"Contra fatos não há argumentos": refutando a falácia com Hegel

Posted: 18.6.18 by Glauber Ataide in Marcadores:
0

Dizer que "contra fatos não há argumentos" parace ser um afirmação devastadora. Quem usa este clichê geralmente pretende encerrar a discussão como seu vencedor inconteste. A idéia é que  uma referência à "realidade" seria capaz de provar a validade do que se está debatendo, pondo fim a meras e frágeis especulações teóricas.

Este recurso tem alguma força, contudo, apenas em um debate entre "consciências ingênuas". Para os leitores de George Wilhelm Friedrich Hegel, esta catch word não tem nenhuma validade.

Afirmar que "contra fatos não há argumentos" pressupõe que é possível ter acesso direto à realidade, de forma imediata (sem mediações). Este nível de consciência é tão elementar que, em sua Fenomenologia do Espírito, obra que descreve a "experiência da consciência" em sucessivos estágios, Hegel lhe coloca logo no primeiro capítulo. Pensar que é possível acessar os "fatos" sem mediações é algo extremamente primitivo e até mesmo infantil.

O que Hegel chama de "certeza sensível" é a forma imediata de ligação do sujeito com o objeto, sem pressupor qualquer teoria ou reflexão. O indivíduo se crê passivo diante de alguma coisa, apenas "recebendo" impressões advindas do mundo exterior. A visão de um objeto, no entanto, nunca é passiva como pode parecer. Há sempre uma ligação entre aquele que vê e aquilo que é visto.

Isso já havia sido observado por Kant. O filósofo de Königsberg demostrou que a construção dos objetos do conhecimento é ativa, não passiva. De maneira resumida, podemos dizer que vemos nos objetos aquilo que colocamos neles, e não somos meramente receptáculos de impressões. A realidade nos envia tantas impressões que, se fôssemos simplesmente registrar tudo que nos chega através dos sentidos, sem efetuar nenhuma transformação desta massa amorfa, deste "tsunami" de sensações, não conheceríamos absolutamente nada. Tudo seria uma imensa bagunça sem sentido.

Todo conhecimento é sempre a relação entre um sujeito e um objeto. Tomemos a forma como conhecemos uma árvore, por exemplo. Uma árvore não pode se chamar a si mesmo dizendo "eu sou uma árvore", e nem teve, no início dos tempos, uma placa pendurada em si pelo Criador com a palavra "Árvore". Antes, é apenas um "Eu" (Ich) concreto que pode dizer "isto é uma árvore". Com isso Hegel quer dizer que dois "Estes" (Diese) decorrem do puro Ser da árvore: 1) Este "Eu" (ou "o puro Eu") e 2) Este objeto, a árvore.

Quando Hegel diz que nem o Eu e nem o Objeto são "imediatos, mas mediados", ele quer diz que a certeza sensível depende de outra coisa (da árvore). E que o ser da árvore, que é inegável, precisa do Eu para sua certeza (para seu "tornar-se consciente", para seu "Gewußtwerden").

Pode parecer um pouco confuso, mas lembre-se que estamos saindo do senso comum para a reflexão filosófica, e isso exige algum esforço e paciência (ainda mais tratando-se de Hegel). Para entender o que acabamos de dizer, vamos esclarecer dois conceitos importantes em Hegel: o de "em si" ("An sich") e de "para outro" ("Für-ein-anderes"). 

A árvore é uma árvore "em si", independente de quem possa pensar ou não pensar nela. O seu "ser em si", contudo, não vai além disso. Quando ela é uma árvore "para mim", para o meu saber, segue-se um outro conceito que Hegel chama de "ser para um outro" (Für-einen-anderen-sein).

Estabelecida a diferença entre "ser em si" e "ser para um outro", entendemos por que vai para o túmulo a afirmação da certeza sensível de que ela é "certeza imediata". Existe algo muito importante no meio do caminho que passou despercebido por ela: quando aponto para algo e digo "isto", me refiro a algo que está no tempo e no espaço, no aqui e agora.

Este "Aqui e Agora", porém, tem um duplo sentido, e é mais do que meramente apontar para um relógio e para um local. O "Agora" significa: vejo a árvore às 15 horas, não necessariamente à meia-noite. O conhecimento depende de um determinado tempo. O "Aqui" significa: estou vendo a árvore neste local, não necessariamente em meu quarto.

Para ser preciso na expressão e muito cuidadoso com a linguagem, deveríamos dizer: este eu vê isto (a árvore) neste Agora e neste Aqui. Um exemplo de Ralf Ludwig irá esclarecer a questão.

A frase "Haroldo vê um jogo de futebol às 15 horas no Estádio Olímpico" abunda de contingências e particularidades que não possuem nenhuma necessidade ou certeza. O jogo pode ter sido adiado para as 18 horas por causa da chuva, pode ter acontecido em outro estádio, e o ingresso pode ter sido dado de presente para seu amigo José.

Por outro lado, a frase "este Eu vê isto (seja o que for) neste Agora (não importa o momento) e neste Aqui (não importa onde)" teria para Hegel uma veracidade maior. As formas "Isto", "Aqui" e "Agora" estão em contradição com as coisas particulares, e podem ser chamadas de "gerais". Este "geral", e não as coisas particulares, é que é a Verdade da certeza sensível, e não as supostas impressões particulares.

Vamos dar mais um exemplo, este oferecido pelo próprio Hegel, para esclarecer ainda mais a questão. Para responder à pergunta "o que é o Agora?", vamos escrever a resposta num papel. Uma verdade não perde sua validade por ser anotada. Suponhamos que seja noite, e então escrevemos: "o Agora é noite". Quando for meio-dia, vamos pegar o papel e ler o que escrevemos. Aquilo que era verdade quando escrevemos não é mais verdade no momento em que estamos lendo. O "Agora", que era noite quando escrevemos, foi mantido ao ser escrito, como um Existente (Seiendes), mas acabou se mostrando depois como um Não-existente (Nichtseiendes). O próprio Agora, contudo, se manteve como um tal que não é noite e que também não é dia. Este Agora é, portanto, não um imediato, mas um mediado, pois ele é como um permanente através da determinação, seja do dia ou da noite. Como vemos neste exemplo e também no anterior, o que permanece é apenas o "Agora" genérico, abstrato, e não sua indicação se é dia, noite, 15 horas, 18 horas, etc.

Na Fenomenologia do Espírito a consciência continua em sua jornada rumo ao conhecimento absoluto, mas neste ponto inicial já podemos perceber que, onde parecia não haver nada, já temos duas coisas: tempo e espaço. Estes primeiros passos da reflexão já são suficientes para nos mostrar que não existe acesso imediato (sem mediação) por parte do sujeito em direção ao objeto do conhecimento.

Muita gente acredita que este seria o proceder do método científico: que ele partiria dos "fatos puros" para, só depois, construir teorias. Isso é uma grande incompreensão de como opera a ciência. Sem uma teoria prévia, que forneça um recorte da realidade, não se sabe nem mesmo o que deve ser observado em um experimento. Nem mesmo o cientista parte de "fatos puros", como se tivesse acesso imediato (sem mediações) ao real.

Quando o sujeito diz "contra fatos não há argumentos", o que ele quer dizer é que  não pode haver argumentos contra sua própria interpretação das coisas, contra a forma como ele explica determinada contingência. Nietzsche resumiu esta questão da seguinte forma: "Contra aquele positivismo, que para diante dos fenômenos dizendo 'há apenas fatos', eu digo: não, é precisamente os fatos que não existem, apenas interpretações..." O que o dogmático chama de "fatos" é, na verdade, apenas suas interpretações. Entre o sujeito conhecedor e o objeto conhecido há muito mais coisas do que pensa a vã filosofia da consciência ingênua.

Referência

LUDWIG, Ralf. Hegel für Anfänger. Phänomenologie des Geistes - eine Lese-Einführung von Ralf Ludwig. München: DTV, 1997. 

A filosofia serve para entristecer

Posted: 15.6.18 by Glauber Ataide in Marcadores:
0

Quando alguém pergunta "para que serve a filosofia?", a resposta tem que ser agressiva, pois a questão pretende ser irônica e cáustica. A filosofia não serve ao Estado ou à Igreja, que têm outras preocupações. Ela não serve a nenhum poder estabelecido. A filosofia serve para entristecer. Uma filosofia que não entristece ninguém, que não incomoda ninguém, não é uma filosofia. Ela serve para causar dano à estupidez, para transformar a estupidez em algo vergonhoso*. Sua única utilidade é expor todas as baixezas de pensamento. Há alguma disciplina, fora a filosofia, que se propõe a criticar todas as mistificações, sejam quais forem suas fontes e objetivos, para expor todas as ficções sem as quais as forças reativas não prevaleceriam? Expor como mistificação a mistura de baixeza e estupidez que cria a surpreendente cumplicidade entre vítimas e criminosos. Finalmente, tornando o pensamento em algo agressivo, ativo e afirmativo. Criar homens livres, isso é, homens que não confundem os objetivos da cultura com o benefício do Estado, da moral ou da religião. Lutar contra o ressentimento e a má consciência que nos substituíram o pensamento. Vencer o negativo e seu falso glamour. Quem tem interesse nisso a não ser a filosofia? A filosofia é, em seu essencial, uma crítica, um empreendimento de desmistificação. E não devemos ser apressados em proclamar a falha da filosofia quanto a isso. Grandes como são, a estupidez e a baixeza seriam ainda maiores se não restasse ainda alguma filosofia que as impede de crescer tanto quanto elas gostariam, que as proíbe, por assim dizer, de ser tão estúpidas e baixas como gostariam. A elas são proibidas certos excessos, mas apenas pela filosofia.

