após se perguntar qual seria a utilidade da Filosofia, a filósofa responde:

"Se abandonar a ingenuidade e os preconceitos do senso comum for útil; se não se deixar guiar pela submissão às idéias dominantes e aos poderes estabelecidos for útil; se buscar compreender a significação do mundo, da cultura, da história for útil; se conhecer o sentido das criações humanas nas artes, nas ciências e na política for útil; se dar a cada um de nós e à nossa sociedade os meios para serem conscientes de si e de suas ações numa prática que deseja a liberdade e a felicidade para todos for útil, então podemos dizer que a Filosofia é o mais útil de todos os saberes de que os seres humanos são capazes."

20.10.09

Carta Aberta a William Waack

Não utilizamos aqui qualquer pronome ou outro tratamento à sua pessoa, por você mesmo se desqualificar através de seus conhecidos e ingentes esforços como traidor da pátria.

Nós, do MVC — Movimento pela Vergonha na Cara, tivemos o desprazer de acompanhar hoje, 16/10/09, sua declaração ao programa Entre Aspas da Globo News de que a reserva petrolífera do pré-sal não terá relevância alguma ao futuro do país, em razão do desenvolvimento de energias alternativas.

Fosse você um completo desinformado, incapaz de deduzir as milhares de aplicações dos derivados do petróleo, poderíamos compreender a ignorância contida nessa afirmação e procurar esclarecê-lo, fornecendo-lhe informações elementares a respeito do assunto. Mas é evidente que a bobagem proferida não reflete ignorância ou imbecilidade. Muito pior, reflete mórbida falta de caráter que se faz persistente, denotando-lhe como um dos mais esforçados porta-vozes da UGP — União dos Gigolôs da Pátria.

Sabemos que você não é um idiota de graça. Sabemos que ganha para desinformar o povo brasileiro em benefício do maior crime lesa-pátria já intentado em nossa história com a não consumada privatização da Petrobras, quando já se evidenciavam os indícios de uma das maiores bacias terrestres da matéria prima. Sabemos que, como cúmplice daqueles gigolôs, você é um dos que sobrevive através de mentiras desenvolvidas para enganar ao povo brasileiro e incentivar a prostituição do país aos interesses internacionais.

Esta carta para desmascarar suas intenções será distribuída pela internet através da rede de correspondentes que integra o Movimento pela Vergonha na Cara e, certos de que chegará até você através daqueles a quem tenta enganar, esclarecemos que nosso objetivo é erradicar o malefício que você, seus colegas, seus patrões, e os políticos a que vocês apóiam e promovem, representam para o Brasil e o povo brasileiro.

Esteja certo de que voltaremos a apontar suas farsas a cada vez que você usar de espaços públicos de comunicação, sejam concedidos ou assinados, para mentir aos brasileiros se passando por idiota, imbecil ou ignorante.

Sempre que para desqualificar os esforços do maior patrimônio empresarial do povo brasileiro, a Petrobras, você se mentir como incapaz de imaginar que mesmo depois de que todos os biocombustíveis e fontes alternativas de energia substituírem a gasolina ou o diesel, a ampla diversidade de empregos e aplicações do petróleo continuará tornando a exploração do pré-sal um dos mais significativos empreendimentos mundiais; desmascararemos abertamente sua farsa.

Destacaremos que você mesmo entrevistou, com abjeta subserviência, um general do Departamento de Defesa dos Estados Unidos especialmente enviado ao Brasil para negociar a participação daquele país na exploração do pré-sal, como você mesmo anunciou em notável demonstração da canalhice contida em sua personalidade que com tamanha empáfia, hoje, declara nossa reserva do pré-sal como inócua.

Se faz de imbecil, mas tem plena ciência de que se o pré-sal fosse tão insignificante quanto afirmou para sua colega (em caráter inclusive) Monica Waldvogel no Entre Aspas, aquele seu entrevistado não seria enviado pelo governo norte-americano ao Brasil e nem teria se servido, há poucas semanas atrás, de seu servilismo no lamentável noticiário que você apresenta.

Não nos interessa quem lhe paga para ser capacho dos interesses externos e prepotentemente contrário aos interesses do futuro do povo brasileiro, mas nos esforçaremos para tornar pública sua função de gigolô da pátria, alertando a todos que queiram recuperar a dignidade e a vergonha na cara, até que um dia possamos erradicar os farsantes que como você trabalham para corromper o futuro de nossos filhos e do nosso país.

Por enquanto, continuaremos colhendo informações sobre sua longa experiência como sabujo dos interesses do capital estrangeiro, a serem usadas sempre que tornar a expor suas mentiras e enganações de gigolô.

MVC - MOVIMENTO PELA VERGONHA NA CARA

19.10.09

A "natureza humana" para a burguesia

O capitalismo é um sistema baseado na exploração e no lucro. A chamada "globalização", que não é mais do que um eufemismo para a fase imperialista deste sistema, polarizou a miséria no mundo inteiro, evitando que os efeitos nefastos deste modo de produção sejam sentidos em toda sua força dentro das fronteiras nacionais dos países mais ricos.

Não obstante, a burguesia, para justificar este mundo no qual ela domina e apresentá-lo como o melhor possível, recorre a toda forma de artifícios ideológicos. Um deles é apelar para a "natureza humana", para mostrar como este sistema é "natural".

Para justificar a competição e a falta de ética nas relações sociais e humanas, ela aponta o reino animal e nos lembra que somos isso: animais. Apenas os mais aptos sobrevivem. Inspirada no darwinismo, ela nos lembra pelo Discovery Channel e pelo Globo Repórter que aquilo que acontece nas savanas - leões caçando zebras e tantos outros animais engolindo outros - é o que acontece no mercado e em nossas relações sociais.

Mas há uma grande contradição nisso tudo. Ao mesmo tempo em que ela apela ao que há de mais baixo, de mais animal na natureza humana para justificar o capitalismo, é justamente o que há de mais nobre no homem que permite que esse sistema se mantenha. É justamente a capacidade de frear as pulsões humanas de destruir, roubar e matar o que permite que a burguesia perpetue o sistema de propriedade privada.

Um estado de completa selvageria social só é evitado porque o homem é um animal superior, é o único ser capaz de dizer "não" aos seus impulsos, segundo o filósofo Max Scheler em sua obra "A posição do homem no cosmos". Scheler nesta obra também recorre a Freud e nos lembra que o homem é o único ser capaz de sublimar suas pulsões, isso é, transformá-las ou canalizá-las para as mais altas construções culturais.

Essa é a posição contraditória da ideologia burguesa: ao mesmo tempo em que a competição, a falta de ética e a eliminação dos "menos aptos" é justificada pelo que há de mais animal no homem, a atual organização social baseada na propriedade privada dos meios de produção só pode ser sustentada apelando para o lado mais nobre e superior do homem, por sua capacidade em obedecer a normas éticas em detrimento de determinações biológicas.

13.10.09

A revolução não será televisionada

Os leitores brasileiros cujas principais fontes de informação são veículos como a Rede Globo, os jornalões "Folha", "O Estado de São Paulo" e o panfleto Veja, só para citar alguns, nutrem em sua maioria uma grande antipatia pelo presidente venezuelano Hugo Chávez.

Mas graças ao surgimento de canais alternativos de informação podemos ter acesso ao "lado B" das notícias que os supracitados veículos publicam. E mais ainda, podemos também complementar as notícias que eles dão pela metade.

Sendo esse "enviesamento" da mídia burguesa um fenômeno geral, não restrito apenas ao Brasil, um grupo de produtores irlandeses, desconfiando que a mídia local venezuelana não estava transmitindo a real situação do país, se deslocou para a Venezuela em 2002, a fim de compreender o que estava acontecendo ali. A intenção era fazer um documentário sobre o presidente Chávez.

Mas percebendo a agitação política do momento, os cineastas Kim Bartley e Donnacha O'Briain mudaram o foco e acabaram registrando o golpe de Estado da burguesia local que depôs naquele ano o presidente democraticamente eleito, Hugo Chávez.

