O tipo de sofrimento que há no mundo

Posted: 16.7.16 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Recebi um telefonema por volta das 3hs da última madrugada. Geralmente, quando nos ligam chorando a este horário, esperamos pelo pior. A adrenalina nos desperta imediatamente, como que nos preparando para reagir a uma desgraça. Felizmente, a situação que ocasionou esta chamada não foi a pior que poderia ser, mas foi suficiente para me levar de volta a algumas questões que, de quando em vez, me ocupam por alguns dias.

O cachorrinho da minha sobrinha passou mal durante todo o dia anterior, vomitando e expelindo sangue pelas fezes. Ela tentou ajuda para levá-lo a um veterinário mas, por razões diversas, nenhum adulto o fez. Suspeito que ele tenha sido intoxicado por veneno para ratos. Durante todo o dia ele sofreu bastante, e durante a madrugada, quando recebi a ligação, ele não aguentava mais nem mesmo se sustentar sobre suas patinhas. Em certo momento seu corpo ficou enrijecido, porém ainda vivo. Passado mais algum tempo, ele faleceu.

O que significou a passagem deste ser vivo por este mundo? A razão nos leva a postular a existência de outros mundos, de vidas passadas ou de um absoluto para tentar emprestar sentido ou fornecer respostas a questões deste tipo. Se não sacrificamos, no entanto, o rigor lógico e conceitual pelo conforto dessas narrativas, resta-nos apenas admitir que a existência deste animal foi - assim como a nossa é - marcada pelo absurdo, pela total falta de sentido, de finalidade, de télos. Ele veio ao mundo, passou por algumas experiências e relações, sofreu de maneira completamente desnecessária e partiu. E foi este sofrimento supérfluo, este seu suplício do último dia, que me fez lembrar que esta é apenas uma instância de uma questão mais geral que marca toda a nossa existência: o mal e o sofrimento.

A questão não é apenas a existência do mal, mas os tipos de sofrimento que encontramos no mundo. Há sofrimentos completamente desnecessários, absurdos, sem finalidade, que enfraquecem qualquer argumento pela existência de um ser absoluto que tenha as propriedades de todo-poderoso e todo-bondade ao mesmo tempo. Este excesso de sofrimento desnecessário no mundo não pode ser explicado - utilizando categorias aristotélicas - apenas por sua causa eficiente. Buscamos uma causa final para o sofrimento, uma causa teleológica, e aqui nos vemos diante do absurdo, do irracional, do inexplicável, pois a fé não é explicação. Uma causa eficiente seria dizer, por exemplo, que sofremos devido ao pecado original, à queda do gênero humano. Uma causa final seria explicar o seu por que, a sua razão de ser. Levaria o sofrimento, no entanto, a um aperfeiçoamento moral? Teria caráter pedagógico?

Muitas outras questões ainda surgem. Que lições podemos extrair do sofrimento de inocentes? O que aprendemos quando uma criança muito pequena, que ainda nem mesmo desenvolveu linguagem, sofre sem pecado? E o que dizer do sofrimento anônimo, aquele que ninguém sabe que existiu? Imagine uma criança dada por desaparecida pelos pais mas que, na verdade, morreu afogada, sem que ninguém jamais o soubesse. Qual a finalidade do sofrimento pelo qual ela passou? O que ele nos ensina, em que nos aperfeiçoa, se aconteceu sem que o soubéssemos? 

Todas estas agonias, enquanto instâncias da condição que afeta toda a humanidade, parecem apenas reforçar, e não mitigar, o absurdo de nossa insignificante existência neste pequeno planeta, nesta esfera destinada, assim como a estrela que lhe aquece, a um dia desaparecer, sem deixar memória de tudo o que nela se passou. E mesmo que restasse apenas a lembrança de todo este teatro em cujo palco somos os atores, haveria pelo menos uma mente consciente no universo que pudesse nos fazer beber da fonte da memória, que nos resgatasse do total esquecimento? Há alguém que nos assiste? Mesmo que fôssemos completamente felizes, estaria justificada nossa existência? O tipo de sofrimento que há no mundo parece não encontrar acolhida nem mesmo nos maiores sistemas metafísicos já construídos pela razão. Às vezes lhe indicamos uma causa eficiente mítica, como o pecado original, no cristianismo; outras vezes, apenas o tomamos como ponto de partida e tentamos superá-lo, como no budismo. O que buscamos, na verdade, é sempre dominá-lo: ou pela prática, ao nos engajar no mundo, ou através do conceito, pois compreender é dominar.

1 comentários:

  1. Pessoa says:

    Brilhante colocação, entretanto apenas questionamentos...
    Classificar nossa existência como "insignificante" não seria um pré julgamento? Por que devo buscar uma explicação se me considero sem significado?
    E o que dizer de "Há mais mistérios entre o céu e a terra do que a vã filosofia dos homens possa imaginar"?
    Se queres buscar uma fonte fidedigna de informação consulta as obras de Allan Kardec. O espiritismo cristão é o único que explica essas questões sob a ótica da Religião, da Ciência e da Filosofia.
    É revolucionário!
    Forte abraço
    Hamilton Pitanga