A pesquisa em psicanálise - o uso de material clínico

Posted: 31.8.16 by Glauber Ataide in Marcadores:
0

O texto abaixo é uma resenha do artigo O uso de material clínico na pesquisa psicanalítica, de Gilberto Safra.

A psicanálise é, desde o seu início, uma terapia e um método de investigação do psiquismo humano. A própria atitude de Freud diante das dificuldades encontradas ao longo do processo de elaboração da psicanálise o levou a aprender continuamente de sua prática, o que conferiu a esta a característica de estar em permanente transformação e expansão. Assim, desde o seu início temos o modelo de pesquisa em psicanálise: o diálogo permanente entre a teoria e a clínica.

Para ilustrar o tema proposto em seu artigo, Safra apresenta o caso de uma paciente, Jane, de 19 anos. Esta jovem decidiu iniciar o processo de análise devido a alguns sintomas que a perturbavam no cotidiano, como não conseguir dirigir automóvel, usar elevadores, viajar de avião, etc. 

Jane vinha apresentando vários progressos após 5 anos de análise, quando então aconteceu o episódio que nos interessa: ela faltou a uma de suas sessões sem avisar. Na sessão seguinte, entrando na sala de análise com os olhos abaixados e sem fitar o analista, deitou-se e já foi justificando sua falta passada. Disse que foi convidada para ir ao cinema com o namorado, e que então teve que escolher entre este programa e a análise. Seu tom de voz sugeria que ela estava se desculpando.

Ao perceber isso, o analista lhe perguntou por que ela estava se desculpando, ao que ela respondeu que não sabia, que sentia talvez estar fazendo alguma coisa errada e que o analista lhe daria uma bronca. O analista então lhe respondeu dizendo que ela parecia ter medo de que ele não aceitasse que ela tivesse uma vida própria e seu namorado, e que ele sentiria ciúmes ou inveja. Jane respondeu chorando e confessou que suas vivências haviam sido assim com sua mãe.

Após este relato Safra pergunta: uma vez que o analista não toma notas durante a sessão, seria este relato uma apresentação acurada do que realmente se passou no consultório? Pois muitos são os fenômenos que se passam entre analista-analisando impossíveis de serem registrados.

Daí a conclusão geral de que o relato realizado, portanto, é um modelo construído a partir de um recorte do que realmente aconteceu na sessão, baseado na interpretação e elaboração das angústias que se manifestam na relação transferencial. Jane, neste caso, parecia buscar no analista um objeto que não retaliasse as suas tentativas de autonomia. 

Assim, pretender que fosse exato o relato do que se passa numa sessão seria acreditar que é possível captar o absoluto. Para a utilização do material clínico para pesquisa é necessário levar em conta que se trata de um recorte, limitado por um determinado ponto de vista. A psicanálise inaugurou uma nova maneira de fazer pesquisa, na qual deve-se levar em conta a participação do sujeito no fenômeno que observa.

Mas não há, no entanto, um saber que possa ser aplicado a todos os indivíduos na psicanálise. A cada análise o psicanalista deve despojar-se do que já conhece teoricamente para perceber o original e novo que seu paciente lhe apresenta. Neste sentido, a cada atendimento há, de fato, uma renovação da psicanálise.

A sessão relatada pode ilustrar este ponto. Jane vinha à sessão temendo um ataque ciumento e invejoso do analista. A paciente havia identificado projetivamente no analista seu objeto interno perseguidor. Essa relação objetal internalizada era a conjunção de uma mãe infantilizada com a autodestrutividade de Jane. No entanto, o analista percebeu que naquele exato momento o importante não era trabalhar sua autodestrutividade, o que já havia sido feito em outras sessões, mas sim poder encontrar, através da relação transferencial, um objeto contrastante ao objeto internalizado, que não atacasse suas tentativas de autonomia. Surgia a possibilidade de um novo padrão de relação objetal em seu mundo interno.

