O anticristo, de Nietzsche - um breve resumo

Posted: 4.6.18 by Glauber Ataide in Marcadores: , ,
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O anticristo, de Friedrich Nietzsche, é uma das obras mais polêmicas e provocativas da história da filosofia. Redigido no verão e outono de 1888, com o filósofo já afetado pela doença que o levaria à morte, o texto teve sua primeira impressão em 1895, com o subtítulo Versuch einer Kritik des Christenthums ("Tentativa de uma crítica do cristianismo").

Segundo Walter A. Kaufmann, após completar Crepúsculo dos ídolos, Nietzsche abandonou os planos de escrever uma obra  intitulada Vontade de potência, decidindo por escrever um livro dividido em quatro partes, chamado Revaloração de todos os valores. A primeira parte foi concluída e recebeu o nome de O anticristo.

O título Der Antichrist é ambíguo, pois o termo "Christ", em alemão, significa tanto "Cristo" quanto "cristão". Num primeiro momento, "Antichrist" evoca a idéia do anticristo do Apocalipse, alcançando o objetivo de Nietzsche de ser tão provocativo quanto possível. Por outro lado, e à luz das passagens 38 e 47 da obra, o título só pode ser significar "O anticristão", o que estaria mais de acordo com o espírito do texto.

A obra é dividida em aforismos, o que confere um estilo mais livre à escrita mas também torna mais difícil a sistematização do texto, seu agrupamento em temas e seu encadeamento lógico. Esta aparente simplicidade da escrita em aforismos é uma das principais razões de Nietzsche ser um dos filósofos mais "acessíveis" e lidos nos círculos de fora da filosofia, e também um dos mais distorcidos e mal-compreendidos.

Entre os principais temas da obra encontra-se a relação entre judaísmo e cristianismo, entendida por Kaufmann como uma reação de Nietzsche ao antisemitismo cada vez mais crescente na Alemanha de seu tempo. Bernhard Förster, casado com sua irmã, por exemplo, afirmava que a brilhante figura do Salvador apareceu entre os judeus porque a luz precisava brilhar na mais depravada de todas as nações. Diante do avanço deste antisemitismo cristão, Nietzsche mostra em O anticristo que o cristianismo não era nada mais que uma continuação do judaísmo.

Crítica aos valores e ressentimento

O repúdio de Nietzsche a Cristo não pode ser entendido sem que se entenda a distinção que ele faz entre o cristianismo contemporâneo e o evangelho original, entre o Jesus de Nazaré e o Jesus de Paulo. Sua crítica ao cristianismo passa pela crítica dos valores, um dos temas que ele já havia trabalhado em obras como Genealogia da moral. Logo no início ele se pergunta: "o que é ruim?", e responde: tudo que se origina da fraqueza. "O que é bom? Tudo o que aumenta no homem o sentimento de poder, a vontade de potência, o poder mesmo".

O cristianismo é a religião do ressentimento, considerado por Nietzsche como o ódio impotente contra aquilo que não se pode ser ou não se pode ter. Em sua Genealogia da moral ele define assim este conceito: "A revolta dos escravos na moral contemporânea começa quando o ressentimento se torna criador e gera valores: ressentimento dos seres aos quais é negada a verdadeira reação, a da ação, e vingança imaginária". A moral cristã, segundo Nietzsche, é fruto do ressentimento, no sentido de ser manifestação do ódio contra os valores da casta superior aristocrática, inacessíveis aos indivíduos inferiores.

Um exemplo do ressentimento na própria bíblia pode ser encontrada no livro de Apocalipse 6:9-11:

"Quando Ele abriu o quinto selo, contemplei debaixo do altar as almas daqueles que haviam sido mortos por causa da Palavra de Deus e do testemunho que proclamaram. Eles exclamavam com grande voz: “Até quando, ó Soberano, santo e verdadeiro, esperarás para julgar os que habitam em toda a terra e vingar o nosso sangue?” Então, para cada um deles foi entregue uma vestidura branca, e foi-lhes orientado que aguardassem ainda um pouco mais, até que se completasse o número dos seus irmãos que, como eles, foram servos e que, da mesma forma, também deveriam ser mortos."

