O saber dos antigos - terapia para os tempos atuais

Posted: 23.2.09 by Glauber Ataide in Marcadores:
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"O homem contemporâneo está doente, tavez gravemente". São essas as primeiras palavras que encontramos na sinopse da obra "O saber dos antigos - terapia para os tempos atuais", do filósofo italiano Giovanni Reale. Neste trabalho, Reale efetua uma incisiva análise e crítica do nosso presente período e oferece formas de "cura" reveladas na sabedoria antiga para o mal-estar contemporâneo.

Não é novidade que a Filosofia sirva a propósitos "terapêuticos". De fato, a chamada "página perdida" da história da Filosofia, isso é, o período que vai do declínio das escolas filosóficas gregas do helenismo até o surgimento do neo-platonismo, foi um período em que a Filosofia sofreu uma mudança de eixo: de teoria ela se tornou terapia. Isso se explica, em parte, pelo fato de que enquanto os gregos eram de caráter especulativo, os romanos possuíam um espírito prático, mais voltado à ação do que à reflexão.

Os filósofos greco-romanos, como Cícero, Sêneca e Epicteto, para citar alguns dos principais, não foram de forma alguma originais ou trouxeram grandes contribuições a áreas convencionais da Filosofia, tais como a Lógica, a Metafísica ou a Ontologia. Eles tinham uma concepção da Filosofia como uma "arte de viver", se preocupando principalmente da filosofia moral. Aproveitando-se então da herança cultural grega, esses filósofos foram ecléticos (com exceção de Epicteto), combinando elementos de várias correntes de pensamento, algumas até mesmo rivais (como Sêneca que, sendo estóico, faz apreciações positivas de Epicuro em vários pontos de suas obras).

Luke Timothy Johnson, em suas palestras proferidas pela The Teaching Company, no curso "Practical Philosophy - The Greco-Roman Moralists", afirma que a sabedoria antiga, proveniente dos filósofos greco-romanos (e consequentemente também dos filósofos gregos clássicos, que apresentaram em germe o que viria a ser desenvolvido por seus discípulos), tem muito a nos dizer hoje pelo fato de que o mundo desses filósofos e nosso presente tempo apresentam várias características em comum.

Segundo Johnson, tanto o império americano (EUA) quanto o império romano 1) estabelecem sua dominação através do poder, do comércio, da língua e da cultura; 2) servem como principal ponto de atração e oposição do mundo; 3) herdaram impérios anteriores através de guerra e negociação; 4) migraram de valores republicanos para imperiais; 5) migraram das virtudes das pequenas cidades para a sofisticação de grandes cidades; 6) enfrentavam o desafio de estilos de vida alternativos, etc.

Sendo assim, o contexto em que esses filósofos desenvolveram seu pensamento é, em muitos aspectos, semelhante ao nosso presente período histórico, e Reale busca na fonte dessa sabedoria antiga, isso é, principalmente nos filósofos gregos clássicos (Sócrates, Platão e Aristóteles), a "cura" para o mal-estar do homem contemporâneo. Talvez sua proposta não possa curar, mas pelo menos aliviará "a dor e o desespero".

Reale identifica que a origem do "mal-estar da civilização" deve ser buscada sobretudo no niilismo, que teve Nietzsche como o seu principal "profeta". Esse título talvez se justifique diante da seguinte citação desse filósofo:

"O homem moderno crê experimentalmente ora neste, ora naquele valor, para depois abandoná-lo; o círculo de valores superados e abandonados está sempre se ampliando; cada vez mais é possível perceber o vazio e a pobreza de valores, o movimento é irrefreável [...]. A história que estou relatando é a dos dois próximos séculos." (F. Nietzsche, Fragmentos póstumos)

De acordo com Reale, à pergunta "mas em que consiste o niilismo?", Nietzsche oferece respostas que atingem uma clareza exemplar. Em um fragmento de 1887, lemos: "Niilismo: falta o fim, falta a resposta ao 'por quê?'; o que significa niilismo? - que os valores supremos se desvalorizam." E citando um outro trecho desse filósofo, Reale afirma que os pressupostos do niilismo são: "Que não exista uma verdade; que não exista uma constituição absoluta das coisas, uma 'coisa em si'".

Ao explicitar os pontos básicos sobre o que é o niilismo, o filósofo italiano afirma que ele leva à desvalorização e à negação dos seguintes princípios:

a) princípio primeiro, Deus;
b) fim último;
c) ser;
d) bem;
e) verdade.

