Freud e Marx ? Psicanálise e Marxismo ?
Posted: 16.7.10 by Glauber Ataide in Marcadores: Política, Psicanálise
"Die Philosophen haben die Welt nur verschieden interpretiert; es kommt aber darauf an, sie zu verändern." (Karl Marx)
O sonho que relato abaixo me ocorreu há mais de um ano. Já havia me esquecido completamente dele, mas o reencontrei ao vasculhar meus rascunhos em busca de alguma outra coisa nesta semana. Tenho o costume de anotar alguns de meus sonhos quando tento interpretá-los.
A interpretação que empreendi é apenas superficial, no sentido de que diz respeito apenas às causas mais imediatas que lhe deram origem, não descendo a um nível de profundidade que lhe relacione a eventos de minha infância. Mas é suficiente, no entanto, para demonstrar na prática a eficiência das técnicas psicanalíticas desenvolvidas por Freud e apresentadas em sua obra "A interpretação dos sonhos".
De forma muito resumida (e correndo o risco de cometer alguma falha grave, mas me perdoem por isso), o que podemos dizer sobre os sonhos é o seguinte: todo sonho é a realização de um desejo. Todo sonho apresenta um desejo como realizado. Devemos sempre perguntar: "que desejo este sonho está realizando?"
O primeiro passo no processo de interpretação consiste em identificar os eventos do dia anterior que deram origem ao sonho. Após isso emprega-se a chamada "livre associação" a cada elemento do sonho isoladamente para que as idéias por trás de cada um deles sejam identificadas. Há um outro post neste blog que trata do tema dos sonhos. Mas ele também é muito resumido. O melhor é beber direto da fonte ("A interpretação dos sonhos", de Freud).
O sonho
Sonhei que fui indicado por uma de minhas tias para uma vaga de emprego em um país que não sabia bem qual era. A vaga parecia ser da empresa na qual ela trabalhava na época do sonho, e era para programador Java. (Na verdade, eu não programo em Java, mas em uma linguagem parecida e "concorrente", chamada C# [lê-se C sharp]). Junto com o emprego eu ganharia passagens aéreas adicionais para fazer um turismo "religioso", ao que parece, passando por Jerusalém. Parece que eu ganharia 4 passagens, ou então viagens para 4 lugares diferentes.
Material do dia anterior
No dia anterior uma de minhas primas me ligou e me ofereceu convites para assistir a um show no Palácio das Artes. Ela não poderia ir pois estava grávida e gripada. Assim, ela se lembrou de mim e me ofereceu os ingressos . Mas eu, todavia, não consegui pegá-los e acabei perdendo o show.
A psicanálise, apesar de ter surgido apenas como um método de tratamento das neuroses, se configurou posteriormente em uma teoria geral da mente, uma terapia para os problemas anímicos, um instrumento de investigação e uma profissão. Se trata de um complexo fenômeno intelectual, médico e sociológico. (WARD, ZÁRATE, 2002).
Como um teoria da mente humana, ela fornece uma topografia hipotética do aparelho psíquico dividido em três sistemas, a saber: inconsciente, pré-consciente e consciente. Mas como afirma Tallaferro (1996), eles não devem ser concebidos como estruturas rígidas e delimitadas em três planos distintos. Antes, devem ser considerados como forças, como investimentos energéticos que se deslocam de certa forma, que têm um tipo de vibração específico. Dentro desses campos ou “regiões”, encontram-se as três instâncias chamadas id, ego e superego.
O id é a instância psíquica mais arcaica e se encontra totalmente no inconsciente. É onde se localizam as pulsões, e tem conexão íntima com o biológico. (TALLAFERRO, 1996). Segundo Mednicoff (2008), “o id está voltado a satisfazer nossas necessidades básicas desde o começo da vida. A atividade dele consiste em impulsos que buscam o prazer. Ele procura adquirir gratificação imediata e não suporta frustração. É aquele nosso lado instintivo que não mede as consequências dos atos para se satisfazer.”