Neste trecho, mesmo estando no céu e diante de Deus, o que as almas cristãs querem é vingança contra aqueles lhes perseguiram e mataram. Para Nietzsche, isso é expressão do ressentimento pois o autor de Apocalipse, incapaz de fazer frente às perseguições na vida real, ameaça seu inimigos com uma vingança imaginária que viria de outro mundo. Seria de se esperar que almas que estivessem experimentando a beatitude no céu e diante do trono de Deus tivessem outras preocupações a não ser "vingar" contra quem está sobre a terra.

Homem moderno e decadência

Nietzsche critica a idéia de que o homem de hoje seria superior aos antigos, que estaria se desenvolvendo para um tipo mais elevado e superando a barbárie. Para o filósofo do martelo, essa idéia de "progresso" é uma idéia moderna, ou seja, uma idéia falsa. Os europeus de hoje, para Nietzsche, estão abaixo dos europeus da renascença em seu valor, pois desenvolvimento, em si, não tem a ver com uma necessidade de elevação, de fortalecimento. Na verdade, é contra o homem verdadeiramente forte - que não é o homem europeu moderno -, que o cristianismo fez uma guerra mortal. É preciso, por isso, não tentar embelezar o cristianismo, pois ele sempre tomou partido por tudo que é fraco.

Tudo o que o homem considera hoje virtuoso, como fruto do "progresso", da "superação da barbárie antiga", não é nada mais que decadência. Nietzsche afirma que o homem é "depravado", mas chama a atenção para o fato de que esta palavra, em sua boca, não é uma acusação moral. Ele explica que um animal, uma raça ou um indivíduo é depravado quando ele perde seus instintos, quando escolhe o que lhe é desvantajoso. A vida, em si, carrega instintos de crescimento, de auto-preservação, de poder, e onde falta a vontade de potência, há decadência. A todos os "altos valores" da humanidade faltam esta vontade.

Um desses "altos valores" seria a compaixão, termo do alemão "Mitleiden".  O prefixo "mit" significa "com", e "Leiden" significa sofrimento, dor. Compaixão, portanto, é "sofrer com", e para Nietzsche, quando alguém tem compaixão, perde força, pois a compaixão multiplica o sofrimento. A compaixão é contra a lei da seleção natural, preserva aquilo que está maduro para a decadência, para a Untergang. Schopenhauer estava certo: através da compaixão a vida é negada. A compaixão é a prática do niilismo, é multiplicadora e conservadora do sofrimento, uma ferramenta para o aumento da decadência. Segundo Nietzsche, a compaixão era uma virtude para Schopenhauer pois ele era inimigo da vida.

Não apenas a compaixão, mas a moral cristã, como um todo, é a moral do ressentimento. O ressentimento é um auto-envenenamento através da vingança inibida, sem força e sem coragem de ser levada a cabo. Nietzsche investiga o estado psicológico por trás das "virtudes" cristãs para mostrar que elas nada mais são que ressentimento, fraqueza, moral de escravo, impotência. O perdão cristão, por exemplo, nada mais é que essa incapacidade de vingança. É por ser fraco e incapaz de vingar que o cristão perdoa.  A doutrina do juízo e a condenação ao inferno mostram que na verdade não existe perdão algum por parte do cristão, mas apenas impotência. Incapazes de se vingar aqui na terra, eles lançam seus inimigos ao inferno numa vida após a morte. Um exemplo citado por Nietzsche vem de um dos principais teólogos da igreja, Tomás de Aquino, que conseguiu captar e resumir como poucos este sentimento cristão: "Beati in regno coelesti, videbunt poenas damnatorum, ut beatitudo illis magis complaceat". ("Os abençoados no reino dos céus verão as penas dos condenados, para que sua beatitude lhes dê maior satisfação"). O sadismo é parte das delícias do paraíso cristão.

