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Freud e Marx ? Psicanálise e Marxismo ?

Posted: 16.7.10 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Há alguns dias uma psicóloga e psicanalista me enviou um interessante e-mail fazendo algumas perguntas sobre a aproximação que ela percebeu neste blog entre Marx e Freud.

Alguns pensadores argumentam que não é possível uma convergência entre as duas correntes, não obstante se aproximarem em alguns aspectos metodológicos. Até o próprio Freud chega a "criticar" o comunismo em O mal-estar na civilização.

Há, no entanto, uma outra linha de pensamento que constrói essa ponte entre os dois, e que talvez seja menos conhecida.

Reproduzo abaixo o e-mail que lhe enviei.


Olá, *******

Há uma corrente chamada "freudo-marxismo" que faz uma síntese de Freud e Marx. Este artigo é bem interessante para uma introdução no assunto:


Freud nunca chegou a conhecer bem o pensamento de Marx. Quem primeiro trouxe a discussão à Sociedade Psicanalítica de Viena foi Adler, mas ele não tinha uma boa compreensão do que estava expondo a Freud que, por sua vez, não se "empolgou" com o assunto.

Talvez o maior psicanalista que tenha trabalhado nessa síntese tenha sido o Reich. Ele era comunista, e muitos anos depois também apresentou a Freud algumas coisas de Marx. Ele também introduziu, no entanto, muitas de suas próprias ideias como sendo de Marx, e são elas que Freud critica em O mal-estar na civilização. Ou seja, neste livro, Freud critica muito mais Reich do que Marx.

Dois anos antes de morrer, Freud reconheceu que seu conhecimento do marxismo era mínimo (assim como ele já tinha feito em O mal-estar na civilização) e disse o seguinte:

"Sei que os meus conhecimentos sobre o marxismo não revelam nenhuma familiaridade maior, não mostram uma compreensão adequada dos escritos de Marx e Engels. Fiquei sabendo mais tarde, com certa satisfação, que nem um nem o outro negaram a influência dos fatores do ego e do superego. Isso desfaz o principal conflito que eu pensava existir entre o marxismo e a psicanálise."

Esta última citação eu extraí do livro O marxismo na batalha das ideias, de Leandro Konder, p. 111.


Obrigado pelo contato, e abraços,
Glauber

Exemplo de uma simples interpretação de sonho

Posted: 19.6.10 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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O sonho que relato abaixo me ocorreu há mais de um ano. Já havia me esquecido completamente dele, mas o reencontrei ao vasculhar meus rascunhos em busca de alguma outra coisa nesta semana. Tenho o costume de anotar alguns de meus sonhos quando tento interpretá-los.

A interpretação que empreendi é apenas superficial, no sentido de que diz respeito apenas às causas mais imediatas que lhe deram origem, não descendo a um nível de profundidade que lhe relacione a eventos de minha infância. Mas é suficiente, no entanto, para demonstrar na prática a eficiência das técnicas psicanalíticas desenvolvidas por Freud e apresentadas em sua obra "A interpretação dos sonhos".

De forma muito resumida (e correndo o risco de cometer alguma falha grave, mas me perdoem por isso), o que podemos dizer sobre os sonhos é o seguinte: todo sonho é a realização de um desejo. Todo sonho apresenta um desejo como realizado. Devemos sempre perguntar: "que desejo este sonho está realizando?"

O primeiro passo no processo de interpretação consiste em identificar os eventos do dia anterior que deram origem ao sonho. Após isso emprega-se a chamada "livre associação" a cada elemento do sonho isoladamente para que as idéias por trás de cada um deles sejam identificadas. Há um outro post neste blog que trata do tema dos sonhos. Mas ele também é muito resumido. O melhor é beber direto da fonte ("A interpretação dos sonhos", de Freud).

O sonho

Sonhei que fui indicado por uma de minhas tias para uma vaga de emprego em um país que não sabia bem qual era. A vaga parecia ser da empresa na qual ela trabalhava na época do sonho, e era para programador Java. (Na verdade, eu não programo em Java, mas em uma linguagem parecida e "concorrente", chamada C# [lê-se C sharp]). Junto com o emprego eu ganharia passagens aéreas adicionais para fazer um turismo "religioso", ao que parece, passando por Jerusalém. Parece que eu ganharia 4 passagens, ou então viagens para 4 lugares diferentes.

Material do dia anterior

No dia anterior uma de minhas primas me ligou e me ofereceu convites para assistir a um show no Palácio das Artes. Ela não poderia ir pois estava grávida e gripada. Assim, ela se lembrou de mim e me ofereceu os ingressos . Mas eu, todavia, não consegui pegá-los e acabei perdendo o show.

No dia anterior eu também ensaiei com minha banda pela manhã, mas o ensaio foi um desastre. Foi depressivo. O baterista não compareceu, e ficamos "tentando" tocar algo sem ele. Foi uma completa perda de tempo.

Logo mais tarde, porém, na casa da minha mãe, toquei um pouco de guitarra com meu irmão e seus colegas, numa nova banda que estávamos começando e para a qual criávamos as primeiras músicas e arranjos.

Interpretação


Logo pela manhã, ao pensar no sonho, a primeira associação que me veio em relação à proposta para trabalhar no exterior foi o aviso que certa vez comuniquei à banda de que, caso eu recebesse uma proposta para ir trabalhar no exterior, eu teria que deixar a banda. (Na verdade eu já havia sido sondado por minha empresa sobre a possibilidade de trabalhar nos EUA quando havia uma vaga em aberto com o meu perfil). A interpretação apontava, então, que o tal "emprego no exterior" presente no sonho estava satisfazendo meu desejo inconsciente de deixar a banda. (Lembrem-se que o ensaio do dia anterior foi um desastre.)

Ao tentar interpretar a questão do "turismo" para o qual eu ganhei as passagens, a primeira associação que me ocorreu foi uma banda de death metal chamada "Mortification". Ao me lembrar que essa banda é da Austrália tive a confirmação que o país para o qual a vaga de emprego era destinada era a Austrália (pois isso não havia ficado claro no sonho, ficou apenas no curso da interpretação). O caráter "religioso" deste turismo fez sentido quando me lembrei que as letras dessa banda são de orientação cristã.

A vaga de emprego era para uma outra linguagem de programação com a qual eu não trabalho. Essa troca de linguagens era uma referência direta a um desejo inconsciente de troca de bandas - pois no dia anterior eu tive um ensaio de manhã com uma banda e um ensaio à tarde com outra.

O show para o qual ganhei os ingressos no dia anterior e não pude comparecer era de uma banda da qual eu não gosto muito. Eu até iria por ser de graça, mas nunca gastaria dinheiro com isso.

Este sonho, então, apresentava como realizado 1) o meu desejo de deixar minha atual banda e tocar em uma outra (emprego no exterior e troca de uma linguagem de programação por outra) e também 2) o desejo de ir a um show mais interessante que aquele para o qual ganhei os ingressos e que não pude comparecer.

Perceba que apesar de nada relacionado a música ter aparecido diretamente no conteúdo manifesto deste sonho (que é aquilo de que nos "lembramos" do sonho ao acordar), o seu conteúdo latente (inconsciente) estava repleto de idéias neste sentido. É por isso que os sonhos nos enganam: eles passam por um processo de elaboração que na maioria das vezes os deixam irreconhecíveis em relação às idéias que lhes deram origem.

Infelizmente, por ter se passado tanto tempo, não posso me lembrar de mais nada que possa levar adiante a interpretação deste sonho. Não posso mais me lembrar o por que de "Jerusalém" ter aparecido no sonho, ou por que o número de passagens ser exatamente quatro. Mas por ser um sonho simples e que não apresenta muitas distorções achei que poderia ser um pequena demonstração de que, como afirmava Freud, "os sonhos são uma construção psíquica, e como tal, são passíveis de interpretação."

Comportamento no trânsito: psicanalisando e filosofando um pouco - Parte II

Posted: 18.12.09 by Glauber Ataide in Marcadores: , ,
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No texto anterior ensaiamos que algumas das prováveis causas de uma "baixa" ou de um "enfraquecimento" da atuação do ego e do superego na atividade psíquica do motorista ao volante podem ser as falsas sensações de segurança e de invisibilidade.

No entanto, isso não explica tudo. Percebemos um comportamento agressivo e também inconsequente mesmo quando essas falsas sensações parecem não estar presentes, e me refiro aqui especificamente ao caso dos motoqueiros.

O condutor de uma motocicleta está numa situação completamente oposta à do condutor de um veículo. Ele está completamente exposto a acidentes e não pode ter nenhuma expectativa de privacidade. Mas sua imprudência, todavia, é notável.

Nestes, mais do que naqueles, a predominância do princípio de prazer é ainda mais evidente, dado que uma conduta racional de seu veículo, baseada nas probabilidades de uma fatalidade em caso de acidente resultaria em um comportamento totalmente avesso ao que presenciamos em nossas ruas e avenidas.

O que parece concorrer para este tipo de comportamento é uma outra forma de invisibilidade. O trânsito é formado por uma multidão de anônimos, onde ninguém conhece ninguém. Os motociclistas, devido à sua maior fluidez no tráfego, são as maiores incógnitas deste espetáculo.

Além desse tipo de invisibilidade há um outro ponto que podemos visualizar melhor através de uma representação. Imaginem uma pessoa diante de um cachorro perigoso que está preso e atrás de grades. Essa pessoa grita, bate o pé, bate palmas e irrita o cachorro de toda forma possível. Agora imaginem, diante dessa mesma pessoa, este mesmo cachorro, mas livre e sem as grades. Adivinhem o seu comportamento.

Quando um revide é pouco provável a maioria das pessoas não se comporta da mesma maneira do que quando isso é uma possibilidade. Voltamos aqui então na questão da invisibilidade, na questão do anel de Giges abordado no texto anterior. O anonimato no trânsito é uma forma de invisibilidade, e esse anonimato é ainda mais acentuado para os motoqueiros devido à sua maior capacidade de fluidez entre os veículos.

Essa maior fluidez parece lhes dar a sensação de não ocupar lugar no espaço, daí sua direção agressiva ao trafegar em estreitos becos formados por veículos em movimento e suas lendárias "fechadas", que parecem não levar em conta sua fragilidade e o alto risco de fatalidade em caso de colisão.

Freud afirma que onde hoje pedimos alguém licença para passar, antigamente lhe dávamos um empurrão para que saísse de nossa frente. Este "antigamente" se refere a quando tudo era id, quando não havia ego. O princípio de prazer é demasiado evidente na conduta dos motoristas. Onde eles deveriam esperar, eles querem passar na frente, e quando um revide parece improvável devido ao anonimato ou à própria capacidade de fluidez no trânsito este comportamento encontra menor resistência para expressão.