Como se pode ver, trata-se de uma situação que possui uma singularidade, que dependeu da história da relação entre os dois participantes do processo.

O ponto importante a ser sublinhando na sessão descrita é que se poderia ter interpretado a falta de Jane enfocando o ataque narcisista ao enquadre. No entanto, como a interpretação foi outra, enfocando a busca do desenvolvimento da paciente, isso permitiu que ela introjetasse um objeto não-possessivo e não competitivo.

A interpretação enfocando a agressão teria levado a paciente a reviver, na situação transferencial, uma relação objetal destruidora do seu desenvolvimento. Assim, temos aqui um exemplo de que nem todo ato é destrutivo para o processo psicanalítico.

O recorte da pesquisa

Um mesmo material pode ser utilizado para investigar dimensões diferentes do fenômeno clínico. No caso de Jane, poderia ser utilizada uma sessão para investigar o papel da comunicação pré-verbal na relação analista-analisando. Jane inicia sua sessão associando a respeito de sua falta na sessão anterior. O analista fez sua intervenção baseada no tom de voz da paciente e sua postura ao entrar na sala. Esses elementos pré-verbais permitiram que fosse diagnosticada a identificação projetiva da paciente.

Mas aqui se abre uma nova possibilidade de pesquisa: o que ocorreu com a paciente para que ela reagisse à intervenção chorando? Seria expressão de pesar? Desejo de aplacar o analista?

O psicanalista como pesquisador

Assim, dentro do modelo psicanalítico, não se pode falar do estudo do fenômeno psíquico sem levar em conta também o psiquismo do pesquisador. Este fato tanto pode contribuir para elucidar os fenômenos quanto para ocultá-los.

É fundamental para a pesquisa em psicanálise que o analista tenha a possibilidade de auto-analisar as suas reações psíquicas diante de seu trabalho com o seu paciente. Daí a obrigatoriedade nessa área de que o pesquisador tenha se submetido ao próprio processo que utilizará no seu trabalho de investigação. A objetividade nessa área de pesquisa dependerá da autoanálise do pesquisador.

No exemplo de Jane, só foi possível ao analista lidar com os sentimentos de exclusão diante da falta da paciente através de sua auto-análise. Caso o analista não tivesse podido se discriminar dessas fantasias, teria provavelmente interpretado a falta da paciente como ataque ao processo analítico e ela teria vivido o ocorrido como uma repetição da sua relação com um objeto ciumento e invejoso.

Depressão, antidepressivos e psicanálise

Posted: 29.8.16 by Glauber Ataide in Marcadores:
0

Ser feliz nunca foi tão fácil: independente de como esteja o mundo ou sua vida, existe uma pílula específica para o seu caso. A psiquiatria moderna garante que sua infelicidade tem cura, e a um preço razoável.

Esta é a denúncia feita pelo médico estadunidense Ronald W. Dworkin, autor do livro Felicidade artificial: o lado negro da nova classe feliz, da editora Planeta. Nesta obra, Dworkin revela que o consumo de antidepressivos e outras drogas psicotrópicas está aumentando, criando o que ele chama de felicidade artificial. Isso é, está-se formando uma nova geração de pessoas que se sentem felizes independentemente do que façam com suas vidas. Não importa como vai o emprego, os problemas financeiros ou o relacionamento: é possível ser feliz à base de pílulas, apesar de tudo.

Desde meados do século passado a infelicidade tem sido vista como uma doença. Essa tendência teve início nos EUA, quando os médicos de atenção primária simplesmente não sabiam como reagir aos problemas sociais e emocionais que eram levados aos consultórios por seus pacientes. A partir daí, sob a pressão para proporcionar alívio imediato ao sofrimento psíquico e com uma formação humanista extremamente deficiente, a estes profissionais se tornou atraente a linha de investigação que considerava as doenças psíquicas apenas segundo seus sintomas e seus aspectos mais superficiais.