Da mesma forma, ser bondoso e gentil quando na verdade alguém é apenas fraco e tímido e não poderia agir de outra maneira; ser humilde quando qualquer outro comportamento teria repercussões desprazerosas; ou ser prestativo quando outro gesto provocaria um chute do senhor ou uma chibatada, tudo isso é apenas moral de escravo, uma transformação do que é necessidade em virtude.

Guerra aos teólogos

Nietzsche afirma que sua crítica é direcionada aos teólogos, ou a tudo que tem sangue de teólogo, como a filosofia alemã. É a este "instinto de teólogo" que ele faz guerra. O que um teólogo considera verdadeiro, isso necessariamente será falso, de modo que tem-se aqui praticamente um critério de verdade: se um teólogo diz que algo é verdadeiro, então é falso; se ele diz que é falso, então é verdadeiro. Para Nietzsche, o teólogo inverte os valores de tal maneira que tudo o que rebaixa a vida e a fere, isso ele chama "verdadeiro", e tudo o que, ao contrário, a afirma, a eleva, a faz triunfar, isso ele considera falso.

Em contraposição aos valores dos teólogos, o que "nós, os espíritos livres, queremos", afirma Nietzsche, é a "transvaloração de todos os valores" ("Umwertung aller Werte"). Os espíritos livres não consideram mais os homens como derivados de um conceito, de um espírito, de uma divindade, mas os colocam novamente entre os animais. No cristianismo, a moral e a religião se afastaram da realidade de tal maneira que todas as suas causas e efeitos são imaginários. Exemplos de causas imaginárias: Deus, alma, espírito, eu, livre arbítrio, etc. Seus efeitos imaginários: pecado, redenção, misericórdia, juízo, etc.

Sacerdotes, padres e pastores

Há uma diferença, para Nietzsche, entre aqueles que são simplesmente cristãos (leigos) e os sacerdotes (onde se incluem os padres, pastores e todos que exercem função de autoridade em uma comunidade religiosa). Todo sacerdote é um cristão, mas nem todo cristão é um sacerdote.

Para o tipo de homem que alcançou o poder no judaísmo e no cristianismo - isso é, a classe sacerdotal -, a decadência é apenas um meio para um fim. Este tipo de homem, segundo Nietzsche, tem um interesse vital em tornar a humanidade doente, em confundir os valores de "bem" e "mal", "verdadeiro" e "falso".

Os sacerdotes do judaísmo, por exemplo, operaram o grande milagre da falsificação, da qual a bíblia é uma evidência documental. Em um grau de desprezo sem paralelos, eles traduziram toda a história de seu povo em termos religiosos, convertendo-a em um mecanismo de salvação no qual todas as ofensas a deus eram punidas e toda devoção recompensada.

Historicamente o sacerdote conseguiu arranjar as coisas de tal maneira que se tornou indispensável. Em todos os grandes eventos naturais da vida, tais como o nascimento, o casamento, a doença, a morte, etc., o "santo parasita" fez sua aparição para desnaturalizá-los - ou, em suas próprias palavras, para "santificá-los". Todo hábito natural, toda instituição natural exigida pelo instinto de vida (o estado, a justiça, etc.) foram espoliados de seu valor e alguns até tornados seu contrário pelo parasitismo dos sacerdotes.

O sacedorte deprecia e desnaturaliza a natureza, e ele só pode existir a este custo. Desobediência a deus significa, na verdade, desobediência ao sacedorte, a qual ele dá o nome de "pecado". Os meios para se reconciliar com deus são os meios fornecidos pelo próprio sacerdote, aqueles que colocam os pecadores sob seu domínio. De um ponto de vista psicológico, a idéia de "pecado" é fundamental a toda sociedade organizada em bases sacerdotais, pois são as únicas armas confiáveis de poder. É necessário que exista pecado, o sacerdote e a igreja têm necessidade do pecado. Quando a bíblia, escrita por sacerdotes, diz que "Deus perdoa aquele que se arrepende", isso quer dizer: "Deus perdoa aquele que se submete ao sacerdote".

