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O orgasmo é uma pequena morte

Posted: 13.6.18 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Encontrei a expressão alemã "Der kleine Tod" em uma letra de música. Sua tradução literal é "a pequena morte", e percebi que seu uso ali se referia à experiência do orgasmo. Out of curiosity, quis saber se a estranha correlação já existia ou se havia sido identificada pelos músicos. Descobri que sua conotação sexual vem desde 1882, mas que já se tinha registro de seu uso em 1572.

A relação entre "morte" e "orgasmo" se dá no fato de que uma "kleine Tod" (ou "petite mort", no francês) é uma breve perda ou enfraquecimento da consciência, que é a sensação que se tem durante o orgasmo e nos instantes seguintes. É como se ao gozar o indivíduo morresse, "fosse ao céu", experimentasse a beatitude e depois retornasse à vida. Neste interessante texto, o autor argumenta que a equivalência dos termos "morte" e "orgasmo" clarifica até mesmo a noção cristã de Eternidade. "Ir para o céu", para o cristão, seria a consequência e desfecho de um infinito ato de amor. Esta relação aparece também, por acaso, na letra da música em questão. Confira:

Der kleine Tod / Lässt mich sterben / Bringt dem Himmel / Mich so nah / Der kleine Tod / Lässt mich leben / Göttergleich / Und wunderbar / Ich schreie in den schrillsten Tönen nach dir [...] Minuten für die Ewigkeit / Die Ewigkeit für uns / Komm stirb mit mir / Komm stirb mit mir und komm* / Minuten für die Ewigkeit / Die Ewigkeit für uns / Ich töte dich / Du tötest mich / Wir sterben Arm in Arm

Tradução

A pequena morte / Me deixa morrer / Me traz para / Tão perto do céu / A pequena morte / Me deixa viver / Como uma deusa / E maravilhosa / Eu grito por você nos tons mais agudos [...] Minutos para a eternidade / A eternidade para nós / Venha morrer comigo / Venha morrer comigo e venha* / Minutos para a eternidade / A eternidade para nós / Eu te mato / Você me mata / Nós morremos um nos braços do outro


Em alguns dicionários as expressões "der kleine Tod", "la petite mort" ou "the little death" já aparecem como gíria para "orgasmo". Em 2017 foi inclusive lançado um filme com este título em inglês, "The little death".

* O uso do verbo alemão "kommen" (vir) é análogo ao do inglês "come", e tem a conotação sexual de gozar. Exemplo: "Ich komme gleich", como na imagem acima, é o mesmo que "I come now", traduzido como "vou gozar agora".

Notas sobre a homossexualidade em Freud

Posted: 19.9.17 by Glauber Ataide in Marcadores:
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A homossexualidade, para Freud, não é nenhum tipo de “desvio” de comportamento ou doença. Para o pai da psicanálise, todos os seres humanos são originariamente bissexuais, e “a psicanálise permite-nos apontar para um vestígio ou outro de uma escolha homossexual em todos os indivíduos”.

A homossexualidade é muito mais comum e natural do que poderiam suspeitar os conservadores. No artigo O caso Schreber, Freud afirma que “de modo geral, todo ser humano oscila, ao longo da vida, entre sentimentos heterossexuais e homossexuais.” 

Este mesmo ponto de vista é reafirmado em A psicogênese de um caso de homossexualismo numa mulher: “Em todos nós, no decorrer da vida, a libido oscila normalmente entre objetos masculinos e femininos”. Mais adiante, ele continua: “A psicanálise possui uma base comum com a biologia, ao pressupor uma bissexualidade original nos seres humanos”. 

O que definirá a preponderância da chamada “escolha objetal” de um indivíduo por pessoas do mesmo sexo não pode ser definido de antemão. Na perspectiva da psicanálise a homossexualidade não é, de forma alguma, “antinatural” ou um “desvio” de qualquer natureza. 

Segundo Freud, “uma medida muito considerável de homossexualismo latente ou inconsciente pode ser detectada em todas as pessoas normais” (isso é, não acometidas por neuroses), e levando em consideração diversas descobertas da psicanálise sobre o assunto, “cai por terra a suposição de que a natureza criou, de maneira aberrante, um “terceiro sexo”.

Em sua experiência clínica, Freud afirma jamais ter passado “por uma só psicanálise de um homem ou de uma mulher sem ter de levar em conta uma corrente homossexual bastante significativa.”

Freud e a transitoriedade do belo: prazer e desprazer na contemplação estética

Posted: 20.4.17 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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A beleza do mundo natural e das criações artísticas serão um dia reduzidas a nada. Mesmo que o tempo não lhes modificasse, que uma nova era geológica não lhes transformasse ou que a própria ação humana não lhes destruísse, é certo que nossa estrela, o sol, em bilhões de anos deixará de emitir sua luz e calor, que toda forma de vida em nosso planeta será extinta e que, com isso, não haverá mais nenhuma lembrança de tudo que se passou neste planeta.

Parece injusto, contudo, que tanta beleza tenha que deixar de existir. Que tanta perfeição não tenha propósito e seja, no fundo, sem nenhum sentido. São exigências de nossa razão prática, e quando a realidade desaponta uma ilusão, segue-se um estado de tristeza e vazio.

A experiência psicológica de contemplar a beleza, ser afetado por ela e, ao mesmo tempo, sentir-se melancólico pela projeção de um fim que talvez nem venhamos a testemunhar abriga duas tendências simultâneas: o prazer da contemplação estética e o desprazer por uma falta imaginada. Segundo Freud, este desprazer diante da transitoriedade do belo é uma antecipação do luto.

O luto é uma reação natural à perda física de um objeto. Nossa libido, que pode ser definida como a nossa capacidade de amar, é dirigida, na infância, ao nosso próprio ego. À medida que crescemos, ela é direcionada e fixada em objetos do mundo externo, os quais se tornam também objetos internos em nossa vida psíquica. O luto acontece quando o objeto do mundo real se perde, é destruído, e a libido tem que se desligar, que se desassociar dele. A dor do luto é justamente a dor da liberação da libido de um objeto.

Pode-se entrar em luto devido à perda de vários tipos de objetos, não apenas pessoas. Qualquer representação ou abstração que ocupe um lugar significativo na vida psíquica de uma pessoa, isso é, que tenha uma forte investida libidinal, pode desencadear um processo de luto. Objetos como um país, a liberdade ou o ideal de alguém são alguns deles.

Artistas ou indivíduos de maior sensibilidade à contemplação estética são capazes de sentir, por isso, profundo pesar diante da perda - mesmo que imaginada ou antecipada - do belo. Mesmo que suas vidas sejam curtas demais para presenciarem uma destruição real de toda a beleza do mundo, a mera possibilidade dessa perda gera uma revolta contra ela.

Freud observou que essa foi a razão pela qual, num certo dia de 1913, ele não foi capaz de dissuadir um jovem poeta, com quem fazia um passeio, de que a transitoriedade da beleza em nada lhe diminui o valor. Para o pai da psicanálise, o que importava era o valor da beleza para nossas próprias vidas psíquicas, pouco importando se um dia as coisas belas deixariam de existir. O fato de serem temporais, e não eternas, não pesa contra elas. 

Embora os argumentos de Freud parecessem a si próprio incontestáveis, ele não foi capaz de convencer seu acompanhante. Notando a perturbação do seu entendimento, sua análise foi a de que uma intensa resistência se encontrava em ação na mente de seu interlocutor, concluindo que o desprazer que ele sentia, que esta melancolia diante da transitoriedade da beleza era uma antecipação do luto, uma reação imaginada à perda de um objeto em que ele havia realizado um forte investimento libidinal.

Se deveríamos nos sentir tristes pela transitoriedade de toda beleza, se é racionalmente justificável tal experiência interna, isso não está em questão. O que o conceito psicanalítico de luto nos ajuda a fazer é apenas descrever, explicar essas duas correntes de pensamento presentes na contemplação do belo. Talvez poderíamos explicar também, através da economia psíquica, a própria experiência do sublime. Mas deixemos essa hipótese para um outro momento.

Psicanálise: clínica & pesquisa

Posted: 2.9.16 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Em Psicanálise: clínica & pesquisa, Luciano Elia se propõe a demonstrar em que medida a pesquisa se impõe à prática em psicanálise, revelando como a pesquisa é uma dimensão essencial da práxis analítica. Além disso, o autor articula o conceito de sujeito na ciência e na psicanálise e discorre sobre diversos aspectos sócio-econômicos implicados em uma concepção teórica elitista da psicanálise. 

A psicanálise é uma ciência?

Um importante aspecto a se considerar na questão é que a psicanálise deriva da ciência, mas não se reduz a ela. Apesar da aspiração de Freud a que a psicanálise fosse reconhecida como uma ciência, do ponto histórico em que estava não lhe era possível extrair todas as conseqüências desse seu passo. Lacan então interroga: que ciência poderia incluir a psicanálise?

A resposta é que nenhuma das ciências é capaz de responder à questão que a psicanálise lhes coloca, constituído esta, então, uma derivação e uma ultrapassagem da ciência. A psicanálise, segundo demonstrado por Lacan, é um saber inteiramente derivado, porém não integrante do campo científico, e tudo isso devido à introdução do sujeito pela psicanálise na cena discursiva, sujeito este que foi excluído da ciência.

O sujeito na ciência foi inventado por Descartes, mas é um sujeito sem qualidades, sejam sensoriais, perceptuais, anímicas, morais, enfim, numa palavra, empíricas. É um sujeito sem qualidade alguma.
Dizer, portanto, que a psicanálise deriva da ciência seria dizer que o sujeito com o qual se opera em psicanálise – o sujeito do inconsciente - é um sujeito sem qualidades. O sujeito da psicanálise só pode ser incluído como sujeito do inconsciente.

Ao considerar que há um modo peculiar de fazer pesquisa em psicanálise, entramos no terreno do método. E a questão crucial deste método é a inclusão do sujeito em toda a extensão, e em todos os níveis – saber teórico, prática clínica, atividade de pesquisa, etc. Toda e qualquer pesquisa em psicanálise é, assim, necessariamente uma pesquisa clínica.

