A arte de ter razão, de Schopenhauer

Posted: 29.12.10 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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"Isso funciona na teoria, mas na prática, não". Sempre fiquei muito incomodado ao ouvir este sofisma como resposta a uma exposição teórica. Mas a primeira vez que constatei o que havia de exatamente errado neste sofisma, e também como respondê-lo, foi ao ler a obra "A arte de ter razão", do filósofo alemão Artur Schopenhauer (1788-1860) (esta obra tem uma outra tradução para o português, com o título "Como vencer um debate sem precisar ter razão").

Este pequeno livro, publicado postumamente, é na verdade uma lista de 38 estratagemas para debates, com a única finalidade de vencê-los - estando ou não com a razão. Mas também é, principalmente e antes de tudo, um manual de defesa para estes mesmos ataques que são aqui desmascarados.

Reproduzo abaixo um resumo de alguns desses estratagemas, juntamente com aquele no qual ele refuta o famoso sofisma "isso funciona na teoria, mas na prática, não" (estratagema 33).


Estratagema 1

A expansão. Levar a afirmação do adversário para além de seu limite natural, interpretá-la da maneira mais genérica possível, tomá-la no sentido mais amplo possível e exagerá-la; inversamente, concentrar a própria afirmação no sentido mais limitado, no limite mais restrito possível: pois, quanto mais genérica se torna uma afirmação, a mais ataques ela fica exposta.

Estratagema 6

Faz-se uma petitio principii oculta ao se postular o que se deseja comprovar: 1) sob outro nome, por exemplo, "bom nome" em vez de honra, "virtude" em vez de virgindade, etc.; 2) fazendo com que seja concedido em geral o que no caso particular é controverso, por exemplo, afirmar a incerteza da medicina, postulando a incerteza de todo o conhecimento humano.

Estratagema 7

Fazer perguntas ao adversário, a fim de concluir a verdade da afirmação a partir das próprias concessões do outro. Fazer muitas perguntas de uma só vez e de modo pormenorizado, a fim de ocultar o que na verdade se quer ver admitido.

Estratagema 8

Provocar raiva no adversário, pois, tendo raiva, ele não estará em posição de julgar corretamente nem de perceber a própria vantagem. Para deixá-lo com raiva é preciso ser injusto com ele, de modo declarado, atormentando-o e comportando-se, em geral, com impudência.

Estratagema 9

Fazer perguntas não na ordem exigida pela conclusão, mas de forma embaralhada: desse modo o adversário não saberá aonde se quer chegar e não poderá precaver-se.

Estratagema 18

Se percebermos que o adversário adotou uma argumentação que nos derrotará, não podemos deixá-lo chegar ao ponto de concluí-la, mas devemos interromper, afastar ou desviar a tempo o andamento da disputa, a fim de conduzí-la a outras questões: em resumo, preparar uma mutatio controversiae.

Estratagema 19

Se o adversário exigir expressamente que apresentemos algo contra um determinado ponto de sua afirmação, mas nós não temos nada de adequado, precisamos então tratar o assunto de maneira genérica e, em seguida, falar contra tal generalidade. Devemos dizer por que não se pode confiar numa determinada hipótese física: sendo assim, discursamos sobre o caráter enganoso do saber humano e o comentamos de todas as formas.

Estratagema 24

A fabricação de consequências. A partir de uma declaração de seu adversário, tirar conclusões distorcidas de seu argumento original, resultando na impressão, para o público, de que seu argumento foi refutado.

Estratagema 29

Se percebermos que seremos vencidos, devemos fazer uma digressão, isto é, começamos de repente com algo totalmente diferente, como se pertencesse ao assunto e fosse um argumento contra o adversário.

Estratagema 33

"Isto pode ser correto na teoria; na prática é falso." Com esse sofisma admitem-se os fundamentos, porém negam-se suas consequências, em contradição com a regra a ratione ad rationatum valet consequentia [de uma razão ao seu efeito vigora a consequência]. A afirmação citada gera uma impossibilidade: o que é correto na teoria deve valer também na prática: se isso não se confirma é porque há alguma falha na teoria; algo passou despercebido e não foi levado em consideração e, por conseguinte, é falso também na teoria.

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