Já o ego, assim como o superego, é formado a partir do id. Segundo Tallaferro (1996), o ego nada mais é, para Freud, “do que uma parte do id modificado pelo impacto ou a alteração das pulsões internas e dos estímulos externos”. De acordo com Mednicoff (2008), para compreender a formação do ego a partir do id devemos observar a vida dos bebês. Quando estão com fome, sujos ou com alguma necessidade, eles choram e quase que imediatamente seus cuidadores atendem aos seus pedidos. Mas à medida que crescem, percebem que nem sempre podem conseguir tudo o que desejam, e dessa forma precisam se adaptar às exigências e condições impostas pelo meio em que vivem. Isso mostra que enquanto o id é regido pelo chamado “princípio de prazer” (satisfação imediata, sem pensar nas consequências), o ego é regido pelo “princípio de realidade” (o que é possível alcançar em determinada situação, como alcançar, quais as consequências, etc). O ego tem como principal papel, portanto, “coordenar funções e impulsos internos, e fazer com que os mesmos possam expressar-se no mundo exterior sem conflitos.” (TALLAFERRO, 1996).
O superego, por sua vez, começa a se formar à medida que a criança percebe que existem normas, regras e padrões morais que ela ouve tanto dos pais quanto da sociedade. Ela começa a ser ensinada sobre o que é feio, o que é vergonhoso, etc, e acaba incorporando essas crenças à estrutura psíquica, dando forma, assim, ao superego. (MEDNICOFF, 2008). Segundo Tallaferro (1996), ele é aquilo a que normalmente damos o nome de “consciência” ou “voz da consciência”. O superego, da mesma forma que nossos pais faziam, nos observa, guia e ameaça, sendo formado pela introjeção do pai repressor. Ainda de acordo com Tallaferro (1996), seu mecanismo de formação pode ser explicado pelo fato de que, com a incorporação do pai no ego, o filho introjeta a atitude “má” daquele com o intuito de conservar o pai “bom” no mundo exterior. Isso é, o filho abstrai a parte “má” do pai, a introjeta em sua consciência para manter o pai “bom” disponível no mundo real. Assim ele escapa do perigo do pai “mau” e obtém, ao mesmo tempo, a proteção representada pela imagem paterna “boa”. O superego é o responsável por nos infligir aquilo que denominamos “remorso” ou “peso na consciência”. É por essa razão que verificamos que pessoas que tiveram pais muito rígidos também são muito rígidas consigo próprias, mesmo que não percebam isso.
Essas instâncias psíquicas (id, ego e superego) não ficam, cada uma, localizadas especificamente dentro ou do inconsciente, ou do pré-consciente ou do consciente. O ego, por exemplo, se localiza dentro dessas três regiões, assim como o superego. São campos de limites imprecisos, dentro dos quais essas instâncias adquirem caracterísicas próprias desse nível da atividade psíquica. (TALLAFERRO, 1996). E é dentro desse aparato, dessa topografia hipotética do aparelho psíquico, que se dá lugar toda a dinâmica do psiquismo.
REFERÊNCIAS:
MEDNICOFF, Elizabeth. Dossiê Freud. São Paulo: Universo dos Livros, 2008.
TALLAFERRO, Alberto. Curso básico de Psicanálise. 2 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
WARD, Ivan; ZÁRATE, Oscar. Psicoanálisis para principiantes. Buenos Aires: Era Naciente SRL, 2002.
A série de filmes Hellraiser, baseada na obra The hellbound heart, de Clive Barker, possui algumas características que lhe conferem, a meu ver, um status especial entre as obras do gênero do horror. Apesar de obras clássicas como O exorcista e Sexta-feira 13 constarem no topo da minha lista de favoritos, há algo peculiar, distinto até, na série protagonizada por Pinhead.
Basicamente, a história gira em torno de uma caixa, que às vezes é chamada de "a caixa das lamentações". Essa caixa, quando aberta, liberta seres chamados "Cenobitas", que, segundo definição de seu líder (Pinhead), são "exploradores das regiões profundas da experiência. Anjos para alguns, demônios para outros". Os cenobitas são criaturas horrendas que dominam com excelência as artes da crueldade e da tortura.
Mas o fato principal sobre essa caixa é que ela é aberta por aqueles que desejam ultrapassar os limites da experiência sensória na busca do prazer. A promessa é de que essa caixa forneça a todos aqueles a quem nenhum prazer mais satisfaz nesta terra um outro prazer tal que os sentidos nunca poderiam alcançar. Uma cena que ilustra isso no livro é quando Frank Cotton, ao abrir a caixa, percebe que seus sentidos, tais como audição e visão, são levados a um máximo de definição. No entanto, isso lhe traz uma dor intensa que ele não esperava encontrar.
