Filosofia, Psicanálise, sentido e profundidade

Posted: 13.5.11 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
1

A Filosofia e a Psicanálise são, de certa forma, métodos de investigação que se caracterizam pela profundidade de análise. São radicais no sentido de ir à raiz das coisas e dos fenômenos. Onde via-se outrora apenas acaso ou banalidade, essas duas disciplinas "desbanalizaram o banal" e encontraram ali um sentido, uma razão, um logos.

Olhar para o mundo, maravilhar-se com ele e perceber como tudo é espantoso é um passo necessário para o filosofar. Para o filósofo as coisas nunca são banais, mas tudo é motivo de investigação. Nada é óbvio, nada é simples. Tudo suscita perguntas e questionamentos.

A mesma postura adota a Psicanálise diante de certas coisas que, por toda a história da humanidade, nunca tinham merecido a atenção dos sábios, dos cientistas e dos pesquisadores. Atos tão corriqueiros de nosso cotidiano como um lapso de língua, a troca de uma palavra por outra, o esquecimento de nomes, o esquecimento de intenções ou os sonhos eram no máximo explorados por poetas e escritores de forma intuitiva em suas obras, mas nunca estudados.

A Filosofia, ao olhar para o mundo e tentar compreende-lo sem recorrer aos mitos, percebeu desde cedo que tudo estava organizado, que tudo respeitava uma ordem, que era, enfim, o cosmos. E estando o mundo organizado e sujeito a leis, essas poderiam ser descobertas. A Filosofia viu que, mais além da multiplicidade que percebemos através dos sentidos (visão, audição, tato, etc), havia algo que dava unidade às coisas. Isso nos permitiu compreender por que todas as pessoas, apesar de todas as suas diferenças, possuem algo em comum que permite que sejam todas denominadas seres humanos.

A Psicanálise, também chamada de "Psicologia Profunda" por Freud, descobriu com métodos próprios e bem mais tarde que atos outrora considerados banais, como a troca de um nome por outro, por exemplo, não eram obra do acaso, mas a ação de uma idéia perturbadora, inconsciente, que se fazia sentir no discurso e era causadora do lapso.

Os sintomas de uma neurose, de forma semelhante, também podem ser interpretados, pois cada sintoma tem um propósito. O sintoma não é uma manifestação aleatória e incompreensível de um distúrbio, mas ele próprio tem um lógica, tem uma razão de ser. Um ato obsessivo repetido compulsivamente por um neurótico obsessivo teve um início, teve uma fixação traumática no passado e a análise é capaz de descobrir sua origem e faze-lo desaparecer.

Os sonhos, experiência comum de todos as pessoas (e não apenas dos neuróticos), também se mostraram, com a Psicanálise, dotados de sentido, de significado. Onde via-se apenas confusão, atividade mental desordenada e absurdos, a Psicanálise descobriu que ali havia um sentido, uma ordem de tipo diferente, e que dali era possível extrair um significado.

Acho que é essa característica compartilhada por ambas, a de buscar um sentido nas coisas e de descer até as raízes do que se estuda, o que atrai tantos filósofos para a Psicanálise e tantos psicanalistas para a Filosofia. Não é sem razão que a Psicanálise, tão atacada nas últimas décadas, tem encontrado no reduto dos filósofos, e não dos psicólogos, seu principal abrigo.

1 comentários:

  1. Janos says:

    A psicanálise também tenta falar do visível a partir do invisível. E a filosofia é ingrata. Ela não acomoda ninguém, nem a si mesma, porque também é filosofia dizer que toda a filosofia estava errada, e que não serviu para nada.