O resultado deste trabalho é o documentário chamado "A revolução não será televisionada", que mostra os bastidores do golpe antes, durante e depois. A obra recebeu doze importantes prêmios internacionais e foi nomeada para outros quatro.

Aproveitando o ensejo, indico também um outro documentário que mostra como há um despertar de consciência de classe entre o povo venezuelano, jogando por terra o engodo imperialista de que existe uma ditadura na Venezuela: é o documentário "No volverán! - The Venezuelan Revolution Now", filmado por um grupo de estrangeiros que visitou os bairros pobres do país, entrevistando trabalhadores em suas fábricas e acompanhando de perto o que a mídia burguesa se recusa a mostrar.

Sites oficiais:


1.10.09

Quando pobres defendem interesses de ricos

Quando vemos pobres defendendo interesses de ricos, identificamos aí a atuação do que Marx chama de ideologia. A burguesia, para manter o mundo em que domina da forma como está, apresenta os seus próprios interesses como sendo interesses gerais, de toda a sociedade. E muita gente pobre, mas principalmente a classe média, não sofrendo com a miséria e aspirando o modo de vida burguês, compra esse discurso e o repete na forma de uma sabedoria de papagaio. Marx e Engels expressam o primeiro ponto da seguinte forma:

"... cada nova classe que ocupa o lugar da que dominava anteriormente vê-se obrigada, para atingir seus fins, a apresentar seus interesses como sendo o interesse comum de todos os membros da sociedade; ou seja, para expressar isso em termos ideais; é obrigada a dar às suas idéias a forma de universalidade, a apresentá-las como as únicas racionais e universalmente legítimas." (MARX, ENGELS, 2005, p. 53)

Mas como não poderia deixar de ser, essa superficialidade da sabedoria de papagaio nunca resiste a alguns pedidos de explicação.

Cito um exemplo. Alguns desses papagaios, quando questionados sobre alguns problemas sociais graves, tais como a fome e a dificuldade que milhões de pais trabalhadores enfrentam para colocar comida na mesa para os filhos, respondem da seguinte forma: "Se não podem ter filhos, que não tenham. Eles deveriam fazer planejamento familiar."

Vejam que incrível! Ao invés de apontar as causas do problema social da desigualdade, dos baixos salários, etc, o problema é tranferido para o trabalhador que não faz "planejamento familiar". Para o burguês, essa lógica é muito simples: se você não tem dinheiro para ter filhos, não os tenha.

E querem falar de "planejamento familiar" para pessoas que, muitas das vezes, não sabem nem ler. Indivíduos que não podem pensar no futuro porque estão ocupados demais pensando no que vão comer na próxima refeição.

Se o problema é "pessoas com fome", a burguesia vê duas soluções: ou você elimina a fome, ou elimina as pessoas...

Um outro exemplo de brilhantismo ao analisar problemas sociais é a forma como o panfleto Veja, instrumento burguês, demoniza setores excluídos e movimentos sociais. Há algum tempo ela veiculou uma matéria fascista sobre moradores de ruas ("Profissionais da esmola", edição 2.126), os quais, em resposta, organizaram uma manifestação e queimaram exemplares do panfleto na Praça da Sé, no centro de São Paulo. Em uma "reporcagem" mais recente ("Por dentro do cofre do MST", edição 2128), novamente ela deu chifres, rabo e tridente a um movimento social: o MST.

Para a classe dominante e seus veículos de propaganda ideológica, simplesmente evita-se pensar em problemas como dos exemplos anteriores como sendo oriundos de uma complexa teia de relações causais que afluem de todos os lados para sua formação.

Pelo fato da burguesia apresentar o mundo em que domina como o melhor dos mundos, a classe média, aspirante a esse estrato social superior, não vê nada de errado na forma como a sociedade está organizada. Se crianças passam fome, não têm comida na mesa ou no futuro se tornarão marginais, a solução é simples: elas não deveriam nunca ter existido. A culpa é dos pais que as colocaram no mundo. Se trabalhadores pedem terra para cultivar enquanto latifundiários mantêm enormes propriedades improdutivas, o problema deve ser de quem?


REFERÊNCIAS:

MARX, Karl, ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. Tradução de Frank Müller. 3ª ed. São Paulo: Martin Claret, 2005.

25.9.09

A educação transformada em mercadoria

A exemplo do mito grego do rei Midas, que transformava em ouro tudo o que tocava, o capitalismo transforma em mercadoria tudo aquilo em que põe as mãos. Grandes barões da educação vêm sucateando a educação no Brasil, sendo grupos como Anhanguera, Anima e Kroton alguns dos principais protagonistas da mercantilização da educação em terras tupiniquins.

Com capital aberto na bolsa de valores, esses grandes grupos do "negócio" da educação, comprometidos com os acionistas, vêm implantando medidas que visam maximizar os lucros, deixando a qualidade de ensino em segundo plano, apenas como um meio necessário para se garantir os ganhos.

É isso o que confirma à revista Veja a vice-presidente do Grupo Kroton, Alicia Figueiró, grupo que possui capital aberto na bolsa: “Outro fato que pode impulsionar a melhora do ensino diz respeito à simples lógica do mercado: faculdades muito ruins espantam os investidores e, por isso, aquelas que vão à bolsa têm de se preocupar mais com o lado acadêmico.” (Veja, Edição 2067, 2 de Julho de 2008).

Isso é, a qualidade da educação é considerada não como um fim em si mesma, ou como um meio para buscar o desenvolvimento soberano do país, mas sim como um meio para se alcançar o “bem supremo” do capital: o lucro.

Nessa mesma reportagem, Veja ainda revela: o Grupo Anhanguera “recebe investidores estrangeiros interessados em comprar suas ações”. Mas não é novidade para ninguém que investidores estrangeiros não têm o menor compromisso com a qualidade da educação em países de terceiro mundo. Isso só acontece, é claro, quando ela tem relação direta com seus investimentos.

Essas instituições, que pouco ou nada investem em projetos de pesquisa, empurram em seus discentes uma formação puramente tecnicista, da qual podemos dizer o mesmo que Marx dizia sobre a cultura burguesa em relação ao proletariado: não passam de "um adestramento para os homens agirem como máquinas". Se queremos que o Brasil se torne um país forte, exportador de tecnologia e que seu povo tenha consciência de classe, estamos no caminho errado.

21.9.09

Mensagem de aniversário

Muito mais do que apenas uma formalidade. É assim que considero cada data de aniversário. É sempre uma data para se rever o próprio projeto de vida. Analisar as potencialidades e acompanhar o andamento do que havíamos planejado.

Os animais já nascem prontos. Já nascem contendo em seu código genético tudo aquilo que poderão ser. Um joão-de-barro constrói ninhos da mesma forma que todos os seus antepassados. Eles não acumulam e transmitem conhecimentos de geração a geração como o homem. Este, ao contrário, é um ser por se fazer. Ele não nasce pronto.

O aniversário, como recordação do dia em que chegamos a este mundo, deve também servir para nos lembrar que seria muito mais fácil para nós não existir do que estarmos vivos aqui.

Em categorias aristotélicas, dizemos que se hoje existimos, isso quer dizer que existimos em ato. Mas antes disso existíamos em potência. Passamos então da potência ao ato.

Mas quantas pessoas existem hoje apenas em potência, mas nunca chegarão a existir em ato! Dizendo de outra maneira, quantas pessoas poderiam existir, mas não existem, e nunca existirão! E pensar que somos justamente nós que existimos...

Assim, todo "feliz aniversário" que se ouve deve ser, no fundo, um reconhecimento de que a existência do aniversariante neste mundo é querida, desejada e reconhecida.

E toda omissão desse tipo de felicitação é afirmação tácita de que sua existência é indiferente. De que se ele nunca tivesse passado da potência ao ato, o mundo seria pouco diferente do que é.

E é com discursos desse tipo que eu gosto de congratular os aniversariantes. Com essa chamada à reflexão, a se tornarem melhores, a se construirem, a se fazerem a si próprios a cada dia. A pensar que as probabilidades de não existirmos sempre foram esmagadoramente maiores do que a de existirmos.

