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Nietzsche - uma filosofia para ruminar

Posted: 30.7.15 by Glauber Ataide in Marcadores:
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À primeira vista, parecem ser supérfluas as indicações acerca de como se deve ler Nietzsche. Nenhum filósofo alemão escreveu textos tão acessíveis como ele. Walter Kaufmann, o expressivo intérprete e tradutor americano de Nietzsche (em seu livro ``Nietzsche, Filósofo, Psicólogo, Anticristo") considerou que: ``cada uma de suas frases e cada um de seus escritos dão muito menos trabalho do que os intrincados períodos, redigidos numa terminologia especial, de Kant e Hegel, até mesmo de Schopenhauer."

Kaufmann acrescenta todavia: ``Os livros de Nietzsche se deixam ler mais facilmente (...) mas se deixam mais dificilmente compreender." Com isso ele se liga a Karl Jaspers, que constatou: ``Enquanto que para a maior parte dos filósofos é de se temer que, ao invés deles mesmos, leiamos livros sobre eles, com Nietzsche o perigo consiste em lê-lo mal, porque ele parece facilmente acessível."

Jaspers escreveu essa frase em seu livro sobre Nietzsche de 1935, e com isso, também, pensou seguramente nas recomendações de leitura nacional-socialistas. Mas sua compreensão se volta para algo mais fundamental do que o tratamento ideológico de Nietzsche –um escritor que quer, por meio de observações inusitadas, precisas formulações, ``pointes", locuções surpreendentes, súbitos ataques, e também por meio de exageros e excessos, atrair o leitor para seus pensamentos, ganhá-lo para eles, e, finalmente, não largá-lo mais.

Já a cuidadosa escolha dos títulos de seus livros –títulos que, em parte, se tornaram proverbiais– delata um autor que nos quer fascinar e conduzir a toda espécie de tentações. Em ``Além do Bem e do Mal", Nietzsche pondera em designar os ``filósofos do futuro... como experimentadores (`Versucher')", chama, porém, essa mesma denominação uma ``tentativa (`Versuch'), e, se quiserem, uma tentação (`Versuchung')".

Tais auto-encenações, atuando com brincadeira, podem ser encontradas amiúde em seus textos. Elas são sempre mais do que encenações, elas querem provocar o leitor: chamar para fora do habitual e do familiar. Em todo caso, elas são menos do que programas fixáveis de futuro, embora o futuro lhe importe. Por isso, seu filosofar se abre a direções completamente diversas de compreensão do mundo.

A partir do conhecimento de seu modo de trabalho e da ambiguidade de seus aforismos, poderíamos facilmente extrair a conclusão: aqui um escritor reuniu suas idéias e, de tempos em tempos, compilou livros a partir de seu reservatório de pensamentos. Como lemos aqueles e assim nos relacionamos com este, se torna então coisa do alvitre. O próprio Nietzsche sugere um tal tratamento (``Umgang") ainda em ``Aurora", quando escreve desse livro que ele não seria ``para ler de ponta a ponta (`durchlesen') ou para ler para os outros (`vorlesen'), mas para folhear, isto é, a passeio ou em viagem; tem que se poder mergulhar nele e sempre de novo retirar para fora a cabeça."
Nós nos enganaríamos, todavia, se a partir dessa ou de outras observações quiséssemos inferir o convite para uma leitura sem compromisso. Nietzsche quer nos arrancar do habitual e do familiar por meio do repentino (``Ploetzlichkeit") de um assalto aforístico. Nós devemos ser levados à admiração (``thaumazein") onde Platão e Aristóteles tinham visto a origem do filosofar. Quando levantamos a cabeça do livro, então o pensamento com o qual fomos deparados deve prosseguir trabalhando em nós.

``Fica-se preso hoje a uma frase, a uma outra amanhã, e se medita outra vez de novo, do fundo do coração: pró e contra, para dentro (`hinein') e mais além (`drueber hinaus'), assim como se é impelido pelo espírito." Isso não ficará sem consequências, essa é a expectativa de Nietzsche: ``Pouco a pouco, a partir de uma verdadeira –porque não coagida– meditação, estimulada desse modo, surge uma modificação geral das opiniões".

Isso soa diferente quando, em 1887, no prefácio à nova edição de ``Aurora", ele trata do bom leitor: ``Um tal livro não tem nenhuma pressa, além disso somos ambos amigos do `lento', tanto eu quanto meu livro. Não se foi filólogo em vão, antes nós o somos ainda, quer dizer, um mestre do ler lentamente –por fim, escreve-se também lentamente... Filologia é, com efeito, aquela venerável arte que de seus veneradores exige sobretudo uma coisa: desgarrar-se, dar-se tempo, tornar-se quieto, lento –como uma arte de ourivesaria e maestria da palavra, que só tem a realizar trabalho fino e cuidadoso."

A diferença em relação à opinião anterior reside na cautela exigida, que substitui uma certa despreocupação no trato, anteriormente aconselhada. Mais tarde, Nietzsche encontrou mais e mais motivo para a recomendação: ``ler com profundidade, com consideração e cuidado, com precauções (``Hintergedanken"), com janelas deixadas abertas, com dedos e olhos delicados" (``A Gaia Ciência", 5º livro). Consideração e cuidado são também para ser tomados aí literalmente: todo aforismo se encontra em meio a outros, que de um modo especial lhe dão contorno, assim como ele os contorna. Naturalmente, não se deve introduzir aí nenhum mistério (``hineigeheimnissen").

Já a interrupção de um pensamento nos leva a nos determos, sua substituição por um outro (que se segue, sem com certeza seguir-se dele) leva àquela ``inibição interior" que Hegel descreve na ``Fenomenologia do Espírito" como movimento do pensar especulativo. Enquanto Hegel exige da filosofia que nela o ``retornar a si do conceito", daí resultante, ``seja apresentado (`dargestellt')", pois somente através da exposição (``Darstellung") pode-se perfazer o progresso necessário do pensamento, Nietzsche –ao que parece– confia suas sentenças ao livre tratamento do leitor.

Também merece atenção aí precisamente o não-dito. Nietzsche notara: ``Em livros de aforismos como os meus se encontram, entre e por detrás de curtos aforismos, autênticas, longas e proibidas coisas e cadeias de pensamentos". O leitor é exposto a uma elevada exigência. Nietzsche enfatiza de bom grado e frequentemente que ele não escreve para qualquer um. ``Todo espírito mais nobre escolhe para si, quando quer se comunicar, também seus ouvintes; ao escolhê-los coloca contra `os outros' seus obstáculos. Todas as regras mais finas de um estilo tem aí sua origem: elas mantêm à distância, elas criam distância, proibem o `acesso', o entendimento... enquanto abre os ouvidos daqueles que nos são aparentados pelo ouvido."
O perigo de não compreender reside, no caso de Nietzsche, não na total ausência de compreensão na qual podem incorrer, por exemplo, leitores de Hegel. O perigo reside, modificando a frase de Jaspers, no entender mal o facilmente acessível e, em seguida, em abusar dele. Mas também não há o único entendimento correto do pensamento de Nietzsche em um sentido definitivo e conclusivo. Isso, porque não apenas ele próprio é inconcluso e, segundo pressupostos a ele inerentes, também tem que permanecer inconcluso. A intenção de Nietzsche é abrir os ouvidos daqueles que tem ``ouvidos aparentados".

Nesse sentido, mesmo suas peças curtas pretendem ser ``o fruto e a colheita do longamente pensado", o leitor deve se conceder tempo para eles, como está dito em ``Humano, Demasiado Humano 2". Somente pouco a pouco é que ele pode avançar para o Muito, o Profundo (``Hintergruendigen") e o Oculto que lá se esconde. A pretensão da ``forma aforística" não pode ser mais elevada do que ocorre com Nietzsche no ``Prefácio" à ``Para a Genealogia da Moral": ``Um aforismo corretamente cunhado e vazado, com estar lido, não está ainda `decifrado'; só então, antes, é que deve começar sua interpretação (`Auslegung'), para a qual é necessário uma arte da interpretação."

Ele oferece um modelo de tal interpretação que surpreende. Um aforismo é anteposto a uma longa dissertação; esta não deve ser nada mais do que o ``comentário" dele. O aforismo é formado por uma sentença de ``Assim Falava Zaratustra": `Despreocupados, trocistas, violentos –assim nos quer a sabedoria; ela é uma mulher, ela sempre ama apenas um guerreiro". A dissertação traz o título: ``O que significam ideais ascéticos?"; ela faz parte das peças mais importantes da última filosofia de Nietzsche (``Spaetphilosophie") e atesta uma história de efeitos (``Wirkungsgeschichte") particularmente rica e interessante. A reivindicação de Nietzsche a seus leitores para compreender a multiestratificada dissertação como comentário daquela sentença é absurda, se a tomarmos literalmente.

Parece que só podemos compreender a sentença como um ``motto" (mote), que também, enquanto tal, é anteposto à dissertação; examinemos mais precisamente, e então encontramos expresso nele, de modo metafórico, o contrário das múltiplas figuras do cansaço vital e fraqueza ``ascéticos" no campo da religião e da arte, da filosofia e da ciência, que o autor deixa desfilar diante de nós.

Nietzsche é um aforista que transcende a forma aforística, a explode, para tornar visível amplos contextos. No sentido estreito da palavra, ele não é, portanto, um aforista. Há que se concordar com Jaspers quando ele escreve que o aforístico, ao contrário da aparência, não teria sido abandonado mesmo depois dos escritos do período intermediário e já se encontra oculto por detrás das primeiras dissertações.

