Freud e Marx ? Psicanálise e Marxismo ?

Posted: 16.7.10 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Há alguns dias uma psicóloga e psicanalista me enviou um interessante e-mail fazendo algumas perguntas sobre a aproximação que ela percebeu neste blog entre Marx e Freud.

Alguns pensadores argumentam que não é possível uma convergência entre as duas correntes, não obstante se aproximarem em alguns aspectos metodológicos. Até o próprio Freud chega a "criticar" o comunismo em O mal-estar na civilização.

Há, no entanto, uma outra linha de pensamento que constrói essa ponte entre os dois, e que talvez seja menos conhecida.

Reproduzo abaixo o e-mail que lhe enviei.


Olá, *******

Há uma corrente chamada "freudo-marxismo" que faz uma síntese de Freud e Marx. Este artigo é bem interessante para uma introdução no assunto:


Freud nunca chegou a conhecer bem o pensamento de Marx. Quem primeiro trouxe a discussão à Sociedade Psicanalítica de Viena foi Adler, mas ele não tinha uma boa compreensão do que estava expondo a Freud que, por sua vez, não se "empolgou" com o assunto.

Talvez o maior psicanalista que tenha trabalhado nessa síntese tenha sido o Reich. Ele era comunista, e muitos anos depois também apresentou a Freud algumas coisas de Marx. Ele também introduziu, no entanto, muitas de suas próprias ideias como sendo de Marx, e são elas que Freud critica em O mal-estar na civilização. Ou seja, neste livro, Freud critica muito mais Reich do que Marx.

Dois anos antes de morrer, Freud reconheceu que seu conhecimento do marxismo era mínimo (assim como ele já tinha feito em O mal-estar na civilização) e disse o seguinte:

"Sei que os meus conhecimentos sobre o marxismo não revelam nenhuma familiaridade maior, não mostram uma compreensão adequada dos escritos de Marx e Engels. Fiquei sabendo mais tarde, com certa satisfação, que nem um nem o outro negaram a influência dos fatores do ego e do superego. Isso desfaz o principal conflito que eu pensava existir entre o marxismo e a psicanálise."

Esta última citação eu extraí do livro O marxismo na batalha das ideias, de Leandro Konder, p. 111.


Obrigado pelo contato, e abraços,
Glauber

17 comentários:

  1. Pouco entendo sobre o Marxismo, mas a ligação entre esses dois pontos seria a meu ver:
    Ponte Freud – Marx: O idealismo marxista vê como essencial para a mudança do ser humano a mudança dos objetos(estrutura social) que o cercam, sendo esses mais determinadores de influência do ser, do que o ser neles.

    -Agora,Jung falando sobre Freud:
    “Para Freud, os objetos são de extrema importância e têm a quase exclusividade da força determinante, ao passo que o sujeito se torna surpreendentemente insignificante e, na realidade, não é mais do que uma fonte do desejo de prazer ou uma "morada do medo".

    Então seria uma conexão tênue, em que freud através de suas teorias manifesta o lado "microcósmico" doideal social de Marx.

  1. Crítico says:

    A maior contradição entre Marx e Freud é que o homem - na concepção marxista - é "puro Id", como se a alma humana não fosse mais do que um mero reflexo dos eestímulos sociais, desprovida de qualquer interesse próprio. Assim, Marx não enxerga no homem a existência de "interesses pessoais", mas apenas de interesses coletivos; sendo a sociedade dividida em classes, esses interesses são os "interesses de classe". É por isso que ele acreditava que o homem continuaria se sentindo motivado ao trabalho mesmo ante a ausência de uma meritocracia ou de um critério de "recompensa": "de cada um conforme as suas possibilidades, a cada um conforme as suas necessidades". Mas a realidade acabaou se mostrando bem outra: como se dizia na ex-U.R.S.S., "nós fingimos que trabalhamos enquantos 'eles' fingem que nos pagam""

  1. Crítico, o que você disse sobre Marx está completamente errado. Essa não é a posição dos marxistas.

  1. Este comentário foi removido pelo autor.
  1. O problema com o marxismo é imaginar que o individuo quer o bem comum. Raros humanos querem isso exceto para parecer sociaavel. Freud entende os instintos do homem como propulsores das decisões e ações individualistas que precisam inclusive serem moderadas com o verniz social para serem aceitas coletivamente. Marx imagina o homem como uma abelha numa colmeia e como isso não tem fundamentação os regimes marxista acabaram todos descambando para regimes opressores tentando fazer a coletividade pensar como um.