Existe, claro, uma mistificação propriamente filosófica: a imagem dogmática do pensamento e a caricatura da crítica ilustram isso. A mistificação filosófica começa, no entanto, a partir do momento que a filosofia renuncia a seu papel de desmistificadora e toma os poderes estabelecidos em consideração.

Notas

* Diógenes objetou, quando louvaram um filósofo em sua frente: "O que ele tem para mostrar que seja grande, aquele que se dedicou à filosofia por tanto tempo sem nunca entristecer ninguém?" De fato seria necessário colocar um epitáfio sobre o túmulo da filosofia universitária: "ela não entristeceu ninguém". (Nietzsche, "Schopenhauer educador")

Os filósofos antigos deram um sermão contra a estupidez: "Não vamos decidir aqui se este sermão contra a estupidez teve melhores razões do que aquele contra o egoísmo. O que é certo é que tirou da estupidez sua boa consciência; estes filósofos machucaram a ignorância". (Nietzsche, "Gaia ciência")

(DELEUZE, Gilles. Nietzsche and Philosophy. New York: Continuum, 1986, p. 106)

O orgasmo é uma pequena morte

Posted: 13.6.18 by Glauber Ataide in Marcadores:
0

Encontrei a expressão alemã "Der kleine Tod" em uma letra de música. Sua tradução literal é "a pequena morte", e percebi que seu uso ali se referia à experiência do orgasmo. Out of curiosity, quis saber se a estranha correlação já existia ou se havia sido identificada pelos músicos. Descobri que sua conotação sexual vem desde 1882, mas que já se tinha registro de seu uso em 1572.

A relação entre "morte" e "orgasmo" se dá no fato de que uma "kleine Tod" (ou "petite mort", no francês) é uma breve perda ou enfraquecimento da consciência, que é a sensação que se tem durante o orgasmo e nos instantes seguintes. É como se ao gozar o indivíduo morresse, "fosse ao céu", experimentasse a beatitude e depois retornasse à vida. Neste interessante texto, o autor argumenta que a equivalência dos termos "morte" e "orgasmo" clarifica até mesmo a noção cristã de Eternidade. "Ir para o céu", para o cristão, seria a consequência e desfecho de um infinito ato de amor. Esta relação aparece também, por acaso, na letra da música em questão. Confira:

Der kleine Tod / Lässt mich sterben / Bringt dem Himmel / Mich so nah / Der kleine Tod / Lässt mich leben / Göttergleich / Und wunderbar / Ich schreie in den schrillsten Tönen nach dir [...] Minuten für die Ewigkeit / Die Ewigkeit für uns / Komm stirb mit mir / Komm stirb mit mir und komm* / Minuten für die Ewigkeit / Die Ewigkeit für uns / Ich töte dich / Du tötest mich / Wir sterben Arm in Arm

Tradução

A pequena morte / Me deixa morrer / Me traz para / Tão perto do céu / A pequena morte / Me deixa viver / Como uma deusa / E maravilhosa / Eu grito por você nos tons mais agudos [...] Minutos para a eternidade / A eternidade para nós / Venha morrer comigo / Venha morrer comigo e venha* / Minutos para a eternidade / A eternidade para nós / Eu te mato / Você me mata / Nós morremos um nos braços do outro


Em alguns dicionários as expressões "der kleine Tod", "la petite mort" ou "the little death" já aparecem como gíria para "orgasmo". Em 2017 foi inclusive lançado um filme com este título em inglês, "The little death".

* O uso do verbo alemão "kommen" (vir) é análogo ao do inglês "come", e tem a conotação sexual de gozar. Exemplo: "Ich komme gleich", como na imagem acima, é o mesmo que "I come now", traduzido como "vou gozar agora".

O anticristo, de Nietzsche - um breve resumo

Posted: 4.6.18 by Glauber Ataide in Marcadores: , ,
0

O anticristo, de Friedrich Nietzsche, é uma das obras mais polêmicas e provocativas da história da filosofia. Redigido no verão e outono de 1888, com o filósofo já afetado pela doença que o levaria à morte, o texto teve sua primeira impressão em 1895, com o subtítulo Versuch einer Kritik des Christenthums ("Tentativa de uma crítica do cristianismo"). A idéia é que o escrito fosse a primeira parte da magnum opus que o autor estava planejando, intitulada "Transvaloração de todos os valores".

A divisão da obra em aforismos, ao mesmo tempo que confere um estilo mais livre à escrita, por vezes torna também mais difícil a sistematização do texto, seu agrupamento em temas e seu encadeamento lógico. Esta aparente simplicidade da escrita em aforismos é uma das principais razões de Nietzsche ser um dos filósofos mais "acessíveis" e lidos nos círculos de fora da filosofia, e também um dos mais distorcidos e mal-compreendidos. No resumo abaixo apontamos alguns dos principais temas abordados por Nietzsche em O anticristo a fim de de oferecer uma visão geral e abrangente da obra.

Crítica aos valores

O repúdio de Nietzsche a Cristo não pode ser entendido sem que se entenda a distinção que ele faz entre o cristianismo contemporâneo e o evangelho original, entre o Jesus de Nazaré e o Jesus de Paulo. Sua crítica ao cristianismo passa pela crítica dos valores, um dos temas que ele já havia trabalhado em obras como Genealogia da moral. Logo no início ele se pergunta: "o que é ruim?", e responde: tudo que se origina da fraqueza. "O que é bom? Tudo o que aumenta no homem o sentimento de poder, a vontade de potência, o poder mesmo".

Nietzsche critica a idéia de que o homem de hoje seria superior aos antigos, que estaria se desenvolvendo para um tipo mais elevado e superando a barbárie. Para o filósofo do martelo, essa idéia de "progresso" é uma idéia moderna, ou seja, uma idéia falsa. Os europeus de hoje, para Nietzsche, estão abaixo dos europeus da renascença em seu valor, pois desenvolvimento, em si, não tem a ver com uma necessidade de elevação, de fortalecimento. Na verdade, é contra o homem verdadeiramente forte - que não é o homem europeu moderno -, que o cristianismo fez uma guerra mortal. É preciso, por isso, não tentar embelezar o cristianismo, pois ele sempre tomou partido por tudo que é fraco.

Tudo o que o homem considera hoje virtuoso, como fruto do "progresso", da "superação da barbárie antiga", não é nada mais que decadência. Nietzsche afirma que o homem é "depravado", mas chama a atenção para o fato de que esta palavra, em sua boca, não é uma acusação moral. Ele explica que um animal, uma raça ou um indivíduo é depravado quando ele perde seus instintos, quando escolhe o que lhe é desvantajoso. A vida, em si, carrega instintos de crescimento, de auto-preservação, de poder, e onde falta a vontade de potência, há decadência. A todos os "altos valores" da humanidade faltam esta vontade.

Um desses "altos valores" seria a compaixão, termo do alemão "Mitleiden".  O prefixo "mit" significa "com", e "Leiden" significa sofrimento, dor. Compaixão, portanto, é "sofrer com", e para Nietzsche, quando alguém tem compaixão, perde força, pois a compaixão multiplica o sofrimento. A compaixão é contra a lei da seleção natural, preserva aquilo que está maduro para a decadência, para a Untergang. Schopenhauer estava certo: através da compaixão a vida é negada. A compaixão é a prática do niilismo, é multiplicadora e conservadora do sofrimento, uma ferramenta para o aumento da decadência. Segundo Nietzsche, a compaixão era uma virtude para Schopenhauer pois ele era inimigo da vida.

Não apenas a compaixão, mas a moral cristã, como um todo, é a moral do ressentimento. O ressentimento é um auto-envenenamento através da vingança inibida, sem força e sem coragem de ser levada a cabo. Nietzsche investiga o estado psicológico por trás das "virtudes" cristãs para mostrar que elas nada mais são que ressentimento, fraqueza, moral de escravo, impotência. O perdão cristão, por exemplo, nada mais é que essa incapacidade de vingança. É por ser fraco e incapaz de vingar que o cristão perdoa.  A doutrina do juízo e a condenação ao inferno mostram que na verdade não existe perdão algum por parte do cristão, mas apenas impotência. Incapazes de se vingar aqui na terra, eles lançam seus inimigos ao inferno numa vida após a morte. Um exemplo citado por Nietzsche vem de um dos principais teólogos da igreja, Tomás de Aquino, que conseguiu captar e resumir como poucos este sentimento cristão: "Beati in regno coelesti, videbunt poenas damnatorum, ut beatitudo illis magis complaceat". ("Os abençoados no reino dos céus verão as penas dos condenados, para que sua beatitude lhes dê maior satisfação"). O sadismo é parte das delícias do paraíso cristão.

Da mesma forma, ser bondoso e gentil quando na verdade alguém é apenas fraco e tímido e não poderia agir de outra maneira; ser humilde quando qualquer outro comportamento teria repercussões desprazerosas; ou ser prestativo quando outro gesto provocaria um chute do senhor ou uma chibatada, tudo isso é apenas moral de escravo, uma transformação do que é necessidade em virtude.