O filósofo se serviu de múltiplos meios para induzir seus leitores a um trato penetrante com seus textos. Sua escala se estende da modificação de ritmo (``Tempo") no ducto verbal (``Sprachduktus"), até sua ``expressiva pontuação", que Bernhard Greier descreveu em seu livro tão pouco notado ``Friedrich Nietzsche: Tentativa e Tentação em Seus Aforismos" (1972). A todo leitor de Nietzsche são familiares os três pontinhos com os quais ele não raro interrompe uma frase, ou até no meio de uma frase, para deixar a nós o extrair uma conclusão –muito frequentemente também a sua, a visada por ele; ou não chegar a nenhuma conclusão.

Destaques no texto por meio de sublinha, por meio de aspas que nos devem fazer ``estranhar" também palavras familiares, por meio de pontos de exclamação e interrogação, são os meios mais evidentes que ele emprega; os mais refinados só se deixam fazer visíveis em exemplos textuais singulares. Todos eles devem levar o leitor a se deter no pensamento, devem produzir uma ``inibição interior", que dá ocasião ao ``ruminar" de seus pensamentos. Haveria ``ainda tempo" até a ``legibilidade" de seus escritos; para tanto, em todo caso, não se deveria ser ``homem moderno", mas ``quase vaca", justamente por causa do ruminar.

Por Wolfgang Mueller-Lauter
Tradução de OSWALDO GIACOIA JR. 

Para que serve a filosofia?

Posted: 26.7.15 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Desta vez, ao invés de um texto, vamos conversar através de um vídeo. É o primeiro que gravo para este blog, depois de tantos anos. Vamos tentar descobrir para que serve a filosofia, qual a sua utilidade?


O tempo nas "Confissões", de Santo Agostinho

Posted: 15.7.15 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Uma das mais conhecidas abordagens sobre o tempo na história da filosofia é a de Santo Agostinho. À pergunta “que é, pois, o tempo?”, Agostinho responde, em suas Confissões: “Se ninguém mo perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei.” (AGOSTINHO, 1980, p. 265) 

Para Agostinho, a dificuldade reside não apenas em exprimir ou traduzir por palavras o seu conceito, mas também em apreendê-lo no próprio pensamento. As três divisões do tempo em passado, presente e futuro não constitui nenhum problema na vida cotidiana. Todos se entendem perfeitamente em relação ao tempo e sua passagem. Mas a conceituação do problema em sua forma clássica e socrática, perguntando “o que é isso?”, constitui um problema filosófico insuperável para o filósofo de Hipona.

Uma das questões mais importantes na discussão de Agostinho é sobre a existência do passado e do futuro. Se o passado já não existe e o futuro ainda não veio, de que modo existem estes dois tempos? E o presente, se fosse sempre presente e não passasse para o pretérito, já não seria tempo, mas eternidade. Ele então se coloca a questão: 

Mas se o presente, para ser tempo, tem necessariamente de passar para o pretérito, como podemos afirmar que ele existe, se a causa da sua existência é a mesma pela qual deixará de existir? Para que digamos que o tempo verdadeiramente existe, porque tende a não ser?. (AGOSTINHO, 1980, p. 265)

O centro do problema colocado por Agostinho é, portanto, a existência do tempo, o seu ser. No entanto, tal colocação suscita também problemas ontológicos. 

Se o passado e o futuro não existem, o que dizer também das próprias coisas passadas e futuras? Agostinho se indaga onde elas estão, se de fato existem. Evocando novamente a dificuldade de se responder a este tipo de problema, ele afirma ter uma única certeza: elas só podem estar no presente. Pois, se são futuras, ainda não estão lá; e se são pretéritas, já não estão lá. Mesmo que narremos os acontecimentos do passado na memória, este relato não são as próprias coisas, “mas sim as palavras concebidas pelas imagens daqueles fatos, os quais, ao passarem pelos sentidos, gravaram no espírito uma espécie de vestígio. ” (AGOSTINHO, 1980, p. 269). Assim, a infância de todo adulto, por exemplo, que já não existe no presente, existe no passado que já não é. Porém, sua invocação na memória é vista no tempo presente, pois ainda está na memória.

Quanto às ações futuras, nós as premeditamos na maior parte do tempo, afirma Agostinho. E esta premeditação certamente é presente, ao passo que a ação premeditada ainda não existe, pois é futura. Apenas quando empreendemos o que foi premeditado é que a ação então existirá, pois já não é futura, mas presente. Quando se diz, portanto, que se veem os acontecimentos futuros, não se veem os próprios acontecimentos ainda inexistentes, mas sim suas causas, ou os prognósticos já dotados de existência. Um exemplo seria a antecipação, no pensamento, do nascer do sol. Ao avistar a aurora predizemos que o sol nascerá. O que se vê é presente, o que se anuncia, é futuro. Não é o próprio sol que é futuro, pois este já existe, mas sim o seu nascimento, que ainda não se realizou. Mas a aurora não é ainda o nascimento do sol, e nem sua imagem formada em meu espírito. Por conseguinte, conclui Agostinho, as coisas futuras ainda não existem. (AGOSTINHO, 1980, p. 270)

O que fica claro nesta análise, afirma Agostinho, é que não há tempos futuros e nem pretéritos, sendo impróprio afirmar que os tempos são três: pretérito, presente e futuro. O mais exato seria dizer que os tempos são: presente das coisas passadas, presente das presentes, e presente das futuras. Pois estes três tempos existem em nossa mente, enquanto que não podemos afirmar nada sobre sua existência fora dela.

A abordagem de Agostinho sobre o tempo como um continuum infinitamente divisível é fortemente influenciada por Aristóteles e pelos estóicos. (KNUUTTILA, p. 111) Para o filósofo de Hipona, o único tempo realmente existe é o presente, embora este não tenha duração. O tempo seria, assim, uma sucessão ininterrupta de instantes em que o passado se torna presente e cede lugar ao futuro. Não há unidades indivisíveis de tempo, embora os espaços de tempo sejam mensuráveis. (O´DALY, 1999, p. 416) 

O tempo é algo da ordem da alma, ou de natureza psicológica. Segundo Reale e Antiseri (2007, p. 97), embora tendo uma ligação com o movimento, o tempo não está no movimento e nas coisas em movimento, mas sim na alma. Conforme se revela estruturalmente ligado à memória, à intuição e à espera, como vimos anteriormente em relação às coisas passadas, presentes e futuras, o tempo é predominantemente uma distentio animi, ou “extensão da alma”.

REFERÊNCIAS

AGOSTINHO, Santo. Confissões. São Paulo: Abril Cultural, 1980.

KNUUTTILA, SIMO. Time and creation in Augustine. In: The Cambridge Companion do Augustine. Cambridge: Cambridge University Press, 2006.

O´DALY, GERARD. Augustine. In: Routledge History of Philosophy: From Aristotle to Augustine. Vol 2. London: Routledge, 1999.

REALE, GIOVANNI; ANTISERI, DARIO. História da Filosofia: Patrística e Escolástica. 3ª ed. São Paulo: Paulus, 2007.


Problemas de tradução da obra Idealismo Alemão, de Will Dudley

Posted: 4.6.15 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Idealismo Alemão, de Will Dudley (Editora Vozes), é uma das melhores - entre as raras - introduções ao Idealismo Alemão. O chamado idealismo alemão se constitui como um dos períodos mais difíceis da história da filosofia, e compreende filósofos reconhecidamente complicados como Kant, Fichte, Schelling e Hegel. A obra de Dudley, no entanto, consegue apresentar de forma clara os traços gerais deste período sem cair na excessiva simplificação, ao mesmo tempo em que esclarece diversas incompreensões generalizadas sobre importantes aspectos das obras desses filósofos, como, por exemplo, ao explicar que a tríade "tese-antítese-síntese" não corresponde ao pensamento de Hegel, mas sim ao de Fichte. É uma obra que I highly recommend.

No entanto, a tradução dessa obra, cujo original é em inglês, apresenta sérios problemas, sejam eles de ordem conceitual ou apenas de revisão. E isso de tal modo que, diante de minhas primeiras suspeitas de erros grosseiros de tradução, fui obrigado a baixar o livro original para comparar os trechos e dirimir as dúvidas. Do início ao fim da obra fui tomando notas de alguns destes erros, e as compartilho logo abaixo. Além do mais, cabe observar que o tradutor (tive curiosidade e joguei seu nome no Google) não é filósofo, e muito menos especialista em Idealismo Alemão, o que constitui uma escolha inexplicável se tratando da Editora Vozes, uma editora cuja tradição e qualidade em filosofia dispensam comentários.


understanding (no sentido kantiano)
traduzido como compreensão, ao invés de entendimento

judgment (no sentido kantiano)
traduzido como julgamento, ao invés de juízo

"but at the same time finite subjects cannot help feeling"
"não podem ajudar a sentir" ao invés de "não podem evitar sentir"

"Because this totality is organic,"
"Já que esta totalidade é inorgânica..."

“the question why God did not prefer not to reveal himself at all..."
A questão por que Deus não preferiu revelar a si... (faltando um "não")

exactly fifty years after Kant’s publication of the Critique of Pure Reason
"exatamente quinze anos após...", ao invés de cinquenta

standpoint
ponto de partida, ao invés de ponto de vista 

self-undermining
autodeterminante, ao invés de auto-refutável

there proves
não há prova (inverteu o sentido)

confection
confecção, ao invés de doce, confeite, etc, pois no contexto se referia a um bolo

dual awareness
dupla sensibilidade

immediacy
vizinhança (!!!!!) ao invés de imediaticidade

immediacy
iminência (!!!!!) (a mesma palavra, agora com outra tradução errada!)

that there is no place for an a priori account of nature
"...que exista lugar para um relato...", faltou um "não"

Property objectifies
a propriedade identifica (ao invés de objetifica)

all three activities considered in absolute spirit
todas as três atividades consideravam de forma absoluta... ao invés de consideradas

what we are, most basically, is free.
...mais basicamente é gratuito (liberdade), isso é, somos "gratuitos" ao invés de sermos "livres"!

blurring the distinction between good and evil.
... distinção entre o bom e o belo. (trocou mal por  belo!)

