David Hume: causa e efeito são meros produtos do hábito

Posted: 27.4.18 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Imagine o momento em que Adão é criado por Deus, já adulto. Ele então é colocado diante de uma fogueira e tem que dizer o que acontecerá se um objeto for colocado no fogo. Seria possível a Adão inferir que do fogo sairá fumaça, sendo que ele nunca viu algo se queimando antes?

David Hume afirma que não. Que todo o nosso conhecimento advém da experiência, e que o próprio conceito de causa e efeito são meros produtos do hábito. E mais: que a nossa capacidade de prever eventos futuros, baseados na causalidade, não é nada mais que costume, e que não podemos garantir que as coisas futuras continuarão sendo como as passadas.

Hume usa o exemplo de um jogo de sinuca para ilustrar a relação típica entre causa e efeito. Após uma bola de bilhar em movimento tocar uma segunda, esta também entra em movimento. É evidente, afirma Hume, que as duas bolas se tocaram antes que o movimento de uma fosse comunicado à outra, e que não houve intervalo entre o choque e o movimento. Assim, contiguidade no tempo e no espaço é um requisito para a operação de todas as causas, assim como a causa deve ter uma prioridade no tempo.

Ao vermos situações semelhantes se repetindo, percebemos uma constante conjunção de causa e efeito, de modo que esta constância completa a série das únicas três circunstâncias que explicam a causalidade: contiguidade, prioridade e conjunção constante, além das quais nada pode ser identificado.

No entanto, um homem sem nenhuma experiência do mundo, como aquele Adão criado já adulto por Deus, jamais poderia inferir que uma bola de bilhar, ao ser tocada por uma outra já em movimento, também seria colocada em movimento. Isso é, não há nada que a razão veja na causa que lhe faça inferir o efeito. Se tal fosse possível, resultaria em uma demonstração fundada meramente na comparação de idéias. Mas isso não é possível, de modo que a mente, por si só, pode conceber qualquer efeito seguindo de qualquer causa, pois o que quer que concebamos, isso é possível (pelo menos metafisicamente). Portanto, conclui Hume, não há demonstração para nenhuma conjunção de causa e efeito.

Todos os raciocínios concernentes a causa e efeito se fundam na experiência, e todos os concernentes à experiência se fundam na suposição de que o curso da natureza continuará uniforme. O Adão fictício de Hume nunca poderia demonstrar que o curso da natureza seria sempre o mesmo. A tentativa de fundamentar a regularidade do curso da natureza redunda em uma circularidade. Para demonstrar que o futuro segue geralmente o curso do passado, temos que apontar para a experiência, isso é, a probabilidade fundamenta a própria experiência, de modo que teríamos o seguinte argumento tautológico: "se o futuro seguiu até hoje o curso do passado, então o futuro continuará sempre seguindo o curso do passado". A experiência do passado não é prova de nada quanto ao futuro. É unicamente pelo costume que supomos que o futuro será semelhante ao passado. Assim, não é a razão que guia a vida, mas o costume.

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