A "análise intrusiva" dos atos falhos de uma pessoa

Posted: 30.12.08 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Quando revelamos um conteúdo psíquico a alguém que desejaria mantê-lo recalcado, essa "análise intrusiva" provoca uma violenta reação de seu ego. O indivíduo reage com certa violência, irritação e agressividade devido à derrota que seu mecanismo de defesa percebe que sofreu. Duas situações pelas quais passei, na qual revelei ao agente -  contra a sua vontade - o motivo de seu ato falho, ilustram esta observação feita por Freud em A psicopatologia da vida cotidiana (que também reproduzo mais abaixo).

Mas o que são "atos falhos"?

Os atos falhos são uma "falha evidente de um mecanismo psíquico" (TALLAFERRO, 1996, p. 101), e foram agrupados por Freud em sete tipos: orais, escritos, de falsa leitura e de falsa audição, esquecimento temporal, perdas e atos sintomáticos. Eles são distúrbios temporários de uma função, que em outro momento pode ser perfeita e corretamente desenvolvida (Ibid.). Os exemplos irão esclarecer do que falamos.

Considere que quero sair para fazer uma caminhada e, no caminho, colocar uma carta em uma caixa de correio para ser despachada. Freud afirma que 

não preciso, como indivíduo normal e livre de neuroses, carregá-la na mão por todo o caminho e ficar à cata de uma caixa de correio onde possa jogá-la; pelo contrário, costumo colocá-la no bolso, seguir meu caminho deixando os pensamentos vagarem livremente, e confiar em que uma das primeiras caixas do correio há de chamar minha atenção e fazer com que eu ponha a mão no bolso e retire a carta. A conduta normal frente a uma intenção concebida coincide por completo com o comportamento experimentalmente produzido das pessoas a quem se deu, em hipnose, uma "sugestão pós-hipnótica a longo prazo", como se costuma chamá-la. Esse fenômeno é usualmente descrito da seguinte maneira: a intenção sugerida dormita na pessoa em questão até se aproximar o momento de efetivá-la. É aí que desperta e impele a pessoa para a ação. (FREUD, 2002)

Um ato falho ocorre quando eu saio de casa com esta carta na mão para despachá-la mas percebo que passei por uma caixa de correio e não a deixei lá. Esse esquecimento é um tipo de ato falho.

Os atos falhos ocorrem para evitar o desprazer. Eles são sempre sintomas de algum tipo de conflito psíquico. No caso da carta, o ato de depositá-la na caixa de correios poderia entrar em associação com conteúdos psíquicos que quero manter recalcados. Por essa razão, um mecanismo psíquico atua para que a ação não seja executada, e nesse caso, para que eu esqueça minha intenção de colocar a carta no correio.

Um outro ato falho muito comum é a substituição de nomes, isso é, quando vamos chamar uma pessoa e trocamos seu nome pelo de outra pessoa, por exemplo. Ou então quando esquecemos o nome de uma pessoa. A real motivação da troca de um nome pelo outro ou pelo seu esquecimento pode ser analisada.

Se alguém também afirma: "'Não me peça para fazer isto, tenho certeza de que vou esquecer!'", a realização dessa profecia, segundo Freud (1997), nada tem de místico, pois "quem assim fala sente em si a intenção de não executar o pedido e apenas se recusa a confessá-lo a si mesmo."

Dois exemplos de análises de atos falhos

Afirmamos no início que uma "análise intrusiva", isso é, a interpretação de um ato falho de uma pessoa sem o seu consentimento, pode desencadear uma violenta reação por parte do "analisando". Vou descrever agora dois exemplos.

Minha esposa e eu havíamos adquirido um bem que há muito desejávamos. Estávamos extremamente satisfeitos com nossa conquista, sentimento este não compartilhado por um familiar. Essa insatisfação, no entanto, só viemos a descobrir posteriormente, através da análise do seu discurso. 

Todas as vezes em que este familiar conversava com minha esposa, este falava que deveríamos ter pesquisado mais antes de realizar nossa compra, que não havia sido uma boa opção, que poderíamos ter feito uma melhor escolha sob sua orientação, etc. Após perceber que esse assunto surgia com muita frequência e insistência, comecei a analisar seu discurso e a hipótese que eu queria submeter à prova era de que ele estava insatisfeito com nossa conquista e estava tentando inconscientemente causar desprazer à minha esposa, privar-lhe da satisfação de nossa aquisição. Orientei minha esposa então a expor-lhe minha hipótese (sem lhe dizer que era uma hipótese minha), e para nossa admiração, o que se percebeu foi exatamente uma violenta reação de sua parte. 

Um caso parecido, relatado por Freud em sua obra A psicopatologia da vida cotidiana, foi o que nos fez considerar que nossa análise estava correta:

Em outra ocasião, eu fazia uma visita a uma dama que era tão rica quanto avarenta e tola, e que tinha o costume de dar ao médico a tarefa de elaborar um batalhão de queixas antes de chegar à causa simples de seu estado. Quando entrei, ela estava sentada frente a uma mesinha, ocupada em dispor florins de prata em pequenas pilhas.Ao se levantar, derrubou algumas moedas no chão. Ajudei-a a apanhá-las e, pouco depois, interrompi-a na descrição de suas desgraças e perguntei: "Então seu nobre genro tem-lhe custado tanto dinheiro assim?" Ela respondeu com uma negativa exasperada, mas pouco depois já me narrava a triste história da aflição que lhe causava o esbanjamento de seu genro. Entretanto, é certo que nunca mais mandou me chamar. Não posso afirmar que sempre se façam amigos entre aqueles a quem se informa o sentido de seus atos sintomáticos. (FREUD, 1997, p.115, grifo nosso)

Uma outra situação, com a mesma pessoa, aconteceu em um amigo oculto de natal. No primeiro sorteio, algumas pessoas haviam sorteado a si mesmas, o que exigiu um segundo sorteio, que foi o definitivo. No entanto, no dia de natal, no ato de troca de presentes, percebemos que um mesmo participante recebeu presentes de duas pessoas - isso é, foi "sorteado" duas vezes, o que deixou alguém sem presente. Esse alguém foi eu. E isso foi causa de um extremo mal-estar entre os participantes.

Como havia poucos participantes, foi possível logo descobrir quem foi o responsável pela confusão. Foi novamente o mesmo familiar do primeiro exemplo. Minha hipótese, baseada em todo um histórico que não vou mencionar aqui, foi simples e direta: esse ato falho foi um mecanismo de defesa de seu ego para que ele não tivesse o desprazer de ter que me entregar esse presente. Quando nos encontramos em uma ocasião posterior e pude lhe afirmar diretamente que esse foi o motivo do esquecimento, antes que eu terminasse o meu argumento, ela irrompeu em uma explosão de ira, uma violenta reação a essa "análise intrusiva", e ao tentar negar minha hipótese, acabou revelando mais do que imaginávamos. Mais uma vez tive boas razões, baseado na mesma experiência relatada por Freud, para concluir que minha análise de seu ato falho estava correta. Ele não queria ter me sorteado no amigo oculto, mas sim qualquer outra pessoa. Como isso não aconteceu, seu ato falho, para evitar esse desprazer, fez com que ele se "confundisse" e desse o presente a outro indivíduo qualquer.

REFERÊNCIAS

FREUD, Sigmund. Sobre a psicopatologia da vida cotidiana. In: Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1997.

KEEGAN, Paul. Introduction. In: FREUD, Sigmund. The psychopathology of everyday life. London: Penguin Classics, 2002.

TALLAFERRO, Alberto. Curso básico de Psicanálise [Tradução Álvares Cabral ]. 2.ed. São Paulo: Martins Fontes, 1996.  


A Filosofia Medieval

Posted: 28.11.08 by Glauber Ataide in Marcadores:
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A Filosofia Medieval é uma tradição na história da filosofia ocidental, e possui 4 sub-tradições, a saber: 1) filosofia árabe, 2) filosofia judaica, 3) filosofia latina e 4) filosofia bizantina (MARENBON, 2004).

Essas quatro tradições estão interligadas de maneira tão próxima que, se por um lado, suas diferenças são importantes, por outro, elas são melhor compreendidas como fazendo parte de um todo (Ibid.).

Essas interconexões podem ser apontadas, em primeiro lugar, no fato de que todas têm uma herança comum da filosofia grega, especialmente da escola neoplatônica, apesar de darem uma maior ênfase nas obras completas de Aristóteles (e não apenas em sua Lógica). Em segundo lugar, suas tradições estão interconectadas em seus respectivos desenvolvimentos, pois os filósofos judeus medievais foram fortemente influenciados pelos filósofos árabes, e traduções de escritos árabes também alteraram o estudo da Filosofia no ocidente latino a partir do final do século XII. Em terceiro lugar, todas essas quatro tradições pertencem a uma cultura dominada por uma religião monoteísta e revelada: Islã, Judaísmo ou Cristianismo (Ibid.).

No entanto, é essa terceira característica - sua conexão com a religião revelada - a responsável pela quase completa negligência de uma maior atenção sobre a Filosofia Medieval por parte dos filósofos profissionais (Ibid.).

Historiadores da Filosofia Medieval, como Victor Cousin (1828 apud MARENBON, 2004, p. 3), argumentam que a autoridade eclesial era absoluta na idade média e que, por essa razão, a Filosofia era usada a serviço da fé: ela se movia dentro de um círculo imposto por uma autoridade externa. Não obstante, Cousin afirma que a Filosofia ainda assim manteve algo de sua própria natureza, e que até mesmo o escolasticismo medieval apresentava a mesma forma encontrada na Filosofia em todas as suas manifestações históricas: idealismo, sensualismo, ceticismo e misticismo (Ibid.).

