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O anticristo, de Nietzsche - um breve resumo

Posted: 4.6.18 by Glauber Ataide in Marcadores: , ,
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O anticristo, de Friedrich Nietzsche, é uma das obras mais polêmicas e provocativas da história da filosofia. Redigido no verão e outono de 1888, com o filósofo já afetado pela doença que o levaria à morte, o texto teve sua primeira impressão em 1895, com o subtítulo Versuch einer Kritik des Christenthums ("Tentativa de uma crítica do cristianismo").

Segundo Walter A. Kaufmann, após completar Crepúsculo dos ídolos, Nietzsche abandonou os planos de escrever uma obra  intitulada Vontade de potência, decidindo por escrever um livro dividido em quatro partes, chamado Revaloração de todos os valores. A primeira parte foi concluída e recebeu o nome de O anticristo.

O título Der Antichrist é ambíguo, pois o termo "Christ", em alemão, significa tanto "Cristo" quanto "cristão". Num primeiro momento, "Antichrist" evoca a idéia do anticristo do Apocalipse, alcançando o objetivo de Nietzsche de ser tão provocativo quanto possível. Por outro lado, e à luz das passagens 38 e 47 da obra, o título só pode ser significar "O anticristão", o que estaria mais de acordo com o espírito do texto.

A obra é dividida em aforismos, o que confere um estilo mais livre à escrita mas também torna mais difícil a sistematização do texto, seu agrupamento em temas e seu encadeamento lógico. Esta aparente simplicidade da escrita em aforismos é uma das principais razões de Nietzsche ser um dos filósofos mais "acessíveis" e lidos nos círculos de fora da filosofia, e também um dos mais distorcidos e mal-compreendidos.

Entre os principais temas da obra encontra-se a relação entre judaísmo e cristianismo, entendida por Kaufmann como uma reação de Nietzsche ao antisemitismo cada vez mais crescente na Alemanha de seu tempo. Bernhard Förster, casado com sua irmã, por exemplo, afirmava que a brilhante figura do Salvador apareceu entre os judeus porque a luz precisava brilhar na mais depravada de todas as nações. Diante do avanço deste antisemitismo cristão, Nietzsche mostra em O anticristo que o cristianismo não era nada mais que uma continuação do judaísmo.

Crítica aos valores e ressentimento

O repúdio de Nietzsche a Cristo não pode ser entendido sem que se entenda a distinção que ele faz entre o cristianismo contemporâneo e o evangelho original, entre o Jesus de Nazaré e o Jesus de Paulo. Sua crítica ao cristianismo passa pela crítica dos valores, um dos temas que ele já havia trabalhado em obras como Genealogia da moral. Logo no início ele se pergunta: "o que é ruim?", e responde: tudo que se origina da fraqueza. "O que é bom? Tudo o que aumenta no homem o sentimento de poder, a vontade de potência, o poder mesmo".

O cristianismo é a religião do ressentimento, considerado por Nietzsche como o ódio impotente contra aquilo que não se pode ser ou não se pode ter. Em sua Genealogia da moral ele define assim este conceito: "A revolta dos escravos na moral contemporânea começa quando o ressentimento se torna criador e gera valores: ressentimento dos seres aos quais é negada a verdadeira reação, a da ação, e vingança imaginária". A moral cristã, segundo Nietzsche, é fruto do ressentimento, no sentido de ser manifestação do ódio contra os valores da casta superior aristocrática, inacessíveis aos indivíduos inferiores.

Um exemplo do ressentimento na própria bíblia pode ser encontrada no livro de Apocalipse 6:9-11:

"Quando Ele abriu o quinto selo, contemplei debaixo do altar as almas daqueles que haviam sido mortos por causa da Palavra de Deus e do testemunho que proclamaram. Eles exclamavam com grande voz: “Até quando, ó Soberano, santo e verdadeiro, esperarás para julgar os que habitam em toda a terra e vingar o nosso sangue?” Então, para cada um deles foi entregue uma vestidura branca, e foi-lhes orientado que aguardassem ainda um pouco mais, até que se completasse o número dos seus irmãos que, como eles, foram servos e que, da mesma forma, também deveriam ser mortos."

Neste trecho, mesmo estando no céu e diante de Deus, o que as almas cristãs querem é vingança contra aqueles lhes perseguiram e mataram. Para Nietzsche, isso é expressão do ressentimento pois o autor de Apocalipse, incapaz de fazer frente às perseguições na vida real, ameaça seu inimigos com uma vingança imaginária que viria de outro mundo. Seria de se esperar que almas que estivessem experimentando a beatitude no céu e diante do trono de Deus tivessem outras preocupações a não ser "vingar" contra quem está sobre a terra.

Homem moderno e decadência

Nietzsche critica a idéia de que o homem de hoje seria superior aos antigos, que estaria se desenvolvendo para um tipo mais elevado e superando a barbárie. Para o filósofo do martelo, essa idéia de "progresso" é uma idéia moderna, ou seja, uma idéia falsa. Os europeus de hoje, para Nietzsche, estão abaixo dos europeus da renascença em seu valor, pois desenvolvimento, em si, não tem a ver com uma necessidade de elevação, de fortalecimento. Na verdade, é contra o homem verdadeiramente forte - que não é o homem europeu moderno -, que o cristianismo fez uma guerra mortal. É preciso, por isso, não tentar embelezar o cristianismo, pois ele sempre tomou partido por tudo que é fraco.

Tudo o que o homem considera hoje virtuoso, como fruto do "progresso", da "superação da barbárie antiga", não é nada mais que decadência. Nietzsche afirma que o homem é "depravado", mas chama a atenção para o fato de que esta palavra, em sua boca, não é uma acusação moral. Ele explica que um animal, uma raça ou um indivíduo é depravado quando ele perde seus instintos, quando escolhe o que lhe é desvantajoso. A vida, em si, carrega instintos de crescimento, de auto-preservação, de poder, e onde falta a vontade de potência, há decadência. A todos os "altos valores" da humanidade faltam esta vontade.

Um desses "altos valores" seria a compaixão, termo do alemão "Mitleiden".  O prefixo "mit" significa "com", e "Leiden" significa sofrimento, dor. Compaixão, portanto, é "sofrer com", e para Nietzsche, quando alguém tem compaixão, perde força, pois a compaixão multiplica o sofrimento. A compaixão é contra a lei da seleção natural, preserva aquilo que está maduro para a decadência, para a Untergang. Schopenhauer estava certo: através da compaixão a vida é negada. A compaixão é a prática do niilismo, é multiplicadora e conservadora do sofrimento, uma ferramenta para o aumento da decadência. Segundo Nietzsche, a compaixão era uma virtude para Schopenhauer pois ele era inimigo da vida.

Não apenas a compaixão, mas a moral cristã, como um todo, é a moral do ressentimento. O ressentimento é um auto-envenenamento através da vingança inibida, sem força e sem coragem de ser levada a cabo. Nietzsche investiga o estado psicológico por trás das "virtudes" cristãs para mostrar que elas nada mais são que ressentimento, fraqueza, moral de escravo, impotência. O perdão cristão, por exemplo, nada mais é que essa incapacidade de vingança. É por ser fraco e incapaz de vingar que o cristão perdoa.  A doutrina do juízo e a condenação ao inferno mostram que na verdade não existe perdão algum por parte do cristão, mas apenas impotência. Incapazes de se vingar aqui na terra, eles lançam seus inimigos ao inferno numa vida após a morte. Um exemplo citado por Nietzsche vem de um dos principais teólogos da igreja, Tomás de Aquino, que conseguiu captar e resumir como poucos este sentimento cristão: "Beati in regno coelesti, videbunt poenas damnatorum, ut beatitudo illis magis complaceat". ("Os abençoados no reino dos céus verão as penas dos condenados, para que sua beatitude lhes dê maior satisfação"). O sadismo é parte das delícias do paraíso cristão.

Da mesma forma, ser bondoso e gentil quando na verdade alguém é apenas fraco e tímido e não poderia agir de outra maneira; ser humilde quando qualquer outro comportamento teria repercussões desprazerosas; ou ser prestativo quando outro gesto provocaria um chute do senhor ou uma chibatada, tudo isso é apenas moral de escravo, uma transformação do que é necessidade em virtude.

