Sobre a probabilidade dos milagres

Posted: 15.2.12 by Glauber Ataide in Marcadores: , ,
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Lendo ontem alguns trechos da "Investigação sobre o entendimento humano", de David Hume, me veio à memória um argumento apresentado pelo filósofo cristão William Lane Craig, que li já faz alguns anos, em defesa da questão dos milagres e da ressurreição de Cristo.

É que Craig afirma, contrariando Hume, que mesmo que a ocorrência de um milagre seja um evento altamente improvável, isso não seria razão suficiente para não acreditar nele, pois em nossa vida real acreditamos em diversos outros eventos cuja probabilidade também são astronômicas.

Usando um exemplo de combinações de números da loteria para ilustrar seu argumento, o apologista nos pergunta algo mais ou menos assim: qual a probabilidade de que a combinação de números 02-12-19-22-36-58 seja sorteada na mega-sena? Apesar de ser apenas 1 em 50.063.860, ninguém duvida que essa ocorrência de fato aconteceu no sorteio do dia 11/02/2012. Foi um evento altamente improvável, mas ocorreu.

No entanto, essa analogia de Craig me parece falaciosa. Apesar de não sabermos qual a combinação numérica que cairá em determinado sorteio da loteria, uma coisa é certa: sempre será sorteada uma combinação qualquer cuja probabilidade de ocorrência é de 1 em 50.063.860. 

Uma outra diferença importante entre os milagres e o sorteio é que essa ocorrência é aleatória, não precisa carregar uma intencionalidade como os primeiros. Pois um milagre nunca é um ato aleatório, mas sempre um ato dirigido a um fim pré-determinado (curar uma determinada doença de uma determinada pessoa, transformar água em vinho, etc).

Assim, no caso da loteria, a pergunta deveria ser: qual a probabilidade de que hoje seja sorteada uma combinação qualquer cuja probabilidade de ocorrência de 1 em 50.063.860?

Ora, considerando que os sorteios da mega-sena vem sendo realizados regularmente todas as quartas e sextas, a probabilidade de que este evento não aconteça dessa vez é mínima (não calculei para exemplificar aqui, mas creio não ser necessário para ser compreendido).

Portanto, uma combinação qualquer num sorteio da loteria não é algo tão improvável quanto um milagre. Porque tal comparação, a fim de não ser falaciosa, deveria ser mais ou menos no seguinte sentido: qual a probabilidade de que um morto qualquer ressuscite hoje? E qual a probabilidade de que uma combinação qualquer de X números seja sorteada hoje?

4 comentários:

  1. A aleatoriedade já é misteriosa o suficiente para ser chamada de milagre, pois em termos de causalidade, nada poderia ser realmente aleatório. Por exemplo, não existe um programa de computador capaz de gerar de sequências realmente aleatórias. Todas as sequências ditas aleatórias geradas por computador partem de uma tabela-fonte que deve ser baseada em alguma coisa fora do algoritmo, porque tudo que acontece na execução de um algoritmo pode ser, em último grau, previsto.

    Milagres são reais quando se crê (When you believe). Do meu ponto de vista, era altamente improvável que eu viesse a acreditar em Deus, mas aqui estou eu dizendo coisas que eu jamais pensei que iria dizer. Acho que é este o sentido da comparação. Embora seja altamente improvável ganhar na loteria, não é impossível. Acho que Craig estava afirmando que um milagre não é um acontecimento sobrenatural, mas um acontecimento natural, porém altamente improvável. Esta concepção pode ser criticada, mas primeiro deve ser entendida. Não sei se concordo com Craig, mas discordo da sua crítica. Não é este o tipo de falácia que me parece haver no argumento que você citou.

  1. Não acho que Craig acredite que os milagres são naturais. Me parece que a concepção dele é outra. Sua defesa diz respeito unicamente à racionalidade da crença nos milagres, e seu alvo é especificamente o Hume.

    Não consigo ver o que estaria errado em minha crítica.

  1. De acordo com o que você escreveu, Craig afirma que um milagre é um evento atamente improvável. Ora, se fosse algo sobrenatural, não poderia ser improvável. Improvável é aquilo que pode acontecer, mas é muito raro.

    Se compararmos o exemplo da loteria com a da ressurreição, daria algo assim: qual a probabilidade de alguém ressuscitar? Apenas 1 em X (sendo X um número astronomicamente grande), mas ninguém duvida que isso aconteceu com Jesus.

    Mesmo que Craig não afirme que milagres são naturais, o argumento dele, como você o expôs, parece implicar isso.

    Quando você diz que é certo que uma combinação qualquer seja sorteada, está saindo dos limites da analogia.

    Outra coisa é que se o Deus cristã existe, nada é aleatório. Nenhuma folha cai sem que essa seja a vontade de Deus, diz a fé cristã. Tudo pode ser um milagre, depende de como você olha para um evento.

    Quando você diz que um sorteio da loteria não é algo tão improvável quanto um milagre, está extrapolando o exemplo, e ofendendo a inteligência do Craig. Por mais que eu não concorde com ele, acho que você exagerou.

    Um curiosidade sobre a aleatoriedade: pegue um dado comum. jogue ele muitas vezes, anotando os resultados. Se o dado não estiver viciado, os resultados vão se equilibrar numa média. Isso é uma consequência do fato de que cada lado do dado tem chances iguais de ficar para cima quando você o joga. Mas outra consequência dessa mesma lei é exatamente o inverso disso: de que algumas vezes a chance de tirar certos números é maior. Por exemplo, se você acabou de tirar um 6, a probabilidade de tirar outro 6 na sequência parece ser menor do que se você está a várias rodadas sem tirar nenhum 6. Quanto mais números iguais você tira, menor a chance tirar este número novamente. O mesmo vale para números em sequência. E se você acabou de tirar o mesmo resultado mais de 10 vezes seguidas, a chance disso se repetir agora é menor.

    Outra curiosidade, é que quando os apóstolos tiveram que escolher um novo apóstolo para substituir Judas, por incrível que pareça, eles decidiram isso jogando dados.

    Você pode estar diante de um milagre e mesmo assim desprezá-lo. Acho que a afirmação correta não é que coisas improváveis podem acontecer por causa de Deus, mas sim coisas impossíveis. Mas isso só tem sentido para quem tem fé.

  1. Parabéns pelo magnifico Blog!

    Acredito que estamos em constante processo de evolução e nada melhor que a filosofia para nos fazer ou pelo menos nos fazer chegar a uma perspectiva mais próxima da verdade e de uma influência menos funesta na vida do animal homem.

    Adorei passar por aqui e confesso virei mais vezes...

    Abraço

    flor de cristal .