A partir do final do século XIX, historiadores ligados ao catolicismo ortodoxo trouxeram uma nova perspectiva ao estudo da Filosofia Medieval, se opondo à abordagem seguida por Cousin e outros historiadores "racionalistas" (como eles os nomeavam) (Ibid.).

Mas esses historiadores não argumentam, como poderia se esperar, que a influência da religião revelada foi mais benéfica que prejudicial à Filosofia. Antes, eles insistem que os grandes pensadores medievais (como Tomás de Aquino) reconheciam uma distinção entre Filosofia e Teologia. Eles eram, de fato, grandes teólogos, mas eram também grandes filósofos, que elaboraram sistemas filosóficos racionais independentes da revelação (Ibid.).

A esse respeito, McGrade (2003) afirma que o projeto de Agostinho, por exemplo, era a "fé em busca de entendimento". Isso significa que os resultados de sua busca por sabedoria podem geralmente ser formulados em proposições sistematicamente relacionadas que podem ser examinadas em função de sua consistência, as quais podem ter também outras virtudes "puramente filosóficas".

Tomás de Aquino, como já mencionado, tenta determinar a relação entre entre Teologia (sacra doctrina) e "disciplinas filosóficas" na primeira quaestion de sua Summa Theologiae. Ainda de acordo com McGrade (2003), a linha de demarcação que Tomás propõe entre uma e outra é precisamente o que pode ser descoberto pela "razão" ("razão humana" ou "razão natural"). A isso ele chama de Filosofia (incluindo as ciências naturais). Já a doutrina sagrada, por outro lado, pode usar os métodos e os resultados da Filosofia, mas seus fundamentos são as verdades desveladas por Deus em sua revelação sobrenatural.

Em décadas recentes, todas as áreas da Filosofia Medieval têm recebido um tratamento mais e mais profissional, e há uma crescente ênfase na necessidade de pesquisa de material da idade média. Há uma ampla e, em muitas partes, inexplorada, coleção de manuscritos em bibliotecas por toda a Europa. Ainda há muito trabalho a fazer no sentido de editar obras da Filosofia Medieval, estudar sua difusão, estabelecer cronologias e traçar suas influências (MARENBON, 2004).

REFERÊNCIAS

MARENBON, John. Routledge History of Philosophy: Medieval Philosophy. New York: Routledge, 2004.

MCGRADE, A.S.. The Cambridge companion to medieval philosophy. Cambridge, UK ; New York: Cambridge University Press, 2003.

Inclusão digital e educação tecnológica

Posted: 25.11.08 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Introdução

A inclusão digital, em um sentido mais amplo, se refere à democratização do acesso às tecnologias da informação, de forma a permitir a inserção de todos na sociedade da informação. Segundo Filho (2008), a inclusão acontece quando baseada em três pilares: tecnologias da informação, renda e educação. A análise do presente trabalho se concentra no aspecto da educação tecnológica, sendo esta um componente essencial da inclusão digital. No entanto, essa análise se estenderá também à educação tecnológica em um sentido que transcende à mera alfabetização de analfabetos digitais, se ocupando também da educação tecnológica de nível técnico e superior.

Origens da esperança de transformação do mundo pela técnica

A partir do período moderno, e especialmente a partir do Iluminismo, o homem tem ouvido falar de um futuro harmonioso, dominado pela razão científica (TEIXEIRA; BUGLIONE, 2008, p.40). Essa visão de mundo se materializa nas telas de cinema, nos filmes de ficção científica, em programas de televisão (ou até mesmo em canais inteiros, como o Discovery Channel) e em revistas de divulgação científica, apresentando os grandes avanços tecnológicos possibilitados pela ciência, e como isso transformará nossas vidas cada vez mais positivamente. No entanto, fato é que esse dia não chegou, e é cada vez menor o número de pessoas que acreditam que um dia ele chegará (Ibid.). 

No espírito dessa esperança escatológica de redenção da humanidade pela ciência, a educação tecnológica se configura como um dos meios para se alcançar o paraíso cibernético. Através da educação tecnológica, em articulação com outros fatores, as pessoas menos favorecidas poderão saber como acessar a internet e seu amplo banco de informações, poderão pagar suas contas pela rede, fazer compras, etc. Isso diz respeito aos iniciados na tecnologia. Mas já no nível de ensino técnico e superior, a crença é de que as pessoas instruídas neste saber poderão contribuir para um mundo melhor através de sua informatização.

Essa visão de um futuro harmonioso, onde todas as mazelas sociais foram resolvidas através da técnica é descrita de forma magistral no romance “Admirável mundo novo”, de Aldous Huxley. Nessa obra, Huxley apresenta uma sociedade totalitária e dominada pela ciência, em que todos os indivíduos se consideram felizes. Os nascimentos são controlados através de uma eficiente engenharia social, que condiciona os indivíduos, desde o momento em que são ainda fetos, a serem felizes dentro da classe social a que estão destinados a pertencer, assim como ao executar as tarefas para as quais estão sendo criados. A obra, escrita em 1931, apontava o rumo que a sociedade ocidental cientificista estava tomando. Mas o próprio Huxley não esperava que várias de suas previsões começassem a acontecer tão rapidamente.

Diferentes tipos de conhecimento

É necessário estabelecer uma importante distinção epistemológica entre diversos tipos de conhecimento para que o saber científico ocupe o seu devido lugar. Aristóteles categoriza o conhecimento humano em três diferentes tipos: o saber produtivo, o saber prático e o saber que se refere à realidade (SELL, 2008, p. 143).

O saber produtivo ou poiético é aquele que consiste em saber construir ou elaborar algo concreto. Nessa categoria se enquadra o conhecimento tecnológico. O saber prático engloba a ética e a política, e está ligado “à prática na qual o agente, o ato ou a ação e o resultado são inseparáveis” (Ibid.). O saber referente à realidade é o que diz respeito às peculiaridades de cada coisa e também o conhecimento da realidade como ela é. Aqui se encontra o conhecimento filosófico e metafísico, que, segundo Aristóteles, é superior a todos os outros, embora qualquer um possa ser mais necessário que este.

A partir dessa distinção entre os diferentes tipos de conhecimento, fica claro que o conhecimento científico não é o único, e nem tampouco pode fornecer explicações sobre toda a realidade. A ciência, na verdade, é uma abstração artificial de determinado aspecto da realidade e não pode, devido à natureza de seu próprio objeto, o qual estabelece os seus métodos de procedimento, abarcar tudo o que há.

O conhecimento científico tende cada vez mais à especialização. Contudo, essa especialização tem se configurado em alienação. Várias áreas dentro da própria ciência, não raras vezes, não se comunicam entre si. O especialista, então, dilacerado pela fragmentação, com um conhecimento profundo, mas que corresponde apenas a uma parcela ínfima da realidade e, por isso, estreito, se sente angustiado diante do todo, pois ele ainda é homem, e o homem é um ser integral, não fragmentado.

Educação tecnológica como instrumento de alienação

Uma interessante crítica de Marx e Engels, na obra Manifesto do Partido Comunista, aponta para uma indesejada conseqüência da educação tecnológica no âmbito social: “A cultura, cuja perda o burguês tanto lastima, é, para a imensa maioria dos homens, apenas um adestramento para agir como máquina.” (MARX, 2001, p. 62)

Considerando o termo cultura em seu sentido etimológico, do latim cultivare, isso é, tudo aquilo que é cultivado, construído pelo homem, a cultura engloba a educação. E nesse sentido podemos afirmar que a educação tecnológica, sendo apenas um dos tipos de conhecimento possível e isolada desses outros, não passa de um adestramento de homens em máquinas.

A educação tecnológica não forma o homem integral. Não cria consciência política, não responde questões éticas e nem existenciais. Dessa forma, o homem educado apenas em tecnologia, não engajado em refletir sobre seu cotidiano, se torna apenas uma peça que serve aos interesses de uma classe dominante, perpetuando assim um sistema de exploração de classes sem o menor interesse em deixar o mundo de uma forma melhor do que o encontrou.

A ciência e a tecnologia não mais servem ao homem. Não são um meio de libertação dele, mas se tornaram um fim em si mesmas. É interessante a observação de Émile Durkheim sobre o avanço da tecnologia, que ele percebia já no século XIX:

À medida que os homens são obrigados a produzir um trabalho mais intenso, os produtos deste trabalho tornam-se mais numerosos e de qualidade superior; mas estes produtos, melhores e mais abundantes, são necessários para compensar as energias despendidas por este trabalho mais considerável. (DURKHEIM, 2006, p. 110)

É este o princípio regente no desenvolvimento da tecnologia. Um círculo vicioso se estabeleceu entre o trabalho humano no desenvolvimento da tecnologia e os seus benefícios para aliviar o dispêndio cada vez maior de energia empregado neste trabalho. Trabalha-se cada vez mais para aliviar cada vez mais os esforços do próprio trabalho.

Conclusão

Teixeira e Buglione (2008) alertam que “um ‘futuro pós-humano’  de integração tecnológica não vai atingir a todos. Não podemos todos viver o american way of life – é impossível, do ponto de vista da sustentabilidade”. 

