O perfeito imbecil politicamente incorreto

Posted: 21.10.11 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Por Cynara Menezes, na Carta Capital

Em 1996, três jornalistas –entre eles o filho do Nobel de Literatura Mario Vargas Llosa, Álvaro –lançaram com estardalhaço o “Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano”. Com suas críticas às idéias de esquerda, o livro se tornaria uma espécie de bíblia do pensamento conservador no continente. Vivia-se o auge do deus mercado e a obra tinha como alvo o pensamento de esquerda, o protecionismo econômico e a crença no Estado como agente da justiça social. Quinze anos e duas crises econômicas mundiais depois, vemos quem de fato era o perfeito idiota.

Mas, quem diria, apesar de derrotado pela história, o Manual continua sendo não só a única referência intelectual do conservadorismo latino-americano como gerou filhos. No Brasil, é aquele sujeito que se sente no direito de ir contra as idéias mais progressistas e civilizadas possíveis em nome de uma pretensa independência de opinião que, no fundo, disfarça sua real ideologia e as lacunas em sua formação. Como de fato a obra de Álvaro e companhia marcou época, até como homenagem vamos chamá-los de “perfeitos imbecis politicamente incorretos”. Eles se dividem em três grupos:

1. o “pensador” imbecil politicamente incorreto: ataca líderes LGBTs (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Trânsgeneros) e defende homofóbicos sob o pretexto de salvaguardar a liberdade de expressão. Ataca a política de cotas baseado na idéia que propaga de que não existe racismo no Brasil. Além disso, ações afirmativas seriam “privilégios” que não condizem com uma sociedade em que há “oportunidades iguais para todos”. Defende as posições da Igreja Católica contra a legalização do aborto e ignora as denúncias de pedofilia entre o clero. Adora chamar socialistas de “anacrônicos” e os guerrilheiros que lutaram contra a ditadura de “terroristas”, mas apoia golpes de Estado “constitucionais”. Um torturado? “Apenas um idiota que se deixou apanhar.” Foge do debate de idéias como o diabo da cruz, optando por ridicularizar os adversários com apelidos tolos. Seu mote favorito é o combate à corrupção, mas os corruptos sempre estão do lado oposto ao seu. Prega o voto nulo para ocultar seu direitismo atávico. Em vez de se ocupar em escrever livros elogiando os próprios ídolos, prefere a fórmula dos guias que detonam os ídolos alheios –os de esquerda, claro. Sua principal característica é confundir inteligência com escrever e falar corretamente o português.

2. o comediante imbecil politicamente incorreto: sua visão de humor é a do bullying. Para ele não existe o humor físico de um Charles Chaplin ou Buster Keaton, ou o humor nonsense do Monty Python: o único humor possível é o que ri do próximo. Por “próximo”, leia-se pobres, negros, feios, gays, desdentados, gordos, deficientes mentais, tudo em nome da “liberdade de fazer rir.” Prega que não há limites para o humor, mas é uma falácia. O limite para este tipo de comediante é o bolso: só é admoestado pelos empregadores quando incomoda quem tem dinheiro e pode processá-los. Não é à toa que seus personagens sempre estão no ônibus ou no metrô, nunca num 4X4. Ri do office-boy e da doméstica, jamais do patrão. Iguala a classe política por baixo e não tem nenhum respeito pelas instituições: o Congresso? “Melhor seria atear fogo”. Diz-se defensor da democracia, mas adora repetir a “piada” de que sente saudades da ditadura. Sua principal característica é não ser engraçado.

3. o cidadão imbecil politicamente incorreto: não se sabe se é a causa ou o resultados dos dois anteriores, mas é, sem dúvida, o que dá mais tristeza entre os três. Sua visão de mundo pode ser resumida na frase “primeiro eu”. Não lhe importa a desigualdade social desde que ele esteja bem. O pobre para o cidadão imbecil é, antes de tudo, um incompetente. Portanto, que mal haveria em rir dele? Com a mulher e o negro é a mesma coisa: quem ganha menos é porque não fez por merecer. Gordos e feios, então, era melhor que nem existissem. Hahaha. Considera normal contar piadas racistas, principalmente diante de “amigos” negros, e fazer gozação com os subordinados, porque, afinal, é tudo brincadeira. É radicalmente contra o bolsa-família porque estimula uma “preguiça” que, segundo ele, todo pobre (sobretudo se for nordestino) possui correndo em seu sangue. Também é contrário a qualquer tipo de ação afirmativa: se a pessoa não conseguiu chegar lá, problema dela, não é ele que tem de “pagar o prejuízo”. Sua principal característica é não possuir ideias além das que propagam os “pensadores” e os comediantes imbecis politicamente incorretos.

Peça Radiofônica: "A árvore de Natal na casa do Cristo", de Dostoiévski

Posted: 29.9.11 by Glauber Ataide in Marcadores:
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No post anterior compartilhamos "A árvore de Natal na casa do Cristo", um pequeno escrito de Dostoiévski carregado de grande sensibilidade. Dando sequência ao surto dostoievskiano que acometeu hoje este blogueiro, compartilho novamente a mesma obra, mas agora em uma versão radiofônica. 

Você pode ouvi-la usando o controle ao final desta página ou então fazendo o download do Mp3 (14,6MB) no link mais abaixo. O tempo de duração é 21:16 minutos.

P.S.: Se você ainda não leu a história, sugiro que faça isso antes.

Informações extraídas do site dos autores:

A árvore de Natal da casa do Cristo [ Uma Leitura Radiofônica do conto de Fiódor Dostoiévski  - 1997 ].

Posso dizer que o interesse maior da peça está numa idéia simples e um tanto arriscada: intercalar a narrativa original de Dostoiévski com depoimentos de meninos de rua da Praça da Sé.

Sinceramente, acho o resultado alcançado muito interessante:  uma fusão intuitiva e experimental de ficção e documentário – algo próximo ao formato radiofônico conhecido como “feature”.

Autores: Roberto D'Ugo e Adriana Cotias.
Reportagens: Marilu Cabañas. Narração: Hélio Vaccari. 
Trabalhos Técnicos: Jonas Bicev (Transmitido pela Cultura FM em dez.1999).



Clique aqui para fazer o download da peça radiofônica "A árvore de Natal na casa do Cristo", de Dostoiévski.

Dostoiévski: A árvore de Natal na casa do Cristo

Posted: by Glauber Ataide in Marcadores:
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Abaixo um pequeno conto de Dostoiévski, tão curto quanto intenso.

Havia num porão uma criança, um garotinho de seis anos de idade, ou menos ainda. Esse garotinho despertou certa manhã no porão úmido e frio. Tiritava, envolto nos seus pobres andrajos. Seu hálito formava, ao se exalar, uma espécie de vapor branco, e ele, sentado num canto em cima de um baú, por desfastio, ocupava-se em soprar esse vapor da boca, pelo prazer de vê-lo se esvolar. Mas bem que gostaria de comer alguma coisa. Diversas vezes, durante a manhã, tinha se aproximado do catre, onde num colchão de palha, chato como um pastelão, com um saco sob a cabeça à guisa de almofada, jazia a mãe enferma. Como se encontrava ela nesse lugar? Provavelmente tinha vindo de outra cidade e subitamente caíra doente. A patroa que alugava o porão tinha sido presa na antevéspera pela polícia; os locatários tinham se dispersado para se aproveitarem também da festa, e o único tapeceiro que tinha ficado cozinhava a bebedeira há dois dias: esse nem mesmo tinha esperado pela festa. No outro canto do quarto gemia uma velha octogenária, reumática, que outrora tinha sido babá e que morria agora sozinha, soltando suspiros, queixas e imprecações contra o garoto, de maneira que ele tinha medo de se aproximar da velha. No corredor ele tinha encontrado alguma coisa para beber, mas nem a menor migalha para comer, e mais de dez vezes tinha ido para junto da mãe para despertá-la. Por fim, a obscuridade lhe causou uma espécie de angústia: há muito tempo tinha caído a noite e ninguém acendia o fogo. Tendo apalpado o rosto de sua mãe, admirou-se muito: ela não se mexia mais e estava tão fria como as paredes. "Faz muito frio aqui", refletia ele, com a mão pousada inconscientemente no ombro da morta; depois, ao cabo de um instante, soprou os dedos para esquentá-los, pegou o seu gorrinho abandonado no leito e, sem fazer ruído, saiu do cômodo, tateando. Por sua vontade, teria saído mais cedo, se não tivesse medo de encontrar, no alto da escada, um canzarrão que latira o dia todo, nas soleiras das casas vizinhas. Mas o cão não se encontrava alí, e o menino já ganhava a rua.

Senhor! que grande cidade! Nunca tinha visto nada parecido, De lá, de onde vinha, era tão negra a noite! Uma única lanterna para iluminar toda a rua. As casinhas de madeira são baixas e fechadas por trás dos postigos; desde o cair da noite, não se encontra mais ninguém fora, toda gente permanece bem enfurnada em casa, e só os cães,às centenas e aos milhares,uivam, latem, durante a noite. Mas, em compensação, lá era tão quente; davam-lhe de comer... ao passo que ali... Meu Deus! se ele ao menos tivesse alguma coisa para comer! E que desordem, que grande algazarra ali, que claridade, quanta gente, cavalos, carruagens... e o frio, ah! este frio! O nevoeiro gela em filamentos nas ventas dos cavalos que galopam; através da neve friável o ferro dos cascos tine contra a calçada;toda gente se apressa e se acotovela, e, meu Deus! como gostaria de comer qualquer coisa, e como de repente seus dedinhos lhe doem! Um agente de policia passa ao lado da criança e se volta, para fingir que não vê.