Comportamento no trânsito: psicanalisando e filosofando um pouco - Parte I

Posted: 16.12.09 by Glauber Ataide in Marcadores: , ,
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Ouvi em um noticiário há pouco tempo uma discussão sobre trânsito. Os apresentadores se questionavam sobre como era possível que pessoas absolutamente "calmas" e "normais" em seu cotidiano se transformassem completamente quando estão ao volante.

Isso me remeteu a um comentário de Freud em seus "Três ensaios sobre a sexualidade", no qual ele diz que as perversões sexuais muitas vezes ocorrem de forma isolada em indivíduos que são "normais" em todas as outras áreas. O comportamento no trânsito, de forma semelhante, nem sempre reflete a personalidade do motorista. Pelo menos não aquela consciente.

Já em um outro jornal, vários dias depois, um conhecido jornalista ensaiou uma interpretação psicanalítica do comportamento agressivo ao volante. Neste seu esboço ele dizia que um indivíduo, talvez por um complexo de inferioridade ou por se sentir "passado pra trás" na vida, no amor ou nos negócios, não permitirá que ninguém o "ultrapasse" no trânsito.

Mas o que eu venho tentando compreender é o que deve acontecer com o ego e o superego quando o indivíduo está dirigindo. Sabemos que as pulsões de agressividade provindas do id a todo momento buscando gratificação são combatidas pelo ego. O id, regido pelo princípio de prazer, não se preocupa com o que possa acontecer caso ele consiga o que quer. É o ego, regido pelo princípio de realidade, que faz essa mediação entre as exigências do id e da realidade externa.

É fato que as pulsões do id encontram menor resistência no indivíduo que está ao volante. Parece haver uma "baixa" da guarda do ego e do superego, pois o comportamento transgressor no trânsito nem sempre é percebido como tal. Isso é um comportamento típico do id, um comportamento regido pela busca imediata de alguma gratificação sem se importar com as consequências.

Fico imaginando se isso talvez não seja causado por uma falsa sensação de segurança proporcionada por se estar no interior de uma caixa de metal, que é o carro. Ou se talvez isso seja devido a uma sensação de "invisibilidade" no trânsito. Pessoas que costumam enfiar o dedo no nariz parecem se sentir particularmente invisíveis ao volante.

A "invisibilidade" e sua correlação com um comportamento ético foi abordada por Platão na famosa passagem do anel de Giges, na obra "A República". Este anel, encontrado por Giges, lhe dava a capacidade de se tornar invisível. Percebendo isso, ele seduziu a mulher de seu rei, atacou-o e matou-o com a sua ajuda. Gláucon então afirma que "se, portanto, houvesse dois anéis como este, o homem justo pusesse um, e o injusto outro, não haveria ninguém, ao que parece, tão inabalável que permanecesse no caminho da justiça...", pois "... ninguém é justo por sua vontade, mas constrangido, por entender que a justiça não é um bem para si, individualmente, uma vez que, quando cada um julga que lhe é possível cometer injustiças, comete-as".

Talvez essas falsas sensações de segurança e invisibilidade estejam entre as causas de um enfraquecimento da atuação do ego e do superego na atividade psíquica do motorista ao volante, o que explica seu comportamento agressivo e transgressor, caracterizado pelo princípio de prazer.

Id, ego e superego – uma topografia hipotética do aparelho psíquico

Posted: 30.11.09 by Glauber Ataide in Marcadores:
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A psicanálise, apesar de ter surgido apenas como um método de tratamento das neuroses, se configurou posteriormente em uma teoria geral da mente, uma terapia para os problemas anímicos, um instrumento de investigação e uma profissão. Se trata de um complexo fenômeno intelectual, médico e sociológico. (WARD, ZÁRATE, 2002).

Como um teoria da mente humana, ela fornece uma topografia hipotética do aparelho psíquico dividido em três sistemas, a saber: inconsciente, pré-consciente e consciente. Mas como afirma Tallaferro (1996), eles não devem ser concebidos como estruturas rígidas e delimitadas em três planos distintos. Antes, devem ser considerados como forças, como investimentos energéticos que se deslocam de certa forma, que têm um tipo de vibração específico. Dentro desses campos ou “regiões”, encontram-se as três instâncias chamadas id, ego e superego.

O id é a instância psíquica mais arcaica e se encontra totalmente no inconsciente. É onde se localizam as pulsões, e tem conexão íntima com o biológico. (TALLAFERRO, 1996). Segundo Mednicoff (2008), “o id está voltado a satisfazer nossas necessidades básicas desde o começo da vida. A atividade dele consiste em impulsos que buscam o prazer. Ele procura adquirir gratificação imediata e não suporta frustração. É aquele nosso lado instintivo que não mede as consequências dos atos para se satisfazer.”

Já o ego, assim como o superego, é formado a partir do id. Segundo Tallaferro (1996), o ego nada mais é, para Freud, “do que uma parte do id modificado pelo impacto ou a alteração das pulsões internas e dos estímulos externos”. De acordo com Mednicoff (2008), para compreender a formação do ego a partir do id devemos observar a vida dos bebês. Quando estão com fome, sujos ou com alguma necessidade, eles choram e quase que imediatamente seus cuidadores atendem aos seus pedidos. Mas à medida que crescem, percebem que nem sempre podem conseguir tudo o que desejam, e dessa forma precisam se adaptar às exigências e condições impostas pelo meio em que vivem. Isso mostra que enquanto o id é regido pelo chamado “princípio de prazer” (satisfação imediata, sem pensar nas consequências), o ego é regido pelo “princípio de realidade” (o que é possível alcançar em determinada situação, como alcançar, quais as consequências, etc). O ego tem como principal papel, portanto, “coordenar funções e impulsos internos, e fazer com que os mesmos possam expressar-se no mundo exterior sem conflitos.” (TALLAFERRO, 1996).

O superego, por sua vez, começa a se formar à medida que a criança percebe que existem normas, regras e padrões morais que ela ouve tanto dos pais quanto da sociedade. Ela começa a ser ensinada sobre o que é feio, o que é vergonhoso, etc, e acaba incorporando essas crenças à estrutura psíquica, dando forma, assim, ao superego. (MEDNICOFF, 2008). Segundo Tallaferro (1996), ele é aquilo a que normalmente damos o nome de “consciência” ou “voz da consciência”. O superego, da mesma forma que nossos pais faziam, nos observa, guia e ameaça, sendo formado pela introjeção do pai repressor. Ainda de acordo com Tallaferro (1996), seu mecanismo de formação pode ser explicado pelo fato de que, com a incorporação do pai no ego, o filho introjeta a atitude “má” daquele com o intuito de conservar o pai “bom” no mundo exterior. Isso é, o filho abstrai a parte “má” do pai, a introjeta em sua consciência para manter o pai “bom” disponível no mundo real. Assim ele escapa do perigo do pai “mau” e obtém, ao mesmo tempo, a proteção representada pela imagem paterna “boa”. O superego é o responsável por nos infligir aquilo que denominamos “remorso” ou “peso na consciência”. É por essa razão que verificamos que pessoas que tiveram pais muito rígidos também são muito rígidas consigo próprias, mesmo que não percebam isso.

Essas instâncias psíquicas (id, ego e superego) não ficam, cada uma, localizadas especificamente dentro ou do inconsciente, ou do pré-consciente ou do consciente. O ego, por exemplo, se localiza dentro dessas três regiões, assim como o superego. São campos de limites imprecisos, dentro dos quais essas instâncias adquirem caracterísicas próprias desse nível da atividade psíquica. (TALLAFERRO, 1996). E é dentro desse aparato, dessa topografia hipotética do aparelho psíquico, que se dá lugar toda a dinâmica do psiquismo.


REFERÊNCIAS:

MEDNICOFF, Elizabeth. Dossiê Freud. São Paulo: Universo dos Livros, 2008.

TALLAFERRO, Alberto. Curso básico de Psicanálise. 2 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

WARD, Ivan; ZÁRATE, Oscar. Psicoanálisis para principiantes. Buenos Aires: Era Naciente SRL, 2002.

Homens de cabelo grande

Posted: 9.11.09 by Glauber Ataide in Marcadores: , ,
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Tive cabelo grande por aproximadamente 10 anos, e quando mais jovem, sempre ouvia a pergunta: "por que seu cabelo é assim, e não igual o de todo mundo?". Esta questão nos leva, de fato, a pensar numa resposta, e gostaria de compartilhar com os amigos do blog algumas reflexões sobre isso.

Mas não pensei na questão sem um método: foi a partir de uma perspectiva psicanalítica que, num primeiro momento, tentei compreender quais razões inconscientes me levavam a gostar de cabelo grande. Procurava uma motivação que não dissesse respeito apenas a mim, mas talvez a todo um grupo de pessoas do qual eu fosse um elemento.

Acabei descobrindo, por exemplo, que o cabelo grande é um símbolo inconsciente tanto para os genitais quanto para a própria concepção de falo.

O interessante é que as primeiras pistas que encontrei sobre os cabelos representando os genitais eu não obtive diretamente da literatura psicanalítica, mas através da interpretação de um sonho que me foi relatado por uma mulher.

Após algumas dificuldades, descobrimos que os cabelos dela, os quais apareciam insistentemente por todo o sonho e com características de ter passado por um rigoroso processo de repressão, eram um símbolo de seus genitais. Seu sonho era basicamente um sonho de exibicionismo. Posteriormente pude encontrar confirmação desse símbolo na literatura psicanalítica.

Lembrem-se da história de Rapunzel, por exemplo. Para aqueles já familiarizados com a chamada "psicanálise dos contos de fadas", não é difícil perceber que os cabelos de Rapunzel, através dos quais o príncipe consegue subir ao seu quarto, representam um complexo de associações ligados à questão da sexualidade, dentre os quais podemos destacar a maturidade sexual, isso é, o preparo para o coito adquirido na adolescência.

Já na história bíblica de Sansão, vemos o cabelo grande associado a características fálicas, masculinas. Sansão tem força, tem virilidade por causa do seu cabelo. Isso é, o cabelo grande como símbolo de um pênis grande, ou para ser mais exato, de um falo grande. Quando o cabelo de Sansão é cortado, ele perde sua força, sua masculinidade, sua virilidade.

Para determinados homens, manter o cabelo grande pode ser também uma resposta à angústia de castração. Freud afirma em "A interpretação dos sonhos" que o rabo de lagartixa é um símbolo inconsciente para essa situação, já que ele sempre cresce novamente quando é cortado. O cabelo grande, da mesma forma, pode servir a essa função.