A educação tecnológica, portanto, se configura como uma educação extremamente limitada, e na maioria das vezes, insuficiente, como fator de transformação social. Há muita expectativa de que a educação tecnológica possa causar transformações sociais que melhorem a vida do homem de forma qualitativa, mas essa esperança, como vimos, estende suas raízes desde a Modernidade e o Iluminismo, e é cada vez menor o número de pessoas que depositam nela a sua fé. Uma educação transformadora deve passar não apenas pelo conhecimento produtivo e tecnológico, pois este, por si só, se torna um instrumento de alienação e adestramento. Ela deve se articular imprescindivelmente com outras formas de conhecimento, como o saber prático (ética e política) e o saber metafísico e filosófico. 


REFERÊNCIAS

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. São Paulo: Martin Claret, 2001.

DURKHEIM, Émile. As regras do método sociológico. São Paulo: Martin Claret, 2006.

SELL, Sérgio. História da Filosofia I. Palhoça: UnisulVirtual, 2008.

TEIXEIRA, Eduardo Didonet; BUGLIONE, Samantha. Cenários contemporâneos. Palhoça: UnisulVirtual, 2008.

FILHO, Antônio Medes da Silva. Os três pilares da inclusão digital. Disponível em . Acesso em 9 nov. 2008.

WIKIPEDIA. Inclusão digital. Disponível em . Acesso em 9 nov. 2008.

Alguns exemplos de Falácias

Posted: 18.10.08 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Falácia é o termo com que os escolásticos indicaram o “silogismo sofístico” de Aristóteles. Segundo Pedro Hispano, é a “idoneidade fazendo crer que é aquilo que não é, mediante alguma visão fantástica, ou seja, aparência sem essência.” Apesar de muito cultivada na idade média, a doutrina das Falácias perdeu quase toda a importância na lógica moderna, visto não poderem ser reduzidas a sofismas as antinomias de que ela trata. (ABBAGNANO, 2007)

Há vários tipos de falácias, e diferentes autores adotam diferentes sistemas de classificação e categorização. Segundo Moreland e Craig (2005), dentre as chamadas falácias formais, uma das mais comuns é a afirmação do conseqüente. O modus ponnens, regra lógica na forma P è Q, declara que se afirmamos o antecedente P como verdadeiro, então o conseqüente Q também o será. No entanto, se afirmamos Q como verdadeiro, isso não traz nenhuma implicação ao valor de P, como demonstrado no seguinte exemplo:

Se Deus for infinito, então ele será intrinsecamente imutável.
Deus é intrinsecamente imutável.
Ele é infinito.

Se Deus for infinito, ele será intrinsecamente imutável. Mas isso não significa que se ele for intrinsecamente imutável, ele será, portanto, infinito. Logo, essa é uma falácia de afirmação do consequente.

Já dentre as chamadas falácias informais, encontramos a falácia genética, que é uma falha de argumentação que julga ser uma crença equivocada ou falsa devido ao modo como ela se originou. É um tipo de argumento que parece ser usado por alguns sociobiólogos, por exemplo, ao afirmarem que por serem as crenças morais moldadas através de influências biológicas e sociais, as mesmas não são crenças objetivamente verdadeiras.

Uma outra falácia informal, a petição de princípio (petitio principii), ocorre quando a única razão para pensar que uma premissa em um argumento é verdadeira é a crença de que a conclusão seja verdadeira (MORELAND, J.P.; CRAIG, William Lane, 2005). Ela é ilustrada no seguinte argumento:

Ou Deus existe ou a lua é feita de queijo verde.
A lua não é feita de queijo verde.
Logo, Deus existe.

De acordo com Nolt e outros (1976), as chamadas falácias de relevância ocorrem quando um argumento não leva necessariamente à sua conclusão. São também chamadas de “non sequitur”, que significa, em latim, “não se segue”. Um exemplo de falácia de relevância é a ad hominem (que significa “contra a pessoa”). 

João é a favor do tratamento do reservatório de água da cidade com flúor.
João é um ladrão.
Logo, não devemos tratar o reservatório de água da cidade com flúor.

Mesmo se João for um ladrão, isso não traz nenhuma implicação à questão sobre se o reservatório de água deve ou não ser tratado com flúor.

Um outro exemplo de falácia de relevância é a tu quoque (“você também”), que tenta refutar um argumento atacando o seu proponente sob a acusação de que ele é um hipócrita, ou tem um duplo padrão de comportamento. A implicação é que o proponente é desqualificado para tentar estabelecer um princípio.

Jones acredita que devemos nos abster de bebida alcoólica.
Jones está sempre bêbado.
Logo, não devemos nos abster de bebida alcoólica.

As atitudes de Jones não têm nenhuma implicação sobre a veracidade ou falsidade de suas crenças, mesmo que ele as sustente hipocritamente. 

Argumentos ad verecundiam (“apelo à autoridade”) também podem ser classificados como non sequitur, e ocorrem quando aceitamos ou rejeitamos um argumento devido apenas ao prestígio, status ou respeito que temos em relação aos seus proponentes.

Meu professor diz que eu deveria ter orgulho de ser americano.
Logo, eu devo ter orgulho de ser americano.

A premissa é simplesmente irrelevante para a conclusão. As coisas não são de determinada maneira apenas porque alguém diz que elas são ou devem ser assim, não importa quão eminente seja o interlocutor.


REFERÊNCIAS

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. 5 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

MORELAND, J.P.; CRAIG, William Lane. Filosofia e cosmovisão cristã. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2005.

NOLT, John; ROHATYN, Dennis; VARZI, Achille. Theory and problems of Logic [Schaum’s Outlines]. 2 ed. New York: McGraw-Hill, 1976. 

A apatia estóica como meio de se alcançar a ataraxia

Posted: 21.9.08 by Glauber Ataide in Marcadores:
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O estoicismo, escola filosófica grega surgida no helenismo, afirmava que o objetivo do viver é a obtenção da felicidade. Mas, para ser feliz, o homem deve viver segundo a sua natureza

Para definir a natureza humana, os estóicos observaram que todo ser vivo apresenta a tendência de “conservar a si mesmo, de ‘apropriar-se’ do próprio ser e de tudo quanto é capaz de conservá-lo, de evitar aquilo que lhe é contrário e de ‘conciliar-se’ consigo mesmo e com as coisas que são conformes à própria essência”. No homem, essa tendência se encontra na razão, no viver “conciliando-se” com o próprio ser racional, conservando-o e atualizando-o plenamente (REALE;ANTISERI, 2007). Dizendo de outra maneira, a natureza do homem é a razão, e para ser feliz, o homem deve viver de acordo com ela.

Dessa forma, tudo o que não é racional leva à infelicidade, chegando a ser até mesmo antiético. Para viver de acordo com a razão, o homem deve livrar-se de suas paixões, deve ser insensível tanto ao prazer quanto à dor. As paixões devem ser completamente extirpadas, e não apenas moderadas (como Aristóteles sustentava), pois elas são erros da razão. Erros devem ser eliminados. Essa insensibilidade é chamada de apatia (apatheia), e é a forma estóica de se alcançar a tão desejada ataraxia.

A ataraxia é a imperturbabilidade da alma, a verdadeira felicidade, a tranqüilidade interior. Não é algo efêmero, mas sim perene, constante, não dependente de circunstâncias. É uma conquista. Sell (2008) afirma: “quando temos tudo o que queremos, quando não tememos o futuro e quando estamos satisfeitos, aí então somos felizes. E, principalmente, quando alguém descobre que a sua satisfação depende apenas de suas próprias atitudes e escolhas, a felicidade torna-se palpável”.

Essa felicidade não se encontra no ter, mas sim no ser. A natureza do desejo é tal que ele nunca pode se satisfazer completamente. Tentar saciar o desejo é, valendo-nos de uma analogia, como tentar apagar fogo lançando-lhe álcool. É por essa razão que essa satisfação plena e duradoura será alcançada não pelas posses ou pela realização de desejos, mas sim através da paz interior, pela ataraxia. Mas a ataraxia, segundo os estóicos, só pode ser alcançada através da apatia, pela completa insensibilidade às paixões, ao prazer e à dor.

As três espécies de amizade em Aristóteles

Posted: 19.9.08 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Nos livros VIII e IX de sua obra Ética a Nicômaco, Aristóteles discorre, em sua sistematicidade característica, sobre a natureza da amizade. Sendo este um tratado de ética, a discussão sobre a amizade se faz necessária, pois ela é, segundo o estagirita, ou uma virtude ou implica virtude, e é, além disso, extremamente necessária à vida. “Com efeito”, afirma o filósofo, “ninguém escolheria viver sem amigos, ainda que dispusesse de todos os outros bens, e até mesmo pensamos que os ricos, os que ocupam altos cargos, e os que detêm o poder são os que mais precisam de amigos; de fato, de que serviria tanta prosperidade sem a oportunidade de fazer o bem, se este se manifesta sobretudo e em sua mais louvável forma em relação aos amigos?”

As amizades podem ser classificadas, conforme o discípulo de Platão, em três tipos distintos. Essas espécies de amizade fazem referência às qualidades que as fundamentam. Elas são: 1) a amizade segundo o prazer, 2) a amizade segundo a utilidade e 3) a amizade segundo a virtude, ou a amizade perfeita.

Aqueles que fundamentam sua amizade sobre o prazer o fazem por causa daquilo que é agradável em um para o outro. Pessoas espirituosas, por exemplo, têm muitas amizades não por causa do seu caráter, mas sim devido ao prazer que podem proporcionar umas às outras. 

