A descartabilidade dos relacionamentos - ficar, namorar e casar

Posted: 21.5.08 by Glauber Ataide in Marcadores:
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A fluidez dos relacionamentos contemporâneos e a velocidade em que um número exorbitante deles tem se desfeito é uma marcante característica de nossa pós-modernidade. O que poderia explicar o fracasso de tantos relacionamentos e casamentos em nossos dias? E o que dizer do fenômeno do "ficar", tão comum principalmente entre os jovens?

A Sociologia fornece algumas ferramentas que nos auxiliam a pensar a questão. O materialismo histórico, de Karl Marx, pontua que são as condições materiais da vida concreta do homem que moldam a sua forma de ser e pensar. Para ele, a produção de idéias está diretamente ligada à atividade material humana. A consciência é um produto social como um reflexo do contexto social mais próximo.

Isso significa, no presente caso, que podemos encontrar na vida concreta, material, os elementos que moldam nossa forma de conceber e viver os relacionamentos.

A partir desse apontamento, começemos por observar que nossa sociedade pode ser caracterizada como a "sociedade dos descartáveis". Estamos imersos em uma "cultura da descartabilidade", do consumo rápido e frenético.

O refrigerante que compramos vem em uma embalagem descartável. As fraldas dos bebês são descartáveis. Os aparelhos eletrônicos têm um tempo de vida reduzido, para que sejam descartados e subsituídos dentro de poucos anos ou meses, devido ao alto custo de uma eventual manutenção ou à sua obsolescência precoce.

Quase não se conserta mais as coisas que se estragam, a não ser produtos muito caros, como carros, por exemplo. No mais, preferimos comprar tudo novo. Quase não frequentamos mais os sapateiros, e raramente vamos aos técnicos ou alfaiates. Tudo é descartável. Tudo muda rápido. Tudo deve ser usado, aproveitado para em seguida ser descartado e substituído.

Essa condição material de descartabilidade atingiu o próprio homem e seus relacionamentos. Os relacionamentos estão se tornando descartáveis. Se não dá certo, ele é descartado. Não se tenta consertar, pois não vale a pena pagar o preço por isso. Arruma-se um novo parceiro então.

E essa correlação é ainda mais nítida naquele tipo de relacionamento chamado "ficar", que talvez seja a máxima expressão dessa descartabilidade. "Ficar" significa usar o outro e descartá-lo, da mesma forma que se é usado e descartado. O consumo descompromissado se revela nesse ato, assim como a transformação do homem em mercadoria, própria do capitalismo.

A descartabilidade dos relacionamentos está diretamente vinculada à descartabilidade das mercadorias no capitalismo, sendo que este, de forma semelhante ao Rei Midas da mitologia grega, o qual transformava em ouro tudo o que tocava, transforma em mercadoria tudo aquilo em põe as mãos.

5 comentários:

  1. Morgana says:

    Legal o assunto. Eu ainda não entendo como as pessoas têm facilidade de fazer tanta coisa com gente desconhecida. 'Ficar', pra mim, nunca rolou, principalmente se eu nem sabia o nome do cara. Não acho graça, não me sinto a vontade, enfim, é ruim. Talvez o relacionamento acabe rápido pq já começa assim, meio errado. As duas pessoas não se conhecem, só gostam da aparência um do outro, e já começam a namorar. Normal que depois de um certo tempo não muito grande as diferenças gritantes apareçam, e a 'vida a dois' fique abalada. Aí vem o que vc disse, as pessoas não acham que vale a pena tentar consertar. Além disso, namoro não significa tanta coisa hoje. Não é comprometimento, responsabilidade, compartilhamento. As vezes é só uma 'ficada mais longa' enquanto 'alguma coisa melhor' não aparece.

  1. Eliézer says:

    (De antemao, me desculpem a falta de acentos).


    Ola Glauber,
    A figura no alto do artigo ja fala muito. Entendo que os relacionamentos estao se desgastando numa velocidade muito rapida pela falta de amor, o mais nobre sentimento, o que culmina com a 'descartabilidade'. As pessoas estao cheias de razao e orgulho que nao se dobram para o outro, entao nao se desculpam e nao perdoam nao querem mais 'tocar a vida' como bons amigos. Dai, o proximo passo eh desfazer-se rapido do "problema" e partir para uma outra amizade ou relacionamento que, bem provavel, sera tambem temporal. Vejo que as pessoas esquecem com facilidade o que Jesus Cristo disse a respeito de "amar o proximo como a si mesmo". Se fizessemos isto, os relacionamentos durariam; a menos que nao amemos nem a nos mesmos. Ai, meus amigos, eh outra historia...

    O Blog esta otimo.
    Abracos, Pr. Eliezer.

  1. Talvez eu tenha uma visão muito existencialista para pensar de tal forma. Se você atribui o que chama de descartabilidade à uma constante busca pela felicidade, fica claro que o que causa essa descartabilidade é o fato da PESSOA querer sempre mais.

    A pessoa nao se contenta com quem está ao seu lado.

    Não acredito nisso... Pra mim, esses conceitos simplesmente não existem, o grande cerne disso tudo, é a boa vontade de cada um...

  1. Caro Hubert,

    Obrigado por sua visita e comentário.

    Se a descartabilidade dos relacionamentos se deve a uma constante "busca da felicidade", como você afirmou, e também ao fato do indivíduo querer "sempre mais", isso apenas reforça o que afirmei em meu texto: que o sistema de descartabilidade atingiu o próprio homem!

    É característico do homem contemporâneo a "busca pelo mais", a identificação da "felicidade" e do "prazer" no consumo do novo, do diferente. Isso apenas se estendeu agora aos relacionamentos humanos também, e não apenas aos "produtos". Afinal, o que o capitalismo não transforma em mercadoria?

    Além disso, a questão não é "acredito" ou "não acredito". Não é questão de fé se esses "conceitos" existem ou não existem. Você deve analisar o argumento e demonstrar, de maneira racional, qual é a falha da argumentação.

  1. Me desculpe, não sei se fui claro. O que eu fiz não foi uma crítica. Não disse certo ou errado, apenas disse a minha opinião.

    Mas posso justificar o que disse pra saberem o que eu realmente acho, caso seja de interesse: acho que se o homem chegou ao ponto de se corromper por isso, é por comodidade. Facilmente influenciável e moldável pelo seu arredor, a pessoa desiste de lutar, desiste de fazer força para abstrair as coisas... Acaba sendo mais um na onda do consumismo (que sim, acredito e condeno).

    As pessoas podem ser imunes à isso se elas quizerem. Eu me considero assim. Considero que se você teve uma visão racional para discutir isso, vc também o seja.

    Então, isso afirma ainda mais que tudo o depende da boa vontade das pessoas. Lutar ou deixar-se dominar? Chegou à esse ponto...