A segunda explicação que encontrei para minha preferência por cabelos longos veio de uma perspectiva filosófica: deixar o cabelo crescer é uma expressão de valores. Os filósofos do império romano eram caracterizados pelo cabelo grande, assim como pela barba, a roupa e a bolsa que utilizavam. Encontramos na literatura deste período até mesmo críticas sobre aqueles que achavam que um filósofo se fazia apenas "pelo cabelo".

Devemos observar que ter um cabelo grande não é a mesma coisa que nascer com um nariz grande. Um cabelo grande é expressão da personalidade da pessoa, representa valores. Essa é a razão de eu sempre ter considerado tão ofensivo quando alguém fazia algum comentário depreciativo sobre o meu cabelo.

Dizer a um homem de cabelo grande "por que você não corta esse cabelo?" é um eufemismo para "por que você não deixa de ser do jeito que é?". Isso é um ataque pessoal. Isso é um ataque aos valores e à personalidade do ofendido.

As pessoas tomam convenções sociais como se fossem valores absolutos. O uso masculino de cabelo curto não é nada mais que uma convenção social, uma característica de uma cultura específica.

O cabelo grande, neste aspecto, representa para o homem consciência e crítica dessas convenções sociais. Pode representar também uma vida mais natural, humana, menos plástica e artificial. É uma reação ao processo de massificação.

Relacionamento (namoro) entre professora e aluno

Posted: 1.9.09 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Há alguns dias, enquanto dirigia da faculdade para casa, tentava compreender uma cena que havia presenciado na sala de aula pouco antes. O que aconteceu e o que pensei durante o trajeto é como se segue.

Minutos antes do intervalo da aula, estava eu sentado na última cadeira da fila lateral esquerda da sala, lendo Marx, quando minha atenção foi desviada para a conversação que travavam alguns alunos com a professora. Esta dizia que já estava há algum tempo sozinha, e que não queria se relacionar por agora. Um aluno, em tom chistoso, lhe disse que caso ela quisesse, poderia ligar-lhe num final de semana para vê-lo.

Todos os alunos riram, o que é característico deste tipo de situação. Freud demonstrou em sua obra "Os chistes e sua relação com o inconsciente" que os chistes são uma forma de expressar desejos inconscientes. Através de "brincadeiras" dizemos aquilo que não poderíamos expressar de forma direta, e essa é uma das causas do prazer que certas situações nos trazem, provocando gargalhadas.

Mas a professora lhe respondeu que se relacionar com aluno "não era possível". Com ex-aluno até poderia ser ("quem sabe no semestre que vem"), mas com aluno, não. Ela argumentou que isso não era "ético", e foi claro perceber que havia alguma resistência que lhe vedava esse tipo de relacionamento.

Quando a professora disse que se relacionar com alunos não era "ético", essa palavrinha logo me chamou a atenção, pois, como sabemos, a Ética é uma área da Filosofia. Mas ela simplesmente não conseguiu explicar o que havia de "antiético" nisso. Isso me sugeriu que a explicação para esse quadro não seria encontrada através da Filosofia, no eu consciente, mas pela Psicanálise, no inconsciente.

Uma possível interpretação deste caso irá passar pela questão da barreira do incesto. Uma professora, em relação a seus alunos, torna-se uma "mãe" para eles. E isso é especialmente claro no presente caso, haja vista a constante presença de termos e expressões afetivas e maternas que encontramos no discurso dessa professora durante as aulas.

Sabemos que em nossa vida adulta reproduzimos os comportamentos que tínhamos com nossos pais. A forma com que lidamos com as figuras de autoridade ou com nossos cônjuges é moldada pela nossa relação infatil com eles.

Mas também reproduzimos em grande parte a forma como nossos pais nos tratava em nossas relações com os outros. Quando observamos uma menina brincando com bonecas, para citar um exemplo, podemos identificar se há algum problema dela com os pais pela forma com que ela trata a boneca, pois ela a trata em partes da mesma forma que ela sente que seus pais lhe tratam.

Assim, poderíamos reconstruir a resposta inconsciente dessa professora ao aluno da seguinte forma: "Eu não posso me relacionar com você pois, enquanto sua professora, eu sou uma mãe para você. Mas assim que você deixar de ser meu filho, no semestre que vem, essa barreira não mais existirá."

Em muitos casos essa barreira é ultrapassada, mas não sem ponderação ou superação de alguma dificuldade, o que reforça a tese de que existe um tabu inconsciente na relação entre professora e aluno, e esse tabu é, de certa maneira, um deslocamento da barreira do incesto para esse tipo de relacionamento.

Você "acredita" em Freud?

Posted: 10.8.09 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Muita gente me pergunta, ao ouvir algumas de minhas posições teóricas, se eu "acredito" nelas. Uma das perguntas que ouço com mais frequência é se eu "acredito" em Freud.

Vamos parar por um minuto e esclarecer uma coisa: Freud não é um concorrente de Jesus Cristo, Krishna ou outro deus. Não se "acredita" em Freud como se fosse algo semelhante a acreditar em espíritos ou em alguma outra coisa sem evidência.

Eu vejo duas razões que possibilitam o surgimento desse tipo de questionamento: a primeira é uma mentalidade estritamente religiosa, acostumada a interpretar o mundo aquém dos limites da religião, da crença, da fé. A segunda é uma consequência do próprio pensamento de Freud, que não é óbvio ou aparente ao homem comum, principalmente por lidar com conteúdos inconscientes, com aquilo que o homem sempre quis esconder de si próprio.

Teorias postuladas por Freud, como o Complexo de Édipo, por exemplo, não são observáveis pelo homem comum sem algum treino, sem alguma prática e, na raiz disso, sem muita leitura. Daí o homem comum achar "absurdas" tais teorias freudianas e pensarem que isso é "objeto de fé", que não se pode aceitar racionalmente ou intelectualmente tais posições.

A ciência trabalha com modelos. Quando falamos sobre o átomo, não nos referimos a algo que sabemos existir. Alguém já viu um átomo? Não, pois ele não é observável. Como sabemos que o átomo existe? Não sabemos. A questão é que o modelo atômico é apenas um modelo utilizado para explicar a realidade física, material, mas que tem, no entanto, se mostrado extremamente eficiente através dos séculos. Mesmo assim, é bem possível que o átomo não seja mais que uma "ficção útil". Essa é uma interessante questão da Filosofia da Ciência.

O que ocorre com as teorias de Freud é algo semelhante. Quando ele postula uma topografia hipotética do aparelho psíquico dividida no inconsciente, no pré-consciente e no consciente, no qual se situam as instâncias psíquicas do id, do ego e do superego, o que ele faz é criar um modelo. A mente humana não é observável. Se abrirmos a cabeça de alguém iremos observar seu cérebro, não sua mente.

Em seu trabalho como médico Freud desenvolveu aos poucos um método de tratamento das neuroses e, juntamente com esse método, foi desenvolvendo um modelo do funcionamento da mente humana, o qual se mostrou muito eficiente não só para curar as neuroses, mas também para explicar sua etiologia, o desenvolvimento humano da infância à fase adulta, a cultura, a religião, a arte, etc.

Mas se o id, o ego e o superego realmente existem nós não sabemos, assim como não temos mais certeza de que o átomo existe. Mas o modelo desenvolvido por Freud explica sem paralelos o funcionamento da mente humana, e suas teorias foram desenvolvidas em plena articulação com a prática clínica, não sendo frutos de mera especulação intelectual. Foi dessa prática que Freud observou, criou modelos, hipóteses e os submeteu à prova para os validar ou corrigir.

Dessa forma, não se "acredita" em Freud. Eu não "acredito" em Freud. A questão é que ele desenvolveu um excelente modelo do funcionamento da mente humana, o qual se mostrou extremamente eficiente no tratamento das neuroses e nas posteriores aplicações da Psicanálise, e o reconhecimento disso não se dá através de um ato de "fé", mas de razão.

Freud analisa uma experiência de conversão religiosa

Posted: 27.7.09 by Glauber Ataide in Marcadores: , , ,
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Em 1927, após declarar em uma entrevista sua indiferença quanto ao tema da vida após a morte e sua falta de fé religiosa, Freud recebeu uma carta de um médico americano que havia lido esta entrevista. Nesta carta ele descrevia sua experiência de conversão ao Cristianismo, na esperança de que esta pudesse levar Freud a uma reflexão sobre o assunto.

A experiência relatada pelo médico foi publicada no artigo "Uma experiência religiosa", publicada no Brasil na Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, no volume XXI, pela Editora Imago, e é como se segue:

"Certa tarde, ao atravessar a sala de dissecção, minha atenção foi atraída por uma velhinha de rosto suave que estava sendo conduzida para uma mesa de dissecção. Essa mulher de rosto suave me causou tal impressão que um pensamento atravessou minha mente: 'Não existe Deus; se existisse, não permitiria que essa pobre velhinha fosse levada a sala de dissecção.'

"Quando voltei para casa naquela tarde, o sentimento que experimentara à visão na sala de dissecção, fizera-me decidir não mais continuar indo à igreja. As doutrinas do cristianismo, antes disso, já tinham sido objeto de dúvidas em meu espírito.

"Enquanto meditava sobre o assunto, uma voz falou-me à alma que 'eu deveria considerar o passo que estava a ponto de dar'. Meu espírito replicou a essa voz interior: 'Se eu tivesse a certeza de que o cristianismo é verdade e que a Bíblia é a Palavra de Deus, então eu os aceitaria.'

"No decorrer das semanas seguintes, Deus tornou claro à minha alma que a Bíblia era Sua Palavra, que os ensinamentos a respeito de Jesus Cristo eram verdadeiros e que Jesus era nossa única salvação. Após uma revelação tão clara, aceitei a Bíblia como sendo a Palavra de Deus, e Jesus Cristo, como meu Salvador pessoal. Desde então, Deus Se revelou a mim por meio de muitas provas infalíveis."

Ao final da carta, o médico americano implorava Freud para refletir sobre o tema, pois estava dirigindo orações a Deus para que este lhe concedesse fé para crer.

Essa experiência, sendo um tanto enigmática e baseada em uma lógica particularmente ruim, exigia, para Freud, uma tentativa de interpretação baseada em motivos emocionais, haja vista que Deus permite a ocorrência de coisas muito piores do que a remoção de um cadáver de uma velhinha para a sala de dissecção. E um médico, é claro, sabe muito bem disso. Então por qual razão sua indignação contra Deus irrompeu justamente ao receber essa impressão na sala de dissecção?