A amizade segundo a utilidade é estabelecida pelo bem que uma pessoa pode receber da outra. Mais uma vez, as pessoas envolvidas neste tipo de relação não se amam por causa do seu caráter, mas sim devido a uma utilidade recíproca.

Já a amizade segundo a virtude só pode se estabelecer entre os homens que são “bons e semelhantes na virtude, pois tais pessoas desejam o bem um ao outro de modo idêntico, e são bons em si mesmos.”. Como estes homens são raros, amizades assim também são raras.

Tanto a amizade segundo o prazer quanto a amizade segundo a utilidade são geralmente efêmeras, passageiras, se desfazendo facilmente. Isso ocorre quase sempre se uma das partes não permanece como era no início da amizade, isso é, se deixa de ser útil ou agradável. Por essa razão, “quando desaparece o motivo da amizade, esta se desfaz, pois existia apenas como um meio para se chegar a um fim.”. 

Nos deparamos com este tipo de amizade em quase todos os períodos de nossa vida. Ao nos lembrarmos das relações que mantínhamos na escola, por exemplo, podemos identificar facilmente quantas e quais não foram as amizades que estabelecemos segundo o prazer. As chamadas pessoas espirituosas, isso é, aquelas pessoas chistosas, cheias de vivacidade e de graça, mantêm quase sempre um amplo círculo de amizade. Mas isso não se deve ao que são em si mesmas, e nem por causa do seu caráter, mas apenas por causa do prazer que podem proporcionar aos outros.

As amizades segundo a utilidade são também de natureza semelhante. Podemos identificá-la, por exemplo, nas relações de trabalho entre os funcionários de um escritório. Ou então quando temos uma equipe ou um grupo que luta por um objetivo ou por um bem comum. Essas pessoas, neste caso, não se amam e não desejam a companhia umas das outras por si mesmas, mas mantêm uma relação de amizade porque isso resultará em um bem para si próprias.

Mas a amizade segundo a virtude, ou a amizade perfeita, como a chama Aristóteles, é perfeita “tanto no que se refere à duração quanto a todos os outros aspectos, e nela cada um recebe do outro, em todos os sentidos, o mesmo que dá, ou algo de semelhante.”. 

Neste tipo de amizade, as pessoas querem o bem uma da outra. Esses homens que são assim amigos buscam verdadeiramente o bem do seu semelhante, e isso pelo simples fato de serem bons. Eles “serão amigos por si mesmos, isto é, por causa de sua bondade.”. 

Os homens maus têm amizades apenas segundo o prazer ou a utilidade, nunca podendo ter uma relação virtuosa, ou uma amizade perfeita. No entanto, os homens bons, por sua vez, podem estabelecer relações segundo o prazer ou a utilidade, assim como os maus. Mas apenas os bons podem estabelecer uma amizade segundo a virtude. Neste sentido, fica clara a correspondência entre ética e amizade.

A gravata como símbolo do pênis

Posted: 11.8.08 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Algumas peças do vestuário humano são indispensáveis, se considerarmos que sua função básica é proteger o corpo contra os extremos do frio e do calor, assim como encobrir decorosamente algumas de suas partes. Outras peças, no entanto, cumprem apenas funções periféricas, acessórias. Vamos analisar brevemente, de uma perspectiva psicanalítica, o uso de uma dessas peças acessórias: a gravata.

Se considerarmos uma calça, por exemplo, verificamos que ela tanto cumpre a função de proteger o corpo do ambiente externo quanto de encobrir algumas de suas partes. Mas alguns acessórios, mesmo que não cumprindo nenhuma dessas funções básicas, são todavia de grande utilidade, como o cinto, por exemplo. Ele cumpre a função de manter a calça suspensa e rente à cintura, e seria impossível a algumas pessoas usar determinadas calças sem o seu auxílio.

Mas algumas peças acessórias, além de não cumprirem nenhuma das funções básicas do vestuário (justamente por serem acessórias), não têm nem mesmo uma utilidade razoável, justificável. Uma instância que podemos apontar é a gravata.

A gravata é uma tira de tecido, estreita e longa, que é usada em volta do pescoço, e amarrada em nó na parte da frente. Mas que função ela cumpre no vestuário? Certamente ela não protege o corpo dos extremos do frio e do calor, e nem mesmo cumpre uma utilidade justificável, como o cinto, por exemplo. O uso da gravata, na verdade, serve hoje a fins meramente estéticos e simbólicos (apesar de ter sido utilizada inicialmente para enxugar o suor do rosto, função esta que historicamente se perdeu).

Um símbolo, grosso modo, é um tipo de representação que remete a uma outra realidade. Se a gravata é um símbolo, a que realidade ela remete? Ela é um símbolo de que? Com qual finalidade?

Quando falamos em símbolos na Psicanálise, estamos falando de símbolos inconscientes. Esses símbolos se manifestam, por exemplo, na cultura popular, em poemas, em mitos, nas religiões, em músicas e, especialmente, nos sonhos.

Freud, em sua obra "A interpretação dos sonhos", afirma na seção de representação por símbolos, no capítulo VI, que

"Nos sonhos produzidos por homens, a gravata aparece amiúde como símbolo do pênis. Sem dúvida, isso ocorre não apenas porque as gravatas são objetos longos, pendentes e peculiares aos homens, mas também porque podem ser escolhidas de acordo com o gosto - uma liberdade que, no caso do objeto simbolizado, é proibida pela Natureza."
Mais à frente, em uma nota de rodapé, ele ainda registra um sonho de um paciente em que a gravata aparece como símbolo do pênis.

Mas essa escolha não é arbitrária, e há algumas correlações que podemos apontar entre a representação simbólica do uso da gravata e o pênis enquanto encarnação do Falo.

Em primeiro lugar, como já observado anteriormente, a gravata não tem nenhuma função útil na composição do vestuário. Poderíamos muito bem passar sem ela. Dessa forma, sua finalidade é puramente estética e simbólica.

Em segundo lugar, devemos reparar nas ocasiões em que o uso da gravata se faz socialmente desejável ou mesmo imperativo. Os homens usam gravatas quando querem passar uma impressão de autoridade, respeitabilidade, poder, potência, seriedade, confiabilidade, entre outras coisas.

Em terceiro lugar, tanto o pênis quanto a gravata são objetos que ficam pendurados na parte frontal do corpo masculino. Mas enquanto o pênis é dependurado um pouco abaixo da cintura, a gravata fica dependurada no pescoço. Se a grava fosse usada na altura da cintura, sua semelhança com o pênis ficaria de tal forma evidente que qualquer um reconheceria sua finalidade simbólica. No entanto, ocorre um deslocamento de seu local de uso.

Em quarto lugar, quando nos voltamos para o conceito psicanalítico de Falo, percebemos como fica mais clara a correlação simbólica gravata-pênis.

David E. Zimerman, em sua obra Fundamentos Psicanalíticos, afirma ser "... o falo, na antiguidade greco-romana, a representação simbólica do poder, concentrada no órgão anatômico pênis...".

O psicanalista J. -D. Nasio aponta nessa mesma direção na obra "Édipo - o complexo do qual nenhuma criança escapa", quando afirma ser o pênis uma encarnação do "símbolo de potência" do Falo.

O Falo não é uma simples representação peniana. Ele é símbolo de poder, de potência, ou ainda mais: de onipotência. Assim sendo, o pênis, enquanto que uma encarnação, uma representação simbólica do Falo, é uma representação de força, de poder, de autoridade.

A partir disso podemos compreender que a gravata, pelo fato de ser utilizada em determinadas ocasiões e visando causar determinadas impressões (de autoridade, respeito, força, etc.), que são as mesmas simbolizadas pelo Falo, é uma representação de sua encarnação, a saber, do pênis.

De outra forma, podemos dizer que os homens, por não poderem exibir socialmente seus próprios órgãos genitais, elegem de forma inconsciente um substituto simbólico, em dimensões ampliadas, quando querem demonstrar possuir as características fálicas (de poder, potência, etc.) encarnadas pelo pênis.

Freud e a interpretação dos sonhos na psicanálise

Posted: 28.7.08 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Os sonhos são uma construção psíquica, e como tal, são passíveis de interpretação. Sigmund Freud, em sua obra “A interpretação dos sonhos”, de 1900, se propõe a apresentar provas de que “existe uma técnica psicológica que torna possível interpretar os sonhos, e que, quando esse procedimento é empregado, todo sonho se revela como uma estrutura psíquica que tem um sentido e pode ser inserida num ponto designável nas atividades mentais da vida de vigília”. Veremos então, de forma resumida e com preocupações meramente didáticas (evitando propositalmente termos técnicos, mesmo que isso possa nos comprometer), em que consiste essa técnica psicanalítica, assim como o processo de formação dos sonhos.

Freud afirma que todo sonho é a realização de um desejo. Essa afirmação encontra franca verificação em sonhos estimulados principalmente de fontes somáticas, como, por exemplo, um sonho em que o indivíduo se vê bebendo água, quando, na verdade, sua sede é oriunda da vida real. No entanto, a afirmação de Freud vai mais além: ele diz que não apenas esse tipo de sonho é a realização de um desejo, mas sim que todo e qualquer sonho o é. Neste ponto, perguntamos: e quanto àqueles sonhos que nos causam angústia e sofrimento, como sonhos em que somos perseguidos e não conseguimos correr, ou nos quais pessoas que amamos aparecem mortas? Mesmo nesses casos, afirma Freud, o sonho é a realização de um desejo inconsciente. Mas para que possamos compreender essa afirmação, devemos prosseguir e estabelecer uma distinção entre dois conceitos cruciais na interpretação dos sonhos: o de conteúdo latente e o de conteúdo manifesto.

