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Entrevista de Stalin a H. G. Wells

Posted: 7.4.10 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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A entrevista reproduzida abaixo, datada de 23 de julho de 1934, causou-me uma agradável surpresa . Eu já conhecia o famoso escritor H. G. Wells, autor da pioneira obra "The time machine" ("A máquina do tempo"), considerada como a primeira obra de ficção científica da história.

Mas não me passava pela cabeça que este escritor tinha posições políticas progressistas, apesar de reformistas. E muito menos que ele já tinha realizado uma entrevista com o camarada Stalin.

No entanto, o grande mérito dessa entrevista não está apenas em seus interlocutores. Está principalmente na clareza de exposição de alguns temas por parte de Stalin em resposta à posição reformista pequeno-burguesa de Wells. É um diálogo aberto, direto e que nos permite analisar, direto na fonte, qual o direcionamento teórico da construção do socialismo na URSS na década de 30, época em que o mundo capitalista desabava por causa da crise econômica (1929) e que desaguaria, anos mais tarde, na II Guerra Mundial.


Reformismo ou Revolução?

23 de julho de 1934

Entrevista ao jornalista e romancista inglês H.G. Wells.


Wells: Fico-lhe muito grato, senhor Stálin, por ter aceitado ver-me. Estive recentemente nos Estados Unidos. Mantive longa conversa com o Presidente Roosevelt e procurei saber quais eram suas idéias principais. Agora venho perguntar ao senhor o que está fazendo para mudar o mundo...

Stálin: Na verdade, não muita coisa...

Wells: Vagueio pelo mundo e como um homem comum, observo o que se passa em volta de mim.

Stálin: Os homens públicos importantes, como o senhor, não são "homens comuns". Evidentemente, só a história pode determinar quão importante foi este ou aquele homem público. Em todo o caso, o senhor não vê o mundo como um "homem comum".

Wells: Não pretendi ser modesto. Quis dizer que procuro ver o mundo com os olhos do homem comum, e não como um político de partido ou um estadista. A minha visita aos Estados Unidos me causou forte impressão. O velho mundo financeiro está desabando, e a vida econômica do país está sendo reorganizada sobre novas linhas. Lênin disse que era "preciso aprender a fazer negócios" aprendendo com os capitalistas. Hoje, os capitalistas tem de aprender com os senhores, devem captar o espírito do socialismo. Parece-me que nos Estados Unidos se está levando a cabo profunda reorganização - a criação de uma economia planificada, isto é, socialista.

O senhor e Roosevelt partiram de dois pontos de vista diferentes. Porém, não há uma relação de idéias, uma espécie de parentesco de idéias, entre Washington e Moscou?

Em Washington, impressionaram-me as mesmas coisas que se passam aqui: ampliação do aparelho de direção, criação de uma série de novos organismos reguladores do Estado, organização de um serviço público universal. Como os senhores, necessitam de habilidade na direção.

Stálin: Os Estados Unidos buscam propósito diverso do que buscamos na U.R.S.S. O propósito que perseguem os norte-americanos surgiu das dificuldades econômicas, da crise econômica. Os norte-americanos pretendem desembaraçar-se das crises à base da atividade capitalista privada sem mudar a base econômica. Estão tratando de reduzir ao mínimo a ruína, as perdas causadas pelo sistema econômico existente. Aqui, entretanto, como o senhor sabe, foram criadas, em lugar do velho sistema econômico destruído, bases inteiramente diferentes; uma nova base econômica.

Embora os americanos citados pelo senhor atinjam parcialmente o seu propósito, quer dizer, reduzam ao mínimo tais dificuldades, não destruirão as raízes da anarquia que é inerente ao sistema capitalista.

Estão preservando o sistema econômico que deve conduzir inevitavelmente - e não pode senão conduzir - à anarquia na produção. De modo que, na melhor das hipóteses, o que atingirem será, não a reorganização da sociedade, não a abolição do velho sistema social que engendra a anarquia e as crises, mas a limitação de algumas de suas características negativas, certa restrição aos seus excessos. Subjetivamente, talvez os norte-americanos pensem que estão reorganizando a sociedade; objetivamente, entretanto, estão preservando as bases atuais dela. É por isso, objetivamente, que daí não resultará nenhuma reorganização da sociedade.