A interpretação dessa experiência religiosa, segundo Freud, seria como se segue:

"A visão de um cadáver de mulher, nu ou a ponto de ser despido, recordou ao jovem sua mãe. Despertou nele um anseio pela mãe que se originava de seu complexo de Édipo, e isso foi imediatamente completado por um sentimento de indignação contra o pai. Suas idéias de ‘pai’ e ‘Deus’ ainda não se tinham separado inteiramente, de modo que seu desejo de destruir o pai podia tornar-se consciente como dúvida a respeito da existência de Deus e procurar justificar-se aos olhos da razão como indignação com o mau trato dado a um objeto materno. Naturalmente, é típico do filho considerar como mau trato o que o pai faz à mãe nas relações sexuais. O novo impulso, deslocado para a esfera da religião, constituía apenas uma repetição da situação edipiana e, conseqüentemente, logo se defrontou com uma sorte semelhante, ou seja, sucumbiu a uma poderosa corrente oposta. Durante o conflito real, o nível do deslocamento não foi sustentado: não há menção de argumentos em justificação de Deus, não nos é dito quais foram os sinais infalíveis pelos quais Deus provou sua existência ao que duvidava. O conflito parece ter-se desdobrado sob a forma de uma psicose alucinatória: escutaram-se vozes interiores que enunciaram advertências contra a resistência a Deus. Mas o resultado da luta foi mais uma vez apresentado na esfera da religião, e era de um tipo predeterminado pelo destino do complexo de Édipo: submissão completa à vontade de Deus Pai. O jovem tornou-se crente e aceitou tudo o que desde a infância lhe havia sido ensinado sobre Deus e Jesus Cristo. Tivera uma experiência religiosa e experimentaria uma conversão."

É interessante notar que nesta interpretação a Psicanálise se apresenta como uma ferramenta para explicar tanto a conversão à religião quanto o seu contrário, ou seja, o ateísmo, apesar de este último, no presente caso, ter sido superado. Mas como o próprio Freud faz notar ao final deste artigo, deve-se levar em consideração que nem todas as experiências de conversão podem ser tão facilmente compreendidas quanto essa. Poderíamos estender sua conclusão e afirmar que o mesmo se aplica aos casos de ateísmo.

A descrença em Deus é aqui apresentada como consequência de uma indignação contra o pai, como um reflexo do Complexo de Édipo deslocado para a esfera da religião, e a crença, por sua vez, foi consequência da resolução do Complexo de Édipo, isso é, a submissão completa à vontade de Deus Pai.

A apropriação da psicanálise pela publicidade

Posted: 10.6.09 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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No documentário The century of the self, Adam Curtis mostra como as ideias de Freud foram apropriadas por publicitários e governantes, a partir do início do século XX, para controlar as pessoas em uma era chamada de "democracia das massas". Seu trabalho foi ganhador dos prêmios de Melhor Série de Documentário da Broadcast Awards e de Filme Histórico do Ano da Longman\History Today Awards.

Adam nos conta que o indivíduo que começou tudo isso foi Edward Bernays, sobrinho do próprio Freud. Após ler alguns livros do tio, que ainda não era muito conhecido nos EUA, ele teve a "brilhante" idéia de utilizar suas descobertas sobre o inconsciente para controlar as massas. Sem o consentimento do tio, claro.

Um exemplo prático de como se deu essa aplicação da Psicanálise na publicidade nos é fornecido quando estudamos a tática adotada pela indústria tabagista estadounidense no início do século XX para incluir as mulheres entre os seus consumidores. Bernays tentou descobrir por qual razão as mulheres eram resistentes ao cigarro, e o que descobriu foi algo que Freud já havia analisado na seção de "símbolos típicos", no capítulo VI de sua obra "A interpretação dos sonhos": o cigarro é um símbolo inconsciente do pênis, do poder masculino.

Bernays, então, para mudar essa imagem através da publicidade, efetuou uma associação do cigarro a um desafio feminino do poder masculino, ao mostrar mulheres independentes e "poderosas" fumando. A partir disso mulheres fumantes se tornaram parte do mercado consumidor de tabaco, um fenômeno de massas.

Um outro exemplo é quando apareceram os primeiros bolos de caixinha, aqueles semi-prontos. As mulheres se mostraram inicialmente resistentes ao produto, e pesquisas demonstraram que isso era devido a um senso de culpa que elas sentiam devido às idéias de facilidade e conveniência (lembre-se de que estamos no início do século XX). Para remover essa barreira de "culpa", a estratégia foi dar às donas de casa um senso de participação na confecção do bolo. As campanhas publicitárias então passaram a mostrar as mulheres participando de todo o processo, e como consequência, as vendas triunfaram.

Da sociedade de massas à sociedade do self

No início do século XX ainda havia por parte dos indivíduos algum senso de pertencimento a uma sociedade, a um organismo maior, ou mais especificamente, de ser parte de uma "massa". Essa concepção, no entanto, começou a ser questionada a partir da década de 60, nos EUA, principalmente pelo movimento estudantil, o qual também acusava as corporações de manipular as pessoas. Herbert Marcuse, filósofo com alguma habilitação psicanalítica, afirmava que a Psicanálise estava sendo utilizada para os propósitos errados. Como resultado de vários movimentos dessa época, dentro de algum tempo as pessoas começaram a se considerar únicas, distintas da massa. Não havia mais propriamente aquele senso de "sociedade", a qual agora parecia ter se tornado apenas um "bando de indivíduos juntos".

Como a publicidade passou a não mais ter apelo para a maioria das pessoas pelo fato de até então o foco ter sido sobre as massas, das quais os indivíduos passaram a não mais se considerar parte e a se afastar, a tática publicitária agora foi tirar proveito da situação: "se o indivíduo quer ser único, então vamos lhe vender a sua individualidade. Ele poderá comprá-la de nós."

Com esse novo individualismo, as pessoas não eram mais classificadas por classes sociais, mas por "estilo de vida". A partir disso se firmou a noção de que as pessoas poderiam "comprar uma identidade". As empresas finalmente perceberam que era do seu interesse incentivar cada pessoa a se sentir "única".

Dezenas das peças publicitárias que nos bombardeiam a todo instante são dessa espécie. Prometem unicidade e individualidade tão somente o produto anunciado seja consumido. E as associações dos produtos com as reais necessidades das pessoas também continuam. Produtos são associados ao amor, à vida familiar, à liberdade, a ideais nobres, etc, quando na verdade eles nada têm a ver com isso.

Mas a sujeira não acaba por aí. As indústrias frequentemente precisam, pela própria lógica interna do capitalismo, criar e vender coisas que as pessoas não precisam. Então a publicidade diz para o indivíduo: "Você precisa disso", o indivíduo acredita e acaba comprando.

O consumidor sente apenas que quer comprar, e isso é verdade: ele realmente quer. Mas o que lhe escapa à compreensão é que esse desejo foi criado pela ação publicitária. Muita gente pode precisar de um telefone celular, mas quem realmente precisa de um telefone celular novo a cada ano? As pessoas quase sempre se convencem (isso é, são convencidas) de que precisam consumir isto ou aquilo, e acham que estão agindo livremente.

Assim como Santos Dummont e Einstein desaprovaram completamente a utilização de suas descobertas e invenções nas guerras, Freud também não aprovou o uso da psicanálise pela indústria. Mas assim como uma faca pode cortar um pão ou matar uma pessoa, a psicanálise, inicialmente um método terapêutico para cura da histeria e das neuroses, se tornou uma arma nas mãos de políticos e capitalistas.

Moralidade sem Deus é possível?

Posted: 29.5.09 by Glauber Ataide in Marcadores: , , , ,
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Uma determinada ação é imoral porque Deus a proíbe? Ou Deus a proíbe porque ela é imoral?  Algumas pessoas afirmam que a moralidade depende totalmente da religião ou da idéia de Deus, e que é impossível ser moral sem fazer referência a esses conceitos. Mas vamos pensar um pouco sobre isso. 

Se Deus lhe ordenasse matar uma pessoa inocente, essa ação seria moral ou não? Ao esboçarmos uma resposta para a questão, acabamos encontrando a forma positiva da pergunta com que iniciamos este texto: Deus ordena algo porque é moral, ou algo é moral simplesmente porque Deus ordena?

Com frequência argumenta-se que sem um referencial absoluto como Deus, a moralidade se torna relativa, pois qualquer moralidade é moralidade de alguém, e não há razão para um determinado grupo se submeter à moralidade de outro a não ser pela força ou pela utilidade.

Mas a ausência de uma moralidade absoluta não significa necessariamente a ausência de qualquer moralidade. Observamos no homem uma moralidade intrínseca, por exemplo, quando os próprios religiosos avaliam a religião. Quando questionados sobre os terríveis atos cometidos em nome da religião por seus correligionários fanáticos e extremistas, muitos religiosos argumentam dizendo que a verdadeira religião não é aquilo perpetrado por seus companheiros, e que tais atos são um desvio daquilo que deveria ser. Mas notemos que ao responder assim, esses religiosos estão utilizando a moral para julgar a religião, ao invés de usar a religião para estabelecer a moral.

Mas os religiosos poderiam argumentar: de onde surgiu então o senso moral, o sentimento de culpa, se não foram impostos no homem por Deus? Quanto a isso, a explicação freudiana do superego como instância psíquica responsável por nosso senso ético, formada pela introjeção do pai repressor é uma explicação plausível e que, baseada num princípio de economia como a navalha de Ockham, explica melhor a questão por não postular a existência de entes desnecessários.

A moral niilista pode certamente encontrar sérias incoerências ao tentar se estabelecer por carecer de fundamentos sólidos e absolutos. Mas a ausência de Deus ou da religião, a meu ver, não implica necessariamente em pura imoralidade.

A realidade psicótica de Hellraiser

Posted: 18.3.09 by Glauber Ataide in Marcadores:
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A série de filmes Hellraiser, baseada na obra The hellbound heart, de Clive Barker, possui algumas características que lhe conferem, a meu ver, um status especial entre as obras do gênero do horror. Apesar de obras clássicas como O exorcista e Sexta-feira 13 constarem no topo da minha lista de favoritos, há algo peculiar, distinto até, na série protagonizada por Pinhead.

Basicamente, a história gira em torno de uma caixa, que às vezes é chamada de "a caixa das lamentações". Essa caixa, quando aberta, liberta seres chamados "Cenobitas", que, segundo definição de seu líder (Pinhead), são "exploradores das regiões profundas da experiência. Anjos para alguns, demônios para outros". Os cenobitas são criaturas horrendas que dominam com excelência as artes da crueldade e da tortura.