O conteúdo latente é o material de onde se originam os sonhos. Eles são, por assim dizer, a “matéria-prima” utilizada para a sua formação, sendo também chamado de “pensamentos do sonho”. Já o conteúdo manifesto, grosso modo, é aquilo que literalmente sonhamos – é aquilo de que nos lembramos sobre o sonho quando acordamos. Quando relatamos nossos sonhos para alguém, por exemplo, o que estamos expondo é o conteúdo manifesto. De uma outra maneira, podemos dizer que o conteúdo latente é o sonho em si, enquanto que o conteúdo manifesto é a sua aparência.

Estabelecida essa distinção, estamos em uma posição mais confortável para refazer a afirmação de que todo e qualquer sonho é a realização de um desejo. Na verdade, os desejos que são realizados por um sonho não se encontram no conteúdo manifesto, mas sim no conteúdo latente – e esse conteúdo só pode ser conhecido depois do trabalho de interpretação. E isso pela razão que se segue.

A formação dos sonhos se dá através de um trabalho de transformação do conteúdo latente em conteúdo manifesto. O conteúdo latente apresenta toda sorte de desejos que não estamos dispostos a admitir para nós mesmos que possuímos, como desejos sexuais impróprios, desejos de agressão, de vingança, e o que mais pudermos imaginar. Esses desejos também se encontram presentes em nosso estado de vigília (quando estamos acordados), mas são, no entanto, reprimidos neste estado.

O que acontece durante o sono é que esses mesmos desejos inconscientes tentam subir ao nível de consciência com o intuito de alcançar gratificação, já que nosso aparelho psíquico se encontra com uma menor força de resistência. No entanto, uma resistência ainda se encontra presente para fazer oposição a esse conteúdo. Essa resistência, chamada censor, aplica então um processo de transformação neste conteúdo latente de forma que o seu resultado final seja aceitável para o ego do indivíduo, fazendo com que, dependendo da intensidade do trabalho de elaboração, seu resultado final (conteúdo manifesto) seja irreconhecível em comparação com o material disponível (conteúdo latente). É por essa razão que sonhos de angústia ou aflição, por exemplo, são também realização de desejo: é que o desejo realizado se encontra no conteúdo latente, que deve ser descoberto através da análise, e não no conteúdo manifesto, que lembramos como angustiante. É do conteúdo latente que iremos extrair o significado do sonho, e não do conteúdo manifesto. Nas palavras de Freud:

"Os pensamentos do sonho e o conteúdo do sonho nos são apresentados como duas versões do mesmo assunto em duas linguagens diferentes. Ou, mais apropriadamente, o conteúdo do sonho é como uma transcrição dos pensamentos oníricos em outro modo de expressão cujos caracteres e leis sintáticas é nossa tarefa descobrir, comparando o original e a tradução."

Esse trabalho de transcrição é efetuado através de algumas técnicas utilizadas pelo trabalho do sonho. Uma delas é o trabalho de condensação. Os nossos sonhos, da forma como deles nos lembramos (conteúdo manifesto), são extremamente resumidos se comparados com os pensamentos oníricos dos quais se originaram (conteúdo latente). Cada elemento presente no conteúdo manifesto (como um determinado objeto ou uma pessoa) geralmente tem um amplo conjunto de pensamentos oníricos sendo representados através dele. O trabalho de condensação ocorre, por exemplo, em sonhos nos quais uma pessoa que conhecemos aparece no corpo de uma outra pessoa. Na verdade, isso acontece porque as duas pessoas estão presentes no conteúdo latente, mas foram representadas através de uma única pessoa no conteúdo manifesto, devido ao trabalho de condensação que as unificou, identificando uma característica comum entre as duas.

O processo de formação dos sonhos também emprega o trabalho de deslocamento, que consiste, entre outras coisas, em inverter a intensidade psíquica de alguns elementos do sonho. Alguns elementos que são essenciais no conteúdo latente, carregados de intenso interesse, são tratados no conteúdo manifesto como sendo de menor importância. Há um deslocamento do grau de importância do conteúdo. Elementos centrais no conteúdo latente são despojados de seu valor psíquico e tranferidos para o conteúdo manifesto apenas como objetos periféricos, sem importância. Esse processo é um dos responsáveis pela grande diferença entre os conteúdos latente e manifesto.

Além disso, devemos considerar que o sonho não tem à sua disposição meios para representar relações lógicas entre os pensamentos dos sonhos, sendo que a restauração dessa junções destruídas pelo trabalho do sonho devem ser reconstruídas no processo de interpretação. Um exemplo é o de ligação lógica pela simultaneidade no tempo. "Nesse aspecto", afirma Freud, os sonhos "agem como o pintor que, num quadro da Escola de Atenas ou do Parnaso, representa num único grupo todos os filósofos ou todos os poetas. É verdade que, de fato, eles nunca se reuniram num único salão ou num único cume de montanha, mas certamente formam um grupo no sentido conceitual."

Um outro exemplo de reprodução de relações lógicas em um sonho é na relação de causalidade, que é representada no sonho por dois tipos de seqüência temporal: num deles, por uma seqüência de sonhos e, no outro, pela transformação direta de uma imagem em outra. Podemos citar como exemplo um sonho que nos foi relatado por uma determinada pessoa, em que ela estava em um barco, com os remos nas mãos, quando estes se transformaram em serpentes. Isso significa que há uma relação de causalidade entre os dois elementos no conteúdo latente.

A forma de representação mais conhecida dos sonhos é, sem sombra de dúvidas, a de representação por símbolos. Desde a antiguidade o homem tem tentado decifrar os significados dos sonhos se utilizando principalmente deste método (como o caso bíblico de José interpretando o sonho do Faraó, por exemplo). Mas a interpretação por símbolos, na Psicanálise, ocupa um papel apenas secundário: os símbolos devem ser utilizados apenas como um método auxiliar, quando o paciente não conseguir fornecer associações dos elementos de seu sonho. Nas palavras de Freud:

"As duas técnicas de interpretação dos sonhos devem ser complementares uma à outra; mas, tanto na prática como na teoria, o primeiro lugar continua a ser ocupado pelo processo que descrevi inicialmente e que atribui uma importância decisiva aos comentários feitos pelo sonhador, ao passo que a tradução de símbolos, tal como a expliquei, está também a nosso dispor como método auxiliar."

Além disso, Freud ainda ressalva que o simbolismo "não é peculiar aos sonhos, mas característico da representação inconsciente, em particular no povo, e é encontrado no folclore e nos mitos populares, nas lendas, nas expressões idiomáticas, na sabedoria dos provérbios e nos chistes correntes em grau mais completo do que nos sonhos."

Muitos símbolos são considerados universais, e representam quase sempre as mesmas coisas. Freud cita, como exemplo, que o "Imperador e a Imperatriz (ou o Rei e a Rainha) de fato representam, em geral, os pais do sonhador; e o Príncipe ou Princesa representa a própria pessoa que sonha".

O ato de subir e descer escadas ou degraus são representações do ato sexual. Mesas postas para refeição e tábuas representam mulheres. Todo tipo de arma e instrumento, como revólveres, facas, punhais, martelos, etc, é uma representação do órgão sexual masculino. Calvície, queda de cabelos, queda dos dentes e decapitação são alguns símbolos de castração, da mesma forma que lagartos e largartixas, animais cujas caudas voltam a crescer quando arrancadas. Um chapéu é um símbolo de um homem ou de um órgão sexual masculino.

Além do simbolismo, alguns sonhos são considerados "sonhos típicos". Esses sonhos, ao que parece, são aqueles que quase todo mundo tem da mesma forma, e presume-se que tenha o mesmo significado para todos. Entre esses, contam-se aqueles de se estar embaraçosamente despido (ou insuficientemente vestido) em meio a várias pessoas. Esse tipo de sonho, segundo Freud, é um sonho de exibição, um retorno à infância, quando podíamos exibir sem qualquer restrição nossos órgãos sexuais a quem quer que fosse.

Há também aqueles sonhos de morte de pessoas queridas, principalmente de pais e irmãos. No caso dos irmãos, o desejo que o sonho realiza é de que realmente o irmão morto no sonho tivesse morrido na realidade. Mas esse não é um desejo atual. Isso é explicado pelo fato de que os irmãos, quando crianças, devido uma relação por algumas vezes rival e hostil entre si (ocasionada pela busca de atenção dos pais, por exemplo), geralmente desejam que seus irmãos morram. Mas a morte para uma criança não representa o mesmo que para nós, adultos. Para elas, morrer é apenas ir embora. Esse desejo infantil, no entanto, permanece em nosso inconsciente e irrompe, por razões que devem ser analisadas, em nossos sonhos quando adultos, pelo fato de que o conteúdo do inconsciente é indestrutível. Não há tempo e espaço no inconsciente. Nele, não há diferença entre um desejo que lá está a poucos minutos ou a vários anos. Quanto ao desejo infantil de morte dos irmãos, Freud afirma:

"...estar 'morto' significa aproximadamente o mesmo que ter 'ido embora' - ter deixado de incomodar os sobreviventes. A criança não estabelece nenhuma distinção quanto ao modo como essa ausência é provocada: se é devido a uma viagem, a uma demissão, a uma separação ou à morte."