Guerra aos teólogos

Nietzsche afirma que sua crítica é direcionada aos teólogos, ou a tudo que tem sangue de teólogo, como a filosofia alemã. É a este "instinto de teólogo" que ele faz guerra. O que um teólogo considera verdadeiro, isso necessariamente será falso, de modo que tem-se aqui praticamente um critério de verdade: se um teólogo diz que algo é verdadeiro, então é falso; se ele diz que é falso, então é verdadeiro. Para Nietzsche, o teólogo inverte os valores de tal maneira que tudo o que rebaixa a vida e a fere, isso ele chama "verdadeiro", e tudo o que, ao contrário, a afirma, a eleva, a faz triunfar, isso ele considera falso.

Em contraposição aos valores dos teólogos, o que "nós, os espíritos livres, queremos", afirma Nietzsche, é a "transvaloração de todos os valores" ("Umwertung aller Werte"). Os espíritos livres não consideram mais os homens como derivados de um conceito, de um espírito, de uma divindade, mas os colocam novamente entre os animais. No cristianismo, a moral e a religião se afastaram da realidade de tal maneira que todas as suas causas e efeitos são imaginários. Exemplos de causas imaginárias: Deus, alma, espírito, eu, livre arbítrio, etc. Seus efeitos imaginários: pecado, redenção, misericórdia, juízo, etc.

Sacerdotes, padres e pastores

Há uma diferença, para Nietzsche, entre aqueles que são simplesmente cristãos (leigos) e os sacerdotes (onde se incluem os padres, pastores e todos que exercem função de autoridade em uma comunidade religiosa). Todo sacerdote é um cristão, mas nem todo cristão é um sacerdote.

Para o tipo de homem que alcançou o poder no judaísmo e no cristianismo - isso é, a classe sacerdotal -, a decadência é apenas um meio para um fim. Este tipo de homem, segundo Nietzsche, tem um interesse vital em tornar a humanidade doente, em confundir os valores de "bem" e "mal", "verdadeiro" e "falso".

Os sacerdotes do judaísmo, por exemplo, operaram o grande milagre da falsificação, da qual a bíblia é uma evidência documental. Em um grau de desprezo sem paralelos, eles traduziram toda a história de seu povo em termos religiosos, convertendo-a em um mecanismo de salvação no qual todas as ofensas a deus eram punidas e toda devoção recompensada.

Historicamente o sacerdote conseguiu arranjar as coisas de tal maneira que se tornou indispensável. Em todos os grandes eventos naturais da vida, tais como o nascimento, o casamento, a doença, a morte, etc., o "santo parasita" fez sua aparição para desnaturalizá-los - ou, em suas próprias palavras, para "santificá-los". Todo hábito natural, toda instituição natural exigida pelo instinto de vida (o estado, a justiça, etc.) foram espoliados de seu valor e alguns até tornados seu contrário pelo parasitismo dos sacerdotes.

O sacedorte deprecia e desnaturaliza a natureza, e ele só pode existir a este custo. Desobediência a deus significa, na verdade, desobediência ao sacedorte, a qual ele dá o nome de "pecado". Os meios para se reconciliar com deus são os meios fornecidos pelo próprio sacerdote, aqueles que colocam os pecadores sob seu domínio. De um ponto de vista psicológico, a idéia de "pecado" é fundamental a toda sociedade organizada em bases sacerdotais, pois são as únicas armas confiáveis de poder. É necessário que exista pecado, o sacerdote e a igreja têm necessidade do pecado. Quando a bíblia, escrita por sacerdotes, diz que "Deus perdoa aquele que se arrepende", isso quer dizer: "Deus perdoa aquele que se submete ao sacerdote".

Vampiros, parasitas, sangue-sugas pálidas e subterrâneas, devoradores de bifes, caluniadores e envenadores da vida, negadores profissionais: estes são alguns dos adjetivos com os quais Nietzsche caracteriza os sacerdotes. Com suas "santas" e anêmicas idéias sedentas de sangue, esta classe suga todo o sangue, todo o amor, toda a esperança da vida. A cruz se tornou a marca da maior conspiração subterrânea de que já se ouviu, uma conspiração contra toda saúde, beleza, bem-estar, inteligência e bondade de alma - uma conspiração contra a vida em si.

Deus como projeção

Nietzsche tem um conceito de Deus como projeção mas, ao contrário do filósofo alemão Ludwig Feuerbach, para quem Deus era a projeção dos melhores atributos humanos, Deus é, para Nietzsche, a projeção de um povo. Em Feuerbach, a projeção é metafísica, abstrata. Em Nietzsche, a projeção é materialista, histórica.

Um povo que ainda acredita em si tem também seu próprio Deus, projeta nele as condições que o fez estar por cima, seus valores, seu prazer, seu sentimento de potência em um ser ao qual eles possam agradecer. Quem é rico quer doar (abgeben), de modo que um povo orgulhoso precisa de um deus para ofertar, para sacrificar. Tal deus precisa ser capaz de servir e também causar dano, de tanto ser amigo quanto inimigo. Quando analisamos, por exemplo, os deuses dos vikings, fica clara a relação entre o espírito deste povo e seus deuses, de como suas divindades expressavam e legitimavam seus  valores. A história de Israel também será refletida em seu deus, como veremos mais adiante.

A transformação do conceito de Deus

Para Nietzsche, a castração antinatural de deus como apenas "bom" representa a perda da fé de um povo em seu futuro. É um processo que se desencadeia quando se é derrotado, quando os valores da derrota precisam entrar na consciência como condições de preservação.

A história dos judeus deixa isso claro. Quando o povo estava em Canaã, seu deus era forte. Era o Deus que ordenou entrar na terra, matar a todos, inclusive mulheres e crianças, e tomar posse. Muitos séculos depois, quando os judeus se encontravam exilados na Babilônia, houve uma transformação: aquele deus antigo de guerra se tornou em um deus bom, do amor, do perdão.

Nietzsche afirma que não se pode chamar de "evolução" a transformação do deus de Israel no deus cristão. O deus cristão é o deus da decadência, o deus dos fracos que não se reconhecem enquanto fracos, mas que se chamam de "bons".

Aquele que era o deus de um povo (judeu) se tornou o deus universal, cosmopolita. Este deus se tornou o democrata entre os deuses, mas não deixando nunca de ser judeu. Se tornou o deus das esquinas. Seu reino, para Nietzsche, é como um hospital, um reino subterrâneo, um gueto-reino.

Deus como aranha

O conceito cristão de deus foi tão alterado ao longo de toda a história que deus acabou se tornando aranha. Os senhores da metafísica, os filósofos e teólogos, teceram tanto em torno de si que deus se transformou em "ideal", "espírito puro", "coisa em si", sub specie spinozae. Para entender esta curiosa metáfora nietzscheana do deus-aranha, vejamos o trecho no original alemão:

"Der christliche Gottesbegriff — Gott als Krankengott, Gott als Spinne, Gott als Geist — ist einer der korruptesten Gottesbegriffe, die auf Erden erreicht worden sind..."

("O conceito cristão de deus - deus como deus dos doentes, deus como aranha, deus como espírito - é um dos mais corruptos conceitos de deus que já surgiram sobre a terra.")

Como podemos ver destacado em negrito, a palavra alemã para "aranha" é Spinne. No contexto desta passagem Nietzsche está falando sobre a decadência do conceito judaico de Deus, que a ideia de Deus foi se tornando cada vez mais fraca, mais pálida, etérea, até que praticamente se dissolveu, tornando-se "o nada divinizado". Nietzsche afirma que Deus se transformou então em Spinne, em aranha, mas não uma aranha qualquer: ele se tornou uma aranha sub specie Spinozae.

A referência de Nietzsche é ao conceito de Deus desenvolvido pelo filósofo holandês Baruch de Spinoza, que também era judeu. Associa-se geralmente a ele uma espécie de panteísmo, uma identificação de Deus com a natureza, embora esta interpretação seja contestada por alguns estudiosos do filósofo holandês. Dessa forma, Deus, sendo tudo, é ao mesmo tempo nada, pois é  indistinto de qualquer coisa em particular. Como articulou Hegel em sua Ciência da Lógica, "o ser e o nada são o mesmo". O puro ser, a pura abstração, é também o nada.

