A "análise intrusiva" dos atos falhos de uma pessoa

Posted: 30.12.08 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Quando revelamos um conteúdo psíquico a alguém que desejaria mantê-lo recalcado, essa "análise intrusiva" provoca uma violenta reação de seu ego. O indivíduo reage com certa violência, irritação e agressividade devido à derrota que seu mecanismo de defesa percebe que sofreu. Duas situações pelas quais passei, na qual revelei ao agente -  contra a sua vontade - o motivo de seu ato falho, ilustram esta observação feita por Freud em A psicopatologia da vida cotidiana (que também reproduzo mais abaixo).

Mas o que são "atos falhos"?

Os atos falhos são uma "falha evidente de um mecanismo psíquico" (TALLAFERRO, 1996, p. 101), e foram agrupados por Freud em sete tipos: orais, escritos, de falsa leitura e de falsa audição, esquecimento temporal, perdas e atos sintomáticos. Eles são distúrbios temporários de uma função, que em outro momento pode ser perfeita e corretamente desenvolvida (Ibid.). Os exemplos irão esclarecer do que falamos.

Considere que quero sair para fazer uma caminhada e, no caminho, colocar uma carta em uma caixa de correio para ser despachada. Freud afirma que 

não preciso, como indivíduo normal e livre de neuroses, carregá-la na mão por todo o caminho e ficar à cata de uma caixa de correio onde possa jogá-la; pelo contrário, costumo colocá-la no bolso, seguir meu caminho deixando os pensamentos vagarem livremente, e confiar em que uma das primeiras caixas do correio há de chamar minha atenção e fazer com que eu ponha a mão no bolso e retire a carta. A conduta normal frente a uma intenção concebida coincide por completo com o comportamento experimentalmente produzido das pessoas a quem se deu, em hipnose, uma "sugestão pós-hipnótica a longo prazo", como se costuma chamá-la. Esse fenômeno é usualmente descrito da seguinte maneira: a intenção sugerida dormita na pessoa em questão até se aproximar o momento de efetivá-la. É aí que desperta e impele a pessoa para a ação. (FREUD, 2002)

Um ato falho ocorre quando eu saio de casa com esta carta na mão para despachá-la mas percebo que passei por uma caixa de correio e não a deixei lá. Esse esquecimento é um tipo de ato falho.

Os atos falhos ocorrem para evitar o desprazer. Eles são sempre sintomas de algum tipo de conflito psíquico. No caso da carta, o ato de depositá-la na caixa de correios poderia entrar em associação com conteúdos psíquicos que quero manter recalcados. Por essa razão, um mecanismo psíquico atua para que a ação não seja executada, e nesse caso, para que eu esqueça minha intenção de colocar a carta no correio.

Um outro ato falho muito comum é a substituição de nomes, isso é, quando vamos chamar uma pessoa e trocamos seu nome pelo de outra pessoa, por exemplo. Ou então quando esquecemos o nome de uma pessoa. A real motivação da troca de um nome pelo outro ou pelo seu esquecimento pode ser analisada.

Se alguém também afirma: "'Não me peça para fazer isto, tenho certeza de que vou esquecer!'", a realização dessa profecia, segundo Freud (1997), nada tem de místico, pois "quem assim fala sente em si a intenção de não executar o pedido e apenas se recusa a confessá-lo a si mesmo."

Dois exemplos de análises de atos falhos

Afirmamos no início que uma "análise intrusiva", isso é, a interpretação de um ato falho de uma pessoa sem o seu consentimento, pode desencadear uma violenta reação por parte do "analisando". Vou descrever agora dois exemplos.

Minha esposa e eu havíamos adquirido um bem que há muito desejávamos. Estávamos extremamente satisfeitos com nossa conquista, sentimento este não compartilhado por um familiar. Essa insatisfação, no entanto, só viemos a descobrir posteriormente, através da análise do seu discurso. 

Todas as vezes em que este familiar conversava com minha esposa, este falava que deveríamos ter pesquisado mais antes de realizar nossa compra, que não havia sido uma boa opção, que poderíamos ter feito uma melhor escolha sob sua orientação, etc. Após perceber que esse assunto surgia com muita frequência e insistência, comecei a analisar seu discurso e a hipótese que eu queria submeter à prova era de que ele estava insatisfeito com nossa conquista e estava tentando inconscientemente causar desprazer à minha esposa, privar-lhe da satisfação de nossa aquisição. Orientei minha esposa então a expor-lhe minha hipótese (sem lhe dizer que era uma hipótese minha), e para nossa admiração, o que se percebeu foi exatamente uma violenta reação de sua parte. 

