Mostrando postagens com marcador Livros. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Livros. Mostrar todas as postagens

Livro para download: O que resta das jornadas de junho

Posted: 26.6.17 by Glauber Ataide in Marcadores: , , ,
0

Acaba de ser publicado o livro O que resta das jornadas de junho, com o qual o autor deste blog contribuiu escrevendo um dos capítulos. A obra pode ser baixada gratuitamente no site da editora, ou comprada em sua versão impressa.

Historicamente, a Filosofia no Brasil costuma seguir padrões e métodos ditados pelos centros intelectuais que possuem tradições filosóficas próprias, como Alemanha, França, Inglaterra e Estados Unidos. No entanto, há vários anos assistimos no país à discussão sobre a necessidade de uma língua filosófica própria, que permita um amplo e consistente debate de ideias. Apesar dos esforços contínuos para consolidar uma tradição de pensamento (e esta série da Editora Fi é apenas um dos exemplos), ainda falta à Filosofia Brasileira uma maior atenção aos grandes temas nacionais. Precisamos elaborar novos conceitos para pensar problemas que não podem ser tratados de forma satisfatória pelas teorias disponíveis, tais como o que ora nos reúne e convida a pensar: o que resta das jornadas de junho. Esta coletânea é fruto de um trabalho coletivo levado a efeito pelos autores que acolheram o desafio proposto pelos organizadores de pensar a atual crise política a partir de diversos contextos e vieses, mas preservando um núcleo comum: desconforto intelectual diante do horizonte da dinâmica teórico-política brasileira contemporânea. O resultado disso são reflexões que, em linhas gerais, discutem o legado conservador das jornadas de junho, a partir de conceitos como pemedebismo, distopia, falsa consciência, biopolítica, incitadores da turba, paulistanismo, judicialização da política e estado de exceção. E também apresentam diversas formas de resistência, tais como as redes de ações coletivas, a etnomídia e o ativismo estético. 

Ficha ténica

Vitor Cei
Leno Francisco Danner
Marcus Vinícius Xavier de Oliveira
David G. Borges
(Orgs.)

ISBN: 978-85-5696-152-5
Nº de pág.: 309


Homo Faber, de Max Frisch - uma breve resenha

Posted: 23.8.15 by Glauber Ataide in Marcadores:
1


Homo Faber, de Max Frisch, é um dos livros mais importantes e mais lidos do século XX. Lançada em 1957, a obra é um relato em primeiro pessoa da história de Walter Faber, um engenheiro extremamente racional, cuja visão de mundo científica e tecnológica não consegue acomodar o acaso, o "irracional", ou seja, aquilo que não pode ser calculado. O que está colocado como pano de fundo é a própria identidade do homem moderno.

Ao partir em uma viagem de negócios para a América Latina, uma série de acontecimentos e decisões do próprio Walter fraturam sua visão de mundo reificada. Nela, Walter conhece um homem parecido com um antigo amigo da época de faculdade, descobrindo que este homem é, de fato, irmão deste. A partir deste primeiro incidente ou "casualidade", o romance se desdobra em duas direções: para o futuro, com acontecimentos altamente improváveis, cuja probabilidade estatística seria mínima (talvez próxima de zero), e também para o passado, à maneira de uma análise psicanalítica, revelando fatos que aos poucos emergem de camadas já há muito sedimentadas, à maneira de um trabalho arqueológico. Não é por acaso que a personagem Hannah trabalha na área arqueológica de um museu.

Alguns temas presentes na obra sugerem interessantes análises a partir dos pontos de vista filosófico e psicanalítico. Um deles é a questão da reificação. Walter Faber é o típico homem contemporâneo reificado, que tenta compreender o mundo a partir de categorias racionais formais e parciais. Para ele, só tem valor aquilo que possui valor de troca. Walter não lê romances, nunca ouviu falar sobre Albert Camus, não gosta de artes. É uma representação pura do homem de formação acadêmica em "ciências exatas". Ele não consegue se relacionar de forma duradoura com ninguém - quatro dias é seu limite com qualquer mulher. As escolhas feitas por Walter também poderiam ser lidas a partir da questão existencialista da liberdade, como em Sartre. Os rumos tomados por sua vida não são mero acaso, mas consequências de suas próprias escolhas. Do ponto de vista psicanalítico, dois aspectos saltam às vistas: o primeiro é a questão do Complexo de Édipo, central nesta obra, mas que não vou comentar para evitar spoilers. A segunda é a maneira como o passado é revivido, trazido para o presente a partir de pequenos elementos aparentemente sem importância. É como na interpretação de um sonho, em que a partir de um pequeno elemento isolado, toda uma teia de associações é construída e faz emergir o conteúdo latente, inconsciente.

Pelo que pude averiguar, esta obra foi traduzida para o português e lançada em 1986 pela Editora Guanabara. Simplesmente não compreendo por que ela não teve novas edições ou reimpressões. Na data em que escrevo estas linhas, pode-se encontrar apenas duas cópias dela no site Estante Virtual, a R$80,00 e a R$99,00. Realmente se tornou uma raridade. Para quem lê em outros idiomas, é mais barato adquirir o original em alemão (como o da foto acima da edição que comprei), ou as traduções para o inglês ou o francês.

Mais fácil de encontrar, porém, é a adaptação desta obra para o cinema, feita pelo diretor Volker Schlöndorff, em 1991. Fora da Alemanha, o filme também é conhecido como O viajante. O que também faz sentido, já que Walter Faber passa toda a obra viajando para diferentes países. Como toda adaptação para outra mídia, no entanto, a história perdeu diversos momentos importantes, além de não ter apresentado os personagens exatamente como eu os apreendi em minha leitura.


Problemas de tradução da obra Idealismo Alemão, de Will Dudley

Posted: 4.6.15 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
2

Idealismo Alemão, de Will Dudley (Editora Vozes), é uma das melhores - entre as raras - introduções ao Idealismo Alemão. O chamado idealismo alemão se constitui como um dos períodos mais difíceis da história da filosofia, e compreende filósofos reconhecidamente complicados como Kant, Fichte, Schelling e Hegel. A obra de Dudley, no entanto, consegue apresentar de forma clara os traços gerais deste período sem cair na excessiva simplificação, ao mesmo tempo em que esclarece diversas incompreensões generalizadas sobre importantes aspectos das obras desses filósofos, como, por exemplo, ao explicar que a tríade "tese-antítese-síntese" não corresponde ao pensamento de Hegel, mas sim ao de Fichte. É uma obra que I highly recommend.

No entanto, a tradução dessa obra, cujo original é em inglês, apresenta sérios problemas, sejam eles de ordem conceitual ou apenas de revisão. E isso de tal modo que, diante de minhas primeiras suspeitas de erros grosseiros de tradução, fui obrigado a baixar o livro original para comparar os trechos e dirimir as dúvidas. Do início ao fim da obra fui tomando notas de alguns destes erros, e as compartilho logo abaixo. Além do mais, cabe observar que o tradutor (tive curiosidade e joguei seu nome no Google) não é filósofo, e muito menos especialista em Idealismo Alemão, o que constitui uma escolha inexplicável se tratando da Editora Vozes, uma editora cuja tradição e qualidade em filosofia dispensam comentários.


understanding (no sentido kantiano)
traduzido como compreensão, ao invés de entendimento

judgment (no sentido kantiano)
traduzido como julgamento, ao invés de juízo

"but at the same time finite subjects cannot help feeling"
"não podem ajudar a sentir" ao invés de "não podem evitar sentir"

"Because this totality is organic,"
"Já que esta totalidade é inorgânica..."

