Convém calçar luvas para ler "Veja"

Posted: 4.11.09 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Este título é uma paráfrase de Nietzsche, que dizia que convém calçar luvas para ler o Novo Testamento. É que após tomar conhecimento de uma "reporcagem" que Veja publicou na época dos 40 anos da morte de Che Guevara, essa frase de Nietzsche surgiu das mais profundas regiões do meu inconsciente. Talvez através da associação dos termos "Veja" e "imundície".

Venho afirmando e assim fazendo eco a vários jornalistas sérios deste país que Veja é um panfleto. Deixou de ser uma revista há muito tempo. Mas desta vez, a credibilidade de Veja é atacada por um jornalista de fora. O renomado jornalista norte-americado John Lee Anderson, autor da mais completa biografia de Che Guevara já escrita, tomou conhecimento da "reporcagem" que Veja publicou sobre Che Guevara, e ele não gostou do que leu. As cartas trocadas entre o renomado jornalista americano e o jovem jornalista de Veja fornecem um bom quadro do que Veja se tornou.

As cartas traduzidas de Anderson, assim como o material através do qual tomei conhecimento do assunto, são de autoria do jornalista Pedro Doria.

A primeira carta de Anderson é a seguinte:

Caro Diogo,

Fiquei intrigado quando você não me procurou após eu responder seu email. Aí me passaram sua reportagem em Veja, que foi a mais parcial análise de uma figura política contemporânea que li em muito tempo. Foi justamente este tipo de reportagem hiper editorializada, ou uma hagiografia ou – como é o seu caso – uma demonização, que me fizeram escrever a biografia de Che. Tentei pôr pele e osso na figura super-mitificada de Che para compreender que tipo de pessoa ele foi. O que você escreveu foi um texto opinativo camuflado de jornalismo imparcial, coisa que evidentemente não é. Jornalismo honesto, pelos meus critérios, envolve fontes variadas e perspectivas múltiplas, uma tentativa de compreender a pessoa sobre quem se escreve no contexto em que viveu com o objetivo de educar seus leitores com ao menos um esforço de objetividade. O que você fez com Che é o equivalente a escrever sobre George W. Bush utilizando apenas o que lhe disseram Hugo Chávez e Mahmoud Ahmadinejad para sustentar seu ponto de vista. No fim das contas, estou feliz que você não tenha me entrevistado. Eu teria falado em boa fé imaginando, equivocadamente, que você se tratava de um jornalista sério, um companheiro de profissão honesto. Ao presumir isto, eu estaria errado. Esteja à vontade para publicar esta carta em Veja, se for seu desejo.

Cordialmente,
Jon Lee Anderson.

A fraca resposta de Diogo foi a seguinte:

Caro Anderson,

Eu fiquei me perguntando, depois de lhe enviar um email pedindo (educadamente) uma entrevista, por que nunca recebi uma resposta sua. Agora sei que a mensagem deve ter-se perdido devido a algum programa antispam ou por qualquer outra questão tecnológica. Também não recebi sua ‘carta’ – talvez pelo mesmo problema. Tudo isso não tem a menor importância agora porque você resolveu o assunto valendo-se dos meios mais baixos – um email circular. O que lhe fez pensar que tinha o direito de tornar pública nossa correspondência, incluindo a mensagem em que eu (educadamente) pedia uma entrevista? Isso, caro Anderson, é antiético. Vindo de alguém que se diz um jornalista, é surpreendente. Você pode não gostar da reportagem que escrevi; ela pode ser boa ou ruim, bem-escrita ou não, editorializada ou não – mas não foi feita com os métodos antiéticos que você usa. Eu respeito a relação entre jornalistas e fontes. Você não. E mais: parece-me agora que você é daquele tipo de jornalista que tem medo de fazer uma ligação telefônica (assim são os maus jornalistas), já que tem meu cartão de visita e conhece meu número de telefone. Se você tinha algo a dizer sobre a reportagem — e já que sua mensagem não estava chegando a seu destino — poderia ter me ligado.
Eu não sei que tipo de imagem de si mesmo você quer criar (ou proteger) negando os fatos que o seu próprio livro mostra, mas está claro agora que é a de alguém sem ética. Você pode ficar certo de que não aparecerá mais nas páginas desta revista.

Sem mais,
Diogo Schelp

A tréplica demolidora de Anderson é como se segue:

Prezado Diogo Schelp:

Agradeço pelo sua ‘gentil’ resposta. (Soube que você é de fato uma pessoa muito ‘gentileza’; você mesmo o disse duas vezes em suas mensagens.) Só agora percebo, o mal-entendido entre nós nasceu exclusivamente por conta de meu caráter profundamente falho. Eu jamais deveria ter presumido que você recebera meu email inicial em resposta ao seu ou minha segunda mensagem a respeito de sua reportagem, muito menos deveria ter considerado que você pudesse ter decidido ignorá-los. É evidente que você tem um sistema de bloqueio de spams muito rigoroso.

Uma dica técnica: talvez devesse configurar seus sistema como ‘moderado’ e não ‘extremo’. Se o fizer, talvez comece a receber seus emails sem quaisquer problemas. Lembre-se, Diogo: moderado, não ‘extremo’. Esta é a chave.

Você me acusa de ser antiético, um ‘mau jornalista’. Questiona até se posso ser chamado de jornalista. Nossa, você TEM raiva, não tem?

