Impressões sobre Ouro Preto

Posted: 12.2.10 by Glauber Ataide in Marcadores:
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No mês passado finalmente fui conhecer a cidade histórica de Ouro Preto, que apesar de tão perto daqui de Belo Horizonte, eu nunca tido ido visitar.

Chegamos bem cedo na cidade. Pegamos algumas informações sobre seus pontos turísticos, um mapa e fomos caminhando. Essa opção de ir a pé e deixar o carro estacionado nos deixou exaustos ao final do dia, mas valeu a pena. Dessa forma pudemos "sentir" mais a cidade.

Quanto entrei na primeira igreja (São Francisco de Assis), fiquei impressionado. A igreja possui mais de 400 kg de ouro em suas obras, de autoria do Mestre Ataíde. E quando se olha para cima, contempla-se o imponente teto da nave da igreja, com uma maravilhosa pintura representando a Virgem Maria, o Menino Jesus, alguns pais da igreja em suas extremidades (como Santo Ambrósio, Santo Agostinho, etc) e dezenas de anjos.

Mas uma das coisas que mais me impressionou nesta igreja foi perceber que o chão era demarcado em uma série de retângulos, todos numerados. Fiquei sabendo então que estávamos andando sobre túmulos! Sim, por todo o piso da igreja estão enterrados frades franciscanos! Veja uma foto da fachada dessa igreja.


Diante do fato das pinturas e esculturas do interior retratarem frequentemente um Cristo extremamente flagelado, machucado, a informação de estarmos caminhando sobre dezenas de túmulos deu um clima ainda mais mórbido-medieval ao lugar.

Depois fomos à igreja na qual Aleijadinho está enterrado, e visitamos o seu museu. O clima mórbido se tornou ainda mais agudo quando entramos em uma seção apenas de peças mortuárias. Ela é escura, com o teto baixo e algumas imagens chegam a ser macabras. Fiquei ainda mais impressionado quando vi, exposto em meio às obras, um pedaço de osso do próprio Aleijadinho, exumado na década de 90.

E quanto mais conhecíamos a cidade, mais latente ficava a impressão de morbidez e violência expressa em sua arte.

Depois fizemos uma incursão à Mina do Chico Rei. Este Chico Rei foi um escravo que, antes de ser trazido para o Brasil como tal, era um rei na África. Ele conseguiu posteriormente sua carta de alforria e comprou essa mina, a qual lhe forneceu recursos para que ele libertasse muitos outros escravos posteriormente. A mina é bem estreita, e em alguns trechos só se consegue passar agachando-se. Só de pensar que ali era uma mina de ouro de verdade na qual escravos trabalhavam há pouco mais de 200 anos atrás nos dá uma real sensação de estar voltando no tempo.


Passamos em alguns outros lugares e, ao final do dia, fomos visitar o Museu dos Inconfidentes. Achei um dos melhores pontos da cidade. Lá vimos várias peças mobiliárias, roupas, acessórios, armas e muitas outras coisas que só vemos em filmes que retratam o século XVIII. Estava tudo ali, de verdade, na nossa frente.

Mas o ponto máximo foi quando cheguei diante de uma enorme peça de madeira e vi que se tratava de uma parte da forca do Tiradentes. Logo ali do lado havia um livro muito antigo no qual estava inscrito a condenação original do inconfidente. Lá pode-se ler:

"Portanto condenam ao Réu Joaquim José da Silva Xavier por alcunha o Tiradentes Alferes que foi da tropa paga da Capitania de Minas a que com baraço e pregão seja conduzido pelas ruas publicas ao lugar da forca e nella morra morte natural para sempre, e que depois de morto lhe seja cortada a cabeça e levada a Villa Rica aonde em lugar mais publico della será pregada, em um poste alto até que o tempo a consuma, e o seu corpo será dividido em quatro quartos, e pregados em postes pelo caminho de Minas no sitio da Varginha e das Sebolas aonde o Réu teve as suas infames práticas e os mais nos sitios (sic) de maiores povoações até que o tempo também os consuma; declaram o Réu infame, e seus filhos e netos tendo-os, e os seus bens applicam para o Fisco e Câmara Real, e a casa em que vivia em Villa Rica será arrasada e salgada, para que nunca mais no chão se edifique e não sendo própria será avaliada e paga a seu dono pelos bens confiscados e no mesmo chão se levantará um padrão pelo qual se conserve em memória a infamia deste abominavel Réu..."

Numa câmara adjacente se encontram túmulos com os restos mortais de vários inconfidentes, no qual há um simbólico túmulo vazio, representando todas os outros heróis do povo que lutaram pela libertação nacional mas que não estavam fisicamente ali. E em um lugar de honra, especial, com uma bandeira de Minas Gerais ao fundo, o túmulo vazio de Tiradentes.


Após ler a condenação de Tiradentes, ver sua forca e me lembrar de toda a arte que tinha visto até ali, cheguei a comentar com a minha esposa: como podia um povo que era tão religioso, a ponto de sua arte não expressar nada além da religião, ser ao mesmo tempo tão violento? Tentando compreender isso, a única ligação que encontrei para harmonizar essas duas coisas, isso é, a violência da época e a religião, foi que sua violência estava também na religião. Sua religião era também violenta, como bem mostram os flagelos de Cristo e a constante presença de crânios nas pinturas.

Visitamos vários outros lugares da cidade, como a casa do poeta Tomás Antônio de Gonzaga, nas paredes da qual há vários versos para Marília de Dirceu. É uma sensação diferente estar no lugar e pensar: "Ahn, então era aqui que ele morava...". Talvez seja uma sensação de real "proximidade" com um personagem histórico.



Ouro Preto é uma cidade fascinante. Uma viagem no tempo. Antes de ir para lá, cheguei a ler em um site a seguinte informação:

"Os médiuns dificilmente conseguem visitar Ouro Preto. Talvez sintam a forte carga de energia humana que paira sobre suas igrejas e casas. Não é preciso ser mais sensível para perceber que não se entra sozinho nesta cidade mineira. Há sempre algo, um vulto que acompanha e sussurra palavras contundentes de amor ou de ódio. Ouro Preto é uma fascinante maquete do que a humanidade produziu de melhor e pior. Aqui a história pesa em nossos ombros."

Também tive essa impressão.


Notas:

Apenas a foto do túmulo do Tiradentes não é de minha autoria, já que é proibido fotografar o interior do museu e das igrejas.

5 comentários:

  1. Glauber,

    Concordo, é uma maravilha e uma canseira, num sobe e desce terrível. Talvez por isso seja belo.

    Mas olha como Português, fez-me lembrar Lisboa antiga, do castelo de S.jorge, de ruas empedradas, inclinadas, que parece que tomaram o caminho do céu.

    Bom carnaval
    Cumprimentos

  1. Glauber

    Há gente que para roubar cinco reais, até é capaz de matar.
    Mas não tem coragem de roubar, nem que seja uma grama dos 400 Kgs de ouro do altar da igreja na cidade de Ouro Preto.
    Será que estão presos, mesmo gozando da maior liberdade ?

    Um abraco

  1. leo268 says:

    sempre quis visitar essa cidade, espero que um dia eu tenha a oportunidade! obrigado pelo relato!

  1. Obrigada por dividir suas impressões com a gente, quem sabe um dia não veja com os meus próprios olhos o que vc descreveu e já imaginei... pena não ter podido tirar fotos dos interiores ;( bjs :)

  1. Ah, que relato vívido! Viajei junto e agucei o sonho de conhecer a cidade.
    Abços