Uma anedota do "pacífico" povo brasileiro - a Guerra do Paraguai

Posted: 8.7.10 by Glauber Ataide in Marcadores:
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A velha cantilena de que o brasileiro é “pacífico”, “acomodado” e etc é um dos engodos das classes dominantes mais fáceis de se desmentir. Basta abrirmos um bom livro de história para ali encontrarmos, sem folhear muito, histórias de revoltas, guerrilhas e revoluções que pedem para ser esfregadas na cara de quem quer imputar essa autoimagem ao brasileiro.

Nem todas essas lutas, contudo, foram por “boas causas”. Apesar de a maioria dos movimentos armados praticados no país terem sido por liberdade e independência, o Brasil também já praticou guerras de rapina. E uma delas foi contra o nosso vizinho Paraguai.

Em 1864, o Paraguai era uma nação em franco desenvolvimento. Lá não havia analfabetismo. Os telégrafos se expandiam e a indústria da construção naval prosperava. Isso era uma ameaça à maior potência sul-americana da época - o Brasil.

Não foi difícil encontrar um motivo para justificar a guerra (como esses que os EUA sempre formulam para invadir outros países). O Paraguai tinha se aliado à França, o que contrariava os interesses da Inglaterra no continente. Além disso, o Paraguai tinha um pacto com o Uruguai, e quando este foi invadido pelo Brasil (que cismou ter o direito de depor seu governante), o Paraguai veio em seu socorro e a matança teve início. E para ambos os lados.

Num determinado momento, os paraguaios chegam a invadir o estado do Mato Grosso, com uma ofensiva bem planejada, com mais de 30.000 soldados concentrados na região. Provocaram, contudo, a fúria da Argentina ao passar por uma de suas cidades sem permissão, sendo este o estopim para que a Argentina se aliasse ao Brasil contra eles.

A coisa foi tão feia quem numa determinada batalham mais de 20 mil paraguaios foram mortos de uma só vez. E o ódio dos soldados brasileiros era tão grande que nem os cavalos do inimigo foram poupados.

Quando, finalmente, Assunção é invadida, os brasileiros saqueiam a cidade e levam até pianos, com os quais eles enchem os porões de dois navios. A ordem de D. Pedro II era acabar com todo mundo, mas o general Caxias lhe escreve dizendo que não quer continuar: “... senão terei que matar o último paraguaio, no ventre da última paraguaia.”

Mas a guerra prossegue, e D. Pedro II manda o seu genro, Luís Filipe Gastão, para substituir Caxias. Para novamente conseguir fugir, o presidente paraguaio López tentou um ardil: colocou 10.000 crianças vestidas com o uniforme do exército paraguaio usando barbas de milho e armas de brinquedo. Mas Luís Filipe não teve dó nem piedade. Mandou matar todas as crianças e ainda mandou incendiar o Hospital do Sangue, onde agonizavam os soldados paraguaios.

Resultado: o Paraguai perdeu 2,2 milhões de cidadãos, e o Brasil, 200 mil. O Paraguai se desestabilizou por completo, assim como o Brasil, que não conseguiu se reerguer.

Eis aí um pequeno capítulo de nossa (não muito comentada) história, do “pacífico” povo brasileiro. E isso não é para mostrar que somos "maus" ou qualquer coisa assim. É para dissipar essa imagem romântica de que o brasileiro não luta. Ele luta, sempre lutou, e algumas vezes até por interesses reprováveis, como nessa guerra.


REFERÊNCIA

VIEIRA, Cláudio. A história do Brasil são outros 500. São Paulo: Record, 2000.

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