A psicanálise e sua extensão social

O lócus específico do exercício clínico psicanálise tem sido o consultório particular. No entanto, a concepção deste consultório como lugar, na maioria das vezes, exclusivo de se fazer psicanálise, deve ser colocado em questão.

A concepção do setting analítico, decorrente dessa característica do consultório particular, teve como uma de suas conseqüências a elitização da psicanálise, sua restrição a determinadas camadas sociais que tem acesso à configuração clássica denominada consultório particular. Procede-se como se os princípios teóricos clínicos e éticos da psicanálise autorizassem avalizassem e até exigissem certas condições ditas “técnicas” para o exercício da prática psicanalítica, como uma configuração logística eivada de pré-requisitos socioeconômicos, políticos e ideológicos, pertinência às classes de renda mais elevada, etc.

Mas a utilização de algum rigor no exame da questão revela rapidamente o grau dessa deformação, afirma Elia. Pelo fato de a psicanálise introduzir no campo do saber a dimensão do homem inconsciente, uma conseqüência fundamental é a seguinte: o sujeito do inconsciente não é um sujeito empírico, dotado de atributos psicológicos, sociais, políticos, ideológicos ou afetivos. Enquanto tal, ele é sem atributos. E o próprio Freud, em diversos momentos, coloca o sujeito acima de suas configurações ou inserções sociais, o que demonstra que a elitização da psicanálise foi um desvirtuamento precoce.

É possível fazer psicanálise em qualquer estrato social, em qualquer ambiente institucional (não apenas no clássico setting analítico, que deve ser interpretado, de acordo com Lacan, como um lugar estrutural, e não físico), desde que haja analista, de um lado, e sujeito dividido, de outro. O elitismo é demonstrado, portanto, como impossível numa postura rigorosamente psicanalítica.

O fato de a psicanálise se manter ainda reduzida a determinada extensão social persiste porque os analistas aderem a uma configuração do dispositivo analítico decorrente de um processo de imaginarização das condições de análise, que se relacionam no mais alto grau a uma ideologização da prática psicanalítica a partir de sua inserção no sistema capitalista.

Psicanálise e universidade

A psicanálise é relativamente recente tanto na universidade quanto no mundo. No entanto, a partir de Lacan, viu-se que ela não poderia definir-se como especialidade médica, abrindo assim seu exercício a outros agentes. No Brasil isso ocorreu de tal forma que a maioria dos psicanalistas hoje são psicólogos. A psicanálise passa hoje, portanto, por uma desmedicalização juntamente com uma deselitização. E tais efeitos não deixam de se relacionar com a inserção da psicanálise na universidade.

O discurso analítico, segundo Lacan, pode habitar a universidade sem prejuízo ou deterioração para si ou para as práticas universitárias.

A pesquisa em psicanálise - o uso de material clínico

Posted: 31.8.16 by Glauber Ataide in Marcadores:
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O texto abaixo é uma resenha do artigo O uso de material clínico na pesquisa psicanalítica, de Gilberto Safra.

A psicanálise é, desde o seu início, uma terapia e um método de investigação do psiquismo humano. A própria atitude de Freud diante das dificuldades encontradas ao longo do processo de elaboração da psicanálise o levou a aprender continuamente de sua prática, o que conferiu a esta a característica de estar em permanente transformação e expansão. Assim, desde o seu início temos o modelo de pesquisa em psicanálise: o diálogo permanente entre a teoria e a clínica.

Para ilustrar o tema proposto em seu artigo, Safra apresenta o caso de uma paciente, Jane, de 19 anos. Esta jovem decidiu iniciar o processo de análise devido a alguns sintomas que a perturbavam no cotidiano, como não conseguir dirigir automóvel, usar elevadores, viajar de avião, etc. 

Jane vinha apresentando vários progressos após 5 anos de análise, quando então aconteceu o episódio que nos interessa: ela faltou a uma de suas sessões sem avisar. Na sessão seguinte, entrando na sala de análise com os olhos abaixados e sem fitar o analista, deitou-se e já foi justificando sua falta passada. Disse que foi convidada para ir ao cinema com o namorado, e que então teve que escolher entre este programa e a análise. Seu tom de voz sugeria que ela estava se desculpando.

Ao perceber isso, o analista lhe perguntou por que ela estava se desculpando, ao que ela respondeu que não sabia, que sentia talvez estar fazendo alguma coisa errada e que o analista lhe daria uma bronca. O analista então lhe respondeu dizendo que ela parecia ter medo de que ele não aceitasse que ela tivesse uma vida própria e seu namorado, e que ele sentiria ciúmes ou inveja. Jane respondeu chorando e confessou que suas vivências haviam sido assim com sua mãe.

Após este relato Safra pergunta: uma vez que o analista não toma notas durante a sessão, seria este relato uma apresentação acurada do que realmente se passou no consultório? Pois muitos são os fenômenos que se passam entre analista-analisando impossíveis de serem registrados.

Daí a conclusão geral de que o relato realizado, portanto, é um modelo construído a partir de um recorte do que realmente aconteceu na sessão, baseado na interpretação e elaboração das angústias que se manifestam na relação transferencial. Jane, neste caso, parecia buscar no analista um objeto que não retaliasse as suas tentativas de autonomia. 

Assim, pretender que fosse exato o relato do que se passa numa sessão seria acreditar que é possível captar o absoluto. Para a utilização do material clínico para pesquisa é necessário levar em conta que se trata de um recorte, limitado por um determinado ponto de vista. A psicanálise inaugurou uma nova maneira de fazer pesquisa, na qual deve-se levar em conta a participação do sujeito no fenômeno que observa.

Mas não há, no entanto, um saber que possa ser aplicado a todos os indivíduos na psicanálise. A cada análise o psicanalista deve despojar-se do que já conhece teoricamente para perceber o original e novo que seu paciente lhe apresenta. Neste sentido, a cada atendimento há, de fato, uma renovação da psicanálise.

A sessão relatada pode ilustrar este ponto. Jane vinha à sessão temendo um ataque ciumento e invejoso do analista. A paciente havia identificado projetivamente no analista seu objeto interno perseguidor. Essa relação objetal internalizada era a conjunção de uma mãe infantilizada com a autodestrutividade de Jane. No entanto, o analista percebeu que naquele exato momento o importante não era trabalhar sua autodestrutividade, o que já havia sido feito em outras sessões, mas sim poder encontrar, através da relação transferencial, um objeto contrastante ao objeto internalizado, que não atacasse suas tentativas de autonomia. Surgia a possibilidade de um novo padrão de relação objetal em seu mundo interno.

Como se pode ver, trata-se de uma situação que possui uma singularidade, que dependeu da história da relação entre os dois participantes do processo.

O ponto importante a ser sublinhando na sessão descrita é que se poderia ter interpretado a falta de Jane enfocando o ataque narcisista ao enquadre. No entanto, como a interpretação foi outra, enfocando a busca do desenvolvimento da paciente, isso permitiu que ela introjetasse um objeto não-possessivo e não competitivo.

A interpretação enfocando a agressão teria levado a paciente a reviver, na situação transferencial, uma relação objetal destruidora do seu desenvolvimento. Assim, temos aqui um exemplo de que nem todo ato é destrutivo para o processo psicanalítico.

O recorte da pesquisa

Um mesmo material pode ser utilizado para investigar dimensões diferentes do fenômeno clínico. No caso de Jane, poderia ser utilizada uma sessão para investigar o papel da comunicação pré-verbal na relação analista-analisando. Jane inicia sua sessão associando a respeito de sua falta na sessão anterior. O analista fez sua intervenção baseada no tom de voz da paciente e sua postura ao entrar na sala. Esses elementos pré-verbais permitiram que fosse diagnosticada a identificação projetiva da paciente.

Mas aqui se abre uma nova possibilidade de pesquisa: o que ocorreu com a paciente para que ela reagisse à intervenção chorando? Seria expressão de pesar? Desejo de aplacar o analista?

O psicanalista como pesquisador

Assim, dentro do modelo psicanalítico, não se pode falar do estudo do fenômeno psíquico sem levar em conta também o psiquismo do pesquisador. Este fato tanto pode contribuir para elucidar os fenômenos quanto para ocultá-los.

É fundamental para a pesquisa em psicanálise que o analista tenha a possibilidade de auto-analisar as suas reações psíquicas diante de seu trabalho com o seu paciente. Daí a obrigatoriedade nessa área de que o pesquisador tenha se submetido ao próprio processo que utilizará no seu trabalho de investigação. A objetividade nessa área de pesquisa dependerá da autoanálise do pesquisador.

No exemplo de Jane, só foi possível ao analista lidar com os sentimentos de exclusão diante da falta da paciente através de sua auto-análise. Caso o analista não tivesse podido se discriminar dessas fantasias, teria provavelmente interpretado a falta da paciente como ataque ao processo analítico e ela teria vivido o ocorrido como uma repetição da sua relação com um objeto ciumento e invejoso.

Depressão, antidepressivos e psicanálise

Posted: 29.8.16 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Ser feliz nunca foi tão fácil: independente de como esteja o mundo ou sua vida, existe uma pílula específica para o seu caso. A psiquiatria moderna garante que sua infelicidade tem cura, e a um preço razoável.

Esta é a denúncia feita pelo médico estadunidense Ronald W. Dworkin, autor do livro Felicidade artificial: o lado negro da nova classe feliz, da editora Planeta. Nesta obra, Dworkin revela que o consumo de antidepressivos e outras drogas psicotrópicas está aumentando, criando o que ele chama de felicidade artificial. Isso é, está-se formando uma nova geração de pessoas que se sentem felizes independentemente do que façam com suas vidas. Não importa como vai o emprego, os problemas financeiros ou o relacionamento: é possível ser feliz à base de pílulas, apesar de tudo.