Sonhos com ladrões tentando invadir nossa casa ou um ambiente em que estamos são também originários de reminiscências infantis. Nas análises de Freud, ele descobriu que os ladrões representavam, em todos os casos, o pai do sujeito.

Neste ponto poderia perguntar-se: mas por qual razão esses símbolos representam essas coisas, especificamente? A Psicanálise, neste aspecto, se torna apenas descritiva, como toda e qualquer ciência: os seus achados, baseados sempre na prática clínica e em inumeráveis análises, apenas apontaram para esses resultados. Descobrir, no entanto, a razão das coisas serem dessa ou daquela maneira não é muito diferente do que a Física, por exemplo, tentar descobrir por qual razão a lei da gravidade existe afinal, ao invés de apenas apontar a sua existência e descrevê-la.

Vimos então, de forma resumida, alguns poucos conceitos psicanalíticos freudianos sobre os sonhos e sua interpretação, mas que esperamos que sejam suficientes para direcionar estudos posteriores e aprofundamentos.

Filosofia – o que é isso?

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A palavra “Filosofia”, em sua etimologia, significa “amar (philia) a sabedoria (sophia)”, e denota uma atitude de procura amorosa da verdade. Foi utilizada pela primeira vez por Pitágoras, em resposta àqueles que o chamavam de sábio. Ele respondia exigindo não ser chamado assim, mas apenas de “amante da sabedoria”, isso é, alguém que procura pelo saber, ou seja, um filósofo.

A partir dessa definição etimológica, podemos entender a Filosofia, antes de mais nada, como uma atitude. A Filosofia não implica posse de um corpo teórico de conhecimentos. Ao contrário, ela é uma prática, um exercício do pensar. Immanuel Kant costumava dizer a seus alunos: “Não há Filosofia que se possa aprender, só se aprende a filosofar”. Dessa forma, “a atitude do filósofo é caracterizada pela humildade intelectual de quem convive com a dúvida” (CATANEO, 2008), já que ele não é alguém que detém o saber, mas alguém que está sempre à sua procura. O filósofo é aquele para o qual a realidade é sempre objeto de admiração crítica, de espanto e encantamento.

Outra importante característica da Filosofia é a reflexão. A palavra reflexão vem do verbo latino “reflectere”, que significa “voltar atrás”. Filosofar então significa retomar, reconsiderar os dados disponíveis, revisar, analisar (CATANEO, 2008). É um exercício de raciocínio, uma maneira de se posicionar diante das coisas e fatos do mundo. A reflexão é uma característica imprescindível da Filosofia, e deve ser sempre profunda e crítica.

E a crítica, parte de sua própria essência, é a atitude de “não se conformar com as explicações já fornecidas sobre o nosso mundo”. Conforme Pacheco e Nesi (2007, p.25), “criticar abrange duas características básicas: questionar os fundamentos, as idéias, as causas e os efeitos de um fenômeno; julgar estes fundamentos ou idéias como aceitáveis ou não”.

A Filosofia que tentamos até agora definir é a chamada Filosofia formal. Mas cabe aqui dizer algo também sobre um tipo de Filosofia chamada informal, praticada por pessoas comuns, dotadas de racionalidade. Essa Filosofia informal é caracterizada por uma busca por respostas tanto para questões mais imediatas do cotidiano como para questões mais elevadas, mas que não tem, no entanto, nenhum compromisso com a lógica, a coerência e o formalismo científico. É a chamada Filosofia vulgar, ou seja, popular, ou do povo (CATANEO, 2008). É uma busca por princípios básicos que possam nortear a vida das pessoas. É somente neste sentido de Filosofia que podemos afirmar que todo homem é um filósofo, pois todo homem busca compreender, de uma maneira ou de outra, a realidade que o circunda.

Mas para que uma reflexão possa ser chamada verdadeiramente de filosófica, é preciso que satisfaça uma série de exigências. Entre elas, Saviani (2002) destaca três:

1) Radicalidade – A Filosofia exige que a questão a ser analisada seja colocada em termos radicais. Quer dizer, é preciso que se vá até as raízes, até seus fundamentos, ou seja, uma reflexão em profundidade;

2) Rigorosidade – Deve-se proceder à reflexão com rigor, ou seja, sistematicamente, segundo métodos determinados;

3) Totalidade – A questão não pode ser analisada de modo parcial, mas numa perspectiva de conjunto, relacionando-a com os demais aspectos do contexto em que está inserida.

Os filósofos pré-socráticos

Posted: 26.7.08 by Glauber Ataide in Marcadores:
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A Filosofia, tal como a conhecemos no ocidente, é uma criação grega. Apesar de encontramos tentativas de explicações racionais da realidade também em outras culturas da antiguidade, o pensamento grego, a partir do século VI a.C., se caracteriza pelo tentativa do uso exclusivo da razão, sem recorrência a mitos, deuses ou ao sobrenatural. Por essa razão, considera-se a Filosofia como uma criação grega.

Os primeiros filósofos gregos são chamados de pré-socráticos, distinção que se aplica pelo fato de terem vivido antes (ou contemporaneamente a) de Sócrates. O projeto filosófico comum a praticamente todos eles era a busca da arkhé, isso é, a substância fundamental de que é formada a realidade.

Tales é considerado o primeiro filósofo e pai da Filosofia. Oriundo de Mileto, na Jônia, foi responsável pelo início da Filosofia da physis (“natureza”, entendida na língua grega em um sentido bem mais amplo do que na nossa concepção de natureza). Ele foi responsável pela previsão de um eclipse, algo que despertou a admiração de seus contemporâneos e de filósofos posteriores.

Observando, entre outras coisas, que tudo precisa de umidade para existir e crescer, e que aquilo que morre se seca, Tales chegou à conclusão de que a arkhé era a água. Mas essa água, no entanto, não deve ser confundida com aquela água que bebemos, mas é antes uma physis líquida totalizante, algo mais próximo de uma certa umidade. Outro detalhe que vale mencionar é que o próprio Tales não chegou a utilizar o termo arkhé.

Anaximandro foi discípulo de Tales. É considerado o autor do primeiro tratado filosófico do Ocidente, como também do primeiro escrito filosófico grego em prosa. Ao contrário de Tales, pergunta como e por que da arkhé derivam todas as coisas, não se contentando simplesmente em tentar descobrir o que ela é. Daí afirma, então, que a injustiça é a causa, a origem de todas as coisas. Por injustiça Anaximandro se refere à predominância de um oposto sobre o outro. A gênese do cosmo, em sua concepção, se dá a partir de um movimento eterno, em que geram-se os primeiros dois contrários, o frio e o calor.

O discípulo de Tales foi pioneiro ao sustentar que a terra não tem necessidade de sustentação material no espaço, e também ao afirmar que a vida teve origem na água, com animais aquáticos que evoluíram, sendo assim um antigo precursor da teoria da evolução de Darwin.

Anaxímenes foi discípulo de Anaximandro, e discordando de seu mestre, propôs um novo elemento como a arkhé: o ar. Para ele, a origem de todas as coisas se dá na tensão da realidade originária, que é a condensação e a rarefação. Ele se maravilhou ao perceber os contrários que eram gerados por esses dois estados do ar, como quando sopramos em nossas próprias mãos ar rarefeito (quente, quando sopramos com a boca mais aberta) e ar condensado (frio, quando sopramos com a boca menos aberta). Anaxímenes foi mais rigoroso logicamente do que seus antecessores.

Heráclito de Éfeso, conhecido também como “o obscuro” (pois escrevia e falava de forma obscura, não fazendo questão que ninguém o entendesse devido à sua misantropia, ao desprezo que tinha por todos e por tudo aquilo que era honrado em sua época), propõe o fogo como a arkhé. Para ele o fogo é logos, é razão. Assim, a idéia de inteligência que estava implícita nos filósofos anteriores se torna explícita. Heráclito percebe a realidade essencialmente como movimento, como o crepitar do fogo. Para ele tudo é uma ininterrupta mudança, daí sua célebre frase: “Não se entra duas vezes no mesmo rio”. Com isso ele queria dizer que uma pessoa, ao tentar entrar em um mesmo rio pela segunda vez, estará na verdade entrando em um rio diferente, que já fluiu, que não é mais da mesma forma que era antes. De fato, até a própria pessoa já estará no mínimo ligeiramente diferente de quando entrou no rio pela primeira vez.

No entanto, há uma discussão na academia quanto ao fato de Heráclito realmente ser um filósofo que buscava uma arkhé. Há uma corrente que afirma que o fato dele ter proposto o fogo como realidade básica fundamental é na verdade uma negação de que exista uma substância estável que possa ser considerada como a arkhé. Todavia, a posição contrária é mais aceita.

Pitágoras é alguém de quem pouco podemos afirmar com segurança. Sua história é encoberta por mitos, pois desde a fase final de sua vida já não era visto mais como um humano, mas sim como algo superior, um semi-deus. Para ele, o “princípio” é o número e os seus componentes. A doutrina de Pitágoras é difícil de reconstituir porque ele mesmo não deixou nada escrito, e muitas de suas doutrinas eram esotéricas, isso é, eram restritas a um grupo seleto de discípulos e iniciados, não sendo divulgadas ao público geral.