Guerra aos teólogos

Nietzsche afirma que sua crítica é direcionada aos teólogos, ou a tudo que tem sangue de teólogo, como a filosofia alemã. É a este "instinto de teólogo" que ele faz guerra. O que um teólogo considera verdadeiro, isso necessariamente será falso, de modo que tem-se aqui praticamente um critério de verdade: se um teólogo diz que algo é verdadeiro, então é falso; se ele diz que é falso, então é verdadeiro. Para Nietzsche, o teólogo inverte os valores de tal maneira que tudo o que rebaixa a vida e a fere, isso ele chama "verdadeiro", e tudo o que, ao contrário, a afirma, a eleva, a faz triunfar, isso ele considera falso.

Em contraposição aos valores dos teólogos, o que "nós, os espíritos livres, queremos", afirma Nietzsche, é a "transvaloração de todos os valores" ("Umwertung aller Werte"). Os espíritos livres não consideram mais os homens como derivados de um conceito, de um espírito, de uma divindade, mas os colocam novamente entre os animais. No cristianismo, a moral e a religião se afastaram da realidade de tal maneira que todas as suas causas e efeitos são imaginários. Exemplos de causas imaginárias: Deus, alma, espírito, eu, livre arbítrio, etc. Seus efeitos imaginários: pecado, redenção, misericórdia, juízo, etc.

Deus como projeção

Nietzsche tem um conceito de Deus como projeção mas, ao contrário do filósofo alemão Ludwig Feuerbach, para quem Deus era a projeção dos melhores atributos humanos, Deus é, para Nietzsche, a projeção de um povo. Em Feuerbach, a projeção é metafísica, abstrata. Em Nietzsche, a projeção é materialista, histórica.

Um povo que ainda acredita em si tem também seu próprio Deus, projeta nele as condições que o fez estar por cima, seus valores, seu prazer, seu sentimento de potência em um ser ao qual eles possam agradecer. Quem é rico quer doar (abgeben), de modo que um povo orgulhoso precisa de um deus para ofertar, para sacrificar. Tal deus precisa ser capaz de servir e também causar dano, de tanto ser amigo quanto inimigo. Quando analisamos, por exemplo, os deuses dos vikings, fica clara a relação entre o espírito deste povo e seus deuses, de como suas divindades expressavam e legitimavam seus  valores. A história de Israel também será refletida em seu deus, como veremos a seguir.

A transformação do conceito de Deus

Para Nietzsche, a castração antinatural de deus como apenas "bom" representa a perda da fé de um povo em seu futuro. É um processo que se desencadeia quando se é derrotado, quando os valores da derrota precisam entrar na consciência como condições de preservação.

A história dos judeus deixa isso claro. Quando o povo estava em Canaã, seu deus era forte. Era o Deus que ordenou entrar na terra, matar a todos, inclusive mulheres e crianças, e tomar posse. Muitos séculos depois, quando os judeus se encontravam exilados na Babilônia, houve uma transformação: aquele deus antigo de guerra se tornou em um deus bom, do amor, do perdão.

Nietzsche afirma que não se pode chamar de "evolução" a transformação do deus de Israel no deus cristão. O deus cristão é o deus da decadência, o deus dos fracos que não se reconhecem enquanto fracos, mas que se chamam de "bons".

Aquele que era o deus de um povo (judeu) se tornou o deus universal, cosmopolita. Este deus se tornou o democrata entre os deuses, mas não deixando nunca de ser judeu. Se tornou o deus das esquinas. Seu reino, para Nietzsche, é como um hospital, um reino subterrâneo, um gueto-reino.

Deus como aranha

O conceito cristão de deus foi tão alterado ao longo de toda a história que deus acabou se tornando aranha. Os senhores da metafísica, os filósofos e teólogos, teceram tanto em torno de si que deus se transformou em "ideal", "espírito puro", "coisa em si", sub specie spinozae. Para entender esta curiosa metáfora nietzscheana do deus-aranha, vejamos o trecho no original alemão:

"Der christliche Gottesbegriff — Gott als Krankengott, Gott als Spinne, Gott als Geist — ist einer der korruptesten Gottesbegriffe, die auf Erden erreicht worden sind..."

("O conceito cristão de deus - deus como deus dos doentes, deus como aranha, deus como espírito - é um dos mais corruptos conceitos de deus que já surgiram sobre a terra.")

Como podemos ver destacado em negrito, a palavra alemã para "aranha" é Spinne. No contexto desta passagem Nietzsche está falando sobre a decadência do conceito judaico de Deus, que a ideia de Deus foi se tornando cada vez mais fraca, mais pálida, etérea, até que praticamente se dissolveu, tornando-se "o nada divinizado". Nietzsche afirma que Deus se transformou então em Spinne, em aranha, mas não uma aranha qualquer: ele se tornou uma aranha sub specie Spinozae.

A referência de Nietzsche é ao conceito de Deus desenvolvido pelo filósofo holandês Baruch de Spinoza, que também era judeu. Associa-se geralmente a ele uma espécie de panteísmo, uma identificação de Deus com a natureza, embora esta interpretação seja contestada por alguns estudiosos do filósofo holandês. Dessa forma, Deus, sendo tudo, é ao mesmo tempo nada, pois é  indistinto de qualquer coisa em particular. Como articulou Hegel em sua Ciência da Lógica, "o ser e o nada são o mesmo". O puro ser, a pura abstração, é também o nada.

O deus-aranha de Nietzsche é um deus metafísico, um espírito puro que acabou se tornando "coisa em si". Esta última referência é a Kant, embora seja importante ressaltar que, para o filósofo de Königsberg, Deus não é "coisa em si", mas sim uma "ideia da razão". Para Nietzsche, os metafísicos, ao passar dos séculos, se apropriaram, tornaram-se "senhores" do conceito de Deus e trabalharam tanto nele, "teceram durante tanto tempo em seu redor", que o próprio Deus foi "hipnotizado pelos seus movimentos" e acabou se transformando em uma aranha da espécie Spinozae.

História do cristianismo

Nietzsche analisa o cristianismo como um desenvolvimento do judaísmo, como tendo nascido de seu solo e sendo sua continuação. Para mostrar esta linha de continuidade, ele inicia fazendo alguns apontamentos sobre a história dos judeus, que ele considera como "o povo mais notável da história mundial". Diante da escolha de ser ou não ser, o judeu escolheu ser a qualquer preço, e este preço foi a radical falsificação de toda a natureza, de toda a realidade, tanto do mundo interior quanto do exterior.

A história de Israel seria inestimável enquanto exemplo de história típica de toda desnaturalização dos valores da natureza. No tempo dos reis, Israel estava, em todas as coisas, na posição correta, na relação correta. Seu Javeh era expressão da consciência de potência, a alegria em si. Era o deus da justiça (Gerechtigkeit). Já nos tempos dos profetas, havia esperança de um rei que fosse um bom soldado e um juiz, sobretudo aquele típico profeta (Isaías). Essa esperança não foi realizada, e como o deus antigo não mais podia continuar como era, os judeus "desnaturalizaram" seu conceito. A moral não mais era expressão da vida e condição de crescimento do povo, mas se tornou abstrata, contraditória com a própria vida. O cristianismo surgiu deste solo falso, de uma concepção de Deus que há havia sido desnaturalizada pelos judeus, e deu continuidade à falsificação deste Deus.

Para Nietzsche, a própria palavra "cristianismo" já é um erro - na verdade só houve um cristão, e ele morreu na cruz. O próprio evangelho morreu na cruz, e o que desse momento em diante se chamou de "evangelho" foi, na verdade, o contrário dele, um "disangelho".

Muitos crentes pensam que ser cristão consiste em acreditar em certas doutrinas, em "ter uma fé".  Para Nietzsche, todavia, é um completo nonsense (Unsinn), uma grande bobagem achar que o simples acreditar em uma doutrina na salvação através de Cristo seria aquilo que define (abzeichen) o cristão. Só a prática cristã, uma vida como a vida daquele que morreu na cruz é, de fato, cristã. Para Nietzsche, a vida cristã é um fazer, não uma crença.

Transformar o cristianismo em um Für-wahr-halten, isso é, num "tomar algo como verdadeiro", reduzí-lo a uma pura fenomenalidade de consciência, significa negar o cristianismo. Na verdade, não existe nenhum cristão. O cristão, ou o que tem sido chamado assim nos últimos dois mil anos, é apenas uma auto-incompreensão psicológica.

O que tem sido chamado de "fé" sempre foi apenas um manto, uma cortina atrás da qual os instintos jogaram seu jogo, uma astúcia, uma "esperteza" (Klugheit) cristã. A fé encobre que age-se sempre por instinto. Paulo, por exemplo, queria o poder, e por isso também os meios para isso. Sua finalidade e necessidade eram o poder, mas ele podia usar apenas conceitos, símbolos e doutrinas para tiranizar as massas, e criou algo que mais tarde seria tomada de empréstimo por Mohammed para exercer a tirania sacerdotal: a fé na imortalidade, ou seja, a doutrina do juízo.

O que Paulo levou a cabo com o cinismo lógico de um rabino foi apenas a continuidade do que começou com a morte do redenor. O cristianismo é a arte de mentir santamente ("der Kunst, heilig zu lügen"). O cristão é a ultima ratio da mentira, é três vezes judeu.

