Filosofia para educar as crianças: Rousseau e seu Emílio

Posted: 10.7.09 by Glauber Ataide in Marcadores: , ,
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Com a experiência da paternidade, um novo mundo de alegrias e preocupações surgiu diante de mim. Se o advento da minha filha me alegrava e me propunha a questão filosófica do mistério da vida, com a qual eu me espantava (Quem é esta que acaba de nascer? Onde ela estava? Desde quando existe?), a responsabilidade que me sobreveio como progenitor daquela maravilha da natureza, por outro lado, também me forneceu muito material para reflexão. Mas uma reflexão diferente da primeira: era uma reflexão da ordem da razão prática, que deveria nortear minhas atitudes como pai.

Para educar bem uma criança não bastam boas intenções. Se elas fossem o suficiente para o bem agir, em qualquer esfera, o conhecimento e a técnica seriam desnecessários. Qualquer um que tivesse a boa intenção de cozinhar bem, por exemplo, cozinharia bem. Ou qualquer um que quisesse ser um bom cientista, um bom cientista seria.

Mas sabemos que o mundo não é assim. E não deveríamos esperar que na educação dos filhos isso acontecesse. É verdade que os pais sempre querem o melhor para os filhos. Qual o pai que, pedindo seu filho um peixe, lhe daria uma pedra? Sábia observação do Cristo.

Mas a educação dos filhos é uma arte, não uma ciência. Não existem algoritmos para criar filhos. Ciente disso, para que eu não me deixasse enganar pela aparente autossuficiência da boa intenção, assim como para evitar por completo as "receitas de bolo" oferecidas pelos livros de auto-ajuda, voltei minhas leituras para algumas áreas da Filosofia e da Psicanálise que até então não tinham recebido muito de minha atenção - áreas que lidam com a educação das crianças - de forma que eu pudesse melhor compreender minha filha, a mim mesmo e a relação triangular edípica na qual agora nos encontrávamos - pai, mãe e filha. Vou compartilhar agora um pouco do que tenho encontrado na Filosofia.

Um filósofo discorre sobre a educação das crianças

O filósofo Jean-Jacques Rousseau dedicou uma obra à educação das crianças chamada Emílio, ou Da Educação, cuja primeira versão foi acabada no final de 1759. Neste livro o filósofo francês concebe uma criança imaginária que tem o nome de "Emílio" e nos acompanha por todas as suas fases de desenvolvimento, expondo as reflexões e as atitudes decorrentes para formar o homem que almejava o seu projeto educacional: um homem livre.

Para Rousseau, que considerava que o homem era originalmente livre e bom, mas posteriormente corrompido pela sociedade (teoria do bom selvagem), tanto a organização do Estado quanto a educação das crianças deveriam tentar amenizar as consequências da vida social. Isso é, já que não é possível que voltemos ao estado de natureza, que pelo menos as mazelas da vida em sociedade sejam diminuídas.

Logo nas primeiras páginas ele define o que seria um homem bem-educado: "Aquele que melhor souber suportar os bens e os males desta vida é, para mim, o mais bem-educado." (ROUSSEAU, 2004, p.15)

A criança deve ser educada para suportar todas as coisas, "os golpes da sorte, a desafiar a opulência e a miséria, a viver, se preciso, nos gelos da Islândia ou sobre o ardente rochedo de Malta." (Ibid., p.16)

Mas a educação não consiste apenas nisso. Ele ainda afirma que os pais, ao gerar e sustentar um filho, só cumprem com isso um terço de sua tarefa. Os progenitores 1) devem homens à sua espécie, 2) devem homens sociáveis à sociedade e 3) devem cidadãos ao Estado. A tarefa é tríplice. "Quem não pode cumprir os deveres de pai não tem direito de tornar-se pai", conclui. (Ibid., p. 27)

Assim, tendo inicialmente esclarecido o que ele almejava em seu projeto educacional, Rousseau, que tivera experiências como preceptor, discorre sobre os mais diversos aspectos da educação infantil.

As reflexões no "Emílio"

Ainda que seja possível identificar uma certa estrutura nesta obra, o próprio Rousseau admitia que seu livro era mais uma "coletânea de reflexões e de observações, sem ordem e quase sem sequência..." (Ibid., p.3) Modéstias à parte, o livro realmente apresenta em sua superfície uma leve desordem.

Por isso, caso o restante deste texto pareça também estar "sem ordem e sem sequência", levem isso em consideração. O que se segue é uma coletânea de anotações que eu fiz a partir desta "coletânea" de Rousseau, destacando aquelas reflexões que mais me chamaram a atenção.