O número não é algo que existe por si só, mas é ele mesmo derivado de outros elementos, que são:

- indeterminado ou ilimitado;
- determinante ou limitante;
- ímpar masculino, par feminino;
- ímpares quadrados, pares retangulares.

Xenófanes foi filósofo e rapsodo, e o primeiro a criticar o antropomorfismo. Pensador independente, não se filiou e nem criou nenhuma escola filosófica. Para ele, Deus é o cosmo. Considerou a terra e a água como os princípios, mas apenas de nossa terra, e não do cosmo inteiro. Chegou a apresentar fósseis marinhos nas montanhas como prova de que já houve água nesses locais.

Parmênides foi o filósofo do ser. Teve como mestre um filósofo pitagórico, e apresentou sua teoria das três vias do conhecimento:

- a via da verdade absoluta;
- a via das opiniões falazes;
- a via da opinião plausível.

Afirmava que o ser é e não pode não ser, e que o não ser não é e não pode ser de modo nenhum. Foi o principal opositor de Heráclito. Identificava o caminho dos sentidos como o caminho do erro. Seu princípio salvava (explicava) o ser, mas não os fenômenos.

Zenão foi um filósofo que concentrou seus esforços em refutar os opositores de Parmênides. Inaugurou o argumento reductio ad absurdum, e foi o fundador da dialética. Desenvolveu inúmeros argumentos para refutar o movimento e a multiplicidade, chamados de paradoxos de Zenão. Entre eles encontra-se o argumento da flecha, que é o seguinte: um arqueiro lança uma flecha do ponto A ao seu alvo, o ponto B. No entanto, antes de chegar ao ponto B, a flecha deve passar por um ponto intermediário entre os pontos A e B, que vamos chamar de C. Porém, antes de chegar nesse ponto intermediário C, a flecha deve passar por um ponto intermediário entre A e C, que vamos chamar de D, e assim sucessivamente, ao infinito. Dessa forma, o movimento da flecha é uma ilusão, e ela nunca nem mesmo sai do lugar.

Melisso de Samos foi o grande sistematizador da escola eleática. Corrigiu Parmênides, afirmando que o ser é eterno, infinito, uno, igual, imutável, imóvel e incorpóreo (isso é, sem forma, não imaterial).

Após esses pensadores, a filosofia grega passa pela fase dos filósofos pluralistas e ecléticos, que tentaram elaborar uma síntese dos pensadores anteriores. Entre esses filósofos encontra-se Empédocles de Agrigento, que afirmava que o nascer e o perecer não existem (Parmênides). Ele considera toda a realidade oriunda de quatro raízes: água, ar, terra e fogo. As forças motrizes da geração e da corrupção de todas as coisas são philía e nêikos, ou amizade e ódio.

Para explicar a cognição, ele afirma que das coisas saem eflúvios que atingem os órgãos dos sentidos, e o semelhante reconhece o semelhante. O pensamento tem seu veículo no sangue e sede no coração, e não é exclusivo do homem. Em sua obra encontram-se influências órficas, como os conceitos de culpa originária e expiação da culpa através dos nascimentos.

Anaxágoras de Clazômenas foi provavelmente o filósofo responsável por introduzir a Filosofia em Atenas. Para ele nascer e morrer também não existem, mas sim o compor-se e o dividir-se. Introduz o conceito de spérmatas, ou homeomerias, pois as quatro raízes de Empédocles, em sua concepção, não são suficientes para originar todas as coisas. Os elementos dos quais derivam todas as coisas devem ser inumeráveis como são as quantidades das coisas. Assim, as “sementes” (spérmatas) são:

- inumeráveis;
- variadas;
- o originário qualitativo (pensado eleaticamente), incriado, imutável;
- infinitas, não apenas em número, mas em qualidade.

Cada coisa, portanto, tem a semente de todas as coisas. Anaxágoras representa um refinamento no pensamento dos pré-socráticos em direção ao imaterial, e apresenta o conceito de uma inteligência cósmica, ilimitada, independente e não-misturada.

Leucipo de Mileto foi mestre de Demócrito, e dele não nos chegou muitas informações. Afirmava a impossibilidade do não-ser, considerando o nascer como agregar-se e o morrer como desagregar-se.

Demócrito de Abdera, atomista, representou uma das últimas tentativas de resposta ao problema do ser (eleatismo) dentro da Filosofia da physis. Foi um dos descobridores do conceito de átomo, e também afirmava a impossibilidade do não-ser. Para ele, os átomos são infinitos e invisíveis por sua pequenez e volume, além de serem indivisíveis, indestrutíveis e imutáveis.

Os átomos estavam, portanto, mais próximos do ser eleático do que os elementos de Empédocles ou as homeomerias de Anaxágoras, pois eram qualitativamente indiferenciados. Todos são um ser pleno em si mesmos. E pelo fato dos átomos serem infinitos, segue-se disso que infinitos mundos derivam deles.

Para Demócrito não há uma inteligência ordenadora, pois para ele a inteligência segue ao átomo, e não o precede. Afirma que o conhecimento deriva dos eflúvios dos átomos que se desprendem de todas as coisas, e que aqueles em nós reconhecem aqueles fora de nós. O semelhante reconhece o semelhante, como em Empédocles.

O filósofo Diógenes de Apolônia representa uma involução em sentido eclético. Ele retorna ao monismo, e afirma que o princípio é o ar infinito, dotado de muita inteligência – uma combinação de Anaxímenes e Anaxágoras. Dele não nos resta muitas informações.

Arquelau de Atenas foi provavelmente o mestre de Sócrates. Provavelmente falava algo sobre “ar infinito” e “inteligência”.


Os sofistas

Os sofistas eram mestres itinerantes, que cobravam por suas lições. Foram responsáveis por operar o deslocamento do interesse da Filosofia da natureza para o homem. Podemos apontar como fatores históricos responsáveis pelo surgimento dessa classe:

- crise da aristocracia;
- crescente poder do demos (povo);
- afluxo de estrangeiros;
- ampliação do comércio;
- difusão do conhecimento dos viajantes, com conseqüente comparação entre leis e costumes de lugares diferentes.

Deve-se considerar que os sofistas não são um bloco compacto em si, mas visavam às mesmas finalidades com esforços independentes. Podemos dividi-los em quatro grupos:

- Mestres da primeira geração;
- Erísticos;
- “Político-sofistas”;
- Naturalilstas.

Entre os mestres da primeira geração conta-se Protágoras, que afirmava que “o homem é a medida de todas as coisas”. Se professava mestre na arte da Antilogia (contradição), que é o método de aduzir argumentos prós e contra sobre qualquer questão, para tornar mais forte o argumento mais fraco. Para ele, ninguém nunca está no erro, mas cada um tem a sua verdade. Considera a virtude apenas como uma mera habilidade na antilogia. É um adepto do utilitarismo: o melhor é o útil, o pior é o danoso.

Górgias, também um mestre da primeira geração, tem como ponto de partida o niilismo. Para ele não existe o ser, e o nada existe. Afirmava que se o ser existisse, não seria cognoscível, e se fosse pensável, seria inexprimível.

Pródico também foi mestre na arte de discursar, e propunha uma técnica chamada sinonímia, que consistia na distinção entre os vários sinônimos e a determinação precisa de seus significados. Essa técnica chegou a exercer influência benéfica no método socrático. Teve uma interessante interpretação dos deuses: afirmava que eles eram uma hipostatização (absolutização) do útil e do vantajoso

Os sofistas erísticos eram aqueles mestres na erística, na arte da controvérsia com palavras, que tem por fim a controvérsia em si mesma. Ela representa uma degeneração da sofística.

Entre os sofistas-políticos podemos citar Crítias, que dessacralizou os deuses. Em sua concepção, os deuses foram introduzidos por um homem político inteligente para fazer respeitar as leis. Podemos também citar Trasímaco, que afirmava que “o justo é a vantagem do mais forte”, e Cálicles, para quem é “por natureza justo que o forte domine o fraco”.

Já a corrente naturalista da sofística contrapõe a lei de natureza (que reúne os homens) à lei positiva (aquela feita pelos homens e que os divide). Um de seus representantes é Hípias, mestre na arte da memória (mnemotécnica). Ele afirmava que a natureza une os homens, mas que a lei frequentemente os divide. Nascia aqui então uma distinção entre um direito (lei da natureza) e um direito positivo (contingente). Isso operaria uma dessacralização das leis humanas.

Outro representante da corrente naturalista da sofística é Antifonte, que radicaliza a antítese entre “natureza” e “lei”. Se utilizando de termos eleáticos, afirma que a natureza é a “verdade”, e que a lei positiva é a “opinião”, e que devemos, sempre que possível, seguir a lei da natureza e transgredir a dos homens. Apresenta concepções igualitárias e cosmopolitas, e chega a afirmar que qualquer homem é igual ao outro.

De forma panorâmica e condensada, estes são alguns dos principais filósofos gregos anteriores a Sócrates, os chamados filósofos pré-socráticos.

Sócrates e Jesus – o debate

Posted: 6.7.08 by Glauber Ataide in Marcadores: , , ,
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Li recentemente a obra de Peter Kreeft chamada “Sócrates e Jesus – o debate”, da editora Vida Acadêmica. É lugar comum a afirmação de que há muitas semelhanças entre as duas pessoas mais influentes da história do Ocidente, das quais derivam os dois principais segmentos da civilização ocidental: a cultura greco-romana, herança de Sócrates, e a cultura judaico-cristã, herança de Jesus. E foi no intento de encontrar uma leitura comparada desses dois nomes que me debrucei sobre essa obra.