Nem haverá absolutamente economia planificada. Que é economia planificada? Quais são alguns dos seus atributos? A economia planificada cuida de abolir o desemprego. Suponhamos que seja possível, enquanto se preserva o sistema capitalista, reduzir o desemprego até certo mínimo. Porém, nenhum capitalista aceitará jamais a abolição total do desemprego, a abolição do exército de reserva dos desempregados, cuja razão de ser é fazer pressão no mercado do trabalho para garantir a oferta de trabalho barato. Aí tem o senhor uma das fendas da "economia planificada" da sociedade burguesa. E ainda mais, a economia planificada pressupõe aumento da produção naqueles ramos da indústria que produzem as mercadorias de que o povo mais necessita. Mas o senhor sabe que a expansão da produção, sob o capitalismo, se dá por motivos inteiramente diferentes; sabe que o capital flui para aqueles ramos da economia onde é mais alta a taxa de lucro. O senhor jamais conseguirá que um capitalista aceite uma taxa de lucro menor para satisfazer as necessidades do povo. Por isso, sem se desembaraçar dos capitalistas, sem se abolir o princípio da propriedade privada sobre os meios de produção, é impossível criar-se uma economia planificada.

Wells: Estou de acordo com muita coisa que o senhor disse, porém gostaria de insistir sobre o fato de que se um país adota o princípio da economia planificada, se os governantes, de modo gradual, passo a passo, começam conseqüentemente a aplicar esse princípio, a oligarquia financeira será por fim abolida e se estabelecerá o socialismo, no sentido anglo-saxão da palavra. O efeito das idéias do New Deal de Roosevelt é muito poderoso, e elas são, na minha opinião, idéias socialistas. Parece-me que, em vez de se por em tensão o antagonismo entre os dois mundos, deveríamos, nas circunstâncias atuais, esforçarmo-nos por estabelecer uma linguagem comum para todas as forças construtivas.

Stálin: Ao falar da impossibilidade de realizar os princípios da economia planificada enquanto se conserva a base econômica do sistema capitalista, não desejo, de forma alguma, diminuir as destacadas qualidades pessoais de Roosevelt, sua iniciativa, sua coragem e determinação. Indubitavelmente, Roosevelt se projeta como uma das figuras mais fortes entre todos os capitães do mundo capitalista contemporâneo. Por isso gostaria, ainda uma vez, de repisar que a minha convicção de que a economia planificada é impossível sob as condições do capitalismo, não significa que tenha dúvidas sobre a qualidade pessoal, o talento e a coragem do Presidente Roosevelt. Mas quando as circunstâncias são desfavoráveis, nem o capitão de maior talento pode atingir a meta a que o senhor se referiu.

Para começar, teoricamente não está excluída a possibilidade de se caminhar gradualmente, passo a passo, sob as condições do capitalismo, até a meta pelo senhor chamada socialismo no sentido anglo-saxão da palavra. Mas que "socialismo" será esse? Na melhor das hipóteses, será um freio aos representantes mais obstinados do lucro capitalista, certo reforçamento do princípio regulador na economia nacional. Tudo isso está muito bem. Porém, assim que Roosevelt, ou qualquer outro capitão do mundo contemporâneo burguês, comece a empreender algo de sério contra os fundamentos do capitalismo, sofrerá inevitavelmente séria derrota. Os bancos, as indústrias, as grandes empresas, as grandes fazendas, não estão nas mãos de Roosevelt. São todas propriedades privadas. As estradas de ferro, a marinha mercante, tudo isso pertence a proprietários privados. E, finalmente, o exército dos trabalhadores especializados os engenheiros, os técnicos, não estão tampouco sob o mando de Roosevelt, mas dos proprietários privados; todos trabalham para eles. Não devemos esquecer as funções do Estado, no mundo burguês. O Estado é uma instituição que organiza a defesa do país, organiza a manutenção da "ordem": é um aparelho para cobrar impostos. O Estado capitalista não se ocupa muito com a economia no sentido estrito da palavra; a economia não está nas mãos do Estado. Ao contrário, o estado é que está nas mãos da economia capitalista. Por isso, receio que, apesar de toda a sua energia e capacidade, Roosevelt não alcance a meta a que o senhor se refere,se essa é, em realidade, a sua meta. Talvez, no curso de várias gerações, seja possível aproximar-se um pouco dessa meta, porém pessoalmente considero que nem mesmo isso seja provável.

Wells: Talvez eu creia mais fortemente que o senhor na interpretação econômica da política. As invenções e a ciência moderna puseram em movimento enormes forças dirigidas para a organização melhor, para o melhor funcionamento da comunidade, isto é, para o socialismo. A organização e a regulamentação da ação individual tornaram-se necessidades mecânicas, independentemente das teorias sociais.

