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TV - "a gente se vê por aqui"

Posted: 5.5.08 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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É possível proceder a uma análise da televisão por diversos caminhos, de diversas maneiras. Com esse mesmo termo, "TV", posso me referir, entre outras coisas, tanto a um aparelho eletrônico quanto a um determinado tipo de programação. Sendo de orientação psicanalítica a abordagem desta pequena reflexão, a TV a que me refiro neste momento se limita a obras de ficção, novelas, filmes, programas de auditório, reality shows, etc. Isso é, a esse tipo de programação que diz respeito a entretenimento.


O slogan da Rede Globo, "a gente se vê por aqui", é uma das mais perfeitas expressões sobre o que é a televisão, neste sentido. Entretanto, a TV é muito mais do que uma simples expressão do que somos na realidade: ela é também aquilo que gostaríamos de ser. A TV expressa o nosso ideal de ego e, de forma análoga aos sonhos, satisfaz de maneira "virtual" os nossos desejos inconscientes.


As pessoas não assistem a programas com os quais elas não se identificam. Há uma motivação psicológica, inconsciente, que as leva a assistir determinados programas, a acompanhar determinadas séries, seriados, novelas, etc.


O que acontece é que a televisão cria um ambiente no qual as pessoas se sentem livres para expressar tudo aquilo que a civilização não permite que elas expressem, um ambiente no qual se realizam todos os seus desejos, conscientes e inconscientes, os quais, devido à repressão da civilização ou a qualquer tipo de impossibilidade de sua atualização (no sentido Aristotélico do termo), são impedidos de alcançar gratificação no mundo real.


Dizendo isso de uma outra forma: muitas mulheres gostam de ver novelas porque ali, a mocinha com a qual ela se identifica, se casa com o personagem interpretado pelo Rodrigo Santoro, se torna rica e vence suas adversárias no final. Ou então a mocinha pobre, que tem uma vida difícil como a dela, "espelha" a sua própria vida na telinha da TV e expressa as suas próprias emoções. O mesmo ocorre com programas humorísticos. Como Freud já apontara, o humor é uma forma de nos libertarmos de nossas inibições para expressar o que de outra forma nunca ganharia expressão.


Penso que, ao refletir sobre a televisão, não podemos perder de vista que a TV é feita de pessoas para pessoas, e que o slogan da Rede Globo - "a gente se vê por aqui" - diz algo de muito profundo e verdadeiro sobre a essência da TV.


Digo isso porque é muito comum encontrar pessoas que vivem criticando a televisão mas que, no entanto, não conseguem apertar o botão de desligar e abrir um bom livro. O que elas criticam, na verdade, é a si mesmas. Elas apenas projetam na TV as suas próprias mazelas.

Sobre algumas "críticas" a Freud

Posted: by Glauber Ataide in Marcadores:
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Ultimamente tenho ponderado muito sobre as motivações primariamente emocionais de nossas escolhas, e mais especificamente, na resistência que encontro em várias pessoas sobre as teorias de Freud - resistências essas com matrizes puramente emocionais.

Conversando certa vez com uma pessoa, travamos o seguinte diálogo:

- Ah, eu não concordo com Freud não.
- É mesmo? Por quê?
- Ah, não sei, tudo dele é sexo.
- Mas por que você acha que ele está errado?
- Tem muita gente que não concorda com ele também.
- Sim, mas por qual razão?
- Ah, não sei, eu conheço várias pessoas que também não concordam com ele.
- Sabia que Freud explica até mesmo essa sua resistência a temas sexuais?
- Hahahahaha... (meio sem graça).

É interessante notar que essa pessoa, nunca em sua vida, leu uma única obra de Freud. Não acredito ser responsável discordar de algo do qual nada se sabe.

A maioria das pessoas leigas que criticam Freud o fazem dessa forma. Quando você pede à pessoa que exponha a crítica que ela construiu sobre as teorias de Freud, o que se ouve é algo parecido com o diálogo real transcrito acima. Não restam dúvidas de que essa resistência seja puramente emocional.