“the question why God did not prefer not to reveal himself at all..."
A questão por que Deus não preferiu revelar a si... (faltando um "não")

exactly fifty years after Kant’s publication of the Critique of Pure Reason
"exatamente quinze anos após...", ao invés de cinquenta

standpoint
ponto de partida, ao invés de ponto de vista 

self-undermining
autodeterminante, ao invés de auto-refutável

there proves
não há prova (inverteu o sentido)

confection
confecção, ao invés de doce, confeite, etc, pois no contexto se referia a um bolo

dual awareness
dupla sensibilidade

immediacy
vizinhança (!!!!!) ao invés de imediaticidade

immediacy
iminência (!!!!!) (a mesma palavra, agora com outra tradução errada!)

that there is no place for an a priori account of nature
"...que exista lugar para um relato...", faltou um "não"

Property objectifies
a propriedade identifica (ao invés de objetifica)

all three activities considered in absolute spirit
todas as três atividades consideravam de forma absoluta... ao invés de consideradas

what we are, most basically, is free.
...mais basicamente é gratuito (liberdade), isso é, somos "gratuitos" ao invés de sermos "livres"!

blurring the distinction between good and evil.
... distinção entre o bom e o belo. (trocou mal por  belo!)

Uma última observação da tradução é que os itálicos do original não aparecem na tradução.


Um problema de tradução da Martin Claret - O Anticristo, de Nietzsche

Posted: 26.7.14 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
0

Semestre passado estudei O Anticristo, de Nietzsche, na universidade. Foi uma matéria optativa muito interessante, chamada "Crítica da religião - O Anticristo, de Nietzsche, e O futuro de uma ilusão, de Freud". 

Acompanhei o curso com as edições que eu já tinha da obra do Nietzsche: uma em português, da editora Martin Claret, e o original em alemão. Quando cheguei no aforismo 7 fiquei estarrecido com o tamanho dos trechos que simplesmente estão faltando na edição da Martin (sublinhei de vermelho, na foto abaixo da edição alemã, os trechos que não foram traduzidos). Primeiramente eu até pensei que poderia ser algum problema de ordem meramente técnica da edição, mas não dá pra explicar por que a tradução "salta" de um ponto para outro do texto assim. E o trecho assinalado com uma interrogação indica que no português há uma tradução estranha,  mais um "resumo" do que uma tradução propriamente dita.







Albert Camus: se eu me matasse, descobriria então que não tenho amigos

Posted: 21.2.14 by Glauber Ataide in Marcadores:
0

"Como sei que não tenho amigos? É muito simples: eu o descobri no dia em que pensei em matar-me para lhes pregar uma boa peça, para puni-los, de certa forma. Mas punir quem? Alguns ficariam surpreendidos; ninguém se sentiria punido. Compreendi que não tinha amigos. Além disso, mesmo se os tivesse, não adiantaria nada. Se eu pudesse suicidar-me e ver em seguida a cara deles, então, sim, valeria a pena." (Albert Camus, A queda)

Peça Radiofônica: "A árvore de Natal na casa do Cristo", de Dostoiévski

Posted: 29.9.11 by Glauber Ataide in Marcadores:
1

No post anterior compartilhamos "A árvore de Natal na casa do Cristo", um pequeno escrito de Dostoiévski carregado de grande sensibilidade. Dando sequência ao surto dostoievskiano que acometeu hoje este blogueiro, compartilho novamente a mesma obra, mas agora em uma versão radiofônica. 

Você pode ouvi-la usando o controle ao final desta página ou então fazendo o download do Mp3 (14,6MB) no link mais abaixo. O tempo de duração é 21:16 minutos.

P.S.: Se você ainda não leu a história, sugiro que faça isso antes.

Informações extraídas do site dos autores:

A árvore de Natal da casa do Cristo [ Uma Leitura Radiofônica do conto de Fiódor Dostoiévski  - 1997 ].

Posso dizer que o interesse maior da peça está numa idéia simples e um tanto arriscada: intercalar a narrativa original de Dostoiévski com depoimentos de meninos de rua da Praça da Sé.

Sinceramente, acho o resultado alcançado muito interessante:  uma fusão intuitiva e experimental de ficção e documentário – algo próximo ao formato radiofônico conhecido como “feature”.

Autores: Roberto D'Ugo e Adriana Cotias.
Reportagens: Marilu Cabañas. Narração: Hélio Vaccari. 
Trabalhos Técnicos: Jonas Bicev (Transmitido pela Cultura FM em dez.1999).



Clique aqui para fazer o download da peça radiofônica "A árvore de Natal na casa do Cristo", de Dostoiévski.

Dostoiévski: A árvore de Natal na casa do Cristo

Posted: by Glauber Ataide in Marcadores:
0


Abaixo um pequeno conto de Dostoiévski, tão curto quanto intenso.

Havia num porão uma criança, um garotinho de seis anos de idade, ou menos ainda. Esse garotinho despertou certa manhã no porão úmido e frio. Tiritava, envolto nos seus pobres andrajos. Seu hálito formava, ao se exalar, uma espécie de vapor branco, e ele, sentado num canto em cima de um baú, por desfastio, ocupava-se em soprar esse vapor da boca, pelo prazer de vê-lo se esvolar. Mas bem que gostaria de comer alguma coisa. Diversas vezes, durante a manhã, tinha se aproximado do catre, onde num colchão de palha, chato como um pastelão, com um saco sob a cabeça à guisa de almofada, jazia a mãe enferma. Como se encontrava ela nesse lugar? Provavelmente tinha vindo de outra cidade e subitamente caíra doente. A patroa que alugava o porão tinha sido presa na antevéspera pela polícia; os locatários tinham se dispersado para se aproveitarem também da festa, e o único tapeceiro que tinha ficado cozinhava a bebedeira há dois dias: esse nem mesmo tinha esperado pela festa. No outro canto do quarto gemia uma velha octogenária, reumática, que outrora tinha sido babá e que morria agora sozinha, soltando suspiros, queixas e imprecações contra o garoto, de maneira que ele tinha medo de se aproximar da velha. No corredor ele tinha encontrado alguma coisa para beber, mas nem a menor migalha para comer, e mais de dez vezes tinha ido para junto da mãe para despertá-la. Por fim, a obscuridade lhe causou uma espécie de angústia: há muito tempo tinha caído a noite e ninguém acendia o fogo. Tendo apalpado o rosto de sua mãe, admirou-se muito: ela não se mexia mais e estava tão fria como as paredes. "Faz muito frio aqui", refletia ele, com a mão pousada inconscientemente no ombro da morta; depois, ao cabo de um instante, soprou os dedos para esquentá-los, pegou o seu gorrinho abandonado no leito e, sem fazer ruído, saiu do cômodo, tateando. Por sua vontade, teria saído mais cedo, se não tivesse medo de encontrar, no alto da escada, um canzarrão que latira o dia todo, nas soleiras das casas vizinhas. Mas o cão não se encontrava alí, e o menino já ganhava a rua.

Senhor! que grande cidade! Nunca tinha visto nada parecido, De lá, de onde vinha, era tão negra a noite! Uma única lanterna para iluminar toda a rua. As casinhas de madeira são baixas e fechadas por trás dos postigos; desde o cair da noite, não se encontra mais ninguém fora, toda gente permanece bem enfurnada em casa, e só os cães,às centenas e aos milhares,uivam, latem, durante a noite. Mas, em compensação, lá era tão quente; davam-lhe de comer... ao passo que ali... Meu Deus! se ele ao menos tivesse alguma coisa para comer! E que desordem, que grande algazarra ali, que claridade, quanta gente, cavalos, carruagens... e o frio, ah! este frio! O nevoeiro gela em filamentos nas ventas dos cavalos que galopam; através da neve friável o ferro dos cascos tine contra a calçada;toda gente se apressa e se acotovela, e, meu Deus! como gostaria de comer qualquer coisa, e como de repente seus dedinhos lhe doem! Um agente de policia passa ao lado da criança e se volta, para fingir que não vê.