A considerar o título do livro, espera-se encontrar um diálogo fictício entre os dois personagens, ao estilo dos diálogos platônicos. Mas o título em português é enganoso. Jesus não aparece na história. Não há debate algum entre Sócrates e Jesus. O título em inglês – “Socrates meets Jesus” – não causaria tal equívoco.

A história do livro se passa na Universidade de Harvard, ou melhor, “Havalarde” - um trocadilho que Kreeft utilizou para fazer referência a essa instituição. Sócrates aparece, misteriosamente, em um dos corredores da universidade, após tomar a cicuta em sua prisão, 2400 anos antes. Sem saber o que está acontecendo, onde está e por qual razão ali está, ele encontra um porteiro, com o qual trava um pequeno diálogo e depois vai para a rua, onde acaba sendo reconhecido por uma estudante que o acompanhará por todo o livro. Ambos se matriculam no curso de Teologia da universidade, e será durante suas aulas que a maior parte do livro se passará.

A principal coisa que não gostei no livro é o fato dele ser muito apologético. Sócrates é apresentado como um personagem extremamente religioso, o que contrasta com a figura dele legada por Platão. Certamente Sócrates foi um grande mestre moral, e muitas máximas que Jesus expressou já tinham sido anunciadas por ele há mais de 400 anos. Mas Sócrates, o “paradéigma” dos filósofos, não me pareceu muito bem retratado por Kreeft em sua obra. No início da história Sócrates até faz algumas ponderações e aborda temas não ligados a religião, como a cultura ocidental do século XX e o nosso conceito de “progresso”. Mas depois disso, o tema é só religião.

Sabemos que obras de ficção não têm compromisso com a realidade. A própria natureza deste tipo de livro não deve nos deixar iludir quanto a isso. Mas penso que o livro seria melhor se fosse mais verossímil. Pra se ter idéia, Sócrates, nesta história, lê todo o Antigo Testamento em apenas uma semana, assim como o Novo Testamento, na semana seguinte. E o que é mais incrível: com apenas essa leitura, ele é capaz de apresentar argumentos e deixar confusos todos os seus professores, dando aulas de apologética. Suas considerações sobre o mistério da encarnação, a essência de Deus e a ressurreição de Cristo deixariam muitos apologistas contemporâneos boquiabertos. E olha que Sócrates, nesta história, nem ao menos sabia direito o que é o Cristianismo.

E o final da história, ao contrário do que afirma a contra-capa do livro – que “o final é surpreendente” – de surpreendente não tem nada. (Se você pretende ler o livro, pule este parágrafo) É o final mais lugar-comum que se poderia imaginar. Você já imagina qual é, não? Isso mesmo, acertou. Sócrates se torna um cristão no final do livro. É o que o próprio título da obra em inglês deixa transparecer – “Socrates meets Jesus”.

Mas o livro, enfim, é uma leitura interessante, principalmente para quem já teve contato com Sócrates nas obras de Platão. Mas talvez seja bem mais interessante para quem não é um acadêmico de Filosofia, já que não terá muitas das preocupações que eu tive ao criticar a obra. Porém, para mim, não é um livro que mereça uma segunda leitura. Kreeft obteve sucesso até certo ponto em sua empreitada, mas falhou ao apresentar um Sócrates demasiadamente religioso fazendo apologética cristã. Eu esperava um livro mais filosófico. Mas se este livro está em sua lista de leitura, não deixe de ler.

How to read a book (Como ler um livro)

Posted: 21.6.08 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Posso dizer que minha vida de leitor até hoje se divide em dois períodos: aquele antes de ler o “How to read a book”, de Mortimer J. Adler e Charles Van Doren, e depois dele.

Na época em que estava lendo este livro, percebia que várias pessoas, quando o viam em minhas mãos, esboçavam um leve sorriso, pois é algo realmente incomum ver alguém lendo um livro de 400 páginas que apenas ensina como ler livros.

Mas isso se deve ao fato de que não sabemos realmente o que é a arte de ler. As pessoas confundem a habilidade de decodificação de símbolos gráficos em símbolos fonéticos com a real habilidade de leitura. Mas ler vai muito além desse passo. Esse é tão somente o primeiro.

Essa obra é considerada um clássico vivo, e teve sua primeira edição na década de 40. Em língua portuguesa ela recebeu o nome de "A arte de ler", mas não se encontra mais facilmente em nossas livrarias.

Mortimer e Charles nos ensinam algumas valiosas técnicas de leitura, das quais tomei algumas notas e compartilho neste espaço. É desnecessário dizer que o tratamento dado na obra a cada um destes tópicos é bem mais profundo, pois o que se segue é apenas uma ficha de leitura que eu anotei em um caderno e usei como base para este post.

Segundo nossos autores, existem 4 níveis de leitura, os quais devem seguir um ao outro:

1) Nível elementar
2) Nível inspecional (ou skimming)
3) Nível analítico
4) Nível sintópico

O nível elementar é aquele nível do qual falamos anteriormente, que consiste em aprender a decodificar símbolos gráficos em símbolos fonéticos. É a habilidade que adquirimos a partir do jardim de infância e desenvolvemos ao longo do ensino fundamental. Ele é a base da leitura, e dele não há muito que dizer.

O nível inspecional tem o objetivo de descobrir se um livro merece uma leitura mais detalhada. Nesse nível de leitura, aconselham Adler e Doren, não se deve ter medo de parecer superficial, pois é assim que devemos ler: superficialmente. Não devemos tentar entender cada palavra ou idéia. Um segunda leitura esclarecerá tudo. Não devemos gastar muito tempo. Ela deve ser rápida. Devemos seguir os seguintes passos:

1) Observar o título do livro e o prefácio
2) Estudar a tabela de conteúdo
3) Verificar o índice
4) Ler a publicação editorial
5) Dar uma olhada nos capítulos que parecem centrais ao argumento do livro
6) Ir folheando as páginas, dando uma “bicada” aqui e ali, lendo um parágrafo ou dois, às vezes várias páginas em seqüência, mas não mais que isso.

Regra importante: Ao ler um livro difícil, nunca pare para entender o que você não entende imediatamente.

A leitura deve ser sempre ativa. Muitos têm a idéia de que a leitura é uma atividade “passiva”, isso é, que a leitura é “receber” informações. Nada mais longe da verdade. A leitura deve ser encarada como uma atividade “ativa”. É um diálogo, é conversar com o autor, fazer perguntas e buscar respostas.

O leitor, para ser exigente, deve fazer sempre as seguintes perguntas a qualquer livro:

1) Do que esse livro trata, no geral?
2) O que está sendo dito em detalhe, e como?
3) Esse livro é verdadeiro, no todo ou em parte?
4) Se sim, e agora? O que vem disso?

O leitor deve fazer também com que um livro seja sempre seu. Um livro não é nosso apenas se o compramos na livraria. Para fazer um livro ser seu, os seguintes passos devem ser observados:

1) Sublinhar
2) Fazer linhas verticais na margem
3) Fazer estrelas ou asteriscos nas margens
4) Fazer números nas margens (seqüência de colocações do autor no argumento)
5) Números de outras páginas na margem (referência cruzada)
6) Circular palavras-chave ou frases
7) Escrever perguntas na margem

Tudo o que foi dito até então se refere ao nível de leitura inspecional. Agora vem o nível mais importante quando se está lendo uma única obra, que é o analítico.

Mortimer e Charles dão as seguintes instruções para este nível de leitura:

1) Saiba que tipo de livro você está lendo, de preferência antes de começar a leitura
2) Sintetize a unidade de todo o livro em uma única frase, ou no máximo em algumas poucas (um pequeno parágrafo)
3) Identifique as partes principais do livro, e mostre como elas estão organizadas no todo, sendo ordenadas umas às outras entre si e à unidade no todo
4) Defina o(s) problema(s) que o autor está tentando resolver
5) Encontre as palavras importantes e tenha certeza de que você e o autor entendem a mesma coisa por elas
6) Marque as frases mais importantes em um livro e descubra as proposições que elas contêm (frases contêm proposições, não se esqueça disso)
7) Conheça os argumentos do autor, encontrando-os ou construindo-os através de seqüências de frases
8) Determine quais problemas o autor resolveu e quais não, e para esses últimos, decida quais o autor sabia que falhou em resolvê-los
9) Você deve dizer, com razoável segurança, “Eu entendo”, antes que possa dizer coisas como: “Eu concordo”, “Eu discordo” ou “Eu suspendo julgamento”
10) Não discorde de forma contenciosa ou apenas por disputar
11) Demonstre que você reconhece a diferença entre conhecimento e mera opinião pessoal apresentando boas razões para qualquer julgamento crítico que fizer
12) Mostre onde o autor está desinformado
13) Mostre onde o autor está mal-informado
14) Mostre onde o autor está sendo ilógico
15) Mostre onde a análise do autor ou seu relato é incompleto

O último nível de leitura eu não vou transcrever aqui. O nível sintópico é um nível em que várias obras são comparadas entre si, e é geralmente utilizado em um processo de pesquisa.

Além disso, há vários capítulos nesta obra de Mortimer e Doren com técnicas específicas a diferentes tipos de literatura, como Romance, Poesia, História, Filosofia, Sociologia, etc. Enfim, é um livro pra se ter na estante e sempre visitar.