Enquanto tento parar as gargalhadas, me permita dizer que, vindo de você, é elogio. Permita, também, recapitular por um momento a metodologia utilizada por você para distorcer as informações que o público de Veja recebeu:

Você publicou na capa e na reportagem uma grande quantidade de fotografias de Che, aproveitando-se assim da popularidade da imagem de Guevara para vender mais cópias de sua revista. Para preencher seu texto, você pinçou uma certa quantidade de referências previamente escritas sobre ele – incluindo a minha – para sustentar sua tese particular, qual seja, a de que o heroismo de Che não passa de uma construção marxista, como sugere seu título: ‘Che, a farsa do herói’.

Para chegar a uma conclusão assim arrasa-quarteirão, você também entrevistou, pelas minhas contas, sete pessoas. Uma delas era um antigo oponente de Che dos tempos da Bolívia. As outra seis, exilados cubanos anti-castristas, incluindo ex-prisioneiros políticos e veteranos de várias campanhas paramilitares para derrubar Fidel. (Um destes, o professor Jaime Suchlicki, você não informou a seus leitores, é pago pelo governo dos EUA para dirigir o assim chamado Projeto de Transição Cubana.) Percebi também que você prestou particular atenção no testemunho de Felix Rodriguez, ex-agente da CIA responsável pela operação que culminou na execução de Che. O fato de que você o destaca quer dizer que você o considera sua melhor testemunha? Ou terá sido porque ele foi o único que algum repórter realmente entrevistou pessoalmente? Os outros, parece, Veja só falou com eles por telefone. Mas como são rigorosos os critérios de reportagem de Veja!

Como disse em minha ‘carta aberta’ a você, escrever uma reportagem deste tipo usando este tipo de fonte é o equivlente a escrever um perfil de George W. Bush citando Mahmoud Ahmadinejad e Hugo Chávez. Em outras palavras, não é algo que deva ser levado a sério. É um exercício curioso, dá para fazer piada, mas NÃO é jornalismo. Dizer a seus leitores, como você diz na abertura da reportagem, que ‘Veja conversou com historiadores, biógrafos, ex-companheiros de Che no governo cubano’ passa a impressão de que você de fato fez o dever de casa, que estava oferecendo aos leitores um trabalho jornalístico bem apurado, que apresentaria algo novo. Infelizmente, a maior parte do que você escreveu é mera propaganda, um requentado de coisas que vêm sendo ditas e reditas, sem muitas provas, pela turma de oposição a Fidel em Miami nos últimos quarenta e tantos anos.

Minha questão não é política. Escrevi um livro, como você mesmo disse, que é ‘a mais completa biografia’ de Che. Há muito lá que pode ser utilizado para criticar Che, mas também há muitos aspectos a respeito de sua vida e personalidade que muitos consideram admiráveis. Em outras palavras, é um retrato por inteiro. Como sempre disse, escrevi a biografia para servir de antídoto aos inúmeros exercícios de propaganda que soterraram o verdadeiro Che numa pilha de hagiografias e demonizaçoes, caso de seu texto.

Não cometa o erro de me acusar de defender Che porque critico você. Serei claro: a questão aqui não é Che, é a qualidade do seu jornalismo. Sua reportagem, no fim das contas, é simplesmente ruim e me choca vê-la nas páginas de uma revista louvável como Veja. Seus leitores merecem mais do que isso e, se aparecerei ou não novamente nas páginas da revista enquanto você estiver por aí, não me preocupa. O que PREOCUPA é que, com tantos jornalistas brilhantes como há no Brasil, foi a você que Veja escolheu para ser ‘editor de internacional’.

Cordialmente,
Jon Lee Anderson.

Para ver qual a conclusão de Pedro Doria sobre isso, clique aqui.

4 comentários:

  1. Deu pena do Diogo!

    Aiai!

    Bruna Geovanini Varniër

  1. Não fiquei com pena do Diogo pq quem fala o que quer escuta o que NÃO quer...bem feito pra ele!

    Bjs

  1. Sem duvida ,a veja faz ´´reporcagens´´ .Eu gosto muito de uma comica ediçao, apos a morte de Erick Hobsbawn, na qual ela afirma que ele e Karl Marx estao agora no nono ciclo infernal, enquanto Hitler e Stalin estao no sexto.Alem de conter e claro, os hits:O marxismo e uma religiao; o marxismo esta morto;nazicomunismo; a reporcagem tambem inclui uma descoberta incrivel, sobre a biografia de Marx e Engels: Engels sutentava Marx com a mesada que o seu pai lhe dava!Outro grande achado, foi o fato de Raimond Aron ter afirmado e demonstrado que os ´´marxistas atuam proximo do nivel da trancendencia´´.E como se nao bastasse estas descobertas tao originais e geniais ela tambem afirmou falou sobre o comunismo somente em uma ocasiao.
    so para finalisar com chave de ouro vejamos o que a ANPUH achou desta pataquada:´´Tavez a veja tao em sua analise,imagine o mundo separado em coerencias absolutas : O bem e o mal.E se assim for, podera ser ela, veja,lembrada cmo de fato e:mediocre, pequena e mal intencionada

  1. Pessoal, me desculpem em meu comentario acima obviamente estao faltando algumas palavras.
    No lugar de:´´E como se nao bastasse estas descobertas tao originais e geniais ela tambem afirmou falou de comunismo somente em uma ocasiao
    Leiam:´´E como se nao bastasse estas descobertas tao geniais e originais ela tambem afirmou que MARX falou sobre o comunismo somente em um ocasiao.
    Onde se le:talvez a Veja tao(...)Leiam:Talvez a Veja SEJA tao EMPOBRECIDA.