Eis uma rua ainda: como é larga! Esmaga-lo-ão ali, seguramente; como todo mundo grita, vai, vem e corre, e como está claro, como é claro! Que é aquilo ali? Ah! uma grande vidraça, e atrás dessa vidraça um quarto, com uma árvore que sobe até o teto; é um pinheiro, uma árvore de Natal onde há muitas luzes, muitos objetos pequenos, frutas douradas, e em torno bonecas e cavalinhos. No quarto há crianças que correm; estão bem vestidas e muito limpas, riem e brincam, comem e bebem alguma coisa.   Eis ali uma menina que se pôs a dançar com um rapazinho. Que bonita menina! Ouve-se música através da vidraça. A criança olha, surpresa; logo sorri, enquanto os dedos dos seus pobres pezinhos doem e os das mãos se tornaram tão roxos, que não podem se dobrar nem mesmo se mover. De repente o menino se lembrou de que seus dedos doem muito; põe-se a chorar, corre para mais longe, e eis que, através de uma vidraça, avista ainda um quarto, e neste outra árvore, mas sobre as mesas há bolos de todas as qualidades, bolos de amêndoa, vermelhos, amarelos, e eis sentadas quatro formosas damas que distribuem bolos a todos os que se apresentem. A cada instante, a porta se abre para um senhor que entra. Na ponta dos pés, o menino se aproximou, abriu a porta e bruscamente entrou. Hu! com que gritos e gestos o repeliram! Uma senhora se aproximou logo, meteu-lhe furtivamente uma moeda na mão, abrindo-lhe ela mesma a porta da rua. Como ele teve medo! Mas a moeda rolou pelos degraus com um tilintar sonoro: ele não tinha podido fechar os dedinhos para segurá-la. O menino apertou o passo para ir mais longe - nem ele mesmo sabe aonde. Tem vontade de chorar; mas dessa vez tem medo e corre. Corre soprando os dedos. Uma angústia o domina, por se sentir tão só e abandonado, quando, de repente: Senhor! Que poderá ser ainda? Uma multidão que se detém, que olha com curiosidade. Em uma janela, através da vidraça, há três grandes bonecos vestidos com roupas vermelhas e verdes e que parecem vivos! Um velho sentado parece tocar violino, dois outros estão em pé junto de e tocam violinos menores, e todos maneiam em cadência as delicadas cabeças, olham uns para os outros, enquanto seus lábios se mexem; falam, devem falar - de verdade - e, se não se ouve nada, é por causa da vidraça. O menino julgou, a princípio, que eram pessoas vivas, e, quando finalmente compreendeu que eram bonecos, pôs-se de súbito a rir. Nunca tinha visto bonecos assim, nem mesmo suspeitava que existissem! Certamente, desejaria chorar, mas era tão cômico, tão engraçado ver esses bonecos! De repente pareceu-lhe que alguém o puxava por trás. Um moleque grande, malvado, que estava ao lado dele, deu-lhe de repente um tapa na cabeça, derrubou o seu gorrinho e passou-lhe uma rasteira. O menino rolou pelo chão, algumas pessoas se puseram a gritar: aterrorizado, ele se levantou para fugir depressa e correu com quantas pernas tinha, sem saber para onde. Atravessou o portão de uma cocheira, penetrou num pátio e sentou-se atrás de um monte de lenha. "Aqui, pelo menos", refletiu ele, "não me acharão: está muito escuro."

Sentou-se e encolheu-se, sem poder retomar fôlego, de tanto medo, e bruscamente, pois foi muito rápido, sentiu um grande bem-estar, as mãos e os pés tinham deixado de doer, e sentia calor, muito calor, como ao pé de uma estufa. Subitamente se mexeu: um pouco mais e ia dormir! Como seria bom dormir nesse lugar! "mais um instante e irei ver outra vez os bonecos", pensou o menino, que sorriu à sua lembrança: "Podia jurar que eram vivos!"... E de repente pareceu-lhe que sua mãe lhe cantava uma canção. "Mamãe, vou dormir; ah! como é bom dormir aqui!"

- Venha comigo, vamos ver a árvore de Natal, meu menino - murmurou repentinamente uma voz cheia de doçura.

Ele ainda pensava que era a mãe, mas não, não era ela. Quem então acabava de chamá-lo? Não vê quem, mas alguém está inclinado sobre ele e o abraça no escuro, estende-lhe os braços e... logo... Que claridade! A maravilhosa árvore de Natal! E agora não é um pinheiro, nunca tinha visto árvores semelhantes! Onde se encontra então nesse momento? Tudo brilha, tudo resplandece, e em torno, por toda parte, bonecos - mas não, são meninos e meninas, só que muito luminosos! Todos o cercam, como nas brincadeiras de roda, abraçam-no em seu vôo, tomam-no, levam-no com eles, e ele mesmo voa e vê: distingue sua mãe e lhe sorrir com ar feliz.

- Mamãe! mamãe! Como é bom aqui, mamãe! - exclama a criança. De novo abraça seus companheiros, e gostaria de lhes contar bem depressa a história dos bonecos da vidraça... - Quem são vocês então, meninos? E vocês, meninas, quem são? - pergunta ele, sorrindo-lhes e mandando-lhes beijos.
- Isto... é a árvore de Natal de Cristo - respondem-lhe. - Todos os anos, neste dia, há, na casa de Cristo, uma árvore de Natal, para os meninos que não tiveram sua árvore na terra...

E soube assim que todos aqueles meninos e meninas tinham sido outrora crianças como ele, mas alguns tinham morrido, gelados nos cestos, onde tinham sido abandonados nos degraus das escadas dos palácios de Petersburgo; outros tinham morrido junto às amas, em algum dispensário finlandês; uns sobre o seio exaurido de suas mães, no tempo em que grassava, cruel, a fome de Samara; outros, ainda, sufocados pelo ar mefítico de um vagão de terceira classe. Mas todos estão ali nesse momento, todos são agora como anjos, todos juntos a Cristo, e Ele, no meio das crianças, estende as mãos para abençoá-las e às pobres mães... E as mães dessas crianças estão ali, todas, num lugar separado, e choram; cada uma reconhece seu filhinho ou filhinha que acorrem voando para elas, abraçam-nas, e com suas mãozinhas enxugam-lhes as lágrimas, recomendando-lhes que não chorem mais, que eles estão muito bem ali...

E nesse lugar, pela manhã, os porteiros descobriram o cadaverzinho de uma criança gelada junto de um monte de lenha. Procurou-se a mãe... Estava morta um pouco adiante; os dois se encontraram no céu, junto ao bom Deus.

Gente Pobre já é Dostoiévski

Posted: 19.9.11 by Glauber Ataide in Marcadores:
0


Sou suspeito para falar de Dostoiévski. Este é o autor que mais leio, o que mais prende minha atenção e com o qual mais me identifico. Antes de ler Gente Pobre, contudo, estava um pouco apreensivo: o que esperar do primeiro livro de Dostoiévski, escrito quando o autor contava apenas 24 anos? Seria esta obra apenas uma curiosidade, uma peça histórica, digna de ser relançada apenas devido ao nome que o autor viria a construir posteriormente?

Não, nada disso. O romance Gente pobre já é o Dostoiévski que conhecemos. Vários dos traços de estilo e dos caracteres que encontramos em obras posteriores já estão presentes ali, não deixando dúvidas de que o que temos nesta obra já é aquele Dostoiévski que no futuro consolidaria seu nome no hall dos grandes escritores de todos os tempos.

Gente Pobre pode nos levar das lágrimas de indignação às gargalhadas. Construída como uma crítica social, ela revela, através de uma troca de cartas entre seus protagonistas - uma jovem órfã, Várvara Aleksiéyevna, e um funcionário público de idade mais avançada, Makár Diévuchkin -, seu  estado de pobreza e suas dificuldades, como se alimentam, se vestem e moram mal.

Ao mesmo tempo, contudo, alguns episódios do cotidiano destes dois, causados principalmente por sua pobreza, já prenunciam aquilo que encontraríamos em obras posteriores, como em Notas do subsolo, por exemplo - aquelas situações constrangedoras causadas por um vestuário velho e rasgado, inadequado para determinadas ocasiões, e que deixam os protagonistas em posições muito desagradáveis. (Particularmente eu fico rindo só de lembrar desses trechos. Inclusive me surpreendi rindo novamente no momento em que escrevia isso.) Mas se você ainda não leu essas situações em Dostoiévski, não pense que já sabe como é. Seu estilo é único, inigualável.

Gente Pobre é um livro altamente recomendável, e é por isso que compartilho esta brevíssima resenha com vocês.

Formação x Informação

Posted: 20.7.11 by Glauber Ataide in Marcadores: , ,
0

Me digam se vocês já não perceberam isso: tem muita gente que se considera "bem informada" só porque acompanha notícias na internet. Gente que olha seu timeline no Twitter e com apenas um clique pula, quando a chamada interessa, para algum lugar da rede.