16.9.09

Eu já sei "a verdade", pra que perder tempo com "a mentira"?

Foi um pensamento como este que estagnou o pensamento filosófico e científico por quase mil anos na história da humanidade. E é assim que muita gente ainda pensa.

A Idade Média, subjugada à tutoria da Igreja Católica, foi um período em que o pensamento filosófico foi escravizado. Sim, a Filosofia se tornou literalmente "serva da Teologia", e tinha como única função esclarecer a fé. Apesar de empreender um aprofundamento nos estudos de pensadores como Aristóteles, este período não trouxe avanços significativos.

Isso se deu porque "a verdade" já havia sido encontrada. Sim, ela estava logo ali, revelada na Bíblia. Ora, se o homem então já estava de posse da verdade, que lhe foi revelada diretamente do céu, por que perder tempo filosofando?

Em um diálogo com meu amigo Eliel, cristão, do blog "Desconstruindo", ele defendeu posição semelhante, quando falávamos sobre alguns "apologistas" que dizem estar "refutando" Marx e Freud sem nunca terem lido uma única página desses pensadores:

"Se alguém chegar a você e dizer que a terra é plana, você não vai se dar ao trabalho de ler seus argumentos. Pra você o fato de cientistas e filósofos já terem refutado esta visão antiga de mundo é suficiente."

Mas estes argumentos cometem a boa e velha falácia ad verecundiam, isso é, o "apelo à autoridade." Ou seja, acredita-se em uma determinada posição não por causa de sua correspondência à realidade ou pela força de suas premissas que levam a uma conclusão lógica inevitável, mas por causa de uma autoridade qualquer que diz que deve ser de tal e tal modo.

Foi por argumentos assim que por tanto tempo a humanidade acreditou que era o Sol que girava em torno da Terra, e não o contrário. As "autoridades" diziam isso, apesar de pensadores da corrente "não-oficial" já terem descoberto o contrário.

Acredita-se às vezes que determinado pensador foi "refutado" simplesmente porque existem críticas à sua obra. Mas como saber se as críticas são procedentes se eu não conheço o pensamento criticado? Como saber se o crítico está expondo corretamente o pensamento do seu opositor?

O verdadeiro filósofo é aquele que não se contenta com as primeiras impressões, para quem a verdade está sempre lhe escapando por entre os dedos. A Filosofia é a busca do saber, não a sua posse. A "descoberta da verdade" é o fim da Filosofia.

1.9.09

Relacionamento (namoro) entre professora e aluno

Há alguns dias, enquanto dirigia da faculdade para casa, tentava compreender uma cena que havia presenciado na sala de aula pouco antes. O que aconteceu e o que pensei durante o trajeto é como se segue.

Minutos antes do intervalo da aula, estava eu sentado na última cadeira da fila lateral esquerda da sala, lendo Marx, quando minha atenção foi desviada para a conversação que travavam alguns alunos com a professora. Esta dizia que já estava há algum tempo sozinha, e que não queria se relacionar por agora. Um aluno, em tom chistoso, lhe disse que caso ela quisesse, poderia ligar-lhe num final de semana para vê-lo.

Todos os alunos riram, o que é característico deste tipo de situação. Freud demonstrou em sua obra "Os chistes e sua relação com o inconsciente" que os chistes são uma forma de expressar desejos inconscientes. Através de "brincadeiras" dizemos aquilo que não poderíamos expressar de forma direta, e essa é uma das causas do prazer que certas situações nos trazem, provocando gargalhadas.

Mas a professora lhe respondeu que se relacionar com aluno "não rolava". Com ex-aluno até poderia ser ("quem sabe no semestre que vem"), mas com aluno, não. Ela argumentou que isso não era "ético", e foi claro perceber que havia alguma resistência que lhe vedava esse tipo de relacionamento.

Quando a professora disse que se relacionar com alunos não era "ético", essa palavrinha logo me chamou a atenção, pois, como sabemos, a Ética é uma área da Filosofia. Mas ela simplesmente não conseguiu explicar o que havia de "anti-ético" nisso. Isso me sugeriu que a explicação para esse quadro não seria encontrada através da Filosofia, no eu consciente, mas pela Psicanálise, no inconsciente.

Uma possível interpretação deste caso irá passar pela questão da barreira do incesto. Uma professora, em relação a seus alunos, torna-se uma "mãe" para eles. E isso é especialmente claro no presente caso, haja vista a constante presença de termos e expressões afetivas e maternas que encontramos no discurso dessa professora durante as aulas.

Sabemos que em nossa vida adulta reproduzimos os comportamentos que tínhamos com nossos pais. A forma com que lidamos com as figuras de autoridade ou com nossos cônjuges é moldada pela nossa relação infatil com eles.

Mas também reproduzimos em grande parte a forma como nossos pais nos tratava em nossas relações com os outros. Quando observamos uma menina brincando com bonecas, para citar um exemplo, podemos identificar se há algum problema dela com os pais pela forma com que ela trata a boneca, pois ela a trata em partes da mesma forma que ela sente que seus pais lhe tratam.

Assim, poderíamos reconstruir a resposta inconsciente dessa professora ao aluno da seguinte forma: "Eu não posso me relacionar com você pois, enquanto sua professora, eu sou uma mãe para você. Mas assim que você deixar de ser meu filho, no semestre que vem, essa barreira não mais existirá."

Em muitos casos essa barreira é ultrapassada, mas não sem ponderação ou superação de alguma dificuldade, o que reforça a tese de que existe um tabu inconsciente na relação entre professora e aluno, e esse tabu é, de certa maneira, um deslocamento da barreira do incesto para esse tipo de relacionamento.

28.8.09

Sobre a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais

Durante esta semana meu amigo Eliel e eu tivemos um proveitoso debate online sobre algumas questões políticas, as quais giraram em torno principalmente dos modos de produção capitalista e socialista. Posteriormente este assunto se estendeu, e chegamos a um tópico que tem sido debatido não apenas entre amigos ou nas mesas de bar, mas também no próprio Legislativo: a redução da jornada de trabalho semanal para 40 horas.

Eliel publicou em seu blog uma continuação deste debate que tivemos, e o presente post é uma réplica ao seu texto, que pode ser acessado clicando aqui.

Creio que o argumento do Eliel contra a redução da jornada se resume no seguinte ponto: "Menos horas trabalhadas geralmente corresponde a menos produção, e menos produção corresponde a aumento de preço no mercado."

A seguinte informação que ele apresentou parece reforçar isso:

"Michel Aburachid, presidente do Sindicato das Indústrias do Vestuário no Estado de Minas Gerais (Sindivest-MG), disse ao Jornal do Comércio que 'se a mudança for aprovada será, literalmente, o fim das confecções em Minas Gerais.' Uma vez que a indústria do vestuário está perdendo mercado internacional (e até nacional) por causa da indústria chinesa (na China a carga horária semanal é de 60 horas) e da queda do Dólar ante ao Real, uma diminuição da carga horária seria altamente prejudicial ao setor.'"

Mas veja bem que este é um argumento patronal antigo, e pode ser remontado à época da Revolução Industrial. Foi muito utilizado quando os movimentos sindicais na Europa tentavam extinguir o trabalho infantil de crianças de 5 anos de idade.

Para responder a essa questão, vejamos alguns trechos de um estudo realizado pelo DIEESE - Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos:

"Conforme dados da Confederação Nacional das Indústrias (CNI), a participação dos salários no custo das indústrias de transformação era de 22%, em média, em 1999. Assim, uma redução de 9,09% da jornada de trabalho, conforme demandada pela campanha das centrais, representaria um aumento no custo total de apenas 1,99%, como mostram os dados a seguir:

a. Considerando que a participação dos salários no custo das indústrias de transformação é de 22%;
b. que a redução da jornada de trabalho reivindicada de 44 para 40 horas representa uma redução 9,09% das horas trabalhadas;
c. A conta é a seguinte: 1,0909 x 22= 23,99;
23,99 - 22 = 1,99% de aumento no custo total da produção

"Ao se considerar o fato de que uma redução de jornada leva a pessoa a trabalhar mais motivada, com mais atenção e concentração e sofrendo menor desgaste, é de se esperar, como resposta, um aumento da produtividade do trabalho, que entre 1990 e 2000, cresceu a uma taxa média anual de 6,50%."