Exemplos bíblicos da corrupção cristã

Nietzsche afirma que lê poucos livros com tanta dificuldade quanto os evangelhos. O filósofo do martelo cita diversos trechos bíblicos para mostrar como os ensinamentos de Jesus foram distorcidos já em sua própria redação. Estas passagens mostram o que aquela "gentalha" - isso é, os primeiros cristãos - colocou na boca de seu mestre. Ele chama os trechos abaixo, ironicamente, de "confissões de 'almas belas'".

- "E se alguns vos não receberem e ouvirem, saí dali e sacudi o pó dos vossos pés, em testemunho contra eles. Em verdade vos digo, Sodoma e Gomorra serão no dia de juízo tratadas com menos rigor do que essa cidade" (Mc VI, l 1). 

Comentário de Nietzsche: "Que evangélico!..."

- "E quem escandalizar um destes pequeninos que em mim crêem, seria melhor que lhe pusessem ao pescoço a mó de um moinho e o lançassem ao mar" (Mc IX, 42). 

Comentário de Nietzsche: "Que evangélico!..."

- "E se o teu olho te escandaliza, lança-o fora. Melhor é entrares no reino de Deus com um só olho do que, tendo ambos os olhos, seres lançado no fogo do inferno, onde o seu verme não morre e o fogo não se extingue" (Mc IX, 46 e 47). 

Comentário de Nietzsche: "Não é justamente do olho que se trata..."

- "Em verdade vos digo: há alguns aqui presentes que não morrerão antes de verem chegar o Reino de Deus no seu poder" (Mc IX, 1). 

Comentário de Nietzsche: "Que bem que mente, o leão..."

- "Quem quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Porque..." (Mc VIII, 34)

Comentário de Nietzsche: "(Observação de um psicólogo: a moral cristã encontra-se refutada pelos seus porque; as suas 'razões' refutam – eis o que é cristão)."

- "Não julgueis, para não serdes julgados. Com a medida com que medirdes vos será medido" (Mt VII, 1).

Comentário de Nietzsche: "Que conceito de justiça de um juiz 'íntegro'!..."

- "Porque, se amais os que vos amam, que recompensa tereis disso? Porventura não fazem o mesmo os publicanos? E se saudais só os vossos irmãos, que fazeis nisso de extraordinário? Acaso não o fazem também os publicanos? (Mt V, 46). 

Comentário de Nietzsche: "Princípio de 'amor cristão': quer, ao fim e ao cabo, ser bem pago..."

- "Mas se não perdoardes aos homens as suas ofensas, também o Pai Celeste vos não perdoará as vossas" (Mt VI, 15).

Comentário de Nietzsche: "Muito comprometedor para o 'Pai' mencionado..."

- "Buscai primeiramente o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo" (Mt VI, 33).

Comentário de Nietzsche: "Todas essas coisas, a saber: alimentos, vestuário, todas as necessidades da vida. Um erro, para sem pretensões nos expressarmos... Pouco antes, Deus surge como alfaiate, pelo menos em certos casos..."

- "Alegrai-vos então e exultai: pois vede, será grande no céu a vossa recompensa. Desse modo é que procediam os pais deles com os profetas " (Lc VI, 23).

Comentário de Nietzsche: "Canalha sem vergonha! Compara-se já aos profetas..."

- "Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Ora, se alguém maltrata o templo de Deus, Deus maltratá-lo- á. Porque o templo de Deus é sagrado, e tal templo sois vós" (Paulo, I Cor 3, 16). 

Comentário de Nietzsche: "Não há desprezo bastante para coisas assim..."

- "Acaso não sabeis que os santos julgarão o mundo? E se é por vós que o mundo vai ser julgado, seríeis então ineptos para julgar as coisas mínimas?" (Paulo, I Cor 6, 2).

Comentário de Nietzsche: "Infelizmente, não é apenas o discurso de um louco internado... Este horrível impostor prossegue literalmente: 'Não sabeis que julgaremos os anjos? Quanto mais os bens temporais'!..."

- "Não tornou Deus, por acaso, estulta a sabedoria deste mundo? Efetivamente, já que o mundo, com toda a sua sabedoria, não conheceu Deus nas obras da sabedoria divina, foi por meio da loucura da pregação que aprouve a Deus salvar os crentes. Não foram chamados muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos nobres. Mas, pelo contrário, os que são loucos aos olhos do mundo é que Deus escolheu para confundir os sábios; e os que são fracos perante o mundo é que Deus escolheu para confundir os fortes. E os vis e desprezados pelo mundo é que Deus escolheu: em suma, as coisas que não existem, a fim de reduzir a nada as que existem. Para que nenhuma carne se possa gloriar diante de Deus" (Paulo, I Cor l, 20 ss.). 

Comentário de Nietzsche: "Para compreender esta passagem, um testemunho de primeiríssima ordem para a psicologia de toda a moral tchandala, leia-se o primeiro ensaio da minha Genealogia da Moral: aí realcei pela primeira vez a oposição entre uma moral e uma moral de tchandala, nascida do ressentiment e da vingança impotente. Paulo foi o maior de todos os apóstolos da vingança..."

Nietzsche conclui que é preciso calçar luvas para ler o novo testamento, pois haveria ali apenas maus instintos, e todo e qualquer livro se tornaria limpo após sua leitura. Este deus de Paulo é que Nietzsche nega, usando a fórmula latina deus, qualem Paulus creavit, dei negatio. "Se alguém nos provasse este deus cristão", afirma Nietzsche, "acredtiaríamos ainda menos nele".

A guerra do cristianismo contra a ciência

Uma religião como o cristianismo, que não tem nenhum ponto de contato com a realidade, só poderia ser inimiga mortal da "sabedoria deste mundo", isso é, da ciência. O início da bíblia é claro quanto a isso, quanto ao medo mortal de "deus" diante da ciência. Usamos a palavra "deus" entre aspas pois aqui ela é apenas uma referência aos próprios sacerdotes que escreveram os textos bíblicos. Quando os autores bíblicos escrevem "deus" eles se referem, na verdade, a eles próprios.

Assim teria começado a história da humanidade, segundo os sacerdotes que escreveram a bíblia. O deus antigo, puro espírito, puro sumo sacerdote, andava entediado pelo jardim, e então houve o primeiro erro de deus: ele não achou os animais divertidos (unterhaltend), e decidiu que o homem deveria reinar sobre eles, ao invés de ser apenas mais um entre eles.

Então vem o segundo erro de deus: a mulher. Ela não seria, contudo, um erro qualquer, mas aquele do qual viria o único e verdadeiro pecado: a ciência. Pela mulher o homem conhece a árvore do conhecimento, e deus é tomado de grande medo. O próprio homem se tornou um erro, um rival, pois a ciência iguala o homem a deus. Moral da história: a ciência é o "proibido em si". A ciência é o primeiro pecado, o pecado original. O único mandamento moral do judaísmo e do cristianismo é: "tu não deves conhecer". Todo o resto se segue daí.

Mesmo com medo, deus continua astuto e pensa em como se proteger da ciência. Sua descoberta é compartilhada por todos os tiranos: é necessário expulsar o homem do paraíso, acabar com seu ócio, pois o ócio suscita pensamentos, e pensar é ruim... para os tiranos.

O trabalho do conhecimento, porém, continua fora do paraíso, se eleva ao céu (Torre de Babel), e então o velho deus manda a guerra e separa os povos. Mas a emancipação em relação aos sacerdotes continua mesmo depois disso, e deus toma uma última decisão: é preciso afogar o homem (dilúvio).

Para Nietzsche, o início da bíblia contém toda a psicologia do sacerdote, o qual conhece um único perigo: a ciência, a sabedoria, o conhecimento.

Conclusão: o cristianismo é a doença

Para Nietzsche, ninguém se torna cristão livremente, pois é preciso estar doente o suficiente para isso. Assim, o ideal cristão de ir a todo o mundo e pregar o evangelho é o projeto da igreja de transformar o mundo inteiro em um hospício. Qualquer visita a um hospício irá mostrar que a fé não move montanhas, mas que as coloca onde não existiam.

Em dois mil anos de cristianismo ninguém entendeu suficientemente o símbolo cristão: Deus na cruz. Este símbolo quer dizer que tudo que sofre, tudo que pendura na cruz, é divino. O cristão pensa: "todos nós estamos pendurados na cruz, logo, somos divinos... apenas nós somos divinos!".

O julgamento de Nietzsche é que o cristianismo é a maior corrupção, a maior desgraça que já aconteceu à humanidade. A igreja é o anticristo que perverteu o chamamento original de Cristo a romper com pai e mãe e se tornar perfeito: ela vendeu Cristo a César.

Em um texto anexo a algumas edições de O anticristo, Nietzsche proclama as leis contra o cristianismo. Elas não eram para o seu tempo, mas para futuras gerações. Suas reflexões acerca da morte de Deus já haviam diagnosticado o alvorecer de uma nova era, e Nietzsche sempre se considerava escrevendo para a posteridade. Nas primeiras páginas de O anticristo ele advertia que seu livro pertencia a poucos, e que seus verdadeiros leitores talvez ainda nem tivessem nascido.


Lei contra o cristianismo

Dada no dia da Salvação, primeiro dia do ano Um 
(a 30 de Setembro de 1888 pelo falso calendário)

Guerra de Morte ao Vício:
O Vício é o Cristianismo

Artigo Primeiro - É viciosa qualquer forma de contranatureza. A mais viciosa espécie de homens é o padre: ele ensina a contranatureza. Contra o sacerdote não se usam argumentos, usa-se a prisão.