Alguém me disse certa vez que as pessoas hoje estão mais bem informadas, que estão "lendo mais". Eu já ouvi isso, é verdade. E o cara ainda justificou seu argumento citando o Twitter...

Foi então que fiquei pensando: o que adianta este filho de Deus se afogar num mar de informações se ele não sabe o que fazer com elas?

Isso deixou mais claro pra mim mesmo o seguinte: se você não tem formação teórica, você não vai saber o que fazer com as informações que recebe, seja de onde for. Não vai saber como ler, como criticar, identificar interesses e contextualizar.

Não adianta fugir dos livros, achar que é "bem informado" porque lê notícias na internet. Sem livros de formação teórica, sem filosofia, sem história, sem sociologia, sem economia, sem literatura, não é possível se considerar um indíviduo "crítico" e "bem informado".

Eu até consultei o Houaiss para ver a etimologia de "informar", e ele diz, entre outras definições, que este termo designa a ação de formar. Ou seja, o objetivo da informação é justamente formar. De certa forma, então, o "interneteiro" está obtendo uma formação, sim: tudo bem que é torta, superficial e acrítica, mas já é uma formação, se o que conta pra ele é só o "diproma".

O mito de Sísifo, de Albert Camus - o suicídio é legítimo, já que não há sentido para a vida?

Posted: 17.6.11 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
0

Compartilho abaixo alguns trechos dessa obra de Albert Camus, que li recentemente. São, respectivamente, um parágrafo do início do texto e o seu último capítulo.

Uma das questões que ele tenta responder é: mesmo que a vida não tenha sentido, o suicídio é legítimo? Considerando que não há transcendência, por que ainda continuar vivo?

Ele faz sua dissertação alertando o leitor de que este é o seu pressuposto: que não há valores absolutos, que não há transcendência. Se eles existem ou não, isso é outra discussão. Ele vai tomar o absurdo como ponto de partida, e não como conclusão.


O absurdo e o suicídio

Só existe um problema filosófico realmente sério: é o suicídio. Julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida é responder à questão fundamental da filosofia. O resto, se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias, aparece em seguida. São jogos. É preciso, antes de tudo, responder. E se é verdade, como pretende Nietzsche, que um filósofo, para ser confiável, deve pregar com o exemplo, percebe-se a importância dessa resposta, já que ela vai preceder o gesto definitivo. Estão aí as evidências que são sensíveis para o coração, mas que é preciso aprofundar para torná-las claras à inteligência.

[...]


O mito de Sísifo

Os deuses tinham condenado Sísifo a rolar um rochedo incessantemente até o cimo de uma montanha, de onde a pedra caía de novo por seu próprio peso. Eles tinham pensado, com as suas razões, que não existe punição mais terrível do que o trabalho inútil e sem esperança.

Se acreditarmos em Homero, Sísifo era o mais sábio e mais prudente dos mortais. Segundo uma outra tradição, porém, ele tinha queda para o ofício de salteador. Não vejo aí contradição. Diferem as opiniões sobre os motivos que lhe valeram ser o trabalhador inútil dos infernos. Reprovam-lhe, antes de tudo, certa leviandade para com os deuses. Espalhou os segredos deles. Egina, filha de Asopo, foi raptada por Júpiter. O pai, abalado por esse desaparecimento, se queixou a Sísifo. Este, que tomara conhecimento do rapto, ofereceu a Asopo orientá-lo a respeito, com a condição de que fornecesse água à cidadela de Corinto. Às cóleras celestes ele preferiu a bênção da água. Foi punido por isso nós infernos. Homero nos conta ainda que Sísifo acorrentara a Morte. Plutão não pôde tolerar o espetáculo de seu império deserto e silencioso. Despachou o deus da guerra, que libertou a Morte das mãos de seu vencedor.

Diz-se também que Sísifo, estando prestes a morrer, imprudentemente quis pôr à prova o amor de sua mulher. Ele lhe ordenou jogar o seu corpo insepulto em plena praça pública. Sísifo se recobrou nos infernos. Ali, exasperado com uma obediência tão contrária ao amor humano, obteve de Plutão o consentimento para voltar à terra e castigar a mulher. Mas, quando ele de novo pôde rever a face deste mundo, provar a água e o sol, as pedras aquecidas e o mar, não quis mais retornar à escuridão infernal. Os chamamentos, as iras, as advertências de nada adiantaram. Ainda por muitos anos ele viveu diante da curva do golfo, do mar arrebentando e dos sorrisos da terra. Foi necessária uma sentença dos deuses. Mercúrio veio apanhar o atrevido pelo pescoço e, arrancando-o de suas alegrias, reconduziu-o à força aos infernos, onde seu rochedo estava preparado.

Já deu para compreender que Sísifo é o herói absurdo. Ele o é tanto por suas paixões como por seu tormento. O desprezo pelos deuses, o ódio à Morte e a paixão pela vida lhe valeram esse suplício indescritível em que todo o ser se ocupa em não completar nada. É o preço a pagar pelas paixões deste mundo. Nada nos foi dito sobre Sísifo nos infernos. Os mitos são feitos para que a imaginação os anime. Neste caso, vê-se apenas todo o esforço de um corpo estirado para levantar a pedra enorme, rolá-la e fazê-la subir uma encosta, tarefa cem vezes recomeçada. Vê-se o rosto crispado, a face colada à pedra, o socorro de uma espádua que recebe a massa recoberta de barro, e de um pé que a escora, a repetição na base do braço, a segurança toda humana de duas mãos cheias de terra. Ao final desse esforço imenso medido pelo espaço sem céu e pelo tempo sem profundidade, o objetivo é atingido. Sísifo; então, vê a pedra desabar em alguns instantes para esse mundo inferior de onde será preciso reerguê-la até os cimos. E desce de novo para a planície.

É durante esse retorno, essa pausa, que Sísifo me interessa. Um rosto que pena, assim tão perto das pedras, é já ele próprio pedra! Vejo esse homem redescer, com o passo pesado, mas igual, para o tormento cujo fim não conhecerá. Essa hora que é como uma respiração e que ressurge tão certamente quanto sua infelicidade, essa hora é aquela da consciência. A cada um desses momentos, em que ele deixa os cimos e se afunda pouco a pouco no covil dos deuses, ele é superior ao seu destino. É mais forte que seu rochedo.

Se esse mito é trágico, é que seu herói é consciente. Onde estaria, de fato, a sua pena, se a cada passo 0 sustentasse a esperança de ser bem-sucedido? O operário de hoje trabalha todos os dias de sua vida nas mesmas tarefas e esse destino não é menos absurdo. Mas ele só é trágico nos raros momentos em que se torna consciente. Sísifo, proletário dos deuses, impotente e revoltado, conhece toda a extensão de sua condição miserável: é nela que ele pensa enquanto desce. A lucidez que devia produzir o seu tormento consome, com a mesma força, sua vitória. Não existe destino que não se supere pelo desprezo.

Se a descida, assim, em certos dias se faz para a dor, ela também pode se fazer para a alegria. Esta palavra não está demais. Imagino ainda Sísifo indo outra vez para seu rochedo, e a dor estava no começo. Quando as imagens da terra se mantêm muito intensas na lembrança, quando o apelo da felicidade se faz demasiadamente pesado, acontece que a tristeza se impõe ao coração humano: é a vitória do rochedo, é o próprio rochedo. O enorme desgosto é pesado demais para carregar. São nossas noites de Getsêmani. Mas as verdades esmagadoras perecem ao serem reconhecidas. Assim, Édipo de início obedece ao destino sem o saber. A partir do momento em que ele sabe, sua tragédia principia. Mas no mesmo instante, cego e desesperado, reconhece que o único laço que o prende ao mundo é ó frescor da mão de uma garota. Uma fala descomedida ressoa então: "Apesar de tantas experiências, minha idade avançada e a grandeza da minha alma me fazem achar é que tudo está bem”. O Édipo de Sófocles, como o Kirílov de Dostoiévski, dá assim a fórmula da vitória absurda. A sabedoria antiga torna a se encontrar com o heroísmo moderno.