Eis uma rua ainda: como é larga! Esmaga-lo-ão ali, seguramente; como todo mundo grita, vai, vem e corre, e como está claro, como é claro! Que é aquilo ali? Ah! uma grande vidraça, e atrás dessa vidraça um quarto, com uma árvore que sobe até o teto; é um pinheiro, uma árvore de Natal onde há muitas luzes, muitos objetos pequenos, frutas douradas, e em torno bonecas e cavalinhos. No quarto há crianças que correm; estão bem vestidas e muito limpas, riem e brincam, comem e bebem alguma coisa.   Eis ali uma menina que se pôs a dançar com um rapazinho. Que bonita menina! Ouve-se música através da vidraça. A criança olha, surpresa; logo sorri, enquanto os dedos dos seus pobres pezinhos doem e os das mãos se tornaram tão roxos, que não podem se dobrar nem mesmo se mover. De repente o menino se lembrou de que seus dedos doem muito; põe-se a chorar, corre para mais longe, e eis que, através de uma vidraça, avista ainda um quarto, e neste outra árvore, mas sobre as mesas há bolos de todas as qualidades, bolos de amêndoa, vermelhos, amarelos, e eis sentadas quatro formosas damas que distribuem bolos a todos os que se apresentem. A cada instante, a porta se abre para um senhor que entra. Na ponta dos pés, o menino se aproximou, abriu a porta e bruscamente entrou. Hu! com que gritos e gestos o repeliram! Uma senhora se aproximou logo, meteu-lhe furtivamente uma moeda na mão, abrindo-lhe ela mesma a porta da rua. Como ele teve medo! Mas a moeda rolou pelos degraus com um tilintar sonoro: ele não tinha podido fechar os dedinhos para segurá-la. O menino apertou o passo para ir mais longe - nem ele mesmo sabe aonde. Tem vontade de chorar; mas dessa vez tem medo e corre. Corre soprando os dedos. Uma angústia o domina, por se sentir tão só e abandonado, quando, de repente: Senhor! Que poderá ser ainda? Uma multidão que se detém, que olha com curiosidade. Em uma janela, através da vidraça, há três grandes bonecos vestidos com roupas vermelhas e verdes e que parecem vivos! Um velho sentado parece tocar violino, dois outros estão em pé junto de e tocam violinos menores, e todos maneiam em cadência as delicadas cabeças, olham uns para os outros, enquanto seus lábios se mexem; falam, devem falar - de verdade - e, se não se ouve nada, é por causa da vidraça. O menino julgou, a princípio, que eram pessoas vivas, e, quando finalmente compreendeu que eram bonecos, pôs-se de súbito a rir. Nunca tinha visto bonecos assim, nem mesmo suspeitava que existissem! Certamente, desejaria chorar, mas era tão cômico, tão engraçado ver esses bonecos! De repente pareceu-lhe que alguém o puxava por trás. Um moleque grande, malvado, que estava ao lado dele, deu-lhe de repente um tapa na cabeça, derrubou o seu gorrinho e passou-lhe uma rasteira. O menino rolou pelo chão, algumas pessoas se puseram a gritar: aterrorizado, ele se levantou para fugir depressa e correu com quantas pernas tinha, sem saber para onde. Atravessou o portão de uma cocheira, penetrou num pátio e sentou-se atrás de um monte de lenha. "Aqui, pelo menos", refletiu ele, "não me acharão: está muito escuro."

Sentou-se e encolheu-se, sem poder retomar fôlego, de tanto medo, e bruscamente, pois foi muito rápido, sentiu um grande bem-estar, as mãos e os pés tinham deixado de doer, e sentia calor, muito calor, como ao pé de uma estufa. Subitamente se mexeu: um pouco mais e ia dormir! Como seria bom dormir nesse lugar! "mais um instante e irei ver outra vez os bonecos", pensou o menino, que sorriu à sua lembrança: "Podia jurar que eram vivos!"... E de repente pareceu-lhe que sua mãe lhe cantava uma canção. "Mamãe, vou dormir; ah! como é bom dormir aqui!"

- Venha comigo, vamos ver a árvore de Natal, meu menino - murmurou repentinamente uma voz cheia de doçura.

Ele ainda pensava que era a mãe, mas não, não era ela. Quem então acabava de chamá-lo? Não vê quem, mas alguém está inclinado sobre ele e o abraça no escuro, estende-lhe os braços e... logo... Que claridade! A maravilhosa árvore de Natal! E agora não é um pinheiro, nunca tinha visto árvores semelhantes! Onde se encontra então nesse momento? Tudo brilha, tudo resplandece, e em torno, por toda parte, bonecos - mas não, são meninos e meninas, só que muito luminosos! Todos o cercam, como nas brincadeiras de roda, abraçam-no em seu vôo, tomam-no, levam-no com eles, e ele mesmo voa e vê: distingue sua mãe e lhe sorrir com ar feliz.

- Mamãe! mamãe! Como é bom aqui, mamãe! - exclama a criança. De novo abraça seus companheiros, e gostaria de lhes contar bem depressa a história dos bonecos da vidraça... - Quem são vocês então, meninos? E vocês, meninas, quem são? - pergunta ele, sorrindo-lhes e mandando-lhes beijos.
- Isto... é a árvore de Natal de Cristo - respondem-lhe. - Todos os anos, neste dia, há, na casa de Cristo, uma árvore de Natal, para os meninos que não tiveram sua árvore na terra...

E soube assim que todos aqueles meninos e meninas tinham sido outrora crianças como ele, mas alguns tinham morrido, gelados nos cestos, onde tinham sido abandonados nos degraus das escadas dos palácios de Petersburgo; outros tinham morrido junto às amas, em algum dispensário finlandês; uns sobre o seio exaurido de suas mães, no tempo em que grassava, cruel, a fome de Samara; outros, ainda, sufocados pelo ar mefítico de um vagão de terceira classe. Mas todos estão ali nesse momento, todos são agora como anjos, todos juntos a Cristo, e Ele, no meio das crianças, estende as mãos para abençoá-las e às pobres mães... E as mães dessas crianças estão ali, todas, num lugar separado, e choram; cada uma reconhece seu filhinho ou filhinha que acorrem voando para elas, abraçam-nas, e com suas mãozinhas enxugam-lhes as lágrimas, recomendando-lhes que não chorem mais, que eles estão muito bem ali...

E nesse lugar, pela manhã, os porteiros descobriram o cadaverzinho de uma criança gelada junto de um monte de lenha. Procurou-se a mãe... Estava morta um pouco adiante; os dois se encontraram no céu, junto ao bom Deus.

Antes de tentar convencer alguém, lembre-se disso

Posted: 28.9.11 by Glauber Ataide in Marcadores:
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A força de persuasão de um argumento reside, principalmente, na articulação lógica entre suas premissas e sua conclusão. Mas se o argumento é complexo de tal forma que não é possível apresentá-lo em uma conversa informal, o melhor então é não lançar essas conclusões, principalmente se forem polêmicas.

É importante ter isso em mente para evitar desgastes em debates infrutíferos. Às vezes estamos tão convencidos da validade de determinado argumento que nos apressamos em apresentar sua conclusão a outras pessoas sem nos dar conta de que o outro não percorreu o mesmo caminho que nós - o caminho que leva das premissas à conclusão.

Certas conclusões precisam de todo um livro por trás delas. E às vezes as premissas dessas conclusões já são elas próprias conclusões de outros longos e elaborados argumentos.

Por isso é preciso sobriedade antes de apresentar certas ideias que são produto de um longo processo de aprendizado. Pois quando essas ideias, caras a nós por serem fruto de nosso esforço, são sumariamente rejeitadas, ridicularizadas ou escarnecidas, dificilmente conseguimos evitar o sentimento de estar lançando pérolas aos porcos.

Se ideias complexas pudessem ser explicadas em poucas frases não haveria ignorância no mundo.

Gente Pobre já é Dostoiévski

Posted: 19.9.11 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Sou suspeito para falar de Dostoiévski. Este é o autor que mais leio, o que mais prende minha atenção e com o qual mais me identifico. Antes de ler Gente Pobre, contudo, estava um pouco apreensivo: o que esperar do primeiro livro de Dostoiévski, escrito quando o autor contava apenas 24 anos? Seria esta obra apenas uma curiosidade, uma peça histórica, digna de ser relançada apenas devido ao nome que o autor viria a construir posteriormente?

Não, nada disso. O romance Gente pobre já é o Dostoiévski que conhecemos. Vários dos traços de estilo e dos caracteres que encontramos em obras posteriores já estão presentes ali, não deixando dúvidas de que o que temos nesta obra já é aquele Dostoiévski que no futuro consolidaria seu nome no hall dos grandes escritores de todos os tempos.

Gente Pobre pode nos levar das lágrimas de indignação às gargalhadas. Construída como uma crítica social, ela revela, através de uma troca de cartas entre seus protagonistas - uma jovem órfã, Várvara Aleksiéyevna, e um funcionário público de idade mais avançada, Makár Diévuchkin -, seu  estado de pobreza e suas dificuldades, como se alimentam, se vestem e moram mal.

Ao mesmo tempo, contudo, alguns episódios do cotidiano destes dois, causados principalmente por sua pobreza, já prenunciam aquilo que encontraríamos em obras posteriores, como em Notas do subsolo, por exemplo - aquelas situações constrangedoras causadas por um vestuário velho e rasgado, inadequado para determinadas ocasiões, e que deixam os protagonistas em posições muito desagradáveis. (Particularmente eu fico rindo só de lembrar desses trechos. Inclusive me surpreendi rindo novamente no momento em que escrevia isso.) Mas se você ainda não leu essas situações em Dostoiévski, não pense que já sabe como é. Seu estilo é único, inigualável.

Gente Pobre é um livro altamente recomendável, e é por isso que compartilho esta brevíssima resenha com vocês.

Os donos da verdade

Posted: 23.8.11 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Clique na imagem para ampliar.



"The show must go on", do Queen - Pelo que estamos vivendo?

Posted: 2.8.11 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Fiz este vídeo e as legendas desta grande música do Queen - a minha favorita - para apresentar um trabalho de faculdade, para a disciplina Filosofia, quando estava no 8º período do curso de Sistemas de Informação (minha primeira graduação).