Artigo Segundo - Toda a participação num ofício divino é um atentado contra a moral pública. Seremos mais implacáveis contra os protestantes do que contra os católicos, mais duros contra os protestantes liberais do que contra um fundamentalista. Quanto mais próximo se está da ciência, maior é o crime de se ser cristão. Por conseguinte, o maior dos criminosos é o filósofo.

Artigo Terceiro - O lugar maldito onde o cristianismo chocou os seus ovos de basilisco* será completamente arrasado e, sendo sobre a Terra o local sacrílego, constituirá motivo de pavor para a posteridade. Nele serão criadas serpentes venenosas.

Artigo Quarto - A pregação da castidade é uma incitação pública ao antinatural. Desprezar a vida sexual, enxovalhá-la com a noção de "impuro", esse é o verdadeiro pecado contra o Espírito Santo da vida.

Artigo Quinto - Comer à mesa com um sacerdote exclui-vos, fazendo-o excomungam-se da proba sociedade. O sacerdote é o nosso tchandala - será proscrito, privado de alimentos, expulso para todo o tipo de deserto.

Artigo Sexto - Dar-se-á à história "sagrada" o nome que ela merece, isto é, história maldita; as palavras "Deus", "Salvador", "Redentor", "Santo" serão usadas como insultos, para com elas execrar os criminosos.

Artigo Sétimo - O resto nasce aqui.


Em nome de Deus: a história de Abelardo e Heloísa

Posted: 10.5.18 by Glauber Ataide in Marcadores: , ,
0

Meu primeiro contato com a história do filósofo medieval Pedro Abelardo (1079-1142) foi através do filme Em nome de Deus (1988). Comprei o DVD à época apenas pelo fato de gostar de histórias ambientadas na idade média, sem ter idéia do que encontraria pela frente. Inclusive, ao escrever o presente texto, me lembrei de uma postagem que fiz neste blog em 2010 relatando esta experiência.

Alguns anos depois, e sem nenhuma conexão com a película, comprei um volume da coleção Os pensadores com textos de outro filósofo do período, Anselmo de Aosta, pois na época estava escrevendo um artigo acadêmico sobre seu argumento ontológico. Por coincidência, naquele volume havia também textos de Pedro Abelardo, incluindo a carta autobiográfica A história das minhas calamidades. Só então descobri, de maneira totalmente acidental, que este texto era a base do filme, e fiquei feliz pela coincidência. O romance e a tragédia de Abelardo e Heloísa seriam obras de um genial escritor ou dramaturgo não fosse o fato de que tudo aconteceu de verdade. Como sempre é o caso, há algumas diferenças entre o livro e o filme, e o resumo que faço abaixo se baseia na carta de Abelardo.

A história de minhas calamidades

Pedro Abelardo escreveu A história das minhas calamidades para oferecer consolo a um amigo que passava por tribulações. Seu intuito era aliviar o destinatário, mostrando-lhe que as coisas pelas quais ele próprio tinha passado foram muito piores. Às vezes, ao perceber que há pessoas em situação pior que a nossa, tendemos a nos sentir menos desafortunados. Como diz o velho ditado, "desgraça compartilhada é meia felicidade".

Abelardo inicia fazendo uma breve retrospectiva de toda a sua vida. Conta que nasceu em um lugarejo chamado Le Pallet, situado na entrada da pequena Bretanha, e que desde pequeno se destacava pela vivacidade de seu espírito e pela facilidade no estudo das letras. Seu pai, antes de se tornar soldado, foi "um pouco versado nas letras", de modo que isso o levou a instruir os filhos nos livros antes mesmo dos exercícios militares.

Tendo preferido a lógica e a dialética a todos os ensinamentos de filosofia, o jovem Abelardo travava debates onde quer que passasse, e a facilidade e a destreza com que o fazia encantava a todos. Quando chegou a Paris, se tornou discípulo de Guilherme de Champeaux, que já gozava de certa fama e autoridade na arte da dialética. Abelardo, ciente de suas próprias capacidades e impulsionado talvez pela típica arrogância juvenil, tentava refutar as opiniões de seu mestre, o que causava indignação até mesmo entre seus condiscípulos. Como resultado, Abelardo passou a ser perseguido e foi expulso da escola.

Na mesma época, outro mestre também já tinha um nome de grande reputação: era Anselmo de Laon. Abelardo foi então ter com ele, mas logo percebeu que a fama deste vinha mais pelo acúmulo de experiência do que por um natural brilhantismo. A relação entre ambos foi se desgastando à medida que Abelardo se destacava, de modo que Anselmo passou a perseguir Abelardo, que precisou deixar também o segundo mestre.

Retornando agora para Paris, o filósofo francês finalmente trinfou. Foi admitido como professor no colégio onde havia sido expulso, e suas aulas eram frequentadas por grande número de alunos. O sucesso, porém, fez com que o filósofo se afastasse do estilo de vida que, segundo ele, deveria ser o de um filósofo ou cristão. Abelardo conta que nunca gostou de prostitutas, e que também se mantinha retraído do convívio com mulheres nobres, mas uma jovem iria mudar para sempre sua história.

O amor por Heloísa

Havia em Paris uma "mocinha" chamada Heloísa, muito versada nas ciências das letras, e sobrinha de um cônego de nome Fulberto. A erudição da jovem era incomum para as mulheres da época. Heloísa era dona de um espírito agudo, uma mente brilhante, e sua fama logo correu por todo o reino. Abelardo se interessou por ela e buscou uma forma de se aproximar. Tendo em vista o prestígio de que gozava como professor, sua boa aparência e também sua juventude, o filósofo considerou que não seria repelido por qualquer mulher a quem ele dignasse favorecer com seu amor, e resolveu investir em Heloísa.

Inicialmente eles se corresponderam através de cartas, o que lhes permitiu tocar em assuntos que não teriam coragem se estivessem de viva voz. Abelardo sentiu então que queria se aproximar ainda mais, e entrou em contato com o tio da moça, através de alguns amigos, solicitando alugar um quarto em sua casa. A desculpa era que assim ele ficaria mais próximo da escola onde lecionava, e que sua sobrinha também se beneficiaria deste acordo pois teria aulas particulares com um dos maiores professores de Paris. O tio cedeu facilmente e deixou Heloísa totalmente à disposição de Abelardo. Deu-lhe inclusive permissão para castigá-la, caso ela fosse negligente em seus estudos.

A união entre ambos se deu primeiramente numa casa e, com o tempo, também no espírito. "Assim", conta Abelardo, "com a desculpa do ensino, nós nos entregávamos inteiramente ao amor, e o estudo da lição nos proporcionava as secretas intimidades que o amor desejava. Enquanto os livros ficavam abertos, introduziam-se mais palavras de amor do que a respeito da lição, e havia mais beijos do que sentenças; minhas mãos transportavam-se mais vezes aos seios do que para os livros."

O comportamento de Abelardo mudou. Dar aulas se tornou um aborrecimento, e sua dedicação à filosofia também diminuiu. As noites acordadas nos braços de Heloísa tornavam difícil permanecer desperto em sala de aula, e suas lições eram repetidas mecanicamente, sem a vivacidade de outrora.

Os amantes são descobertos

Mesmo que o traído seja o último a saber, uma hora ele acaba sabendo. Depois de alguns meses, o tio de Heloísa descobriu, relutante, a relação entre Abelardo e a sobrinha, que se dava dentro de sua própria casa, debaixo do seu nariz.

Para agravar a situação, Heloísa ainda descobriu que estava grávida, e então teve que fugir. Sua fuga foi arranjada por Abelardo em uma noite em que seu tio não estava em casa, e ela foi morar com a irmã de Abelardo, onde seu filho Astrolábio nasceu.

O tio Fulberto se sentiu extremamente envergonhado, humilhado, e quase ficou louco. Buscava uma forma de matar ou mutilar Abelardo, mas a fama e a cautela do filósofo lhe serviam de escudo. Tentando reparar ou, pelo menos, amenizar a situação, Abelardo procurou Fulberto e propôs se casar com Heloísa, contanto que a união permanecesse em segredo para não prejudicar a carreira do filósofo. Desde Sócrates e sua terrível esposa Xantipa o matrimônio não é bem visto para os filósofos.

Heloísa, contudo, não aceitou o pedido de casamento. Não aceitou justamente por amor a Abelardo, pois sabia o que isso representava para sua reputação, e como ele seria prejudicado por esta decisão. Ademais, no entender de Heloísa, eles já estavam suficientemente unidos em corpo e alma, e tal ato não iria aplacar a ira de seu tio, que ela conhecia muito bem. Não sendo capaz, contudo, de convencer Abelardo, certa noite eles voltaram a Paris e se casaram secretamente de madrugada em uma igreja, com a presença do tio Fulberto e de alguns amigos.

Não cumprindo com sua palavra e buscando vingança para sua desonra, o tio de Heloísa divulgou o matrimônio, e a relação com a sobrinha ficou ainda mais estremecida. Abelardo a enviou então para uma abadia de monjas, a mesma na qual ela havia sido educada quando criança. Isso foi interpretado por Fulberto como outra afronta à família, pois imaginavam que Abelardo queria apenas se desfazer da moça, e então sua desforra foi cruel.