Uma outra pessoa certa vez me disse que Freud era algo "outrora moderno", algo ultrapassado. Nem precisa dizer que essa pessoa também não me apresentou nem um único argumento para justificar sua afirmação.

Muitos outros, reproduzindo discursos, dizem que Freud está morto. Na verdade, já faz tanto tempo que dizem isso, que o próprio Freud ouviu essa afirmação enquanto vivo. Na época diziam que a psicanálise estava morta. A essa afirmação ele respondia:

"É melhor ser declarado morto do que enterrado em silêncio."



O Complexo de Édipo

Posted: 5.11.07 by Glauber Ataide in Marcadores:
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O Complexo de Édipo é considerado a pedra fundamental do edifício psicanalítico. Seu nome foi retirado do mito grego do rei Édipo que, ao nascer, recebeu um oráculo que dizia que ele mataria seu próprio pai e se casaria com a sua mãe. Mesmo sendo tomadas todas as providências para que a profecia não se cumprisse, ele acabou matando o seu pai (sem saber quem era) e casando-se e tendo um filho com a sua própria mãe (só descobrindo posteriormente que era sua mãe).

Mas de onde e por que surgiu esse conceito na psicanálise? Segundo J.-D. Nasio, todo conceito psicanalítico surge para explicar um problema encontrado na prática clínica. Assim, perguntamos: de qual problema, então, o Complexo de Édipo é solução? A resposta é: do problema de como se forma a nossa sexualidade e de como alguém se torna neurótico.

O Complexo de Édipo se desenvolve de forma diferente nos meninos e nas meninas. Vamos expor, primeiramente, de como ele se dá nos meninos.

O Complexo de Édipo nos meninos

A partir dos três anos de idade, os meninos focalizam o seu prazer sobre o pênis. Nessa idade, o pênis se torna a parte do corpo mais rica em sensações e se impõe como a zona erógena dominante.

Porém, aos quatro anos, o pênis não é apenas o órgão mais rico em sensações. É também o objeto mais amado e o que reclama mais atenções. Assim, tal culto ao pênis, característico dessa idade, o eleva ao nível de símbolo de poder e de virilidade. Quando o pênis se torna, aos olhos de todos - meninos e meninas - o representante do desejo, ele recebe o nome de FALO.

O falo não é o pênis enquanto órgão. E um pênis fantasiado, idealizado, símbolo da onipotência e do seu avesso.

Excitado sexualmente, o menino de quatro anos vê surgir dentro de si uma força misteriosa, até então desconhecida: o impulso de se dirigir ao outro, ou, mais exatamente, de se dirigir aos seus pais - aos corpos deles - para ali encontrar prazer. Mas que desejo é esse? É um desejo sexual.

Mas cabe aqui desfazer um mal entendido muito comum. Na psicanálise, tudo o que é genital é sexual, mas nem tudo o que é sexual é genital. Sendo assim, o desejo sexual do menino em direção a seus pais não é um desejo exclusivamente genital pelo fato de ser sexual.

Os três movimentos fundadores desse desejo do menino são: desejo de possuir o corpo do outro, desejo de ser possuído e desejo de suprimir.

Ora, sem ser possível atingir a satisfação desses três desejos incestuosos - obter o gozo absoluto de possuir o corpo da mãe; ser possuído pelo pai (ser sua coisa e fazê-lo gozar); e o gozo absoluto de suprimir o pai - o menino cria fantasias que lhe dão prazer ou angústia, mas que, de toda forma, satisfazem imaginariamente seus loucos desejos.

Mas o que é uma fantasia? Uma fantasia é uma cena imaginária, geralmente consciente, que propicia consolo à criança. Ela tem como função substituir uma ação ideal que baixa a tensão do desejo e propicia prazer.