Desde meados do século passado a infelicidade tem sido vista como uma doença. Essa tendência teve início nos EUA, quando os médicos de atenção primária simplesmente não sabiam como reagir aos problemas sociais e emocionais que eram levados aos consultórios por seus pacientes. A partir daí, sob a pressão para proporcionar alívio imediato ao sofrimento psíquico e com uma formação humanista extremamente deficiente, a estes profissionais se tornou atraente a linha de investigação que considerava as doenças psíquicas apenas segundo seus sintomas e seus aspectos mais superficiais.

Dentre todos os problemas psicológicos modernos a depressão é o caso mais emblemático. Esta é uma das doenças que mais levam ao consumo de fármacos, e segundo a Organização Mundial de Saúde, cerca de 350 milhões de pessoas sofrem de depressão atualmente, sendo a maioria mulheres. No Brasil gastou-se cerca de R$1,8 bilhão com antidepressivos e estabilizadores de humor no ano de 2012, um aumento de 16,29% em relação ao ano anterior, colocando o país na liderança mundial de venda dessas drogas. A depressão tem sido abordada pela atual psiquiatria como uma disfunção química do cérebro, como mera falta de seratonina. 

Mas segundo o psicanalista britânico Darian Leader, autor do livro Além da depressão – novas formas de entender o luto e a melancolia (Editora BestSeller), a maioria dos historiadores da psiquiatria e da psicanálise concorda que a depressão foi criada como uma categoria clínica, entre outros motivos, por uma pressão para classificar os problemas psicológicos da mesma forma que os outros problemas de saúde, o que deu nova ênfase no comportamento superficial, deixando de lado os mecanismos mais profundos, inconscientes. Na década de 1970, após divulgação dos efeitos nefastos e viciantes dos tranquilizantes mais comuns para a depressão terem sido publicados e seu mercado ter desmoronado, uma nova categoria diagnóstica foi criada – e ao mesmo tempo um remédio para ela. Como resultado, a indústria farmacêutica lucrou tanto com a idéia da depressão quanto com sua cura.

Ainda segundo Darian, existe hoje certo ceticismo em relação aos antidepressivos. Sabe-se bem que a maioria dos estudos sobre sua eficácia é financiada pela indústria farmacêutica e que, até recentemente, os resultados negativos raramente eram publicados. 

O tratamento da depressão, quando vista como um “problema cerebral”, traz inúmeros riscos. A ingestão de paroxetina, por exemplo, aumenta o risco de suicídio. De acordo com a chamada “mitologia cerebral” da atual psiquiatria, no entanto, existe uma explicação bioquímica: essa substância causa apenas “pensamentos suicidas”. Dessa maneira, segundo Leader, tal explicação compartilha da crença de que nossos pensamentos e ações podem ser determinados bioquimicamente.

Isso se revela, numa análise de fundo, como um desdobramento de certa orientação filosófica do materialismo vulgar. O surgimento da psicanálise no final do século XIX foi uma resposta a essa antiga concepção, a qual hoje se reapresenta com ares de novidade. A psiquiatria não considera, em grande medida, as especificidades de cada indivíduo, e só precisa lhe ouvir no consultório para saber quais são seus sintomas mais superficiais. A psicanálise, ao contrário, deu voz ao indivíduo. Não o considera como um objeto, não o examina sob as lentes de um microscópio. A psicanálise considera a subjetividade e a história de cada indivíduo como únicas. É por isso que psicanalistas como Darian Leader defendem a necessidade de abandonar o atual conceito psiquiátrico de depressão e de considerá-la como um conjunto de sintomas que derivam de histórias humanas complexas e sempre diferentes, à luz dos conceitos freudianos de luto e melancolia. O tratamento psicanalítico da depressão busca suas causas mais profundas na história de vida do indivíduo e em seu inconsciente, não se limitando apenas aos sintomas e seus derivados.

Sem sombra de dúvidas os medicamentos auxiliam no alívio temporário do sofrimento, e são muito importantes quando seu uso é conjugado com outras psicoterapias, principalmente a psicanalítica. Sozinhos, no entanto, nunca resolvem definitivamente o problema da depressão, além de causarem efeitos colaterais e oferecerem grande risco de dependência. O mito da depressão como uma doença exclusivamente biológica é um conceito altamente lucrativo para a indústria farmacêutica, mas igualmente preocupante para a saúde pública. Como afirma Elisabeth Roudinesco em Por que a psicanálise?, não se trata de “contestar a utilidade dos  medicamentos e desdenhar o conforto que proporcionam”. A questão é que eles são “incapazes de curar o homem de seus sofrimentos psíquicos, sejam normais ou patológicos. A morte, as paixões, a sexualidade, a loucura, o inconsciente, a relação com o outro modelam a subjetividade de cada ser humano, e nenhuma ciência digna desse nome escapará disso.” A psicofarmacologia, segundo Roudinesco, não faz mais do que suspender sintomas ou transformar uma personalidade, e encerrou o sujeito numa alienação ao pretender curá-lo da própria essência da condição humana.

Sobre crianças, ouvir histórias e assistir desenhos

Posted: 23.6.14 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Há alguns anos que leio as histórias dos irmãos Grimm para minha filha à noite (são mais de 200), e à medida que ela cresce aumenta sua percepção e compreensão de algumas coisas antes não questionadas. Logo na primeira frase da história de ontem ("Era uma vez um lenhador muito pobre que...") ela me interrompeu: "Pai, peraí: por que toda história começa falando de alguém que é muito pobre?" E eu não pude deixar de inserir um elemento crítico em relação aos desenhos de princesa da Disney que ela conhece: "Filha, porque a maioria das pessoas no mundo é pobre e trabalhadora, e essas histórias e folclores que os irmãos Grimm escreveram eram contados pelo povo. Você por acaso conhece alguma princesa igual aos desenhos da Disney? Tem alguma coleguinha sua assim na escola? A maioria dos pais são pobres e saem de casa bem cedo pra trabalhar e voltam só à noite, como o lenhador." Isso a fez comparar tanto sua vida quanto a de suas coleguinhas com alguns desses desenhos: "Aaaahh, não tenho nenhuma coleguinha assim..."

E isso me trouxe novamente a questão sobre que tipo de desenhos e histórias é desejável que a criança tenha acesso. Não proíbo minha filha de assistir nenhum desenho animado, a não ser que seja inapropriado para sua idade. Acho que proibir é pior, e para mim não é uma opção. O importante, a meu ver, é ensinar à criança desde cedo o exercício da dúvida ("será que Deus existe mesmo?", "existem princesas? quem são, onde moram?"), instigar a suspeita de que a realidade das coisas é diferente de sua aparência, mas sem prejuízo da imaginação infantil. O fantasiar é muito importante para a saúde psíquica da criança, pois lhe ajuda a lidar com diversas dificuldades inerentes ao processo de crescimento (como afirma este livro do Bettelheim). E essas histórias compiladas pelos Grimm, pelo fato de terem sido construídas coletivamente através de gerações, expressam profundas realidades inconscientes. Tais histórias possibilitam à criança trabalhar a faculdade da imaginação, coisa que a indústria cultural infantil rouba à criança desde muito cedo. E por fim acho também muito importante este hábito de contar histórias às crianças. (Não só que elas leiam, mas que ouçam as histórias.) Para as crianças há toda uma aura em torno de adultos que lhes contam histórias.

Freud e a melancolia: por que precisamos adoecer para saber a verdade sobre nós mesmos?

Posted: 20.2.14 by Glauber Ataide in Marcadores:
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No trecho abaixo Freud descreve algumas características da melancolia e sua relação com o luto. A melancolia, grosso modo, se instala a partir da perda do objeto - como o término de um relacionamento, por exemplo. Freud faz então uma afirmação interessante: a baixa auto-estima que o melancólico apresenta, assim como suas recriminações a si próprio, não são de todo erradas; a questão é saber por que as pessoas precisam adoecer para ter acesso a tais verdades sobre si próprias.

"O melancólico exibe ainda uma outra coisa que está ausente no luto — uma diminuição extraordinária de sua auto-estima, um empobrecimento de seu ego em grande escala. No luto, é o mundo que se torna pobre e vazio; na melancolia, é o próprio ego. O paciente representa seu ego para nós como sendo desprovido de valor, incapaz de qualquer realização e moralmente desprezível; ele se repreende e se envilece, esperando ser expulso e punido. Degrada-se perante todos, e sente comiseração por seus próprios parentes por estarem ligados a uma pessoa tão desprezível. Não acha que uma mudança se tenha processado nele, mas estende sua autocrítica até o passado, declarando que nunca foi melhor. Esse quadro de um delírio de inferioridade (principalmente moral) é completado pela insônia e pela recusa a se alimentar, e — o que é psicologicamente notável — por uma superação do instinto que compele todo ser vivo a se apegar à vida.

"Seria igualmente infrutífero, de um ponto de vista científico e terapêutico, contradizer um paciente que faz tais acusações contra seu ego. Certamente, de alguma forma ele deve estar com a razão, e descreve algo que é como lhe parece ser. Devemos, portanto, confirmar de imediato, e sem reservas, algumas de suas declarações. Ele se encontra, de fato, tão desinteressado e tão incapaz de amor e de realização quanto afirma. Mas isso, como sabemos, é secundário; trata-se do efeito do trabalho interno que lhe consome o ego — trabalho que, nos sendo desconhecido, é, porém, comparável ao do luto. O paciente também nos parece justificado em fazer outras auto-acusações; apenas, ele dispõe de uma visão mais penetrante da verdade do que outras pessoas que não são melancólicas. Quando, em sua exacerbada autocrítica, ele se descreve como mesquinho, egoísta, desonesto, carente de independência, alguém cujo único objetivo tem sido ocultar as fraquezas de sua própria natureza, pode ser, até onde sabemos, que tenha chegado bem perto de se compreender a si mesmo; ficamos imaginando, tão-somente, por que um homem precisa adoecer para ter acesso a uma verdade dessa espécie." (Freud, Luto e Melancolia)

Análise de um caso de histeria - o caso Katharina

Posted: 9.2.14 by Glauber Ataide in Marcadores:
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O texto abaixo é a análise feita por Freud de uma jovem com evidentes sintomas histéricos. Não é um caso clínico completo, haja vista que se resumiu a apenas um encontro. No entanto, para aqueles que nunca leram um caso clínico de Freud, este pequeno relato serve como uma introdução a este tipo de seus escritos, contando para isso com a vantagem de ser o menor encontrado em suas obras (apenas 9 páginas). Nesta época a psicanálise dava seus primeiros passos, e Freud ainda fazia uso da hipnose, técnica que, embora mencionada, ele não utilizou neste caso e veio a abandonar posteriormente.

