Adorno e a semiformação (ou semicultura)

Posted: 24.8.15 by Glauber Ataide in Marcadores:
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A emergência da semiformação (Halbbildung) e o duplo caráter da cultura


O fracasso da realização ou implementação do conceito de cultura como liberdade através dos processos revolucionários burgueses teve um efeito contrário ao que inicialmente pretendiam esses movimentos: suas ideias se voltaram contra si mesmas. Liberdade, Igualdade e Fraternidade se transformaram, de bandeiras revolucionárias orientadas à instauração de uma práxis libertadora e igualitária, em meras “boas ideias”, em modelos inalcançáveis, em utopias irrealizáveis. A frustração decorrente dos desdobramentos da Revolução Francesa de 1789, que culminou no Terror, assim como das campanhas de Napoleão, que de libertador se transformou em imperador, muito contribuíram para o aguçamento da contradição entre as esferas espiritual e material. A filosofia idealista e a música erudita do período clássico são pontos de observação privilegiados de tal tendência. A cultura, entendida principalmente como cultura do espírito, se tornou cada vez mais etérea e desvinculada da realidade social, de modo que tal fenômeno possibilitou mais tarde que oficiais nazistas, dedicados com zelo e compreensão aos bens culturais, ao mesmo tempo fossem encarregados da execução de judeus em câmeras de gás. O fato de os nazistas terem evitado destruir ruínas gregas milenares em seus bombardeios durante a 2ª Guerra Mundial também revela tal lógica. Hitler, um pintor em sua juventude, tinha de certa maneira um projeto estético de embelezamento do mundo, mas à maneira ariana. Isso mostra que, tendo a cultura se transformado em valor, tornada puramente espiritual e desvinculada da vida real dos homens, seu conteúdo pode ser apropriado e manipulado ideologicamente para quaisquer fins, mostrando com isso a falsidade do conteúdo de tais bens culturais.

Mas quando a cultura foi entendida como forma de estruturação da vida real dos homens, “ela destacou unilateralmente o momento da adaptação”, levando ao nivelamento dos homens. Isso é, a cultura foi aqui compreendida como forma de adaptação do indivíduo ao status quo, como uma forma de domesticação do animal homem, mas ainda tentando, contudo, “salvar o que é natural, como resistência à pressão da ordem decadente feita pelo homem.” Este momento de adaptação é intrinsecamente conservador, reacionário, pois, segundo Adorno, ele responde às necessidades de “reforçar a unidade sempre precária da socialização” e de “represar aquelas irrupções que levam ao caos, que, obviamente, se produzem às vezes justamente onde já está estabelecida uma tradição de cultura espiritual autônoma.”

A burguesia, em sua ascensão social e tomada do poder do político, era culturalmente mais desenvolvida que as classes baixas e os camponeses. Este foi um fator preponderante para que ela pudesse desempenhar também suas funções econômicas, técnicas e administrativas na nova ordem por ela estabelecida. Mas o proletariado, ao contrário, teve negado, desde seu surgimento, o acesso à formação. É por isso que o papel-chave do proletariado em sua missão histórica se baseia não em sua constituição intelectual, mas em sua posição econômica objetiva. Sobre este aspecto assim se expressa Marx em A sagrada família:

“Trata-se do que o proletariado é e do que ele será obrigado a fazer historicamente de acordo com o seu ser. Sua meta e sua ação histórica se acham clara e irrevogavelmente predeterminadas por sua própria situação de vida e por toda a organização da sociedade burguesa atual.”

Desta contradição objetiva, que tem em um de seus polos a burguesia, classe com possibilidade de gozo do ócio e livre acesso aos bens culturais, e no outro o proletariado, ao qual tudo isso foi negado, tem-se uma grande cisão que, contudo, é encoberta ideologicamente, principalmente àqueles a quem isso menos interessa – processo chamado de integração. Assim, através de diversas medias fornecem-se às massas bens de formação cultural, ajustados e adaptados sobre mecanismos de mercado à sua consciência. Mas a própria estrutura social, no entanto, nega aos excluídos o processo real da formação, o qual requer condições para uma apropriação viva desses bens. Neste registro temos os casos dos grandes clássicos da literatura mundial ou da filosofia que são comercializados em edições de bolso. No entanto, as massas, que antes nada sabiam desses bens, não se encontram preparadas para tais, nem mesmo do ponto de vista psicológico, além do que, devido às suas próprias condições de vida, enquanto setor produtivo da sociedade capitalista, não podem tolerar a experiência do processo de formação. Assim, neste aspecto a semiformação pretende ser uma integração daqueles que foram excluídos da cultura, uma integração daqueles que não podem ser integrados por estarem privados das condições sociais objetivas que lhes permitiriam passar pela experiência ou processo real de formação cultural. A semicultura, ao mesmo tempo que expressa o histórico caráter dissociado da cultura em relação à práxis, expressa também aquele seu contraponto, ou seja, o momento conservador da adaptação. Pelo simples fato de consumir semicultura o indivíduo já se sente integrado e participante da cultura, pois a semiformação lhe poupa o esforço requerido pelo processo de formação, o que, por sua vez, lhe rouba também a autonomia. Os bens da semicultura se constituem como clichês pré-digeridos, próprios para serem consumidos nos momentos em que se obtém licença para não pensar em nada, ou seja, quando se está fora do trabalho, o qual, por sua vez, é pura fonte compulsória de desprazer e esgotamento físico e intelectual.