Não se descobre o absurdo sem ser tentado a escrever algum manual de felicidade. "Mas como, com umas trilhas tão estreitas?" No entanto, só existe um mundo. A felicidade e o absurdo são dois filhos da mesma terra. São inseparáveis. O erro seria dizer que a felicidade nasce forçosamente da descoberta absurda. Ocorre do mesmo modo o sentimento do absurdo nascer da felicidade. "Acho que tudo está bem", diz Édipo, e essa fala é sagrada. Ela ressoa no universo feroz e limitado do homem. Ensina que tudo não é e não foi esgotado. Expulsa deste mundo um deus que nele havia entrado com a insatisfação e o gosto pelas dores inúteis. Faz do destino um assunto do homem e que deve ser acertado entre os homens.

Toda a alegria silenciosa de Sísifo está aí. Seu destino lhe pertence. Seu rochedo é sua questão. Da mesma forma o homem absurdo, quando contempla o seu tormento, faz calar todos os ídolos. No universo subitamente restituído ao seu silêncio, elevam-se as mil pequenas vozes maravilhadas da terra. Apelos inconscientes e secretos, convites de todos os rostos, são o reverso necessário e o preço da vitória. Não existe sol sem sombra, e é preciso conhecer a noite. O homem absurdo diz sim e seu esforço não acaba mais. Se há um destino pessoal, não há nenhuma destinação superior ou, pelo menos, só existe uma, que ele julga fatal e desprezível. No mais, ele se tem como senhor de seus dias. Nesse instante sutil em que o homem se volta sobre sua vida, Sísifo, vindo de novo para seu rochedo, contempla essa seqüência de atos sem nexo que se torna seu destino, criado por ele, unificado sob o olhar de sua memória e em breve selado por sua morte. Assim, convencido da origem toda humana de tudo o que é humano, cego que quer ver e que sabe que a noite não tem fim, ele está sempre caminhando. O rochedo continua a rolar.

Deixo Sísifo no sopé da montanha! Sempre se reencontra seu fardo. Mas Sísifo ensina a fidelidade superior que nega os deuses e levanta os rochedos. Ele também acha que tudo está bem. Esse universo doravante sem senhor não lhe parece nem estéril nem fútil. Cada um dos grãos dessa pedra, cada clarão mineral dessa montanha cheia de noite, só para ele forma um mundo. A própria luta em direção aos cimos é suficiente para preencher um coração humano. É preciso imaginar Sísifo feliz.


Meu encontro com Marx e Freud, de Erich Fromm

Posted: 6.5.11 by Glauber Ataide in Marcadores: , , , ,
0

Meu objetivo inicial com este livro era aprofundar meus estudos na interseção entre marxismo e psicanálise, mas ele só nos permite fazê-lo superficialmente. Até aí, tudo bem, pois não é este mesmo o seu objetivo. Esta obra é uma biografia intelectual de seu autor, e não uma exposição do freudo-marxismo.

Mas o grande problema que encontrei aqui é que Erich Fromm comete o mesmo erro da maioria dos marxólogos acadêmicos, que despem o marxismo de seu caráter revolucionário para deixa-lo mais palatável para a burguesia.

Ele mesmo afirma, nesta obra, que não é engajado politicamente, ou seja, é apenas um "marxista acadêmico". E isso é uma contradição, pois não é possível ser marxista e não estar politicamente engajado. Lembremo-nos da 11ª tese sobre Feuerbach, em que Marx afirma que os filósofos até hoje se limitaram a interpretar o mundo, mas o que importa, porém, é transformá-lo. A vida do próprio Karl Marx foi de engajamento político revolucionário.

Assim, Fromm é seduzido pela cantilena burguesa de que Stalin foi um "assassino", e em diversos momentos o coloca no mesmo plano de Hitler, fazendo assim o jogo da burguesia que, derrotada e envergonhada pelo que fez na II Guerra Mundial, precisou inventar no campo da esquerda um monstro idêntico ao que eles realmente criaram e financiaram no campo da direita, Adolf Hitler.

Além disso, é muito bonito que "marxistas acadêmicos", como Fromm, digam como as coisas devem ser. Falam muito do "Homem", da "Liberdade", etc. Mas em momento algum eles dizem como isso deve ser alcançado.

Se apegam a uma imaginária "pureza da revolução", que o filósofo italiano Domenico Losurdo chama de "universalismo abstrato", e criticam toda tentativa de construção do socialismo na prática. Essa postura é sempre consequência ou de falta de engajamento político ou de oposição esquerdista que não tem nenhuma responsabilidade de construir algo, mas apenas de desconstruir. E a primeira delas, não ser politicamente engajado, é ainda uma das razões pelas quais tal pessoa não pode carregar o título de marxista, pois não consegue ver essas nuances da vida prática se está apenas confortavelmente sentado num banco da universidade. Este suposto "distanciamento do objeto" mais cega do que faz ver.

Mas para não deixar a impressão de que não há nada aproveitável neste livro, há vários pontos esclarecedores sobre o que há em comum entre Marx e Freud - cada capítulo do livro trata de um aspecto diferente.

Um dos mais interessantes é sobre a atitude cética tanto de Marx quanto de Freud sobre aquilo que pensamos que sabemos. Para Freud, muito do que se passa na vida psíquica do homem é inconsciente, e ele não sabe exatamente porque age da forma que age. Já para Marx, as pessoas também não sabem por que pensam como pensam, pois suas idéias são em grande parte reflexos das condições materiais concretas da sociedade em que vive.

Ou seja, ambos os pensadores trabalham com um conceito semelhante de "racionalização". Para Freud, a racionalização é uma tentativa de dar sentido a uma ação ou pensamento que vem do inconsciente. Na obra de Marx, essa racionalização recebe o nome de "ideologia", isso é, uma justificativa da organização social em que vive, do status quo. Mas enquanto Freud trabalha com o indivíduo, Marx trabalha com o social.

E como dica para os interessados no tema, um teórico que considero muito superior a Erich Fromm no freudo-marxismo é Wilhelm Reich, quando este ainda fazia parte do Partido Comunista da Alemanha. Sua obra deste período de militância política é muito mais profunda do que podemos encontrar neste livro de Fromm.


Problemas da moral religiosa

Posted: 20.4.11 by Glauber Ataide in Marcadores: , , ,
3


Uma das principais dificuldades da discussão moral hoje, no contexto de um mundo relativista, líquido, pós-moderno, reside no problema da fundamentação da moral. Se uma moral é fundamentada numa religião particular, mas um outro grupo não compartilha dessa crença, essa doutrina não tem nenhuma força sobre essa outra comunidade. As doutrinas morais religiosas, portanto, não possuem um caráter tão "absoluto" quanto seus adeptos julgam ter, neste aspecto.

Vemos isso na prática em discussões sobre o aborto. Pessoas religiosas, por comungarem de determinadas concepções sobre o tema, conflitam-se na arena pública com diversos outros setores da sociedade que não compartilham dessas crenças oriundas de seus livros sagrados.

Se podemos fazer uma categorização ampla e simplificada das diversas perspectivas morais, os dois principais grupos seriam 1) daquelas doutrinas que recorrem a livros sagrados como fundamento, e 2) daquelas que não inserem Deus na discussão, buscando fundamentar a moral no mundo real, e não no além.

A moral religiosa, a despeito de toda a aparente simplicidade de sua fundamentação ("Deus existe, logo, eu obedeço") apresenta vários problemas. Grande parte da discussão que aqui apresentamos se encontra na obra Moral - uma introdução à ética, do filósofo Bernard Williams, editora Martins Fontes. Falecido em 2003, Williams foi considerado pela revista Times como o filósofo moral inglês mais brilhante e mais importante de seu tempo.

Os religiosos afirmam que se Deus não for acrescentado à discussão, então nada fundamenta a moral e, portanto, nenhuma outra perspectiva, a não ser a deles, pode ser universalizada.

Sua argumentação consiste em buscar por estruturas transcendentais para explicar a finalidade do homem, isso é, o que homem deve fazer e como deve ser neste mundo. Já que o homem é criado por Deus, este teria certas expectativas em relação à sua criatura, dizem.

Surge aqui, no entanto, um primeiro problema: quais características de Deus justificam nosso dever de satisfazer suas expectativas?