Caso 4 - O caso Katharina

Nas férias de verão do ano de 189.. fiz uma excursão ao Hohe Tauern para que por algum tempo pudesse esquecer a medicina e, mais particularmente, as neuroses. Quase havia conseguido isso quando, um belo dia, desviei-me da estrada principal para subir uma montanha que ficava um pouco afastada e que era renomada por suas vistas e sua cabana de hospedagem bem administrada. Alcancei o cimo após uma subida estafante e, sentindo-me revigorado e descansado, sentei-me, mergulhando em profunda contemplação do encanto do panorama distante. Estava tão perdido em meus pensamentos que, a princípio, não relacionei comigo estas palavras, quando alcançaram meus ouvidos: “O senhor é médico?” Mas a pergunta fora endereçada a mim, e pela moça de expressão meio amuada, de talvez dezoito anos de idade, que me servira a refeição e à qual a proprietária se dirigira pelo nome de “Katharina”. A julgar por seus trajes e seu porte, não podia ser uma empregada, mas era sem dúvida filha ou parenta da hospedeira.

Voltando a mim, respondi:

—Sim, sou médico, mas como você soube disso?
—O senhor escreveu seu nome no livro de visitantes. E pensei que, se o senhor pudesse dispor de alguns momentos… A verdade, senhor, é que meus nervos estão ruins. Fui ver um médico em L— por causa deles, e ele me receitou alguma coisa, mas ainda não estou boa.

Assim, lá estava eu novamente às voltas com as neuroses — pois nada mais poderia haver de errado com aquela moça de constituição forte e sólida e de aparência tristonha. Fiquei interessado ao constatar que as neuroses podiam florescer assim, a uma altitude superior a 2.000 metros; portanto, fiz-lhe outras perguntas. Relato a conversa que se seguiu entre nós tal como ficou gravada em minha memória, e não alterei o dialeto da paciente.

—Bem, e de que é que você sofre?
—Sinto muita falta de ar. Nem sempre. Mas às vezes ela me apanha de tal forma que acho que vou ficar sufocada.

Isso não pareceu, à primeira vista, um sintoma nervoso. Mas logo me ocorreu que provavelmente era apenas uma descrição representando uma crise de angústia: ela estava destacando a falta de ar do complexo de sensações que decorrem da angústia e atribuindo uma importância indevida a esse fator isolado.

—Sente-se aqui. Como são as coisas quando você fica “sem ar”?
—Acontece de repente. Antes de tudo, parece que há alguma coisa pressionando meus olhos. Minha cabeça fica muito pesada, há um zumbido horrível e fico tão tonta que quase chego a cair. Então alguma coisa me esmaga o peito a tal ponto que quase não consigo respirar.
—E não nota nada na garganta?
—Minha garganta fica apertada, como se eu fosse sufocar.
—Acontece mais alguma coisa na cabeça?
—Sim, umas marteladas, o bastante para fazê-la explodir.
—E não se sente nem um pouco assustada quando isso acontece?
—Sempre acho que vou morrer. Em geral, sou corajosa e ando sozinha por toda parte, desde o porão até a montanha inteira. Mas no dia em que isso acontece não ouso ir a parte alguma; fico o tempo todo achando que há alguém atrás de mim que vai me agarrar de repente.

Portanto, era de fato uma crise de angústia, e introduzida pelos sinais de uma “aura” histérica — ou, mais corretamente, era um ataque histérico cujo conteúdo era a angústia. Mas não seria provável que houvesse também outro conteúdo?

—Quando você tem uma dessas crises, pensa em alguma coisa? E sempre a mesma coisa? Ou vê alguma coisa diante de você?
—Sim. Sempre vejo um rosto medonho que me olha de uma maneira terrível, de modo que fico assustada.

Talvez isso pudesse oferecer um meio rápido de chegarmos ao cerne da questão.

—Você reconhece o rosto? Quero dizer, é um rosto que realmente já viu alguma vez?
—Não.
—Sabe de onde vêm as suas crises?
—Não.
—Quando as teve pela primeira vez?
—Há dois anos, quando ainda morava na outra montanha com minha tia. (Ela dirigia uma cabana de hospedagem e nós nos mudamos para cá há dezoito meses.) Mas elas continuam a acontecer.

Deveria eu fazer uma tentativa de análise? Não podia aventurar-me a transplantar a hipnose para essas altitudes, mas talvez tivesse sucesso com uma simples conversa. Teria que arriscar um bom palpite. Eu havia constatado com bastante freqüência que, nas moças, a angústia era conseqüência do horror de que as mentes virginais são tomadas ao se defrontarem pela primeira vez com o mundo da sexualidade.

Então disse-lhe:

—Se você não sabe, vou dizer-lhe como eu penso que você passou a ter seus ataques. Nessa ocasião, há dois anos, você deve ter visto ou ouvido algo que muito a constrangeu e que teria preferido muitíssimo não ver.
—Céus, é isso mesmo! — respondeu. — Foi quando surpreendi meu tio com a moça, com Franziska, minha prima.
—Que história é essa sobre uma moça? Não vai me contar?
—Suponho que se pode contar tudo a um médico. Bem, naquela época, o senhor sabe, meu tio, o marido de minha tia que o senhor viu aqui, tinha a estalagem na — kogel. Agora eles estão divorciados, e a culpa é minha, pois foi através de mim que se veio a saber que ele estava andando com Franziska.
—E como você descobriu isso?
—Foi assim. Um dia, há dois anos, uns cavalheiros tinham subido a montanha e pediram alguma coisa para comer. Minha tia não estava em casa, e Franziska, que era quem sempre cozinhava, não foi encontrada em parte alguma. E meu tio também não foi encontrado. Procuramos por toda parte, e finamente Alois, o garotinho que era meu primo, disse: “Ora, Franziska deve estar no quarto de papai!” E ambos rimos, mas não estávamos pensando em nada de mau. Fomos então ao quarto do meu tio, mas o encontramos trancado. Isso me pareceu estranho. Então Alois disse: “Há uma janela no corredor de onde se pode olhar para dentro do quarto.” Dirigimo-nos para o corredor, mas Alois recusou-se a ir até a janela e disse que estava com medo. Então, eu falei: “Seu menino bobo! Eu vou. Não tenho o menor medo.” E não tinha nada de mau na mente. Olhei para dentro. O quarto estava um pouco escuro, mas vi meu tio e Franziska; ele estava deitado em cima dela.
—E então?
—Afastei-me da janela imediatamente, apoiei-me na parede e fiquei sem ar, justamente o que me acontece desde então. Tudo ficou opaco, minhas pálpebras se fecharam à força e havia marteladas e um zumbido em minha cabeça.
—Você contou isso a sua tia no mesmo dia?
—Oh, não, não disse nada.
—Então por que ficou tão assustada quando os viu juntos? Você entendeu? Sabia o que estava acontecendo?
—Oh, não. Não compreendi nada naquela ocasião. Tinha apenas dezesseis anos. Não sei por que me assustei.
—Srta. Katharina, se pudesse lembrar-se agora do que lhe aconteceu naquela ocasião em que teve sua primeira crise, no que pensou sobre o fato … isso a ajudaria.
—Sim, se pudesse. Mas fiquei tão assustada que me esqueci de tudo.
(Traduzido na terminologia de nossa “Comunicação Preliminar” |ver em [1]|, isso significa: “O próprio afeto criou um estado hipnóide cujos produtos foram então isolados da ligação associativa com a consciência do ego”.)
—Diga-me, senhorita, será que a cabeça que você sempre vê quando fica sem ar é a de Franziska, tal como a viu naquele momento?
—Não, não, ela não era tão horrível. Além disso, é uma cabeça de homem.
—Ou talvez a de seu tio?
—Não vi o rosto dele assim com tanta clareza. Estava escuro demais no quarto. E por que estaria fazendo uma cara tão medonha exatamente naquela hora?
—Você tem toda razão.
(O caminho de repente pareceu bloqueado. Talvez algo pudesse surgir no restante de sua história.)
—E o que aconteceu depois?
—Bem, os dois devem ter ouvido algum ruído, porque saíram logo em seguida. Senti-me muito mal o tempo todo. Ficava sempre pensando naquilo. Então, dois dias depois, era domingo, havia muito o que fazer, e trabalhei o dia inteiro. E na manhã de segunda-feira tornei a me sentir tonta e caí doente, fiquei acamada por três dias seguidos.

Nós |Breuer e eu| muitas vezes havíamos comparado a sintomatologia da histeria com uma escrita pictográfica que se torna inteligível após a descoberta de algumas inscrições bilíngües. Nesse alfabeto, estar doente significa repulsa. Então eu disse:

—Se você ficou doente três dias depois, creio que isso significa que quando olhou para dentro do quarto sentiu repulsa.
—Sim, tenho certeza de que senti repulsa — disse ela, pensativa —, mas repulsa de quê?
—Não terá visto alguém nu, talvez? Como estavam eles?
—Estava muito escuro para ver qualquer coisa; além disso, ambos estavam vestidos. Oh, se pelo menos soubesse do que foi que senti nojo!

Eu também não tinha nenhuma idéia. Mas disse-lhe que continuasse e que me contasse qualquer coisa que lhe ocorresse, na confiante expectativa de que ela viesse a pensar exatamente no que eu precisava para explicar o caso.