Uma última observação da tradução é que os itálicos do original não aparecem na tradução.


Sobre a natureza humana – uma crítica marxista

Posted: 20.4.15 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Marx e Engels afirmam no Manifesto do Partido Comunista que a burguesia apresenta seus próprios interesses de classe como se fossem interesses gerais, de toda a sociedade. Para justificar o capitalismo como o melhor dos mundos possíveis, ela recorre, no campo teórico, a todas as formas de artifícios ideológicos, a fim de legitimar sua exploração sobre a classe trabalhadora. Entre estes, um dos mais importantes é o seu conceito de “natureza humana”, com o qual ela pretende demostrar como este sistema é o mais “natural” e o mais “adequado” à essência do homem.

Para explicar a competição e a falta de ética nas relações sociais e humanas, ela aponta para o reino animal e nos diz que somos o que vemos ali: caças e predadores. Apenas os mais aptos sobrevivem. Na linha do darwinismo social, ela nos lembra pelo Discovery Channel e pelo Globo Repórter que aquilo que acontece nas savanas – leões caçando zebras e tantos outros animais engolindo outros – é o que acontece no mercado e dentro das corporações.

Mas o que está por trás desse conceito de “natureza humana” é apenas uma determinada concepção metafísica do real, a qual universaliza as relações sociais dos homens como são agora e explica seu ser no mundo como efetivação de uma suposta “natureza humana” estática, eterna, imutável, criada por um ente superior ou resultado evolutivo de um determinismo biológico mecanicista. Seja como for, o resultado é sempre o mesmo: uma “natureza humana” herdada espiritual ou geneticamente, a respeito da qual nada se pode fazer a não ser aceita-la.

Como o humano se forma

Em A Ideologia Alemã, Marx e Engels afirmam que “o primeiro pressuposto de toda a existência humana e, portanto, de toda a história, é que todos os homens devem estar em condições de viver para poder ‘fazer história’. Mas, para viver, é preciso antes de tudo comer, beber, ter moradia, vestir-se e algumas coisas mais. O primeiro fato histórico é, portanto, a produção dos meios que permitam que haja a satisfação dessas necessidades, a produção da própria vida material”.

Ora, mas para produzir esta vida material o homem precisa se relacionar com outras pessoas, pois ele não caça, planta ou constrói sozinho. Dessa forma, ele não cria primeiro, em isolamento, uma imagem de si mesmo, dos outros e do mundo para só depois sair a este mundo e se relacionar com as pessoas. Ele já está em relação com as pessoas quando começa a fazer essas representações.

Assim, continuam os autores, “a produção de ideias, de representações e da consciência está, no princípio, diretamente vinculada à atividade material e ao intercâmbio material dos homens, como a linguagem da vida real. As representações, o pensamento, o comércio espiritual entre os homens, aparecem aqui como emanação direta do seu comportamento material. O mesmo ocorre com a produção espiritual, tal como aparece na linguagem da política, das leis, da moral, da religião, da metafísica, etc., de um povo”.

O homem não tem uma “essência” pré-determinada que lhe condiciona a agir em todas as épocas e em todas as formas de organização social sempre do mesmo modo. A consciência do homem reflete a organização de sua vida material, das relações de produção em que ele já se encontra envolvido quando começa a pensar sobre si, sobre o mundo e os outros (embora ela não se limite a ser apenas um “reflexo”). Daí Marx e Engels afirmarem que “não é a consciência que determina a vida, mas a vida é que determina a consciência”.

Primeiro o homem existe, depois se define

Um século mais tarde, inspirado nesta descoberta fundamental do marxismo, o filósofo francês Jean-Paul Sartre também contesta que o homem seja pré-determinado, possuindo uma “natureza humana” que lhe condicione de forma determinística a ser apenas aquilo que se já é, tolhendo-lhe da liberdade de ser de outro modo. O homem não tem uma essência que precede sua existência, mas, pelo contrário, sua existência precede sua essência. Ele assim se expressa:

“O que significa, aqui, dizer que a existência precede a essência? Significa que, em primeira instância, o homem existe, encontra a si mesmo, surge no mundo e só posteriormente se define. O homem, tal como o existencialista o concebe, só não é passível de uma definição porque, de início, não é nada: só posteriormente será alguma coisa e será aquilo que ele fizer de si mesmo. Assim, não existe natureza humana, já que não existe um Deus para concebê-la.” (Jean-Paul Sartre, O existencialismo é um humanismo, itálico nosso).

Para Sartre, a ideia de uma “essência” humana pressupõe que exista um Deus que a tenha concebido e que, em seus moldes, tenha criado o homem. Mas se não existe nenhum Deus, o homem primeiro existe, está no mundo, vive, e só a partir disso é que se define.

A natureza humana “científica” ou “darwinista”

Se uma determinada concepção da natureza humana pressupõe a existência de um ser supremo para criá-la, como afirma Sartre, a crítica filosófica à existência de Deus – como feita em Kant e Feuerbach, por exemplo – é suficiente para desconstruir todo o edifício a partir de seus alicerces. Mas e quando tais concepções parecem se apoiar em teorias “científicas objetivas”, como o darwinismo, que descartam a ideia de Deus?

Nestes casos é preciso lembrar que não existe conhecimento “científico objetivo” da realidade, ou seja, conhecimento imediato do mundo. Todo conhecimento é mediado (o oposto de imediato), passando também por um processo de construção social. A categoria de mediação, que Marx trouxe do sistema hegeliano, teve importante papel em sua crítica a alguns aspectos do darwinismo.

Em uma carta endereçada a Engels, datada de 18 de junho de 1862, Marx faz uma aguda observação sobre as descobertas de Charles Darwin, seu contemporâneo. Marx e Darwin chegaram a trocar cartas, nas quais expressavam mútuo respeito e admiração, sendo que Marx até mesmo enviou uma cópia de O Capital para Darwin. Na primeira vez que leu Sobre a origem das espécies, o filósofo alemão ficou positivamente impressionado. Mas cerca de um ano depois, ao reler a obra, ele percebeu algo que lhe escapara num primeiro momento:

“É notável como Darwin reconhece nas plantas e nos animais a sua sociedade inglesa com sua divisão do trabalho, concorrência, desenvolvimento de novos mercados, ‘invenções’ e a ‘luta pela vida’ Malthusiana. É o bellum omnium contra omnes de Hobbes, e lembra Hegel na ‘Fenomenologia’, onde a sociedade civil é vista como ‘reino animal espiritual’, enquanto que em Darwin o reino animal figura como sociedade civil.” (1) (tradução nossa)

Como se pode ver, Marx identificou diversas determinações sociais que atuaram como mediações no pensamento darwiniano. A suposta “natureza humana” que alguns ideólogos burgueses tentam derivar do darwinismo não passaria, portanto, de um anacronismo: seria apenas a projeção do capitalismo e do burguês mesquinho do século XIX para o processo de evolução dos seres vivos e do gênero humano. Mas chamamos a atenção aqui para o fato de que Marx não rejeitou o darwinismo. Muito pelo contrário. Em outra carta a Engels ele se referiu ao darwinismo como a “base natural de nosso pensamento”. (2) No entanto, sua apropriação das descobertas de Darwin não foi incondicional ou acrítica.

A essência humana

O homem do capitalismo é apenas o homem do capitalismo – ele não é expressão de uma “natureza humana” eterna, imutável. Em uma outra forma de organização social, em que as coisas sejam produzidas não para dar lucro, mas sim para satisfazer necessidades humanas, em que as relações sejam pautadas pela cooperação e não pela competição, a consciência do homem também refletirá esta nova forma de organização. Em suas Teses sobre Feuerbach, na tese VI, Marx afirma: “Mas a essência humana não é uma abstração intrínseca ao indivíduo isolado. Em sua realidade, ela é o conjunto das relações sociais”.

O homem possui, contudo, certas características que têm perpassado todas as formas de organização social, e que provavelmente ainda existirão no novo homem do comunismo. (3) Mas este homem perene, das civilizações tanto passadas quanto futuras, se define não por aquilo que lhe aproxima dos animais, mas sim por aquilo que lhe é específico, distintivo (pois uma definição é uma delimitação). Por isso, Sócrates dizia que a essência do homem é a razão, Aristóteles lhe chamava de animal político (zoon politikon) e Freud dizia que o homem é o único ser capaz de sublimar suas pulsões, isso é, de dizer “não” aos seus impulsos biológicos. Neste último sentido, o que é especificamente humano não é exatamente o impulso para matar ou destruir, por exemplo, mas a capacidade de dizer “não” a estes impulsos e reelaborá-los no uso das mais altas construções sociais.

A história do homem é a história da superação de suas determinações biológicas, de sua elevação acima da natureza bruta, da vitória da civilização sobre a barbárie. E é nesta direção que acena, no horizonte, o próximo passo desse processo civilizatório: a instauração da sociedade comunista. Se a opressão do homem pelo homem tem sido uma constante em grande parte da história do mundo, também nunca estiveram ausentes o desejo de liberdade e a luta por sua emancipação. O homem é um ser aberto ao mundo, e sempre será o que ele fizer de si mesmo.

Glauber Ataide, graduando em Filosofia pela UFMG

Notas

1.A íntegra desta carta se encontra em Marx-Engels Werke, Band 30, Dietz Verlag Berlin, 1974, p. 249. “Es ist merkwürdig, wie Darwin unter Bestien und Pflanzen seine englische Gesellschaft mit ihrer Teilung der Arbeit, Konkurrenz, Aufschluß neuer Märkte, „Erfindungen” und Malthusschem „Kampf ums Dasein” wiedererkennt. Es ist Hobbes’ bellum omnium contra omnes, und es erinnert an Hegel in der „Phänomenologie”, wo die bürgerliche Gesellschaft als „geistiges Tierreich”, während bei Darwin das Tierreich als bürgerliche Gesellschaft figuriert.“

2.No discurso diante do túmulo de Karl Marx, Engels ainda comparou seu amigo com Darwin, dizendo que “assim como Darwin descobriu a lei do desenvolvimento da natureza orgânica, descobriu Marx a lei do desenvolvimento da história humana”.