"Assim, ao comparar o aumento de custo (1,99%), que ocorrerá uma única vez, com o aumento da produtividade, que já ocorreu no passado e continuará ocorrendo no futuro, vê-se que o diferencial no custo é irrisório. E quando se olha para a produtividade no futuro, em menos de seis meses ele já estará compensado.

"Mais um argumento a favor da redução da jornada de trabalho pode ser encontrado nos dados do Departamento do Trabalho dos Estados Unidos que mostram o custo horário da mão-de-obra na indústria manufatureira em vários países. Um simples olhar para a tabela a seguir mostra que o custo da mão-de-obra brasileira não só é mais baixo, mas é muitas vezes mais baixo. O custo na Coréia do Sul, país que mais se aproxima dos valores brasileiros, é três vezes maior que o do Brasil. Isso significa que há muita margem para a redução da jornada.



"Assim, a redução de jornada não traria prejuízo algum à competitividade brasileira. Além disso, muitos países já têm jornada de trabalho menor que o Brasil. Na realidade, o diferencial na competitividade dos países não está no custo da mão-de-obra. Caso assim o fosse, os EUA e o Japão estariam entre os países menos competitivos do mundo, pois o custo da mão-de-obra está entre os maiores. O que torna um país competitivo são as vantagens sistêmicas que ele oferece: um sistema financeiro a serviço do financiamento de capital de giro e de longo prazo com taxas de juros acessíveis; redes de institutos de pesquisa e universidades voltadas para o desenvolvimento tecnológico; população com altas taxas de escolaridade; trabalhadores especializados; infra-estrutura desenvolvida, entre várias outras vantagens."

Vê-se assim como os velhos argumentos patronais se encontram com os pés firmemente plantados no meio do ar. Além disso, ainda poderíamos complementar dizendo o seguinte: não haverá queda de produção por causa da redução da jornada de trabalho. Na verdade, menos horas trabalhadas corresponderá à geração de novos postos de emprego, e geração de emprego é geração de renda, a qual aumentará a demanda, pois pessoas que antes estavam desempregadas agora entram para o mercado consumidor.

Eliel afirma em seu texto que "o importante é ter ciência de que, em economia, não existem respostas prontas e pré-fabricas, como os comunistas às vezes passam a impressão que é. "

Mas não são os comunistas que passam essa impressão. Ela é forjada pelos jornalões a serviço da classe dominante, os quais tentam de toda forma desqualificar qualquer alternativa à presente organização social da qual eles se beneficiam. É por isso que tem-se a impressão de que os comunistas postulam "sonhos como se fossem realidade". E que também comem criancinhas.

26.8.09

Um pouco sobre o conceito de ideologia em Marx e o materialismo histórico

Em vários outros posts deste blog eu já havia feito referência a dois conceitos fundamentais do pensamento de Marx: o de "ideologia" e o de "materialismo histórico". Tentarei agora, através de algumas citações do primeiro volume da obra "A ideologia alemã" ("Feuerbach - A contraposição entre as cosmovisões Materialista e Idealista"), de autoria de Marx e Engels, oferecer uma visão geral desses conceitos.

Ao inverter a dialética hegeliana de cabeça para baixo, "colocando-a de pé", Marx demonstrou que o homem não pensa para depois entrar ou viver no mundo. Ele primeiro está no mundo, vivo, e só depois disso é que pensa. Assim,

"...o primeiro pressuposto de toda a existência humana e, portanto, de toda a história, é que todos os homens devem estar em condições de viver para poder 'fazer história'. Mas, para viver, é preciso antes de tudo comer, beber, ter moradia, vestir-se e algumas coisas mais. O primeiro fato histórico é, portanto, a produção dos meios que permitam que haja a satisfação dessas necessidades, a produção da própria vida material." (MARX, ENGELS, 2005, p. 53)

E para que essa produção da própria vida material aconteça, o homem estabelece relações sociais, de onde se segue que

"... um modo de produção ou uma determinada fase industrial estão sempre ligados a uma determinada forma de cooperação e a uma fase social determinada, e que essa forma de cooperação é, em si própria, uma 'força produtiva'; decorre disso que o conjunto das forças produtivas acessíveis aos homens condiciona o estado social e que, assim, a 'história dos homens' deve ser estudada e elaborada sempre em conexão com a história da indústria e do intercâmbio." (Ibid., p. 55)

Veja bem o final da última frase: "a 'história dos homens' deve ser estudada e elaborada sempre em conexão com a história da indústria e do intercâmbio." Por essa razão,

"A produção de idéias, de representações e da consciência está, no princípio, diretamente vinculada à atividade material e o intercâmbio material dos homens, como a linguagem da vida real. As representações, o pensamento, o comércio espiritual entre os homens, aparecem aqui como emanação direta do seu comportamento material. O mesmo ocorre com a produção espiritual, tal como aparece na linguagem da política, das leis, da moral, da religião, da metafísica, etc, de um povo." (Ibid., p. 51)

Disso ele conclui que "não é a consciência que determina a vida, mas a vida é que determina a consciência." (Ibid., p. 52)

"A consciência, consequentemente, desde o início é um produto social, e o continuará sendo enquanto existirem homens. A consciência é, antes de tudo, mera consciência do meio sensível mais próximo e consciência de uma interdependência limitada com as demais pessoas e coisas que estão situadas fora do indivíduo que se torna consciência." (Ibid., p. 55)

Mas a consciência comum de uma determinada época não expressa as relações sociais da forma como elas realmente são. Essa consciência é uma expressão das relações ideais da classe dominante, que por dominar materialmente, domina também espiritualmente:

"As idéias da classe dominante são, em todas as épocas, as idéais dominantes; ou seja, a classe que é a força material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo sua força espiritual dominante. A classe que dispõe dos meios de produção material dispõe também dos meios de produção espiritual, o que faz com que sejam a ela submetidas, ao mesmo tempo, as idéias daqueles que não possuem os meios de produção espiritual. As idéias dominantes, são, pois, nada mais que a expressão ideal das relações materiais dominantes, são essas as relações materiais dominantes compreendidas sob a forma de idéias; são, portanto, a manifestação das relações que transformam uma classe em classe dominante; são dessa forma, as idéias de sua dominação." (Ibid., p. 78)

"... cada nova classe que ocupa o lugar da que dominava anteriormente vê-se obrigada, para atingir seus fins, a apresentar seus interesses como sendo o interesse comum de todos os membros da sociedade; ou seja, para expressar isso em termos ideais; é obrigada a dar às suas idéias a forma de universalidade, a apresentá-las como as únicas racionais e universalmente legítimas." (Ibid., p. 80, grifo nosso)

Mas neste ponto geralmente surge a seguinte dúvida, principalmente àqueles recém-chegados ao pensamento de Marx: "mas há idéias que questionam essas idéias da classe dominante, a qual sempre tenta apresentar o seu mundo como o melhor e único possível. Como explicar então a existência de idéias divergentes das idéias da classe dominante?"

Para responder a isso, basta lembrar que o que foi dito há pouco: são as condições materiais que determinam a consciência. Por essa razão,

"A existência de idéias revolucionárias em um determinado tempo já supõe a existência de uma classe revolucionária, sobre cujos pressupostos já dissemos antes o necessário." (Ibid., p. 79)

Para finalizar, vamos resumir esses dois conceitos citando Abbagnano (2007):

"Marx de fato (cf. Sagrada família, 1845; Miséria da filosofia, 1847) afirmara que as crenças religiosas, filosóficas, políticas e morais dependem das relações de produção e de trabalho, na forma como essas se constituem em cada fase da história econômica. Essa era a tese que posteriormente foi denominada materialismo histórico. Hoje, por Ideologia, entende-se o conjunto dessas crenças, porquanto só têm a validade de expressar certa fase das relações econômicas e, portanto, de servir à defesa dos interesses que prevalecem em cada fase dessa relação."

