Dois minutos do ódio

Posted: 23.10.09 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
3

Na obra "1984", de George Orwell, há um estranho "ritual" em que as pessoas são obrigadas a participar diariamente. Ele é chamado de "Dois minutos do ódio", e consiste na exibição, em uma teletela, da imagem e da fala de Emanuel Goldstein, que no livro é o líder exilado da oposição ao governo do Big Brother, juntamente com outros opositores do "Partido" (como é chamado o partido do Big Brother, o Ingsoc).

Durante os "Dois minutos do ódio", as pessoas são levadas a um estado de exaltação histérica, de muita raiva, de ódio, onde proferem insultos e ameaças contra a imagem sendo exibida na teletela. Algumas vezes os telespectadores partem até mesmo para a agressão física contra o aparelho.

Orwell fez com isso uma referência à comum demonização dos inimigos que era utilizada durante a II Guerra Mundial através da mídia. Coisa que não precisamos recorrer aos livros de história para saber como era.

A mídia continua atuando da mesmíssima forma para desestabilizar governos e manipular opiniões. A leitura do panfleto Veja e de outros jornalões do PIG (Partido da Imprensa Golspista) não são nada mais que alguns "minutos do ódio".

Esses veículos não procuram informar, mas formar opinião - coisa de panfleto -, mostrando que deixaram de ser jornalismo há muito tempo. Segundo Diego Cruz, no artigo "Os fantasmas da revista Veja", "...a diferença entre um panfleto e um jornal é que, enquanto o panfleto lança algumas poucas ideias a fim de persuadir, o jornal ou uma revista traz informação, parte da apuração dos fatos, análise e dados, ainda que não possa ser imparcial. Veja, por esse critério, é mais um panfleto que uma revista. E, certamente, não tem nada a ver com jornalismo. "



Eis um exemplo. A exposição de "inimigos" fotografados pelos ângulos mais desfavoráveis com a intenção de provocar desprezo, levar os leitores a um frenesi, juntamente com falas distorcidas ou reproduzidas pela metade, omissão de informações e toda sorte de sujeira para defender interesses que são apresentados com um manto de objetividade.

Orwell foi perfeito em sua metáfora. Nos "Dois minutos do ódio", Goldstein aparecia na tela denunciando a ditadura do "Partido", exigindo o imediato acordo de paz com os países inimigos, exigindo liberdade de expressão, liberdade de imprensa, liberdade de reunião, de pensamento, etc.

Mas à medida que ele falava, o ódio dos telespectadores apenas aumentava. As pessoas pulavam em seus assentos, gritando como animais, com todas as suas forças, numa tentativa de calar a voz que vinha da teletela. E o pior é que sabemos que isso não é apenas ficção.

3 comentários:

  1. Nossa, que coisa tenebrosa!!! A mídia está querendo adestrar...!

    Muita boa sorte!

    Bruna Geovanini Varniër

  1. Bells says:

    Texto realmente brilhante. O livro em si, é uma visão perfeita da realidade futura! Essa dominação da mídia, e sua manipulação pelos governos de cada época é tenebrosa mesmo. Durante a ditadura, nem se fala. Amei o livro!

  1. Há uma diferença, para mim, claríssima entre a situação descrita por George Orwell e a mídia atual. Em 1984, o Ministério da Verdade era responsável por manipular as informações, de modo que tudo fosse favorável ao Grande Irmão e ao partido. Era uma ditadura. Não havia nenhuma divulgação de informação que não dependesse do partido. Diferentemente do mundo atual (aliás, bem diferente!). Você hoje pode não gostar da Veja, mas ler matérias de outras publicações com outro viés, como Carta Capital, por exemplo. Cabe a você discernir e compreender a verdade.

    Portanto acho que a comparação da mídia atual com os Dois Minutos de Ódio não fazem sentido algum. Quando se existe uma maneira de confrontar opiniões diferentes a fim de encontrar a verdade, isso está longe demais de 1984.