Dentre todos os problemas psicológicos modernos a depressão é o caso mais emblemático. Esta é uma das doenças que mais levam ao consumo de fármacos, e segundo a Organização Mundial de Saúde, cerca de 350 milhões de pessoas sofrem de depressão atualmente, sendo a maioria mulheres. No Brasil gastou-se cerca de R$1,8 bilhão com antidepressivos e estabilizadores de humor no ano de 2012, um aumento de 16,29% em relação ao ano anterior, colocando o país na liderança mundial de venda dessas drogas. A depressão tem sido abordada pela atual psiquiatria como uma disfunção química do cérebro, como mera falta de seratonina. 

Mas segundo o psicanalista britânico Darian Leader, autor do livro Além da depressão – novas formas de entender o luto e a melancolia (Editora BestSeller), a maioria dos historiadores da psiquiatria e da psicanálise concorda que a depressão foi criada como uma categoria clínica, entre outros motivos, por uma pressão para classificar os problemas psicológicos da mesma forma que os outros problemas de saúde, o que deu nova ênfase no comportamento superficial, deixando de lado os mecanismos mais profundos, inconscientes. Na década de 1970, após divulgação dos efeitos nefastos e viciantes dos tranquilizantes mais comuns para a depressão terem sido publicados e seu mercado ter desmoronado, uma nova categoria diagnóstica foi criada – e ao mesmo tempo um remédio para ela. Como resultado, a indústria farmacêutica lucrou tanto com a idéia da depressão quanto com sua cura.

Ainda segundo Darian, existe hoje certo ceticismo em relação aos antidepressivos. Sabe-se bem que a maioria dos estudos sobre sua eficácia é financiada pela indústria farmacêutica e que, até recentemente, os resultados negativos raramente eram publicados. 

O tratamento da depressão, quando vista como um “problema cerebral”, traz inúmeros riscos. A ingestão de paroxetina, por exemplo, aumenta o risco de suicídio. De acordo com a chamada “mitologia cerebral” da atual psiquiatria, no entanto, existe uma explicação bioquímica: essa substância causa apenas “pensamentos suicidas”. Dessa maneira, segundo Leader, tal explicação compartilha da crença de que nossos pensamentos e ações podem ser determinados bioquimicamente.

Isso se revela, numa análise de fundo, como um desdobramento de certa orientação filosófica do materialismo vulgar. O surgimento da psicanálise no final do século XIX foi uma resposta a essa antiga concepção, a qual hoje se reapresenta com ares de novidade. A psiquiatria não considera, em grande medida, as especificidades de cada indivíduo, e só precisa lhe ouvir no consultório para saber quais são seus sintomas mais superficiais. A psicanálise, ao contrário, deu voz ao indivíduo. Não o considera como um objeto, não o examina sob as lentes de um microscópio. A psicanálise considera a subjetividade e a história de cada indivíduo como únicas. É por isso que psicanalistas como Darian Leader defendem a necessidade de abandonar o atual conceito psiquiátrico de depressão e de considerá-la como um conjunto de sintomas que derivam de histórias humanas complexas e sempre diferentes, à luz dos conceitos freudianos de luto e melancolia. O tratamento psicanalítico da depressão busca suas causas mais profundas na história de vida do indivíduo e em seu inconsciente, não se limitando apenas aos sintomas e seus derivados.

Sem sombra de dúvidas os medicamentos auxiliam no alívio temporário do sofrimento, e são muito importantes quando seu uso é conjugado com outras psicoterapias, principalmente a psicanalítica. Sozinhos, no entanto, nunca resolvem definitivamente o problema da depressão, além de causarem efeitos colaterais e oferecerem grande risco de dependência. O mito da depressão como uma doença exclusivamente biológica é um conceito altamente lucrativo para a indústria farmacêutica, mas igualmente preocupante para a saúde pública. Como afirma Elisabeth Roudinesco em Por que a psicanálise?, não se trata de “contestar a utilidade dos  medicamentos e desdenhar o conforto que proporcionam”. A questão é que eles são “incapazes de curar o homem de seus sofrimentos psíquicos, sejam normais ou patológicos. A morte, as paixões, a sexualidade, a loucura, o inconsciente, a relação com o outro modelam a subjetividade de cada ser humano, e nenhuma ciência digna desse nome escapará disso.” A psicofarmacologia, segundo Roudinesco, não faz mais do que suspender sintomas ou transformar uma personalidade, e encerrou o sujeito numa alienação ao pretender curá-lo da própria essência da condição humana.