Seria o seu poder? Isso é discutível, pois, por analogia, temos exemplos de pais humanos e reis que não devem ser obedecidos. Isso, portanto, não constitui um critério adequado. Seria então pelo seu infinito poder, ou por ter criado tudo que existe? Mas poder ou domínio infinito não parecem mais dignos de obediência. Ou seria, então, por que Deus é bom? Tampouco, pois essa qualificação já envolve uma valoração, que deve ser a conclusão, e não a premissa do apelo a Deus (Kant).

Os argumentos acima têm sido utilizados por diversos filósofos contra a ideia puramente dedutiva e a priori de que devemos cultivar um determinado tipo de vida por sermos criaturas de Deus.

Bernard Williams afirma que o seguinte é um ponto pacífico entre os filósofos: mesmo que Deus exista, isso não faz, para um pensador moral de mente aberta, nenhuma diferença na reflexão moral.

Os motivos para obedecer a Deus, cumprir seus mandamentos morais, são morais ou não. Mas se a pessoa já está munida de motivos morais, a inserção de Deus nada acrescenta.

E se suas motivações não são morais, não podem levar adequadamente à moralidade: serão motivos de prudência, que em sua forma mais simplificada, isso é, nos sermões de padres e pastores, configuram-se num tipo de convencimento moral ad baculum (1), qual seja, a ameaça do inferno.

Nenhuma ação moral motivada por prudência pode ser uma ação moral genuína - a ação moral deve ser motivada pelo que é moralmente certo e nada mais. Qualquer apelo a Deus nesse encadeamento nada acrescenta, ou, se o faz, acrescenta os dados errados.

Na opinião de Williams, "o problema da moralidade religiosa não reside no fato de a moralidade ser inescapavelmente pura, mas sim no fato de a religião ser incuravelmente ininteligível."



NOTAS

(1) Ad baculum: tipo de falácia que tenta convencer alguém através de ameaças. Em latim, significa "apelo ao porrete".


REFERÊNCIAS

WILLIAMS, Bernard. Moral - uma introdução à ética. São Paulo: 2005, Martins Fontes.

Atos falhos, ou parapraxias

Posted: 7.4.11 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
4

As parapraxias, ou atos falhos, são manifestações de intenções perturbadoras do inconsciente em nossa atividade consciente. Um exemplo de um ato falho são os lapsos de língua, quando trocamos uma palavra por outra ou o nome de uma pessoa por outro.

O esquecimento de intenções também são atos falhos. Ocorre, por exemplo, quando chegamos em um determinado lugar e perguntamos: "o que eu vim fazer aqui mesmo?"

Um ato falho ocorre quando eu saio de casa com uma carta na mão para despachá-la mas percebo que passei por uma caixa de correio e não a deixei lá. Esse esquecimento é um tipo de ato falho. Freud comenta que

"...não preciso, como indivíduo normal e livre de neuroses, carregá-la na mão por todo o caminho e ficar à cata de uma caixa de correio onde possa jogá-la; pelo contrário, costumo colocá-la no bolso, seguir meu caminho deixando os pensamentos vagarem livremente, e confiar em que uma das primeiras caixas do correio há de chamar minha atenção e fazer com que eu ponha a mão no bolso e retire a carta. A conduta normal frente a uma intenção concebida coincide por completo com o comportamento experimentalmente produzido das pessoas a quem se deu, em hipnose, uma "sugestão pós-hipnótica a longo prazo", como se costuma chamá-la. Esse fenômeno é usualmente descrito da seguinte maneira: a intenção sugerida dormita na pessoa em questão até se aproximar o momento de efetivá-la. É aí que desperta e impele a pessoa para a ação." (FREUD, 2002)

Os atos falhos ocorrem para evitar o desprazer. Eles são sempre sintomas de algum tipo de conflito psíquico. No caso da carta, o ato de depositá-la na caixa de correios poderia entrar em associação com conteúdos psíquicos que quero manter recalcados. Por essa razão, um mecanismo psíquico atua para que a ação não seja executada, e nesse caso, para que eu esqueça minha intenção de colocar a carta no correio.

Um outro ato falho muito comum é a substituição de nomes, isso é, quando vamos chamar uma pessoa e trocamos seu nome pelo de outra pessoa. Ou então quando esquecemos o nome de uma pessoa. A real motivação da troca de um nome pelo outro ou pelo seu esquecimento pode ser analisada.

Se alguém também afirma: "'Não me peça para fazer isto, tenho certeza de que vou esquecer!'", a realização dessa profecia, segundo Freud (1997), nada tem de místico, pois "quem assim fala sente em si a intenção de não executar o pedido e apenas se recusa a confessá-lo a si mesmo."

Os atos falhos, por se manifestarem em todas as pessoas, e não apenas em neuróticos, é um dos principais meios de acesso às descobertas da Psicanálise. Tanto que Freud escolheu este tema como o primeiro a apresentar em suas "Conferências Introdutórias sobre Psicanálise" (volumes XV e XVI da Edição Standard das Obras Completas).

Para ilustrar um ato falho de esquecimento, relato um incidente que me ocorreu recentemente. Estava apresentando um trabalho em sala de aula sobre o julgamento de Sócrates. Durante minha fala me esqueci completamente de uma palavra, o que foi constrangedor, pois fiquei alguns segundos calado, em pé, diante de toda a classe, que esperava que eu desse prosseguimento. Com a ajuda do texto que tinha em mãos consegui recuperar o termo reprimido: era a palavra "acusação".

Depois que terminei e me sentei, tentei analisar este episódio e logo encontrei seu motivo: a palavra "acusação" estava associada a "julgamento", o que se associava com o receio de que a audiência estivesse julgando ou acusando a apresentação que eu estava fazendo. E o contexto era propício a isso porque, como já afirmei, o tema do trabalho era o julgamento de Sócrates, e estávamos comentando a obra "Apologia de Sócrates", de Platão.

Os atos falhos foram agrupados por Freud em sete tipos: orais, escritos, de falsa leitura e de falsa audição, esquecimento temporal, perdas e atos sintomáticos. Alguns guardam muitas semelhanças com outros, como os lapsos de língua e os de escrita, por exemplo.

Por serem bem mais simples de interpretar do que os sonhos, são um bom caminho para quem deseja iniciar seus estudos em Psicanálise. São uma clara manifestação da nossa psicopatologia da vida cotidiana, uma demonstração bem acessível de que todos nós somos, no mínimo, levemente neuróticos.


REFERÊNCIAS

FREUD, Sigmund. Sobre a psicopatologia da vida cotidiana. In: Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1997.

KEEGAN, Paul. Introduction. In: FREUD, Sigmund. The psychopathology of everyday life. London: Penguin Classics, 2002.

TALLAFERRO, Alberto. Curso básico de Psicanálise [Tradução Álvares Cabral ]. 2.ed. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

O idiota, de Dostoievski, e Policarpo Quaresma, de Lima Barreto

Posted: 5.4.11 by Glauber Ataide in Marcadores:
0

Este artigo, de autoria do jornalista Renato Pompeu, faz uma comparação entre dois protagonistas de dois dos meus livros favoritos: o príncipe Michhkin, do livro "O idiota", de Dostoievski, e Policarpo Quaresma, do livro "O triste fim de Policarpo Quaresma", de Lima Barreto.


“Policarpo” seria um “Idiota”?

Renato Pompeu

Quis o acaso que os palcos paulistanos reunissem os romances “O Idiota”, do russo Fiodor Dostoievski (Fiodor é a forma russa de Teodoro), escrito em 1867-69, e “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, do carioca Lima Barreto, publicado quase meio século depois, em 1911. Mas o mais estranho é que os dois heróis, o “idiota” príncipe Michhkin e o “patriota” Quaresma têm muito em comum. A ponto que serviria para o romance russo a epígrafe do romance brasileiro: “O grande inconveniente da vida real e que a torna insuportável para o homem superior é que, se para ela são transportados os princípios do ideal, as qualidades se tornam defeitos, tanto que muito frequentemente aquele homem superior realiza e consegue bem menos do que aqueles movidos pelo egoísmo e pela rotina vulgar”, citação do livro “As origens do cristianismo”, do humanista francês Ernest Renan, do século 19.