O deus-aranha de Nietzsche é um deus metafísico, um espírito puro que acabou se tornando "coisa em si". Esta última referência é a Kant, embora seja importante ressaltar que, para o filósofo de Königsberg, Deus não é "coisa em si", mas sim uma "ideia da razão". Para Nietzsche, os metafísicos, ao passar dos séculos, se apropriaram, tornaram-se "senhores" do conceito de Deus e trabalharam tanto nele, "teceram durante tanto tempo em seu redor", que o próprio Deus foi "hipnotizado pelos seus movimentos" e acabou se transformando em uma aranha da espécie Spinozae.

História do cristianismo

Nietzsche analisa o cristianismo como um desenvolvimento do judaísmo, como tendo nascido de seu solo e sendo sua continuação. Para mostrar esta linha de continuidade, ele inicia fazendo alguns apontamentos sobre a história dos judeus, que ele considera como "o povo mais notável da história mundial". Diante da escolha de ser ou não ser, o judeu escolheu ser a qualquer preço, e este preço foi a radical falsificação de toda a natureza, de toda a realidade, tanto do mundo interior quanto do exterior.

A história de Israel seria inestimável enquanto exemplo de história típica de toda desnaturalização dos valores da natureza. No tempo dos reis, Israel estava, em todas as coisas, na posição correta, na relação correta. Seu Javeh era expressão da consciência de potência, a alegria em si. Era o deus da justiça (Gerechtigkeit). Já nos tempos dos profetas, havia esperança de um rei que fosse um bom soldado e um juiz, sobretudo aquele típico profeta (Isaías). Essa esperança não foi realizada, e como o deus antigo não mais podia continuar como era, os judeus "desnaturalizaram" seu conceito. A moral não mais era expressão da vida e condição de crescimento do povo, mas se tornou abstrata, contraditória com a própria vida. O cristianismo surgiu deste solo falso, de uma concepção de Deus que há havia sido desnaturalizada pelos judeus, e deu continuidade à falsificação deste Deus.

Para Nietzsche, a própria palavra "cristianismo" já é um erro - na verdade só houve um cristão, e ele morreu na cruz. O próprio evangelho morreu na cruz, e o que desse momento em diante se chamou de "evangelho" foi, na verdade, o contrário dele, um "disangelho".

Muitos crentes pensam que ser cristão consiste em acreditar em certas doutrinas, em "ter uma fé".  Para Nietzsche, todavia, é um completo nonsense (Unsinn), uma grande bobagem achar que o simples acreditar em uma doutrina na salvação através de Cristo seria aquilo que define (abzeichen) o cristão. Só a prática cristã, uma vida como a vida daquele que morreu na cruz é, de fato, cristã. Para Nietzsche, a vida cristã é um fazer, não uma crença.

Transformar o cristianismo em um Für-wahr-halten, isso é, num "tomar algo como verdadeiro", reduzí-lo a uma pura fenomenalidade de consciência, significa negar o cristianismo. Na verdade, não existe nenhum cristão. O cristão, ou o que tem sido chamado assim nos últimos dois mil anos, é apenas uma auto-incompreensão psicológica.

O que tem sido chamado de "fé" sempre foi apenas um manto, uma cortina atrás da qual os instintos jogaram seu jogo, uma astúcia, uma "esperteza" (Klugheit) cristã. A fé encobre que age-se sempre por instinto. Paulo, por exemplo, queria o poder, e por isso também os meios para isso. Sua finalidade e necessidade eram o poder, mas ele podia usar apenas conceitos, símbolos e doutrinas para tiranizar as massas, e criou algo que mais tarde seria tomada de empréstimo por Mohammed para exercer a tirania sacerdotal: a fé na imortalidade, ou seja, a doutrina do juízo.

O que Paulo levou a cabo com o cinismo lógico de um rabino foi apenas a continuidade do que começou com a morte do redenor. O cristianismo é a arte de mentir santamente ("der Kunst, heilig zu lügen"). O cristão é a ultima ratio da mentira, é três vezes judeu.

Exemplos bíblicos da corrupção cristã

Nietzsche afirma que lê poucos livros com tanta dificuldade quanto os evangelhos. O filósofo do martelo cita diversos trechos bíblicos para mostrar como os ensinamentos de Jesus foram distorcidos já em sua própria redação. Estas passagens mostram o que aquela "gentalha" - isso é, os primeiros cristãos - colocou na boca de seu mestre. Ele chama os trechos abaixo, ironicamente, de "confissões de 'almas belas'".

- "E se alguns vos não receberem e ouvirem, saí dali e sacudi o pó dos vossos pés, em testemunho contra eles. Em verdade vos digo, Sodoma e Gomorra serão no dia de juízo tratadas com menos rigor do que essa cidade" (Mc VI, l 1). 

Comentário de Nietzsche: "Que evangélico!..."

- "E quem escandalizar um destes pequeninos que em mim crêem, seria melhor que lhe pusessem ao pescoço a mó de um moinho e o lançassem ao mar" (Mc IX, 42). 

Comentário de Nietzsche: "Que evangélico!..."

- "E se o teu olho te escandaliza, lança-o fora. Melhor é entrares no reino de Deus com um só olho do que, tendo ambos os olhos, seres lançado no fogo do inferno, onde o seu verme não morre e o fogo não se extingue" (Mc IX, 46 e 47). 

Comentário de Nietzsche: "Não é justamente do olho que se trata..."

- "Em verdade vos digo: há alguns aqui presentes que não morrerão antes de verem chegar o Reino de Deus no seu poder" (Mc IX, 1). 

Comentário de Nietzsche: "Que bem que mente, o leão..."

- "Quem quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Porque..." (Mc VIII, 34)

Comentário de Nietzsche: "(Observação de um psicólogo: a moral cristã encontra-se refutada pelos seus porque; as suas 'razões' refutam – eis o que é cristão)."

- "Não julgueis, para não serdes julgados. Com a medida com que medirdes vos será medido" (Mt VII, 1).

Comentário de Nietzsche: "Que conceito de justiça de um juiz 'íntegro'!..."

- "Porque, se amais os que vos amam, que recompensa tereis disso? Porventura não fazem o mesmo os publicanos? E se saudais só os vossos irmãos, que fazeis nisso de extraordinário? Acaso não o fazem também os publicanos? (Mt V, 46). 

Comentário de Nietzsche: "Princípio de 'amor cristão': quer, ao fim e ao cabo, ser bem pago..."

- "Mas se não perdoardes aos homens as suas ofensas, também o Pai Celeste vos não perdoará as vossas" (Mt VI, 15).

Comentário de Nietzsche: "Muito comprometedor para o 'Pai' mencionado..."

- "Buscai primeiramente o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo" (Mt VI, 33).

Comentário de Nietzsche: "Todas essas coisas, a saber: alimentos, vestuário, todas as necessidades da vida. Um erro, para sem pretensões nos expressarmos... Pouco antes, Deus surge como alfaiate, pelo menos em certos casos..."

- "Alegrai-vos então e exultai: pois vede, será grande no céu a vossa recompensa. Desse modo é que procediam os pais deles com os profetas " (Lc VI, 23).

Comentário de Nietzsche: "Canalha sem vergonha! Compara-se já aos profetas..."

- "Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Ora, se alguém maltrata o templo de Deus, Deus maltratá-lo- á. Porque o templo de Deus é sagrado, e tal templo sois vós" (Paulo, I Cor 3, 16). 

Comentário de Nietzsche: "Não há desprezo bastante para coisas assim..."

- "Acaso não sabeis que os santos julgarão o mundo? E se é por vós que o mundo vai ser julgado, seríeis então ineptos para julgar as coisas mínimas?" (Paulo, I Cor 6, 2).

Comentário de Nietzsche: "Infelizmente, não é apenas o discurso de um louco internado... Este horrível impostor prossegue literalmente: 'Não sabeis que julgaremos os anjos? Quanto mais os bens temporais'!..."