Para começar, um problema que Rousseau encontrava em sua época e que é de extrema relevância ainda hoje é a questão de uma alta rotatividade na "terceirização" da educação dos filhos (este termo é meu, não de Rousseau). Isso é, filhos que mudam constantemente de babás ou outros cuidadores. Sobre essa questão, ele observava que é impossível que uma criança que passe sucessivamente por tantas mãos diferentes seja bem-educada, pois a cada mudança a criança faz comparações que sempre tendem a diminuir sua estima para com aqueles que a educam, e consequentemente, a autoridade deles sobre ela. "Se alguma vez", ele diz,

"a criança chegar a pensar que há adultos que não têm mais razão do que as crianças, toda a autoridade que vem da idade estará perdida, e a educação, estragada. Uma criança não deve conhecer outros superiores além dos pais, ou na falta deles, do preceptor e da ama-de-leite, e, mesmo assim, um deles já é demais." (Ibid., p.40)

A criança educada em liberdade (de acordo com o seu projeto de educação) deve aprender a não temer. Desde cedo ela deve ser exposta a máscaras feias, como de animais ferozes, por exemplo, para que se acostume com essas imagens. Rousseau comparava as crianças do campo e da cidade, e percebia que só as urbanas tinham medo de aranhas, já que as que viviam no campo eram desde sempre expostas a esses animais.

Para que não se tornem irritadas e coléricas, é necessário deixar as crianças pegar em tudo, e que não encontrem resistência nas vontades, mas sim nas coisas (Ibid., p.51). Se a criança não deve pegar um determinado objeto, este deve ser retirado de seu alcançe, ao invés de se proibir o acesso da criança a ele.

Caso a criança solicite que algum objeto que não esteja ao seu alcance lhe seja trazido, isso não deve ser feito: a criança é que deve ser levada até o objeto. Rousseau observou que "não é necessária uma longa experiência para perceber como é agradável agir pelas mãos de outrem e só precisar mexer a língua para fazer com que o universo se mova." (Ibid., p.57)

É preciso cautela com os artifícios utilizados pelos pequeninos para dominar os adultos, pois uma criança não deve exercer nenhuma dominação. Uma outra forma em que isso pode se manifestar, e à qual devemos ficar atentos, é o "pretender ser sempre escutado". A criança deve saber bem que não terá atenção a todo momento.

Não se deve zangar com as crianças quando quebrarem algo caro, pois suas ações são destituídas de moralidade. Elas não agem com a intenção de prejudicar. Aliás, coisas caras são o que deve estar longe dos seus quartos. Elas não devem ser expostas ao luxo, mas seus móveis devem rústicos, e ela deve viver em toda simplicidade.

A razão de se educar as crianças na simplicidade é que a educação deve ser negativa: não se deve ensinar virtudes à criança, mas deve-se livrá-la do vício. O luxo, como veremos mais adiante, é um vício.

Rousseau insistia muito que as crianças deviam ser criadas como crianças. Não se deve pensá-las apenas como "adultos em formação". "A natureza quer que as crianças sejam crianças antes de serem homens." (Ibid., p.91) Elas são seres integrais na forma em que estão. Ele criticava aqueles que nunca achavam que era cedo demais para repreender, corrigir, admoestar, adular, ameaçar, prometer, instruir, argumentar. Afinal de contas, ele ironizava, "não se quer fazer de uma criança uma criança, mas sim um doutor." E depois exortava: "Deixais que amadureça a infância nas crianças." (Ibid., p.97)

A criança não deve ser nem um animal, nem um homem, mas sim uma criança. Ela é de uma natureza específica, e deve ser tratada como tal, sempre em liberdade. Para que fosse seguido esse caminho da natureza e da liberdade, ele defendia que ninguém tinha o direito, nem mesmo o pai, de ordenar à criança o que não lhe serve para nada. Só a experiência e a impotência devem ser lei para a criança.

E para que ela perceba sua insuficiência diante do mundo e também sinta sua relação de dependência para com os pais, o filósofo propõe quatro máximas para que ela cresça no caminho da natureza:

  1. "Longe de terem forças supérfluas, as crianças nem mesmo têm forças suficientes para tudo que a natureza lhes exige. É preciso, portanto, facultar-lhes o emprego de todas as forças que ela lhes dá e de que não poderiam abusar."
  2. "É preciso ajudá-las e suprir o que lhes falta, quer em inteligência, quer em força, em tudo o que diz respeito à necessidade física."
  3. "No auxílio que lhes prestamos, devemos limitar-nos unicamente ao realmente útil, sem nada conceber à fantasia ou ao desejo irrazoável, pois a fantasia não as atormentará enquanto não se a fizer nascer, dado que ela não pertence à natureza."
  4. "É preciso estudar com atenção sua linguagem e seus sinais, para que, numa idade em que elas não sabem fingir, distingamos em seus desejos o que vem imediatamente da natureza e o que vem da opinião." (Ibid., p.58)

Além dessas, algumas outras medidas mais específicas são sugeridas adiante, como não proibir a criança de agir mal, mas sempre impedí-la, e deixá-las pular, correr e gritar quanto têm vontade, por exemplo.