Vampiros, parasitas, sangue-sugas pálidas e subterrâneas, devoradores de bifes, caluniadores e envenadores da vida, negadores profissionais: estes são alguns dos adjetivos com os quais Nietzsche caracteriza os sacerdotes. Com suas "santas" e anêmicas idéias sedentas de sangue, esta classe suga todo o sangue, todo o amor, toda a esperança da vida. A cruz se tornou a marca da maior conspiração subterrânea de que já se ouviu, uma conspiração contra toda saúde, beleza, bem-estar, inteligência e bondade de alma - uma conspiração contra a vida em si.

Deus como projeção

Nietzsche tem um conceito de Deus como projeção mas, ao contrário do filósofo alemão Ludwig Feuerbach, para quem Deus era a projeção dos melhores atributos humanos, Deus é, para Nietzsche, a projeção de um povo. Em Feuerbach, a projeção é metafísica, abstrata. Em Nietzsche, a projeção é materialista, histórica.

Um povo que ainda acredita em si tem também seu próprio Deus, projeta nele as condições que o fez estar por cima, seus valores, seu prazer, seu sentimento de potência em um ser ao qual eles possam agradecer. Quem é rico quer doar (abgeben), de modo que um povo orgulhoso precisa de um deus para ofertar, para sacrificar. Tal deus precisa ser capaz de servir e também causar dano, de tanto ser amigo quanto inimigo. Quando analisamos, por exemplo, os deuses dos vikings, fica clara a relação entre o espírito deste povo e seus deuses, de como suas divindades expressavam e legitimavam seus  valores. A história de Israel também será refletida em seu deus, como veremos mais adiante.

A transformação do conceito de Deus

Para Nietzsche, a castração antinatural de deus como apenas "bom" representa a perda da fé de um povo em seu futuro. É um processo que se desencadeia quando se é derrotado, quando os valores da derrota precisam entrar na consciência como condições de preservação.

A história dos judeus deixa isso claro. Quando o povo estava em Canaã, seu deus era forte. Era o Deus que ordenou entrar na terra, matar a todos, inclusive mulheres e crianças, e tomar posse. Muitos séculos depois, quando os judeus se encontravam exilados na Babilônia, houve uma transformação: aquele deus antigo de guerra se tornou em um deus bom, do amor, do perdão.

Nietzsche afirma que não se pode chamar de "evolução" a transformação do deus de Israel no deus cristão. O deus cristão é o deus da decadência, o deus dos fracos que não se reconhecem enquanto fracos, mas que se chamam de "bons".

Aquele que era o deus de um povo (judeu) se tornou o deus universal, cosmopolita. Este deus se tornou o democrata entre os deuses, mas não deixando nunca de ser judeu. Se tornou o deus das esquinas. Seu reino, para Nietzsche, é como um hospital, um reino subterrâneo, um gueto-reino.

Deus como aranha

O conceito cristão de deus foi tão alterado ao longo de toda a história que deus acabou se tornando aranha. Os senhores da metafísica, os filósofos e teólogos, teceram tanto em torno de si que deus se transformou em "ideal", "espírito puro", "coisa em si", sub specie spinozae. Para entender esta curiosa metáfora nietzscheana do deus-aranha, vejamos o trecho no original alemão:

"Der christliche Gottesbegriff — Gott als Krankengott, Gott als Spinne, Gott als Geist — ist einer der korruptesten Gottesbegriffe, die auf Erden erreicht worden sind..."

("O conceito cristão de deus - deus como deus dos doentes, deus como aranha, deus como espírito - é um dos mais corruptos conceitos de deus que já surgiram sobre a terra.")

Como podemos ver destacado em negrito, a palavra alemã para "aranha" é Spinne. No contexto desta passagem Nietzsche está falando sobre a decadência do conceito judaico de Deus, que a ideia de Deus foi se tornando cada vez mais fraca, mais pálida, etérea, até que praticamente se dissolveu, tornando-se "o nada divinizado". Nietzsche afirma que Deus se transformou então em Spinne, em aranha, mas não uma aranha qualquer: ele se tornou uma aranha sub specie Spinozae.