Encontrei hoje este vídeo perdido aqui em minha máquina e resolvi compartilhar, pois, na época, se tivesse encontrado um pronto, não precisaria ter feito este. :)

Algumas curiosidades dessa canção que vale a pena mencionar são as seguintes:

- Esta música foi lançada apenas 6 semanas antes da morte de Freddie Mercury. É uma das músicas mais emotivas da banda;

- Sua letra é uma reflexão sobre a vida e sobre a iminência da morte;

- Em uma pesquisa realizada na Europa, ela foi escolhida como música favorita em funerais;

- Freddie Mercury estava muito doente na época da gravação, e pensava-se que por isso ele não conseguiria gravá-la. Mas antes das gravações ele tomou um pouco de vodka e disse: "I'll fucking do it darling!" (algo como "vamos fazer essa porra!") e gravou toda a música em apenas um take;

- A perfomance vocal de Freddie Mercury nesta música é considerada uma das melhores de toda a sua carreira.

Repare as reflexões que a canção apresenta sobre o sentido da vida na iminência da morte.




Índios, da Legião Urbana - o bom selvagem de Rousseau

Posted: by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Estava ouvindo hoje este grande clássico da Legião Urbana, e resolvi compartilhar aqui algumas coisas que acho interessante nesta letra.

De forma geral, Renato Russo expressa aqui uma concepção rousseauniana* do índio, que é visto como o "bom selvagem". A seguinte estrofe, quase no final da letra, aponta para isso:

Quem me dera ao menos uma vez
Como a mais bela tribo
Dos mais belos índios
Não ser atacado por ser inocente.

O fundo histórico da letra, podemos dizer, é a invasão de nossas terras pelos europeus. É claro que estes aspectos não esgotam seu sentido, sendo ela muito mais profunda do que apenas isso. Mas é inegável que esses elementos rousseaunianos e históricos façam parte de sua estrutura.

Em vários versos podemos perceber também as tentativas de aculturação forçada dos índios, como denunciam os seguintes versos em relação à religião, mostrando a dificuldade de um índio em compreender o dogma da Trindade (que nem mesmo os cristãos compreendem):

Quem me dera ao menos uma vez
Entender como um só Deus ao mesmo tempo é três
E se esse mesmo Deus foi morto por vocês
É só maldade, então, deixar um Deus tão triste.

Em outro momento, quando a letra afirma que "nos deram espelhos e vimos um mundo doente", ele se refere à prática dos colonizadores de trocar o ouro, a prata e outras riquezas dos índios por ninharias ou bugigangas como espelhos.

Abaixo a música e, depois, a letra.



Índios
(Renato Russo)

Quem me dera ao menos uma vez
Ter de volta todo o ouro que entreguei a quem
Conseguiu me convencer que era prova de amizade
Se alguém levasse embora até o que eu não tinha.

Quem me dera ao menos uma vez
Esquecer que acreditei que era por brincadeira
Que se cortava sempre um pano-de-chão
De linho nobre e pura seda.

Quem me dera ao menos uma vez
Explicar o que ninguém consegue entender
Que o que aconteceu ainda está por vir
E o futuro não é mais como era antigamente.

Quem me dera ao menos uma vez
Provar que quem tem mais do que precisa ter
Quase sempre se convence que não tem o bastante
Fala demais por não ter nada a dizer.

Quem me dera ao menos uma vez
Que o mais simples fosse visto
Como o mais importante
Mas nos deram espelhos e vimos um mundo doente.

Quem me dera ao menos uma vez
Entender como um só Deus ao mesmo tempo é três
E se esse mesmo Deus foi morto por vocês
É só maldade, então, deixar um Deus tão triste.

Eu quis o perigo e até sangrei sozinho
Entenda
Assim pude trazer você de volta pra mim
Quando descobri que é sempre só você
Que me entende do início ao fim.

E é só você que tem a cura pro meu vício
De insistir nessa saudade que eu sinto
De tudo que eu ainda não vi.

Quem me dera ao menos uma vez
Acreditar por um instante em tudo que existe
E acreditar que o mundo é perfeito
E que todas as pessoas são felizes.

Quem me dera ao menos uma vez
Fazer com que o mundo saiba que seu nome
Está em tudo e mesmo assim
Ninguém lhe diz ao menos obrigado.

Quem me dera ao menos uma vez
Como a mais bela tribo
Dos mais belos índios
Não ser atacado por ser inocente.

Eu quis o perigo e até sangrei sozinho
Entenda
Assim pude trazer você de volta pra mim
Quando descobri que é sempre só você
Que me entende do início ao fim.

E é só você que tem a cura pro meu vício
De insistir nessa saudade que eu sinto
De tudo que eu ainda não vi.

Nos deram espelhos e vimos um mundo doente
Tentei chorar e não consegui.


* O próprio sobrenome artístico "Russo", de Renato Russo, foi tomado de empréstimo de Jean-Jacques Rousseau, entre outros, revelando a afinidade que tinha Renato com o pensamento deste filósofo.


Formação x Informação

Posted: 20.7.11 by Glauber Ataide in Marcadores: , ,
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Me digam se vocês já não perceberam isso: tem muita gente que se considera "bem informada" só porque acompanha notícias na internet. Gente que olha seu timeline no Twitter e com apenas um clique pula, quando a chamada interessa, para algum lugar da rede.

Alguém me disse certa vez que as pessoas hoje estão mais bem informadas, que estão "lendo mais". Eu já ouvi isso, é verdade. E o cara ainda justificou seu argumento citando o Twitter...

Foi então que fiquei pensando: o que adianta este filho de Deus se afogar num mar de informações se ele não sabe o que fazer com elas?

Isso deixou mais claro pra mim mesmo o seguinte: se você não tem formação teórica, você não vai saber o que fazer com as informações que recebe, seja de onde for. Não vai saber como ler, como criticar, identificar interesses e contextualizar.

Não adianta fugir dos livros, achar que é "bem informado" porque lê notícias na internet. Sem livros de formação teórica, sem filosofia, sem história, sem sociologia, sem economia, sem literatura, não é possível se considerar um indíviduo "crítico" e "bem informado".

Eu até consultei o Houaiss para ver a etimologia de "informar", e ele diz, entre outras definições, que este termo designa a ação de formar. Ou seja, o objetivo da informação é justamente formar. De certa forma, então, o "interneteiro" está obtendo uma formação, sim: tudo bem que é torta, superficial e acrítica, mas já é uma formação, se o que conta pra ele é só o "diproma".

Diferentes realidades

Posted: 6.7.11 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Traduzido do blog Un poco de luz

Quando estive em Cuba, em 1995, saímos a caminhar por Havana Velha e algumas crianças chegaram ao nosso redor nos pedindo um dólar. Ao garoto que se aproximou de mim, Julio, lhe disse que daria seu dólar, mas lhe pedi em troca que me deixasse tirar uma foto dele. Ele aceitou de bom grado, tiramos algumas fotos e logo depois ele desapareceu.

Passado um momento, e depois de caminhar alguns quarteirões, Julio me alcança correndo, com suas duas irmãs, e disse que estava me procurando. Me conta que com o dinheiro que lhe dei comprou quatro pães, um para ele, um para cada uma de suas irmãs e o outro... para mim! Não podia acreditar. Claro que compartilhamos o pão, a caminhada, a manhã e algumas coisas mais.

Anos mais tarde, no bairro de Recoleta, em Buenos Aires, quando estava tirando fotos, se aproxima um outro menino. Dei-lhe sua moeda em troca de uma foto, mas em seguida ele me pede que vá embora, pois a sua "senhora" vai ficar muito irritada se ele não continuar a "trabalhar".

Dois países diferentes, duas realidades diferentes.

Apenas olhem para os rostos de ambas as crianças para ver a diferença.


Havana, Cuba, 1995


Buenos Aires, Argentina, 2003

Complexo de Édipo no filme "O clone"

Posted: 4.7.11 by Glauber Ataide in Marcadores: , ,
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Foi por causa de uma questão filosófica levantada na sinopse do filme "O clone" que resolvi comprá-lo, sem nenhuma indicação anterior. E não me arrependi.

"À ton image" (ou "À tua imagem", numa tradução que considero mais elegante e pertinente do que "O clone"), é uma produção francesa que conta com o consagrado Christophe Lambert em seu elenco. Tendo como tema principal a clonagem humana, o filme tem como protagonista Mathilde, uma mulher que, segundo a sinopse, "dá a luz a si própria, mas sem nunca saber disto." Foi essa a questão que despertou meu interesse. Como seria uma pessoa dar a luz a si própria?

Vejam se isso não é interessante: como seria se eu ou você convivêssemos com uma pessoa exatamente igual a nós? Quando me lembro da criança que fui, às vezes tenho saudades dela. E essa saudade existe porque ela não existe mais. Onde está, pois, aquela criança que era eu próprio? Não sei, me parece que não existe mais.

Mas e se ela existisse agora? E se a criança que eu fui pudesse de novo existir, ao meu lado? E se aquele adolescente que fui estivesse de novo vivo, em outro corpo que não o meu? Seríamos nós rivais, amigos ou indiferentes?

São muitas as questões, mas vamos antes à sinopse do filme.

"O que aconteceria se, num futuro próximo, mulheres estéreis pudessem dar a luz a si mesmas através de seus próprios embriões? E se este futuro próximo fosse hoje? Para deixar um passado sofrido e um terrível senso de culpa para trás, uma jovem estéril vai ao extremo para conseguir ter sua filha, incentivada por seu marido obstetra. O rápido crescimento da criança é anormal e ela se torna uma cópia perfeita de sua mãe, substituindo-a gradualmente no comando da família. Uma espiral diabólica inspirada no tema da clonagem. Uma história nunca vista de uma mulher que dá a luz a si própria mas sem nunca saber disto."

Apesar da temática apresentada na sinopse ser muito interessante, o que mais me chamou a atenção no filme não foi o tema da clonagem, mas sim os conflitos familiares que no filme são atribuídos a essa experiência.