Nessa idade, porém, o menino tem uma visão do corpo nu feminino, o qual é desprovido de pênis. Ele, que antes pensava que todas as pessoas no mundo possuíam um falo, agora percebe que existem seres castrados, sem pênis. Então, surgem as fantasias de angústia, pois, se existem seres que não possuem pênis, ele também pode perder o seu. Essas fantasias de angústia são: o medo de ser castrado pelo pai repressor, o medo de ser castrado pelo pai sedutor e o medo de ser castrado pelo pai rival.

Dessa angústia de castração vem a resolução da crise edipiana, que consiste em três etapas: 1) recalcamento dos desejos; 2) renúncia aos pais como objeto de desejo e 3) incorporação dos pais como objeto de identificação.

Ele deve fazer uma escolha: ou salva o seu falo-pênis ou fica com a sua mãe. Por causa do medo de perder seu falo-pênis, ele renuncia aos pais como objetos sexuais e recalca os seus desejos inconscientes.

Duas consequências decisivas ocorrem na estruturação da personalidade do menino ao fim do Complexo de Édipo: o surgimento de uma nova instância psíquica, o superego, e a confirmação de uma identidade sexual nascida por volta dos dois anos de idade e afirmada mais solidamente após o fim da puberdade.

O superego é instituído devido a um gesto psíquico surpreendente: o menino, ao renunciar aos pais como objeto sexual, os incorpora como objetos do seu eu. Na impossibilidade de tê-los como parceiros sexuais, promete inconscientemente ser como eles em suas ambições, fraquezas e ideais. Aqui vale lembrar-nos de Shakespeare: “Com o tempo você descobre que há muito mais do seus pais em você do que você supunha”.

A identidade sexual é instalada progressivamente pelo seu contexto familiar, social e linguístico, assim como pelas sensações erógenas que emanam de seu genital e a atração pelo pai de sexo oposto. Antes do Édipo, a criança ainda não sabe dizer se é menino ou menina, que o pai é um homem e a mãe uma mulher. É só na puberdade que essa identidade vai se consolidar.

O Complexo de Édipo nas meninas

O Complexo de Édipo se desenvolve de forma um pouco diferente nas meninas. Elas passam primeiramente por uma fase pré-edipiana. Ao passo em que um menino de quatro anos tem três desejos incestuosos - de possuir, de ser possuído e de suprimir o outro -, a menina tem apenas um: o de possuir a mãe.

Neste período, ela julga deter, assim como um menino, um falo, e se sente onipotente. Mas um evento crucial ofuscará o orgulho da garotinha: ela verá o corpo nu masculino, dotado de um pênis, e verá que o menino possui algo que ela não tem. A reação da menina é de decepção: "Ele tem algo que eu não tenho!". Até então, fiava-se em suas sensações de poder vaginal e clitoridiano, que a confortavam em seu sentimento de onipotência. Agora que viu o pênis, duvida de suas sensações, e julga que o poder está no corpo do outro, no sexo masculino. A menina vê-se assim dolorosamente despossuída, pois o cetro da força não é mais encarnado por suas sensações erógenas, mas pelo órgão visível do menino.

Aqui, então, ela sofre com a dor de ter sido privada do falo. Enquanto o menino sente a angústia de castração, a menina vive a dor de uma privação, de uma perda. Lembrem-se que o que levou o menino à resolução do Édipo foi a angústia de castração, isso é, o medo de perder o falo. Mas a menina constata que ela não tem o falo, isso é, não tem nada a perder. Enquanto o menino sofre uma angústia, a menina sofre uma dor real - uma dor de ter sido privada de algo que ela julgava possuir. Ela sente-se então enganada. Mas quem teria mentido pra ela dizendo-lhe que ela possuía um falo todo-poderoso, senão a sua mãe? Sim, a onipotente mãe mentiu a ela sofre o falo, um falo que ela mesma também não possui. Uma mãe desprovida de falo, assim como ela, e que merece agora apenas desprezo.