Um caso parecido, relatado por Freud em sua obra A psicopatologia da vida cotidiana, foi o que nos fez considerar que nossa análise estava correta:

Em outra ocasião, eu fazia uma visita a uma dama que era tão rica quanto avarenta e tola, e que tinha o costume de dar ao médico a tarefa de elaborar um batalhão de queixas antes de chegar à causa simples de seu estado. Quando entrei, ela estava sentada frente a uma mesinha, ocupada em dispor florins de prata em pequenas pilhas.Ao se levantar, derrubou algumas moedas no chão. Ajudei-a a apanhá-las e, pouco depois, interrompi-a na descrição de suas desgraças e perguntei: "Então seu nobre genro tem-lhe custado tanto dinheiro assim?" Ela respondeu com uma negativa exasperada, mas pouco depois já me narrava a triste história da aflição que lhe causava o esbanjamento de seu genro. Entretanto, é certo que nunca mais mandou me chamar. Não posso afirmar que sempre se façam amigos entre aqueles a quem se informa o sentido de seus atos sintomáticos. (FREUD, 1997, p.115, grifo nosso)

Uma outra situação, com a mesma pessoa, aconteceu em um amigo oculto de natal. No primeiro sorteio, algumas pessoas haviam sorteado a si mesmas, o que exigiu um segundo sorteio, que foi o definitivo. No entanto, no dia de natal, no ato de troca de presentes, percebemos que um mesmo participante recebeu presentes de duas pessoas - isso é, foi "sorteado" duas vezes, o que deixou alguém sem presente. Esse alguém foi eu. E isso foi causa de um extremo mal-estar entre os participantes.

Como havia poucos participantes, foi possível logo descobrir quem foi o responsável pela confusão. Foi novamente o mesmo familiar do primeiro exemplo. Minha hipótese, baseada em todo um histórico que não vou mencionar aqui, foi simples e direta: esse ato falho foi um mecanismo de defesa de seu ego para que ele não tivesse o desprazer de ter que me entregar esse presente. Quando nos encontramos em uma ocasião posterior e pude lhe afirmar diretamente que esse foi o motivo do esquecimento, antes que eu terminasse o meu argumento, ela irrompeu em uma explosão de ira, uma violenta reação a essa "análise intrusiva", e ao tentar negar minha hipótese, acabou revelando mais do que imaginávamos. Mais uma vez tive boas razões, baseado na mesma experiência relatada por Freud, para concluir que minha análise de seu ato falho estava correta. Ele não queria ter me sorteado no amigo oculto, mas sim qualquer outra pessoa. Como isso não aconteceu, seu ato falho, para evitar esse desprazer, fez com que ele se "confundisse" e desse o presente a outro indivíduo qualquer.

REFERÊNCIAS

FREUD, Sigmund. Sobre a psicopatologia da vida cotidiana. In: Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1997.

KEEGAN, Paul. Introduction. In: FREUD, Sigmund. The psychopathology of everyday life. London: Penguin Classics, 2002.

TALLAFERRO, Alberto. Curso básico de Psicanálise [Tradução Álvares Cabral ]. 2.ed. São Paulo: Martins Fontes, 1996.  


5 comentários:

  1. Diego says:

    Grande Glauber!

    Sou leitor assíduo de seus posts, gosto muito da maneira que vc trata e traduz os princípios da Filosofia e Psicologia...

    No entanto, esse texto está meio confuso; logo no primeiro parágrafo vc fala da "análise intrusiva" só pra nos demais parágrafos tentar explicar o que de fato é isso. Nada demias! Mas pela minha pouca experiência com textos acho que isso faz com que o leitor fique menos seduzido com a temática a ser abordada.

    Se colocasse o exemplo (o que aconteceu com sua esposa...) na primeira parte do texto acho que ele ficaria mais explicativo e atraente a todos =)

  1. Kylter says:

    Isso que é cunhada! rsrsrs :-)

  1. Kylter,

    Também, o que se pode esperar de um parente cujo título ("cunhada") começa com "cu", hahahahhahahaha?

  1. kkkkkkkkkkkk
    sacanagem vey
    o texto ficou bom...

  1. Encontrei por acaso seu blog e gosto muito de sua clareza textual... e o que mais gostei de elucidativo neste texto é o grifo ao texto de Freud. Já aprendi ou estou aprendendo a não ser tão direto assim nas análises intrusivas...rs mas que é uma delícia às vezes fazê-la, ah!, isso é sim...rs