Essa jovem que dá a luz a seu clone é a Mathilde (que já apresentamos), e sua filha se chama Manon. À medida que cresce, Manon tenta tomar o lugar da mãe no triângulo familiar. Ela se torna uma rival insuportável para a mãe, e se apaixona pelo seu próprio pai.

O nome disso na psicanálise é Complexo de Édipo. Foi esse o aspecto do filme que mais me chamou a atenção e que abstraí para essa análise.

Na minha opinião, o que deixa o filme tão intenso é justamente esse conflito familiar. No entanto, o conflito psicológico é secundarizado pelo tema da clonagem, assim como o mito grego de Édipo o coloca em segundo plano como mero acidente provocado pelo destino (ou fado), que é o foco consciente da obra. Foi só com Freud que o sentido inconsciente deste mito foi revelado, e o mesmo se passa com "O clone".

À medida que o relacionamento entre mãe e filha vai piorando, é legítimo perguntar: seria esse conflito familiar causado apenas pela constituição genética de Manon, que é um clone da mãe? É tentando responder a isso que começamos a perceber a rivalidade própria do Complexo de Édipo que, neste caso, é só mais evidente do que costuma ser. Ou seja, esse conflito não é mero efeito dos genes, mas é parte de toda família. Mas até onde a clonagem acentuou isso é o que resta saber.

Em uma das diversas discussões entre filha e mãe, Manon, já adolescente, diz a Mathilde que é apenas ela própria, só que mais nova, mais bonita, mais sexy e sem a morte do filho na consciência (pois Mathilde já havia perdido um filho). Freud já havia colocado essa questão, afirmando que muitas das rivalidades entre pais e filhos adolescentes se devem a uma comparação inconsciente que os primeiros fazem entre sua própria adolescência e a adolescência dos seus filhos. E quando a situação dos filhos é melhor do que foi a deles, a rivalidade é ainda mais intensa.

Aqui volta então aquela questão que colocamos no início: seríamos nós insuportáveis rivais de nós mesmos, se pudéssemos existir ao nosso próprio lado, só que mais jovens?

O filme acentua ainda mais a questão do Complexo de Édipo através do relacionamento entre Manon e seu pai, Thomas (Christophe Lambert). Manon se apaixona completamente pelo pai, e no ápice dessa tensão, estando ela já adolescente e com corpo de moça, ela marca um encontro com ele, se passando por sua mãe ao telefone (a voz era muito parecida). No local, ela seduz o pai e tenta fazer sexo com ele. Thomas quase cedeu, e só sentiu repulsa quando o convite ao sexo foi feito abertamente.

Este filme, além de colocar questões filosóficas interessantes em relação à clonagem humana ("se um clone humano realmente existisse, até que medida ele seria uma extensão do dono de seus genes?"), apresenta de forma impactante o Complexo de Édipo e todas as suas tensões e rivalidades. Se você gosta de filmes fora do eixo hollywoodiano e que levam mais a refletir do que a divertir, acho que "O clone" é uma boa indicação.


Instrução para Sísifo

Posted: 21.6.11 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Instrução para Sísifo
Hans Magnus Enzensberger

Não tem perspectiva o que fazes. Bem:
tu o compreendeste, admite,
mas não te conformes,
homem da pedra. Ninguém
te agradece; linhas de giz,
que a chuva indolente lambe,
marcam a morte. Não te regozijes
antes da hora, o que não tem futuro
não é sucesso. Com
trágica própria tuteiam-se monstros,
espantalhos, áugures. Cala,
fala com o sol dois dedos de prosa
enquanto a pedra rola, mas
não te deleites com a tua impotência,
aumenta de um quintal
a ira no mundo, de um grão.
Faltam homens que realizem
em silêncio o que não tem futuro
e arranquem como grama a esperança,
seus risos, o futuro, a rolarem,
a rolarem sua ira sobre as montanhas.

(Trad. Kurt Scharf e Armindo Trevisan)


Glauber Rocha

Posted: 19.6.11 by Glauber Ataide in Marcadores: , ,
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No vídeo abaixo o histórico discurso de Darcy Ribeiro, no enterro do grande Glauber Rocha.



O mito de Sísifo, de Albert Camus - o suicídio é legítimo, já que não há sentido para a vida?

Posted: 17.6.11 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Compartilho abaixo alguns trechos dessa obra de Albert Camus, que li recentemente. São, respectivamente, um parágrafo do início do texto e o seu último capítulo.

Uma das questões que ele tenta responder é: mesmo que a vida não tenha sentido, o suicídio é legítimo? Considerando que não há transcendência, por que ainda continuar vivo?

Ele faz sua dissertação alertando o leitor de que este é o seu pressuposto: que não há valores absolutos, que não há transcendência. Se eles existem ou não, isso é outra discussão. Ele vai tomar o absurdo como ponto de partida, e não como conclusão.


O absurdo e o suicídio

Só existe um problema filosófico realmente sério: é o suicídio. Julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida é responder à questão fundamental da filosofia. O resto, se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias, aparece em seguida. São jogos. É preciso, antes de tudo, responder. E se é verdade, como pretende Nietzsche, que um filósofo, para ser confiável, deve pregar com o exemplo, percebe-se a importância dessa resposta, já que ela vai preceder o gesto definitivo. Estão aí as evidências que são sensíveis para o coração, mas que é preciso aprofundar para torná-las claras à inteligência.

[...]


O mito de Sísifo

Os deuses tinham condenado Sísifo a rolar um rochedo incessantemente até o cimo de uma montanha, de onde a pedra caía de novo por seu próprio peso. Eles tinham pensado, com as suas razões, que não existe punição mais terrível do que o trabalho inútil e sem esperança.

Se acreditarmos em Homero, Sísifo era o mais sábio e mais prudente dos mortais. Segundo uma outra tradição, porém, ele tinha queda para o ofício de salteador. Não vejo aí contradição. Diferem as opiniões sobre os motivos que lhe valeram ser o trabalhador inútil dos infernos. Reprovam-lhe, antes de tudo, certa leviandade para com os deuses. Espalhou os segredos deles. Egina, filha de Asopo, foi raptada por Júpiter. O pai, abalado por esse desaparecimento, se queixou a Sísifo. Este, que tomara conhecimento do rapto, ofereceu a Asopo orientá-lo a respeito, com a condição de que fornecesse água à cidadela de Corinto. Às cóleras celestes ele preferiu a bênção da água. Foi punido por isso nós infernos. Homero nos conta ainda que Sísifo acorrentara a Morte. Plutão não pôde tolerar o espetáculo de seu império deserto e silencioso. Despachou o deus da guerra, que libertou a Morte das mãos de seu vencedor.

Diz-se também que Sísifo, estando prestes a morrer, imprudentemente quis pôr à prova o amor de sua mulher. Ele lhe ordenou jogar o seu corpo insepulto em plena praça pública. Sísifo se recobrou nos infernos. Ali, exasperado com uma obediência tão contrária ao amor humano, obteve de Plutão o consentimento para voltar à terra e castigar a mulher. Mas, quando ele de novo pôde rever a face deste mundo, provar a água e o sol, as pedras aquecidas e o mar, não quis mais retornar à escuridão infernal. Os chamamentos, as iras, as advertências de nada adiantaram. Ainda por muitos anos ele viveu diante da curva do golfo, do mar arrebentando e dos sorrisos da terra. Foi necessária uma sentença dos deuses. Mercúrio veio apanhar o atrevido pelo pescoço e, arrancando-o de suas alegrias, reconduziu-o à força aos infernos, onde seu rochedo estava preparado.

Já deu para compreender que Sísifo é o herói absurdo. Ele o é tanto por suas paixões como por seu tormento. O desprezo pelos deuses, o ódio à Morte e a paixão pela vida lhe valeram esse suplício indescritível em que todo o ser se ocupa em não completar nada. É o preço a pagar pelas paixões deste mundo. Nada nos foi dito sobre Sísifo nos infernos. Os mitos são feitos para que a imaginação os anime. Neste caso, vê-se apenas todo o esforço de um corpo estirado para levantar a pedra enorme, rolá-la e fazê-la subir uma encosta, tarefa cem vezes recomeçada. Vê-se o rosto crispado, a face colada à pedra, o socorro de uma espádua que recebe a massa recoberta de barro, e de um pé que a escora, a repetição na base do braço, a segurança toda humana de duas mãos cheias de terra. Ao final desse esforço imenso medido pelo espaço sem céu e pelo tempo sem profundidade, o objetivo é atingido. Sísifo; então, vê a pedra desabar em alguns instantes para esse mundo inferior de onde será preciso reerguê-la até os cimos. E desce de novo para a planície.

É durante esse retorno, essa pausa, que Sísifo me interessa. Um rosto que pena, assim tão perto das pedras, é já ele próprio pedra! Vejo esse homem redescer, com o passo pesado, mas igual, para o tormento cujo fim não conhecerá. Essa hora que é como uma respiração e que ressurge tão certamente quanto sua infelicidade, essa hora é aquela da consciência. A cada um desses momentos, em que ele deixa os cimos e se afunda pouco a pouco no covil dos deuses, ele é superior ao seu destino. É mais forte que seu rochedo.

Se esse mito é trágico, é que seu herói é consciente. Onde estaria, de fato, a sua pena, se a cada passo 0 sustentasse a esperança de ser bem-sucedido? O operário de hoje trabalha todos os dias de sua vida nas mesmas tarefas e esse destino não é menos absurdo. Mas ele só é trágico nos raros momentos em que se torna consciente. Sísifo, proletário dos deuses, impotente e revoltado, conhece toda a extensão de sua condição miserável: é nela que ele pensa enquanto desce. A lucidez que devia produzir o seu tormento consome, com a mesma força, sua vitória. Não existe destino que não se supere pelo desprezo.