3.É possível entrever um exemplo dessa continuidade do homem das civilizações tanto passadas quanto futuras quando Marx analisa a arte grega e sua capacidade de ainda hoje nos proporcionar prazer estético.

“Contra a pena de morte”, por Norberto Bobbio

Posted: 21.1.15 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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1. Se examinarmos o longo curso da história humana, mais que milenar, teremos de reconhecer – quer isso nos agrade ou não – que o debate sobre a abolição da pena de morte mal começou. Durante séculos, o problema de se era ou não lícito (ou justo) condenar um culpado à morte sequer foi colocado. Jamais se pôs em dúvida que, entre as penas a infligir a quem violou as leis da tribo, ou da cidade, ou do povo, ou do Estado, estivesse também a pena de morte, ou mesmo que a pena de morte fosse a rainha das penas, aquela que satisfazia ao mesmo tempo as necessidades de vingança, de justiça e de segurança do corpo coletivo diante de um dos seus membros que se havia corrompido. Para começar, tomemos um livro clássico, o primeiro grande livro sobre as leis e sobre a justiça de nossa civilização ocidental: as Leis, os Nómol, de Platão.

No Livro IX, Platão dedica algumas páginas ao problema das leis penais. Reconhece que “a pena deve ter a finalidade de tornar melhor”; mas aduz que, “se se demonstrar que o delinquente é incurável, a morte será para ele o menor dos males.” Não cabe aqui mencionar todas as vezes em que se fala nesse livro sobre a pena de morte em relação a uma série muito ampla de delitos, desde os delitos contra as divindades e os cultos, até aqueles contra os genitores, contra o pai e a mãe, ou, em geral, contra os homicídios voluntários. Falando precisamente de homicidas voluntários, Platão diz em certo momento que eles devem necessariamente “pagar a pena natural”, ou seja, a de “padecer o que fizeram”. Chamo a atenção para o adjetivo “natural” e para o princípio do “padecer” o que se fez. Esse princípio, que nasce da doutrina da reciprocidade – que é dos pitagóricos (mais antiga ainda, portanto, que a de Platão) e que será formulada pelos juristas medievais e repetida durante séculos com a famosa expressão segundo a qual o malum passionis deve corresponder ao malum actionis – atravessa toda a história do direito penal e chega até nós absolutamente inalterado. Como veremos mais adiante, é uma das justificações mais comuns para a pena de morte.

Citei esse célebre texto da Antiguidade apenas para apresentar um testemunho – o mais autorizado possível – de como a pena de morte foi considerada não só perfeitamente legítima, mas até mesmo “natural”, desde as origens de nossa civilização, bem como do fato de que aceitá-la como pena jamais constituiu um problema. Poderia citar muitos outros textos. A imposição da pena de morte constitui tão pouco um problema que até mesmo uma religião da não-violência, do noli resistere malo, uma religião que, sobretudo nos primeiros séculos, levantava o problema da objeção de consciência ao serviço militar e à obrigação de portar armas, uma religião que tem por inspirador divino um condenado à morte, jamais se opôs substantivamente à prática da pena capital.

2. É preciso chegar ao Iluminismo, no coração do século XVIII, para encontrar pela primeira vez um sério e amplo debate sobre a licitude ou oportunidade da pena capital, o que não quer dizer que o problema não tivesse jamais sido levantado antes. A importância histórica – que nunca será suficientemente sublimada – do famoso livro de Beccaria (1764) reside precisamente nisto: trata-se da primeira obra que enfrenta seriamente o problema e oferece alguns argumentos racionais para dar-lhe uma solução que contrasta com uma tradição secular.

É preciso dizer, desde já, que o ponto de partida usado por Beccaria em sua argumentação é a função exclusivamente intimidatória da pena. “A finalidade [da pena] não é senão impedir o réu de causar novos danos aos seus concidadãos e demover os demais de fazerem o mesmo. Veremos em seguida a importância desse ponto de partida para o desenvolvimento do tema. Se esse é o ponto de partida, trata-se de saber qual é a força intimidatória da pena de morte com relação a outras penas. E esse é o tema que se põe ainda hoje e que foi várias vezes posto pela própria Amnesty International. A resposta de Beccaria deriva do Princípio introduzido no parágrafo intitulado “Doçura das penas”. O princípio é o seguinte: “Um dos maiores freios contra os delitos não é a crueldade das penas, mas a infalibilidade dessas, e, por conseguinte, a vigilância dos magistrados, e a severidade de um juiz inexorável, a qual, para ser útil à virtude, deve ser acompanhada de uma legislação doce.” Suavidade das penas. Não é necessário que as penas sejam cruéis para serem dissuasórias. Basta que sejam certas. O que constitui uma razão (aliás, a razão principal) para não se cometer o delito não é tanto a severidade da pena quanto a certeza de que se será de algum modo punido. Subsidiariamente, Beccaria introduz também um segundo princípio, além da certeza da pena: a intimidação nasce não da intensidade da pena, mas de sua extensão, como é o caso, por exemplo, da prisão perpétua. A pena de morte é muito intensa, ao passo que a prisão perpétua é muito extensa. Portanto, a perda perpétua total da própria liberdade tem mais força intimidatória do que a pena de morte.

Ambos os argumentos de Beccaria são utilitaristas, no sentido de que contestam a utilidade da pena de morte “nem útil nem necessária”, como se expressa Beccaria ao iniciar sua argumentação. A esses argumentos, Beccaria aduz um outro, que provocou a maior perplexidade (e que, de fato, foi hoje em grande parte abandonado). Trata-se do chamado argumento contratualista, que deriva da teoria do contrato social ou da origem convencional da sociedade política. Esse argumento pode ser assim enunciado: se sociedade política deriva de um acordo dos indivíduos que renunciam a viver em estado de natureza e criam leis para se proteger reciprocamente, é inconcebível que esses indivíduos tenham posto à disposição de seus semelhantes também o direito à vida.

Sabe-se que o livro de Beccaria teve estrepitoso sucesso. Basta pensar na acolhida que lhe deu Voltaire: grande parte da fama do livro de Beccaria se deve sobretudo ao fato de que foi acolhido favoravelmente por Voltaire. Beccaria era um ilustre desconhecido, ao passo que na pátria das luzes, que era a França, Voltaire era Voltaire. Sabe-se também que, por influência do debate sobre a pena de morte que teve lugar naqueles anos, foi emanada a primeira lei penal que aboliu a pena de morte: a lei toscana de 1786, que no §51, depois de uma série de considerações (entre as quais emerge, mais uma vez, sobretudo a função intimidatória da pena, mas sem negligenciar a sua função também corretora a correção do réu, também ele filho da sociedade e do Estado), declara: “abolir para sempre a pena de morte contra qualquer réu, seja primário ou contumaz, e ainda que confesso e convicto de qualquer delito declarado capital pelas leis até aqui promulgadas, todas as quais ficam revogadas e abolidas no que a isso se refere.”

Talvez ainda mais clamoroso tenha sido o eco que obteve na Rússia de Catarina II, em cuja célebre Instrução, proposta já em 1765, ou seja, imediatamente após a publicação do livro de Beccaria, pode-se ler o seguinte: “A experiência de todos os séculos prova que a pena de morte jamais tornou uma nação melhor. Segue-se uma frase que parece extraída do livro de Beccaria: “Portanto, se demonstro que, no estado ordinário da sociedade, a morte de um cidadão não é nem útil nem necessária, terei feito vencer a causa da humanidade.

3. Contudo, deve-se acrescentar que, apesar do sucesso literário do livro junto ao público culto, não só a pena de morte não foi abolida nos países civilizados (ou que se consideravam civilizados com relação à época e aos países considerados bárbaros, quando não mesmo selvagens), mas a causa da abolição tampouco estava destinada a predominar na filosofia penal da época. Poderíamos fazer muitas citações. Escolho três delas, entre os mais ilustres pensadores da época: Rousseau, no Contrato social (que saiu em 1762, dois anos antes do livro de Beccaria), o grande Kant e o ainda maior Hegel. No capítulo do Contrato social intitulado “Do direito de vida e de morte” Rousseau refutou antecipadamente o argumento contratualista. Não é verdade, disse ele, que o indivíduo, ao se acordar com os outros para constituir o Estado, reserve-se um direito à vida em qualquer caso: “É para não ser vítima de um assassino que alguém consente em morrer caso venha a ser assassino. Portanto, a atribuição ao Estado do direito à própria vida serve não para destruí-la, mas para garanti-la contra o ataque dos outros.”

Poucos anos depois da publicação de Dos delitos e das penas, um outro ilustre escritor político, Filarigieri, em Scienza della legislazione (1783), a maior obra italiana de filosofia política da segunda metade do século XVIII, caracterizou como “sofisma” o argumento contratualista de Beccaria, afirmando que é verdade que, no estado de natureza, o homem tem direito à vida, sendo também verdade que não pode renunciar àquele direito, mas pode perdê-lo com seus delitos. Se pode perdê-lo no estado de natureza, não se vê por que não possa perdê-lo no estado civil, que é instituído precisamente com a finalidade não de criar um novo direito, mas de tornar seguro o exercício do antigo direito, o do ofendido de reagir com força à força, de rechaçar com a ofensa à vida do outro a ofensa contra a própria vida.