Curta nossa fan page no Facebook!

Posted: 28.8.16 by Glauber Ataide in
0

Demorou muitos anos, mas resolvemos criar uma fan page no Facebook! Curta e nos acompanhe por este canal também!

Link: https://www.facebook.com/filosofiapsicanalise/



Don't argue with me... I have a philosophy degree

Posted: 12.8.16 by Glauber Ataide in Marcadores:
0

Encontrei por acaso. Uma sugestão de presente para mim (meu aniversário é mês que vem).

"Don't argue with me... I have a Philosophy degree..."

Chutes altos sem aquecimento - chutes laterais

Posted: 2.8.16 by Glauber Ataide in Marcadores:
0

Chutes altos sem aquecimento,  o alinhamento correto do corpo para chutes laterais
Por Thomas Kurz

Este é o sexto artigo da minha coluna sobre treinamento que apareceu na edição de janeiro de 2000 na revista Taekwondo Times.

Para ler o artigo anterior, clique aqui

Além da forma correta de desenvolver flexibilidade - o que significa fazer os alongamentos corretos na hora correta, para dar chutes altos sem nenhum tipo de aquecimento -, você precisa também conhecer e praticar a técnica correta de chutar, incluindo o alinhamento correto do corpo. Neste artigo você aprenderá o alinhamento correto do corpo para o chute lateral. O chute de gancho (puxando) eu abordarei no próximo artigo.

Quando eu comecei a treinar Karate na Polônia, aos 20 anos de idade, era óbvio para mim que se alguma pessoas precisavam se preparar, alongar e se soltar antes de chutar, então havia algo de errado ou com elas, ou com seus chutes.

Eu sabia como me alongar porque eu já estava na AWF (Universidade de Educação Física). Mas alguns intrutores de Karate me mostravam chutes altos que forçariam meus ligamentos, mesmo minha flexibilidade sendo boa. O problema era que o alinhamento do corpo que funcionava para um determinado chute quando seu alvo era baixo (como no Karate Okinawan original) não funcionava quando o alvo era alto - não funcionava, quer dizer, a não ser que a pessoa tivesse uma extraordinária amplitude de movimento nos quadris e nas juntas da parte inferior das costas. (Os chutes altos que tanto atraem os jovens foram introduzidos no Karate por Yoshitaka Funakoshi, filho de Gichin Funakoshi, sem nenhuma preocupação se eles faziam sentido em combate [Draeger, 1974, p. 134].)

Felizmente eu conheci Mac Mierzejewski, o autor de Power High Kicks with No Warm-Up! ("Chutes Altos Fortes sem Aquecimento!", em tradução livre), um excelente lutador de Karate e instrutor que também estudou na AWF. Ele era menos flexível que eu, mas podia dar qualquer chute mais alto do que eu podia dar, com força suficiente para nocautear, e sem nenhum alongamento prévio.

Durante nossos treinos individuais ele me ensinou como alinhar o corpo para uma maior altura e mais potência nos chutes, sem ter que alcançar os limites da amplitude de movimento nas juntas dos quadris. Ele me mostrou os "pequenos" detalhes das técnicas de chutes que te permitem chutar algo e com potência sem aquecimento! E como bônus, estes mesmos pequenos detalhes reduzem as chances de lesões.

Sim, você pode aprender a dar chutes altos estando "frio(a)", sem se machucar, sem puxar os músculos, ou mesmo sem sentir dores. Tudo que você precisa é aprender (e praticar!) o correto alinhamento do corpo para se certificar que seus quadris e joelhos não se machuquem ao dar chutes laterais e chutes ganchos.