Espero que essas citações tenham lançado alguma luz sobre as questões. Apesar de desnecessário dizer, devo alertar que algumas poucas citações nunca poderão esclarecer um assunto ao qual um livro inteiro foi dedicado por seus autores. Assim, espero que essa tentativa seja pelo menos um incentivo a se beber direto na fonte.


REFERÊNCIAS:

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

MARX, Karl, ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. Tradução de Frank Müller. 3ª ed. São Paulo: Martin Claret, 2005.

18.8.09

Ideologia e o capitalismo como fim da história

Apesar da história nos ensinar que o mundo está em constante transformação, há um sentimento comum em nosso período de que o mundo ou sempre foi assim ou para sempre permanecerá como está agora, com apenas uma ou outra variação. Mas isso não é porque as pessoas não saibam racionalmente que isso não seja verdade.

O indivíduo hoje se assemelha àquele do período romano. Se olharmos para a História da Filosofia, veremos que na época da Roma Imperial a Filosofia Política praticamente desapareceu, enquanto que os filósofos voltavam suas reflexões principalmente para a Filosofia Moral. Isso é, o que deveria ser mudado era o indivíduo, não o mundo. Havia uma sensação de impotência diante do império da mesma forma que a experimentamos hoje. Basta darmos uma olhada nas prateleiras de livros mais vendidos para saber o que o homem médio anda lendo: livros para mudar a si mesmo.

E mesmo observando que impérios como o romano se desintegraram, o homem contemporâneo ainda tem a sensação de que o mundo sempre será como está. Daí a afirmação precedente de que o problema não é saber olhar para a história e ver que tudo passa. A questão é a sensação, o sentimento de imobilização diante do mundo.

Mas se analisarmos atentamente a história, veremos que antes que elementos revolucionários surjam e questionem o status quo de determinada situação histórica, o mundo vigente até então parece sempre o melhor e o mais natural dos mundos.

Vamos ilustrar isso com um exemplo específico. A escravidão era vigente em nosso país até pouco mais de 150 anos atrás. Sua abolição é historicamente muito recente, e essa instituição se perpetuou por milênios na humanidade.

Para o homem de hoje pode ser absurdo imaginar que um punhado de brancos armados fosse de navio a outro continente arrancar homens livres à força de sua terra para serem escravizados longe de suas casas. Parece absurdo para nós, mas havia uma justificação para isso. Sempre houve uma justificação. E esse tipo de justificação do status quo, do mundo como ele é, é chamado de "ideologia".

A ideologia é a forma com que as classes dominantes justificam o sistema vigente e o apresentam como o melhor e o mais natural dos mundos. E da mesma forma que sempre houve justificativas para a escravidão, há hoje justificativas para o modo de produção capitalista.

Os burgueses nos pedem para olhar para o reino animal e ver como é natural a concorrência, como um animal engole o outro, como os mais aptos sobrevivem e os mais fracos são exterminados. Isso é um exemplo de ideologia. Isso é justificativa do status quo, do mundo como ele é.

Ao inverter a dialética hegeliana de cabeça para baixo, Karl Marx demonstrou que são as relações materiais e concretas da vida material que determinam a forma de pensar de uma determinada sociedade. As idéias dominantes de uma época são sempre as idéias da classe dominante daquela época.

A verdade é imutável. Se a escravidão algum dia foi devidamente justificada, ela ainda o seria hoje. Isso mostra que aquilo que sustentou a escravidão e que sustenta o capitalismo não são argumentos racionais. Os argumentos aparecem depois. Eles só servem para tentar justificar a forma como o mundo já está organizado.

Se demos apenas o exemplo da instituição da escravidão, o leitor poderá varrer a história para ver por si só que sempre foi assim. Mais um exemplo? O feudalismo na Idade Média, que tinha na Igreja sua principal âncora ideológica.

A ideologia burguesa capitalista diz que o trem da história chegou a uma estação chamada "capitalismo" e que essa é a estação final. Ela quer congelar a história. Mas ao contrário do que às vezes pode sugerir este sentimento de impotência e imobilização do homem contemporâneo diante do mundo, o capitalismo definitivamente não é o fim da história. Até Roma caiu.

17.8.09

Je vous salue, Marie

Vamos imaginar que nos chegasse hoje a notícia de que há uma pequena seita pregando que seu líder nasceu de uma virgem, morreu, ressuscitou e seu corpo realmente não pode ser encontrado. Imaginemos que ficássemos sabendo disso por acaso, porque a mídia não tem dado a mínima atenção a esse grupo. Quem iria acreditar nessa história?

Parece que quando eventos fantásticos ou miraculosos estão historicamente distantes, eles são mais fáceis de acreditar. Talvez o mundo fosse bem diferente, talvez coisas como uma gravidez sem ato sexual ou a ressurreição dos mortos acontecessem mesmo.

Fui levado a reflexões como essas após assistir ao filme "Je vous salue, Marie", do diretor francês Jean-Luc Godard, em que a história da concepção e do nascimento virginal de Jesus se passam no mundo contemporâneo. O filme sugere uma proposta de uma reflexão sobre uma espiritualidade cristã hoje.

Maria é uma jovem comum, filha de um dono de um posto de gasolina, e José, um jovem taxista com pouca instrução. Depois de dois anos de namoro sem ato sexual, Maria aparece grávida, e José quer saber quem é o pai. Em meio a tudo isso aparece o anjo Gabriel, um homem comum que fuma, anda de táxi e até dá um tapa na cara de José. Um pouco bruto, como todo francês.

Proibido no Brasil na década de 80 por ser considerado ofensivo à fé católica, o filme retrata os dilemas, os fraquejos e as dificuldades de Maria e José como homens comuns, ao mesmo tempo em que conta uma história paralela, de um professor que mantém um caso com uma de suas alunas e que acredita numa teoria de que a vida na Terra foi semeada por extra-terrestres. As duas histórias, sem nenhuma ligação aparente entre si, ilustram a antítese carne e espírito.

O filme traz cenas interessante, como a luta de Maria contra a masturbação e a tentação do jovem casal de resistir à união sexual. Perto do final nasce Jesus, uma criança mimada e que tem um contato "escandalizador" com o corpo de sua mãe numa idade em que já não deveria mais ter essas intimidades. Jesus entra debaixo do vestido da mãe, e fica em pé examinando seu corpo e pedindo explicações do que estava vendo. Ao ver a região pubiana, por exemplo, Maria lhe explica que aquilo é o "ouriço, ou a relva".

José, um pai autoritário mas quase sem respeito para com o filho, é obrigado a se conformar em não ser o verdadeiro pai do menino, que em determinada cena chega a fugir desobedecendo-lhe e dizendo que está indo cuidar das coisas do seu Pai.

Por todo o filme aparecem insistentemente cartões com a mensagem "Naquele tempo", como se a história estivesse acontecendo em um passado distante. Mas a história se passa em nossos dias, sendo talvez esses cartões uma forma com que Godard quis nos mostrar que a história que está sendo contada é atemporal.

É um ótimo filme, profundo, que apesar de mal-compreendido por muitos, coloca importantes questões sobre uma espiritualidade cristã contemporânea. Não uma espiritualidade historicamente distante, ou empoierada em antigos museus e catedrais, mas presente no dia-a-dia dos homens e mulheres comuns. Um escândalo para a igreja.

10.8.09

Você "acredita" em Freud?

Muita gente me pergunta, ao ouvir algumas de minhas posições intelecuais, se eu "acredito" nelas. Uma das perguntas que ouço com mais frequência é se eu "acredito" em Freud.

Vamos parar por um minuto e esclarecer uma coisa: Freud não é um concorrente de Buda, Maomé, Jesus Cristo ou Krishna. Não se "acredita" em Freud como se fosse algo semelhante a acreditar em espíritos ou em alguma outra coisa sem evidência.

Eu vejo duas razões que possibilitam o surgimento desse tipo de questionamento: a primeira é uma mentalidade estritamente religiosa, acostumada a interpretar o mundo aquém dos limites da religião, da crença, da fé. A segunda é uma consequência do próprio pensamento de Freud, que não é óbvio ou aparente ao homem comum, principalmente por lidar com conteúdos inconscientes, com aquilo que o homem sempre quis esconder de si próprio.