- "Não tornou Deus, por acaso, estulta a sabedoria deste mundo? Efetivamente, já que o mundo, com toda a sua sabedoria, não conheceu Deus nas obras da sabedoria divina, foi por meio da loucura da pregação que aprouve a Deus salvar os crentes. Não foram chamados muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos nobres. Mas, pelo contrário, os que são loucos aos olhos do mundo é que Deus escolheu para confundir os sábios; e os que são fracos perante o mundo é que Deus escolheu para confundir os fortes. E os vis e desprezados pelo mundo é que Deus escolheu: em suma, as coisas que não existem, a fim de reduzir a nada as que existem. Para que nenhuma carne se possa gloriar diante de Deus" (Paulo, I Cor l, 20 ss.). 

Comentário de Nietzsche: "Para compreender esta passagem, um testemunho de primeiríssima ordem para a psicologia de toda a moral tchandala, leia-se o primeiro ensaio da minha Genealogia da Moral: aí realcei pela primeira vez a oposição entre uma moral e uma moral de tchandala, nascida do ressentiment e da vingança impotente. Paulo foi o maior de todos os apóstolos da vingança..."

Nietzsche conclui que é preciso calçar luvas para ler o novo testamento, pois haveria ali apenas maus instintos, e todo e qualquer livro se tornaria limpo após sua leitura. Este deus de Paulo é que Nietzsche nega, usando a fórmula latina deus, qualem Paulus creavit, dei negatio. "Se alguém nos provasse este deus cristão", afirma Nietzsche, "acredtiaríamos ainda menos nele".

A guerra do cristianismo contra a ciência

Uma religião como o cristianismo, que não tem nenhum ponto de contato com a realidade, só poderia ser inimiga mortal da "sabedoria deste mundo", isso é, da ciência. O início da bíblia é claro quanto a isso, quanto ao medo mortal de "deus" diante da ciência. Usamos a palavra "deus" entre aspas pois aqui ela é apenas uma referência aos próprios sacerdotes que escreveram os textos bíblicos. Quando os autores bíblicos escrevem "deus" eles se referem, na verdade, a eles próprios.

Assim teria começado a história da humanidade, segundo os sacerdotes que escreveram a bíblia. O deus antigo, puro espírito, puro sumo sacerdote, andava entediado pelo jardim, e então houve o primeiro erro de deus: ele não achou os animais divertidos (unterhaltend), e decidiu que o homem deveria reinar sobre eles, ao invés de ser apenas mais um entre eles.

Então vem o segundo erro de deus: a mulher. Ela não seria, contudo, um erro qualquer, mas aquele do qual viria o único e verdadeiro pecado: a ciência. Pela mulher o homem conhece a árvore do conhecimento, e deus é tomado de grande medo. O próprio homem se tornou um erro, um rival, pois a ciência iguala o homem a deus. Moral da história: a ciência é o "proibido em si". A ciência é o primeiro pecado, o pecado original. O único mandamento moral do judaísmo e do cristianismo é: "tu não deves conhecer". Todo o resto se segue daí.

Mesmo com medo, deus continua astuto e pensa em como se proteger da ciência. Sua descoberta é compartilhada por todos os tiranos: é necessário expulsar o homem do paraíso, acabar com seu ócio, pois o ócio suscita pensamentos, e pensar é ruim... para os tiranos.

O trabalho do conhecimento, porém, continua fora do paraíso, se eleva ao céu (Torre de Babel), e então o velho deus manda a guerra e separa os povos. Mas a emancipação em relação aos sacerdotes continua mesmo depois disso, e deus toma uma última decisão: é preciso afogar o homem (dilúvio).

Para Nietzsche, o início da bíblia contém toda a psicologia do sacerdote, o qual conhece um único perigo: a ciência, a sabedoria, o conhecimento.

Conclusão: o cristianismo é a doença

Para Nietzsche, ninguém se torna cristão livremente, pois é preciso estar doente o suficiente para isso. Assim, o ideal cristão de ir a todo o mundo e pregar o evangelho é o projeto da igreja de transformar o mundo inteiro em um hospício. Qualquer visita a um hospício irá mostrar que a fé não move montanhas, mas que as coloca onde não existiam.

Em dois mil anos de cristianismo ninguém entendeu suficientemente o símbolo cristão: Deus na cruz. Este símbolo quer dizer que tudo que sofre, tudo que pendura na cruz, é divino. O cristão pensa: "todos nós estamos pendurados na cruz, logo, somos divinos... apenas nós somos divinos!".

O julgamento de Nietzsche é que o cristianismo é a maior corrupção, a maior desgraça que já aconteceu à humanidade. A igreja é o anticristo que perverteu o chamamento original de Cristo a romper com pai e mãe e se tornar perfeito: ela vendeu Cristo a César.

Em um texto anexo a algumas edições de O anticristo, Nietzsche proclama as leis contra o cristianismo. Elas não eram para o seu tempo, mas para futuras gerações. Suas reflexões acerca da morte de Deus já haviam diagnosticado o alvorecer de uma nova era, e Nietzsche sempre se considerava escrevendo para a posteridade. Nas primeiras páginas de O anticristo ele advertia que seu livro pertencia a poucos, e que seus verdadeiros leitores talvez ainda nem tivessem nascido.


Lei contra o cristianismo

Dada no dia da Salvação, primeiro dia do ano Um 
(a 30 de Setembro de 1888 pelo falso calendário)

Guerra de Morte ao Vício:
O Vício é o Cristianismo

Artigo Primeiro - É viciosa qualquer forma de contranatureza. A mais viciosa espécie de homens é o padre: ele ensina a contranatureza. Contra o sacerdote não se usam argumentos, usa-se a prisão.

Artigo Segundo - Toda a participação num ofício divino é um atentado contra a moral pública. Seremos mais implacáveis contra os protestantes do que contra os católicos, mais duros contra os protestantes liberais do que contra um fundamentalista. Quanto mais próximo se está da ciência, maior é o crime de se ser cristão. Por conseguinte, o maior dos criminosos é o filósofo.

Artigo Terceiro - O lugar maldito onde o cristianismo chocou os seus ovos de basilisco* será completamente arrasado e, sendo sobre a Terra o local sacrílego, constituirá motivo de pavor para a posteridade. Nele serão criadas serpentes venenosas.

Artigo Quarto - A pregação da castidade é uma incitação pública ao antinatural. Desprezar a vida sexual, enxovalhá-la com a noção de "impuro", esse é o verdadeiro pecado contra o Espírito Santo da vida.

Artigo Quinto - Comer à mesa com um sacerdote exclui-vos, fazendo-o excomungam-se da proba sociedade. O sacerdote é o nosso tchandala - será proscrito, privado de alimentos, expulso para todo o tipo de deserto.

Artigo Sexto - Dar-se-á à história "sagrada" o nome que ela merece, isto é, história maldita; as palavras "Deus", "Salvador", "Redentor", "Santo" serão usadas como insultos, para com elas execrar os criminosos.

Artigo Sétimo - O resto nasce aqui.


E se organizassem exposições com capas de discos de metal e hard rock?

Posted: 22.11.17 by Glauber Ataide in Marcadores: , ,
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Por AD Luna
ad.luna@gmail.com

Nesses tempos de obscurantismo, fundamentalismos e censura a obras de arte, uma coisa intrigante tem acontecido: a adesão de inúmeros fãs de metal e hard rock a ações conservadoras e reacionárias. Seja em comentários a postagens em redes sociais, em sites especializados ou mesmo em conversas cara a cara, é possível ler ou escutar discursos que tratam da "defesa da família, da moral, dos bons costumes e da religião" (cristã, principalmente).

A situação é curiosa porque, dentro do universo dos estilos citados, não faltam exemplos de expressões de ideias que questionam, ridicularizam, provocam e entram em choque com os valores defendidos por conservadores.

E se neste momento centros culturais e museus, no Brasil, resolvessem realizar exposições com capas polêmicas de discos de metal e hard rock? Como reagiriam os "cidadãos de bem" das guitarras distorcidas, sendo que muitos dos grupos citados abaixo são amados por eles e/ou servem de referência e influência para músicos e bandas do mundo inteiro?

E se políticos da chamada bancada evangélica se derem conta que crianças, pré-adolescentes, adolescentes e jovens têm acesso fácil a tanta safadeza e blasfêmias? Os metaleiros e metaleiras vão ficar do lado da liberdade de expressão ou do espírito repressor de deputados, vereadores, prefeitos e juízes "protetores da decência e da fé cristã"?