Os dois maiores filósofos da época, Kant e Hegel – um antes, outro depois da Revolução Francesa -, defendem uma rigorosa teoria retributiva da pena e chegam à conclusão de que a pena de morte é até mesmo um dever. Kant – partindo da concepção retributiva da pena, segundo a qual a função da pena não é prevenir os delitos, mas simplesmente fazer justiça, ou seja, fazer com que haja uma perfeita correspondência entre o crime e o castigo (trata-se da justiça como igualdade, daquela espécie de igualdade que os antigos chamavam de “igualdade corretiva”) – afirma que o dever da pena de morte cabe ao Estado e é um imperativo categórico, não um imperativo hipotético, fundado na relação meio-fim. Cito diretamente o texto, selecionando a frase mais significativa: “Se ele matou, deve morrer. Não há nenhum sucedâneo, nenhuma comutação de pena que possa satisfazer a justiça. Não há nenhuma comparação possível entre uma vida, ainda que penosa, e a morte; e, por conseguinte, nenhuma outra compensação entre o delito e a punição, salvo a morte juridicamente infligida ao criminoso, mas despojada de toda maldade que poderia, na pessoa de quem a padece, revoltar a humanidade.”

Hegel vai além. Depois de ter refutado o argumento contratualista de Beccaria, negando que o Estado possa nascer de um contrato, afirma que o delinquente não só deve ser punido com uma pena correspondente ao crime cometido, mas tem o direito de ser punido com a morte, já que somente a punição o resgata e é somente através dela que ele é reconhecido como ser racional (aliás, ele é “honrado”, diz Hegel). Num aderido, porém, ele tem a lealdade de reconhecer que a obra de Beccaria teve, pelo menos, o efeito de reduzir o número de condenações à morte.

4. O infortúnio quis que, enquanto os maiores filósofos da época continuavam a defender a legitimidade da pena de morte, um dos maiores defensores de sua abolição tivesse sido, como se sabe, Robespierre, num famoso discurso à Assembleia Constituinte de maio de 1791; ou seja, Robespierre, o mesmo que iria passar à história, na época da Restauração (a época em que Hegel escreveu sua obra), como o maior responsável pelo terror revolucionário, pelo assassinato indiscriminado (de que ele próprio foi vítima, quase que como para demonstrar a inexorabilidade da lei segundo a qual a revolução devora os seus próprios filhos, a violência gera violência, etc.). Esse discurso de Robespierre deve ser recordado porque contém uma das condenações mais convincentes, do ponto de vista da argumentação, da pena de morte. Ele refuta, em primeiro lugar, o argumento da intimidação, afirmando não ser verdade que a pena de morte seja mais intimidadora do que as demais penas; e aduzia o exemplo quase ritual, já utilizado por Montesquieu, do Japão: na época, afirmava-se que, embora as penas aplicadas no Japão fossem atrozes, o Japão era um país de criminosos. Depois, além desse argumento, refuta também aquele, fundado na justiça. Finalmente, aduz o argumento – que Beccaria não recordara – da irreversibilidade dos erros judiciários. Todo o discurso se inspira no principio de que a suavidade das penas (e aqui a derivação de Beccaria é evidente) é prova de civilização, enquanto a crueldade delas caracteriza os povos bárbaros (mais uma vez, o Japão). Não nos afastaremos muito da verdade se dissermos que o mais célebre e inteligente continuador (quase repetidor) de Beccaria foi – desgraçadamente – Robespierre.

5. Apesar da persistência e da predominância das teorias antiabolicionistas, não se pode dizer que o debate sobre a pena de morte, levantado por Beccaria, tenha deixado de produzir efeitos. A contraposição entre abolicionistas e antiabolicionistas é demasiadamente simplista e não representa exatamente a realidade. O debate sobre a pena de morte não visou somente à sua abolição: num primeiro momento, dirigiu-se para a limitação dessa pena a alguns crimes graves, especificamente determinados; depois, para a eliminação dos suplícios (ou crueldades inúteis) que, via de regra, a acompanhavam; e, num terceiro momento, para a supressão de sua execução publica. Quando se deplora que a pena de morte ainda exista na maioria dos Estados, esquece-se que o grande passo à frente realizado pelas legislações de quase todos os países, nos dois últimos séculos, constitui na diminuição dos crimes puníveis com a pena de morte. Na Inglaterra, no início do século XVIII, ainda eram mais de duzentos os casos, entre os quais até mesmo o de crimes hoje punidos com poucos anos de prisão. Mesmo nos ordenamentos nos quais a pena de morte sobreviveu (e ainda sobrevive), ela é aplicada, quase exclusivamente, no caso de homicídio premeditado. Ao lado da diminuição dos delitos capitais, inclui-se entre as medidas atenuadoras, a supressão da obrigação de aplicá-la nos casos previstos, que é substituída pelo poder discricionário do juiz ou dos jurados de aplicá-la ou não. No que se refere à crueldade da execução, basta a leitura daquele fascinante livro de Foucault que é Vigiar e Punir, no qual se descrevem – no capítulo intitulado “A ostentação dos suplícios” – alguns episódios aterradores de execuções capitais precedidas de longas e ferozes sevícias. Um autor inglês do século XVIII, citado por Foucault, escreve que a morte-suplício é a arte de conservar a vida no sofrimento, subdividindo-a em mil mortes e obtendo-se – antes que cesse a existência – as mais refinadas agonias. O suplício é, por assim dizer, a multiplicação da pena de morte: como se a pena de morte não bastasse, o suplício mata uma pessoa várias vezes. O suplício responde a duas exigências: deve ser infamante (seja pelas cicatrizes que deixa no corpo, seja pela ressonância de que é acompanhado) e clamoroso, ou seja, deve ser constatado por todos.

Esse elemento nos remete ao tema da publicidade e, portanto, à necessidade de que a execução fosse pública (publicidade que, deve-se observar, não desaparece com a supressão das execuções públicas, já que se estende ao desfile em meio à multidão dos deportados encadeados rumo aos trabalhos forçados). Hoje, a maioria dos Estados que conservaram a pena de morte a executam com a discrição e a reserva com que se executa um doloroso dever. Muitos Estados não abolicionistas buscaram não apenas eliminar os suplícios, mas tornar a pena de morte o mais possível indolor (ou menos cruel).

Naturalmente, isso não quer dizer que o conseguiram: basta ler relatórios sobre as três formas de execução mais comuns – a guilhotina francesa, o enforcamento inglês e a cadeira elétrica norte-americana – para compreender que não é inteiramente verdade que tenha sido eliminado também o suplício, já que a morte nem sempre é tão instantânea como se deixa crer, ou se busca fazer crer, por parte dos que defendem a pena capital. De qualquer modo, a execução não se realiza mais à vista do público, ainda que o eco de uma execução capital na imprensa – e não se deve esquecer que, num regime de liberdade de imprensa, tem amplo espaço e difusão a imprensa sensacionalista – substitua a antiga presença do público na praça, diante do patíbulo. Sobre a vergonha da publicidade como argumento contra a pena de morte, gostaria de me limitar a recordar as invectivas de Victor Hugo, que por toda a vida a combateu apaixonadamente, com toda a potência do seu estilo eloqüente (ainda que hoje nos possa parecer grandiloquente). Recentemente, foi publicado na França um livro que recolhe os escritos de Victor Hugo sobre a pena de morte: uma fonte de citações. Da leitura dessas páginas, resulta que ele batalhou, da juventude à velhice, contra a pena de morte, em todas as ocasiões, inclusive como politico, mas também através dos escritos, das poesias e dos romances. As invectivas quase sempre partem da visão ou da descrição de uma execução. Em Os Miseráveis, ele escreveu: “0 patíbulo, quando está lá, erguido para o céu, tem algo de alucinante. Alguém pode ser indiferente quanto à pena de morte e não se pronunciar, não dizer nem sim nem não; mas isso só enquanto não viu uma guilhotina. Quando vê uma, o abalo é violento: ele é obrigado a tomar partido a favor ou contra.” Hugo recorda que, quando tinha dezesseis anos, viu uma ladra que um carrasco marcava com ferro em brasa: “Ainda conservo no ouvido, quarenta anos depois, e sempre conservarei na alma, o espantoso grito da mulher. Era uma ladra; mas, a partir daquele momento, tornou-se para mim uma mártir.”

Chamei a atenção para essa evolução no interior do instituto da pena de morte para mostrar que, embora essa pena não tenha sido abolida, a polêmica iluminista não deixou de ter efeitos. Gostaria ainda de acrescentar que, frequentemente, mesmo quando a pena de morte é pronunciada por um tribunal, nem sempre é executada: ou é suspensa, e depois comutada, ou o condenado é agraciado. Nos Estados Unidos, o caso de Gary Gilmore, que foi justiçado em janeiro de 1977, no estado de Utah, provocou grande comoção porque, desde 1967 (há dez anos), ninguém fora justiçado. Em 1972, uma famosa sentença da Suprema Corte estabeleceu que muitas das circunstâncias em que se aplicava a pena capital eram anticonstitucionais, com base na VIII Emenda, que proíbe impor penas cruéis e desproporcionais (“unusual”). Porém, em 1976, uma outra decisão mudou a interpretação, afirmando que a pena de morte nem sempre viola a Constituição, com o que se abriu caminho para uma nova execução, precisamente a de Gilmore. O fato de que uma condenação à morte tenha suscitado tantas discussões e reanimado as associações abolicionistas mostra que, mesmo nos países onde ainda existe a pena capital, há uma opinião pública vigilante e sensível, que obstaculiza sua aplicação.