Bem, ela passou a descrever como afinal havia contado sua descoberta à tia, que a achou mudada e suspeitou que estivesse escondendo algum segredo. Seguiram-se algumas cenas muito desagradáveis entre o tio e a tia, no decorrer das quais as crianças vieram a ouvir muitas coisas que lhes abriram os olhos de várias maneiras e que teria sido melhor que não tivessem ouvido. Finalmente, a tia resolveu mudar-se com os filhos e a sobrinha e ficar com a atual estalagem, deixando o tio sozinho com Franziska, que entrementes ficara grávida. Depois disso, contudo, para minha surpresa, Katharina abandonou o fio da meada e começou a me contar dois grupos de histórias mais antigas, que retrocediam a dois ou três anos antes do momento traumático. O primeiro grupo relacionava-se com ocasiões em que o mesmo tio fizera investidas sexuais contra ela própria, quando estava com apenas quatorze anos. Ela descreveu como, certa feita, fora com ele numa viagem até o vale, no inverno, e ali passara a noite na estalagem. Ele ficou no bar bebendo e jogando cartas, mas ela sentiu sono e foi cedo para a cama, no quarto que iam partilhar no andar de cima. Não estava ainda inteiramente adormecida quando ele subiu; depois, tornou a adormecer e acordou de repente, “sentindo o corpo dele” na cama. Deu um salto e admoestou-o: “O que é que o senhor está pretendendo, tio? Por que não fica na sua própria cama?” Ele tentou apaziguá-la: “Ora, sua bobinha, fique quieta. Você não sabe como é bom.” — “Não gosto de suas coisas ‘boas’; o senhor nem ao menos deixa a gente dormir em paz.” Ela ficou de pé na porta, pronta a se refugiar no corredor do lado de fora, até que finalmente ele desistiu e foi dormir. Então ela voltou para sua própria cama e dormiu até de manhã. Pela maneira como relatou ter-se defendido, parece que ela não reconheceu nitidamente a investida como sendo de ordem sexual. Quando lhe perguntei se sabia o que ele estava tentando fazer com ela, respondeu: “Não naquela ocasião.” Disse então que isso lhe ficara claro muito depois: resistira porque era desagradável ser perturbada durante o sono e “porque não era bom”.

Fui obrigado a relatar isso minuciosamente por causa de sua grande importância para a compreensão de tudo o que se seguiu. Ela passou a relatar-me ainda outras experiências um pouco posteriores: como mais uma vez teve de defender-se dele numa estalagem, quando ele estava inteiramente bêbado, e histórias semelhantes. Em resposta a uma pergunta para saber se, nessas ocasiões, sentira algo semelhante a sua posterior falta de ar, ela respondeu com firmeza que em todas as ocasiões sentira a pressão nos olhos e no peito, mas nada semelhante à força que havia caracterizado a cena da descoberta.

Logo após ter terminado esse conjunto de lembranças, ela começou a me contar um segundo conjunto, que se relacionava com ocasiões em que notara algo entre o tio e Franziska. Uma vez, toda a família passara a noite, com a roupa que trazia no corpo, num palheiro, e ela fora subitamente despertada por um ruído; pensou ter reparado que o tio, que estivera deitado entre ela e Franziska, se afastava, e que Franziska estava acabando de se deitar. De outra feita, passavam a noite numa estalagem na aldeia de N—; ela e o tio estavam num quarto, e Franziska, num outro contíguo. Ela acordou de repente durante a noite e viu uma figura alta e branca na porta, prestes a girar a maçaneta: — “Deus do céu, é o senhor, tio? O que está fazendo na porta?” — “Fique quieta. Estava só procurando uma coisa.” — “Mas a saída é pela outra porta.” — “É, foi um engano meu” … e assim por diante.

Perguntei-lhe se ficara desconfiada nessa ocasião. “Não, não dei nenhuma importância àquilo; apenas notei e não pensei mais no assunto.”

Quando lhe perguntei se tinha ficado assustada também nessas ocasiões, respondeu que achava que sim, mas não estava tão certa disso.

Ao fim desses dois conjuntos de lembranças, ela parou. Parecia alguém que tivesse passado por uma transformação. O rosto amuado e infeliz ficara animado, os olhos brilhavam, sentia-se leve e exultante. Entrementes, a compreensão de seu caso tornara-se clara para mim. A última parte do que me contara, numa forma aparentemente sem sentido, proporcionou uma admirável explicação de seu comportamento na cena da descoberta. Naquela ocasião, ela carregava consigo dois conjuntos de experiências de que se recordava mas que não compreendia, e das quais não havia extraído nenhuma inferência. Quando vislumbrou o casal no ato sexual, estabeleceu de imediato uma ligação entre a nova impressão e aqueles dois conjuntos de lembranças, começou a compreendê-los e, ao mesmo tempo, a rechaçá-los. Seguiu-se então um curto período de elaboração, de “incubação”, após o qual os sintomas de conversão se instalaram, com os vômitos funcionando como um substituto para a repulsa moral e física. Isto solucionou o enigma. Ela não sentira repulsa pela visão das duas pessoas, mas pela lembrança que aquela visão despertara. E, levando tudo em conta, esta só poderia ser a lembrança da investida contra ela na noite em que “sentira o corpo do tio”.

Assim, quando ela terminou sua confissão, eu lhe disse:

—Sei agora o que foi que você pensou ao olhar para dentro do quarto: “Agora ele está fazendo com ela o que queria fazer comigo naquela noite e nas outras vezes.” Foi disso que você sentiu repulsa, porque lembrou-se da sensação de quando despertou durante a noite e sentiu o corpo dele.
—É bem possível — respondeu — que tenha sido isso o que me causou repulsa e que tenha sido nisso que pensei.
—Diga-me só mais uma coisa. Você agora é uma moça crescida e sabe toda espécie de coisas…
—Sim, agora eu sou.
—Diga-me apenas uma coisa. Qual foi a parte do corpo dele que você sentiu naquela noite?
Mas ela não me deu mais nenhuma resposta definida. Sorriu de maneira constrangida, como se tivesse sido apanhada, como alguém que é obrigado a admitir que se atingiu uma posição fundamental na qual não resta mais muita coisa a dizer. Pude imaginar qual fora a sensação tátil que ela depois aprendera a interpretar. Sua expressão facial parecia dizer que ela achava que eu tinha razão em minha conjetura. Mas não pude ir mais além e, de qualquer modo, fiquei-lhe grato por me haver tornado muito mais fácil conversar com ela do que com as senhoras pudicas da minha clínica na cidade, que consideram vergonhoso tudo o que é natural.

Assim, o caso ficou esclarecido. Mas esperemos um momento! O que dizer da alucinação periódica da cabeça que surgia durante suas crises e lhe infundia terror? De onde provinha? Perguntei-lhe então sobre isso e, como se seu conhecimento também tivesse sido ampliado por nossa conversa, ela respondeu prontamente:

—Sim, agora eu sei. A cabeça é a do meu tio, agora a reconheço, mas não daquela época. Mais tarde quando todas as brigas tinham irrompido, meu tio deu vazão a uma cólera absurda contra mim. Vivia dizendo que era tudo culpa minha: se eu não tivesse dado com a língua nos dentes, aquilo nunca teria redundado em divórcio. Ele vivia ameaçando fazer alguma coisa contra mim; e quando me avistava a distância, seu rosto se transfigurava de ódio e ele partia para cima de mim com a mão levantada. Eu sempre fugia dele e sempre ficava apavorada com a idéia de que um dia ele me pegasse desprevenida. O rosto que sempre vejo agora é o dele, quando ficava furioso.

Esses dados me fizeram recordar que seu primeiro sintoma histérico — o vômito — havia passado, a crise de angústia permanecera e adquirira um novo conteúdo. Por conseguinte, estávamos lidando com uma histeria que fora ab-reagida num grau considerável. E, de fato, ela havia informado a tia de sua descoberta pouco depois do acontecimento.

—Você contou a sua tia as outras histórias… sobre as investidas que ele fez contra você?
—Contei. Não imediatamente, mas depois, quando já se falava em divórcio. Minha tia disse: “Vamos guardar isso de reserva. Se ele criar caso no tribunal, contaremos isso também.”

Posso compreender muito bem que tenha sido precisamente este último período — quando ocorreram cenas cada vez mais agitadas na casa e quando o estado da própria paciente deixou de interessar a tia, que estava inteiramente absorta na disputa — que tenha sido esse período de acúmulo e retenção que lhe tenha deixado o legado do símbolo mnêmico |do rosto alucinado|.

Espero que essa moça, cuja sensibilidade sexual fora afetada numa idade tão precoce, tenha tirado algum benefício de nossa conversa. Desde então não voltei a vê-la.


DISCUSSÃO

Se alguém afirmasse que o presente relato não é tanto um caso analisado de histeria, e sim um caso solucionado por conjeturas, eu nada teria a dizer contra ele. É certo que a paciente concordou que aquilo que introduzi em sua história provavelmente era verdade, mas ela não estava em condições de reconhecê-lo como algo que houvesse experimentado. Creio que teria sido necessária a hipnose para conseguir isso. 
Admitindo que minhas conjeturas tenham sido certas, tentarei agora inserir o caso no quadro esquemático de uma histeria “adquirida”, nos moldes sugeridos pelo Caso 3. Parece plausível, portanto, comparar os dois conjuntos de experiências eróticas com momentos “traumáticos”, e a cena da descoberta do casal, com um momento “auxiliar”. | ver em [1] e seg.| A semelhança está no fato de que, nas experiências anteriores, criou-se um elemento da consciência que foi excluído da atividade de pensamento do ego e permaneceu, por assim dizer, armazenado, ao passo que, na última cena, uma nova impressão ocasionou forçosamente uma ligação associativa entre esse grupo separado e o ego. Por outro lado, existem diferenças que não podem ser desprezadas. A causa do isolamento não foi, como no Caso 3, um ato de vontade do ego, mas ignorância por parte deste, que ainda não era capaz de lidar com experiências sexuais. Nesse sentido, o caso de Katharina é típico. Em toda análise de casos de histeria baseados em traumas sexuais, verificamos que as impressões do período pré-sexual que não produziram nenhum efeito na criança atingem um poder traumático, numa data posterior, como lembranças, quando a moça ou a mulher casada adquire uma compreensão da vida sexual. Pode-se dizer que a divisão dos conjuntos psíquicos é um processo normal no desenvolvimento do adolescente, sendo fácil ver que sua recepção posterior pelo ego proporciona oportunidades freqüentes para perturbações psíquicas. Além disso, gostaria, neste ponto, de externar a dúvida de se uma divisão da consciência devida à ignorância é realmente diferente de uma que se deva à rejeição consciente, e se mesmo os adolescentes não possuem conhecimento sexual com muito mais freqüência do que se supõe ou do que eles mesmos acreditam.