A referência de Nietzsche é ao conceito de Deus desenvolvido pelo filósofo holandês Baruch de Spinoza, que também era judeu. Associa-se geralmente a ele uma espécie de panteísmo, uma identificação de Deus com a natureza, embora esta interpretação seja contestada por alguns estudiosos do filósofo holandês. Dessa forma, Deus, sendo tudo, é ao mesmo tempo nada, pois é  indistinto de qualquer coisa em particular. Como articulou Hegel em sua Ciência da Lógica, "o ser e o nada são o mesmo". O puro ser, a pura abstração, é também o nada.

O deus-aranha de Nietzsche é um deus metafísico, um espírito puro que acabou se tornando "coisa em si". Esta última referência é a Kant, embora seja importante ressaltar que, para o filósofo de Königsberg, Deus não é "coisa em si", mas sim uma "ideia da razão". Para Nietzsche, os metafísicos, ao passar dos séculos, se apropriaram, tornaram-se "senhores" do conceito de Deus e trabalharam tanto nele, "teceram durante tanto tempo em seu redor", que o próprio Deus foi "hipnotizado pelos seus movimentos" e acabou se transformando em uma aranha da espécie Spinozae.

História do cristianismo

Nietzsche analisa o cristianismo como um desenvolvimento do judaísmo, como tendo nascido de seu solo e sendo sua continuação. Para mostrar esta linha de continuidade, ele inicia fazendo alguns apontamentos sobre a história dos judeus, que ele considera como "o povo mais notável da história mundial". Diante da escolha de ser ou não ser, o judeu escolheu ser a qualquer preço, e este preço foi a radical falsificação de toda a natureza, de toda a realidade, tanto do mundo interior quanto do exterior.

A história de Israel seria inestimável enquanto exemplo de história típica de toda desnaturalização dos valores da natureza. No tempo dos reis, Israel estava, em todas as coisas, na posição correta, na relação correta. Seu Javeh era expressão da consciência de potência, a alegria em si. Era o deus da justiça (Gerechtigkeit). Já nos tempos dos profetas, havia esperança de um rei que fosse um bom soldado e um juiz, sobretudo aquele típico profeta (Isaías). Essa esperança não foi realizada, e como o deus antigo não mais podia continuar como era, os judeus "desnaturalizaram" seu conceito. A moral não mais era expressão da vida e condição de crescimento do povo, mas se tornou abstrata, contraditória com a própria vida. O cristianismo surgiu deste solo falso, de uma concepção de Deus que há havia sido desnaturalizada pelos judeus, e deu continuidade à falsificação deste Deus.

Para Nietzsche, a própria palavra "cristianismo" já é um erro - na verdade só houve um cristão, e ele morreu na cruz. O próprio evangelho morreu na cruz, e o que desse momento em diante se chamou de "evangelho" foi, na verdade, o contrário dele, um "disangelho".

Muitos crentes pensam que ser cristão consiste em acreditar em certas doutrinas, em "ter uma fé".  Para Nietzsche, todavia, é um completo nonsense (Unsinn), uma grande bobagem achar que o simples acreditar em uma doutrina na salvação através de Cristo seria aquilo que define (abzeichen) o cristão. Só a prática cristã, uma vida como a vida daquele que morreu na cruz é, de fato, cristã. Para Nietzsche, a vida cristã é um fazer, não uma crença.

Transformar o cristianismo em um Für-wahr-halten, isso é, num "tomar algo como verdadeiro", reduzí-lo a uma pura fenomenalidade de consciência, significa negar o cristianismo. Na verdade, não existe nenhum cristão. O cristão, ou o que tem sido chamado assim nos últimos dois mil anos, é apenas uma auto-incompreensão psicológica.