Nietzsche resumiu a essência do niilismo, em sentido global, na célebre fórmula "Deus está morto".

Identificado e definido o niilismo como a raiz do mal-estar do homem contemporâneo, Reale inicia sua excursão através dos males que nos afligem hoje e os contrasta com a sabedoria dos antigos. 

Para o "Reducionismo cientificista da razão", Reale apresenta "Aristóteles e a distinção entre razão científica e razão Metafísica" (cap. 1). Para o "Praxismo e produtivismo tecnológico", o filósofo introduz "O alcance ontogônico da contemplação" (cap. 3). Para o "Bem-estar material, sucedâneo da felicidade",  a cura seria conhecer a "Natureza da verdadeira felicidade" (cap. 4). 

Diante do "Individualismo levado ao extremo", somos remetidos a "Sócrates: 'conhece-te a ti mesmo'" (cap. 8). E ao sermos pressionados pelo "Materialismo e esquecimento do Ser", a saída seria resgatar "Platão: a 'Segunda Navegação' e a rejeição de todas as formas de materialismo" (cap. 10).

Esses são, enfim, alguns dos temas percorridos por Reale em sua trajetória. No epílogo, temos uma explicação sobre a "oração do filósofo", passagem emblemática do livro Fedro, de Platão. Para Giovanni, a mensagem contida no final desse diálogo é "realmente extraordinária, [...] válida para os homens de todos os tempos."

Eis o trecho do diálogo:

Fedro - [...] Mas vamos embora, porque o calor já não está tão forte.

Sócrates - Não convém que façamos uma prece a esses deuses, antes de seguir o caminho?

Fedro - Por que não?

Sócrates - Querido Pã e outros deuses que estais neste lugar, concedei-me a beleza interior e fazei que meu exterior se harmonize com tudo o que carrego dentro de mim. Que eu possa considerar rico o sábio e possa ter uma quantidade de ouro que só o temperante conseguiria tomar para si ou levar consigo. Precisamos de outras coisas, Fedro? Creio que pedi o suficiente.

Fedro - Esta oração é também a minha, pois os amigos têm tudo em comum.

Sócrates - Vamos, então! (279B-C)

Reale afirma que os dois primeiros pedidos aos deuses referem-se ao que é interior e ao que é exterior e à correta relação entre ambos, e que os dois últimos centram-se, ao contrário, naquilo que constitui a verdadeira riqueza.

No primeiro pedido, encontramos o conceito de que a verdadeira beleza, a divina, não está no corpo mas na alma, e é esta que é realmente preciosa. O segundo pedido refere-se à concordância que o homem deve realizar entre o "interior" e o "exterior", entre o que é espiritual e o que está ligado ao corpo. Para Reale, a mensagem desse pedido ao homem de hoje é esta: "não procure aumentar o que você tem, mas faça com que o que você tem esteja em harmonia com o que você é."

No terceiro pedido é expressa uma idéia típica sobretudo dos filósofos gregos, a de que não é o ouro o verdadeiro bem, e que a sabedoria é muito mais valiosa que este, e essa sabedoria é justamente a Filosofia. E finalmente, no quarto pedido, "o filósofo sabe que não pode pedir ao deus todo o ouro da sabedoria, porque a posse total da sabedoria só convém ao deus. Mas pode pedir-lhe que tenha o mais possível."

Ao estilo de Sócrates, que saía às praças para interrogar as pessoas, convencê-las de sua ignorância e convidá-las à busca do saber e do conhecimento de si mesmos, Reale cumpre o papel do filósofo como aquele que pensa "com" e "contra" o seu próprio tempo. E ao estilo dos moralistas greco-romanos, mostra nessa pequena mas valiosa obra que a Filosofia não é só teoria, mas quando apropriado, é também terapia.


REFERÊNCIAS:

REALE, Giovanni. O saber dos antigos - terapia para os tempos atuais. São Paulo: Edições Loyola, 1995.

JOHNSON, Luke Timothy. Practical Philosophy - The Greco-Roman Moralists. ______: The Teaching Company, 2002.


2 comentários:

  1. Cris says:

    Seu blog é perfeito...Estarei á acompanhar.

  1. É Parece que o Perfeição entrou em recesso... =)

    Não entendi a ilustração.

    Por que Sócrates não se inquietou em tomar a cicuta? Por acaso ele queria de fato morrer? E por que fê-lo? Ou essa seria apenas uma pintura romantizada de sua morte? O que você acha?

    Abraços!

    http://filosofiadeesquina2.blogspot.com/