  1. O marxismo não diz nada disso. Para você provar o que afirmou é fácil: encontre os textos nos quais Marx supostamente teria dito isso.

  1. Se Marx não pressupõe que o indivíduo quer o bem comum como é que se chegaria (e principalmente se manteria) o comunismo?

  1. "Bem comum"? Este vocabulário é completamente estranho ao marxismo. Parece linguagem de padres. É por isso que você está confundindo tudo. Não leu Marx e está lhe atribuindo posições que você apenas "acha" que são dele.

  1. De fato não li o original, mas dediquei muitas horas da minha vida acadêmica na faculdade de economia lendo e escrevendo sobre diversas criticas ao trabalho dele que me permitem, humildemente, afirmar que tenho uma noção do que é socialismo marxista e sua evolução natural ao comunismo. Você realmente não entendeu minha pergunta ou está tergiversando? Minha pergunta é sincera e gostaria humildemente de entender como seria possível uma sociedade comunista se manter, dado que os indivíduos se.comportam como descreveu Freud e não da forma como Marx imaginou que se comportariam.

  1. Este é o problema. Não lê o próprio autor e fica servindo de correia de transmissão de discursos meramente ideológicos e sem compromisso com a verdade. Marx não deu praticamente nenhuma indicação de como os homens seriam numa sociedade comunista pois isso é exercício de futurologia. As premissas do socialismo são extraídas de uma análise profunda do capitalismo. Por isso a maior obra de Marx, O Capital, é uma análise do capitalismo. Para se compreender Marx é preciso compreender Hegel. E autores da área de economia não são suficientes para compreender o marxismo, pois Marx era, antes de tudo, um filósofo, e seu pensamento é extremamente amplo, vasto e abrangente. Sobre a natureza humana, para Marx esta é determinada pelo conjunto das relações sociais.

  1. Não entendo como descrever a sociedade comunista possa ser rebaixado à um mero exercício de futurologia e descrever a luta de classes culminando numa sociedade socialista não seja.
    Talvez tenha faltado uma analise com a mesma profundidade da sociedade socialista preconizada por Marx. Porque temos visto as tentativas de implantação do socialismo ruírem diante do ego das lideranças enquanto que o capitalismo tem se adaptado ao longo da história, desde o Keynesianismo que apontou alternativas aos vazamentos de recursos até a atual globalizaçao, versão moderna do taylorismo.
    Você consegue imaginar o porque das tentativas de implantar o socialismo terem resultado em autocracias e Marx não ter previsto isso?

  1. A formulação das suas perguntas deixa transparecer que você tem incompreensões básicas sobre o marxismo, o que inviabiliza qualquer diálogo frutífero. É uma exigência de qualquer debate intelectual honesto primeiro ler o autor em suas próprias palavras e depois interpretá-lo usando de complacência hermenêutica, isso é, pelo melhor ângulo possível. Suas perguntas carregam equívocos e distorções que demandariam um tempo muito grande para corrigi-las antes de chegar ao núcleo real da questão.

  1. Na verdade o último ato da pseudo-sabedoria é se declarar inalcançável aos não iniciados

  1. O que certamente não é o caso aqui. Qualquer um que estude Marx pode falar sobre ele. Mas pensar que se pode discutir um autor sem estudá-lo antes é um ato de extrema arrogância. Pense no contrário, que absurdo seria se todo mundo quisesse ser levado a sério ao emitir opinião sobre o que nunca estudou.