Teorias postuladas por Freud, como o Complexo de Édipo, por exemplo, não são observáveis pelo homem comum sem algum treino, sem alguma prática e, na raiz disso, sem muita leitura. Daí o homem comum achar "absurdas" tais teorias freudianas e pensarem que isso é "objeto de fé", que não se pode aceitar racionalmente ou intelectualmente tais posições.

A ciência trabalha com modelos. Quando falamos sobre o átomo, não nos referimos a algo que sabemos existir. Alguém já viu um átomo? Não, pois ele não é observável. Como sabemos que o átomo existe? Não sabemos. A questão é que o modelo atômico é apenas um modelo utilizado para explicar a realidade física, material, mas que tem, no entanto, se mostrado extremamente eficiente através dos séculos. Mesmo assim, é bem possível que o átomo não seja mais que uma "ficção útil". Essa é uma interessante questão da Filosofia da Ciência.

O que ocorre com as teorias de Freud é algo semelhante. Quando ele postula uma topografia hipotética do aparelho psíquico dividida no inconsciente, no pré-consciente e no consciente, no qual se situam as instâncias psíquicas do id, do ego e do superego, o que ele faz é criar um modelo. A mente humana não é observável. Se abrirmos a cabeça de alguém iremos observar seu cérebro, não sua mente.

Em seu trabalho como médico Freud desenvolveu aos poucos um método de tratamento das neuroses e, juntamente com esse método, foi desenvolvendo um modelo do funcionamento da mente humana, o qual se mostrou muito eficiente não só para curar as neuroses, mas também para explicar sua etiologia, o desenvolvimento humano da infância à fase adulta, a cultura, a religião, a arte, etc.

Mas se o id, o ego e o superego realmente existem nós não sabemos, assim como não temos mais certeza de que o átomo existe. Mas o modelo desenvolvido por Freud explica sem paralelos o funcionamento da mente humana, e suas teorias foram desenvolvidas em plena articulação com a prática clínica, não sendo frutos de mera especulação intelectual. Foi dessa prática que Freud observou, criou modelos, hipóteses e os submeteu à prova para os validar ou corrigir.

Dessa forma, não se "acredita" em Freud. Eu não "acredito" em Freud. A questão é que ele desenvolveu um excelente modelo do funcionamento da mente humana, o qual se mostrou extremamente eficiente no tratamento das neuroses e nas posteriores aplicações da Psicanálise, e o reconhecimento disso não se dá através de um ato de "fé", mas de razão.

5.8.09

Ontologia

A Ontologia, de uma maneira geral, pode ser definida como “a doutrina do ser e das suas formas” (ABBAGNANO, 2007, p. 848). Este termo hoje é às vezes usado como sinônimo de Metafísica por alguns autores, mas outros preferem fazer uma distinção, classificando a Ontologia como uma área específica da Metafísica. A razão disso é que eles consideram o termo Ontologia a) mais geral e neutro e b) mais conciliável com uma perspectiva empirista (Ibid., p.848). Segundo Abbagnano, no que se refere a a), enquanto o termo Metafísica parece pressupor a priori (ou seja, antes ainda de demonstrar) uma dimensão metassensível e metanatural, o termo Ontologia limita-se a assinalar a existência de um problema do ser que pode ser resolvido de maneiras diferentes (ou seja, não só em direção a uma metafísica transcendentalista, mas também em direção a uma metafísica imanentista. Quanto a b), a Ontologia, entendida como exposição ordenada dos caracteres fundamentais do ser que a experiência revela de modo repetido e constante, parece conter, em si mesma, um aspecto descritivo ou denotativo capaz de eliminar a velha oposição entre metafísica e experiência.

Autores como Moreland e Craig (2005), por exemplo, utilizam o termo Ontologia como sinônimo de Metafísica, ao afirmarem ser as duas divisões principais da metafísica a "ontologia geral (às vezes simplesmente chamada de ontologia) e a metafísica especial". Segundo os autores, a ontologia geral é o aspecto mais básico da metafísica, e se caracteriza por três tarefas principais que compõem esse ramo de estudo metafísico:

Primeiro, a ontologia geral enfoca a natureza da existência em si. O que é ser ou existir? A existência é uma propriedade que determinada coisa possui? O nada em si existe em algum sentido? Há um sentido de ser para o qual objetos fictícios, como o cavalo alado Pégaso, venham a ser, embora não existam? [...] Segundo, em ontologia geral estudamos os princípios gerais do ser, as características gerais que são a verdade de todas as coisas, quaisquer que sejam. Filósofos medievais usaram o termo transcendental para representar todos os aspectos que caracterizam todos os diferentes tipos de entidades que existem. [...] Terceiro, a ontologia geral inclui o que é denominado de análise categorial. É possível classificar ou agrupar as coisas existentes de diversos modos, variando entre os tipos de classificação desde aqueles muito específicos até os muito amplos. (MORELAND; CRAIG, 2005, p. 225)

Já Morente (1980), por sua vez, define a Ontologia como o “estudo dos objetos, todos os objetos, qualquer objeto, seja qual for”. Para ele, toda a Filosofia pode ser dividida em duas grandes áreas, quais sejam, a Ontologia e a Gnosiologia. Dizendo de outra forma, a Ontologia é a disciplina que “se ocupa do ser, ou seja, não deste ou daquele ser concreto e determinado, mas do ser em geral, do ser na acepção mais vasta e ampla desta palavra”, sendo esta concepção, portanto, mais próxima daquela segunda apresentada por Abbagnano, isso é, mais geral e mais neutra.


REFERÊNCIAS

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

MORELAND, J.P.; CRAIG, William Lane. Filosofia e Cosmovisão Cristã. São Paulo: Edições Vida Nova, 2005.

MORENTE, Manuel Garcia. Fundamentos de Filosofia: Lições Preliminares. 8ª ed. São Paulo: Mestre Jou, 1980.

27.7.09

Freud analisa uma experiência de conversão religiosa

Em 1927, após declarar em uma entrevista sua indiferença quanto ao tema da vida após a morte e sua falta de fé religiosa, Freud recebeu uma carta de um médico americano que havia lido esta entrevista. Nesta carta ele descrevia sua experiência de conversão ao Cristianismo, na esperança de que esta pudesse levar Freud a uma reflexão sobre o assunto.

A experiência relatada pelo médico foi publicada no artigo "Uma experiência religiosa", publicada no Brasil na Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, no volume XXI, pela Editora Imago, e é como se segue:

"Certa tarde, ao atravessar a sala de dissecção, minha atenção foi atraída por uma velhinha de rosto suave que estava sendo conduzida para uma mesa de dissecção. Essa mulher de rosto suave me causou tal impressão que um pensamento atravessou minha mente: 'Não existe Deus; se existisse, não permitiria que essa pobre velhinha fosse levada a sala de dissecção.'

"Quando voltei para casa naquela tarde, o sentimento que experimentara à visão na sala de dissecção, fizera-me decidir não mais continuar indo à igreja. As doutrinas do cristianismo, antes disso, já tinham sido objeto de dúvidas em meu espírito.

"Enquanto meditava sobre o assunto, uma voz falou-me à alma que 'eu deveria considerar o passo que estava a ponto de dar'. Meu espírito replicou a essa voz interior: 'Se eu tivesse a certeza de que o cristianismo é verdade e que a Bíblia é a Palavra de Deus, então eu os aceitaria.'

"No decorrer das semanas seguintes, Deus tornou claro à minha alma que a Bíblia era Sua Palavra, que os ensinamentos a respeito de Jesus Cristo eram verdadeiros e que Jesus era nossa única salvação. Após uma revelação tão clara, aceitei a Bíblia como sendo a Palavra de Deus, e Jesus Cristo, como meu Salvador pessoal. Desde então, Deus Se revelou a mim por meio de muitas provas infalíveis."

Ao final da carta, o médico americano implorava Freud para refletir sobre o tema, pois estava dirigindo orações a Deus para que este lhe concedesse fé para crer.