A mutilação

Certa noite, subornando o criado de Abelardo, alguns homens conseguiram entrar na casa do filósofo e lhe castraram, amputando o membro com o qual ele tinha provocado a ira de Fulberto. Dois dos criminosos foram presos, e a punição destes consistiu em ter o pênis e também os olhos arrancados. Um desses infelizes foi o servo traidor.

Na manhã seguinte, com a notícia se espalhando, houve grande comoção, espanto, estupefação. Segundo Abelardo, a lamentação de seus alunos e dos clérigos era mais intolerável que a dor física. A compaixão de que era objeto lhe incomodava mais que a própria ferida.

A humilhação da castração tornou Abelardo uma "aberração" a seus próprios olhos, e então ele decidiu que não mais poderia ensinar em Paris e que entraria para uma ordem monástica. Heloísa seguiu o amante e também ingressou num mosteiro.

Diversos clérigos pediram então a Abelardo que voltasse a ensinar, mas dessa vez por amor a Deus, já que anteriormente ele o fazia apenas pela ambição do dinheiro ou do louvor. Ele aceitou, mas logo surgiram problemas entre o filósofo e os abades, de modo que ele se retirou para uma casinha afastada no campo. Ali acorria uma multidão de estudantes que o local mal comportava, sedenta pelas lições do filósofo e teólogo.

O livro proibido e queimado

Totalmente dedicado agora ao ensino, Abelardo escreveu um livro intitulado Sobre a unidade e a trindade de Deus, com o qual pretendia registrar o que ensinava a seus alunos. Seus desafetos, porém, denunciaram a obra por heresia, e Abelardo foi levado a julgamento. Nada foi encontrado no texto que justificasse a acusação, mas a pressão para condenar Abelardo foi tal que não lhe foi permitido nem mesmo falar em juízo. Seus inimigos temiam que sua grande habilidade oratória pudesse escancarar definitivamente toda a farsa do processo. Nem a pressão dos alunos e nem a fragilidade das acusações puderam impedir a vitória dos detratores de Abelardo. A obra foi condenada e ele próprio teve que lançar seu livro à fogueira.

As perseguições não pararam depois disso. Tanto era o ódio dirigido contra o filósofo que, certa vez, alguns monges chegaram a colocar veneno em um cálice com o qual ele iria celebrar a missa. Em outra oportunidade, envenenaram a comida, e Abelardo só não morreu porque evitou a refeição, que acabou vitimando outro monge. Até mesmo salteadores foram pagos para lhe armarem emboscadas na estrada. Um exemplo de amor cristão.

O final da vida

Abelardo e Heloísa viviam separados já a algum tempo quando o abade de São Dionísio reclamou como propriedade sua a abadia de Argenteuil, expulsando de lá Heloísa e todas as suas companheiras. Ao saber disso, Abelardo lhe ofereceu o Oratório do Paráclito, um prédio deserto que havia sido construído pelo próprio Abelardo em 1122 e que ele havia abandonado ao ser eleito abade de Saint-Gildas-de-Rhuys. A doação incluiu todas as dependências e teve a aprovação do Papa Inocêncio II.

Abelardo passou a visitar as monjas com frequência, fazendo-lhes pregações especiais. Não demorou muito, porém, até que as más línguas começassem a difamá-lo e, a fim de preservar Heloísa e suas companheiras, ele se afastou do Paráclito. A comunicação entre Abelardo e Heloísa continuou através de cartas, as quais sobreviveram e estão disponíveis hoje em forma de livro. 

Vingança, inveja, amor, ódio, tragédia: são estes os ingredientes que fizeram da vida de Pedro Abelardo uma verdadeira história de calamidades. Não fosse tudo isso, talvez só nos restasse dele hoje suas obras sobre Lógica, e também não saberíamos que mulher extraordinária e à frente de seu tempo foi Heloísa. A relação entre ambos foi um exemplo do verdadeiro amor platônico, isso é, de um amor que é também carnal, erótico, inspirado por Eros em todos os seus momentos, e no qual um amante melhora a alma do outro através da filosofia, através do amor ao saber. Se o sofrimento de um artista pode ser sublimado para formar belas obras de arte, aqui foi um sofrimento real que produziu uma magnífica história de amor.

Abelardo morreu em 21 de abril de 1142, e foi enterrado no Paráclito. Heloísa faleceu em 16 de maio de 1164, e seus restos mortais foram depositados ao lado de Abelardo, e desde então permanecem juntos por mais de oito séculos. Após diversas mudanças de local, os eternos amantes medievais se encontram hoje no cemitério de Père Lachaise, em Paris. 

Albert Einstein e a filosofia - carta a Moritz Schlick

Posted: 4.5.18 by Glauber Ataide in Marcadores:
0

Conta-se que Einstein, aos 15 anos de idade, já tinha lido as três críticas de Kant: a Crítica da razão pura, a Crítica da razão prática e a Crítica do juízo. Sua relação com a filosofia, ao que parece, durou por toda a vida. Nesta carta ao filósofo Moritz Schlick, Einstein afirma que, sem seus estudos filosóficos, ele muito provavelmente não teria descoberto a teoria da relatividade especial. Para o gênio da física era clara a relação da filosofia com a ciência.

"Você também reconheceu corretamente que esta linha de pensamento teve grande influência sobre meu esforços, especificamente [Ernst] Mach e ainda mais [David] Hume, cujo "Tratado sobre a natureza humana" eu estudei com paixão e admiração pouco antes de descobrir a teoria da relatividade [especial]. Muito provavelmente eu não teria chegado à solução que cheguei sem estes estudos filosóficos."

(Carta de Albert Einstein a Moritz Schlick, 14 de dezembro de 1915)


O que é amor platônico?

Posted: 29.4.18 by Glauber Ataide in Marcadores:
0

O amor platônico não é um amor idealizado, distante, em que o amante não revela seu desejo à pessoa amada, sem contato físico ou relação sexual. Esta visão do amor, na verdade, devemos muito mais ao romantismo do que propriamente a Platão1.

Para compreendermos o que o filósofo grego entendia por amor, voltemo-nos para a obra em que ele mais se ocupa do tema, que é O banquete. O livro tem este título porque o diálogo se passa literalmente em um "banquete", no qual vários convidados estão discutindo o tema do amor e apresentando suas opiniões. A tradução  "banquete", porém, é enganosa, pois o nome grego original é "Symposia", que se referia a um tipo de festa na antiga Atenas que não envolvia a consumação de comida, mas apenas de bebidas. As pessoas comiam antes de participar destes eventos, chegando lá já satisfeitos. Em português, o termo "banquete" se refere principalmente à comida, o que acaba encobrindo e desvirtuando um pouco o significado original. 

Nestes "simpósios", os convidados bebiam, conversavam e se divertiam na companhia de cortesãs que aumentavam a temperatura sexual do ambiente. Havia também pelo menos um flautista que fazia música de fundo, e os convidados passavam de boca em boca taças de vinho algumas vezes decoradas com imagens eróticas. Não se sabe ao certo o quanto de relações sexuais havia nestes eventos, mas é certo que a atmosfera era de conversa relaxada e tensão erótica ao mesmo tempo.

O "simpósio" de Platão, contudo, é um pouco diferente dos simpósios reais de sua época. Em sua obra, os participantes já começam estando de ressaca por causa de uma celebração realizada no dia anterior, e eles decidem não beber muito naquele dia. O flautista é mandado embora, não há cortesãs e a conversa não é espontânea, já que cada um deve fazer um discurso sobre um tema pré-escolhido: o amor.

Cada um dos participantes apresenta, então, um discurso sobre o amor. Um dos mais interessantes é o de Aristófanes, famoso na Atenas de sua época e autor da obra As nuvens. Segundo o mito que ele apresenta, os humanos eram inicialmente divididos em três espécies, ou três tipos: homens, mulheres e andróginos (seres que possuíam ambos os sexos). Certo dia, devido à arrogância que os levou a atentar contra os deuses, os humanos foram punidos por Zeus e divididos ao meio. Desde então, cada um busca sua outra metade, de modo que os que eram totalmente homens buscam sua outra metade homem, os que eram totalmente mulheres buscam sua outra metade mulher, e os que eram andróginos buscam sua outra parte do sexo oposto. Este mito de Aristófanes explicaria por que cada um busca se "completar" no amor, ou seja, mostra que o objetivo do amor é encontrar a outra metade há muito perdida.

Sócrates é o último a falar. O discurso apresentado pela boca do filósofo grego é, provavelmente, a própria versão de Platão sobre o tema. Segundo Sócrates, o amor (Eros) é filho de Poros (recurso, riqueza, fartura) e Penia (pobreza, necessidade, falta), tendo os atributos de ambos. De maneira geral, o que Sócrates afirma é que a isca do amor é a beleza. Eros incita os amantes pelo atrativo da beleza, de modo que, no início de um relacionamento, é a beleza dos corpos o que atrai primeiro. A beleza é aquilo que se percebe e se sente antes ser capaz de pensar, de refletir, de raciocinar. É algo automático, inconsciente, involuntário. A beleza não é, contudo, apenas a isca: ela é, no final das contas, tudo o que o amor busca, e não apenas no amor sexual, mas em todas as áreas da vida.