O que tem sido chamado de "fé" sempre foi apenas um manto, uma cortina atrás da qual os instintos jogaram seu jogo, uma astúcia, uma "esperteza" (Klugheit) cristã. A fé encobre que age-se sempre por instinto. Paulo, por exemplo, queria o poder, e por isso também os meios para isso. Sua finalidade e necessidade eram o poder, mas ele podia usar apenas conceitos, símbolos e doutrinas para tiranizar as massas, e criou algo que mais tarde seria tomada de empréstimo por Mohammed para exercer a tirania sacerdotal: a fé na imortalidade, ou seja, a doutrina do juízo.

O que Paulo levou a cabo com o cinismo lógico de um rabino foi apenas a continuidade do que começou com a morte do redenor. O cristianismo é a arte de mentir santamente ("der Kunst, heilig zu lügen"). O cristão é a ultima ratio da mentira, é três vezes judeu.

Exemplos bíblicos da corrupção cristã

Nietzsche afirma que lê poucos livros com tanta dificuldade quanto os evangelhos. O filósofo do martelo cita diversos trechos bíblicos para mostrar como os ensinamentos de Jesus foram distorcidos já em sua própria redação. Estas passagens mostram o que aquela "gentalha" - isso é, os primeiros cristãos - colocou na boca de seu mestre. Ele chama os trechos abaixo, ironicamente, de "confissões de 'almas belas'".

- "E se alguns vos não receberem e ouvirem, saí dali e sacudi o pó dos vossos pés, em testemunho contra eles. Em verdade vos digo, Sodoma e Gomorra serão no dia de juízo tratadas com menos rigor do que essa cidade" (Mc VI, l 1). 

Comentário de Nietzsche: "Que evangélico!..."

- "E quem escandalizar um destes pequeninos que em mim crêem, seria melhor que lhe pusessem ao pescoço a mó de um moinho e o lançassem ao mar" (Mc IX, 42). 

Comentário de Nietzsche: "Que evangélico!..."

- "E se o teu olho te escandaliza, lança-o fora. Melhor é entrares no reino de Deus com um só olho do que, tendo ambos os olhos, seres lançado no fogo do inferno, onde o seu verme não morre e o fogo não se extingue" (Mc IX, 46 e 47). 

Comentário de Nietzsche: "Não é justamente do olho que se trata..."

- "Em verdade vos digo: há alguns aqui presentes que não morrerão antes de verem chegar o Reino de Deus no seu poder" (Mc IX, 1). 

Comentário de Nietzsche: "Que bem que mente, o leão..."

- "Quem quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Porque..." (Mc VIII, 34)

Comentário de Nietzsche: "(Observação de um psicólogo: a moral cristã encontra-se refutada pelos seus porque; as suas 'razões' refutam – eis o que é cristão)."

- "Não julgueis, para não serdes julgados. Com a medida com que medirdes vos será medido" (Mt VII, 1).

Comentário de Nietzsche: "Que conceito de justiça de um juiz 'íntegro'!..."

- "Porque, se amais os que vos amam, que recompensa tereis disso? Porventura não fazem o mesmo os publicanos? E se saudais só os vossos irmãos, que fazeis nisso de extraordinário? Acaso não o fazem também os publicanos? (Mt V, 46). 

Comentário de Nietzsche: "Princípio de 'amor cristão': quer, ao fim e ao cabo, ser bem pago..."

- "Mas se não perdoardes aos homens as suas ofensas, também o Pai Celeste vos não perdoará as vossas" (Mt VI, 15).

Comentário de Nietzsche: "Muito comprometedor para o 'Pai' mencionado..."

- "Buscai primeiramente o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo" (Mt VI, 33).

Comentário de Nietzsche: "Todas essas coisas, a saber: alimentos, vestuário, todas as necessidades da vida. Um erro, para sem pretensões nos expressarmos... Pouco antes, Deus surge como alfaiate, pelo menos em certos casos..."

- "Alegrai-vos então e exultai: pois vede, será grande no céu a vossa recompensa. Desse modo é que procediam os pais deles com os profetas " (Lc VI, 23).