Enfim, o que é importante saber sobre a caixa é que ela é um portal para a realidade dos cenobitas, mas não é a sua simples manipulação o que os traz a essa realidade, mas sim a questão do desejo. Isso foi deixado explícito no segundo filme da série, quando um psiquiatra, chamado Dr. Channard, se utiliza de uma criança problemática internata de seu hospital, cuja obsessão era resolver jogos de enigmas, para abrí-la. Ele lhe dá a caixa e fica a observar, através de um vidro em outro cômodo, o que acontecerá quando a caixa for aberta. Mas quando os cenobitas aparecem, Pinhead impede que seus companheiros a destruam, dizendo-lhes: "Não são mãos o que nos reúne, mas desejo." Assim eles deixam a criança de lado para buscar o Dr. Channard.
É a abertura da caixa o que confere a "Hellraiser" o efeito psicótico da série. Segundo Stefan Gullatz, no artigo "Exquisite Ex-timacy: Jacques Lacan vis-à-vis Contemporary Horror", isso acontece quando os cenobitas invadem a realidade comum, de forma que as fronteiras entre as duas dimensões se tornam indefinidas. Enquanto a aparência dos cenobitas é em si mesma horrorizante, o ponto crucial é a insuportável incerteza por parte do expectador quanto à "localização" da ação. O movimento fluído e imprevisível entre as dimensões claramente subjaz ao extraordinário poder e tensão dramática do filme. Mais ao final, parece que a realidade dos cenobitas permeia todas as coisas, que a realidade comum foi "engolida" por eles. E seria essa quebra de fronteiras, essa dissolução do limite da realidade, segundo Gullatz, a responsável pelo "efeito psicótico" da série.
Além disso, muitos outros aspectos presentes na série podem ser objetos de investigações psicanalíticas. Uma interessante observação sobre os cenobitas é que a palavra "cenobita" designa um indivíduo que é parte de uma ordem religiosa, um monge que leva uma vida retirada. De fato, no livro que deu origem à série, os cenobitas são chamados até mesmo de "teólogos", e sons de sinos sempre precedem suas aparições.
não preciso, como indivíduo normal e livre de neuroses, carregá-la na mão por todo o caminho e ficar à cata de uma caixa de correio onde possa jogá-la; pelo contrário, costumo colocá-la no bolso, seguir meu caminho deixando os pensamentos vagarem livremente, e confiar em que uma das primeiras caixas do correio há de chamar minha atenção e fazer com que eu ponha a mão no bolso e retire a carta. A conduta normal frente a uma intenção concebida coincide por completo com o comportamento experimentalmente produzido das pessoas a quem se deu, em hipnose, uma "sugestão pós-hipnótica a longo prazo", como se costuma chamá-la. Esse fenômeno é usualmente descrito da seguinte maneira: a intenção sugerida dormita na pessoa em questão até se aproximar o momento de efetivá-la. É aí que desperta e impele a pessoa para a ação. (FREUD, 2002)
Em outra ocasião, eu fazia uma visita a uma dama que era tão rica quanto avarenta e tola, e que tinha o costume de dar ao médico a tarefa de elaborar um batalhão de queixas antes de chegar à causa simples de seu estado. Quando entrei, ela estava sentada frente a uma mesinha, ocupada em dispor florins de prata em pequenas pilhas.Ao se levantar, derrubou algumas moedas no chão. Ajudei-a a apanhá-las e, pouco depois, interrompi-a na descrição de suas desgraças e perguntei: "Então seu nobre genro tem-lhe custado tanto dinheiro assim?" Ela respondeu com uma negativa exasperada, mas pouco depois já me narrava a triste história da aflição que lhe causava o esbanjamento de seu genro. Entretanto, é certo que nunca mais mandou me chamar. Não posso afirmar que sempre se façam amigos entre aqueles a quem se informa o sentido de seus atos sintomáticos. (FREUD, 1997, p.115, grifo nosso)
"Nos sonhos produzidos por homens, a gravata aparece amiúde como símbolo do pênis. Sem dúvida, isso ocorre não apenas porque as gravatas são objetos longos, pendentes e peculiares aos homens, mas também porque podem ser escolhidas de acordo com o gosto - uma liberdade que, no caso do objeto simbolizado, é proibida pela Natureza."