Problemas de tradução da obra Idealismo Alemão, de Will Dudley

Posted: 4.6.15 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Idealismo Alemão, de Will Dudley (Editora Vozes), é uma das melhores - entre as raras - introduções ao Idealismo Alemão. O chamado idealismo alemão se constitui como um dos períodos mais difíceis da história da filosofia, e compreende filósofos reconhecidamente complicados como Kant, Fichte, Schelling e Hegel. A obra de Dudley, no entanto, consegue apresentar de forma clara os traços gerais deste período sem cair na excessiva simplificação, ao mesmo tempo em que esclarece diversas incompreensões generalizadas sobre importantes aspectos das obras desses filósofos, como, por exemplo, ao explicar que a tríade "tese-antítese-síntese" não corresponde ao pensamento de Hegel, mas sim ao de Fichte. É uma obra que I highly recommend.

No entanto, a tradução dessa obra, cujo original é em inglês, apresenta sérios problemas, sejam eles de ordem conceitual ou apenas de revisão. E isso de tal modo que, diante de minhas primeiras suspeitas de erros grosseiros de tradução, fui obrigado a baixar o livro original para comparar os trechos e dirimir as dúvidas. Do início ao fim da obra fui tomando notas de alguns destes erros, e as compartilho logo abaixo. Além do mais, cabe observar que o tradutor (tive curiosidade e joguei seu nome no Google) não é filósofo, e muito menos especialista em Idealismo Alemão, o que constitui uma escolha inexplicável se tratando da Editora Vozes, uma editora cuja tradição e qualidade em filosofia dispensam comentários.


understanding (no sentido kantiano)
traduzido como compreensão, ao invés de entendimento

judgment (no sentido kantiano)
traduzido como julgamento, ao invés de juízo

"but at the same time finite subjects cannot help feeling"
"não podem ajudar a sentir" ao invés de "não podem evitar sentir"

"Because this totality is organic,"
"Já que esta totalidade é inorgânica..."

“the question why God did not prefer not to reveal himself at all..."
A questão por que Deus não preferiu revelar a si... (faltando um "não")

exactly fifty years after Kant’s publication of the Critique of Pure Reason
"exatamente quinze anos após...", ao invés de cinquenta

standpoint
ponto de partida, ao invés de ponto de vista 

self-undermining
autodeterminante, ao invés de auto-refutável

there proves
não há prova (inverteu o sentido)

confection
confecção, ao invés de doce, confeite, etc, pois no contexto se referia a um bolo

dual awareness
dupla sensibilidade

immediacy
vizinhança (!!!!!) ao invés de imediaticidade

immediacy
iminência (!!!!!) (a mesma palavra, agora com outra tradução errada!)

that there is no place for an a priori account of nature
"...que exista lugar para um relato...", faltou um "não"

Property objectifies
a propriedade identifica (ao invés de objetifica)

all three activities considered in absolute spirit
todas as três atividades consideravam de forma absoluta... ao invés de consideradas

what we are, most basically, is free.
...mais basicamente é gratuito (liberdade), isso é, somos "gratuitos" ao invés de sermos "livres"!

blurring the distinction between good and evil.
... distinção entre o bom e o belo. (trocou mal por  belo!)

Uma última observação da tradução é que os itálicos do original não aparecem na tradução.


2 comentários:

  1. Acabo de ler o livro e reparei nos mesmos problemas. Lamentável. O tradutor, além de não ter domínio do tema, parece ter tampouco domínio da língua portuguesa: muitas frases são absolutamente incompreensíveis, sem sintaxe, e parecem ter sido traduzidas no tradutor do Google. Uma pena, considerando que essa coleção, do que li até agora, é ótima. Um leitor conhecedor do assunto ainda consegue tirar algum proveito do livro, pois é capaz de fazer as correções por conta própria. Mas um leitor desavisado que espera do livro uma introdução não simplificadora pode terminar o livro confirmando que do Idealismo Alemão não se entende nada. Um desrespeito da editora com a educação e a filosofia no Brasil. Acho que deveríamos fazer uma queixa na própria Editora.

  1. Concordo. Tentei fazer uma queixa na editora, mas não sei se escolhi o canal mais adequado, que foi o formulário de "Fale conosco" no site. Não obtive nenhuma resposta. Caso tenha um melhor contato e queira tentar, subscrevo à reclamação.