Essa experiência, sendo um tanto enigmática e baseada em uma lógica particularmente ruim, exigia, para Freud, uma tentativa de interpretação baseada em motivos emocionais, haja vista que Deus permite a ocorrência de coisas muito piores do que a remoção de um cadáver de uma velhinha para a sala de dissecção. E um médico, é claro, sabe muito bem disso. Então por qual razão sua indignação contra Deus irrompeu justamente ao receber essa impressão na sala de dissecção?

A interpretação dessa experiência religiosa, segundo Freud, seria como se segue:

"A visão de um cadáver de mulher, nu ou a ponto de ser despido, recordou ao jovem sua mãe. Despertou nele um anseio pela mãe que se originava de seu complexo de Édipo, e isso foi imediatamente completado por um sentimento de indignação contra o pai. Suas idéias de ‘pai’ e ‘Deus’ ainda não se tinham separado inteiramente, de modo que seu desejo de destruir o pai podia tornar-se consciente como dúvida a respeito da existência de Deus e procurar justificar-se aos olhos da razão como indignação com o mau trato dado a um objeto materno. Naturalmente, é típico do filho considerar como mau trato o que o pai faz à mãe nas relações sexuais. O novo impulso, deslocado para a esfera da religião, constituía apenas uma repetição da situação edipiana e, conseqüentemente, logo se defrontou com uma sorte semelhante, ou seja, sucumbiu a uma poderosa corrente oposta. Durante o conflito real, o nível do deslocamento não foi sustentado: não há menção de argumentos em justificação de Deus, não nos é dito quais foram os sinais infalíveis pelos quais Deus provou sua existência ao que duvidava. O conflito parece ter-se desdobrado sob a forma de uma psicose alucinatória: escutaram-se vozes interiores que enunciaram advertências contra a resistência a Deus. Mas o resultado da luta foi mais uma vez apresentado na esfera da religião, e era de um tipo predeterminado pelo destino do complexo de Édipo: submissão completa à vontade de Deus Pai. O jovem tornou-se crente e aceitou tudo o que desde a infância lhe havia sido ensinado sobre Deus e Jesus Cristo. Tivera uma experiência religiosa e experimentaria uma conversão."

É interessante notar que nesta interpretação a Psicanálise se apresenta como uma ferramenta para explicar tanto a conversão à religião quanto o seu contrário, ou seja, o ateísmo, apesar de este último, no presente caso, ter sido superado. Mas como o próprio Freud faz notar ao final deste artigo, deve-se levar em consideração que nem todas as experiências de conversão podem ser tão facilmente compreendidas quanto essa. Poderíamos estender sua conclusão e afirmar que o mesmo se aplica aos casos de ateísmo.

A descrença em Deus é aqui apresentada como consequência de uma indignação contra o pai, como um reflexo do Complexo de Édipo deslocado para a esfera da religião, e a crença, por sua vez, foi consequência da resolução do Complexo de Édipo, isso é, a submissão completa à vontade de Deus Pai.

10.7.09

Filosofia para educar as crianças: Rousseau e seu Emílio

Com a experiência da paternidade, um novo mundo de alegrias e preocupações surgiu diante de mim. Se o advento da minha filha me alegrava e me propunha a questão filosófica do mistério da vida, com a qual eu me espantava (Quem é esta que acaba de nascer? Onde ela estava? Desde quando existe?), a responsabilidade que me sobreveio como progenitor daquela maravilha da natureza, por outro lado, também me forneceu muito material para reflexão. Mas uma reflexão diferente da primeira: era uma reflexão que iria nortear minhas atitudes como pai.

Para educar bem uma criança não bastam boas intenções. Se elas fossem o suficiente para o bem agir, em qualquer esfera, o conhecimento e a técnica seriam desnecessários. Qualquer um que tivesse a boa intenção de cozinhar bem, por exemplo, cozinharia bem. Ou qualquer um que quisesse ser um bom cientista, um bom cientista seria.

Mas sabemos que o mundo não é assim. E não deveríamos esperar que na educação dos filhos isso acontecesse. É verdade que os pais sempre querem o melhor para os filhos. Qual o pai que, pedindo seu filho um peixe, lhe daria uma pedra? Sábia observação do Cristo.

Mas a educação dos filhos é uma arte, não uma ciência. Não existem algoritmos para criar filhos. Ciente disso, para que eu não me deixasse enganar pela aparente auto-suficiência da boa intenção, assim como para evitar por completo as "receitas de bolo" oferecidas pelos livros de auto-ajuda, voltei minhas leituras para algumas áreas da Filosofia e da Psicanálise que até então não tinham recebido muito de minha atenção - áreas que lidam com a educação das crianças - de forma que eu pudesse melhor compreender minha filha, a mim mesmo e a relação triangular edípica na qual agora nos encontrávamos - pai, mãe e filha. Vou compartilhar agora um pouco do que tenho encontrado na Filosofia.


Um filósofo discorre sobre a educação das crianças

O filósofo Jean-Jacques Rousseau dedicou uma obra à educação das crianças chamada "Emílio, ou Da Educação", cuja primeira versão foi acabada no final de 1759. Neste livro o filósofo francês concebe uma criança imaginária que tem o nome de "Emílio" e nos acompanha por todas as suas fases de desenvolvimento, expondo as reflexões e as atitudes decorrentes para formar o homem que almejava o seu projeto educacional: um homem livre.

Para Rousseau, que considerava que o homem era originalmente livre e bom, mas posteriormente corrompido pela sociedade (teoria do bom selvagem), tanto a organização do Estado quanto a educação das crianças deveriam tentar amenizar as consequências da vida social. Isso é, já que não é possível que voltemos ao estado de natureza, que pelo menos as mazelas da vida em sociedade sejam diminuídas.

Logo nas primeiras páginas ele define o que seria um homem bem-educado: "Aquele que melhor souber suportar os bens e os males desta vida é, para mim, o mais bem-educado." (ROUSSEAU, 2004, p.15)

A criança deve ser educada para suportar todas as coisas, "os golpes da sorte, a desafiar a opulência e a miséria, a viver, se preciso, nos gelos da Islândia ou sobre o ardente rochedo de Malta." (Ibid., p.16)

Mas a educação não consiste apenas nisso. Ele ainda afirma que os pais, ao gerar e sustentar um filho, só cumprem com isso um terço de sua tarefa. Os progenitores 1) devem homens à sua espécie, 2) devem homens sociáveis à sociedade e 3) devem cidadãos ao Estado. A tarefa é tríplice. "Quem não pode cumprir os deveres de pai não tem direito de tornar-se pai", conclui. (Ibid., p. 27)

Assim, tendo inicialmente esclarecido o que ele almejava em seu projeto educacional, Rousseau, que tivera experiências como preceptor, discorre sobre os mais diversos aspectos da educação infantil.


As reflexões no "Emílio"

Ainda que seja possível identificar uma certa estrutura nesta obra, o próprio Rousseau admitia que seu livro era mais uma "coletânea de reflexões e de observações, sem ordem e quase sem sequência..." (Ibid., p.3) Modéstias à parte, o livro realmente apresenta em sua superfície uma leve desordem.

Por isso, caso o restante deste texto pareça também estar "sem ordem e sem sequência", levem isso em consideração. O que se segue é uma coletânea de anotações que eu fiz a partir desta "coletânea" de Rousseau, destacando aquelas reflexões que mais me chamaram a atenção.