Se a descida, assim, em certos dias se faz para a dor, ela também pode se fazer para a alegria. Esta palavra não está demais. Imagino ainda Sísifo indo outra vez para seu rochedo, e a dor estava no começo. Quando as imagens da terra se mantêm muito intensas na lembrança, quando o apelo da felicidade se faz demasiadamente pesado, acontece que a tristeza se impõe ao coração humano: é a vitória do rochedo, é o próprio rochedo. O enorme desgosto é pesado demais para carregar. São nossas noites de Getsêmani. Mas as verdades esmagadoras perecem ao serem reconhecidas. Assim, Édipo de início obedece ao destino sem o saber. A partir do momento em que ele sabe, sua tragédia principia. Mas no mesmo instante, cego e desesperado, reconhece que o único laço que o prende ao mundo é ó frescor da mão de uma garota. Uma fala descomedida ressoa então: "Apesar de tantas experiências, minha idade avançada e a grandeza da minha alma me fazem achar é que tudo está bem”. O Édipo de Sófocles, como o Kirílov de Dostoiévski, dá assim a fórmula da vitória absurda. A sabedoria antiga torna a se encontrar com o heroísmo moderno.

Não se descobre o absurdo sem ser tentado a escrever algum manual de felicidade. "Mas como, com umas trilhas tão estreitas?" No entanto, só existe um mundo. A felicidade e o absurdo são dois filhos da mesma terra. São inseparáveis. O erro seria dizer que a felicidade nasce forçosamente da descoberta absurda. Ocorre do mesmo modo o sentimento do absurdo nascer da felicidade. "Acho que tudo está bem", diz Édipo, e essa fala é sagrada. Ela ressoa no universo feroz e limitado do homem. Ensina que tudo não é e não foi esgotado. Expulsa deste mundo um deus que nele havia entrado com a insatisfação e o gosto pelas dores inúteis. Faz do destino um assunto do homem e que deve ser acertado entre os homens.

Toda a alegria silenciosa de Sísifo está aí. Seu destino lhe pertence. Seu rochedo é sua questão. Da mesma forma o homem absurdo, quando contempla o seu tormento, faz calar todos os ídolos. No universo subitamente restituído ao seu silêncio, elevam-se as mil pequenas vozes maravilhadas da terra. Apelos inconscientes e secretos, convites de todos os rostos, são o reverso necessário e o preço da vitória. Não existe sol sem sombra, e é preciso conhecer a noite. O homem absurdo diz sim e seu esforço não acaba mais. Se há um destino pessoal, não há nenhuma destinação superior ou, pelo menos, só existe uma, que ele julga fatal e desprezível. No mais, ele se tem como senhor de seus dias. Nesse instante sutil em que o homem se volta sobre sua vida, Sísifo, vindo de novo para seu rochedo, contempla essa seqüência de atos sem nexo que se torna seu destino, criado por ele, unificado sob o olhar de sua memória e em breve selado por sua morte. Assim, convencido da origem toda humana de tudo o que é humano, cego que quer ver e que sabe que a noite não tem fim, ele está sempre caminhando. O rochedo continua a rolar.

Deixo Sísifo no sopé da montanha! Sempre se reencontra seu fardo. Mas Sísifo ensina a fidelidade superior que nega os deuses e levanta os rochedos. Ele também acha que tudo está bem. Esse universo doravante sem senhor não lhe parece nem estéril nem fútil. Cada um dos grãos dessa pedra, cada clarão mineral dessa montanha cheia de noite, só para ele forma um mundo. A própria luta em direção aos cimos é suficiente para preencher um coração humano. É preciso imaginar Sísifo feliz.


O luto, por Freud

Posted: 24.5.11 by Glauber Ataide in Marcadores:
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"O luto, de modo geral, é a reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade ou o ideal de alguém, e assim por diante. Em algumas pessoas, as mesmas influências produzem melancolia em vez de luto; por conseguinte, suspeitamos de que essas pessoas possuem uma disposição patológica. Também vale a pena notar que, embora o luto envolva graves afastamentos daquilo que constitui a atitude normal para com a vida, jamais nos ocorre considerá-lo como sendo uma condição patológica e submetê-lo a tratamento médico. Confiamos em que seja superado após certo lapso de tempo, e julgamos inútil ou mesmo prejudicial qualquer interferência em relação a ele.

"Os traços mentais distintivos da melancolia são um desânimo profundamente penoso, a cessação de interesse pelo mundo externo, a perda da capacidade de amar, a inibição de toda e qualquer atividade, e uma diminuição dos sentimentos de auto-estima a ponto de encontrar expressão em auto-recriminação e auto-envilecimento, culminando numa expectativa delirante de punição. Esse quadro torna-se um pouco mais inteligível quando consideramos que, com uma única exceção, os mesmos traços são encontrados no luto. A perturbação da auto-estima está ausente no luto; afora isso, porém, as características são as mesmas. O luto profundo, a reação à perda de alguém que se ama, encerra o mesmo estado de espírito penoso, a mesma perda de interesse pelo mundo externo — na medida em que este não evoca esse alguém —, a mesma perda da capacidade de adotar um novo objeto de amor (o que significaria substituí-lo) e o mesmo afastamento de toda e qualquer atividade que não esteja ligada a pensamentos sobre ele. É fácil constatar que essa inibição e circunscrisão do ego é expressão de uma exclusiva devoção ao luto, devoção que nada deixa a outros propósitos ou a outros interesses. E, realmente, só porque sabemos explicá-la tão bem é que essa atitude não nos parece patológica.

"Parece-nos também uma comparação adequada chamar a disposição para o luto de ‘dolorosa’. É bem provável que vejamos a justificação disso quando estivermos em condições de apresentar uma caracterização da economia da dor.

"Em que consiste, portanto, o trabalho que o luto realiza? Não me parece forçado apresentá-lo da forma que se segue. O teste da realidade revelou que o objeto amado não existe mais, passando a exigir que toda a libido seja retirada de suas ligações com aquele objeto. Essa exigência provoca uma oposição compreensível — é fato notório que as pessoas nunca abandonam de bom grado uma posição libidinal, nem mesmo, na realidade, quando um substituto já se lhes acena. Esta oposição pode ser tão intensa, que dá lugar a um desvio da realidade e a um apego ao objeto por intermédio de uma psicose alucinatória carregada de desejo. Normalmente, prevalece o respeito pela realidade, ainda que suas ordens não possam ser obedecidas de imediato. São executadas pouco a pouco, com grande dispêndio de tempo e de energia catexial, prolongando-se psiquicamente, nesse meio tempo, a existência do objeto perdido. Cada uma das lembranças e expectativas isoladas através das quais a libido está vinculada ao objeto é evocada e hipercatexizada, e o desligamento da libido se realiza em relação a cada uma delas. Por que essa transigência, pela qual o domínio da realidade se faz fragmentariamente, deve ser tão extraordinariamente penosa, de forma alguma é coisa fácil de explicar em termos de economia. É notável que esse penoso desprazer seja aceito por nós como algo natural. Contudo, o fato é que, quando o trabalho do luto se conclui, o ego fica outra vez livre e desinibido."


Trechos retirados do artigo "Luto e melancolia", vol. XIV da Edição Standard das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud.

Filosofia, Psicanálise, sentido e profundidade

Posted: 13.5.11 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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A Filosofia e a Psicanálise são, de certa forma, métodos de investigação que se caracterizam pela profundidade de análise. São radicais no sentido de ir à raiz das coisas e dos fenômenos. Onde via-se outrora apenas acaso ou banalidade, essas duas disciplinas "desbanalizaram o banal" e encontraram ali um sentido, uma razão, um logos.

Olhar para o mundo, maravilhar-se com ele e perceber como tudo é espantoso é um passo necessário para o filosofar. Para o filósofo as coisas nunca são banais, mas tudo é motivo de investigação. Nada é óbvio, nada é simples. Tudo suscita perguntas e questionamentos.

A mesma postura adota a Psicanálise diante de certas coisas que, por toda a história da humanidade, nunca tinham merecido a atenção dos sábios, dos cientistas e dos pesquisadores. Atos tão corriqueiros de nosso cotidiano como um lapso de língua, a troca de uma palavra por outra, o esquecimento de nomes, o esquecimento de intenções ou os sonhos eram no máximo explorados por poetas e escritores de forma intuitiva em suas obras, mas nunca estudados.

A Filosofia, ao olhar para o mundo e tentar compreende-lo sem recorrer aos mitos, percebeu desde cedo que tudo estava organizado, que tudo respeitava uma ordem, que era, enfim, o cosmos. E estando o mundo organizado e sujeito a leis, essas poderiam ser descobertas. A Filosofia viu que, mais além da multiplicidade que percebemos através dos sentidos (visão, audição, tato, etc), havia algo que dava unidade às coisas. Isso nos permitiu compreender por que todas as pessoas, apesar de todas as suas diferenças, possuem algo em comum que permite que sejam todas denominadas seres humanos.

A Psicanálise, também chamada de "Psicologia Profunda" por Freud, descobriu com métodos próprios e bem mais tarde que atos outrora considerados banais, como a troca de um nome por outro, por exemplo, não eram obra do acaso, mas a ação de uma idéia perturbadora, inconsciente, que se fazia sentir no discurso e era causadora do lapso.

Os sintomas de uma neurose, de forma semelhante, também podem ser interpretados, pois cada sintoma tem um propósito. O sintoma não é uma manifestação aleatória e incompreensível de um distúrbio, mas ele próprio tem um lógica, tem uma razão de ser. Um ato obsessivo repetido compulsivamente por um neurótico obsessivo teve um início, teve uma fixação traumática no passado e a análise é capaz de descobrir sua origem e faze-lo desaparecer.

Os sonhos, experiência comum de todos as pessoas (e não apenas dos neuróticos), também se mostraram, com a Psicanálise, dotados de sentido, de significado. Onde via-se apenas confusão, atividade mental desordenada e absurdos, a Psicanálise descobriu que ali havia um sentido, uma ordem de tipo diferente, e que dali era possível extrair um significado.