Mas o fato principal sobre essa caixa é que ela é aberta por aqueles que desejam ultrapassar os limites da experiência sensória na busca do prazer. A promessa é de que essa caixa forneça a todos aqueles a quem nenhum prazer mais satisfaz nesta terra um outro prazer tal que os sentidos nunca poderiam alcançar. Uma cena que ilustra isso no livro é quando Frank Cotton, ao abrir a caixa, percebe que seus sentidos, tais como audição e visão, são levados a um máximo de definição. No entanto, isso lhe traz uma dor intensa que ele não esperava encontrar.

Enfim, o que é importante saber sobre a caixa é que ela é um portal para a realidade dos cenobitas, mas não é a sua simples manipulação o que os traz a essa realidade, mas sim a questão do desejo. Isso foi deixado explícito no segundo filme da série, quando um psiquiatra, chamado Dr. Channard, se utiliza de uma criança problemática internata de seu hospital, cuja obsessão era resolver jogos de enigmas, para abrí-la. Ele lhe dá a caixa e fica a observar, através de um vidro em outro cômodo, o que acontecerá quando a caixa for aberta. Mas quando os cenobitas aparecem, Pinhead impede que seus companheiros a destruam, dizendo-lhes: "Não são mãos o que nos reúne, mas desejo." Assim eles deixam a criança de lado para buscar o Dr. Channard.

É a abertura da caixa o que confere a "Hellraiser" o efeito psicótico da série. Segundo Stefan Gullatz, no artigo "Exquisite Ex-timacy: Jacques Lacan vis-à-vis Contemporary Horror", isso acontece quando os cenobitas invadem a realidade comum, de forma que as fronteiras entre as duas dimensões se tornam indefinidas. Enquanto a aparência dos cenobitas é em si mesma horrorizante, o ponto crucial é a insuportável incerteza por parte do expectador quanto à "localização" da ação. O movimento fluído e imprevisível entre as dimensões claramente subjaz ao extraordinário poder e tensão dramática do filme. Mais ao final, parece que a realidade dos cenobitas permeia todas as coisas, que a realidade comum foi "engolida" por eles. E seria essa quebra de fronteiras, essa dissolução do limite da realidade, segundo Gullatz, a responsável pelo "efeito psicótico" da série.

Além disso, muitos outros aspectos presentes na série podem ser objetos de investigações psicanalíticas. Uma interessante observação sobre os cenobitas é que a palavra "cenobita" designa um indivíduo que é parte de uma ordem religiosa, um monge que leva uma vida retirada. De fato, no livro que deu origem à série, os cenobitas são chamados até mesmo de "teólogos", e sons de sinos sempre precedem suas aparições.


Outros fatores característicos da série que eu gostaria de ver analisados são os seus componentes sado-masoquistas. De fato, em alguns trechos tanto do livro quanto dos filmes parece que os cenobitas não sabem a diferença entre prazer e dor. Na verdade, eles são masoquistas porque encontram prazer através da própria dor, e sádicos porque também encontram prazer na dor que inflingem a quem abre a caixa. A própria caracterização desses personagens deixa isso claro: Pinhead, o líder, tem a cabeça perfurada por pregos até o crânio, e sua roupa se mistura à sua carne. O cenobita gordo, presente nos primeiros filmes, tem a boca costurada e o estômago aberto, como que tendo acesso à própria comida com as mãos, deixando subtender que seu principal prazer é a glutonaria, a qual é, no entanto, impedida por sua boca costurada.

Podemos também citar como característico dessa série o fato de que Pinhead e os cenobitas não são "serial killers" como o Jason, por exemplo. Pinhead é alguém com quem se pode conversar, e até mesmo barganhar. No primeiro filme, Kirsty, a protagonista que abre a caixa, consegue se livrar dos cenobitas ao conversar com eles e oferecer seu tio, Frank Cotton, em seu lugar, pois ele havia conseguido fugir dos cenobitas. E ela faz isso novamente no sexto filme da série, "Hellraiser - Caçador do Inferno" (ou "Hellseeker", no original), quando promete a Pinhead cinco almas em seu lugar.

E Pinhead também é célebre por suas frases de grande força poética e profundidade quase que filosófica ao conversar com seus interlocutores. Podemos evocar, para citar alguns exemplos, a cena do primeiro filme em que Kirsty, em desespero na presença dos cenobitas, chora de medo e pavor, quando Pinhead lhe diz: "No tears, please. It's a waste of good suffering." (literalmente, "Sem lágrimas, por favor. É um desperdício de bom sofrimento."). No final desse mesmo filme, ao que Kirsty tenta fugir dos cenobitas que lhe perseguem em sua casa que está sendo destruída em chamas, Pinhead diz: "We have such sights to show you!" (literalmente, "Nós temos tantas visões pra lhe mostrar!"). E no quinto filme da série, Pinhead discursa sobre a humanidade: "Ah, the eternal refrain of humanity. Pleading ignorance, begging for mercy. 'Please, help me. I don't understand.'" (literalmente, "Ah, a sina eterna da humanidade. Alegando ignorância, suplicando misericória. 'Por favor, me ajude. Eu não compreendo.').

São, enfim, inúmeros elementos que fazem de "Hellraiser" uma série que lhe confere um status especial entre os filmes de terror. Sua principal característica é o "efeito psicótico" causado pela indefinição entre as fronteiras do mundo real e a dimensão dos cenobitas. Podemos citar ainda os componentes sado-masoquistas, o significado "religioso" do termo "cenobita" e a questão do desejo, que torna um inferno a vida daqueles que buscam extrapolar os limites da experiência na busca do prazer.


REFERÊNCIAS:

GULLATZ, Stefan. Exquisite Ex-timacy: Jacques Lacan vis-à-vis Contemporary Horror. Disponível em <http://epe.lac-bac.gc.ca/100/201/300/offscreen/2005/complete_site_mar_16_2005/www.horschamp.qc.ca/new_offscreen/lacan.html>. Acesso em 17 mar. 2008.

A psicanálise dos contos de fadas

Posted: 31.1.09 by Glauber Ataide in Marcadores:
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As histórias de contos de fadas são muito mais importantes para o desenvolvimento das crianças do que se pode supor por mera intuição. Ao mesmo tempo em que as divertem, os contos também as esclarecem sobre si próprias e favorecem o desenvolvimento de sua personalidade.

Longe de serem apenas histórias "inocentes", elas são autênticas obras de arte, com profundos significados psicológicos. Muitos desses contos são analisados na obra A psicanálise dos contos de fadas, de Bruno Bettelheim. 

Nesta obra o autor demonstra que para dominar problemas psicológicos do crescimento, tais como decepções narcisistas, dilemas edipianos, rivalidades fraternas, etc., a criança precisa entender o que está se passando dentro de seu eu consciente para que também possa enfrentar o que se passa em seu inconsciente. Isso, no entanto, não é alcançado através de uma compreensão racional, mas sim através de devaneios, de fantasias.

Tanto na criança quanto no adulto, se o inconsciente é recalcado e nega-lhe passagem à consciência, a mente consciente da pessoa sofrerá intervenções de derivativos desses elementos inconscientes, que tentarão a todo custo se tornar conscientes. Mas quando esse material tem, até certo ponto, permissão de emergir ao nível de consciência e ser trabalhado pela imaginação, seus danos potenciais ficam muito reduzidos, e podem até ser colocados a serviço de propósitos positivos (sublimação).

Por mostrarem também o lado perigoso da vida, os contos de fadas são muito mais realistas do que determinadas histórias modernas para crianças. Alguns pais pensam que apenas imagens positivas devem ser mostradas às crianças, como se a vida fosse apenas flores. Mas a criança já sabe que as coisas não são assim. A criança sente seus impulsos agressivos, seus desejos de destruição dos pais ou dos irmãos, por exemplo. Elas sabem que não são sempre boas, e se os pais insistem em não lhes revelar como as coisas realmente são, isso "torna a criança um monstro a seus próprios olhos." 

As histórias chamadas "seguras" procuram evitar problemas existenciais e não mencionam nem a morte e nem o envelhecimento. O conto de fadas, ao contrário, "conforta a criança honestamente com as dificuldades humanas básicas." Muitas histórias começam com a morte da mãe ou do pai, o que cria problemas angustiantes para os personagens, da mesma forma que o simples temor de perder seus genitores angustia a criança na vida real. 

Outras importantes características dos contos de fadas é que neles o mal é sedutor, atraente (como a rainha em Branca de neve ou o lobo em Chapeuzinho vermelho), e que as personagens não são ambivalentes, isso é, boas e más ao mesmo tempo. Nos contos o que predomina é a polarização, assim como acontece na mente da criança. 

A polarização significa que não existem personagens que sejam bons e maus ao mesmo tempo, mas sim que eles são ou bons ou maus. A criança não teria maturidade ou capacidade suficiente para discernir o caráter de um personagem que fosse ambivalente. Além disso, ela vê dessa forma (polarizada) os seus próprios pais. Ela não pensa que aquela mãe que sempre satisfez os seus desejos quase que imediatamente através do efeito mágico do seu choro, quando mais nova, seja a mesma que agora está lhe fazendo exigências e não lhe atende em todos os seus pedidos, à medida que cresce. Nos contos essa polarização da mãe, por exemplo, aparece representada no par bruxa (madrasta)\mãe boa. A bruxa é a parte da mãe que lhe faz exigências ou representa uma ameaça, e a mãe boa é aquela que satisfaz os seus desejos a todo instante e lhe oferece conforto e proteção.

Uma das mais importantes características dos contos de fadas é que eles oferecem esperança às crianças. Contos morais, como fábulas, por exemplo, são mais adequados aos adultos do que aos pequeninos. Apesar de seu inegável valor pedagógico, contos como A cigarra e a formiga, por exemplo, ensinam o que é correto, mas não oferecem esperança de que se possa reparar os próprios erros. Nesta fábula a cigarra simplesmente fica do lado de fora da casa das formigas como punição por sua atitude inconseqüente no inverno. Os contos de fadas, por outro lado, sempre mostram que é possível tentar novamente e acertar da próxima vez.

Cada história é apropriada a uma fase de desenvolvimento específico da criança, e ela irá se identificar com aquela que naquele momento lhe fala diretamente ao inconsciente e lhe auxilia a solucionar os problemas de crescimento pelos quais está passando.