Para começar, um problema que Rousseau encontrava em sua época e que é de extrema relevância ainda hoje é a questão de uma alta rotatividade na "terceirização" da educação dos filhos (este termo é meu, não de Rousseau). Isso é, filhos que mudam constantemente de babás ou outros cuidadores. Sobre essa questão, ele observava que é impossível que uma criança que passe sucessivamente por tantas mãos diferentes seja bem-educada, pois a cada mudança a criança faz comparações que sempre tendem a diminuir sua estima para com aqueles que a educam, e consequentemente, a autoridade deles sobre ela. "Se alguma vez", ele diz,

"a criança chegar a pensar que há adultos que não têm mais razão do que as crianças, toda a autoridade que vem da idade estará perdida, e a educação, estragada. Uma criança não deve conhecer outros superiores além dos pais, ou na falta deles, do preceptor e da ama-de-leite, e, mesmo assim, um deles já é demais." (Ibid., p.40)

A criança educada em liberdade (de acordo com o seu projeto de educação) deve aprender a não temer. Desde cedo ela deve ser exposta a máscaras feias, como de animais ferozes, por exemplo, para que se acostume com essas imagens. Rousseau comparava as crianças do campo e da cidade, e percebia que só as urbanas tinham medo de aranhas, já que as que viviam no campo eram desde sempre expostas a esses animais.

Para que não se tornem irritadas e coléricas, é necessário deixar as crianças pegar em tudo, e que não encontrem resistência nas vontades, mas sim nas coisas (Ibid., p.51). Se a criança não deve pegar um determinado objeto, este deve ser retirado de seu alcançe, ao invés de se proibir o acesso da criança a ele.

Caso a criança solicite que algum objeto que não esteja ao seu alcance lhe seja trazido, isso não deve ser feito: a criança é que deve ser levada até o objeto. Rousseau observou que "não é necessária uma longa experiência para perceber como é agradável agir pelas mãos de outrem e só precisar mexer a língua para fazer com que o universo se mova." (Ibid., p.57)

É preciso cautela com os artifícios utilizados pelos pequeninos para dominar os adultos, pois uma criança não deve exercer nenhuma dominação. Uma outra forma em que isso pode se manifestar, e à qual devemos ficar atentos, é o "pretender ser sempre escutado". A criança deve saber bem que não terá atenção a todo momento.

Não se deve zangar com as crianças quando quebrarem algo caro, pois suas ações são destituídas de moralidade. Elas não agem com a intenção de prejudicar. Aliás, coisas caras são o que deve estar longe dos seus quartos. Elas não devem ser expostas ao luxo, mas seus móveis devem rústicos, e ela deve viver em toda simplicidade.

A razão de se educar as crianças na simplicidade é que a educação deve ser negativa: não se deve ensinar virtudes à criança, mas deve-se livrá-la do vício. O luxo, como veremos mais adiante, é um vício.

Rousseau insistia muito que as crianças deviam ser criadas como crianças. Não se deve pensá-las apenas como "adultos em formação". "A natureza quer que as crianças sejam crianças antes de serem homens." (Ibid., p.91) Elas são seres integrais na forma em que estão. Ele criticava aqueles que nunca achavam que era cedo demais para repreender, corrigir, admoestar, adular, ameaçar, prometer, instruir, argumentar. Afinal de contas, ele ironizava, "não se quer fazer de uma criança uma criança, mas sim um doutor." E depois exortava: "Deixais que amadureça a infância nas crianças." (Ibid., p.97)

A criança não deve ser nem um animal, nem um homem, mas sim uma criança. Ela é de uma natureza específica, e deve ser tratada como tal, sempre em liberdade. Para que fosse seguido esse caminho da natureza e da liberdade, ele defendia que ninguém tinha o direito, nem mesmo o pai, de ordenar à criança o que não lhe serve para nada. Só a experiência e a impotência devem ser lei para a criança.

E para que ela perceba sua insuficiência diante do mundo e também sinta sua relação de dependência para com os pais, o filósofo propõe quatro máximas para que ela cresça no caminho da natureza:

  1. "Longe de terem forças supérfluas, as crianças nem mesmo têm forças suficientes para tudo que a natureza lhes exige. É preciso, portanto, facultar-lhes o emprego de todas as forças que ela lhes dá e de que não poderiam abusar."
  2. "É preciso ajudá-las e suprir o que lhes falta, quer em inteligência, quer em força, em tudo o que diz respeito à necessidade física."
  3. "No auxílio que lhes prestamos, devemos limitar-nos unicamente ao realmente útil, sem nada conceber à fantasia ou ao desejo irrazoável, pois a fantasia não as atormentará enquanto não se a fizer nascer, dado que ela não pertence à natureza."
  4. "É preciso estudar com atenção sua linguagem e seus sinais, para que, numa idade em que elas não sabem fingir, distingamos em seus desejos o que vem imediatamente da natureza e o que vem da opinião." (Ibid., p.58)

Além dessas, algumas outras medidas mais específicas são sugeridas adiante, como não proibir a criança de agir mal, mas sempre impedí-la, e deixá-las pular, correr e gritar quanto têm vontade, por exemplo.

Já havíamos falado que a educação é negativa, isso é, deve-se evitar os vícios de brotar nas crianças, ao invés de lhes ensinar virtudes. Se a criança já sabe falar, mas pede algo chorando, por exemplo, seu pedido deve ser recusado. Seu quarto, como já havíamos mencionado, deve ser simples, com móveis rústicos, e não se deve expor a criança ao luxo. O mesmo se aplica a seus brinquedos e suas outras posses. As crianças não devem ganhar brinquedos em excesso, a todo tempo, e não devem ter tudo o que pedem. Rousseau explicava por qual razão:

"Sabeis qual é o meio mais seguro de tornar miserável vosso filho? É acostumá-lo a obter tudo, pois, crescendo seus desejos sem cessar pela facilidade de satisfazê-los, mais cedo ou mais tarde a impotência vos forçará, ainda que contra a vontade, a usar da recusa. E essa recusa inabitual dar-lhe-á um tormento maior do que a própria privação do que deseja." (Ibid., p.86)

Ele concordava, porém, que a criança só deve fazer o que quer. Todavia, ela só deve querer "o que quereis que ela faça". Mas tudo isso deve estar dentro de certos limites. E a polêmica questão dos livros também se encaixa aqui.

Sabemos que Rousseau, desde muito novo, era um rato de biblioteca. Quando criança, ele passava grande parte do seu dia visitando o acervo deixado como herança por sua falecida mãe. Não obstante, em seu "Emílio", ele desencoraja veemente que as crianças fossem apresentadas aos livros antes dos 12 anos de idade. Mas como?

Talvez isso possa ser esclarecido pelo contexto francês do século XVIII. Ao que parece, a educação que os pais burgueses buscavam inculcar nos filhos através dos preceptores que contratavam enchia-lhes as cabecinhas de conhecimento inútil para a sua idade, conhecimento dos quais elas de fato não se apropriavam, mas apenas memorizavam. Os pais queriam fazer de uma criança um doutor, não uma criança. O filósofo percebia que isso era extremamente prejudicial, e que esse fato explicava o que levava as crianças a se afastarem posteriormente dos livros: "Uma criança não tem muita curiosidade de aperfeiçoar o instrumento com o qual a torturam." (Ibid., p.134)


Conclusão

A breve exposição que fizemos é apenas dos livros I e II, que tratam até aos 12 anos de idade da criança. Sendo que ainda levará um bom tempo até que minha filha atinga essa idade, não tenho tanta pressa em ler os demais livros do Emílio, que vai até o volume V, o qual cobre as idades entre 20 e 25 anos.

Aqueles que já leram essa obra poderiam apontar outros tantos trechos que poderiam constar aqui, e não o fariam sem razão. Mas como foi necessário excluir trechos das seleções que empreendi, reconheço que o que foi apresentado realmente não faz justiça à excelência e grandeza dessa obra.

O "Emílio" é uma obra sem grande sistematização, em que Rousseau por algumas vezes parece ter se perdido. Ele atesta isso quando afirma: "Leitores vulgares, perdoai meus paradoxos, é preciso cometê-los quando refletimos; e digam o que disserem, prefiro ser homem de paradoxos a ser homem de preconceitos." (Ibid., p.96)

Mas seu legado, no entanto, é inquestionável. As reflexões de Rousseau sobre a educação tem oferecido aos pais, professores e pedagogos nos últimos séculos orientações precisas e seguras para aqueles que reconhecem que apenas intuição e boas intenções nem sempre são suficientes para o bem educar.


REFERÊNCIAS:

ROUSSEAU, Jean-Jacques. Emílio, ou, Da educação. 3ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2004.