Inclusão digital e educação tecnológica

Posted: 25.11.08 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Introdução

A inclusão digital, em um sentido mais amplo, se refere à democratização do acesso às tecnologias da informação, de forma a permitir a inserção de todos na sociedade da informação. Segundo Filho (2008), a inclusão acontece quando baseada em três pilares: tecnologias da informação, renda e educação. A análise do presente trabalho se concentra no aspecto da educação tecnológica, sendo esta um componente essencial da inclusão digital. No entanto, essa análise se estenderá também à educação tecnológica em um sentido que transcende à mera alfabetização de analfabetos digitais, se ocupando também da educação tecnológica de nível técnico e superior.

Origens da esperança de transformação do mundo pela técnica

A partir do período moderno, e especialmente a partir do Iluminismo, o homem tem ouvido falar de um futuro harmonioso, dominado pela razão científica (TEIXEIRA; BUGLIONE, 2008, p.40). Essa visão de mundo se materializa nas telas de cinema, nos filmes de ficção científica, em programas de televisão (ou até mesmo em canais inteiros, como o Discovery Channel) e em revistas de divulgação científica, apresentando os grandes avanços tecnológicos possibilitados pela ciência, e como isso transformará nossas vidas cada vez mais positivamente. No entanto, fato é que esse dia não chegou, e é cada vez menor o número de pessoas que acreditam que um dia ele chegará (Ibid.). 

No espírito dessa esperança escatológica de redenção da humanidade pela ciência, a educação tecnológica se configura como um dos meios para se alcançar o paraíso cibernético. Através da educação tecnológica, em articulação com outros fatores, as pessoas menos favorecidas poderão saber como acessar a internet e seu amplo banco de informações, poderão pagar suas contas pela rede, fazer compras, etc. Isso diz respeito aos iniciados na tecnologia. Mas já no nível de ensino técnico e superior, a crença é de que as pessoas instruídas neste saber poderão contribuir para um mundo melhor através de sua informatização.

Essa visão de um futuro harmonioso, onde todas as mazelas sociais foram resolvidas através da técnica é descrita de forma magistral no romance “Admirável mundo novo”, de Aldous Huxley. Nessa obra, Huxley apresenta uma sociedade totalitária e dominada pela ciência, em que todos os indivíduos se consideram felizes. Os nascimentos são controlados através de uma eficiente engenharia social, que condiciona os indivíduos, desde o momento em que são ainda fetos, a serem felizes dentro da classe social a que estão destinados a pertencer, assim como ao executar as tarefas para as quais estão sendo criados. A obra, escrita em 1931, apontava o rumo que a sociedade ocidental cientificista estava tomando. Mas o próprio Huxley não esperava que várias de suas previsões começassem a acontecer tão rapidamente.

Diferentes tipos de conhecimento

É necessário estabelecer uma importante distinção epistemológica entre diversos tipos de conhecimento para que o saber científico ocupe o seu devido lugar. Aristóteles categoriza o conhecimento humano em três diferentes tipos: o saber produtivo, o saber prático e o saber que se refere à realidade (SELL, 2008, p. 143).

O saber produtivo ou poiético é aquele que consiste em saber construir ou elaborar algo concreto. Nessa categoria se enquadra o conhecimento tecnológico. O saber prático engloba a ética e a política, e está ligado “à prática na qual o agente, o ato ou a ação e o resultado são inseparáveis” (Ibid.). O saber referente à realidade é o que diz respeito às peculiaridades de cada coisa e também o conhecimento da realidade como ela é. Aqui se encontra o conhecimento filosófico e metafísico, que, segundo Aristóteles, é superior a todos os outros, embora qualquer um possa ser mais necessário que este.

A partir dessa distinção entre os diferentes tipos de conhecimento, fica claro que o conhecimento científico não é o único, e nem tampouco pode fornecer explicações sobre toda a realidade. A ciência, na verdade, é uma abstração artificial de determinado aspecto da realidade e não pode, devido à natureza de seu próprio objeto, o qual estabelece os seus métodos de procedimento, abarcar tudo o que há.