É nesse exato momento que a menina, despeitada, esquiva-se da mãe, e em sua solidão, fica furiosa por ter sido privada e enganada.

Ao constatar o falo no menino, com seu orgulho ferido, ela sofre, sente-se lesada em seu amor-próprio e reivindica o que acha que lhe é de direito: "Quero esse falo de volta e o terei nem que o tenha que arrancar do menino!". A menina é então presa de um sentimento que a psicanálise chama de "inveja do pênis", mas que o autor J.D.-Nasio prefere chamar de "inveja do falo". Segundo Nasio, esse termo enfatiza melhor o fato de que a menina inveja não o órgão peniano do menino, mas sim o símbolo de potência por ele encarnado. Uma coisa é invejar o falo, outra é desejar o pênis de um homem.

Vale ressaltar que inveja não é desejo, e que para que uma menina venha a desejar um pênis, é necessário primeiro se tornar mulher, isso é, resolver o Édipo após sexualizar e dessexualizar o seu pai.

Agora entra em cena a figura do pai, o grande detentor do falo. É quando a menininha magoada e sempre ciumenta se volta para ele para lhe reivindicar seu poder e sua potência. Quer ser tão forte quanto o pai e ter de volta aquilo que perdeu.

É então que o pai lhe fala: "Não, nunca lhe darei o falo, pois ele pertence à sua mãe!". Claro que nenhum pai diz isso à filha; esse pai é um pai caricatural, fantasiado. Se um pai tivesse que dizer algo de verdade a um pedido desses, ele diria apenas o seguinte: "Não posso lhe dar o falo, simplesmente porque esse falo não existe! O falo que você me pede é um sonho, uma quimera de criança!".

Essa recusa do pai é recebida pela filha como uma bofetada que põe fim a toda esperança de um dia possuir o mítico falo. Ela acaba de compreender que nunca o terá, mas mesmo assim não se resigna. Ao contrário, lança-se agora com todas as forças nos braços do pai não mais para lhe arrancar o poder, mas para ser ela mesma a fonte do poder. Sim, ela queria ter o falo, mas agora ela quer ir além, ela quer ser o falo, ser a coisa do pai. Isso é, ela quer ser o próprio falo, a favorita do pai.

Em virtude do não, da primeira recusa paterna, surge agora o desejo incestuoso de ser possuída por ele, de ser o falo do pai. Quando era invejosa, adotava uma atitude masculina; agora que é desejante, adota uma postura feminina. Assim, ao sexualizar o pai, a menina entra efetivamente no Édipo. Por sinal, a fantasia de prazer que melhor ilustra o desejo edipiano de ser possuída pelo pai é geralmente expressa pela frase: "Quando crescer, vou me casar com o papai".

Essa entrada no Édipo é também o momento em que a mãe, após ter sido afastada, volta à cena e fascina a filha por sua graça e feminilidade. A menina então, espontaneamente, aproxima-se e identifica-se com a mãe. O comportamento edipiano da menina inspira-se completamente no ideal feminino encarnado pela mãe, na observação e no aprendizado de como seduzir um homem. É nessa fase que as meninas adoram observar a mãe se maquiando ou se embelezando. Mas é aqui que a mãe é vista, além de como um ideal, como uma grande rival. Assim, realiza-se o primeiro movimento de identificação da filha com o desejo da mãe: o de ser a mulher do homem amado e dar-lhe um filho.

Mas da mesma forma que o pai se recusou a dar o falo à filha, ele agora recusa tomá-la como objeto sexual e a considerá-la seu falo. Depois que a primeira recusa - "Não lhe darei meu falo!" - permitiu à menina se reaproximar da mãe e com ela identificar-se, a segunda - "Não a quero como mulher!" leva a filha a identificar-se com a pessoa do pai.