Iron Maiden - capa do single Sanctuary

Aqui o Eddie, mascote do grupo, assassina a dama de ferro Margareth Thatcher, ídola de muitos liberais. Maiden terrorista, esquerdopata?




Dio - capa do disco Holy diver

O cantor que passou pelo Rainbow, Black Sabbath e Heaven and Hell (o qual, na verdade, era o Sabbath da era Dio ressurgida, com outro nome) apresenta nesta capa um ser que claramente tenta salvar um sacerdote acorrentado, que parece se afogar em um rio. Exemplo de solidariedade.



Black Sabbath

Sabbath bloody sabbath - Uma legião de demônios e um ratinho atormentam um pobre cidadão. Na cama, o famoso 666, o número da besta do apocalipse, segundo a Bíblia.



Born again - um lindo bebê demoníaco. Quem vai criar e levar o menininho pra ser batizado?



Heaven and Hell - Heaven and hell

Disco do Sabbath "alternativo", com Dio no vocal e Vinnie Appice na bateria.



AC/DC - Highway to hell

O que são esses chifres na cabeça do guitarrista Angus Young? Foi traído pelo seu amor? E o cara que está ao lado direito dele, seria o cantor romântico brasileiro Odair José?



Whitesnake

Essa boquinha da cobra na capa do disco Come an'get it lembrou alguma outra coisa...



Motörhead

Dizem que se a pessoa juntar a capa do álbum Sacrifice, da banda de Lemmy, com a capa do Whitesnake, do cantor David Coverdale, o Fábio Júnior do hard rock, uma nova e terrível criatura poderá surgir.



Fonte das imagens dos discos do Whitesnake e Motörhead: blog Rock Dissidente

Steel Panther - All you can eat

Minha vó super devota católica, já falecida, talvez não curtisse muito essa festinha aí.



Slayer

O curioso no Slayer é que, mesmo com capas como essas, o vocalista e baixista Tom Araya se define como bastante católico. E não é ironia minha. Talvez seja dele...




Mercyful Fate - Não quebre o juramento. O aviso parte esse senhor envolto em chamas. Na contra capa, foto do vocalista King Diamond, o Diamante Rei. Dizem os maledicentes que o "Rei" aí seria Satanás. Mas também pode ser uma alusão a Pelé, o Rei do Futebol.


Celtic Frost - To Mega Therion

Obviamente, H.R. Giger, o autor deste desenho já está condenado às chamas do inferno.


Triptykon - Eparistera daimones

Esta é mais uma obra do artista suíço H.R. Giger (1940 – 2014), responsável pela imagem principal desta matéria. A banda Triptykon também é liderada por Tom Warrior, antigo vocalista da finada Celtic Frost.


Os traços que ilustram essa capa certamente devem chamar atenção de fãs de filmes de ficção científica de terror. Sim, Giger foi o responsável pelo design da famosa criatura de Alien - o oitavo passageiro e suas continuações.

Isso foi apenas uma pequena amostra da enorme quantidade de capas não muito cidadãs de bem que pululam no mundo do metal e hard rock. Mas nenhuma delas é tão assustadora e escandalosa quanto a da dupla de cantores abaixo. Não deixem seus filhos e filhas se encantarem pelo violento som desses malignos.


Ouça o som do Louvin Brothers




Como complemento à matéria acima, aí vão mais algumas capas de discos de metal de causar arrepios à família tradicional e ao cidadão de bem.

Deicide - Scars of the crucifix



Deicide - Serpents of the light



Deicide - Once upon the cross




Rotting Christ - Thy mighty contract



Bathory - Bathory




Bathory - Under the sign of the black mark



Belphegor - Lucifer incestus




Belphegor - The last supper




Samael - Ceremony of opposites



Kreator - At the pulse of Kapitulation




Nietzsche e "Deus como aranha"

Posted: 6.4.17 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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"O conceito cristão de Deus – Deus como Deus dos doentes, Deus como aranha, Deus como espírito – é um dos mais corruptos conceitos de Deus que sobre a Terra se obtiveram: representa até, possivelmente, o mais baixo nível da evolução declinante do tipo divino. Deus degenerado em contradição com a vida, em vez de ser a sua glorificação e o seu eterno sim! Expresso em Deus o ódio à vida, à natureza, à vontade de viver! Deus, a fórmula para toda a difamação do 'aquém', para toda a mentira do 'além'! O nada divinizado em Deus, a vontade do nada santificada!..." (Nietzsche, O Anticristo)

No aforismo XVIII de O anticristo, Nietzsche usa uma imagem peculiar para se referir ao conceito cristão de Deus: a aranha. É uma imagem forte, de impacto, e que em uma primeira leitura de sua obra nos detém por alguns segundos indagando: por que seria Deus uma "aranha"? Qual a relação entre as duas coisas?

O que o filósofo alemão quer expressar com isso se torna mais claro ao lermos o trecho no idioma original da obra e também o último parágrafo do aforismo anterior.

A primeira frase do aforismo com que iniciamos este texto, em alemão, é:

"Der christliche Gottesbegriff — Gott als Krankengott, Gott als Spinne, Gott als Geist — ist einer der korruptesten Gottesbegriffe, die auf Erden erreicht worden sind..."

Como podemos ver destacado em negrito, a palavra alemã para "aranha" é Spinne, e o que Nietzsche está fazendo aqui é um jogo de palavras entre este termo e o nome do filósofo holandês Spinoza.

Esta relação já estava explicitada no último parágrafo do aforismo anterior (17), o qual reproduzimos abaixo:

"Mas o Deus do 'grande número', o democrata entre os deuses, não se tornou todavia um orgulhoso deus pagão: permaneceu judeu, continuou a ser o deus das esquinas, o deus dos recantos e lugares escuros, de todos os bairros insalubres do mundo inteiro!... O seu reino universal é, agora como dantes, um reino de submundo, um hospital, um reino-soutérrain, um reino-gueto... E ele próprio tão pálido, tão fraco, tão décadent... Até os mais pálidos de entre os pálidos dele se tornaram senhores, os senhores metafísicos, os albinos do conceito. Estes teceram durante tanto tempo em seu redor que, hipnotizado pelos seus movimentos, ele próprio se transformou em aranha, ele próprio se tornou metafísico. Então, voltou a desfiar o mundo a partir de si – sub specie Spinozae. Transfigurou-se então em algo cada vez mais ténue, mais pálido, fez-se 'ideal', 'espírito puro', 'absolutum', 'coisa em si'... A ruína de um Deus: Deus tornou-se 'coisa em si'..."

Neste trecho Nietzsche está falando sobre a decadência do conceito judaico de Deus. A ideia de Deus foi se tornando cada vez mais fraca, mais pálida, etérea, até que praticamente se dissolveu, tornando-se "o nada divinizado". Nietzsche afirma que Deus se transformou então em aranha, mas não uma aranha qualquer: ele se tornou uma aranha sub specie Spinozae.

A referência de Nietzsche é ao conceito de Deus desenvolvido pelo filósofo holandês Baruch de Spinoza, que também era judeu. Associa-se geralmente a ele uma espécie de panteísmo, uma identificação de Deus com a natureza, embora esta interpretação seja contestada por alguns estudiosos de Spinoza. Dessa forma, Deus, sendo tudo, é ao mesmo tempo nada, pois é  indistinto de qualquer coisa em particular. Como articulou Hegel em sua Ciência da Lógica, "o ser e o nada são o mesmo". O puro ser, a pura abstração, é também o nada.

O Deus aranha de Nietzsche é um deus metafísico, um espírito puro que acabou se tornando "coisa em si". Esta última referência é a Kant, embora seja importante ressaltar que, para o filósofo de Königsberg, Deus não é "coisa em si", mas sim uma "ideia da razão". Para Nietzsche, os metafísicos, ao passar dos séculos, se apropriaram, tornaram-se "senhores" do conceito de Deus e trabalharam tanto nele, "teceram durante tanto tempo em seu redor", que o próprio Deus foi "hipnotizado pelos seus movimentos" e acabou se transformando em uma aranha da espécie Spinozae.