Outra distinção no mecanismo psíquico deste caso reside no fato de que a cena da descoberta, que classificamos de “auxiliar” merece igualmente ser denominada de “traumática”. Ela atuou por seu próprio conteúdo, e não simplesmente como alguma coisa que revivesse experiências traumáticas anteriores. 
Combinou as características de um momento “auxiliar” e de um momento “traumático”. Não parece haver nenhum motivo, contudo, para que essa coincidência nos leve a abandonar uma separação conceitual que em outros casos corresponde também a uma separação no tempo. Outra peculiaridade do caso de Katharina, que, aliás, há muito já nos é familiar, pode ser observada na circunstância de que a conversão, a produção dos fenômenos histéricos, não ocorreu imediatamente após o trauma, e sim depois de um intervalo de incubação. Charcot gostava de classificar esse intervalo de “período de elaboração |élaboration| psíquica”.

A angústia de que Katharina sofria em suas crises era histérica, isto é, era uma reprodução da angústia que surgira em conexão com cada um dos traumas sexuais. Não comentarei aqui o fato que tenho encontrado regularmente num número muito grande de casos — a saber, que a mera suspeita de relações sexuais desperta o afeto de angústia nas pessoas virgens. | ver em [1].|

P.S.: Infelizmente, a versão digital do livro de onde extraí este texto - Estudos sobre a histeria, Vol. II das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud - não traz as notas de rodapé. Mas chamo a atenção para o conteúdo da última nota, que é de fundamental importância, e que esclarece o seguinte sobre o caso: o tio de Katharina era, na verdade, seu pai.

Freud explica o ciúme

Posted: 9.11.13 by Glauber Ataide in Marcadores:
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O ciúme é um daqueles estados emocionais, como o luto, que podem ser descritos como normais. Se alguém parece não possuí-lo, justifica-se a inferência de que ele experimentou severa repressão e, conseqüentemente, desempenha um papel ainda maior em sua vida mental inconsciente. Os exemplos de ciúme anormalmente intenso encontrados no trabalho analítico revelam-se como constituídos de três camadas. As três camadas ou graus do ciúme podem ser descritas como ciúme (1) competitivo ou normal, (2) projetado, e (3) delirante.

Não há muito a dizer, do ponto de vista analítico, sobre o ciúme normal. É fácil perceber que essencialmente se compõe de pesar, do sofrimento causado pelo pensamento de perder o objeto amado, e da ferida narcísica, na medida em que esta é distinguível da outra ferida; ademais, também de sentimentos de inimizade contra o rival bem-sucedido, e de maior ou menor quantidade de autocrítica, que procura responsabilizar por sua perda o próprio ego do sujeito. Embora possamos chamá-lo de normal, esse ciúme não é, em absoluto, completamente racional, isto é, derivado da situação real, proporcionado às circunstâncias reais e sob o controle completo do ego consciente; isso por achar-se profundamente enraizado no inconsciente, ser uma continuação das primeiras manifestações da vida emocional da criança e originar-se do complexo de Édipo ou de irmão-e-irmã do primeiro período sexual. Além do mais, é digno de nota que, em certas pessoas, ele é experimentado bissexualmente, isto é, um homem não apenas sofrerá pela mulher que ama e odiará o homem seu rival, mas também sentirá pesar pelo homem, a quem ama inconscientemente, e ódio pela mulher, como sua rival; esse último conjunto de sentimentos adicionar-se-á à intensidade de seu ciúme. Eu mesmo conheço um homem que sofria excessivamente durante suas crises de ciúme e que, conforme seu próprio relato, sofria tormentos insuportáveis imaginando-se conscientemente na posição da mulher infiel. A sensação de impotência que então o acometia e as imagens que utilizava para descrever sua condição — exposto ao bico do abutre, como Prometeu, ou arrojado em um ninho de cobras — foram por ele atribuídas a impressões recebidas durante vários atos homossexuais de agressão a que fora submetido quando menino.

O ciúme da segunda camada, o ciúme projetado, deriva-se, tanto nos homens quanto nas mulheres, de sua própria infidelidade concreta na vida real ou de impulsos no sentido dela que sucumbiram à repressão. É fato da experiência cotidiana que a fidelidade, especialmente aquele seu grau exigido pelo matrimônio, só se mantém em face de tentações contínuas. Qualquer pessoa que negue essas tentações em si própria sentirá, não obstante, sua pressão tão fortemente que ficará contente em utilizar um mecanismo inconsciente para mitigar sua situação. Pode obter esse alívio — e, na verdade, a absolvição de sua consciência — se projetar seus próprios impulsos à infidelidade no companheiro a quem deve fidelidade. Esse forte motivo pode então fazer uso do material perceptivo que revela os impulsos inconscientes do mesmo tipo no companheiro e o sujeito pode justificar-se com a reflexão de o outro provavelmente não ser bem melhor que ele próprio.As convenções sociais avisadamente tomaram em consideração esse estado universal de coisas, concedendo certa amplitude ao anseio de atrair da mulher casada e à sede de conquistas do homem casado, na esperança de que essa inevitável tendência à infidelidade encontrasse assim uma válvula de segurança e se tornasse inócua. A convenção estabeleceu que nenhum dos parceiros pode responsabilizar o outro por essas pequenas excursões na direção da infidelidade e elas geralmente resultam no desejo despertado pelo novo objeto encontrando satisfação em certo tipo de retorno à fidelidade ao objeto original. Uma pessoa ciumenta, contudo, não reconhece essa convenção da tolerância; não acredita existirem coisas como interrupção ou retorno, uma vez o caminho tenha sido trilhado, nem crê que um flerte possa ser uma salvaguarda contra a infidelidade real. No tratamento de uma pessoa assim, ciumenta, temos de abster-nos de discutir com ela o material em que baseia suas suspeitas; pode-se apenas visar a levá-la a encarar o assunto sob uma luz diferente.

O ciúme emergente de tal projeção possui efetivamente um caráter quase delirante; é, contudo, ameno ao trabalho analítico de exposição das fantasias inconscientes da própria infidelidade do sujeito. A posição é pior com referência ao ciúme pertencente à terceira camada, o tipo delirante verdadeiro. Este também tem sua origem em impulsos reprimidos no sentido da infidelidade, mas o objeto, nesses casos, é do mesmo sexo do sujeito. O ciúme delirante é o sobrante de um homossexualismo que cumpriu seu curso e corretamente toma sua posição entre as formas clássicas da paranóia. Como tentativa de defesa contra um forte impulso homossexual indevido, ele pode, no homem, ser descrito pela fórmula: ‘Eu não o amo; é ela que o ama!’ Num caso delirante deve-se estar preparado para encontrar ciúmes pertinentes a todas as três camadas, nunca apenas à terceira.

(Extraído de "Alguns mecanismos neuróticos no ciúme, na paranóia e no homossexualismo, Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol. XVIII)

Freud e a homossexualidade feminina

Posted: 25.10.13 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Compartilho abaixo algumas das observações que encontrei pela obra de Freud sobre a homossexualidade feminina. Selecionei apenas três dos textos que estive estudando recentemente, mas há muitos outros.


FRAGMENTO DA ANÁLISE DE UM CASO DE HISTERIA (1905)

"Há muito se sabe e já se tem assinalado que, na puberdade, com freqüência, tanto os meninos quanto as meninas, mesmo nos casos normais, mostram claros indícios da existência de uma inclinação para pessoas do mesmo sexo. A amizade entusiástica por uma colega de escola, acompanhada de juras, beijos, promessas de correspondência eterna e toda a sensibilidade do ciúme, é o precursor comum da primeira paixão intensa de uma moça por um homem. Em circunstâncias favoráveis, a corrente homossexual amiúde seca por completo, mas, quando não se é feliz no amor por um homem, ela torna a ser despertada pela libido nos anos posteriores e é aumentada em maior ou menor intensidade. Se nas pessoas sadias isso pode ser confirmado sem esforço e se levarmos em conta nossas observações anteriores (ver em [1] e [2]) sobre o maior desenvolvimento, nos neuróticos, dos germes normais da perversão, devemos também esperar, na constituição destes, uma predisposição homossexual mais forte. E deve ser assim, pois até hoje nunca passei por uma só psicanálise de um homem ou de uma mulher sem ter de levar em conta uma corrente homossexual bastante significativa. Nas mulheres e moças histéricas cuja libido sexual voltada para o homem é energicamente suprimida, constata-se com regularidade que a libido dirigida para as mulheres é vicariamente reforçada e até parcialmente consciente."

A PSICOGÊNESE DE UM CASO DE HOMOSSEXUALISMO NUMA MULHER (1920)

"Sabe-se bem que, mesmo em uma pessoa normal (1), leva algum tempo antes de se tomar finalmente a decisão com referência ao sexo do objeto amoroso. Entusiasmos homossexuais, amizades exageradamente intensas e matizadas de sensualidades são bastante comuns em ambos os sexos durante os primeiros anos após a puberdade."