Ocorre aqui então um fenômeno curioso, mas extremamente saudável no Édipo feminino: uma vez que a menina não pode ser o objeto sexual do pai, ela quer ser então como ele. "Já que você não quer saber de mim como mulher, então vou ser como você!". A menina aceita recalcar o seu desejo de ser possuída pelo pai, sem com isso renunciar à sua pessoa. Enquanto o menino edipiano resigna-se a perder a mãe por covardia, a menina, por sua vez, que nada mais tem a perder, obstina-se audaciosamente a se apoderar do pai. Ela mata seu pai fantasiado, mas o ressuscita como modelo de identificação. Identificada com os traços masculinos do pai após ter se identificado com os traços femininos da mãe, a menina enfim abandona a cena edipiana, abrindo-se agora para os futuros parceiros de sua vida como mulher.

Notem que as duas identificações constitutivas da mulher - identificação com a feminilidade da mãe e com a virilidade do pai - foram desencadeadas por duas recusas do pai: recusa de dar o falo à filha e recusa de tomá-la como falo.

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O texto acima é uma resenha do livro Édipo – O complexo do qual nenhuma criança escapa, do autor J.-D. Nasio, Jorge Zahar Editor.

Freud e a religião - a neurose obsessiva universal da humanidade

Posted: 30.10.07 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Em O futuro de uma ilusão, Freud se propõe a explicar a origem da religião através de uma aplicação histórico-social de suas descobertas psicanalíticas. Como um ilustre representante tardio do esclarecimento ele aponta, também, o que lhe afigurava como o seu provável destino, e daí a presença do termo "futuro" no título da obra.

Seria importante ressaltar, em primeiro lugar, que a origem "psicológica" da religião não diz nada sobre a existência (ou não existência) de Deus. Não é muito incomum encontrar pessoas fazendo referência a esta obra de Freud para "provar" ou "demonstrar" que Deus não existe, o que é um grosseiro erro de lógica.

Philip L. Quinn, em um artigo contido no livro Philosophy of religion (William Lane Craig), critica Alvin Plantinga por sua injusta e depreciativa avaliação da teoria de Freud sobre a origem da religião. Quinn afirma que a teoria exposta por Freud pode ser o mecanismo do qual Deus nos dotou para que pudéssemos reconhecer a Sua existência e buscar com Ele um relacionamento, e deixa o campo aberto para que futuras pesquisas sejam realizadas em cima dessa hipótese.

No geral, podemos ver essa teoria de Freud, se verdadeira, da seguinte perspectiva: se Deus não existe, então a teoria de Freud é uma explicação muito plausível de como se originou a crença religiosa e a ideia de Deus. Por outro lado, se Deus existe, esta teoria pode esclarecer o mecanismo do qual Ele nos dotou para pudéssemos reconhecer a sua existência e sentir a necessidade de estabelecer com Ele um relacionamento. (Apesar de que acho que teríamos aqui um problema com os calvinistas, mas eu mesmo não sou calvinista.)

Dito isso, vamos resumir alguns pontos importantes dessa magnífica obra de Freud, cuja leitura eu recomendo.

A origem da religião

Para Freud, a religião surgiu de uma necessidade de defesa contra as forças da natureza, como todas as outras realizações da civilização. No indivíduo, ela surge do desamparo. Esse desamparo é inicialmente o desamparo da criança, e posteriormente, o desamparo do adulto que a continua.

Vejamos a vida mental da criança: quando bebê, o indivíduo passa pela fase de escolha do objeto do tipo anaclítico. A sua libido é direcionada pelas necessidades narcísicas a objetos que asseguram a satisfação de suas necessidades. A mãe, que satisfaz a fome da criança, torna-se seu primeiro objeto amoroso e também sua primeira proteção contra os perigos do mundo externo - a primeira proteção contra a ansiedade.

Na função de proteção, a mãe é substituída posteriormente pelo pai mais forte, que retém essa posição pelo resto da infância. Mas a relação com o pai é uma relação ambivalente: o próprio pai é também um perigo para a criança, talvez por causa de sua relação com a mãe. Assim, a criança teme e admira o pai.