Contos como João e Maria, por exemplo, retratam o empenho das crianças em se agarrar aos pais, quando chegou o momento de encararem o mundo por si mesmas, e de como lidar com a voracidade oral (eles comem a casa de broa da bruxa). Chapeuzinho vermelho já apresenta alguns problemas de João e Maria como solucionados (Chapeuzinho leva a cesta de comida para sua avó e não se sente tentada a devorá-la, o que aconteceria com João e Maria), mas apresenta outros problemas peculiares a uma fase posterior de desenvolvimento, como a curiosidade sexual representada pela cena dela na cama com o lobo. (A ilustração no início deste texto é de Gustave Doré, e representa essa cena. Note a expressão facial de Chapeuzinho Vermelho, fascinada pela curiosidade, e de como ela nem se aproxima e nem se afasta do lobo ao seu lado na cama).

A história dos Três Porquinhos trata principalmente da questão “princípio de prazer versus princípio de realidade”. Ele ensina às crianças que elas não devem ser preguiçosas e fazer as coisas de qualquer maneira, pois isso pode levá-las a perecer. As casas dos três porquinhos e suas ações simbolizam o progresso do homem na história (palha, madeira e tijolos) e, psicanaliticamente, o progresso da personalidade dominada pelo id (princípio de prazer) para a personalidade influenciada pelo superego (mas essencialmente controlada pelo ego). O primeiro porquinho faz sua casa rapidamente porque quer mais tempo para brincar, quer prazer imediato (id, princípio de prazer). O segundo constrói uma casa mais elaborada, mas também de forma imprudente, porque não consegue dominar completamente o princípio de prazer. Somente o terceiro porquinho, já suficientemente maduro e regido pelo princípio de realidade, sabe adiar o momento de satisfação e despende um tempo maior para a construção de uma casa mais resistente e que lhe salvará a vida.

Em Cinderela temos representações de problemas da rivalidade fraterna (sendo Cinderela sempre maltratada e humilhada pelas irmãs mais velhas) e também de problemas edipianos. A situação de Cinderela de cair nas mãos da madrasta e passar por tudo que passou não é bem explicada nas versões da história que temos hoje, mas outras versões antigas difundidas pela Europa, África e Ásia sugerem que o que lhe sobreveio é decorrência de uma situação edipiana. Algumas versões relatam que ela fugia de um pai que queria se casar com ela. Outras contam que ela é exilada por um pai que a pune porque ela não lhe ama da forma que ele exige, apesar de amá-lo muito. 

Mas um outro tema muito importante dessa história é a angústia de castração, representado pela auto-mutilação das irmãs que tentam calçar o sapato de Cinderela e enganar o príncipe, cortando uma parte do próprio pé para isso (pois o sapatinho não cabe em seus pés, e a madrasta ordena a cada uma delas que corte ou o calcanhar ou o dedinho para tal). O sapatinho de Cinderela é um símbolo inconsciente da vagina, e a cena que representa o príncipe calçando o sapatinho em seu pé é um símbolo inconsciente do ato sexual, assim como o ato dos noivos que trocam alianças no altar numa cerimônia de casamento (o anel representando a vagina, o dedo representando o pênis. Maiores informações sobre esse simbolismo se encontram na obra de Bettelheim.).

A "análise intrusiva" dos atos falhos de uma pessoa

Posted: 30.12.08 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Quando revelamos um conteúdo psíquico a alguém que desejaria mantê-lo recalcado, essa "análise intrusiva" provoca uma violenta reação de seu ego. O indivíduo reage com certa violência, irritação e agressividade devido à derrota que seu mecanismo de defesa percebe que sofreu. Duas situações pelas quais passei, na qual revelei ao agente -  contra a sua vontade - o motivo de seu ato falho, ilustram esta observação feita por Freud em A psicopatologia da vida cotidiana (que também reproduzo mais abaixo).

Mas o que são "atos falhos"?

Os atos falhos são uma "falha evidente de um mecanismo psíquico" (TALLAFERRO, 1996, p. 101), e foram agrupados por Freud em sete tipos: orais, escritos, de falsa leitura e de falsa audição, esquecimento temporal, perdas e atos sintomáticos. Eles são distúrbios temporários de uma função, que em outro momento pode ser perfeita e corretamente desenvolvida (Ibid.). Os exemplos irão esclarecer do que falamos.

Considere que quero sair para fazer uma caminhada e, no caminho, colocar uma carta em uma caixa de correio para ser despachada. Freud afirma que 

não preciso, como indivíduo normal e livre de neuroses, carregá-la na mão por todo o caminho e ficar à cata de uma caixa de correio onde possa jogá-la; pelo contrário, costumo colocá-la no bolso, seguir meu caminho deixando os pensamentos vagarem livremente, e confiar em que uma das primeiras caixas do correio há de chamar minha atenção e fazer com que eu ponha a mão no bolso e retire a carta. A conduta normal frente a uma intenção concebida coincide por completo com o comportamento experimentalmente produzido das pessoas a quem se deu, em hipnose, uma "sugestão pós-hipnótica a longo prazo", como se costuma chamá-la. Esse fenômeno é usualmente descrito da seguinte maneira: a intenção sugerida dormita na pessoa em questão até se aproximar o momento de efetivá-la. É aí que desperta e impele a pessoa para a ação. (FREUD, 2002)

Um ato falho ocorre quando eu saio de casa com esta carta na mão para despachá-la mas percebo que passei por uma caixa de correio e não a deixei lá. Esse esquecimento é um tipo de ato falho.

Os atos falhos ocorrem para evitar o desprazer. Eles são sempre sintomas de algum tipo de conflito psíquico. No caso da carta, o ato de depositá-la na caixa de correios poderia entrar em associação com conteúdos psíquicos que quero manter recalcados. Por essa razão, um mecanismo psíquico atua para que a ação não seja executada, e nesse caso, para que eu esqueça minha intenção de colocar a carta no correio.

Um outro ato falho muito comum é a substituição de nomes, isso é, quando vamos chamar uma pessoa e trocamos seu nome pelo de outra pessoa, por exemplo. Ou então quando esquecemos o nome de uma pessoa. A real motivação da troca de um nome pelo outro ou pelo seu esquecimento pode ser analisada.

Se alguém também afirma: "'Não me peça para fazer isto, tenho certeza de que vou esquecer!'", a realização dessa profecia, segundo Freud (1997), nada tem de místico, pois "quem assim fala sente em si a intenção de não executar o pedido e apenas se recusa a confessá-lo a si mesmo."

Dois exemplos de análises de atos falhos

Afirmamos no início que uma "análise intrusiva", isso é, a interpretação de um ato falho de uma pessoa sem o seu consentimento, pode desencadear uma violenta reação por parte do "analisando". Vou descrever agora dois exemplos.

Minha esposa e eu havíamos adquirido um bem que há muito desejávamos. Estávamos extremamente satisfeitos com nossa conquista, sentimento este não compartilhado por um familiar. Essa insatisfação, no entanto, só viemos a descobrir posteriormente, através da análise do seu discurso. 

Todas as vezes em que este familiar conversava com minha esposa, este falava que deveríamos ter pesquisado mais antes de realizar nossa compra, que não havia sido uma boa opção, que poderíamos ter feito uma melhor escolha sob sua orientação, etc. Após perceber que esse assunto surgia com muita frequência e insistência, comecei a analisar seu discurso e a hipótese que eu queria submeter à prova era de que ele estava insatisfeito com nossa conquista e estava tentando inconscientemente causar desprazer à minha esposa, privar-lhe da satisfação de nossa aquisição. Orientei minha esposa então a expor-lhe minha hipótese (sem lhe dizer que era uma hipótese minha), e para nossa admiração, o que se percebeu foi exatamente uma violenta reação de sua parte. 

Um caso parecido, relatado por Freud em sua obra A psicopatologia da vida cotidiana, foi o que nos fez considerar que nossa análise estava correta:

Em outra ocasião, eu fazia uma visita a uma dama que era tão rica quanto avarenta e tola, e que tinha o costume de dar ao médico a tarefa de elaborar um batalhão de queixas antes de chegar à causa simples de seu estado. Quando entrei, ela estava sentada frente a uma mesinha, ocupada em dispor florins de prata em pequenas pilhas.Ao se levantar, derrubou algumas moedas no chão. Ajudei-a a apanhá-las e, pouco depois, interrompi-a na descrição de suas desgraças e perguntei: "Então seu nobre genro tem-lhe custado tanto dinheiro assim?" Ela respondeu com uma negativa exasperada, mas pouco depois já me narrava a triste história da aflição que lhe causava o esbanjamento de seu genro. Entretanto, é certo que nunca mais mandou me chamar. Não posso afirmar que sempre se façam amigos entre aqueles a quem se informa o sentido de seus atos sintomáticos. (FREUD, 1997, p.115, grifo nosso)

Uma outra situação, com a mesma pessoa, aconteceu em um amigo oculto de natal. No primeiro sorteio, algumas pessoas haviam sorteado a si mesmas, o que exigiu um segundo sorteio, que foi o definitivo. No entanto, no dia de natal, no ato de troca de presentes, percebemos que um mesmo participante recebeu presentes de duas pessoas - isso é, foi "sorteado" duas vezes, o que deixou alguém sem presente. Esse alguém foi eu. E isso foi causa de um extremo mal-estar entre os participantes.

Como havia poucos participantes, foi possível logo descobrir quem foi o responsável pela confusão. Foi novamente o mesmo familiar do primeiro exemplo. Minha hipótese, baseada em todo um histórico que não vou mencionar aqui, foi simples e direta: esse ato falho foi um mecanismo de defesa de seu ego para que ele não tivesse o desprazer de ter que me entregar esse presente. Quando nos encontramos em uma ocasião posterior e pude lhe afirmar diretamente que esse foi o motivo do esquecimento, antes que eu terminasse o meu argumento, ela irrompeu em uma explosão de ira, uma violenta reação a essa "análise intrusiva", e ao tentar negar minha hipótese, acabou revelando mais do que imaginávamos. Mais uma vez tive boas razões, baseado na mesma experiência relatada por Freud, para concluir que minha análise de seu ato falho estava correta. Ele não queria ter me sorteado no amigo oculto, mas sim qualquer outra pessoa. Como isso não aconteceu, seu ato falho, para evitar esse desprazer, fez com que ele se "confundisse" e desse o presente a outro indivíduo qualquer.

REFERÊNCIAS

FREUD, Sigmund. Sobre a psicopatologia da vida cotidiana. In: Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1997.

KEEGAN, Paul. Introduction. In: FREUD, Sigmund. The psychopathology of everyday life. London: Penguin Classics, 2002.