O que é que isso tem a ver com Michkin? O príncipe, quando começa o romance, chega a São Petersburgo depois de ter passado um tempo internado num sanatório suíço, por sofrer de “idiotia” (na época, termo médico aplicado a pessoas com profundo retardamento mental) e de epilepsia. Na verdade, fosse ou não retardado (Dostoievski não deixa isso claro), Michkin era homem profundamente ético e generoso, o que o torna destoante da maioria dos demais personagens da obra, egoístas, interesseiros e que levam em conta muito mais as virtudes do dinheiro do que as virtudes morais.

Michkin, por exemplo, se dispõe a casar com uma mulher “decaída”, por ser ao mesmo tempo solteira e não mais virgem, amante de um homem poderoso que se propõe a pagar a um conhecido do príncipe para esse conhecido se casar com ela e esse homem poderoso poder continuar a ser amante da moça. Michkin quer se casar com ela, apesar de estar apaixonado pela filha mais nova de um general, para dar à “decaída” um sobrenome e uma posição de respeito na sociedade. E também para livrar seu conhecido do vexame de ser um marido pago para ser traído.

O príncipe, durante a trama, recebe uma herança, que aos poucos se descobre ser de valor bem menor do que o inicialmente esperado. Surge um enxame de credores, supostos ou reais, e de parentes e amigos, também supostos e reais, que literalmente passam a extorquir grandes quantias de Michkin. Generoso e desprendido, ou talvez “idiota”, o príncipe se esforça por atender a todos os pedidos.

Rejeitado tanto pela “decaída” com quem pretendia se casar, como pela jovem pela qual se tinha apaixonado, Michkin, igualmente abandonado por todos ao praticamente se esgotar seu dinheiro, não tem outro remédio senão novamente se internar no sanatório suíço. Ambas as mulheres se unem a homens de caráter duvidoso.

Vemos que Michkin se enquadra na definição de “homem superior” da epígrafe escolhida para “Policarpo”, pois “consegue bem menos do que aqueles movidos pelo egoísmo e pela rotina vulgar”. Pois “fora da rotina” e “destoante” era um dos sentidos da palavra “idiota” na Grécia antiga, reservada para pessoas, que, por terem opiniões muito próprias, “idiossincrasias”, não participavam da vida política dos cidadãos comuns.

Igualmente, Policarpo Quaresma poderia ser considerado “idiota”, e de fato foi considerado louco, por causa de seu extremo idealismo nacionalista. Servidor civil do Exército, onde exerce funções burocráticas, conhecido como “major” apesar de não ter a patente, Quaresma é um solteirão considerado, inicialmente, “esquisitão” por ler muito nas horas vagas (como se fosse um novo Dom Quixote). Ainda mais “esquisitão” passa a ser julgado pelos amigos quando se dispõe a aprender a tocar violão, considerado na época um instrumento ligado a malandros e vagabundos. A justificativa de Quaresma é que ele acha o violão um símbolo da nacionalidade brasileira.

No entanto, avançando em seu nacionalismo, possivelmente por considerar o violão, afinal, de origem européia e assim não ser um instrumento genuinamente brasileiro, o major Quaresma passa a estudar o tupi, “idioma” insuspeito de europeísmo, e as tradições indígenas em geral. Depois de propor ao Parlamento que tornasse obrigatório o tupi como língua oficial do País, Quaresma passa de “esquisitão” a “louco” na visão de seus conhecidos.

Logo essa visão passa a diagnóstico médico e funcional. É que Quaresma começa a redigir documentos de sua repartição em tupi, sendo por isso afastado de suas funções e internado num manicômio. Anos depois, recebe alta e, aposentado, gasta grande parte de sua pensão na compra de um sítio no interior, para viver do “solo pátrio” e difundir técnicas agrícolas avançadas.

O empreendimento fracassa com estardalhaço, e Quaresma, apesar de se isolar da política local (afinal, como Michkin, ele é também um “idiota” no sentido grego antigo da palavra), se vê perseguido pelas duas correntes políticas rivais. Pois cada partido julga seu isolamento um disfarce para Quaresma servir ao partido adversário. Na verdade, ele se mantinha afastado dos dois partidos por considerá-los, a partir de seu idealismo, por demais ligados a interesses mesquinhos.

Quaresma, sempre nacionalista, era também republicano de carteirinha. Quando ocorre, no início dos anos 1890, o movimento monarquista para a derrubada do presidente da República, marechal Floriano Peixoto, movimento conhecido como Revolta da Armada, o “major” deixa o sítio para combater no Rio de Janeiro a revolta, sendo engajado com a patente de fato de major num regimento.

Acontece que, lutando pela República, Quaresma descobre que o novo regime está longe de corresponder a seus ideais elevados, corroído que está por corruptos e bajuladores. Ele passa a criticar essas mazelas, o que o leva a ser considerado traidor e a ser condenado ao fuzilamento. Realmente, triste fim de Policarpo Quaresma. Como também foi triste o fim de Michkin, outro “idiota”.

Assim, ficam claras as semelhanças entre os dois heróis dos romances agora encenados em São Paulo.


P.S.: Na foto deste post, à esquerda, temos o Príncipe Michkin conforme interpretado na mini-série russa em 10 episódios "O idiota", baseada no livro homônimo de Dostoievski. Vale a pena assistir, foi muito bem feita bem e é muito próxima ao livro.


Psicologia de massas do fascismo, de Wilhelm Reich - uma resenha

Posted: 2.3.11 by Glauber Ataide in Marcadores: , , , ,
2

A importância do estudo do fascismo não é meramente histórica. A definição de fascismo dada pelo psicanalista marxista Wilhelm Reich, como "a expressão da estrutura irracional do caráter do homem médio, cujas necessidades biológicas primárias e cujos impulsos têm sido reprimidos há milênios", deixa claro que o fascismo é um fenômeno atual, quer apresente-se de forma aberta ou apenas latente.

Ou seja, aquele fascismo de ontem, destruído na II Guerra Mundial pelos comunistas da URSS, é o mesmo fascismo de hoje, e tem todas as possibilidades de se reorganizar como outrora sob Hitler. Daí a importância de compreendê-lo, de dominá-lo teoricamente, para então melhor combatê-lo.

É isso o que Reich afirma: "O fascismo só pode ser vencido se for enfrentado de modo objetivo e prático, com um conhecimento bem fundamentado dos problemas da vida." (p. XX)

A abordagem de Reich sobre o fascismo é riquíssima, se configurando como uma genial síntese entre Marx e Freud, entre marxismo e psicanálise. Seu livro "Psicologia de massas do fascismo" foi escrito e publicado no início da década de 1930, enquanto o fascismo era ainda incipiente, e antes também de causar todas aquelas atrocidades que chocariam o mundo anos depois. Isso mostraria, mais tarde, a justeza da análise de Reich.

Nesta obra ele responde a questões fundamentais sobre o fascismo e o seu surgimento, coisas que em sua época não era possível responder com a análise apenas econômica do chamado "marxismo vulgar".

Algumas dessas questões eram: como foi possível o surgimento do fascismo, sendo ele não um pequeno movimento associado a Hitler ou a Mussolini, mas sim um movimento de amplas massas? Como puderam as massas empobrecidas se alinhar com um discurso completamente contrários aos seus próprios interesses de classe? Por que Hitler foi mais eficiente do que o Partido Comunista em alcançar uma vasta audiência antes apolítica?

Essas perguntas eram de importância fundamental, principalmente dentro do Partido Comunista da Alemanha, do qual Reich era o editor da revista de psicologia.


A clivagem

Um ponto fundamental da análise de Reich para responder a essas questões é o que ele chama de "clivagem" da situação econômica com a situação ideológica do trabalhador.

Isso é, seria de se esperar que o trabalhador empobrecido, diante do trabalho de agitação e propaganda do partido comunista, desenvolvesse uma clara consciência de sua situação social, a qual se tranformaria numa determinação revolucionária de se livrar de sua própria miséria social.

Mas o contrário aconteceu na Alemanha de Hitler, e ainda hoje acontece, com frequência. Mas por quê? O que causa essa chamada clivagem entre a situação econômica e a ideológica do trabalhador?