Comentário de Nietzsche: "Canalha sem vergonha! Compara-se já aos profetas..."

- "Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Ora, se alguém maltrata o templo de Deus, Deus maltratá-lo- á. Porque o templo de Deus é sagrado, e tal templo sois vós" (Paulo, I Cor 3, 16). 

Comentário de Nietzsche: "Não há desprezo bastante para coisas assim..."

- "Acaso não sabeis que os santos julgarão o mundo? E se é por vós que o mundo vai ser julgado, seríeis então ineptos para julgar as coisas mínimas?" (Paulo, I Cor 6, 2).

Comentário de Nietzsche: "Infelizmente, não é apenas o discurso de um louco internado... Este horrível impostor prossegue literalmente: 'Não sabeis que julgaremos os anjos? Quanto mais os bens temporais'!..."

- "Não tornou Deus, por acaso, estulta a sabedoria deste mundo? Efetivamente, já que o mundo, com toda a sua sabedoria, não conheceu Deus nas obras da sabedoria divina, foi por meio da loucura da pregação que aprouve a Deus salvar os crentes. Não foram chamados muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos nobres. Mas, pelo contrário, os que são loucos aos olhos do mundo é que Deus escolheu para confundir os sábios; e os que são fracos perante o mundo é que Deus escolheu para confundir os fortes. E os vis e desprezados pelo mundo é que Deus escolheu: em suma, as coisas que não existem, a fim de reduzir a nada as que existem. Para que nenhuma carne se possa gloriar diante de Deus" (Paulo, I Cor l, 20 ss.). 

Comentário de Nietzsche: "Para compreender esta passagem, um testemunho de primeiríssima ordem para a psicologia de toda a moral tchandala, leia-se o primeiro ensaio da minha Genealogia da Moral: aí realcei pela primeira vez a oposição entre uma moral e uma moral de tchandala, nascida do ressentiment e da vingança impotente. Paulo foi o maior de todos os apóstolos da vingança..."

Nietzsche conclui que é preciso calçar luvas para ler o novo testamento, pois haveria ali apenas maus instintos, e todo e qualquer livro se tornaria limpo após sua leitura. Este deus de Paulo é que Nietzsche nega, usando a fórmula latina deus, qualem Paulus creavit, dei negatio. "Se alguém nos provasse este deus cristão", afirma Nietzsche, "acredtiaríamos ainda menos nele".

A guerra do cristianismo contra a ciência

Uma religião como o cristianismo, que não tem nenhum ponto de contato com a realidade, só poderia ser inimiga mortal da "sabedoria deste mundo", isso é, da ciência. O início da bíblia é claro quanto a isso, quanto ao medo mortal de "deus" diante da ciência. Usamos a palavra "deus" entre aspas pois aqui ela é apenas uma referência aos próprios sacerdotes que escreveram os textos bíblicos. Quando os autores bíblicos escrevem "deus" eles se referem, na verdade, a eles próprios.

Assim teria começado a história da humanidade, segundo os sacerdotes que escreveram a bíblia. O deus antigo, puro espírito, puro sumo sacerdote, andava entediado pelo jardim, e então houve o primeiro erro de deus: ele não achou os animais divertidos (unterhaltend), e decidiu que o homem deveria reinar sobre eles, ao invés de ser apenas mais um entre eles.

Então vem o segundo erro de deus: a mulher. Ela não seria, contudo, um erro qualquer, mas aquele do qual viria o único e verdadeiro pecado: a ciência. Pela mulher o homem conhece a árvore do conhecimento, e deus é tomado de grande medo. O próprio homem se tornou um erro, um rival, pois a ciência iguala o homem a deus. Moral da história: a ciência é o "proibido em si". A ciência é o primeiro pecado, o pecado original. O único mandamento moral do judaísmo e do cristianismo é: "tu não deves conhecer". Todo o resto se segue daí.

