A psicoterapia da histeria

Posted: 27.8.12 by Glauber Ataide in Marcadores:
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No capítulo IV dos Estudos sobre a Histeria (1893-1895), Freud se propõe a fazer um relato do método terapêutico desenvolvido até então para a cura da histeria. Por se tratar de um ponto em que ele e Breuer já davam sinais de distanciamento ou divergências teóricas, o autor deixa claro que as considerações do capítulo são apenas de sua autoria, não envolvendo a participação do estimado companheiro. 

Após examinar grande número de pacientes, Freud é forçado a aplicar duas alterações tanto em sua técnica quanto em sua visão dos fatos, a saber: “1) que nem todas as pessoas que exibiam sintomas histéricos indiscutíveis e que, muito provavelmente, eram regidas pelo mesmo mecanismo psíquico podiam ser hipnotizadas” e (2) tomar uma posição quanto à questão do que, afinal, caracteriza essencialmente a histeria e do que a distingue de outras neuroses. 

Uma das grandes descobertas de Freud relatadas neste capítulo é o fator sexual como causa determinante que leva à aquisição das neuroses, à qual ele chegou partindo do método de Breuer e ponderando sobre a etiologia das neuroses e de seu mecanismo em geral. 

O autor discorre, a seguir, sobre os diferentes tipos de histeria e de neuroses, concluindo que é muito difícil encontrar formas de histeria e neurose obsessiva puras. Elas aparecem, na esmagadora maioria dos casos, de forma mista. Para sustentar tal opinião, Freud discute alguns casos clínicos anteriormente apresentados. 

Passados os casos em revista, Freud chega à conclusão de que o método catártico “não consegue afetar as causas subjacentes da histeria: assim, não consegue impedir que novos sintomas tomem o lugar daqueles que foram eliminados” (FREUD, 2006). Ou seja, este método é sintomático, e não causal, o que, no entanto, não diminui em nada o seu valor. 

Um dos pressupostos do método terapêutico comunicado por Freud nesta obra é que o analista tenha um grande interesse pessoal pelos pacientes. Além disso, o processo requer certo nível de inteligência abaixo do qual o método se torna impraticável. Uma outra característica é a confiança do paciente no analista, haja vista que a análise invariavelmente leva à revelação dos eventos psíquicos mais íntimos. 

Na segunda seção do capítulo, Freud detalha como chegou à conclusão mencionada acima de que nem todas as pessoas são hipnotizáveis. Sua conclusão é de que “as pessoas não hipnotizáveis eram as que faziam uma objeção psíquica à hipnose, quer sua objeção se expressasse como má vontade ou não.” 

Um problema ainda persistia, contudo: se elas eram resistentes à hipnose, como contorná-la e, ainda assim, obter as lembranças patogênicas? 

Freud então começa a descrever seu método, que consistia em insistir com os pacientes para que falassem sobre o que tinha originado o sintoma em questão. O referencial teórico para tal eram as experiências de Bernheim, nas quais os pacientes se lembravam de eventos ocorridos em estado sonambúlico e que tinham aparentemente sido esquecidas. Assim, ao perceber que era de fato possível extrair dos pacientes lembranças que eles próprios haviam esquecido, ele chegou à teoria de que, por meio de seu trabalho psíquico, ele tinha “superar uma força psíquica nos pacientes que se opunha a que as representações patogênicas se tornassem conscientes (fossem lembradas). 

Percebendo não ser suficiente, no entanto, apenas a insistência para que o paciente falasse, ele passou a se utilizar primeiramente de um velho artifício: o de fazer uma leve pressão com a mão sobre a testa do paciente, lhe informando que, a partir daquele momento, lembranças emergiriam à sua mente, e que ele deveria relatar exatamente o que viu, sem nenhuma alteração ou censura. 

Mas o que emerge nesses momentos, afirma Freud, “nem sempre é uma lembrança ‘esquecida’; apenas nos casos mais raros é que as lembranças patogênicas reais acham-se tão facilmente à mão na superfície.” O que é mais comum é o surgimento de representações intermediárias, elos na cadeia de associações entre a representação da qual se parte e aquela na qual se quer chegar, ou seja, na patogênica. 

Freud se mostra ciente de que “a técnica da pressão nada mais é do que um truque para apanhar temporariamente desprevenido um ego ansioso por defender-se”, enfatizando, com essa observação, o papel que oferece a resistência em todos os casos mais ou menos graves. A resistência impede, não obstante a técnica da pressão, que lembranças ou associações sejam produzidas pelo paciente em determinados momentos do tratamento, sendo necessário um maior esforço para tentar superá-la. 

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Apesar de todas as dificuldades encontradas no uso da técnica da pressão, Freud não considera que o tratamento catártico sob hipnose seja mais adequado que o primeiro para conseguir extrair o material patogênico. De fato, afirma ele, “nas situações em que apliquei um tratamento catártico sob hipnose, em vez de concentração, não achei que isso diminuísse o trabalho que eu tinha a executar.” A principal questão que se apresentava, utilizando um método ou outro, era a questão da resistência, a qual se impunha em primeiro plano. 

O trabalho de Freud até então o levou à visão de que “a histeria se origina por meio do recalcamento de uma ideia incompatível, de uma motivação de defesa.” Freud resume seus achados da seguinte maneira: 

Segundo esse ponto de vista, a ideia recalcada persistiria como um traço mnêmico fraco (de pouca intensidade), enquanto o afeto dela arrancado seria utilizado para uma inervação somática. (Em outras palavras, a excitação é “convertida”.) Ao que parece, portanto, é precisamente por meio de seu recalcamento que a idéia se transforma na causa de sintomas mórbidos — ou seja, torna-se patogênica. Pode-se dar a designação de “histeria de defesa” à histeria que exiba esse mecanismo psíquico. 

Além da histeria de defesa, outros dois tipos de histeria já vinham sendo abordadas por Freud e Breuer: a histeria hipnóide e a histeria de retenção. No entanto, apesar da utilidade teórica de se fazer essa distinção, só muito raramente pode-se encontrar qualquer uma delas em sua forma pura no tratamento. 

Na última parte do capítulo, Freud trata mais uma vez de algumas dificuldades relacionadas à técnica do método catártico, independente do tipo de histeria em questão. A primeira e mais forte impressão causada num tratamento deste tipo é a de que “o material psíquico patogênico aparentemente esquecido, que não se acha à disposição do ego e não desempenha nenhum papel na associação e na memória, não obstante está de algum modo à mão, e em ordem correta e adequada.” Trata-se, portanto, de remover as resistências que barram o caminho a este material, tema sobre o qual Freud discorre pormenorizadamente. 

Uma lembrança ou uma ligação patogênicas, que antes estavam fora da consciência do ego e que são então reveladas pela análise e introduzidas no ego, são geralmente reconhecidas pelo paciente com declarações do tipo: “Eu sempre soube disso, poderia ter-lhe dito antes.” 

Um outro tópico de grande interesse para a análise é a questão de quando a técnica - da pressão, neste caso – falhar, apesar de toda insistência. Freud aponta duas possibilidades da causa desse fracasso: não há nada mais a ser extraído do paciente (o que pode ser reconhecido pela serenidade de sua expressão facial), ou temos diante de nós uma resistência que só poderá ser superada mais tarde, uma resistência que ainda não temos condições de vencer. 

Além dessas duas possibilidades, Freud enumera uma terceira, que diz respeito à relação entre o analista e o paciente. Esta última, de importância capital para a análise, seria mais tarde denominada de relação transferencial.

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