Reich explica essa clivagem apontando para a estrutura de caráter do homem médio, que tem como um dos principais fatores a sexualidade reprimida.

Esta estrutura de caráter, gestada há milênios sob uma sociedade patriarcal, é utilizada de forma eficiente pela ideologia imperialista para servir aos seus propósitos.


A função social da repressão sexual

O marxista Reich compreende perfeitamente que são as condições materiais que determinam a superestrutura ideológica de toda sociedade. Mas é baseando-se em Sigmund Freud que ele vai dizercomo isso acontece na mente do indivíduo, e também como a ideologia afeta a estrutura econômica. Munido com as revolucionárias descobertas de Freud sobre o inconsciente e a sexualidade infantil, Reich afirma:

"A inibição moral da sexualidade natural na infância, cuja última etapa é o grave dano da sexualidade genital, torna a criança medrosa, tímida, submissa, obediente, "boa", e "dócil", no sentido autoritário das palavras. Ela tem um efeito de paralisação sobre as forças de rebelião do homem, porque qualquer impulso vital é associado ao medo; e como sexo é um assunto proibido, há uma paralisação geral do pensamento e do espírito crítico. Em resumo, o objetivo da moralidade é a criação do indivíduo submisso que se adapta à ordem autoritária, apesar do sofrimento e da humilhação. Assim, a família é o Estado autoriário em miniatura, ao qual a criança deve aprender a se adaptar, como uma preparação para o ajustamento geral que será exigido dela mais tarde. A estrutura autoritária do homem é basicamente produzida - é necessário ter isso presente - através da fixação das inibições e dos medos sexuais na substância viva dos impulsos sexuais." (p. 28, grifo nosso)

[...]

"O resultado é o conservadorismo, o medo de liberdade; em resumo, a mentalidade reacionária." (p. 29, grifo nosso)

O efeito, então, da ideologia sobre a base econômica e que vai gerar essa clivagem é resumida dessa forma:

"...a inibição sexual altera de tal modo a estrutura do homem economicamente oprimido, que ele passa a agir, sentir e pensar contra os seus próprios interesses materiais." (p. 30)


A estrutura familiar e o fascismo

Wilhelm Reich nos fornece inúmeras citações de panfletos nazistas da época para mostrar a importância dada pelo Partido Nacional-Socialista à estrutura familiar patriarcal, conservadora. Obviamente eles o faziam mais por "instinto" do que por um conhecimento psicológico profundo.

A partir da análise da família, Reich compreende a razão do fascismo ser um fenômeno típico da classe média-baixa: é devido à estrutura familiar autoritária deste estrato social.

Na família do operário, por exemplo, como a mulher precisa trabalhar e ele não sustenta a casa sozinho, o caráter patriarcal é menos influente do que na família de classe média.

A posição dos nazistas em temas como o aborto, por exemplo, deixa claro o que estava em jogo: a repressão sexual. Eles se manifestavam veemente contra o aborto e contra qualquer tipo de regulação da vida sexual.

Os nazistas pregavam o sexo apenas após o casamento, e eram a favor de um estrito controle sobre a sexualidade, combatendo o "bolchevismo cultural".

Reich identifica nisso que o homem médio não conhece a regulação da vida sexual - acha que tem que escolher ou a moral sexual repressiva ou a anarquia sexual, a libertinagem. Uma forma de maniqueísmo sexual.


Religião e misticismo

Os panfletos nazistas reproduzidos por Reich também mostram o quanto eles se apoiavam na religião e no misticismo.

Mas a psicanálise já havia desvendado o efeito psicológico ocorrido nas pessoas sob influência de cultos religiosos. Já havia mostrado a correlação entre as idéias de Deus como pai; de mãe de Deus como mãe e da Trindade como o triângulo familiar (pai, mãe e filho).

Isso é, "os conteúdos psíquicos da religião têm a sua origem nas relações familiares desde a primeira infância."

Reich, se baseando nas descobertas da psicanálise sobre a experiência psíquica da religião, afirma:

"...o homem religioso encontra-se num estado de total desamparo. Em consequência da total repressão da sua energia sexual, perdeu a capacidade para a felicidade e para a agressividade necessária ao combate das dificuldades da vida. Quanto mais desamparado ele se torna, mais é forçado a acreditar em forças sobrenaturais que o apóiam e o protegem. Assim se compreende que, em algumas situações, ele seja capaz de desenvolver um incrível poder de convicção; de fato, uma indiferença passiva com relação à morte. Essa força advém-lhe do amor às suas próprias convicções religiosas, que são sustentadas por excitações físicas altamente prazerosas. Mas ele acredita que essa força provém de 'Deus'. O seu anseio por Deus é, na realidade, o anseio originado pela sua excitação sexual anterior ao prazer e que exige ser satisfeito. A liberação não é, nem pode ser, mais do que a libertação das tensões físicas insuportáveis, que podem ser agradáveis enquanto puderem ser associadas a uma união imaginária com Deus, isto é, à satisfação e ao alívio. A tendência dos religiosos fanáticos para se flagelarem, para atos masoquistas, etc, só vem confirmar o que dissemos. A experiência clínica em economia sexual mostra que o desejo de ser espancado ou a autopunição corresponde ao desejo instintivo de alívio sem incorrer em culpa. Não há tensão física que não evoque fantasias de estar sendo espancado ou torturado, se o indivíduo em questão se sente incapaz de produzir por si próprio o alívio. É essa a origem da ideologia do sofrimento passivo, presente em todas as religiões." (p. 139-140)

[...]

"Em nenhuma classe social florescem as histerias e as perversões, tanto como acontece nos círculos ascéticos da igreja."

O misticismo e a religião reforçam a inibição sexual, a moralidade de submissão e a estrutura familiar patriarcal autoritária. Daí o enorme interesse do fascismo e de toda sorte de reacionarismo político em se utilizar dessas instituições para desarmar o proletariado e manter intacto, sem perturbações, o seu sistema de dominação.


Economia sexual no combate ao fascismo

Reich, como todo marxista, compreende que mais importante do que interpretar o mundo, o que importa é transformá-lo. Por isso sua obra não poderia deixar de apontar alguns caminhos para combater as bases do fascismo.

Vamos nos limitar a citar apenas uma das políticas de economia sexual que ele apresenta, que é resumida da seguinte forma:

"Se conseguimos eliminar o medo infantil da masturbação - o que tem como consequência o aumento da necessidade de satisfação sexual genital -, então o conhecimento intelectual e a satisfação sexual prevalecerão. À medida que desaparece o medo da sexualidade, ou o medo da antiga proibição sexual paterna, diminui também a crença mística." (p. 171)

"A consciência sexual e os sentimentos místicos são incompatíveis."

[...]

"Não nos interessa discutir a existência ou inexistência de Deus: limitamo-nos a suprimir as repressões sexuais e a romper os laços infantis em relação aos pais." (p. 172)

Para comprovar a justeza da linha de seu trabalho, Reich cita os resultados que ele vinha obtendo em seu trabalho de economia sexual com os operários e suas famílias.


Conclusão

Esta obra de Reich, em nosso entendimento, seria melhor se não tivesse sofrido as revisões que sofreu nas edições seguintes à original. À medida que se passam os capítulos, sua obra começa a se mostrar uma colcha de retalhos. Isso foi causado pelo afastamento de Reich do Partido Comunista da Alemanha e seu abandono do marxismo, que ocorreu entre uma edição e outra, num espaço de mais de 10 anos.

As críticas que Reich ensaia sobre a URSS, por exemplo, são em sua maioria descabidas, tendo ele incorrido no grave erro do reducionismo psicológico. E justamente ele, que tanto criticava os "marxistas vulgares" pelo reducionismo econômico.

Nos primeiros capítulos Reich é comunista; no último já abandonou completamente o comunismo e o marxismo, defendendo a teoria da "democracia do trabalho", inventada por ele mesmo. Isso comprometeu a coesão e a coerência de sua obra.

No entanto, permanece intocável o valor de sua análise do fascismo presente nos primeiros capítulos, sendo esta obra altamente recomendável a todos aqueles que pretendem empreender uma análise profunda do fascismo.

Fonte: O Marxista-Leninista (com adaptações)