Nietzsche sobre a vingança cristã - uma breve observação

Posted: 16.2.17 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Nas últimas semanas, relendo o livro de Apocalipse, me foi impossível não levar em conta algumas observações de Nietzsche sobre o cristianismo. Uma passagem que me chamou a atenção foi a seguinte: 

"E, havendo aberto o quinto selo, vi debaixo do altar as almas dos que foram mortos por amor da palavra de Deus e por amor do testemunho que deram. E clamavam com grande voz, dizendo: Até quando, ó verdadeiro e santo Dominador, não julgas e vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a terra?" (Apocalipse 6:9,10)

Destaque para este pedido de "vingança". Vejam bem, não se trata apenas de "justiça", mas a vingança é explicitamente mencionada. Como poderiam estas almas, já no céu e diante do trono de Deus, ainda serem movidas por sentimentos tais como o de vingança? 

Segundo Nietzsche, nada poderia ser mais "unevangelische", ou, traduzindo, "menos evangélico", do que este sentimento de vingança. Na leitura do filósofo alemão, aqui já se manifesta a clivagem entre o espírito dos ensinamentos de Jesus e a religião que se construiu em seu nome, a religião da decadência e do ressentimento.

Vejam este trecho:

"Com a sua morte, Jesus nada mais podia querer do que proporcionar publicamente a prova mais forte, a demonstração da sua doutrina... Mas os seus discípulos estavam longe de perdoar tal morte – o que teria sido evangélico no sentido mais elevado; ou de se oferecer até para uma morte semelhante, em suave e amável tranquilidade do coração... Foi justamente o sentimento menos evangélico, a vingança, que de novo se sobrepôs a tudo. Era impossível que a causa terminasse com esta morte: era necessária uma 'retaliação', um 'juízo' (e, no entanto, que poda haver de mais anti-evangélico do que 'retaliação', 'castigo', 'montar um processo'!). (Nietzsche, "O anticristo")

Esta passagem de Apocalipse que citamos anteriormente não é a única que fala sobre a vingança. Nietzsche parece ter fornecido uma interessante chave hermenêutica para o novo testamento.

A ciência refuta a religião?

Posted: 15.1.17 by Glauber Ataide in Marcadores: , ,
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Certa vez, conversando sobre ciência e religião com alguns rapazes formados na área de exatas, comentei que estudava uma ou outra coisa de teologia, pois achava importante ter uma noção mínima de qualquer assunto sobre o qual se queira tentar construir uma opinião. Um deles me respondeu dizendo que achava que isso não era necessário, pois a ciência já "refutava" a religião. Ou seja, ele quis dizer que em um debate entre duas partes, conhecer apenas uma delas já é suficiente para decidir por sua adesão. O que ele mostrou com isso foi ter uma postura dogmática. Na verdade ele apenas "confia" em um dos lados. Alguns chamam isso de "fé".

Geralmente apenas os religiosos são acusados de dogmatismo, mas isso não é sua exclusividade. Com a vulgarização da ciência e a difusão do fenômeno que Adorno chamou de semiformação (Halbbildung), formou-se uma legião de cruzados da ciência que, do alto de seu dogmatismo, declara guerra profana à religião. Neste aspecto, porém, eles não são melhores que seus adversários.

Para além desta questão propedêutica de honestidade intelectual - comum a qualquer debate -, o que neste em particular chama por atenção reside na própria natureza da discussão. Não nos parece que a ciência "refute" a religião. O que a ciência parece fazer é refutar as pretensões científicas da religião quando esta ultrapassa seus limites e tenta competir com a ciência na explicação do mundo natural.

Nos últimos 5 séculos, com o desenvolvimento da ciência no ocidente, o que se observou foi um recuo progressivo da religião para dentro de seus domínios de direito. A religião tentava dar conta da origem do universo, do homem, das leis morais, etc. Isso é, ela tentava ser uma explicação holística, integrada, de toda a realidade. Com a revolução copernicana, com as leis descobertas por Isaac Newton e principalmente após as descobertas de Darwin, a religião recuou cada vez mais de suas pretensões de cientificidade mas continuou coexistindo - não sem conflitos - lado a lado com a ciência. Esta relação mostra que a ciência não toca no essencial da religião. É por isso que várias denominações cristãs agora admitem, sem nenhum problema, a validade do darwinismo. A seleção natural foi, segundo elas, o mecanismo através do qual Deus trouxe o homem ao mundo. Gênesis não deve ser interpretado literalmente, mas tendo apenas valor teológico. A religião, assim, continua de pé, tendo incorporado agora as mais novas descobertas da ciência.

A ciência trata de fenômenos da experiência, e Deus, o principal objeto da religião, não é dado na experiência. Qual área da ciência poderia dizer qualquer coisa sobre Deus? A física? A química? A biologia? A astronomia? Nenhuma delas. Qual área da ciência poderia "refutar" os principais postulados metafísicos da religião? Ora, se são metafísicos, isso significa que estão além da experiência, e a ciência simplesmente não pode dizer nada sobre o que está além da experiência.

O trabalho de refutação dos postulados metafísicos da religião só pode se dar através de uma crítica da metafísica, e isso é tarefa da filosofia, não da ciência. Ademais, este trabalho só pode ser negativo, já que não é possível provar a inexistência de qualquer coisa. É necessário mostrar, como fez Kant, os limites do que é possível conhecer, a arquitetônica de nossa razão e por que somos levados a formular determinados conceitos devido à estrutura da razão e do entendimento. Por que, por exemplo postulamos o sistema de causa e efeito, por que nossa razão leva necessariamente a uma ideia de absoluto, etc.

A luta entre ciência e religião é como uma luta entre um ser material e um fantasma: as armas da ciência atravessam o espectro da religião sem atingi-la. Aqueles que defendem a "vitória" da ciência sobre a religião ainda não entenderam a natureza do debate, e sua adesão à ciência não é menos dogmática que a de seu oponente à religião.

Glauber Ataide

Buddhism and Modern Science

Posted: 19.2.16 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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It may be embarrassing for scientists to be religious while at the same time coherent with the principles of their profession. Faith rests upon what cannot  be understood or explained - credo, quia absurdum est -, while science demands empirical evidence and logical reasoning. This might not be the case, however, when the “religion” in question is Buddhism. Unlike other religions, even an atheist can be a Buddhist. 

The core of the Buddhist teaching resembles much more a philosophy than a religion. If most people know Buddhism today as a religion, this is due to the fact that after centuries of Buddhist practice, a religion was indeed built upon the original doctrines of Siddhartha Gautama, the Buddha. An examination, however, of the earliest texts of the Buddhist tradition - although written centuries after the death of the Buddha - can offer a glimpse of what Buddhism looked like back then. These teachings reveal that Buddhism was much more a naturalistic than a metaphysical worldview, concerned not with divine entities or with the nature of the soul, for example, but with our feelings and with the human experience hic et nunc. That’s why the core teachings of the Buddhist doctrine have been examined nowadays at the light of modern science and with surprising results: both natural selection and evolutionary psychology lend support to Buddhist ideas about the human predicament and about the human mind.

The most fundamental Buddhist doctrines, the four noble truths, are essentially naturalistic. These truths are not concerned whether there’s a God, whether we have a soul, or whether there’s an afterlife. The Buddhist predicament about the human life arises from the simple observation of the everyday experience: life is suffering, or Dukkha, which can also mean “dissatisfaction”. Our desires never cease, being like a fire that never extinguishes. This is the first noble truth. The second noble truth identifies that the source of suffering is desire - not our parents’ or Adam and Eve’s desire, but our own. The third noble truth points out that it is possible to eliminate suffering by putting an end to desire, and the fourth noble truth proposes the way to do it, a series of practices called "the eightfold path". As we can see, none of the four noble truths states anything about a metaphysical or unseen reality.