Acho que é essa característica compartilhada por ambas, a de buscar um sentido nas coisas e de descer até as raízes do que se estuda, o que atrai tantos filósofos para a Psicanálise e tantos psicanalistas para a Filosofia. Não é sem razão que a Psicanálise, tão atacada nas últimas décadas, tem encontrado no reduto dos filósofos, e não dos psicólogos, seu principal abrigo.

Meu encontro com Marx e Freud, de Erich Fromm

Posted: 6.5.11 by Glauber Ataide in Marcadores: , , , ,
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Meu objetivo inicial com este livro era aprofundar meus estudos na interseção entre marxismo e psicanálise, mas ele só nos permite fazê-lo superficialmente. Até aí, tudo bem, pois não é este mesmo o seu objetivo. Esta obra é uma biografia intelectual de seu autor, e não uma exposição do freudo-marxismo.

Mas o grande problema que encontrei aqui é que Erich Fromm comete o mesmo erro da maioria dos marxólogos acadêmicos, que despem o marxismo de seu caráter revolucionário para deixa-lo mais palatável para a burguesia.

Ele mesmo afirma, nesta obra, que não é engajado politicamente, ou seja, é apenas um "marxista acadêmico". E isso é uma contradição, pois não é possível ser marxista e não estar politicamente engajado. Lembremo-nos da 11ª tese sobre Feuerbach, em que Marx afirma que os filósofos até hoje se limitaram a interpretar o mundo, mas o que importa, porém, é transformá-lo. A vida do próprio Karl Marx foi de engajamento político revolucionário.

Assim, Fromm é seduzido pela cantilena burguesa de que Stalin foi um "assassino", e em diversos momentos o coloca no mesmo plano de Hitler, fazendo assim o jogo da burguesia que, derrotada e envergonhada pelo que fez na II Guerra Mundial, precisou inventar no campo da esquerda um monstro idêntico ao que eles realmente criaram e financiaram no campo da direita, Adolf Hitler.

Além disso, é muito bonito que "marxistas acadêmicos", como Fromm, digam como as coisas devem ser. Falam muito do "Homem", da "Liberdade", etc. Mas em momento algum eles dizem como isso deve ser alcançado.

Se apegam a uma imaginária "pureza da revolução", que o filósofo italiano Domenico Losurdo chama de "universalismo abstrato", e criticam toda tentativa de construção do socialismo na prática. Essa postura é sempre consequência ou de falta de engajamento político ou de oposição esquerdista que não tem nenhuma responsabilidade de construir algo, mas apenas de desconstruir. E a primeira delas, não ser politicamente engajado, é ainda uma das razões pelas quais tal pessoa não pode carregar o título de marxista, pois não consegue ver essas nuances da vida prática se está apenas confortavelmente sentado num banco da universidade. Este suposto "distanciamento do objeto" mais cega do que faz ver.

Mas para não deixar a impressão de que não há nada aproveitável neste livro, há vários pontos esclarecedores sobre o que há em comum entre Marx e Freud - cada capítulo do livro trata de um aspecto diferente.

Um dos mais interessantes é sobre a atitude cética tanto de Marx quanto de Freud sobre aquilo que pensamos que sabemos. Para Freud, muito do que se passa na vida psíquica do homem é inconsciente, e ele não sabe exatamente porque age da forma que age. Já para Marx, as pessoas também não sabem por que pensam como pensam, pois suas idéias são em grande parte reflexos das condições materiais concretas da sociedade em que vive.

Ou seja, ambos os pensadores trabalham com um conceito semelhante de "racionalização". Para Freud, a racionalização é uma tentativa de dar sentido a uma ação ou pensamento que vem do inconsciente. Na obra de Marx, essa racionalização recebe o nome de "ideologia", isso é, uma justificativa da organização social em que vive, do status quo. Mas enquanto Freud trabalha com o indivíduo, Marx trabalha com o social.

E como dica para os interessados no tema, um teórico que considero muito superior a Erich Fromm no freudo-marxismo é Wilhelm Reich, quando este ainda fazia parte do Partido Comunista da Alemanha. Sua obra deste período de militância política é muito mais profunda do que podemos encontrar neste livro de Fromm.


Problemas da moral religiosa

Posted: 20.4.11 by Glauber Ataide in Marcadores: , , ,
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Uma das principais dificuldades da discussão moral hoje, no contexto de um mundo relativista, líquido, pós-moderno, reside no problema da fundamentação da moral. Se uma moral é fundamentada numa religião particular, mas um outro grupo não compartilha dessa crença, essa doutrina não tem nenhuma força sobre essa outra comunidade. As doutrinas morais religiosas, portanto, não possuem um caráter tão "absoluto" quanto seus adeptos julgam ter, neste aspecto.

Vemos isso na prática em discussões sobre o aborto. Pessoas religiosas, por comungarem de determinadas concepções sobre o tema, conflitam-se na arena pública com diversos outros setores da sociedade que não compartilham dessas crenças oriundas de seus livros sagrados.

Se podemos fazer uma categorização ampla e simplificada das diversas perspectivas morais, os dois principais grupos seriam 1) daquelas doutrinas que recorrem a livros sagrados como fundamento, e 2) daquelas que não inserem Deus na discussão, buscando fundamentar a moral no mundo real, e não no além.

A moral religiosa, a despeito de toda a aparente simplicidade de sua fundamentação ("Deus existe, logo, eu obedeço") apresenta vários problemas. Grande parte da discussão que aqui apresentamos se encontra na obra Moral - uma introdução à ética, do filósofo Bernard Williams, editora Martins Fontes. Falecido em 2003, Williams foi considerado pela revista Times como o filósofo moral inglês mais brilhante e mais importante de seu tempo.

Os religiosos afirmam que se Deus não for acrescentado à discussão, então nada fundamenta a moral e, portanto, nenhuma outra perspectiva, a não ser a deles, pode ser universalizada.

Sua argumentação consiste em buscar por estruturas transcendentais para explicar a finalidade do homem, isso é, o que homem deve fazer e como deve ser neste mundo. Já que o homem é criado por Deus, este teria certas expectativas em relação à sua criatura, dizem.

Surge aqui, no entanto, um primeiro problema: quais características de Deus justificam nosso dever de satisfazer suas expectativas?

Seria o seu poder? Isso é discutível, pois, por analogia, temos exemplos de pais humanos e reis que não devem ser obedecidos. Isso, portanto, não constitui um critério adequado. Seria então pelo seu infinito poder, ou por ter criado tudo que existe? Mas poder ou domínio infinito não parecem mais dignos de obediência. Ou seria, então, por que Deus é bom? Tampouco, pois essa qualificação já envolve uma valoração, que deve ser a conclusão, e não a premissa do apelo a Deus (Kant).

Os argumentos acima têm sido utilizados por diversos filósofos contra a ideia puramente dedutiva e a priori de que devemos cultivar um determinado tipo de vida por sermos criaturas de Deus.

Bernard Williams afirma que o seguinte é um ponto pacífico entre os filósofos: mesmo que Deus exista, isso não faz, para um pensador moral de mente aberta, nenhuma diferença na reflexão moral.

Os motivos para obedecer a Deus, cumprir seus mandamentos morais, são morais ou não. Mas se a pessoa já está munida de motivos morais, a inserção de Deus nada acrescenta.

E se suas motivações não são morais, não podem levar adequadamente à moralidade: serão motivos de prudência, que em sua forma mais simplificada, isso é, nos sermões de padres e pastores, configuram-se num tipo de convencimento moral ad baculum (1), qual seja, a ameaça do inferno.

Nenhuma ação moral motivada por prudência pode ser uma ação moral genuína - a ação moral deve ser motivada pelo que é moralmente certo e nada mais. Qualquer apelo a Deus nesse encadeamento nada acrescenta, ou, se o faz, acrescenta os dados errados.

Na opinião de Williams, "o problema da moralidade religiosa não reside no fato de a moralidade ser inescapavelmente pura, mas sim no fato de a religião ser incuravelmente ininteligível."



NOTAS

(1) Ad baculum: tipo de falácia que tenta convencer alguém através de ameaças. Em latim, significa "apelo ao porrete".


REFERÊNCIAS

WILLIAMS, Bernard. Moral - uma introdução à ética. São Paulo: 2005, Martins Fontes.

Sonhos com pessoas falecidas

Posted: 19.4.11 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Poucos dias após o falecimento de meu pai tive o seguinte sonho:

Meu pai se levantava de seu túmulo e, ainda sentado, se limpava por causa da terra que estava por cima dele. A razão dele estar se levantando é que um de meus primos tinha chegado atrasado e não teve tempo de vê-lo antes de ser enterrado.

Tive este sonho em 2003, mas somente por volta de 2011, quando já estudava psicanálise, é que consegui extrair dele algum significado. A interpretação então me pareceu bastante clara. É que quando meu pai faleceu, este meu primo não foi ao enterro porque estava viajando. O sonho então representa uma cena que não aconteceu: meu primo chegando ao enterro, mas atrasado. Isso foi razão suficiente para traduzir o seguinte pensamento latente: "Meu pai não pode ir embora sem se despedir de todos antes. Ele tem que voltar pelo menos para se despedir."

Além disso, há ainda um associação entre meu primo e eu mesmo. No dia em que meu pai faleceu era eu quem estava designado para ficar com ele no hospital, segundo nossa escala de revezamento. No entanto, logo pela manhã, antes de sair, fui acordado por um telefonema de minha irmã avisando de seu falecimento. Ou seja, eu próprio não cheguei a tempo de me despedir dele, o que aparece representado no sonho através da imagem de meu primo. O pensamento latente expresso neste conteúdo manifesto pode então ser traduzido de forma ainda mais exata: "Meu pai não pode ir embora sem se despedir de mim antes. Ele tem que voltar pelo menos para se despedir."

Sonhos com pessoas queridas, que faleceram recentemente, geralmente são uma tentativa de realização do desejo de trazer de volta esses falecidos. Notem que enfatizo aqui o geralmente porque, a partir de uma perspectiva psicanalítica, um sonho com semelhante estrutura pode ter outros significados.