SEXUALIDADE FEMININA (1931)

"Antes de tudo, não pode haver dúvida de que a bissexualidade, presente, conforme acreditamos, na disposição inata dos seres humanos, vem para o primeiro plano muito mais claramente nas mulheres do que nos homens. Um homem, afinal de contas, possui apenas uma zona sexual principal, um só órgão sexual, ao passo que a mulher tem duas: a vagina, ou seja, o órgão genital propriamente dito, e o clitóris, análogo ao órgão masculino. Acreditamos que estamos justificados em supor que, por muitos anos, a vagina é virtualmente inexistente e, possivelmente, não produz sensações até a puberdade."

Notas

1) O que Freud quer dizer por "pessoa normal" não se relaciona com a homo\heterossexualidade. Freud nunca considerou a homossexualidade uma "anormalidade" ou uma doença. No contexto do qual esta citação foi extraída ele se refere a neuroses de forma geral, e seu objetivo é justamente mostrar que pessoas heterossexuais e não acometidas de nenhuma neurose também oscilam, durante a vida, entre objetos doe ambos os sexos. 

A revolução sexual, de Wilhelm Reich – Marxismo e Psicanálise

Posted: 31.5.13 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Reproduzo abaixo alguns dos trechos do livro A revolução sexual, de Wilhelm Reich, que me pareceram mais significativos em alguns dos temas que vou destacar a seguir. 

Mas antes vale ressaltar que um dos aspectos mais interessantes de Reich, que era marxista e freudiano no período em que a primeira edição deste livro foi lançada, é o diálogo que ele media entre essas duas correntes, fazendo com que uma complemente e integre a outra quando fora de seus domínios. 

Este fecundo diálogo impede tanto que questões políticas descambem no mero psicologismo, por um lado, quanto que questões de sexualidade caiam num reducionismo materialista-vulgar mecanicista (não-marxista), pelo outro. 

Assim, ao abordar a questão da liberdade sexual, por exemplo, veremos que ele se mostra plenamente consciente de que não adianta falar sobre este tipo de liberdade dissociada da libertação econômica geral da sociedade sob o jugo capitalista. Isso é, a liberdade sexual está ligada à libertação econômica. 

E na esteira de Engels, Reich ataca a família e a monogamia, mas mostrando de maneira então inédita – ou seja, através da prática da psicanálise – que a monogamia vitalícia é algo não só irrealizável, mas que pode também se mostrar altamente perniciosa para a saúde psíquica. 

Economia sexual 


“Acusam a economia sexual de querer destruir a família. Falam do "caos sexual" que a vida com amor livre acarretaria, e as massas dão ouvidos às palavras dessas pessoas e confiam nelas porque usam casaca e óculos de aro dourado, podendo assim falar como líderes. A pessoa deve saber sobre o que está falando. A escravização econômica das mulheres e crianças deve ser eliminada. A escravização autoritária da mesma forma. Somente quando isso se tornar realidade, o marido amará a mulher, os filhos os pais e os pais os filhos. Não terão mais motivo para se odiarem mutuamente. 

“O que queremos destruir, portanto, é o ódio gerado pela família e pela violentação "apaixonada". Se o amor familiar é o grande bem humano, ele tem que afirmar-se. Se um cachorro amarrado não foge, ninguém por isso o considerará um companheiro fiel. Ninguém, em seu juízo perfeito, falará de amor quando um homem possui uma mulher de pés e mãos amarradas e indefesa. Nenhum homem decente ficará orgulhoso com o amor de uma mulher que ele compra com alimentação ou influência de poder. Nenhum homem correto tomará um amor que não for dado voluntariamente. A moral forçada do dever conjugal e da autoridade familiar é uma moral de covardes dementes da vida e de impotentes incapazes de conseguir pela força natural do amor aquilo que pretendem conseguir por intermédio da polícia e do direito conjugal. 

“Querem enfiar toda a humanidade na sua própria camisa-de-força por serem incapazes de tolerar nos outros a sexualidade natural. Isso os aborrece e os enche de inveja, porque eles próprios gostariam de viver assim e não conseguem. Nós não queremos forçar ninguém a abandonar a vida familiar, mas também não queremos permitir a ninguém que obrigue aquele que não a quer a aceitá-la. Quem pode e quer passar toda a vida como monógamo, que o faça; quem, entretanto, não o pode e talvez se arruíne por causa disso, deve ter a possibilidade de organizar a sua vida de outra forma. No entanto, a organização de uma "nova vida" pressupõe o conhecimento das contradições da antiga.” 

O fracasso da reforma sexual 


“As lutas em prol da reforma sexual fazem parte da luta geral político-cultural. O liberal, como por exemplo Norman Haire, com a sua reforma sexual, combate apenas uma deficiência da sociedade, sem pretender tocar nela mesma. O socialista pacífico, o "reformista", pretende com isso implantar um pouco de socialismo na sociedade existente. Tenta inverter o processo de desenvolvimento fazendo que a reforma sexual ocorra antes que se verifique a modificação da estrutura econômica.” 

A moral sexual conservadora 


“Em conclusão apresentamos dois casos típicos do consultório sexual, que deverão demonstrar que a consciência médica é forçada a providências que se encontram em contraste diametral oposto, não somente com a moral conservadora, mas também com a reforma sexual na modalidade descrita. 

“Uma moça de 16 anos e um rapaz de 17, ambos fortes e bem desenvolvidos, entram tímidos e temerosos no consultório. Depois de muito encorajamento, o rapaz pergunta receosamente se é realmente prejudicial ter relações sexuais antes dos 20 anos. 

— Por que você acha que isso possa ser prejudicial? 
— Foi o que o chefe de grupo dos Falcões Vermelhos nos disse e é o que dizem todos entre nós  que falam sobre a questão sexual. 
— Nos Falcões Vermelhos vocês falam dessas coisas? 
— Claro, mas todos nós sofremos muito ninguém tem a coragem de falar francamente. Agora um grupo de moças e rapazes saiu do nosso grupo e formou um grupo separado, porque não se dão com o nosso chefe de grupo. Este também sempre diz que as relações sexuais fazem mal. 
— Há quanto tempo vocês se conhecem? 
— Há três anos! 
— Vocês já tiveram relações sexuais 
— Não, mas gostamos muito um do outro e temos que nos separar porque sempre ficamos extremamente excitados. 
— Como assim? 

(Silêncio prolongado)

— Bem, nós nos beijamos e fazemos outras coisas. A maioria o faz. Mas agora estamos ficando quase malucos. O pior é que, pelas nossas funções, sempre temos que trabalhar juntos. Ela nos últimos tempos tem freqüentemente crises de choro e eu já não acompanho mais as aulas na escola. 
— Que é que vocês mesmos acham que seria o melhor? 
— Queremos separar-nos, mas não é possível; todo o grupo, cujos líderes nós somos, se  desintegraria, e depois a mesma coisa se repetiria com outro com toda a certeza. 
— Vocês praticam esportes? 
— Sim, mas não adianta nada. Quando estamos juntos, não podemos pensar em nada a não ser numa só coisa. Por favor, diga-nos se isso faz mal mesmo. 
— Não, não faz mal, mas freqüentemente cria grandes complicações na casa dos pais. 

“Expliquei-lhes a seguir a fisiologia da puberdade e das relações sexuais, os obstáculos sociais, os perigos da gravidez e o uso de anticoncepcionais. Despedi-os com o conselho de pensar no assunto e de voltarem à consulta. 

“Duas semanas mais tarde os vi de novo, alegres, agradecidos, contentes com o trabalho. 

“Haviam superado todas as dificuldades internas e externas. Acompanhei o caso por mais alguns meses e obtive a certeza de ter evitado que dois jovens caíssem doentes. A alegria ficou empanada apenas pelo conhecimento de que tais sucessos do simples aconselhamento, por causa das fixações neuróticas da maioria dos consulentes juvenis, são exceções raras. 

“Como segundo exemplo apresentamos uma mulher de 35 anos, de aparência ainda jovem, que procurou o consultório sexual com o seguinte problema: Era casada há 18 anos, tinha um filho crescido e vivia com o marido em matrimônio exteriormente feliz. Há três anos o marido tinha relações com outra mulher. A consulente sabia e tolerava com a boa compreensão de que, depois de um casamento tão prolongado, aparecem desejos por outra pessoa. Até então havia permanecido fiel, apesar de que o marido já há dois anos deixara de ter relações com ela. Há alguns meses vinha sofrendo em virtude da abstinência sexual, mas era orgulhosa demais para induzir o marido a ter relações com ela. Nos últimos tempos se verificaram distúrbios cardíacos, insônia, irritabilidade e depressão, cada vez mais freqüentes e intensivos. Por considerações morais, não conseguiu resolver-se a ter relações sexuais com um homem que conhecera há, algum tempo, se bem que ela mesma reconhecesse a falta de sentido desses escrúpulos. O marido sempre se vangloriara da fidelidade da esposa e, ela sabia muito bem que ele não estaria disposto a lhe conceder o direito que ele mesmo passara a usufruir com a maior naturalidade. Ela perguntava o que deveria fazer, pois já não suportava mais a situação. 

“Pensamos cuidadosamente no caso. O prolongamento da abstinência social significaria doença neurótica certa. Perturbar o marido na sua nova ligação e reconquistá-lo estava fora de cogitação por dois motivos. Primeiro, porque ele não se deixaria perturbar e já confessara claramente que não tinha mais interesse sexual por ela; segundo, porque ela mesma não mais queria o marido. Restava apenas a solução de ter relações sexuais com o homem a quem amava agora. A coisa, no entanto, tinha um porém: ela não era economicamente independente, e o marido, quando soubesse do caso, exigiria divórcio imediatamente. Expliquei à mulher todas essas possibilidades, deixei-a em liberdade para a decisão e, depois de algumas semanas, eu soube, que ela havia resolvido manter relações sexuais com o amigo sem que o marido soubesse. Seus distúrbios neuróticos desapareceram pouco depois. 

