Nietzsche e a morte de Deus

Posted: 9.8.07 by Glauber Ataide in Marcadores:
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É parte de uma cultura popular crer que Nietzsche disse "Deus está morto". Tecnicamente, não foi exatamente ele quem disse isso. Essa frase foi proferida por um louco, um personagem de um livro seu chamado "Assim falou Zaratustra". Da mesma forma que não foi Shakespeare quem disse "ser ou não ser, eis a questão", mas Hamlet, um de seus personagens, não foi Nietzsche quem disse "Deus está morto". Algumas pessoas fazem até piadas com essa frase, se achando espertas ao colocar a frase "Nietzsche está morto" na boca de Deus.

Mas o que Nietzsche queria dizer com isso? É óbvio que ele não dizia que o homem literalmente matou Deus, um ser metafísico. Segundo Reale (1995, p. 22), "o significado da afirmação da morte de Deus tem um alcance bem mais amplo do que o de exprimir uma forma de ateísmo comum". Nietzsche se referia na verdade ao que Deus representava para a cultura européia, à crença cultural compartilhada em Deus que no passado havia sido a característica que unia e definia a Europa. Nietzsche estava falando da Europa sem Deus, falando que a noção cristã de Deus estava morta, que não podia mais ser racionalmente aceita. Ele falava da decadência da metafísica no pensamento ocidental.

No tempo de Nietzsche, a ciência, a política e a arte estavam deixando Deus para trás, como algo do passado. Deus havia ocupado até então o centro do conhecimento e do sentido da vida, mas não mais.

A "morte de Deus" não deve ser entendida como uma blasfêmia ou uma afronta gratuita proferida por Nietzsche, como pensam muitos religiosos. Ela é uma constatação de uma situação histórica do pensamento ocidental, e seu sentido é bem diferente daquele lhe atribui a populaça.

Heidegger, citado por Reale (1995,  p. 24), afirma que 

"enquanto entendermos a expressão 'Deus está morto' apenas como a fórmula da descrença, só estaremos pensando no modo teológico-apologético, renunciando ao objetivo do pensamento de Nietzsche, ou seja, à reflexão que tende a pensar o que já aconteceu à verdade do mundo supra-sensível e à sua relação com o mundo sensível."

E Reale (Ibid.) conclui: "A 'morte de Deus', portanto, significa o desaparecimento da dimensão da transcendência, a anulação total dos valores ligados a ela, a perda de todos os ideais."


REFERÊNCIAS:

REALE, Giovanni. O saber dos antigos - terapia para os tempos atuais. São Paulo: Edições Loyola, 1995.

6 comentários:

  1. Anônimo says:

    em vernaculo: Deus que Nietzsche esta se referindo e a superestrutura

  1. Felipe says:

    Brilhante! Postagem muito exclarecedora!
    Abraços

  1. Concordo Plenamente. Nietzsche está se referindo (por meio de seu personagem) à morte da ideia que o homem tem de Deus e não propriamente ao Deus metafísico.

  1. A concepção de deus como um ser em si. É assim que muitos entendem a frase "deus está morto" que considero ser de Nietzsche pq a medida que crio um personagem e esse personagem diz algo profundamente, necessariamente é algo que tbm quero dizer. O conceito de deus, o fator deus como propulsão de uma sociedade moldada nessa direção, em que tudo sofre ou sofreu interferência desse pensamento é que está morto. Abraços!

  1. Camila says:

    O que Nietzsche quiz dizer com "Deus está morto", seria apenas a sua visão diante dos cristãos do século XIX e princípio do século XX. Eles usavam o nome de Deus para justificar seus atos, "hipocrisia" por parte deles... O que não queria dizer necessariamente que Nietzsche era ateu.

  1. Camila, se a expressao ´´extramente ateu´´, faz sentido, ela sem duvida, se aplica a Nietzsche. Janio, o fato de um autor criar um personagem que tem determinada atitude, ou fala determinada frase, nao implica necessariamente, que o autor concorde com tal ato, ou tal frase. Anonimo, Nietzsche nao era marxista. O conceito de superestrutura nao existe em seu pensamento. E evidente que Nietzsche se referia ao conceito ´´Deus´´, e a fe que as pessoas depositam nele.So pode pode morrer aquilo que ja existiu, e para Nietzsche Deus so existe como conceito. A unica objeçao que faço a frase, e que ela da a ideia de um fato acabado, quando na minha opiniao a ´´morte de Deus´´, vem acontecendo de modo paulatino.