Críticas à teoria da semicultura


Segundo Adorno, suas teses em relação à semicultura poderiam parecer exageradas ou mesmo falsas em relação aos dados das pesquisas. No entanto, isso é uma característica não apenas das teses que ele apresenta em Teoria da semicultura, mas é próprio dos estudos teóricos em geral. É natural que estes se inclinem para – o que não é exatamente o mesmo que fazer - falsas generalizações. Os métodos empírico-sociológicos não são os mesmos das hard sciences ou das necessidades administrativas e comerciais. O momento da especulação é quando se dá um passo além dos dados imediatos, o que se configura no momento inevitável da falsidade da teoria. Se uma teoria não dá esse passo e se mantém presa ao registro dos dados, não seria mais do que repetição, abreviatura dos fatos, deixando-os também inassimilados. O mero registro post festum dos dados não configura uma teoria. Assim, o principal para se compreender este aspecto de suas teses da semicultura é que elas delineiam uma tendência. O modelo de semiformação que Adorno podia observar era a camada dos empregados médios, não podendo, portanto, ser universalizada quando de sua formulação. Mas, ainda assim, mesmo que fosse necessário restringir quantitativa e qualitativamente o âmbito de sua validade, a ideia é que suas teses rascunham, esboçam a “fisionomia de um espírito que determinaria a marca da época”.

Uma outra objeção levantada contra sua Teoria da semicultura é de que a crítica que ela faz à divulgação em massa da cultura seria elitista. Adorno responde mostrando que ao desenvolvimento das forças produtivas no capitalismo, ou da estrutura da sociedade, não correspondeu, na mesma velocidade, um desenvolvimento da cultura, ou da superestrutura. Tal diferença resultou em cultural lag, em um atraso cultural, do qual a semiformação se nutre. Dessa maneira, dizer que o desenvolvimento da técnica e a elevação do nível de vida resultam em uma melhor formação é uma “ideologia comercial pseudodemocrática”. Da reprodução massiva de bens culturais elevados não se segue uma elevação da formação. A recepção das obras deixa de “obedecer a critérios imanentes para se conformar ao que o cliente espera obter deles”, como mostra o estudo citado por Adorno em que dois grupos semelhantes escutavam música erudita, um em audições ao vivo e outro apenas pelo rádio. O grupo que ouvia pelo rádio reagia com maior superficialidade e menor entendimento. A ideia aqui expressa é a de que o meio pelo qual a obra é veiculado modifica a recepção da própria obra. Sendo o rádio um veículo de entretenimento, tudo o que ele transmite tende a ser assimilado como entretenimento. Assim, a expansão da formação cultural nesses moldes é sua própria aniquilação. A semiformação não seria um passo em direção à formação, uma etapa prévia, ou a metade do caminho. Ela é, ao contrário, a inimiga mortal da formação. Segundo Adorno,

“elementos que penetram na consciência sem fundir-se em sua continuidade, transformam-se em substâncias tóxicas e, tendencialmente, em superstições, até mesmo quando as criticam […] Elementos formativos inassimilados fortalecem a reificação da consciência que deveria justamente ser extirpada pela formação.”

Adorno ilustra este ponto com o caso do mestre toneleiro que, desejando uma formação cultural elevada, se dedicou à Crítica da razão pura, de Kant, e acabou na astrologia, pois só assim seria possível unificar a lei moral que existe em nós com o céu estrelado que está acima de nós. Isso é, sem as condições sociais objetivas e os pressupostos subjetivos necessários para se apropriar dos bens culturais de nada adianta sua divulgação em massa.