As to the second noble truth - that the origin of Dukkha is craving or clinging -, evolutionary psychology lends support to the Buddhist description of the nature of desire and explains why it causes Dukkha. Natural selection has “designed” our species in such a way that our actions are most of the time oriented towards passing our genes to the next generation. In order to accomplish this, the relation between desire and gratification plays an important role. Desire for an object triggers a tension that can be relaxed only when that object is possessed and consumed. This satisfaction, however, does not last long, and desire arises again. This account of the nature of desire by modern psychology is much like the one described by the Buddhist doctrine, and that's why seeking gratification only results in Dukkha

Another philosophical Buddhist doctrine that has gained support from modern psychology is the theory of not-self. According to Buddhism, the self is an illusion, characterized by impermanence and lack of control. Although it is a very counter-intuitive and hard to understand doctrine, psychological experiments of the second half of the twentieth century suggested a new model of the mind in which there is no place for the self. In one experiment, the two halves of the brain were disconnected and many tests were carried out. The first surprising result was that this splitting did not bring major consequences as expected. During the tests, a command to walk was given to one of the halves of the brain, while it was asked to the other half where the person was going. Since this part did not know where the person was going (because the command was given to the other half), it simply made up an answer and believed in the reason it had just invented. This experiment suggested, according to Professor Robert Wright, that the conscious self is overestimated and that it creates reasons to explain its actions. Freud had already drawn the same conclusion in the nineteenth century and called this phenomenon "rationalization". In the famous experience of Bernheim, Freud noticed how people could be given orders under hypnotic state to be carried out after waking up. When these people were asked why they were performing the actions, they also made up answers as if they needed to fill a void in their consciousness. These evidences lend support to the Buddhist doctrine of the not-self.

Finally, another scientific approach that lends support to the Buddhism doctrine of the not-self is the Modular View of the Mind. Mental modules, according to this theory, are a self-organized system. They do not report to a superior instance. Using the example given by Professor Robert Wright, there is no “CEO” of the mind. During the process of evolution, the human mind incorporated many different functions, each one of which corresponded to challenges our species had to face in the everyday life in order to survive. Self-protection, partner attraction, and disease avoidance are some of them. When one’s life is in danger, for instance, our self-protection mode gets in charge and takes control in order to act accordingly to the situation. Therefore, there’s no “self” in control of the mind, but many modules which take control when triggered by external factors.

The core of the Buddhist doctrine is intrinsically naturalistic, and for this reason many Buddhist ideas about the human predicament and the human mind can be assessed today by modern science. Evolutionary psychology lends support to the Buddhist theory of desire, and both modern psychology experiments and the Modular View of the Mind suggest that there may be no self - just like Buddhism has been teaching for the past 2,500 years. .

Glauber Ataide

* Escrevi este artigo como trabalho em um curso sobre Buddhism and Modern Science. Foi necessário deixar de fora muitas discussões interessantes devido à limitação de cerca de 800 palavras.

A ciência refuta a religião? (Vídeo)

Posted: 9.2.16 by Glauber Ataide in Marcadores: , , ,
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Confira, no vídeo abaixo, uma breve reflexão sobre a natureza do debate entre ciência e religião.



The gospel according to Judas - National Geographic

Posted: 22.7.15 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Compartilho abaixo para download o documentário O evangelho segundo Judas, produção da National Geographic. (Legendas apenas em inglês.)

"Ele é um dos homens mais odiados da história: Judas Iscariotes, o apóstolo que traiu Jesus. Durante séculos, seu nome significou deslealdade e trapaça. Mas esta imagem pode mudar. Escondido por quase duzentos anos, um evangelho ancestral emerge das areias do Egito e conta uma versão muito diferente sobre os últimos dias de Jesus, questionando o retrato de Judas como o "apóstolo do mal". Junte-se a National Geographic e a um time de investigadores bíblicos enquanto eles exploram a história deste extraordinário texto e seu significado religioso. Começou a corrida para determinar a autenticidade deste documento, reunindo seus pedaços antes que suas delicadas páginas se transformem em pó. Com dramatizações de qualidade cinematográfica e análises profundas de alguns dos maiores especialistas do mundo, O Evangelho Segundo Judas revela ao mundo moderno uma nova abordagem da traição que Jesus teria sofrido."

Total de arquivos: 14
Idioma: Inglês
Legendas: Inglês


Enjoy :)

Sobre a probabilidade dos milagres

Posted: 15.2.12 by Glauber Ataide in Marcadores: , ,
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Lendo ontem alguns trechos da "Investigação sobre o entendimento humano", de David Hume, me veio à memória um argumento apresentado pelo filósofo cristão William Lane Craig, que li já faz alguns anos, em defesa da questão dos milagres e da ressurreição de Cristo.

É que Craig afirma, contrariando Hume, que mesmo que a ocorrência de um milagre seja um evento altamente improvável, isso não seria razão suficiente para não acreditar nele, pois em nossa vida real acreditamos em diversos outros eventos cuja probabilidade também são astronômicas.

Usando um exemplo de combinações de números da loteria para ilustrar seu argumento, o apologista nos pergunta algo mais ou menos assim: qual a probabilidade de que a combinação de números 02-12-19-22-36-58 seja sorteada na mega-sena? Apesar de ser apenas 1 em 50.063.860, ninguém duvida que essa ocorrência de fato aconteceu no sorteio do dia 11/02/2012. Foi um evento altamente improvável, mas ocorreu.

No entanto, essa analogia de Craig me parece falaciosa. Apesar de não sabermos qual a combinação numérica que cairá em determinado sorteio da loteria, uma coisa é certa: sempre será sorteada uma combinação qualquer cuja probabilidade de ocorrência é de 1 em 50.063.860. 

Uma outra diferença importante entre os milagres e o sorteio é que essa ocorrência é aleatória, não precisa carregar uma intencionalidade como os primeiros. Pois um milagre nunca é um ato aleatório, mas sempre um ato dirigido a um fim pré-determinado (curar uma determinada doença de uma determinada pessoa, transformar água em vinho, etc).

Assim, no caso da loteria, a pergunta deveria ser: qual a probabilidade de que hoje seja sorteada uma combinação qualquer cuja probabilidade de ocorrência de 1 em 50.063.860?

Ora, considerando que os sorteios da mega-sena vem sendo realizados regularmente todas as quartas e sextas, a probabilidade de que este evento não aconteça dessa vez é mínima (não calculei para exemplificar aqui, mas creio não ser necessário para ser compreendido).

Portanto, uma combinação qualquer num sorteio da loteria não é algo tão improvável quanto um milagre. Porque tal comparação, a fim de não ser falaciosa, deveria ser mais ou menos no seguinte sentido: qual a probabilidade de que um morto qualquer ressuscite hoje? E qual a probabilidade de que uma combinação qualquer de X números seja sorteada hoje?

Os donos da verdade

Posted: 23.8.11 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Clique na imagem para ampliar.



Problemas da moral religiosa

Posted: 20.4.11 by Glauber Ataide in Marcadores: , , ,
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Uma das principais dificuldades da discussão moral hoje, no contexto de um mundo relativista, líquido, pós-moderno, reside no problema da fundamentação da moral. Se uma moral é fundamentada numa religião particular, mas um outro grupo não compartilha dessa crença, essa doutrina não tem nenhuma força sobre essa outra comunidade. As doutrinas morais religiosas, portanto, não possuem um caráter tão "absoluto" quanto seus adeptos julgam ter, neste aspecto.

Vemos isso na prática em discussões sobre o aborto. Pessoas religiosas, por comungarem de determinadas concepções sobre o tema, conflitam-se na arena pública com diversos outros setores da sociedade que não compartilham dessas crenças oriundas de seus livros sagrados.

Se podemos fazer uma categorização ampla e simplificada das diversas perspectivas morais, os dois principais grupos seriam 1) daquelas doutrinas que recorrem a livros sagrados como fundamento, e 2) daquelas que não inserem Deus na discussão, buscando fundamentar a moral no mundo real, e não no além.

A moral religiosa, a despeito de toda a aparente simplicidade de sua fundamentação ("Deus existe, logo, eu obedeço") apresenta vários problemas. Grande parte da discussão que aqui apresentamos se encontra na obra Moral - uma introdução à ética, do filósofo Bernard Williams, editora Martins Fontes. Falecido em 2003, Williams foi considerado pela revista Times como o filósofo moral inglês mais brilhante e mais importante de seu tempo.

Os religiosos afirmam que se Deus não for acrescentado à discussão, então nada fundamenta a moral e, portanto, nenhuma outra perspectiva, a não ser a deles, pode ser universalizada.

Sua argumentação consiste em buscar por estruturas transcendentais para explicar a finalidade do homem, isso é, o que homem deve fazer e como deve ser neste mundo. Já que o homem é criado por Deus, este teria certas expectativas em relação à sua criatura, dizem.

Surge aqui, no entanto, um primeiro problema: quais características de Deus justificam nosso dever de satisfazer suas expectativas?