Eu usarei o exemplo de um chute lateral de levantamento de perna (yoko keage, no Karate), um chute que deveria ser aprendido antes de aprender o chute alto lateral com impacto no alvo (yoko geri kekomi, no Karate, e Yop-chagi, no Taekwondo), para mostrar como pequenos ajustes em seu posicionamento podem aumentar a altura do chute.

Quando aprendendo o chute lateral de levantamento de perna você deve começar com o levantamento de perna mostrado no artigo anterior (quinto) desta coluna, na Taekwondo Times de novembro de 1999. Este exercício (de levantar a perna para o lado) te permitirá eventualmente alcançar um chute lateral mais alto. Muitas pessoas sentem um pouco de desconforto, até mesmo de dor, quando tentando este alongamento dinâmico. Elas podem levantar cada perna cerca de 45º (e dói mesmo assim).

O problema? Elas tentam manter a perna reta, e levantar a perna reta lateralmente enquanto tentam manter o corpo inteiro reto também. Esta é tipicamente a causa das dificuldades e das dores nos quadris entre iniciantes que tentam dar este chute. Quem não é ensinado a levantar a perna corretamente ou a dar este chute em sua aplicação de combate tende a fazê-lo desta maneira incorreta.

Para aumentar substancialmente a altura do chute lateral de levantamento de perna, você precisa inclinar a sua pélvis para frente ao mesmo tempo que levanta sua perna para o lado. Para aprender a forma correta faça o seguinte: fique de pé com os pés juntos, estenda seu braço direito para o lado, com a mão à altura dos quadris, palma para baixo. Dobre levemente sua perna direita nas juntas do quadril e do joelho. Posicione seu pé corretamente para o chute lateral (pé de faca, sokuto, no Karate, e balnal, no Taekwondo). Levante a perna direita de forma a chutar a palma da sua mão com a lateral do seu pé. Comece na altura do quadril e aumente a altura dos chutes gradualmente. Certifique-se que você está se inclinando para a frente e de que seu joelho está levemente dobrado, e que ele se levanta à frente de seu pé. Chutar a palma da mão te força a alinhar seu tronco, sua pélvis e a coxa da maneira correta para uma maior amplitude de movimentos nas juntas do quadril. Preste atenção principalmente na direção e na curvatura da inclinação para frente nos desenhos abaixo.



Outro motivo para chutar a palma da mão é para evitar que o alongamento dinâmico se torne um alongamento balístico, sem controle, e para previr alongar além do necessário.

Por falar nisso, a causa da dor e da limitação do movimento lateral tanto no chute de levantamento de perna quanto na abertura lateral é a mesma. Ela é causada pelo abrir (abduzir) das coxas sem inclinar a pélvis para a frente. A "cura" para a dor no lado externo do quadril é inclinar a pélvis para a frente (o que é o mesmo que flexionar os quadris) enquanto tentando o chute lateral ou a abertura. O alinhamento do quadril, da parte inferior da perna e do pé no chute lateral deve ser o mesmo mostrado na visao lateral da posição de montar cavalo (veja o segundo artigo desta coluna na Taekwondo Times, maio de 1999).

Crianças abaixo dos 11 anos não experimentam esta limitação do movimento, pois o ângulo que o colo dos ossos da coxa fazem com os ossos dos quadris é diferente dos adultos. Em crianças, o colo do osso da coxa vai mais agudamente para baixo e mais suavemente para frente. Isso faz o colo da coxa ter contato com o canto superior da cavidade do quadril em uma maior amplitude de abdução do que em adultos, além de manter separado o trocanter do osso do quadril de forma a não restringir o movimento tanto quanto nos adultos. À medida que as crianças crescem, este ângulo gradualmente muda. O colo da coxa se torna mais próximo de um plano horizontal e gira mais para a frente. Estas mudanças reduzem a abdução da coxa, assim como sua rotação externa (também conhecida como "giro para fora" ou "primeira posição" no balé). Por volta dos 11 anos este ângulo se acomoda. Eu explico como esta rotação externa se relaciona com a abertura lateral na página 110 de Stretching Scientifically.