Mesmo com medo, deus continua astuto e pensa em como se proteger da ciência. Sua descoberta é compartilhada por todos os tiranos: é necessário expulsar o homem do paraíso, acabar com seu ócio, pois o ócio suscita pensamentos, e pensar é ruim... para os tiranos.

O trabalho do conhecimento, porém, continua fora do paraíso, se eleva ao céu (Torre de Babel), e então o velho deus manda a guerra e separa os povos. Mas a emancipação em relação aos sacerdotes continua mesmo depois disso, e deus toma uma última decisão: é preciso afogar o homem (dilúvio).

Para Nietzsche, o início da bíblia contém toda a psicologia do sacerdote, o qual conhece um único perigo: a ciência, a sabedoria, o conhecimento.

Conclusão: o cristianismo é a doença

Para Nietzsche, ninguém se torna cristão livremente, pois é preciso estar doente o suficiente para isso. Assim, o ideal cristão de ir a todo o mundo e pregar o evangelho é o projeto da igreja de transformar o mundo inteiro em um hospício. Qualquer visita a um hospício irá mostrar que a fé não move montanhas, mas que as coloca onde não existiam.

Em dois mil anos de cristianismo ninguém entendeu suficientemente o símbolo cristão: Deus na cruz. Este símbolo quer dizer que tudo que sofre, tudo que pendura na cruz, é divino. O cristão pensa: "todos nós estamos pendurados na cruz, logo, somos divinos... apenas nós somos divinos!".

O julgamento de Nietzsche é que o cristianismo é a maior corrupção, a maior desgraça que já aconteceu à humanidade. A igreja é o anticristo que perverteu o chamamento original de Cristo a romper com pai e mãe e se tornar perfeito: ela vendeu Cristo a César.

Em um texto anexo a algumas edições de O anticristo, Nietzsche proclama as leis contra o cristianismo. Elas não eram para o seu tempo, mas para futuras gerações. Suas reflexões acerca da morte de Deus já haviam diagnosticado o alvorecer de uma nova era, e Nietzsche sempre se considerava escrevendo para a posteridade. Nas primeiras páginas de O anticristo ele advertia que seu livro pertencia a poucos, e que seus verdadeiros leitores talvez ainda nem tivessem nascido.


Lei contra o cristianismo

Dada no dia da Salvação, primeiro dia do ano Um 
(a 30 de Setembro de 1888 pelo falso calendário)

Guerra de Morte ao Vício:
O Vício é o Cristianismo

Artigo Primeiro - É viciosa qualquer forma de contranatureza. A mais viciosa espécie de homens é o padre: ele ensina a contranatureza. Contra o sacerdote não se usam argumentos, usa-se a prisão.

Artigo Segundo - Toda a participação num ofício divino é um atentado contra a moral pública. Seremos mais implacáveis contra os protestantes do que contra os católicos, mais duros contra os protestantes liberais do que contra um fundamentalista. Quanto mais próximo se está da ciência, maior é o crime de se ser cristão. Por conseguinte, o maior dos criminosos é o filósofo.

Artigo Terceiro - O lugar maldito onde o cristianismo chocou os seus ovos de basilisco* será completamente arrasado e, sendo sobre a Terra o local sacrílego, constituirá motivo de pavor para a posteridade. Nele serão criadas serpentes venenosas.

Artigo Quarto - A pregação da castidade é uma incitação pública ao antinatural. Desprezar a vida sexual, enxovalhá-la com a noção de "impuro", esse é o verdadeiro pecado contra o Espírito Santo da vida.

Artigo Quinto - Comer à mesa com um sacerdote exclui-vos, fazendo-o excomungam-se da proba sociedade. O sacerdote é o nosso tchandala - será proscrito, privado de alimentos, expulso para todo o tipo de deserto.

Artigo Sexto - Dar-se-á à história "sagrada" o nome que ela merece, isto é, história maldita; as palavras "Deus", "Salvador", "Redentor", "Santo" serão usadas como insultos, para com elas execrar os criminosos.

Artigo Sétimo - O resto nasce aqui.


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