6. Do que disse até aqui, resulta já bastante evidente que os argumentos pró e contra dependem quase sempre da concepção que os debatedores têm da função da pena. As concepções tradicionais são sobretudo duas: a retributiva, que repousa na regra da justiça como igualdade (já a vimos em Kant e em Hegel) ou correspondência entre iguais, segundo a máxima de que é justo que quem realizou uma má ação seja atingido pelo mesmo mal que causou a outros (a lei de talião, do olho-por-olho, de que é exemplo conhecidíssimo o inferno de Dante), e, portanto, de que é justo (assim o quer a justiça) que quem mata seja morto (não tem direito à vida quem não a respeita, perde o direito à vida quem a tirou de outro, etc.); e a preventiva, segundo a qual a função da pena é desencorajar, com a ameaça de um mal, as ações que um determinado ordenamento considera danosas. Com base nessa concepção da pena, é óbvio que a pena de morte só se justifica se se puder demonstrar que sua força de intimidação é grande e superior à de qualquer outra pena (incluindo a prisão perpétua). As duas concepções da pena se contrapõem também como concepção ética e concepção utilitarista; elas se fundem em duas teorias diversas da ética, a primeira numa ética dos princípios ou da justiça, a segunda numa ética utilitarista (que predominou nos últimos séculos e predomina até hoje no mundo anglo-saxônico). Pode-se dizer que, em geral, os adeptos da pena de morte apelam para a primeira (como, por exemplo, Kant e Hegel), enquanto os adversários se valem da segunda (como, por exemplo, Beccaria).

Permitam-me expor um episódio histórico, frequentemente relembrado num debate como o nosso, que remonta nada menos do que a 428 a.C., retirado das Histórias de Tucídides. Os atenienses têm de decidir sobre a sorte dos habitantes de Mitilene, que se haviam rebelado. Falam dois oradores: Cléon afirma que os rebeldes devem ser condenados à morte porque lhes deve ser imposta a lei de talião e a punição que merecem; além disso, ele aduz que os outros aliados saberão assim que quem se rebela é punido com a morte; Diódoto, ao contrário, afirma que a pena de morte não serve para nada, já que “é impossível (e dá provas de grande ingenuidade quem assim pensa) que a natureza humana, quando se empenha com paixão na realização de qualquer projeto, possa ter um freio na força das leis ou em qualquer outra ameaça, de modo que é preciso evitar ter excessiva confiança em que a pena de morte seja uma garantia para impedir o mal.” Continua sugerindo a observância de um critério de utilidade, segundo o qual – em vez de matar os habitantes de Mitilene – deve-se buscar transformá-los em aliados. 

7. Na realidade, o debate complica-se um pouco mais porque as concepções da pena não são somente essas duas (embora essas duas sejam, de longe, as predominantes). Recordo, pelo menos, outras três: a pena como expiação, como emenda e como defesa social. Dessas, a primeira parece mais favorável à abolição do que à conservação da pena de morte: para expiar preciso continuar a viver. Mas pode-se também afirmar que verdadeira expiação é a morte, – a morte entendida como purificação da culpa, como cancelamento da mácula: o sangue se lava com sangue. A rigor, essa concepção da pena é compatível tanto com a tese da manutenção quanto com a da abolição da pena de morte.

A segunda – a da emenda – é a única que exclui totalmente a pena de morte. Mesmo o mais perverso dos criminosos pode se redimir: se ele for morto, ser-lhe-á vedado o caminho do aperfeiçoamento moral, que não pode ser recusado a ninguém. Quando os iluministas disseram que a pena de morte deveria ser substituída pelos trabalhos forçados, justificaram frequentemente essa tese afirmando que o trabalho redime. No comentário ao livro de Beccaria, Voltaire escreveu o seguinte, referindo-se à política penal de Catarina II, favorável à abolição da pena de morte: “Os delitos não se multiplicaram por causa dessa humanidade e quase sempre ocorreu que os culpados, enviados à Sibéria, lá se tornaram pessoas de bem”; e, pouco após, acrescenta: “Se os homens forem obrigados a trabalhar, tornar-se-ão pessoas honestas.” (Caberia fazer um longo discurso sobre essa ideologia do trabalho, cuja extrema, macabra, demoníaca consequência se revelou nas palavras colocadas na entrada dos campos de concentração nazistas – “Arbeit macht frei”, ou seja, “o trabalho liberta”).

A terceira concepção, a da defesa social, é também ambígua: geralmente, os defensores da pena como defesa social foram e são abolicionistas, mas o fazem por razões humanitárias (e também porque recusam o conceito de culpa que está na base da concepção redistributiva, a qual só encontra sua própria justificação se admitir a liberdade do querer). Todavia, a defesa social não exclui a pena de morte: poder-se-ia afirmar que o melhor modo para se defender dos criminosos é eliminá-los.

8. Embora sejam muitas as teorias da pena, as duas predominantes são as que chamei de ética e de utilitarista. De resto, trata-se de um contraste que vai além do contraste entre dois modos diversos de conceber a pena, já que remete a uma oposição mais profunda entre duas éticas (ou morais), entre dois critérios diversos de julgamento do bem e do mal: ou com base em princípios bons, acolhidos como absolutamente válidos, ou com base em bons resultados, entendendo-se por bons resultados os que levam à maior utilidade do maior número, como afirmavam os utilitaristas (Beccaria, Bentham, etc.). Uma coisa, com efeito, é dizer que não se deve fazer o mal porque existe uma norma que o proíbe (por exemplo, os dez mandamentos); outra é dizer que não se deve fazer o mal porque ele tem consequências funestas para a convivência humana. Dois critérios diversos e que não coincidem, porque pode muito bem ocorrer que uma ação considerada má com base em princípios tenha consequências utilitaristicamente boas, e vice-versa.

A julgar pela disputa a favor ou contra a pena de morte, como vimos, dir-se-ia que os defensores da pena de morte seguem uma concepção ética da justiça, enquanto os abolicionistas são seguidores de uma concepção utilitarista. Reduzidos a seus termos mais simples, os dois raciocínios opostos poderiam ser resumidos nestas duas afirmações: para uns, “a pena de morte é justa”; para os outros, “a pena de morte não é útil”. Justa, para os primeiros, independentemente de sua utilidade. Desse ponto de vista, o raciocínio kantiano e irrepreensível: considerar o condenado à morte como um espantalho significaria reduzir a pessoa a meio, ou, como se diria hoje, instrumentalizá-la. Não útil, para os segundos, independentemente de qualquer consideração de justiça. Em outras palavras: para os primeiros, a pena de morte poderia até não ser útil, mas é justa; para os segundos, poderia até ser justa, mas não é útil. Portanto, enquanto os que partem da teoria da retribuição veem a pena de morte como um mal necessário (e talvez até como um bem, como vimos no uso de Hegel, já que reconstitui a ordem violada), os que partem da teoria intimidatória julgam a pena de morte como um mal não necessário e, portanto, como algo que de modo algum pode ser considerado um bem.

9. Não há dúvida de que, a partir de Beccaria, o argumento fundamental dos abolicionistas foi o da força de intimidação. Mas a afirmação de que a pena de morte teria menos força intimidatória do que a pena a trabalhos forçados era, na época, uma afirmação fundada em opiniões pessoais, derivadas, por sua vez, de uma avaliação psicológica do estado de espírito do criminoso, não sufragada por nenhuma comprovação factual. Desde que foi aplicado ao estudo da criminalidade o método da investigação positiva, foram feitas pesquisas empíricas sobre o maior ou menor poder dissuasório das penas, comparando-se os dados da criminalidade em períodos e em lugares com ou sem pena de morte. Essas investigações, naturalmente, foram facilitadas nos Estados Unidos pelo fato de existirem estados em que vigora a pena de morte e outros em que ela foi abolida. No Canadá, um Moratorium Act de 1967, que suspendeu a pena de morte por cinco anos, permitiu estudar a incidência dessa pena sobre a criminalidade, comparando-se o presente com o passado. Um exame cuidadoso desses estudos mostra que, na realidade, nenhuma dessas pesquisas forneceu resultados inteiramente convincentes. Basta pensar em todas as variáveis concomitantes que têm de ser levadas em conta, além da relação simples entre diminuição das penas e aumento ou diminuição dos delitos. Por exemplo: a certeza da pena, problema já colocado por Beccaria (o que dissuade mais, a gravidade da pena ou a certeza de que ela será aplicada?). Somente se a certeza permanecer estável nos dois momentos é que a comparação pode ser feita. É o caso do terrorismo na Itália: o que contribuiu mais para a derrota do terrorismo, o agravamento das penas ou o melhoramento dos meios para descobrir os terroristas?

Diante dos resultados até agora obtidos por essa análise (nem sempre probatórios), tem-se buscado refúgio nas pesquisas de opinião: as opiniões dos juízes, dos condenados à morte, do público. Mas é preciso começar dizendo: em matéria de bem e de mal, o princípio da maioria não vale; e Beccaria o sabia muito bem, tanto que escreveu o seguinte: “Se me opusessem o exemplo de quase todos os séculos e de quase todas as nações que puniram alguns delitos com pena de morte, responderia que esse exemplo se anula em face da verdade, contra a qual não há prescrição, que a história dos homens nos dá a ideia de um imenso arquipélago de erros, entre os quais sobrenadam, poucas e confusas, e a grandes intervalos de distância, algumas verdades.” Em segundo lugar, as pesquisas de opinião provam pouco, já que estão sujeitas às mudanças de humor das pessoas, que reagem emotivamente diante dos fatos de que são espectadoras. E sabido que a atitude do público diante da pena de morte varia de acordo com a situação de menor ou maior tranquilidade social. Se não tivessem ocorrido o terrorismo e o aumento da criminalidade nestes últimos anos, é provável que o problema da pena de morte sequer tivesse sido levantado. A Itália foi um dos primeiros Estados a abolir a pena de morte (em 1889, no código penal Zanardelli): quando Croce escreveu a Storia d’Italia, em 1928, afirmou que a abolição da pena de morte tornara-se um dado dos costumes, e que a simples ideia da restauração da pena capital era incompatível com o sentimento nacional. Apesar disso, poucos anos depois, o fascismo a restaurou sem grandes abalos na opinião pública, com exceção do protesto estéril de alguns antifascistas. Entre esses, recordo o livro de 1932 escrito por Paolo Rossi, que depois se tornou ministro da República e também presidente da Corte Constitucional, La pena di morte e la sua critica, no qual o autor pronuncia uma nítida condenação da pena de morte contra o projeto de novo código penal então em elaboração, recorrendo principalmente ao argumento da emenda. O lado débil do argumento que baseia a exigência de abolir a pena de morte na sua menor força de intimidação reside no fato de que, caso fosse possível demonstrar de modo irrefutável que a morte tem (pelo menos em determinadas situações) um poder de dissuasão maior do que o de outras penas, ela deveria ser mantida ou restabelecida. Não se pode ocultar a gravidade da objeção. Por isso, penso que seria, não diria um erro, mas um grande limite fundar a tese da abolição apenas num argumento utilitarista.