Semicultura, narcisismo e psicose


Adorno explica em parte o mecanismo subjetivo da semiformação utilizando o conceito psicanalítico de narcisismo. O narcisismo pode ser definido como um investimento libidinal ou afetivo sobre o próprio Eu, e em um de seus vários aspectos, caracteriza também a escolha do objeto. Segundo Michel Vincent, em uma escolha narcísica do objeto gosta-se “do que somos; do que fomos; do que se quereria ser; da pessoa que foi parte do que somos.” O narcisismo originário infantil é substituído no adulto pela formação do Ideal do Eu, o qual, segundo Sophie de Mijolla-Mellor, se caracteriza por oferecer uma abertura para que o narcisismo perdido na infância possa se realizar num tempo futuro. 

A identificação fracassada com o espírito objetivo se constitui uma ferida narcísica para o indivíduo que, por não ser e nem fazer o que, segundo seu próprio conceito – introjetado, construído socialmente – deveria ser e fazer, se sente inadequado e culpado diante de tais exigências. A semicultura, então, fornece uma compensação de tal culpa e impotência através da participação imaginária na cultura. Através de signos, imagens e simulacros, os indivíduos se sentem integrantes “de um ser mais elevado e amplo, a que acrescentam os atributos de tudo o que lhes falta e de que recebem de volta, sigilosamente, algo que simula uma participação naquelas qualidades.” Tal ganho narcísico de pertencimento a uma elite se dá, por exemplo, pela mera frequência a determinadas instituições escolares ou pela compra de determinados bens culturais caros. Este mesmo mecanismo de identificação a um todo maior foi explorado pelo nazismo para mobilizar grandes massas que, objetivamente, tinham interesses de classe contrários aos do nazismo, representante do grande capital industrial e financeiro. Também é um exemplo aquele indivíduo que, desgraçado na vida, vivendo na pobreza em grandes dificuldades, diz-se, contudo, sentir feliz, pois mesmo não sendo o dono do mundo, é pelo menos “filho do dono”.

Outro conceito psicanalítico utilizado por Adorno em sua análise da relação do indivíduo com a coletividade é o de psicose. De forma geral, a psicose, segundo Zimerman, implica em “um processo deteriorativo das funções do ego, a tal ponto que haja, em graus variáveis, algum sério prejuízo do contato com a realidade.” Característicos também desse mecanismo são o temor que o psicótico experimenta, de forma intensa, da dissolução e da desintegração do Eu, assim como uma preocupação permanente com o seu senso de identidade. Em termos clínicos, o psicótico tem sensações de despersonalização e de estranhamento. Considerando a íntima relação entre estranhamento e alienação, termos às vezes intercambiáveis, o diagnóstico de Adorno é incisivo: “a psicose em si é a alienação objetiva de que o sujeito se apropriou até o mais íntimo”. No caso da semiformação, o indivíduo, alienado da cultura e de si mesmo, precisa de uma compensação para a impotência que sente diante de um universal desconhecido, a qual é fornecida pela semicultura. Mas o que ela lhe provê são apenas esquemas que não apanham a realidade em seu conceito, mas apenas compensam seu medo diante do incompreendido. Desse modo,

“os consumidores de pré-fabricados psicóticos se sentem resguardados, assim, por todos aqueles igualmente isolados, que, em seu isolamento numa alienação social radical, acabam unidos por uma insânia comum. A satisfação narcisista de estar em segredo e unido a outros escolhidos dispensa – enquanto ultrapassa os interesses mais próximos - o confronto com a realidade, em que o antigo ego, segundo Freud, tinha sua tarefa mais nobre.”

Este trecho também sugere a relação da psicose com os mecanismos da semicultura, já que aqui o ego não mais desempenha um papel de mediador da realidade. Mais à frente Adorno fala sobre os sistemas maníacos da semiformação cultural como um “curto-circuito”. O semiculto transforma tudo que é mediato em imediato.


REFERÊNCIAS


ADORNO, Theodor W. Teoria da semicultura. Tradução de Newton Ramos-de-Oliveira, Bruno Pucci e Cláudia B. M. de Abreu. Revista “Educação e Sociedade” n. 56, ano XVII, dezembro de 1996, pág. 388-411. Tradução revista por Verlaine Freitas, inédita.

FREITAS, Verlaine. A dialética negativa da cultura. Inédito.

ZIMERMAN, David E. Fundamentos psicanalíticos: teoria, técnica e clínica. Porto Alegre: Artmed, 1999.

MIJOLLA, Alain. Dicionário Internacional de Psicanálise. Rio de Janeiro: Imago, 2005.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A sagrada família: a crítica da Crítica crítica contra Bruno Bauer e consortes. São Paulo: Boitempo Editorial, 2011.

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