Já havíamos falado que a educação é negativa, isso é, deve-se evitar os vícios de brotar nas crianças, ao invés de lhes ensinar virtudes. Se a criança já sabe falar, mas pede algo chorando, por exemplo, seu pedido deve ser recusado. Seu quarto, como já havíamos mencionado, deve ser simples, com móveis rústicos, e não se deve expor a criança ao luxo. O mesmo se aplica a seus brinquedos e suas outras posses. As crianças não devem ganhar brinquedos em excesso, a todo tempo, e não devem ter tudo o que pedem. Rousseau explicava por qual razão:

"Sabeis qual é o meio mais seguro de tornar miserável vosso filho? É acostumá-lo a obter tudo, pois, crescendo seus desejos sem cessar pela facilidade de satisfazê-los, mais cedo ou mais tarde a impotência vos forçará, ainda que contra a vontade, a usar da recusa. E essa recusa inabitual dar-lhe-á um tormento maior do que a própria privação do que deseja." (Ibid., p.86)

Ele concordava, porém, que a criança só deve fazer o que quer. Todavia, ela só deve querer "o que quereis que ela faça". Mas tudo isso deve estar dentro de certos limites. E a polêmica questão dos livros também se encaixa aqui.

Sabemos que Rousseau, desde muito novo, era um rato de biblioteca. Quando criança, ele passava grande parte do seu dia visitando o acervo deixado como herança por sua falecida mãe. Não obstante, em seu "Emílio", ele desencoraja veemente que as crianças fossem apresentadas aos livros antes dos 12 anos de idade. Mas como?

Talvez isso possa ser esclarecido pelo contexto francês do século XVIII. Ao que parece, a educação que os pais burgueses buscavam inculcar nos filhos através dos preceptores que contratavam enchia-lhes as cabecinhas de conhecimento inútil para a sua idade, conhecimento dos quais elas de fato não se apropriavam, mas apenas memorizavam. Os pais queriam fazer de uma criança um doutor, não uma criança. O filósofo percebia que isso era extremamente prejudicial, e que esse fato explicava o que levava as crianças a se afastarem posteriormente dos livros: "Uma criança não tem muita curiosidade de aperfeiçoar o instrumento com o qual a torturam." (Ibid., p.134)

Conclusão

A breve exposição que fizemos é apenas dos livros I e II, que tratam até aos 12 anos de idade da criança. Sendo que ainda levará um bom tempo até que minha filha atinga essa idade, não tenho tanta pressa em ler os demais livros do Emílio, que vai até o volume V, o qual cobre as idades entre 20 e 25 anos.

Aqueles que já leram essa obra poderiam apontar outros tantos trechos que poderiam constar aqui, e não o fariam sem razão. Mas como foi necessário excluir trechos das seleções que empreendi, reconheço que o que foi apresentado realmente não faz justiça à excelência e grandeza dessa obra.

O "Emílio" é uma obra sem grande sistematização, em que Rousseau por algumas vezes parece ter se perdido. Ele atesta isso quando afirma: "Leitores vulgares, perdoai meus paradoxos, é preciso cometê-los quando refletimos; e digam o que disserem, prefiro ser homem de paradoxos a ser homem de preconceitos." (Ibid., p.96)

Mas seu legado, no entanto, é inquestionável. As reflexões de Rousseau sobre a educação tem oferecido aos pais, professores e pedagogos nos últimos séculos orientações precisas e seguras para aqueles que reconhecem que apenas intuição e boas intenções nem sempre são suficientes para o bem educar.


REFERÊNCIAS:

ROUSSEAU, Jean-Jacques. Emílio, ou, Da educação. 3ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

4 comentários:

  1. Caro Glauber,
    Sou pai recente também, de um menino, hoje com 11 meses.
    Deveras interessante. Meu único porém é um de sempre, em relação a recomendações. Da teoria à prática há coisas que se demonstram impossíveis (as razões são diversas). Mas, de fato, as reflexões que você aponta são, no mínimo, úteis.
    Abraço, no Senhor,
    Roberto

  1. Cris says:

    Boa tarde, sou estudante de Pedagogia e estou fazendo uma pesquisa sobre Rousseau, gostaria de saber como educar uma criança de acordo com cada uma de suas fases?


    cristinaoliveira2009@yahoo.com.br

  1. Principal obra de Rousseau, pela simples compreenção daqueles que querem entender e têm pouca experiência com o tratado em questão,facilitando a digestão de todo o assunto, que desde de sua época e ainda hoje, é de extrema importância. Como vimos, a alienação cultural está de fato corrompendo as menstes de todos,desde seu primordio existêncial.
    "a criança para ser criança".

  1. Principal obra de Rousseau, pela simples compreenção daqueles que querem entender e têm pouca experiência com o tratado em questão,facilitando a digestão de todo o assunto, que desde de sua época e ainda hoje, é de extrema importância. Como vimos, a alienação cultural está de fato corrompendo as menstes de todos,desde seu primordio existêncial.
    "a criança para ser criança".