É verdade que existem outros argumentos secundários, mas que, a meu ver, não são decisivos. Há o argumento da irreversibilidade da pena de morte e, portanto, da irreparabilidade do erro judiciário. Mas os antiabolicionistas podem sempre retorquir que a pena capital, precisamente por sua gravidade e irremediabilidade, deve ser aplicada somente em caso de certeza absoluta de culpa. Nesse caso, tratar-se-ia de introduzir uma nova limitação à aplicação. Mas, se a pena de morte é justa e dissuasória, não importa que seja pouco aplicada, mas sim que exista. Há, além disso, um argumento contrário de peso: o das recidivas. Num opúsculo recente sobre a pena de morte (1980), o último que tive oportunidade de ler, publicado na popular coleção francesa “Que sais-je?”, o autor – Marcel Normand – defende ferrenhamente a pena de morte e insiste no argumento da recidiva: cita alguns casos (que reconheço impressionantes) de assassinos condenados à morte e depois agraciados, os quais, quando retornaram à liberdade, apesar dos muitos anos de prisão, voltaram a cometer homicídios. Surge a inquietadora questão: se a condenação à morte tivesse sido executada, uma ou mais vidas humanas teriam sido poupadas. E a conclusão: para poupar a vida de um delinquente, a sociedade sacrificou a vida de um inocente. O leitmotiv do autor é o seguinte: enquanto os abolicionistas se põem do ângulo do criminoso, os antiabolicionistas se situam no das vítimas. Quem tem mais razão?

10. Ainda mais embaraçosa é a pergunta que me formulei há pouco, a respeito da tese utilitarista: o limite da tese está numa pura e simples presunção, a de que a pena de morte não serve para fazer diminuir os crimes de sangue. Mas se se conseguisse demonstrar que ela previne tais crimes? Então o abolicionista teria de recorrer a outra instância de caráter moral, a um princípio posto como absolutamente indiscutível (um autêntico postulado ético). E esse argumento só pode ser derivado do imperativo moral “não matarás”, que deve ser acolhido como um princípio de valor absoluto. Mas como? Poder-se-ia retrucar: o indivíduo tem o direito de matar em legítima defesa, enquanto a coletividade não o tem? Responde-se: a coletividade não tem esse direito porque a legítima defesa nasce e se justifica somente como resposta imediata numa situação na qual seja impossível agir de outro modo; a resposta da coletividade é mediatizada através de um processo, por vezes até mesmo longo, no qual se conflitam argumentos pró e contra. Em outras palavras, a condenação à morte depois de um processo não é mais um homicídio em legítima defesa, mas um homicídio legal, legalizado, perpetrado a sangue frio, premeditado. Um homicídio que requer executores, ou seja, pessoas autorizadas a matar. Não é por acaso que o executor da pena de morte, embora autorizado a matar, tenha sido sempre considerado como um personagem infame: leia-se o livro de Charles Duff, Manual do Carrasco, recentemente traduzido em italiano, no qual o carrasco é apresentado de modo grotesco como o cão, o amigo fiel da sociedade. Entre outras coisas, aduz-se – para negar a eficácia intimidatória da pena de morte – o caso de um carrasco que se torna, por sua vez, assassino, e que deve ser justiçado. O Estado não pode colocar-se no mesmo plano do indivíduo singular. O indivíduo age por raiva, por paixão, por interesse, em defesa própria. O Estado responde de modo mediato, reflexivo, racional. Também ele tem o dever de se defender. Mas é muito mais forte do que o indivíduo singular e, por isso, não tem necessidade de tirar a vida desse indivíduo para se defender. O Estado tem o privilégio e o benefício do monopólio da força. Deve sentir toda a responsabilidade desse privilégio e desse beneficio. Compreendo muito bem que é um raciocínio difícil e abstrato, que pode ser tachado de moralismo ingênuo, de pregação inútil. Mas busquemos dar uma razão para nossa repugnância frente à pena de morte. A razão é uma só: o mandamento de não matar. Não vejo outra. Fora dessa razão última, todos os demais argumentos valem pouco ou nada; podem ser contraditos por argumentos que têm, mais ou menos, a mesma força persuasória. Dostoiévski o disse magnificamente, quando pôs na boca do Príncipe Michkin as seguintes palavras: “Foi dito: ‘Não matarás.’ E, então, se alguém matou, por que se tem de matá-lo também? Matar quem matou é um castigo incomparavelmente maior do que o próprio crime. O assassinato legal é incomparavelmente mais horrendo do que o assassinato criminoso.”

De resto, precisamente porque a razão última da condenação da pena de morte é tão elevada e árdua, a grande maioria dos Estados continua a praticá-la, e continuará a fazê-lo, apesar das declarações internacionais, dos apelos, das associações abolicionistas, da nobilíssima ação da Amnesty International. Apesar disso, acreditamos firmemente que o desaparecimento total da pena de morte do teatro da história estará destinada a representar um sinal indiscutível do progresso civil. Esse conceito foi muito bem expresso por John Stuart Mill (um ator que amo): “Toda a história do progresso humano foi uma série de transições por meio das quais costumes e instituições, umas após outras, foram deixando de ser consideradas necessárias à existência social e passaram para a categoria de injustiças universalmente condenadas.”

Estou convencido de que esse será também o destino da pena de morte. Se me perguntarem quando se cumprirá esse destino, direi que não sei. Sei apenas que o seu cumprimento será um sinal indiscutível do progresso moral.

*Extraído de A Era dos Direitos, publicado no Brasil pela editora Campus.


Trecho de uma entrevista de Theodor Adorno à revista Der Spiegel

Posted: 26.11.14 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Trecho selecionado por mim como um dos candidatos ao prêmio de Melhor Início de Entrevista de todos os tempos.

SPIEGEL: Senhor professor, até duas semanas atrás o mundo ainda parecia em ordem...

ADORNO: A mim não.

SPIEGEL: 




(Entrevista de Theodor Adorno à revista alemã Der Spiegel, em maio de 1969)




Um problema de tradução da Martin Claret - O Anticristo, de Nietzsche

Posted: 26.7.14 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Semestre passado estudei O Anticristo, de Nietzsche, na universidade. Foi uma matéria optativa muito interessante, chamada "Crítica da religião - O Anticristo, de Nietzsche, e O futuro de uma ilusão, de Freud". 

Acompanhei o curso com as edições que eu já tinha da obra do Nietzsche: uma em português, da editora Martin Claret, e o original em alemão. Quando cheguei no aforismo 7 fiquei estarrecido com o tamanho dos trechos que simplesmente estão faltando na edição da Martin (sublinhei de vermelho, na foto abaixo da edição alemã, os trechos que não foram traduzidos). Primeiramente eu até pensei que poderia ser algum problema de ordem meramente técnica da edição, mas não dá pra explicar por que a tradução "salta" de um ponto para outro do texto assim. E o trecho assinalado com uma interrogação indica que no português há uma tradução estranha,  mais um "resumo" do que uma tradução propriamente dita.







Sobre crianças, ouvir histórias e assistir desenhos

Posted: 23.6.14 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Há alguns anos que leio as histórias dos irmãos Grimm para minha filha à noite (são mais de 200), e à medida que ela cresce aumenta sua percepção e compreensão de algumas coisas antes não questionadas. Logo na primeira frase da história de ontem ("Era uma vez um lenhador muito pobre que...") ela me interrompeu: "Pai, peraí: por que toda história começa falando de alguém que é muito pobre?" E eu não pude deixar de inserir um elemento crítico em relação aos desenhos de princesa da Disney que ela conhece: "Filha, porque a maioria das pessoas no mundo é pobre e trabalhadora, e essas histórias e folclores que os irmãos Grimm escreveram eram contados pelo povo. Você por acaso conhece alguma princesa igual aos desenhos da Disney? Tem alguma coleguinha sua assim na escola? A maioria dos pais são pobres e saem de casa bem cedo pra trabalhar e voltam só à noite, como o lenhador." Isso a fez comparar tanto sua vida quanto a de suas coleguinhas com alguns desses desenhos: "Aaaahh, não tenho nenhuma coleguinha assim..."

E isso me trouxe novamente a questão sobre que tipo de desenhos e histórias é desejável que a criança tenha acesso. Não proíbo minha filha de assistir nenhum desenho animado, a não ser que seja inapropriado para sua idade. Acho que proibir é pior, e para mim não é uma opção. O importante, a meu ver, é ensinar à criança desde cedo o exercício da dúvida ("será que Deus existe mesmo?", "existem princesas? quem são, onde moram?"), instigar a suspeita de que a realidade das coisas é diferente de sua aparência, mas sem prejuízo da imaginação infantil. O fantasiar é muito importante para a saúde psíquica da criança, pois lhe ajuda a lidar com diversas dificuldades inerentes ao processo de crescimento (como afirma este livro do Bettelheim). E essas histórias compiladas pelos Grimm, pelo fato de terem sido construídas coletivamente através de gerações, expressam profundas realidades inconscientes. Tais histórias possibilitam à criança trabalhar a faculdade da imaginação, coisa que a indústria cultural infantil rouba à criança desde muito cedo. E por fim acho também muito importante este hábito de contar histórias às crianças. (Não só que elas leiam, mas que ouçam as histórias.) Para as crianças há toda uma aura em torno de adultos que lhes contam histórias.