TALLAFERRO, Alberto. Curso básico de Psicanálise [Tradução Álvares Cabral ]. 2.ed. São Paulo: Martins Fontes, 1996.  


A gravata como símbolo do pênis

Posted: 11.8.08 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Algumas peças do vestuário humano são indispensáveis, se considerarmos que sua função básica é proteger o corpo contra os extremos do frio e do calor, assim como encobrir decorosamente algumas de suas partes. Outras peças, no entanto, cumprem apenas funções periféricas, acessórias. Vamos analisar brevemente, de uma perspectiva psicanalítica, o uso de uma dessas peças acessórias: a gravata.

Se considerarmos uma calça, por exemplo, verificamos que ela tanto cumpre a função de proteger o corpo do ambiente externo quanto de encobrir algumas de suas partes. Mas alguns acessórios, mesmo que não cumprindo nenhuma dessas funções básicas, são todavia de grande utilidade, como o cinto, por exemplo. Ele cumpre a função de manter a calça suspensa e rente à cintura, e seria impossível a algumas pessoas usar determinadas calças sem o seu auxílio.

Mas algumas peças acessórias, além de não cumprirem nenhuma das funções básicas do vestuário (justamente por serem acessórias), não têm nem mesmo uma utilidade razoável, justificável. Uma instância que podemos apontar é a gravata.

A gravata é uma tira de tecido, estreita e longa, que é usada em volta do pescoço, e amarrada em nó na parte da frente. Mas que função ela cumpre no vestuário? Certamente ela não protege o corpo dos extremos do frio e do calor, e nem mesmo cumpre uma utilidade justificável, como o cinto, por exemplo. O uso da gravata, na verdade, serve hoje a fins meramente estéticos e simbólicos (apesar de ter sido utilizada inicialmente para enxugar o suor do rosto, função esta que historicamente se perdeu).

Um símbolo, grosso modo, é um tipo de representação que remete a uma outra realidade. Se a gravata é um símbolo, a que realidade ela remete? Ela é um símbolo de que? Com qual finalidade?

Quando falamos em símbolos na Psicanálise, estamos falando de símbolos inconscientes. Esses símbolos se manifestam, por exemplo, na cultura popular, em poemas, em mitos, nas religiões, em músicas e, especialmente, nos sonhos.

Freud, em sua obra "A interpretação dos sonhos", afirma na seção de representação por símbolos, no capítulo VI, que

"Nos sonhos produzidos por homens, a gravata aparece amiúde como símbolo do pênis. Sem dúvida, isso ocorre não apenas porque as gravatas são objetos longos, pendentes e peculiares aos homens, mas também porque podem ser escolhidas de acordo com o gosto - uma liberdade que, no caso do objeto simbolizado, é proibida pela Natureza."
Mais à frente, em uma nota de rodapé, ele ainda registra um sonho de um paciente em que a gravata aparece como símbolo do pênis.

Mas essa escolha não é arbitrária, e há algumas correlações que podemos apontar entre a representação simbólica do uso da gravata e o pênis enquanto encarnação do Falo.

Em primeiro lugar, como já observado anteriormente, a gravata não tem nenhuma função útil na composição do vestuário. Poderíamos muito bem passar sem ela. Dessa forma, sua finalidade é puramente estética e simbólica.

Em segundo lugar, devemos reparar nas ocasiões em que o uso da gravata se faz socialmente desejável ou mesmo imperativo. Os homens usam gravatas quando querem passar uma impressão de autoridade, respeitabilidade, poder, potência, seriedade, confiabilidade, entre outras coisas.

Em terceiro lugar, tanto o pênis quanto a gravata são objetos que ficam pendurados na parte frontal do corpo masculino. Mas enquanto o pênis é dependurado um pouco abaixo da cintura, a gravata fica dependurada no pescoço. Se a grava fosse usada na altura da cintura, sua semelhança com o pênis ficaria de tal forma evidente que qualquer um reconheceria sua finalidade simbólica. No entanto, ocorre um deslocamento de seu local de uso.

Em quarto lugar, quando nos voltamos para o conceito psicanalítico de Falo, percebemos como fica mais clara a correlação simbólica gravata-pênis.

David E. Zimerman, em sua obra Fundamentos Psicanalíticos, afirma ser "... o falo, na antiguidade greco-romana, a representação simbólica do poder, concentrada no órgão anatômico pênis...".

O psicanalista J. -D. Nasio aponta nessa mesma direção na obra "Édipo - o complexo do qual nenhuma criança escapa", quando afirma ser o pênis uma encarnação do "símbolo de potência" do Falo.

O Falo não é uma simples representação peniana. Ele é símbolo de poder, de potência, ou ainda mais: de onipotência. Assim sendo, o pênis, enquanto que uma encarnação, uma representação simbólica do Falo, é uma representação de força, de poder, de autoridade.

A partir disso podemos compreender que a gravata, pelo fato de ser utilizada em determinadas ocasiões e visando causar determinadas impressões (de autoridade, respeito, força, etc.), que são as mesmas simbolizadas pelo Falo, é uma representação de sua encarnação, a saber, do pênis.

De outra forma, podemos dizer que os homens, por não poderem exibir socialmente seus próprios órgãos genitais, elegem de forma inconsciente um substituto simbólico, em dimensões ampliadas, quando querem demonstrar possuir as características fálicas (de poder, potência, etc.) encarnadas pelo pênis.

Freud e a interpretação dos sonhos na psicanálise

Posted: 28.7.08 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Os sonhos são uma construção psíquica, e como tal, são passíveis de interpretação. Sigmund Freud, em sua obra “A interpretação dos sonhos”, de 1900, se propõe a apresentar provas de que “existe uma técnica psicológica que torna possível interpretar os sonhos, e que, quando esse procedimento é empregado, todo sonho se revela como uma estrutura psíquica que tem um sentido e pode ser inserida num ponto designável nas atividades mentais da vida de vigília”. Veremos então, de forma resumida e com preocupações meramente didáticas (evitando propositalmente termos técnicos, mesmo que isso possa nos comprometer), em que consiste essa técnica psicanalítica, assim como o processo de formação dos sonhos.

Freud afirma que todo sonho é a realização de um desejo. Essa afirmação encontra franca verificação em sonhos estimulados principalmente de fontes somáticas, como, por exemplo, um sonho em que o indivíduo se vê bebendo água, quando, na verdade, sua sede é oriunda da vida real. No entanto, a afirmação de Freud vai mais além: ele diz que não apenas esse tipo de sonho é a realização de um desejo, mas sim que todo e qualquer sonho o é. Neste ponto, perguntamos: e quanto àqueles sonhos que nos causam angústia e sofrimento, como sonhos em que somos perseguidos e não conseguimos correr, ou nos quais pessoas que amamos aparecem mortas? Mesmo nesses casos, afirma Freud, o sonho é a realização de um desejo inconsciente. Mas para que possamos compreender essa afirmação, devemos prosseguir e estabelecer uma distinção entre dois conceitos cruciais na interpretação dos sonhos: o de conteúdo latente e o de conteúdo manifesto.

O conteúdo latente é o material de onde se originam os sonhos. Eles são, por assim dizer, a “matéria-prima” utilizada para a sua formação, sendo também chamado de “pensamentos do sonho”. Já o conteúdo manifesto, grosso modo, é aquilo que literalmente sonhamos – é aquilo de que nos lembramos sobre o sonho quando acordamos. Quando relatamos nossos sonhos para alguém, por exemplo, o que estamos expondo é o conteúdo manifesto. De uma outra maneira, podemos dizer que o conteúdo latente é o sonho em si, enquanto que o conteúdo manifesto é a sua aparência.

Estabelecida essa distinção, estamos em uma posição mais confortável para refazer a afirmação de que todo e qualquer sonho é a realização de um desejo. Na verdade, os desejos que são realizados por um sonho não se encontram no conteúdo manifesto, mas sim no conteúdo latente – e esse conteúdo só pode ser conhecido depois do trabalho de interpretação. E isso pela razão que se segue.

A formação dos sonhos se dá através de um trabalho de transformação do conteúdo latente em conteúdo manifesto. O conteúdo latente apresenta toda sorte de desejos que não estamos dispostos a admitir para nós mesmos que possuímos, como desejos sexuais impróprios, desejos de agressão, de vingança, e o que mais pudermos imaginar. Esses desejos também se encontram presentes em nosso estado de vigília (quando estamos acordados), mas são, no entanto, reprimidos neste estado.

O que acontece durante o sono é que esses mesmos desejos inconscientes tentam subir ao nível de consciência com o intuito de alcançar gratificação, já que nosso aparelho psíquico se encontra com uma menor força de resistência. No entanto, uma resistência ainda se encontra presente para fazer oposição a esse conteúdo. Essa resistência, chamada censor, aplica então um processo de transformação neste conteúdo latente de forma que o seu resultado final seja aceitável para o ego do indivíduo, fazendo com que, dependendo da intensidade do trabalho de elaboração, seu resultado final (conteúdo manifesto) seja irreconhecível em comparação com o material disponível (conteúdo latente). É por essa razão que sonhos de angústia ou aflição, por exemplo, são também realização de desejo: é que o desejo realizado se encontra no conteúdo latente, que deve ser descoberto através da análise, e não no conteúdo manifesto, que lembramos como angustiante. É do conteúdo latente que iremos extrair o significado do sonho, e não do conteúdo manifesto. Nas palavras de Freud:

"Os pensamentos do sonho e o conteúdo do sonho nos são apresentados como duas versões do mesmo assunto em duas linguagens diferentes. Ou, mais apropriadamente, o conteúdo do sonho é como uma transcrição dos pensamentos oníricos em outro modo de expressão cujos caracteres e leis sintáticas é nossa tarefa descobrir, comparando o original e a tradução."

Esse trabalho de transcrição é efetuado através de algumas técnicas utilizadas pelo trabalho do sonho. Uma delas é o trabalho de condensação. Os nossos sonhos, da forma como deles nos lembramos (conteúdo manifesto), são extremamente resumidos se comparados com os pensamentos oníricos dos quais se originaram (conteúdo latente). Cada elemento presente no conteúdo manifesto (como um determinado objeto ou uma pessoa) geralmente tem um amplo conjunto de pensamentos oníricos sendo representados através dele. O trabalho de condensação ocorre, por exemplo, em sonhos nos quais uma pessoa que conhecemos aparece no corpo de uma outra pessoa. Na verdade, isso acontece porque as duas pessoas estão presentes no conteúdo latente, mas foram representadas através de uma única pessoa no conteúdo manifesto, devido ao trabalho de condensação que as unificou, identificando uma característica comum entre as duas.

