Quando pobres defendem interesses de ricos

Posted: 1.10.09 by Glauber Ataide in Marcadores: , ,
3


Quando vemos pobres defendendo interesses de ricos, identificamos aí a atuação do que Marx chama de ideologia. A burguesia, para manter o mundo em que domina da forma como está, apresenta os seus próprios interesses como sendo interesses gerais, de toda a sociedade. E muita gente pobre, mas principalmente a classe média, não sofrendo com a miséria e aspirando ao modo de vida burguês, compra esse discurso e o repete na forma de uma sabedoria de papagaio. Marx e Engels expressam o primeiro ponto da seguinte forma:

"... cada nova classe que ocupa o lugar da que dominava anteriormente vê-se obrigada, para atingir seus fins, a apresentar seus interesses como sendo o interesse comum de todos os membros da sociedade; ou seja, para expressar isso em termos ideais; é obrigada a dar às suas idéias a forma de universalidade, a apresentá-las como as únicas racionais e universalmente legítimas." (MARX, ENGELS, 2005, p. 53)

Mas como não poderia deixar de ser, essa superficialidade da sabedoria de papagaio nunca resiste a alguns pedidos de explicação.

Cito um exemplo. Alguns desses papagaios, quando questionados sobre alguns problemas sociais graves, tais como a fome e a dificuldade que milhões de pais trabalhadores enfrentam para colocar comida na mesa para os filhos, respondem da seguinte forma: "Se não podem ter filhos, que não tenham. Eles deveriam fazer planejamento familiar."

Vejam que incrível! Ao invés de apontar as causas do problema social da desigualdade, dos baixos salários, etc, o problema é transferido para o trabalhador que não faz "planejamento familiar". Para o burguês e seus lacaios, essa lógica é muito simples: se você não tem dinheiro para ter filhos, não os tenha.

E querem falar de "planejamento familiar" para pessoas que, muitas das vezes, não sabem nem ler. Indivíduos que não podem pensar no futuro porque estão ocupados demais pensando no que vão comer na próxima refeição.

Se o problema é "pessoas com fome", a burguesia vê duas soluções: ou você elimina a fome, ou elimina as pessoas...

Um outro exemplo de brilhantismo ao analisar problemas sociais é a forma como o panfleto Veja, instrumento burguês, demoniza setores excluídos e movimentos sociais. Há algum tempo ela veiculou uma matéria fascista sobre moradores de ruas ("Profissionais da esmola", edição 2.126), os quais, em resposta, organizaram uma manifestação e queimaram exemplares do panfleto na Praça da Sé, no centro de São Paulo. Em uma "reporcagem" mais recente ("Por dentro do cofre do MST", edição 2128), novamente ela deu chifres, rabo e tridente a um movimento social: o MST.

Para a classe dominante e seus veículos de propaganda ideológica, simplesmente evita-se pensar em problemas como dos exemplos anteriores como sendo oriundos de uma complexa teia de relações causais que afluem de todos os lados para sua formação.

Pelo fato da burguesia apresentar o mundo em que domina como o melhor dos mundos, a classe média, aspirante a esse estrato social superior, não vê nada de errado na forma como a sociedade está organizada. Se crianças passam fome, não têm comida na mesa ou no futuro se tornarão marginais, a solução é simples: elas não deveriam nunca ter existido. A culpa é dos pais que as colocaram no mundo. Se trabalhadores pedem terra para cultivar enquanto latifundiários mantêm enormes propriedades improdutivas, o problema deve ser de quem?


REFERÊNCIAS:

MARX, Karl, ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. Tradução de Frank Müller. 3ª ed. São Paulo: Martin Claret, 2005.

3 comentários:

  1. Gláuber,
    permita-me retomar o texto anterior.
    Toda a educação moderna está relacionada ao passar no vestibular. Isso significa que as escolas modernas educam com um propósito prático, a saber, que o indivíduo tenha um emprego.
    A educação atestará praticidade independente do que o homem escolha ser profissionalmente.
    O ponto é este: as pessoas identificam-se por meio de suas profissões; as profissões são decorrentes de seus diplomas. O que elas não sabem é que esse ciclo diploma-profissão é uma cela de barras verticais.
    Quando o pobre senhor pedreiro orienta seu querido filho sobre a imprenscindibilidade da educação, o que ele pretende é: "Caro, você precisa de melhores condições de trabalho, para isso é necessário que estude". Nós podemos chamar o pobre homem de papagaio?
    O senhor provavelmente nada tem contra o trabalho, mas sabe que o trabalho ou tem valor intrínseco ou tem valor puramente monetário. Claro que o bom pedreiro pai de família tem razão em instruir seu filho, mas é verdade que quem consegue as melhores condições - freqüentemente - continua o ciclo anterior.
    Fraterno abraço,
    Marcus.

  1. Olá, Marcus,

    O problema da educação não é a instrução técnica em si, ou a instrução para exercer uma profissão (e não somente um "emprego"). Essa instrução é necessária e desejável. A esse propósito, há uma post mais antigo neste blog em que eu já havia me posicionado quanto a isso (http://glauberataide.blogspot.com/2008/06/educao-ou-adestramento-superior-h-algo.html).

    Eu não entendi se você está fazendo alguma conexão entre o post anterior e o atual. O que este presente texto está dizendo sobre a "sabedoria de papagaio" não pode ser aplicado sobre exemplo apresentado do pedreiro. Um pai que deseja educação a seu filho está fazendo o que deveria fazer.

    O problema vem depois disso. A questão é o tipo de ensino que o filho do pedreiro vai encontrar na escola. Se só uma instrução técnica, para que ele próprio tenha um salário melhor mas continue a vida inteira apenas um proletário, deixando intacta a estrutura social, ou um cidadão participativo que quer deixar o mundo melhor do que o encontrou.

  1. Oi amigo,
    Muito interessante seu blog. Vou com tempo ler seus textos. Gostei bastante. Parabéns.


    abraços,
    Daniel