A morte e a memória

Posted: 20.1.14 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Sócrates dizia que o medo da morte é ignorância, presunção de saber. Afinal, quem poderá dizer se a morte não é algo melhor que a vida? E se não sabemos isso, por que então teme-la? Assim nos diz o ateniense:

“Pois que, ó cidadãos, o temer da morte não é outra coisa que parecer ter sabedoria, não tendo. É de fato parecer saber o que não se sabe. Ninguém sabe, na verdade, se por acaso a morte não é o maior de todos os bens para o homem, e entretanto todos a temem, como se soubessem, com certeza, que é o maior dos males. E o que é senão ignorância, de todas  a mais reprovável, acreditar saber aquilo que não se sabe? Eu,  por mim, ó cidadãos, talvez nisso seja diferente da maioria dos homens, eu diria isto: não sabendo bastante das coisas do Hades, delas não fugirei.” (Platão, Apologia de Sócrates)

Mas o que exatamente tememos na morte, se a reflexão nos mostra que este medo é irracional, remontando suas determinações às mais profundas e inescrutáveis regiões de nossa estrutura humana? Uma tentativa de resposta a essa questão, ainda de forma mítica, vem dos próprios gregos. Em um texto sagrado órfico (século IV a.C.), o qual chegou até nós através de tábuas descobertas só por volta do século XVIII, encontram-se instruções aos mortos que chegassem ao Hades:

“Você encontrará uma fonte à esquerda do Hades, e ao seu lado, um cipreste branco. Nem mesmo se aproxime dessa fonte. Você encontrará outra, a do Lago da Memória, jorrando água fresca. Na frente dela há guardas. Você deve dizer: ‘Sou filho da Terra e do Céu estrelado, vocês sabem disso. Tenho sede e pereço. Dêem-me da água fresca que jorra do Lago da Memória.’ E eles próprios lhe darão de beber da fonte divina, e então você reinará junto aos outros heróis.”

Notamos neste trecho que o objetivo final da instrução é mostrar como encontrar e beber da fonte da memória (Mnemósine) para viver junto aos heróis, passando ao largo da primeira fonte (que nem mesmo é nomeada), geralmente considerada como a fonte do esquecimento (Lethe). O pior da morte, então, não parece ser a mera passagem ao Hades, mas sim o esquecimento.

Esse mesmo esquecimento é o que parece ter sido evitado por Aquiles ao escolher lutar na guerra de Tróia. Não nos relata a Ilíada, de Homero, que Aquiles preferiu ser lembrado após sua morte - mesmo tendo que morrer cedo para isso - a ser esquecido pela posteridade, o que lhe renderia no entanto muitos mais anos de vida? Aquiles tinha duas opções: deixar a guerra e envelhecer em paz, vivendo muitos anos mas sendo esquecido após sua morte, ou continuar lutando, morrer jovem mas ser lembrado por inúmeras gerações pelos feitos que lá realizaria:

“Tétis, a deusa de pés argentinos de quem fui nascido, já me falou sobre o dúplice Fado que à Morte há de dar-me; se continuar a lutar ao redor da cidade de Tróia, não voltarei mais à pátria, mas glória hei de ter sempiterna; se para casa voltar, para o grato torrão de nascença, da fama excelsa hei de ver-me privado, mas vida mui longa conseguirei, sem que o temor da Morte mui cedo me alcance.” (Ilíada IX, 410-416)

Essa concepção grega parece dizer que, de alguma maneira, sobrevivemos à nossa própria morte quando somos lembrados. O pior, então, não é morrer, mas ser esquecido. Pois, se não podemos evitar a morte, pelo menos temos algum controle sobre nossos feitos que podem transcender nossa existência.

Uma outra maneira de transcender a própria finitude residiria, de acordo com Platão, na geração de filhos. A procriação representa o mortal tentando imitar o imortal, impulsionado por Eros. Todos os seres da natureza, ao se reproduzirem, estão sobrevivendo a si próprios em seus filhos:

"... a natureza mortal procura, na medida do possível, ser sempre e ficar imortal. E ela só pode assim, através da geração, porque sempre deixa um outro ser novo em lugar do velho; pois é nisso que se diz que cada espécie animal vive e é a mesma - assim como de criança o homem se diz o mesmo até se tornar velho...” (Platão, O banquete)

Mas se nossos filhos são, de alguma forma, nossa presença continuada neste mundo, mesmo eles não garantem que ainda seremos lembrados após várias gerações. Isso é ainda mais claro para nossa cultura hoje: a maioria de nós tem escasso ou nenhum conhecimento sobre nossos ascendentes a partir da terceira ou quarta geração.

Por isso o homem busca se transcender também através do trabalho (não alienado) e das criações artísticas. Ao se objetivar ou se exteriorizar em suas obras o homem supera a si próprio e sobrevive a seu próprio corpo. O objeto gerado pelo trabalho, assim como a obra de arte, é uma exteriorização do homem, uma objetivação deste. O homem cria um objeto humano e se realiza enquanto humano nessas exteriorizações.

E talvez seja essa a razão do leve apaziguamento que experimentamos em nossa angústia de morte quando percebemos que muitos dos que já morreram ainda são lembrados por seus feitos. Sentimos com isso que, de alguma maneira, mesmo após nossa morte, poderemos continuar neste mundo. A morte não é completa enquanto ainda existir quem de nós se lembre. 

O que é um conservador?

Posted: 9.10.13 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Há três tipos de conservador: um que tem chilique com a palavra “revolução”, outro que tem Palinchilique com a palavra “sexo”, e um terceiro, que arrepia com ambas as palavras.

O primeiro tipo, o que treme ao ouvir a palavra “revolução”, pode ter um tipo de chilique desesperador. Todavia, não é difícil para ele, com o tempo, desenvolver um modo de lidar com isso. Antes que a apresentem a ele, não tarda em ridicularizá-la.

Esse tipo tem lá sua razão. As revoluções políticas nem sempre terminam com menos carnificina que aquela promovida pelo regime derrubado. No entanto, esse tipo de conservador é aquele que cobra realismo de todos, ele quer menos ingenuidade e menos infantilidade. Ora, revoluções são reais, acontecem, e elas são responsáveis por nossa história ser o que é, ou seja, algo aberto para o imprevisível. Quem cobra realismo de outros deveria ter a macheza mínima de suportar irrupções históricas, porque afinal, elas emergem. Quem cobra realismo deveria também, depois, não tentar diminuir as revoluções, principalmente quando a historiografia já nos deu prova de que se trata de alguma coisa importante, que efetivamente mudou o mundo.

O segundo tipo, o que tem convulsões ao ouvir a palavra “sexo”, também às vezes nos assusta com seus gritos. Claro que também este, com o passar do tempo, obtém um modo de escutar e até pronunciar uma tal palavra – “se… se … xo”. Sua estratégia é bem comentada e sabida: medicaliza a palavra. Os médicos falavam de pênis, e isso já era um termo sob uma boa assepsia, agora nem é isso mais que usam. Falam em “membro sexual masculino”. O sexo se transformou uma propriedade do médico que, com seu uniforme branco e sua seriedade profissional, é aquele que pode dissertar sobre tal assunto com a distância que, antes dele, esteve nas mãos do padre.

Não é nada inútil colocar o sexo sob os cuidados médicos. A ciência ajuda a fazer do sexo alguma coisa possível de ser conversada sem misticismo cultivado pela ignorância, e isso é bom. Todavia, o tipo conservador que, enfim, exatamente pelo seu realismo, quer se mostrar corajoso e enfrentar tudo que é natural, não deveria precisar de tantas luvas para falar de sexo.  Afinal, dizem até que os conservadores gostam de Nelson Rodrigues, então eles deveriam ser um pouco mais despudorados. Mas não são. No frigir dos ovos eles estão sempre sentados na sala de jantar, rodeados de crianças que são só inocentes aos seus olhos.

Os motivos pelos quais os conservadores criam problemas diante de “revolução” e “sexo” não são difíceis de notar.

Revolução implica em mudança de controle e, às vezes, de alteração nas próprias formas de controle. O conservador tem um medo danado não só do que os revolucionários podem fazer com ele, mas do que ele pode fazer consigo mesmo em uma sociedade em que, mesmo só por um breve momento, houver liberdade. O conservador é mais ou menos parecido com aquela garota que não sabe se é ou não lésbica, e que então nunca bebe, pois acredita que se beber irá para a cama com todas as colegas naquela noite.

Sexo implica em prazer. Ora, o conservador teme o prazer. Caso ele seja rico, ele teme que seus operários comecem a gastar energia antes no sexo que no trabalho. Caso o conservador seja pobre, ele teme que o sexo o jogue para fora de sua própria família. Pois quem quer sexo quer também o ambiente de desregramento do bar. Isso porá sua família em risco. Mas ele também teme que, em um mundo onde todos queiram ter prazer, não será a filha do patrão que pagará o preço por isso, mas suas filhas. Em geral, não é que ele queira proteger suas filhas. Mas ele tem ciúmes delas, segundo uma tendência incestuosa que ele disfarça.

Esse quadro que pinta o rosto do conservador pode não valer para alguns, justamente porque esses alguns ainda não pensaram com coragem sobre tudo isso. Quando refletirem melhor, se tiverem realmente coragem, confessarão que não estou falando bobagem, e que meu quadro abocanha bem muitos conservadores conhecidos. Talvez até mais do que possamos avaliar em um primeiro momento.

Paulo Ghiraldelli, filósofo