Quando o indivíduo cresce e descobre que está destinado a permanecer uma criança para sempre, que nunca poderá passar sem proteção contra os poderes superiores (da morte, da natureza, etc), empresta a esses poderes as características pertencentes à figura do pai; cria para si próprio os deuses a quem teme e, não obstante, confia sua própria proteção.

Sendo assim, Freud afirma que "é a defesa contra o desamparo infantil que empresta suas feições características à reação do adulto ao desamparo que ele tem de reconhecer - reação que é, exatamente, a formação da religião."

Mais tarde ele diz: "Assim, a religião seria a neurose obsessiva das crianças, ela surgiu do complexo de Édipo, do relacionamento com o pai."

Freud afirma, porém, que as religiões estão cheias das mais gritantes contradições e discordâncias com a realidade que conhecemos. Então, ele se pergunta: Sendo as religiões contraditórias, de onde vem a sua força? Onde reside a força interior das doutrinas religiosas, independente, como são, do reconhecimento da razão?

A isso ele responde dizendo que as ideias religiosas são ilusões, realizações dos mais antigos, fortes e prementes desejos da humanidade. O segredo de sua força reside na força desses desejos.

Uma ilusão, porém, é diferente de um erro. As ilusões não precisam ser necessariamente falsas, ou seja, irrealizáveis ou em contradição com a realidade. Ele cita como exemplo uma mulher que tem a ilusão de que um príncipe encantado virá buscá-la, casar-se com ela e lhe dar filhos. Isso em si não está em contradição com a realidade, e nem é irrealizável, pois essas coisas já aconteceram algumas vezes. Então, ele afirma que o que é característico das ilusões é o fato de derivarem de desejos humanos.

As ideias religiosas são ilusões porque, segundo Freud, seria realmente muito bom se existisse um Deus benevolente, que cuida de nós e que nos dá uma vida após a morte. Um Deus que fará justiça a todas as injustiças que há neste mundo, e que nos recompensará por todas as privações a que somos submetidos por causa da civilização. Na verdade, nós queremos acreditar que isso seja verdade. Essas crenças são ilusões pois derivam de desejos humanos, do nosso desejo de que as coisas realmente sejam assim.

Mas assim como uma criança não pode completar com sucesso o seu desenvolvimento para o estágio civilizado sem passar por uma neurose, a humanidade, de forma análoga, tombou em seu desenvolvimento através das eras.

Isso é, a neurose infantil é uma parte do desenvolvimento de qualquer indivíduo, assim como a neurose da humanidade. E assim como o indivíduo supera sua neurose infantil, a civilização irá superar a sua neurose, e "o afastamento da religião está fadado a ocorrer com a fatal inevitabilidade de um processo de crescimento."


Considerações finais

É interessante notar que a psicanálise e, mais especificamente, o Complexo de Édipo, que têm sido utilizados durante décadas como ferramentas para explicar a crença religiosa, podem ser utilizados também para explicar o ateísmo.

Freud afirma: "O crente está ligado aos ensinamentos da religião por certos vínculos afetivos. Contudo, indubitavelmente existem inumeráveis outras pessoas que não são crentes, no mesmo sentido." Isso é, a causa tanto da crença quanto da descrença são primariamente emocionais, e só secundariamente racionais.

Veja o artigo The psychology of atheism, de Paul C. Vitz, no qual ele utiliza o conceito do Complexo de Édipo para explicar o ateísmo. (http://www.leaderu.com/truth/1truth12.html)

Freud quis deixar claro que não é psicanálise que chega a essas conclusões, mas que ela é apenas uma ferramenta utilizada que proporcionou a um pensador chegar a essas conclusões. Em suas palavras: "Se a aplicação do método psicanalítico torna possível encontrar um novo argumento contra as verdades da religião, tant pis para a religião, mas os defensores desta, com o mesmo direito, poderão fazer uso da psicanálise para dar valor integral à significação emocional das doutrinas religiosas."