A beleza se faz presente não apenas em um amante, mas em vários corpos, os quais podem ser amados ao longo de um tempo ou simultaneamente. A isca é literalmente a beleza. Em épocas de relacionamentos através de aplicativos isso é muito claro: pela tela de um smartphone escolhe-se, pela foto apenas, um potencial parceiro. O que importa neste primeiro momento é apenas a imagem, a forma física, a beleza, sem conhecer nada mais do indivíduo, sem nem ao menos ouvir sua voz.

Todos os corpos belos são perecíveis, e o que os amantes buscam, no final das contas, é a beleza duradoura. O que querem as pessoas ao buscar diversos parceiros belos no decorrer de toda uma vida? Eles buscam aquilo que é partilhado por todos os corpos belos, que é a própria forma do Belo. O Belo em si não é encontrado, todavia, por um processo de abstração. Esta é uma leitura muito comum e equivocada que se faz de Platão. Para o filósofo grego, o Belo não é um conceito, ou apenas uma entidade linguística ou mental. O Belo é, na verdade, um eidos, uma forma, uma essência, com existência que não é a existência de um conceito, como em Aristóteles. O Belo tem estatuto ontológico para Platão.

Quando os amantes percebem que eles próprios são perecíveis, e que também o amor é, de certa forma, finito, eles começam a trabalhar no sentido de superar essa finitude. O amor, enquanto trabalho de Eros, não é apenas o amor ou o desejo do Belo, mas o desejo de "dar à luz no Belo", o que pode ser feito tanto no amor heterossexual quanto no homossexual. No amor heterossexual, pode-se gerar o Belo a partir do Belo, ou seja, ter filhos. A procriação é a forma mais próxima que um ser mortal pode chegar da perpetuidade e da imortalidade. Ter filhos é uma maneira de o mortal imitar o imortal. Diotima explica a Sócrates que, ao observarmos a natureza, vemos como os animais, ao serem tomados pelo desejo de procriar, caem vítimas de uma grande paixão que os leva, em primeiro lugar, a unir macho e fêmea e, depois, a fazerem de tudo para sustentar suas crias, enfrentando quaisquer que sejam os perigos. Já no amor homossexual, dá-se à luz no Belo através de grandes façanhas culturais, uma espécie de sublimação freudiana. O amor homossexual, na visão de Platão, seria culturalmente mais rico, mais produtivo. Essas belezas geradas pelo amor seriam, por exemplo, as leis de uma cidade, a poesia clássica, as artes, as ciências, etc. Os filhos deixados por Homero e Hesíodo, por exemplo, foram suas obras literárias, as quais lhes deram fama e glória imortais. Um artista, ao produzir uma obra de arte, coloca parte de seu ser em sua criação espiritual, de modo que algo dele permanece mesmo após sua morte.

O amor platônico seria, portanto, um amor impulsionado por Eros em todos os momentos, em todas as áreas da vida, e por isso nunca deixaria de ser erótico. Sendo um amor erótico, ele envolve a conjunção carnal, a relação sexual, e não tem a ver com a visão comum produzida pelo romantismo de que seria um amor que ficaria apenas no "mundo das idéias". O que está realmente em jogo no amor platônico é que o desejo de "dar à luz no Belo", impulsionado por Eros, filho de Poros e Penia, leva os amantes à busca do belo e do saber. O amor platônico, para resumir, é um amor no qual os amantes melhoram a alma um do outro através da filosofia.


Notas

1. Uma das razões deste equívoco talvez seja a leitura superficial de Platão como o filósofo que desenvolveu a "teoria das idéias", como aquele que criou um outro mundo no qual existem as "idéias" das quais o mundo físico é apenas uma "cópia". Desta leitura equivocada de sua teoria geral das idéias para a concepção de que o "amor" também seria, como as outras idéias, algo fora do mundo físico, real e efetivo, basta um pequeno salto. 

Outra razão deste equívoco pode se dar pela própria leitura de "O banquete". Durante o diálogo, um belo e jovem general e político, Alcibíades, chega bêbado e conta sobre um episódio com Sócrates. Ele afirma que uma vez, estando sozinho com o filósofo de Atenas, este resistiu às suas investidas sexuais, e daí muitos chegaram a interpretar esta recusa de Sócrates como um modelo do que seria o "amor platônico".

David Hume: causa e efeito são meros produtos do hábito

Posted: 27.4.18 by Glauber Ataide in Marcadores:
0

Imagine o momento em que Adão é criado por Deus, já adulto. Ele então é colocado diante de uma fogueira e tem que dizer o que acontecerá se um objeto for colocado no fogo. Seria possível a Adão inferir que do fogo sairá fumaça, sendo que ele nunca viu algo se queimando antes?

David Hume afirma que não. Que todo o nosso conhecimento advém da experiência, e que o próprio conceito de causa e efeito são meros produtos do hábito. E mais: que a nossa capacidade de prever eventos futuros, baseados na causalidade, não é nada mais que costume, e que não podemos garantir que as coisas futuras continuarão sendo como as passadas.

Hume usa o exemplo de um jogo de sinuca para ilustrar a relação típica entre causa e efeito. Após uma bola de bilhar em movimento tocar uma segunda, esta também entra em movimento. É evidente, afirma Hume, que as duas bolas se tocaram antes que o movimento de uma fosse comunicado à outra, e que não houve intervalo entre o choque e o movimento. Assim, contiguidade no tempo e no espaço é um requisito para a operação de todas as causas, assim como a causa deve ter uma prioridade no tempo.

Ao vermos situações semelhantes se repetindo, percebemos uma constante conjunção de causa e efeito, de modo que esta constância completa a série das únicas três circunstâncias que explicam a causalidade: contiguidade, prioridade e conjunção constante, além das quais nada pode ser identificado.

No entanto, um homem sem nenhuma experiência do mundo, como aquele Adão criado já adulto por Deus, jamais poderia inferir que uma bola de bilhar, ao ser tocada por uma outra já em movimento, também seria colocada em movimento. Isso é, não há nada que a razão veja na causa que lhe faça inferir o efeito. Se tal fosse possível, resultaria em uma demonstração fundada meramente na comparação de idéias. Mas isso não é possível, de modo que a mente, por si só, pode conceber qualquer efeito seguindo de qualquer causa, pois o que quer que concebamos, isso é possível (pelo menos metafisicamente). Portanto, conclui Hume, não há demonstração para nenhuma conjunção de causa e efeito.

Todos os raciocínios concernentes a causa e efeito se fundam na experiência, e todos os concernentes à experiência se fundam na suposição de que o curso da natureza continuará uniforme. O Adão fictício de Hume nunca poderia demonstrar que o curso da natureza seria sempre o mesmo. A tentativa de fundamentar a regularidade do curso da natureza redunda em uma circularidade. Para demonstrar que o futuro segue geralmente o curso do passado, temos que apontar para a experiência, isso é, a probabilidade fundamenta a própria experiência, de modo que teríamos o seguinte argumento tautológico: "se o futuro seguiu até hoje o curso do passado, então o futuro continuará sempre seguindo o curso do passado". A experiência do passado não é prova de nada quanto ao futuro. É unicamente pelo costume que supomos que o futuro será semelhante ao passado. Assim, não é a razão que guia a vida, mas o costume.

Sobre a arte de conversar

Posted: 25.4.18 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
1

Conversar não consiste apenas em falar e ouvir. Conversar é uma arte, uma performance que envolve duas ou mais pessoas. Talvez poderíamos até mesmo dizer que a conversação é um jogo no qual todos ganham, em que não há vencedor e perdedor, mas que possui, como toda disputa, certas regras mais ou menos definidas.

Foi para tentar salvar a tradicional arte da conversação, que parecia em declínio em sua época, que o enciclopedista francês André Morellet publicou em 1812 "Sobre a conversação", ensaio no qual enumera os onze principais vícios que estragam qualquer conversa. Estes erros são 1) a desatenção; 2) o hábito de interromper e falar vários ao mesmo tempo; 3) o afã exagerado de mostrar espírito; 4) o egoísmo; 5) o despotismo ou o espírito de dominação; 6) o pedantismo; 7) a falta de continuidade na conversação; 8) o espírito de pilhéria; 9) o espírito de disputa; 10) a disputa e 11) a conversação particular em substituição à conversação geral. Vamos falar sobre alguns desses vícios.

A desatenção é um dos piores vícios na conversação. Ela fere, ofende, rebaixa aquele que fala. Segundo Morellet, "a obrigação de escutar é uma lei social que é infringida incessantemente". A desatenção hoje ganhou novas formas, e uma das principais é aquela devida ao uso de dispositivos eletrônicos como celulares e tablets. Quem nunca passou pela desagradável situação de disputar a atenção de alguém contra uma atraente tela luminosa?

O hábito de interromper é um dos mais irritantes. Esta é a prática de "interromper continuamente aquele que está falando, antes que tenha acabado sua frase e dado a entender todo o seu pensamento". Muitas vezes ocorre na tentativa de completar o pensamento de quem está falando, como se quem interrompesse soubesse o que ainda está para ser dito. Morellet afirma que este vício era tão difundido na França de sua época que, certa vez, o astrônomo Mairan propôs a seus confrades: "Senhores, proponho-lhes determinar que aqui falarão somente quatro ao mesmo tempo; talvez possamos chegar a entender-nos".