O conhecimento científico tende cada vez mais à especialização. Contudo, essa especialização tem se configurado em alienação. Várias áreas dentro da própria ciência, não raras vezes, não se comunicam entre si. O especialista, então, dilacerado pela fragmentação, com um conhecimento profundo, mas que corresponde apenas a uma parcela ínfima da realidade e, por isso, estreito, se sente angustiado diante do todo, pois ele ainda é homem, e o homem é um ser integral, não fragmentado.

Educação tecnológica como instrumento de alienação

Uma interessante crítica de Marx e Engels, na obra Manifesto do Partido Comunista, aponta para uma indesejada conseqüência da educação tecnológica no âmbito social: “A cultura, cuja perda o burguês tanto lastima, é, para a imensa maioria dos homens, apenas um adestramento para agir como máquina.” (MARX, 2001, p. 62)

Considerando o termo cultura em seu sentido etimológico, do latim cultivare, isso é, tudo aquilo que é cultivado, construído pelo homem, a cultura engloba a educação. E nesse sentido podemos afirmar que a educação tecnológica, sendo apenas um dos tipos de conhecimento possível e isolada desses outros, não passa de um adestramento de homens em máquinas.

A educação tecnológica não forma o homem integral. Não cria consciência política, não responde questões éticas e nem existenciais. Dessa forma, o homem educado apenas em tecnologia, não engajado em refletir sobre seu cotidiano, se torna apenas uma peça que serve aos interesses de uma classe dominante, perpetuando assim um sistema de exploração de classes sem o menor interesse em deixar o mundo de uma forma melhor do que o encontrou.

A ciência e a tecnologia não mais servem ao homem. Não são um meio de libertação dele, mas se tornaram um fim em si mesmas. É interessante a observação de Émile Durkheim sobre o avanço da tecnologia, que ele percebia já no século XIX:

À medida que os homens são obrigados a produzir um trabalho mais intenso, os produtos deste trabalho tornam-se mais numerosos e de qualidade superior; mas estes produtos, melhores e mais abundantes, são necessários para compensar as energias despendidas por este trabalho mais considerável. (DURKHEIM, 2006, p. 110)

É este o princípio regente no desenvolvimento da tecnologia. Um círculo vicioso se estabeleceu entre o trabalho humano no desenvolvimento da tecnologia e os seus benefícios para aliviar o dispêndio cada vez maior de energia empregado neste trabalho. Trabalha-se cada vez mais para aliviar cada vez mais os esforços do próprio trabalho.

Conclusão

Teixeira e Buglione (2008) alertam que “um ‘futuro pós-humano’  de integração tecnológica não vai atingir a todos. Não podemos todos viver o american way of life – é impossível, do ponto de vista da sustentabilidade”. 

A educação tecnológica, portanto, se configura como uma educação extremamente limitada, e na maioria das vezes, insuficiente, como fator de transformação social. Há muita expectativa de que a educação tecnológica possa causar transformações sociais que melhorem a vida do homem de forma qualitativa, mas essa esperança, como vimos, estende suas raízes desde a Modernidade e o Iluminismo, e é cada vez menor o número de pessoas que depositam nela a sua fé. Uma educação transformadora deve passar não apenas pelo conhecimento produtivo e tecnológico, pois este, por si só, se torna um instrumento de alienação e adestramento. Ela deve se articular imprescindivelmente com outras formas de conhecimento, como o saber prático (ética e política) e o saber metafísico e filosófico. 


REFERÊNCIAS

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. São Paulo: Martin Claret, 2001.

DURKHEIM, Émile. As regras do método sociológico. São Paulo: Martin Claret, 2006.

SELL, Sérgio. História da Filosofia I. Palhoça: UnisulVirtual, 2008.

TEIXEIRA, Eduardo Didonet; BUGLIONE, Samantha. Cenários contemporâneos. Palhoça: UnisulVirtual, 2008.

FILHO, Antônio Medes da Silva. Os três pilares da inclusão digital. Disponível em . Acesso em 9 nov. 2008.

WIKIPEDIA. Inclusão digital. Disponível em . Acesso em 9 nov. 2008.

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