Como saber se você tem potencial para fazer uma abertura frontal

Posted: by Glauber Ataide in Marcadores:
0

Testando seu potencial para fazer uma abertura frontal

Tradução de Glauber Ataide

Este é o terceiro artigo de minha coluna sobre treinamento que apareceu na edição de maio de 1999 na revista Taekwondo Times

Para ler o artigo anterior, clique aqui

No primeiro artigo desta coluna você aprendeu como determinar se tem potencial para fazer uma abertura lateral, mesmo antes de começar seu programa de alongamento. Neste artigo você aprenderá se os ligamentos e a musculatura de suas coxas e quadris lhe permitem fazer uma abertura frontal.

Este é o teste para a abertura frontal: faça um longo agachamento (como na foto abaixo). Se suas coxas estão quase formando uma linha reta como em uma abertura frontal, isso significa que as juntas do seu quadril e os seus ligamentos não te impedem de fazer uma abertura frontal. Apenas um endurecimento de seu tendão do jarrete e dos músculos da panturrilha, e em alguns casos dos músculos iliopsoas podem te impedir de se sentar completamente em uma abertura frontal com ambas as pernas retas. Com o método correto de alongamento você irá relaxar, ou mesmo alongar estes músculos e será capaz de fazer a abertura frontal sem aquecimento.



Tanto na abertura frontal quanto na lateral, aliviando a tensão dos músculos ao redor das juntas aumenta  a amplitude de movimento delas, provando que é apenas a tensão muscular o que te previne de fazer aberturas. A tensão muscular tem dois componentes: a tensão gerada pelo elementos contráteis (fibras musculares) e a tensão presente em um músculo inativo, desnervado, exercida pelos tecidos conjuntivos associados ao músculo.

Alguns autores (M.J.Alter, B.Anderson, H.A.deVries, S.A.Sölveborn) afirmam que a tensão dos tecidos conjuntivos tendem a ser o principal fator que restringe a flexibilidade. Eles defendem alongamento estático lento, mesmo em um aquecimento, como se os músculos fossem peças de fábrica a serem alongado para o tamanho desejado. Ramsey e Street (1940), no entanto, provam e afirmam claramente que se o alcance da extensão não exceder a 130% do comprimento em repouso (30% a mais do que o comprimento em repouso), a tensão em repouso em um músculo não-contraído é muito pequena. (O comprimento em repouso de um músculo é o comprimento músculo não-contraído e não-alongado do corpo.)

De forma semelhante, Shottelius e Senay (1956) mostram que, em um músculo alongado acima dos 100% de seu comprimento em repouso, a tensão passiva gerada pelos tecidos conjuntivos é uma pequena fração da tensão devido à contração ativa. Eles mostram que eventualmente, a aproximadamente 120% do comprimento em repouso de um músculo, os dois componentes da tensão muscular contribuem igualmente para a tensão total. A comprimentos maiores, a tensão passiva aumenta enquanto a tensão ativa, gerada por fibras de músculos contraídas, diminui.

Para propósitos práticos, enquanto você sentir que seus músculos contraem em resposta a um alongamento, isso significa que relaxando-os você pode melhorar seu alongamento e que você deveria se preocupar mais com o controle nervoso da tensão dos músculos e menos com o tecido conectivo dos músculos. Este conceito é contundentemente mostrado no teste de abertura lateral publicado na edição de março de 1999 da revista Taekwondo Times.

Na próxima coluna você aprenderá sobre os tipos de flexibilidade e sobre o papel das aberturas no Taekwondo, Karate e no Kickboxing. (Se você acha que as aberturas são necessárias para chutar alto, você está errado.)