Freud e os sonhos com pessoas falecidas

Para um tratamento mais aprofundado do tema, reproduzo abaixo um trecho no qual Freud discorre sobre sonhos com pessoas falecidas. Ele foi retirado da obra "Conferências introdutórias sobre Psicanálise (Partes I e II)", p. 188-191, vol. XV da Edição Standard das Obras Psicológicas Completas.

(3) Quando se perde alguém que é de nossas relações e nos é caro, surgem sonhos de um tipo especial, durante algum tempo após, nos quais o conhecimento da morte chega às mais estranhas conciliações com a necessidade de trazer novamente à vida a pessoa morta. Em alguns desses sonhos, a pessoa que morreu está morta e ao mesmo tempo permanece viva porque não sabe que está morta; somente se soubesse, morreria completamente. Em outros, a pessoa está meio morta e meio viva, e cada um desses estados vem indicado por uma forma particular. Não devemos descrever esses sonhos como simplesmente absurdos; pois ser devolvido novamente à vida não é mais inconcebível nos sonhos do que o é, por exemplo, em contos de fadas, nos quais isso ocorre como fato muito rotineiro. Sempre que pude avaliar tais sonhos, constatei que eles são passíveis de uma solução racional; contudo, o piedoso desejo de fazer retornar à vida a pessoa morta conseguiu operar pelos mais estranhos meios. Apresentar-lhes-ei agora um sonho desse tipo, que parece tão esquisito e absurdo, e, no entanto, sua análise lhes mostrará muitas coisas para as quais nossas explicações teóricas os terão preparado. É o sonho de um homem que havia perdido seu pai, vários anos antes:

Seu pai estava morto, mas havia sido exumado e parecia estar mal. Tinha estado vivendo desde então e o homem, no sonho, fazia todo o possível para evitar que o pai percebesse. (O sonho continuava com outros assuntos, aparentemente muito diferentes.)

Seu pai estava morto; sabemos disso. O ter sido exumado não corresponde à realidade; e não havia nada de realidade em tudo o que se seguia. O sonhador, porém, relatou que, após ter voltado dos funerais do pai, um de seus dentes começou a doer. Ele queria tratar o dente segundo o preceito da doutrina judaica: ‘Se teu dente incomoda, arranca-o!’ E ele foi ao dentista. Mas o dentista disse: ‘Não se arranca um dente. Deve-se ter paciência com ele. Porei dentro dele algo que o mate; volte em três dias e eu o extrairei.’

‘Esse “extrair”’, disse o homem que teve o sonho, ‘é exumar!’

Será que o homem estava certo do que dizia? Isso apenas se adapta mais ou menos, não completamente; pois não foi extraído o dente, foi extraído apenas algo nele que morrera. No entanto, imprecisões deste tipo podem, com prova em outras experiências, ser atribuídas à elaboração onírica. Sendo assim, o homem que teve este sonho condensara seu pai morto e o dente que havia sido morto, porém conservado; ele os fundiu numa unidade. Não é de causar admiração, portanto, que algo de absurdo emergisse no sonho manifesto, de vez que, afinal, nem tudo que se disse do dente poderia ajustar-se a seu pai. Onde pode haver, talvez, um tertium comparationis [ver em [1], anterior] entre o dente e seu pai, para que se tornasse possível a condensação?

Entretanto, sem dúvida ele deve ter tido razão, pois prosseguiu dizendo que sabia que sonhar com a queda de um dente significa que se vai perder um membro da família.

Essa interpretação popular, como sabemos, é incorreta, ou, pelo menos, correta somente em sentido grosseiro. Todos ficaremos muito surpresos por encontrar, pois, o assunto assim abordado reaparecendo agora em outras partes do conteúdo do sonho.Este sonhador, sem nenhum outro encorajamento, começou a falar na doença e na morte de seu pai, bem como a respeito de suas próprias relações com ele. Seu pai esteve doente durante longo tempo, e os cuidados e o tratamento tinham-lhe custado (ao filho) grande soma de dinheiro. Não obstante, nunca era demais, ele jamais se impacientou, jamais desejou que, afinal, tudo pudesse logo chegar ao fim. Orgulhava-se de sua verdadeira dedicação filial judaica para com o pai, de sua estrita obediência à lei judaica. E aqui nos surpreendemos com uma contradição existente nos pensamentos pertinentes ao sonho. Ele havia identificado o dente com seu pai. Devia proceder com o dente segundo a lei judaica que lhe ordenava arrancá-lo se lhe causasse dor ou incômodo. Desejava também proceder do mesmo modo com seu pai, segundo os preceitos da lei; neste caso, porém, ela lhe ordenava não poupar gastos nem atribulações, assumir todo o encargo sobre si mesmo e não permitir que alguma intenção hostil emergisse contra o objeto que lhe estava causando sofrimento. Será que as duas atitudes não teriam sido conciliadas muito mais convincentemente, se ele tivesse realmente desenvolvido sentimentos para com seu pai doente semelhantes àqueles com relação a seu dente doente — isto é, se tivesse desejado que a morte se antecipasse e pusesse fim à sua existência desnecessária dolorosa e custosa?

Não duvido de que era esta, realmente, sua atitude para com seu pai durante a fatigante doença, e que suas altivas afirmações de amor filial se destinavam a desviá-lo dessas lembranças. Sob essas condições, o desejo de morte contra um pai está pronto a entrar em atividade e esconder-se sob o disfarce dessas reflexões caridosas tais como ‘seria um feliz alívio para ele’. Mas, por favor, observem que, nisso, ultrapassamos uma barreira existente nos próprios pensamentos oníricos latentes. Sem dúvida, a primeira parte dos mesmos esteve inconsciente apenas temporariamente, isto é, durante a construção do sonho; seus impulsos hostis contra o pai, contudo, devem ter sido permanentemente inconscientes. Podem ter-se originado de cenas de sua infância e, ocasionalmente, emergiram como conscientes, tímida e disfarçadamente, durante a doença do pai. Isto podemos afirmar, com grande certeza; acerca de outros pensamentos latentes que contribuíram inequivocamente para o conteúdo do sonho. Nada, realmente, deve ser descoberto, no sonho, sobre seus impulsos hostis para com seu pai. Se, porém, procurarmos na infância as raízes dessa hostilidade contra um pai, nos recordaremos de que o medo ao pai tem início nos primeiros anos de vida, porque este se opõe às atividades sexuais do menino, exatamente como terá de acontecer mais uma vez, por motivos sociais, após a idade púbere. Essa relação com o pai aplica-se também a esse nosso sonhador: o amor pelo pai incluía uma estranha mescla de reverência e temor, que tinha sua origem no fato de, quando menino, por meio de ameaças, ter sido tolhido em sua atividade sexual.As frases restantes do sonho manifesto podem ser explicadas, agora, em relação ao complexo da masturbação. ‘Ele parecia estar mal‘ é realmente uma alusão a uma outra observação do dentista no sentido de que parece mau alguém perder um dente nessa parte da boca; mas refere-se, ao mesmo tempo, ao ‘parecer estar mal’ pelo qual um jovem, na puberdade, revela, ou receia revelar, sua atividade sexual excessiva. Não foi sem alívio para seus próprios sentimentos que, no conteúdo manifesto, este que sonhou deslocou o ‘parecer estar mal’ de si mesmo para seu pai — um dos tipos de inversão feitos pela elaboração onírica, que os senhores já conhecem [ver em [1]]. ‘Tinha estado com vida desde então‘ coincide com o desejo de trazer de volta à vida, assim como coincide com a promessa do dentista de que o dente sobreviveria. A frase ‘o sonhador fazia todo o possível para evitar que ele (o pai) percebesse‘ é muito sutilmente arquitetada para nos desorientar, fazendo-nos pensar que ela deveria ser completada com as palavras ‘que ele estava morto’. A única completação, entretanto, que faz sentido, provém, uma vez mais, do complexo de masturbação; em relação a isto, é evidente que o jovem fez tudo quanto pôde para ocultar de seu pai sua vida sexual. E, finalmente, lembrem-se de que sempre devemos interpretar os chamados ‘sonhos com um estímulo dental’ como sendo relacionados com masturbação e com o temido castigo correspondente. [ver em [1].]

Agora podem ver como esse sonho incompreensível se efetuou. Fez-se produzindo uma condensação estranha e desorientadora, desprezando todos os pensamentos que estavam no centro do processo de pensamentos latentes e criando substitutos ambíguos para os mais profundos e cronologicamente mais remotos desses pensamentos.

Atos falhos, ou parapraxias

Posted: 7.4.11 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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As parapraxias, ou atos falhos, são manifestações de intenções perturbadoras do inconsciente em nossa atividade consciente. Um exemplo de um ato falho são os lapsos de língua, quando trocamos uma palavra por outra ou o nome de uma pessoa por outro.

O esquecimento de intenções também são atos falhos. Ocorre, por exemplo, quando chegamos em um determinado lugar e perguntamos: "o que eu vim fazer aqui mesmo?"

Um ato falho ocorre quando eu saio de casa com uma carta na mão para despachá-la mas percebo que passei por uma caixa de correio e não a deixei lá. Esse esquecimento é um tipo de ato falho. Freud comenta que

"...não preciso, como indivíduo normal e livre de neuroses, carregá-la na mão por todo o caminho e ficar à cata de uma caixa de correio onde possa jogá-la; pelo contrário, costumo colocá-la no bolso, seguir meu caminho deixando os pensamentos vagarem livremente, e confiar em que uma das primeiras caixas do correio há de chamar minha atenção e fazer com que eu ponha a mão no bolso e retire a carta. A conduta normal frente a uma intenção concebida coincide por completo com o comportamento experimentalmente produzido das pessoas a quem se deu, em hipnose, uma "sugestão pós-hipnótica a longo prazo", como se costuma chamá-la. Esse fenômeno é usualmente descrito da seguinte maneira: a intenção sugerida dormita na pessoa em questão até se aproximar o momento de efetivá-la. É aí que desperta e impele a pessoa para a ação." (FREUD, 2002)

Os atos falhos ocorrem para evitar o desprazer. Eles são sempre sintomas de algum tipo de conflito psíquico. No caso da carta, o ato de depositá-la na caixa de correios poderia entrar em associação com conteúdos psíquicos que quero manter recalcados. Por essa razão, um mecanismo psíquico atua para que a ação não seja executada, e nesse caso, para que eu esqueça minha intenção de colocar a carta no correio.