“Ela havia criado coragem para tomar essa resolução em virtude de meus esforços para dissipar os seus escrúpulos morais. De acordo com a lei, eu me tornarei culpado de um crime; possibilitei a uma mulher que se encontrava à beira de uma doença neurótica a satisfação sexual fora do casamento, praticando assim a infidelidade conjugal.” 

O problema da puberdade 


“Quem conscientemente quiser matar a sua sexualidade, que o faça. Não queremos obrigar ninguém à vida sexual satisfatória, mas devemos dizer: quem quiser viver em abstinência, com o risco de uma doença mental ou uma diminuição da alegria de viver e de trabalhar, que o faça. Quem não o quiser, que trate de chegar a uma vida sexual regrada, satisfatória, assim que o impulso sexual não possa mais deixar de ser atendido. No entanto, é nossa obrigação salientar a atrofia da sexualidade, seu retrocesso para atividades infantis e perversas e o distúrbio mental como conseqüência do modo da abstinência sexual do adolescente. Pois são os mais trágicos os pacientes de 35, 40 e até 50 e 60 anos que vêm ao nosso consultório, com as mais graves perturbações de sua economia mental, neuróticos, irritadiços, solitários e cansados de viver, em busca de conselho e ajuda. Em sua maior parte se vangloriam de não terem vivido "intensamente", o que querem dizer que evitaram o onanismo e as relações sexuais precoces. 

O onanismo 


“O onanismo pode mitigar os malefícios da abstinência só até certo limite. Só pode regularizar a economia sexual se ela ocorre sem sentimentos de culpa ou grandes perturbações no processo da excitação, e só se a falta de um parceiro real não for sentida intensamente. Poderá ajudar os jovens sadios a amainar as primeiras tormentas da puberdade. Dadas as condições que influenciaram o desenvolvimento sexual do adolescente desde a infância, desempenha essas funções apenas na minoria dos casos. Somente minoria ínfima dos jovens se libertara das influências morais da educação recebida a ponto de recorrer sem escrúpulos à satisfação onanística. Na maioria dos casos, os jovens lutam contra a compulsão do onanismo com maior ou menor sucesso. Se não conseguem abolir a atividade onanística, masturbam-se sob as inibições mais severas, com as práticas mais prejudiciais, por exemplo refreando ejeção do esperma. Assim se encaminham seguramente pelo menos para uma perturbação neurastênica. Se vencem na luta, recaem novamente naquela abstinência, da qual se salvaram pelo onanismo; mas dessa vez a situação se tornou muito mais desfavorável, porque as fantasias entrementes ativadas e a excitação sexual despertada tornam a  abstinência ainda mais insuportável do que antes. Apenas alguns encontram a melhor solução sexual-economicamente, a das relações sexuais.” 

Casamento compulsório e relação sexual 


“Todo mundo está exposto constantemente a excitações sexuais novas provocadas por outras pessoas que não o parceiro, especialmente com a coletivização do trabalho de hoje. Essas excitações de fora permanecem inócuas no período alto da relação. Nunca, porém, podem ser eliminadas, e nenhuma regulamentação quanto às roupas que devem ser usadas na igreja, ou qualquer medida ascética social, conseguirá em tempo algum qualquer coisa diversa a não ser o incremento da excitação, porque a tentativa de reprimir a exigência sexual resulta sempre no aumento dela. A não-consideração desse fato fundamental é que constitui a tragédia, ou mesmo tragicomédia, de toda moral sexual orientada asceticamente. As novas excitações sexuais, contra as quais só existe uma defesa eficiente, que é a inibição sexual neurótica, libertam pois, em cada pessoa sexualmente intacta, mais ou menos conscientemente (ou antes: tanto mais sadios quanto conscientes) desejos sexuais por outros objetos. Pela relação sexual satisfatória existente, esses desejos inicialmente permanecem sem efeito especial e podem ser reprimidos tanto mais eficientemente quanto mais conscientes forem. Está claro que, quanto menos consideração de caráter moral, quanto mais  depreciação sexual-econômica ou condenação participa dessa repressão, tanto mais inocente ela será. 

“Quando, entretanto, se avolumam esses desejos por outros objetos, eles retroagem sobre a relação sexual para com o parceiro, acelerando principalmente o embotamento. As características seguras desse embotamento são: a diminuição do impulso sexual, antes do ato, e do prazer, no ato. As relações sexuais paulatinamente se tornam um hábito ou obrigação. A diminuição da satisfação com o parceiro e o desejo de outros objetos se somam e se fortalecem mutuamente. Contra isso não adianta nenhuma determinação, nenhuma técnica amorosa. Agora começa então o estágio crítico da irritação contra o parceiro, que, de acordo com o temperamento ou educação, chega a se manifestar ou é reprimido. Em todo caso: o ódio inconsciente contra o parceiro, como revelam análises de tais condições insofismavelmente, torna-se cada vez mais forte; seu motivo é a frustração da satisfação dos desejos por outros, por parte do parceiro; sim, o fato de que o ódio inconsciente poderá tornar-se tanto mais forte quanto mais amável e tolerante for o parceiro é apenas aparentemente um paradoxo. 

“Não se tem então nenhum motivo para odiar pessoalmente o parceiro, mas a pessoa sente isso, ou, melhor, o próprio amor ao parceiro passa a ser um empecilho. O ódio fica assim amortecido por um carinho extremo. Esse carinho originado do ódio e os sentimentos de culpa que proliferam em tal estágio são os componentes específicos da ligação pegajosa na relação permanente e o próprio motivo pelo qual tão freqüentemente mesmo os não-casados não se podem separar, mesmo que nada mais tenham que dizer ou muito menos que dar um ao outro, e sua relação signifique apenas um martírio mútuo. 

“Mas esse embotamento não precisa ser definitivo. De uma circunstância passageira pode-se tornar facilmente definitivo quando os parceiros sexuais não tomam conhecimento dos seus impulsos mútuos de ódio e recusam seus desejos por outros objetos como indecentes e imorais. A isso geralmente se segue uma repressão das excitações com todo o mal e prejuízo para a relação entre duas pessoas que justamente costumam resultar da repressão de impulsos poderosos. Quando a pessoa pode enfrentar tais fatos desinibidamente, sem distorção moral-sexual, o conflito se apresenta mais suave, e encontrar-se-á uma saída. É pressuposição que o ciúme normal que se sente não se torne expressão de uma reivindicação de posse, que se reconheça a naturalidade e axiomatismo do desejo por outros. A ninguém ocorrerá criticar alguém porque não gosta de usar o mesmo traje ano após ano, ou que porque está enjoado de comer sempre o mesmo prato. Somente no campo sexual a exclusividade de posse tornou-se um valor sentimental forte, porque o entrelaçamento dos interesses econômicos e das relações sexuais aumentou o ciúme da reivindicação de posse natural. Muitas pessoas maduras e comedidas me comunicaram que, depois da superação do conflito, a imaginação de que o parceiro sexual uma ou outra vez tenha entrado em relação com outros perdeu seu terror e de que mais tarde a impossibilidade anterior de imaginar uma "infidelidade" parecia ridícula. 

“Incontáveis exemplos ensinam que fidelidade por consciência, com o tempo, prejudica a relação sexual. A isso se contrapõem muitos exemplos dos quais aparece claramente que uma relação fortuita com outro parceiro apenas foi útil à relação sexual que estava justamente em via de se tornar uma relação matrimonial. Na relação permanente, sem ligação econômica, existem duas possibilidades: Ou a relação com o terceiro foi somente passageira; isso prova que não podia concorrer com a permanente; nesse caso, a relação apenas se fortaleceu; a mulher perdeu a impressão de estar inibida ou de ser incapaz de relações com outro homem. Ou a relação para com o outro parceiro se torna mais intensiva do que a existente, mais prazerosa e de outra forma mais satisfatória; então, a primeira é desfeita. 

“O que acontece então com o parceiro cuja relação amorosa ainda não estava deteriorada? Sem dúvida terá que travar uma luta difícil, em primeiro lugar consigo mesmo. Ciúme e sentimento de inferioridade sexual lutarão com a compreensão do destino do seu parceiro. Talvez que fique empenhado em reconquistar seu parceiro, o que terminará com o automatismo da relação duradoura, destruindo a segurança de posse; talvez que preferirá também permanecer passivamente na expectativa, deixando a decisão para o decorrer dos acontecimentos. Não damos conselhos, mas apenas aventamos hipóteses de possibilidades que correspondem a fatos reais. Em todo caso, a dificuldade é menor do que a desgraça que se verifica quando duas pessoas estão grudadas uma à outra por considerações morais ou outras. A consideração, que tantos indivíduos em tais casos costumam ter para com o parceiro, ao reprimir constantemente seus desejos, sem poder eliminá-los, muitas vezes se transforma no contrário. Quem teve consideração demais facilmente se sente no direito de obrigar o outro a agradecimento por isso, considerar-se vítima, ficar intolerante, atitudes  essas que fazem perigar a relação muito mais e certamente a tornam mais feia do que qualquer "infidelidade" o poderia ter feito. Não queremos, porém, iludir-nos de que tal consideração para com as necessidades do parceiro, sob as condições da estrutura humana e ideologia sexual de hoje, seja possível em grande proporção.” 

O ascetismo e a monogamia duradoura são irrealizáveis 


“Relações sexuais permanentes, que não se tornam matrimoniais, em geral não duram a vida toda. Quanto mais cedo tais relações são iniciadas, tanto maior é a probabilidade e, como se pode demonstrar, a justificação psicológica e biológica de que se rompam mais depressa do que as iniciadas mais tarde. Até aproximadamente a idade de 30 anos, o homem se encontra, quando não é esmagado pela sua situação econômica, cm contínuo desenvolvimento psíquico. Somente nessa época, costumam em média fortalecer-se os interesses, tornando-se duradouros. A ideologia do ascetismo e da monogamia duradoura, portanto, se encontra em contradição crassa ao processo de desenvolvimento físico e psíquico. Praticamente, é irrealizável. Isso leva à contradição de qualquer ideologia matrimonial.”