A pretensão a ter espírito também causa grande desprazer na conversação. Uma de suas formas consiste em mostrar "ter opiniões já formadas sobre todos os assuntos tratados", como se aquilo que o indivíduo está dizendo fosse uma opinião sólida, formada há muito tempo, e que naquele assunto ele não tem mais nada a aprender. Um grande problema nisso, segundo Morellet, é que ao pedir a esses indivíduos para aprofundar o que acabaram de dizer, geralmente repetem tudo o que disseram e encontram grandes dificuldades para sustentar sua vaidade. "Todo o mundo", afirma Morellet, "se vangloria de trazer, à sociedade, suas opiniões já formadas, porque cada qual quer que pensem que leu, estudou e refletiu sobre os temas que são tratados". Esta vaidade de exibir uma opinião definitiva sobre questões que jamais se examinaram, porém, é o grande caráter da ignorância, pois "o homem que aprendeu muito é aquele que sabe melhor que ainda tem muitas coisas para aprender, e este também não enrubesce de não saber tudo".

É de fato muito estranho, afirma Morellet, que pessoas que nunca tiveram senão pouco contato com certa matéria tenham a pretensão de ter idéias formadas e definitivas sobre questões muito difíceis, e de saber tudo, sem jamais ter aprendido nada. Uma das origens deste erro consiste em pensar que os assuntos concernentes às ciências humanas, por não possuirem um vocabulário hermético como o das ciências exatadas e tratarem de temas da vida comum, são por isso um campo aberto a qualquer indivíduo, e que todos podem adicionar sua própria opinião e rivalizar com as conclusões dos grandes estudiosos de cada tema. Se um homem não estudou política ou filosofia moral, por exemplo, não tem mais autoridade para emitir sua opinião nessas áreas do que teria no campo da física ou da química.

O pedantismo, outro forte candidato a estragar qualquer conversa, consiste no "uso demasiado frequente e descabido de nossos conhecimentos na conversação comum e a fraqueza que faz com que se dê a tais conhecimentos uma importância exagerada". Este vício tem muito a ver também com o tom: é pedante aquele que fala com os outros como se estivesse dando aula, como um mestre fala aos discípulos. Uma variação do pedantismo é o "purismo", que consiste na escolha minuciosa das palavras, a busca do termo perfeito. Às vezes o pedante purista troca uma palavra comum por outra menos familiar com o intuito de expressar melhor seu pensamento mas, no final das contas, o efeito é o contrário.

A falta de continuidade na conversação é outro dos erros mais comuns. É a desconexão, a falta de ligação entre as idéias. Dentro de uma mesma conversa, abrem-se parênteses dentro de parênteses, um assunto leva a outro, que leva a um próximo, quando então se percebe que o curso da conversa não parece ter nada a ver com o tema em que se estava. Frequentemente surge a pergunta: "por que estávamos falando disso mesmo?". Às vezes é inócuo divagar, afastar um pouco do tema principal e depois retornar à trilha principal da conversa, pois isso pode tornar a conversa mais agradável. É necessário estar atento, porém, à frequência e ao grau em que nos afastamos do tópico da conversação.

O espírito de pilhéria é um vício desagradável, embora o objetivo do pilheriador seja o oposto. Este é o vício de procurar ser divertido na conversação, o que em si não é reprovável, contanto que não ultrapasse certos limites. Há indivíduos que buscam ver um lado ridículo em qualquer assunto que se toque, por mais sério que seja. "Desvirtuam assim, com uma palavra, o que se disse de mais engenhoso e, algumas vezes, de mais profundo". O espírito pilheriador fica atento a cada termo em busca de um trocadilho, de um jogo de palavras, dando atenção não às idéias às quais as palavras fazem referência, mas apenas às palavras em si, enquanto sílabas e sons.

A conversação, seja entre duas pessoas ou em grupo, é um dos principais prazeres sociais, um momento único e ímpar de troca, de crescimento e de aprendizado. Nossas mentes fixam a atenção muito mais naquilo que é ouvido em uma conversa do que naquilo que é lido em um livro. Segundo Montaigne, o estudo dos livros é um movimento lânguido e fraco, que não se inflama. Na conversação, ao contrário, confere-se ao espírito mais atividade, à memória mais firmeza e, ao juízo, mais penetração, pois "a necessidade de falar claramente leva a encontrar expressões mais corretas." Aprender a conversar, portanto, nos torna não apenas pessoas mais agradáveis, mas também pessoas melhores.

Sobre o sucessor de Lula: uma reflexão de Platão

Posted: 5.3.18 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
0

A discussão sobre a formação de novos quadros surge vez ou outra na esfera política diante da necessidade de renovação. Na esquerda brasileira, tornou-se comum a reclamação de que o PT não formou um sucessor ao Lula, um quadro político que pudesse substituí-lo à altura. 

Este tema, contudo, não é novo na civilização ocidental. Há mais de dois mil anos Platão se ocupou desta questão em sua obra "Mênon". A questão não é se o PT criou ou deixou de criar um sucessor; a questão é se isso é mesmo possível.

Em uma discussão sobre a virtude e a possibilidade de se transmití-la, Sócrates examina, primeiro, se a virtude é uma ciência. Se for uma ciência, então deve ser possível ensiná-la. Um bom político, por exemplo, poderia ensinar outro a ser um bom político. Ele se utiliza então do exemplo de Temístocles e de alguns outros políticos atenienses para esclarecer a questão.

Sócrates observa que Temístocles, mesmo sendo um político virtuoso, foi incapaz de transmitir a outros sua virtude. Ele não conseguiu ensiná-la nem mesmo a seus filhos, embora os tivesse treinado em diversas outras artes, como cavalgar. E por que ele ensinou tantas coisas a seus filhos, mas não a ser um político virtuoso? Não seria por que a virtude não é possível de ser ensinada? O mesmo aconteceu com diversos outros políticos gregos, que ensinaram seus filhos música, luta e tudo que podiam, menos a virtude política.

- Sócrates: Certamente houve muitos bons homens; mas a questão é saber se foram também bons mestres de sua própria virtude; não se existiram homens bons, mas se a virtude pode ser ensinada. a questão é se esses homens sabiam como transmitir a virtude que tinham em si mesmos, ou seria a virtude algo incapaz de ser comunicada e transmitida de um homem a outro? Temístocles foi um homem bom?
- Ânito: Certamente, não houve melhor.
- Sócrates: E ele não deve ter sido também um grande mestre de sua virtude?
- Ânito: Certamente, se ele quisesse.
- Sócrates: Ele não teria querido que outros se tornassem bons, ou pelo menos seu próprio filho? Não ouviste que ele ensinou seu filho Cleofanto a ser um bom cavaleiro?
- Ânito: Ouvi sim.
- Sócrates: Então ninguém diria que era ruim a natureza de seu filho.
- Ânito: Certamente não.
- Sócrates: E você já ouviu alguém dizer que Cleofanto tenha se tornado bom e sábio como seu pai?
- Ânito: Não.
- Sócrates: Mas quis Temístocles ensinar todas as outras coisas a seu filho, mas não a virtude, aquilo no qual foi mestre?
- Ânito: Provalmente não!
- Sócrates: Aristides também não é outro exemplo de ateniense que educou seu filho Lisímaco mais perfeitamente que todos naquilo que dependia de mestres? Mas fez dele um homem melhor que qualquer outro? E Péricles, que foi pai de Páralo e Xantipo?
- Ânito: Sei.
- Sócrates: E ele os ensinou a ser cavaleiros melhores do que qualquer outro em Atenas, na música, na luta e em tudo mais. Mas bons homens, não os quis fazer? Acho que sim, mas isso não é coisa que se ensina. Pense também em Tucídides, pai de Melésias e Estéfano. E se virtude fosse algo que se ensina, e sem gastar dinheiro, não o teria feito?
- Ânito: Sócrates, parece que levianamente falas mal dos outros. Eu recomendaria que fosses mais cauteloso. Não há cidade em que não seja mais fácil fazer mal do que bem aos outros, e este também é o caso de Atenas.
- Sócrates: Veja, mênon, parece que Ânito está irritado, pois crê que estou denegrindo estes homens, e julga que é um deles. Mas me diga, não há também em vossa terra homens de bem?
- Mênon: Perfeitamente.
- Sócrates: E eles se dispõe a ensinar aos jovens? E se professam professores e que a virtude é algo que se ensina?
- Mênon: Às vezes dizem que se ensina, às vezes, que não.
- Sócrates: Devemos dizer que são mestres nessa matéria, esses que nem sequer concordam neste ponto?
- Mênon: Acho que não, Sócrates.
- Sócrates: Mas e esses sofistas, os únicos a se considerarem capazes de ensinar a virtude?
- Mênon: Górgias nunca promete isso, Sócrates. Ele apenas ri quando ouve outros afirmando tal coisa. Ele acha que os homens devem ser ensinados a falar.
- Sócrates: Então você não acha que os sofistas são professores?
- Mênon: Não sei dizer, Sócrates. Às vezes acho que sim, às vezes acho que não.
- Sócrates: Se nem os sofistas e nem os homens de bem podem ser mestres nessa matéria, não é claro que não pode haver outros?
- Mênon: É claro.
- Sócrates: E se não há mestres, também não há discípulos?
- Mênon: De acordo.
- Sócrates: E se não há mestres e nem pupilos, então a virtude não pode ser ensinada?
- mênon: Não pode ser ensinada, se estamos certos em nossa visão. Mas não posso acreditar, Sócrates, que não há homens bons. E se eles existem, como eles se tornam assim?

(Platão, "Mênon")