O processo de formação dos sonhos também emprega o trabalho de deslocamento, que consiste, entre outras coisas, em inverter a intensidade psíquica de alguns elementos do sonho. Alguns elementos que são essenciais no conteúdo latente, carregados de intenso interesse, são tratados no conteúdo manifesto como sendo de menor importância. Há um deslocamento do grau de importância do conteúdo. Elementos centrais no conteúdo latente são despojados de seu valor psíquico e tranferidos para o conteúdo manifesto apenas como objetos periféricos, sem importância. Esse processo é um dos responsáveis pela grande diferença entre os conteúdos latente e manifesto.

Além disso, devemos considerar que o sonho não tem à sua disposição meios para representar relações lógicas entre os pensamentos dos sonhos, sendo que a restauração dessa junções destruídas pelo trabalho do sonho devem ser reconstruídas no processo de interpretação. Um exemplo é o de ligação lógica pela simultaneidade no tempo. "Nesse aspecto", afirma Freud, os sonhos "agem como o pintor que, num quadro da Escola de Atenas ou do Parnaso, representa num único grupo todos os filósofos ou todos os poetas. É verdade que, de fato, eles nunca se reuniram num único salão ou num único cume de montanha, mas certamente formam um grupo no sentido conceitual."

Um outro exemplo de reprodução de relações lógicas em um sonho é na relação de causalidade, que é representada no sonho por dois tipos de seqüência temporal: num deles, por uma seqüência de sonhos e, no outro, pela transformação direta de uma imagem em outra. Podemos citar como exemplo um sonho que nos foi relatado por uma determinada pessoa, em que ela estava em um barco, com os remos nas mãos, quando estes se transformaram em serpentes. Isso significa que há uma relação de causalidade entre os dois elementos no conteúdo latente.

A forma de representação mais conhecida dos sonhos é, sem sombra de dúvidas, a de representação por símbolos. Desde a antiguidade o homem tem tentado decifrar os significados dos sonhos se utilizando principalmente deste método (como o caso bíblico de José interpretando o sonho do Faraó, por exemplo). Mas a interpretação por símbolos, na Psicanálise, ocupa um papel apenas secundário: os símbolos devem ser utilizados apenas como um método auxiliar, quando o paciente não conseguir fornecer associações dos elementos de seu sonho. Nas palavras de Freud:

"As duas técnicas de interpretação dos sonhos devem ser complementares uma à outra; mas, tanto na prática como na teoria, o primeiro lugar continua a ser ocupado pelo processo que descrevi inicialmente e que atribui uma importância decisiva aos comentários feitos pelo sonhador, ao passo que a tradução de símbolos, tal como a expliquei, está também a nosso dispor como método auxiliar."

Além disso, Freud ainda ressalva que o simbolismo "não é peculiar aos sonhos, mas característico da representação inconsciente, em particular no povo, e é encontrado no folclore e nos mitos populares, nas lendas, nas expressões idiomáticas, na sabedoria dos provérbios e nos chistes correntes em grau mais completo do que nos sonhos."

Muitos símbolos são considerados universais, e representam quase sempre as mesmas coisas. Freud cita, como exemplo, que o "Imperador e a Imperatriz (ou o Rei e a Rainha) de fato representam, em geral, os pais do sonhador; e o Príncipe ou Princesa representa a própria pessoa que sonha".

O ato de subir e descer escadas ou degraus são representações do ato sexual. Mesas postas para refeição e tábuas representam mulheres. Todo tipo de arma e instrumento, como revólveres, facas, punhais, martelos, etc, é uma representação do órgão sexual masculino. Calvície, queda de cabelos, queda dos dentes e decapitação são alguns símbolos de castração, da mesma forma que lagartos e largartixas, animais cujas caudas voltam a crescer quando arrancadas. Um chapéu é um símbolo de um homem ou de um órgão sexual masculino.

Além do simbolismo, alguns sonhos são considerados "sonhos típicos". Esses sonhos, ao que parece, são aqueles que quase todo mundo tem da mesma forma, e presume-se que tenha o mesmo significado para todos. Entre esses, contam-se aqueles de se estar embaraçosamente despido (ou insuficientemente vestido) em meio a várias pessoas. Esse tipo de sonho, segundo Freud, é um sonho de exibição, um retorno à infância, quando podíamos exibir sem qualquer restrição nossos órgãos sexuais a quem quer que fosse.

Há também aqueles sonhos de morte de pessoas queridas, principalmente de pais e irmãos. No caso dos irmãos, o desejo que o sonho realiza é de que realmente o irmão morto no sonho tivesse morrido na realidade. Mas esse não é um desejo atual. Isso é explicado pelo fato de que os irmãos, quando crianças, devido uma relação por algumas vezes rival e hostil entre si (ocasionada pela busca de atenção dos pais, por exemplo), geralmente desejam que seus irmãos morram. Mas a morte para uma criança não representa o mesmo que para nós, adultos. Para elas, morrer é apenas ir embora. Esse desejo infantil, no entanto, permanece em nosso inconsciente e irrompe, por razões que devem ser analisadas, em nossos sonhos quando adultos, pelo fato de que o conteúdo do inconsciente é indestrutível. Não há tempo e espaço no inconsciente. Nele, não há diferença entre um desejo que lá está a poucos minutos ou a vários anos. Quanto ao desejo infantil de morte dos irmãos, Freud afirma:

"...estar 'morto' significa aproximadamente o mesmo que ter 'ido embora' - ter deixado de incomodar os sobreviventes. A criança não estabelece nenhuma distinção quanto ao modo como essa ausência é provocada: se é devido a uma viagem, a uma demissão, a uma separação ou à morte."

Sonhos com ladrões tentando invadir nossa casa ou um ambiente em que estamos são também originários de reminiscências infantis. Nas análises de Freud, ele descobriu que os ladrões representavam, em todos os casos, o pai do sujeito.

Neste ponto poderia perguntar-se: mas por qual razão esses símbolos representam essas coisas, especificamente? A Psicanálise, neste aspecto, se torna apenas descritiva, como toda e qualquer ciência: os seus achados, baseados sempre na prática clínica e em inumeráveis análises, apenas apontaram para esses resultados. Descobrir, no entanto, a razão das coisas serem dessa ou daquela maneira não é muito diferente do que a Física, por exemplo, tentar descobrir por qual razão a lei da gravidade existe afinal, ao invés de apenas apontar a sua existência e descrevê-la.

Vimos então, de forma resumida, alguns poucos conceitos psicanalíticos freudianos sobre os sonhos e sua interpretação, mas que esperamos que sejam suficientes para direcionar estudos posteriores e aprofundamentos.

Freud explica: por que as mulheres gostam de flores?

Posted: 28.5.08 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Uma interessante possibilidade de explicação da afinidade das mulheres pelas flores, de cunho psicanalítico, foi sugerida por Sigmund Freud. Esse tipo de fenômeno pede por uma explicação que contemple a psique humana em suas profundezas, pelo fato de não ser característico apenas de nossa cultura ou de nossa época. De fato, encontramos registros literários que datam de centenas de anos sobre essa afinidade. Freud, em sua obra "A interpretação dos sonhos", faz um breve comentário sobre o possível significado do ato de troca de flores entre amantes.

Mas antes de proseguir, precisamos compreender algumas coisas sobre simbolismo. Um símbolo, grosso modo, é um tipo de representação que remete a uma outra realidade ou objeto. Os símbolos têm uma constante atuação em nossa vida psíquica, seja em nossos sonhos ou em estado de vigília. Alguns símbolos são considerados universais. Podemos citar, como exemplo, sonhos em que crianças ou pessoas estão saindo da água (mar, piscina, etc). A psicanálise descobriu que este é um símbolo inconsciente que representa parto, nascimento. Um paralelo a isso pode ser encontrado na cultura e na mitologia de diversos povos, que representavam o nascimento de seus deuses em imagens deles saindo da água. Também Moisés, na bíblia, foi retirado das águas. Não se sabe ao certo por qual razão determinados símbolos representam determinadas coisas. Neste aspecto, a psicanálise, como toda e qualquer ciência, se torna apenas descritiva.

Na obra "A interpretação dos sonhos", Freud afirma que

"Os detalhes mais repulsivos e também os mais íntimos da vida sexual podem ser pensados e sonhados em alusões aparentemente inocentes a atividades culinárias; e os sintomas da histeria jamais poderiam ser interpretados se nos esquecêssemos de que o simbolismo sexual pode encontrar seu melhor esconderijo por trás do que é corriqueiro e inconspícuo. Há um sentido sexual válido por trás da intolerância da criança neurótica ao sangue ou à carne crua ou de suas náuseas ante a visão de ovos ou macarrão, e por trás do enorme exagero, nos neuróticos, do natural horror humano às cobras. Sempre que as neuroses se valem de disfarces, estão percorrendo trilhas por onde passou toda a humanidade nas épocas mais remotas da civilização - trilhas de cuja continuada existência em nossos dias, sob o mais diáfano dos véus, encontram-se provas nos usos lingüísticos, nas superstições e nos costumes." (Grifo nosso)

Ao analisar o sonho de uma jovem senhora, no qual aparecia uma mesa com algumas flores em cima, Freud afirmou que as flores são um símbolo muito comum para os órgãos genitais. No sonho em questão, elas representavam exatamente os genitais da senhorita que relatou o sonho, assim como o seu futuro "defloramento", isso é, a perda de sua virgindade, pois ela estava para se casar.

Na análise desse sonho, Freud afirma:

"Assim, o simbolismo das flores, nesse sonho, abrangia a feminilidade virginal, a masculinidade e uma alusão ao defloramento pela violência. Vale a pena salientar, nesse sentido, que o simbolismo sexual das flores, que de fato ocorre muito comumente em outros contextos, simboliza os órgãos sexuais humanos através das flores, que são os órgãos sexuais das plantas. Talvez seja verdade, de modo geral, que as ofertas de flores entre aqueles que se amam tenham esse significado inconsciente."

Como já evidente na última frase deste trecho, podemos conjecturar que o ato de trocar flores tenha um significado inconsciente de entrega dos órgãos sexuais de um amante para o outro. Esse ato pode fazer uma referência, inconsciente, repito, tanto ao ato de cópula como a um ato de fidelidade conjugal, como se aquele que entregasse as flores afirmasse ao que recebe: "aqui estão meus genitais, tome posse deles, eles pertencem apenas a você".

Talvez seja então essa representação simbólica inconsciente do ato sexual e da exclusividade de posse dos genitais do amante o que faz com que as mulheres gostem tanto de receber flores de seus parceiros.