Freud e os chistes

Posted: 22.9.07 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Em sua obra The joke and its relation to the unconscious ("Os chistes e a sua relação com o inconsciente", tradução inglesa do original alemão realizada pela editora Penguin), Freud analisa os chistes (piadas, gracejos), buscando responder questões tais como: o que faz com que uma determinada brincadeira ou piada nos leve ao riso? No que reside a sua graça? Seria na técnica utilizada para formar a piada? Ou no pensamento transmitido por ela?

Freud aponta que tanto a técnica utilizada para a formação de um chiste quanto o pensamento expresso por ele geram satisfação e nos fazem rir. Contudo, rimos ainda com mais intensidade quando há um pensamento sendo expresso pelo chiste (isso é, quando a piada cumpre um propósito ou uma "tendência").

Para Freud, há dois tipos de piadas: inócuas e tendenciosas. As piadas inócuas são aquelas que nos proporcionam prazer apenas por causa das técnicas utilizadas para formá-la, como os jogos de palavras, representação pelo oposto, condensação, etc. Essas técnicas consistem basicamente nos mesmos processos utilizados pelo censor para gerar o conteúdo manisfesto dos sonhos.

Já as piadas tendenciosas são aquelas que apresentam uma "tendência". Isso é, elas tendem a cumprir alguma finalidade. E o seu fim último é o mesmo que o dos sonhos: a satisfação de desejos inconscientes.

Elas são, segundo Freud, uma forma de nos libertarmos de nossas inibições para expressar instintos agressivos, sexuais, cinismo, etc. São usadas para que possamos expressar aquilo que, de outra forma, não ganharia expressão a nível consciente.

Podemos perceber como as piadas e "brincadeirinhas" nos livram de nossas inibições ao perceber como rimos, por exemplo, de piadas cujo conteúdo é sexual. Se uma pessoa nos expressa o conteúdo de uma piada sexual sem se valer das técnicas que tornam esse conteúdo uma piada, provavelmente não rimos. Pelo contrário, podemos até sentir a famosa "vergonha alheia". E achamos a piada tanto melhor quanto mais bem feita for sua elaboração, quanto mais velada for a expressão do seu conteúdo.

Há um exemplo muito interessante que Freud cita em seu livro que ilustra como o chiste livra o seu criador de inibições. É uma piada sobre uma pessoa de classe subalterna que se dirige a um superior e expressa o que não poderia nunca expressar diretamente. Através da piada ele se livra das inibições tanto de atacar a pessoa superior a quem se dirige quanto de expressar conteúdo sexual sobre a mãe deste.

Essa história é a de um rei que passeava por seus domínios, quando encontrou um aldeão que era extremamente parecido consigo mesmo. Ele ficou impressionado com a semelhança física entre eles, e lhe perguntou: "A sua mãe já esteve na corte?". O aldeão, então, lhe respondeu: "Não, senhor, mas meu pai sim.".

A pergunta que o rei dirige ao aldeão é extremamente ofensiva, mas este lhe dá o troco na mesma moeda.

Podemos perceber que a fonte de prazer dessa piada não é somente o conteúdo expresso por ela, mas também a técnica utilizada para sua formação. Podemos comprovar isso se expressarmos diretamente o seu pensamento, lhe retirando a sua "roupagem" de piada. A resposta do aldeão, expressa de forma direta, ficaria algo como: "Não, senhor, o seu pai não fez sexo com a minha mãe, mas provavelmente foi meu pai que fez sexo com a sua."

Apesar da fonte de prazer de uma piada ser tanto o pensamento expresso por ela quanto as técnicas utilizadas para sua formação, Freud diz que não podemos saber qual a proporção de cada uma no resultado final da piada. Isso é, não sabemos se estamos rindo mais da técnica ou do conteúdo. Mas, como já afirmamos, o fato é que tanto a técnica utilizada para a formação de um chiste quanto o pensamento expresso por ele geram satisfação e nos provocam o riso.