Um outro ato falho muito comum é a substituição de nomes, isso é, quando vamos chamar uma pessoa e trocamos seu nome pelo de outra pessoa. Ou então quando esquecemos o nome de uma pessoa. A real motivação da troca de um nome pelo outro ou pelo seu esquecimento pode ser analisada.

Se alguém também afirma: "'Não me peça para fazer isto, tenho certeza de que vou esquecer!'", a realização dessa profecia, segundo Freud (1997), nada tem de místico, pois "quem assim fala sente em si a intenção de não executar o pedido e apenas se recusa a confessá-lo a si mesmo."

Os atos falhos, por se manifestarem em todas as pessoas, e não apenas em neuróticos, é um dos principais meios de acesso às descobertas da Psicanálise. Tanto que Freud escolheu este tema como o primeiro a apresentar em suas "Conferências Introdutórias sobre Psicanálise" (volumes XV e XVI da Edição Standard das Obras Completas).

Para ilustrar um ato falho de esquecimento, relato um incidente que me ocorreu recentemente. Estava apresentando um trabalho em sala de aula sobre o julgamento de Sócrates. Durante minha fala me esqueci completamente de uma palavra, o que foi constrangedor, pois fiquei alguns segundos calado, em pé, diante de toda a classe, que esperava que eu desse prosseguimento. Com a ajuda do texto que tinha em mãos consegui recuperar o termo reprimido: era a palavra "acusação".

Depois que terminei e me sentei, tentei analisar este episódio e logo encontrei seu motivo: a palavra "acusação" estava associada a "julgamento", o que se associava com o receio de que a audiência estivesse julgando ou acusando a apresentação que eu estava fazendo. E o contexto era propício a isso porque, como já afirmei, o tema do trabalho era o julgamento de Sócrates, e estávamos comentando a obra "Apologia de Sócrates", de Platão.

Os atos falhos foram agrupados por Freud em sete tipos: orais, escritos, de falsa leitura e de falsa audição, esquecimento temporal, perdas e atos sintomáticos. Alguns guardam muitas semelhanças com outros, como os lapsos de língua e os de escrita, por exemplo.

Por serem bem mais simples de interpretar do que os sonhos, são um bom caminho para quem deseja iniciar seus estudos em Psicanálise. São uma clara manifestação da nossa psicopatologia da vida cotidiana, uma demonstração bem acessível de que todos nós somos, no mínimo, levemente neuróticos.


REFERÊNCIAS

FREUD, Sigmund. Sobre a psicopatologia da vida cotidiana. In: Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1997.

KEEGAN, Paul. Introduction. In: FREUD, Sigmund. The psychopathology of everyday life. London: Penguin Classics, 2002.

TALLAFERRO, Alberto. Curso básico de Psicanálise [Tradução Álvares Cabral ]. 2.ed. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

O idiota, de Dostoievski, e Policarpo Quaresma, de Lima Barreto

Posted: 5.4.11 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Este artigo, de autoria do jornalista Renato Pompeu, faz uma comparação entre dois protagonistas de dois dos meus livros favoritos: o príncipe Michhkin, do livro "O idiota", de Dostoievski, e Policarpo Quaresma, do livro "O triste fim de Policarpo Quaresma", de Lima Barreto.


“Policarpo” seria um “Idiota”?

Renato Pompeu

Quis o acaso que os palcos paulistanos reunissem os romances “O Idiota”, do russo Fiodor Dostoievski (Fiodor é a forma russa de Teodoro), escrito em 1867-69, e “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, do carioca Lima Barreto, publicado quase meio século depois, em 1911. Mas o mais estranho é que os dois heróis, o “idiota” príncipe Michhkin e o “patriota” Quaresma têm muito em comum. A ponto que serviria para o romance russo a epígrafe do romance brasileiro: “O grande inconveniente da vida real e que a torna insuportável para o homem superior é que, se para ela são transportados os princípios do ideal, as qualidades se tornam defeitos, tanto que muito frequentemente aquele homem superior realiza e consegue bem menos do que aqueles movidos pelo egoísmo e pela rotina vulgar”, citação do livro “As origens do cristianismo”, do humanista francês Ernest Renan, do século 19.

O que é que isso tem a ver com Michkin? O príncipe, quando começa o romance, chega a São Petersburgo depois de ter passado um tempo internado num sanatório suíço, por sofrer de “idiotia” (na época, termo médico aplicado a pessoas com profundo retardamento mental) e de epilepsia. Na verdade, fosse ou não retardado (Dostoievski não deixa isso claro), Michkin era homem profundamente ético e generoso, o que o torna destoante da maioria dos demais personagens da obra, egoístas, interesseiros e que levam em conta muito mais as virtudes do dinheiro do que as virtudes morais.

Michkin, por exemplo, se dispõe a casar com uma mulher “decaída”, por ser ao mesmo tempo solteira e não mais virgem, amante de um homem poderoso que se propõe a pagar a um conhecido do príncipe para esse conhecido se casar com ela e esse homem poderoso poder continuar a ser amante da moça. Michkin quer se casar com ela, apesar de estar apaixonado pela filha mais nova de um general, para dar à “decaída” um sobrenome e uma posição de respeito na sociedade. E também para livrar seu conhecido do vexame de ser um marido pago para ser traído.

O príncipe, durante a trama, recebe uma herança, que aos poucos se descobre ser de valor bem menor do que o inicialmente esperado. Surge um enxame de credores, supostos ou reais, e de parentes e amigos, também supostos e reais, que literalmente passam a extorquir grandes quantias de Michkin. Generoso e desprendido, ou talvez “idiota”, o príncipe se esforça por atender a todos os pedidos.

Rejeitado tanto pela “decaída” com quem pretendia se casar, como pela jovem pela qual se tinha apaixonado, Michkin, igualmente abandonado por todos ao praticamente se esgotar seu dinheiro, não tem outro remédio senão novamente se internar no sanatório suíço. Ambas as mulheres se unem a homens de caráter duvidoso.

Vemos que Michkin se enquadra na definição de “homem superior” da epígrafe escolhida para “Policarpo”, pois “consegue bem menos do que aqueles movidos pelo egoísmo e pela rotina vulgar”. Pois “fora da rotina” e “destoante” era um dos sentidos da palavra “idiota” na Grécia antiga, reservada para pessoas, que, por terem opiniões muito próprias, “idiossincrasias”, não participavam da vida política dos cidadãos comuns.

Igualmente, Policarpo Quaresma poderia ser considerado “idiota”, e de fato foi considerado louco, por causa de seu extremo idealismo nacionalista. Servidor civil do Exército, onde exerce funções burocráticas, conhecido como “major” apesar de não ter a patente, Quaresma é um solteirão considerado, inicialmente, “esquisitão” por ler muito nas horas vagas (como se fosse um novo Dom Quixote). Ainda mais “esquisitão” passa a ser julgado pelos amigos quando se dispõe a aprender a tocar violão, considerado na época um instrumento ligado a malandros e vagabundos. A justificativa de Quaresma é que ele acha o violão um símbolo da nacionalidade brasileira.

No entanto, avançando em seu nacionalismo, possivelmente por considerar o violão, afinal, de origem européia e assim não ser um instrumento genuinamente brasileiro, o major Quaresma passa a estudar o tupi, “idioma” insuspeito de europeísmo, e as tradições indígenas em geral. Depois de propor ao Parlamento que tornasse obrigatório o tupi como língua oficial do País, Quaresma passa de “esquisitão” a “louco” na visão de seus conhecidos.

Logo essa visão passa a diagnóstico médico e funcional. É que Quaresma começa a redigir documentos de sua repartição em tupi, sendo por isso afastado de suas funções e internado num manicômio. Anos depois, recebe alta e, aposentado, gasta grande parte de sua pensão na compra de um sítio no interior, para viver do “solo pátrio” e difundir técnicas agrícolas avançadas.

O empreendimento fracassa com estardalhaço, e Quaresma, apesar de se isolar da política local (afinal, como Michkin, ele é também um “idiota” no sentido grego antigo da palavra), se vê perseguido pelas duas correntes políticas rivais. Pois cada partido julga seu isolamento um disfarce para Quaresma servir ao partido adversário. Na verdade, ele se mantinha afastado dos dois partidos por considerá-los, a partir de seu idealismo, por demais ligados a interesses mesquinhos.

Quaresma, sempre nacionalista, era também republicano de carteirinha. Quando ocorre, no início dos anos 1890, o movimento monarquista para a derrubada do presidente da República, marechal Floriano Peixoto, movimento conhecido como Revolta da Armada, o “major” deixa o sítio para combater no Rio de Janeiro a revolta, sendo engajado com a patente de fato de major num regimento.

Acontece que, lutando pela República, Quaresma descobre que o novo regime está longe de corresponder a seus ideais elevados, corroído que está por corruptos e bajuladores. Ele passa a criticar essas mazelas, o que o leva a ser considerado traidor e a ser condenado ao fuzilamento. Realmente, triste fim de Policarpo Quaresma. Como também foi triste o fim de Michkin, outro “idiota”.

Assim, ficam claras as semelhanças entre os dois heróis dos romances agora encenados em São Paulo.


P.S.: Na foto deste post, à esquerda, temos o Príncipe Michkin conforme interpretado na mini-série russa em 10 episódios "O idiota", baseada no livro homônimo de Dostoievski. Vale a pena assistir, foi muito bem feita bem e é muito próxima ao livro.