  1. O que não é o caso aqui pois, embora não tão obcecado por ele quanto você, já o estudei por vias indiretas.

    Se somente quem lê o original pudesse emitir opinião teríamos que ignorar a existência de Sócrates, já que o que sabemos dele chegou até nós, principalmente, pelos escritos de Platão.



    Não tenho a pretensão, nessa fase de minha vida, em entender profundamente o marxismo. O tempo é escasso e prefiro dedicar o pouco que me resta aos meus hobbies de astronomia, eletrônica , ao meu trabalho de analista de sistemas e à convivência com meus filhos e esposa.



    Embora eu não queira me aprofundar sou curioso.



    Fiz uma pergunta bastante direta: Porque tentativas de implantar o socialismo redundaram em autocracias?



    Pode-se escrever um compêndio sobre o tema ou pode se dar uma resposta direta de poucos parágrafos.

    Se não quiser dá-la porque conflita com suas convicções, entenderei.



    Eu tenho a minha opinião. Gostaria de saber a sua.

  1. O problema são essas "vias indiretas". Principalmente quando se trata de marxismo, elas são desonestas, panfletárias, ideológicas.

    O caso de Sócrates é bem diferente do que estou falando. Ele não deixou textos, e nós da filosofia sabemos muito bem que estamos sempre interpretando-o pelas lentes de Platão. Mas no caso de Marx nós de fato temos os textos. É bem diferente.

    Estudar filosofia por conta própria é bem diferente de ter uma formação acadêmica sólida na área. Antes de cursar filosofia eu me formei em Sistemas de Informação, mas sempre li filosofia por conta própria. Mas só na graduação em Filosofia me dei conta de como estudava de forma deficiente sozinho. Isso faz sim muita diferença. Exceções existem, mas são muito raras.

    Eu sou programador e, na área de TI, se alguém não sabe, por exemplo, COBOL, ninguém dá opinião. Reconhece que não sabe e pronto. Mas isso não acontece na filosofia. Mesmo sem ter lido uma única linha de Marx, por exemplo, o sujeito quer dar opinião. Mas como?

    Também gosto muito de astronomia (inclusive estou fazendo um ótimo curso online no momento), mas um adulto que participa ativamente da vida política do país precisa de tempo para estudar e discutir os assuntos que nos tocam diretamente no dia-a-dia. E o marxismo é o estudo mais profundo sobre o conjunto da sociedade capitalista - não de áreas isoladas, como ou economia, ou política, etc - mas de todo o seu conjunto.

    Sobre o caso do socialismo não ter "dado certo", a questão é muito ampla. Em primeiro lugar tem que se definir o que é "dar certo". O capitalismo dá certo? Dar certo é apenas existir? A URSS poderia ter continuado a existir, mas sua dissolução foi uma decisão política.

    O colapso daquele modelo de socialismo do leste europeu é historicamente recente, não tendo completado ainda nem 3 décadas. Quando se trata de grandes movimentos históricos, 30 anos não são nada.

    E se o capitalismo não foi estabelecido de uma só vez, de um único golpe, por que o seria o socialismo? As revoluções burguesas foram derrotadas em diversos momentos por restaurações monárquicas. A história não é uma linha reta. Ela apresenta recuos momentâneos.

    Tentar basear um sistema político na natureza humana é algo que já Platão tentou fazer (ver sua obra "A república"). Quanto à "natureza humana" eu acompanho Sartre: não existe natureza humana (ver "O existencialismo é um humanismo").

    Cada país teve uma experiência socialista com diversas particularidades. Mesmo na URSS, por exemplo, que passou por mais de 70 anos de socialismo, houve vários governos e várias linhas políticas com diferenças consideráveis entre si.

    Por isso sua pergunta é muito ampla, muito abrangente, e simplifica-la em poucos parágrafos significa sacrificar a verdade. Talvez seria melhor focar, recortar o tema para discutir mais profundamente.

  1. Bom... a autobiografia intelectual do filósofo e psicanalista Erich Fromm se chama "Meu Encontro com Marx e Freud"....