Seria o seu poder? Isso é discutível, pois, por analogia, temos exemplos de pais humanos e reis que não devem ser obedecidos. Isso, portanto, não constitui um critério adequado. Seria então pelo seu infinito poder, ou por ter criado tudo que existe? Mas poder ou domínio infinito não parecem mais dignos de obediência. Ou seria, então, por que Deus é bom? Tampouco, pois essa qualificação já envolve uma valoração, que deve ser a conclusão, e não a premissa do apelo a Deus (Kant).

Os argumentos acima têm sido utilizados por diversos filósofos contra a ideia puramente dedutiva e a priori de que devemos cultivar um determinado tipo de vida por sermos criaturas de Deus.

Bernard Williams afirma que o seguinte é um ponto pacífico entre os filósofos: mesmo que Deus exista, isso não faz, para um pensador moral de mente aberta, nenhuma diferença na reflexão moral.

Os motivos para obedecer a Deus, cumprir seus mandamentos morais, são morais ou não. Mas se a pessoa já está munida de motivos morais, a inserção de Deus nada acrescenta.

E se suas motivações não são morais, não podem levar adequadamente à moralidade: serão motivos de prudência, que em sua forma mais simplificada, isso é, nos sermões de padres e pastores, configuram-se num tipo de convencimento moral ad baculum (1), qual seja, a ameaça do inferno.

Nenhuma ação moral motivada por prudência pode ser uma ação moral genuína - a ação moral deve ser motivada pelo que é moralmente certo e nada mais. Qualquer apelo a Deus nesse encadeamento nada acrescenta, ou, se o faz, acrescenta os dados errados.

Na opinião de Williams, "o problema da moralidade religiosa não reside no fato de a moralidade ser inescapavelmente pura, mas sim no fato de a religião ser incuravelmente ininteligível."



NOTAS

(1) Ad baculum: tipo de falácia que tenta convencer alguém através de ameaças. Em latim, significa "apelo ao porrete".


REFERÊNCIAS

WILLIAMS, Bernard. Moral - uma introdução à ética. São Paulo: 2005, Martins Fontes.

Jesus Cristo foi um revolucionário?

Posted: 11.7.10 by Glauber Ataide in Marcadores: , ,
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O cristianismo, em seus primórdios, encontrou principalmente entre as camadas mais pobres da população um fértil terreno para sua expansão. Não simplesmente como ideologia alienante imposta pelas classes dominantes, pois era uma religião proibida, ilegal e perseguida. Era um movimento autenticamente popular e que ganhava espaço justamente por responder aos anseios populares por justiça e igualdade social. A estrutura comunista primitiva da igreja deixa isso muito claro, sendo um dos principais atrativos do cristianismo para os pobres.

Pela proximidade tanto temporal quanto doutrinária entre a atividade de Jesus e o surgimento das primeiras comunidades cristãs tem-se uma boa indicação de que as posições políticas de Jesus realmente se aproximavam daquilo que praticavam essas comunidades no seu dia-a-dia. Sua mensagem dificilmente seria acolhida entre os pobres apenas por causa do seu conteúdo "intelectual".

Outro aspecto que parece explicar e reforçar esta caracterização política do cristianismo primitivo é através da investigação da progressiva tomada de consciência de Jesus tanto sobre ele próprio quanto de sua atividade.

Se Jesus é Deus e homem ao mesmo tempo, como afirma a doutrina cristã, em que momento ele adquiriu essa consciência?

É muito estranho imaginar, como afirmam alguns evangelhos apócrifos, que desde pequeno ele já tenha se considerado "filho de Deus" e até saísse matando outras crianças por aí com poderes que só ele tinha (vide o evangelho apócrifo de Tomé, no qual ele mata algumas pessoas apenas ao proferir maldições sobre elas).

É bem mais razoável que Jesus tenha adquirido a consciência de sua identidade de forma progressiva. E este termo - "progressiva" - é muito importante para auxiliar na compreensão de sua atividade.

Imaginemos o momento em que ele compreendeu que o Messias era ninguém menos que ele próprio. O que ele entendia por "Messias"? Provavelmente a mesma coisa que todo mundo: que o Messias era uma figura política, um rei temporal que libertaria Israel do jugo estrangeiro imperialista romano.

A Palestina, na época de Jesus, fervilhava de partidos e movimentos de libertação nacional. Tanto é que até um de seus apóstolos escolhidos era um revolucionário zelote (Simão, o Zelote). Os zelotes eram um grupo político nacionalista que praticava a luta armada contra Roma.

As supostas "profecias" no AT de que o Messias seria um profeta pacífico que morreria para dar libertação apenas "espiritual" são, no mínimo, "forçadas". Não convencem judeu nenhum hoje. Os primeiros intérpretes cristãos se utilizaram de uma forma de interpretação alegórica e fora de contexto bem peculiar, forçada, estranha até.

Até mesmo o filósofo estadunidense William Lane Craig parece reconhecer isso implicitamente quando afirma que deve ter acontecido um fenômeno muito impactante que levou os discípulos a tentarem conciliar a pessoa de Jesus com o Messias do AT, procurando, desesperadamente, "provas" de que as profecias se cumpriam nele. Este fenômeno teria sido a ressurreição, segundo Craig. Afinal, se esse cara ressuscitou, ele só pode ser o Messias.

Jesus não defendeu até o final de sua vida posições políticas tão avançadas quanto à dos zelotes. Se considerarmos, contudo, que sua tomada de consciência foi progressiva, isso joga luz sobre várias passagens que a interpretação tradicional não consegue explicar satisfatoriamente, indicando que num determinado momento ele chegou a se alinhar com tais grupos de libertação nacional .

Em diversas passagens Jesus fala sobre espadas, guerras, etc. Interpretações alegóricas simplesmente "rebolam" para explicar por que é que ele disse "quem não tem espada venda a sua capa e compre uma", por exemplo. (Interpretações alegóricas são perigosas, e com elas se prova qualquer coisa. A imaginação é o seu único limite).

O que alguns autores irão afirmar é que essas aparentes "contradições" entre um Jesus que algumas vezes fala sobre "guerras" e "espadas", por um lado, e "amar o inimigo" e "dar a César o que é de César", por outro, são explicadas por essa tomada de consciência progressiva, tanto de sua identidade quanto de sua atividade.

Essa perspectiva é explorada de forma fictícia no filme A última tentação de Cristo. Não obstante ser apenas um romance, esta obra nos chama a atenção para o aspecto mais humano da figura de Jesus, já que quase sempre ouvimos falar só no seu lado divino.

Um tratamento histórico desta questão se encontra em um capítulo da obra História do socialismo e das lutas sociais, de Max Beer. Após fazer uma breve exposição do contexto em que atuou e viveu Jesus e de mostrar como ele abandonou posteriormente o projeto popular de libertação nacional, o autor faz este balanço:

"Jesus Cristo foi um revolucionário acima de seu tempo. Ultrapassa o judaísmo. Atravessa as fronteiras nacionais e reduz a pó o edifício religioso tradicional que seu povo havia erigido à custa de tantos sacrifícios e de tantas angústias. Os judeus, certamente, poderiam ter perdoado Jesus, se ele tivesse colocado a sua popularidade a serviço do movimento de emancipação nacional contra Roma. Os judeus não obtiveram o perdão para Barrabás, que fora condenado a morrer na cruz em virtude da sua atividade revolucionária contra o domínio de Roma? Mas Jesus e os seus partidários estavam, nesse ponto, tão distantes das massas judaicas, que o evangelista Marcos chegou a condenar a atividade patriótica de Barrabás como um 'crime', um incitamento à 'matança'. Tanto do ponto de vista religioso quanto do político-social, Jesus se situava tão distante da civilização judaica como da romana. Eis porque foi condenado a morrer crucificado."


A atividade de Jesus, de acordo com Beer, foi continuar a obra dos profetas. Tinha um sentido claramente antinacional e antireligioso, sendo sua doutrina anarcocomunista e baseada na moral estóica. Jesus Cristo foi um revolucionário em algum momento de sua vida, mas não morreu como tal. Suas posições políticas se alteraram com o passar do tempo, de forma que as aparentes contradições dos textos bíblicos são melhor explicados justamente por estas transformações em sua consciência.