Se principiássemos pelo controle estatal dos bancos e continuássemos com o controle dos transportes, das indústrias pesadas, da indústria em geral, do comércio etc., tal controle universal equivaleria à propriedade do Estado sobre todos os ramos da economia nacional. Este será o processo da socialização. Socialismo e individualismo não se opõem como o preto ao branco. Há muitos estados de permeio entre eles. Há o individualismo que roça no bandoleirismo, e há o espírito de disciplina e de organização que são equivalentes ao socialismo. A introdução da economia planificada depende, em grau considerável, dos organizadores da economia, dos técnicos, os quais, passo a passo, podem ser convertidos aos princípios socialistas de organização. E isso é da maior importância, porque a organização precede o socialismo. Sem organização, a idéia socialista não passa de mera idéia.

Stálin: Não há, nem deve haver, contraste irreconciliável entre o indivíduo e a coletividade, entre os interesses individuais e os interesses da coletividade. Não deve haver tal contraste, porque o coletivismo, o socialismo, não nega e sim combina os interesses individuais com os interesses da coletividade.

O socialismo não pode se esquecer dos interesses individuais. Somente a sociedade socialista pode satisfazer completamente esses interesses pessoais. Ainda mais: só a sociedade socialista pode salvaguardar firmemente os interesses do indivíduo. Neste sentido, não há contraste irreconciliável entre "individualismo" e socialismo. Porém, podemos negar o contraste entre as classes, entre a classe dos proprietários, a classe dos capitalistas, e a classe dos trabalhadores, a classe dos proletários? De um lado, temos a classe dos proprietários, que é dona dos bancos, das fábricas, das minas, do transporte, das plantações nas colônias. Tais pessoas não vêem senão seus próprios interesses, sua ambição pelos lucros. Não se submetem à vontade da coletividade; esforçam-se, isso sim, por subordinar cada coletividade à sua vontade. De outro lado, temos a classe dos pobres, a classe explorada, a que não possui nem fábricas, nem usinas, nem bancos, a que é obrigada a vender sua força de trabalho aos capitalistas e que carece de oportunidades para satisfazer as suas necessidades mais elementares. Como se podem conciliar interesses tão opostos? Pelo que sei, Roosevelt não teve êxito em encontrar a senda da conciliação entre esses interesses. E é impossível, como já o demonstrou a experiência. Afinal, o senhor conhece a situação dos Estados Unidos melhor do que eu, que nunca estive lá e observo os assuntos norte-americanos sobretudo através do que se escreve sobre esse assunto. Porém tenho alguma experiência de luta pelo socialismo e esta experiência me diz que, se Roosevelt tentar satisfazer os interesses da classe proletária, à custa da classe capitalista, esta porá outro Presidente no lugar dele. Os capitalistas dirão: os Presidentes passam, porém nós permaneceremos; se esse ou aquele Presidente não defende os nossos interesses, encontraremos um outro. Pode o Presidente opor-se à vontade da classe capitalista?

Wells: Oponho-me a essa classificação simplista da Humanidade em pobres e ricos. Evidentemente há uma categoria de pessoas que visa o lucro. Mas não são essas pessoas olhadas como obstáculos, tanto no Ocidente como aqui? Não há no Ocidente muita gente para quem o lucro não é um fim em si, gente que possui certa quantidade de recursos e que deseja inverter e obter lucros com as suas inversões, porém que não faz disso o seu objetivo principal? Para essa gente as inversões são uma inconveniência necessária. Não há grandes núcleos de engenheiros capazes e estudiosos, organizadores da economia, cujas atividades são estimuladas por alguma coisa mais que o lucro? Na minha opinião, há uma classe numerosa de pessoas capazes que admitem ser o sistema atual não-satisfatório e que estão destinadas a um grande papel na futura sociedade socialista. Durante os últimos anos tenho pensado muito na necessidade, tenho-me dedicado muito à tarefa de levar a cabo a propaganda em favor do socialismo e do cosmopolitismo entre amplos círculos de engenheiros, aviadores, elementos técnicos militares etc. É inútil aproximar-se desses círculos com a propaganda direta da luta de classes. Essas pessoas compreendem a situação em que se encontra o mundo, que se transforma num pântano sangrento, mas para tais pessoas o antagonismo primitivo da luta de classes é algo sem sentido.

Stálin: O senhor se opõe à classificação simplista das pessoas em ricos e pobres. E claro que há as camadas médias, há a intelectualidade técnica a que o senhor se referiu e, entre elas, há pessoas muito boas e honradas. Entre elas há também pessoas desonestas e perversas, toda espécie de gente. Porém, antes de mais nada, a Humanidade está dividida em ricos e pobres, entre proprietários e explorados; e abstrair-se dessa divisão fundamental e do antagonismo entre pobres e ricos significa abstrair-se do fato fundamental. Não nego a existência de camadas intermediárias, que podem ficar do lado de uma ou de outra dessas duas classes em conflito, ou podem tomar posição neutra ou semineutra nessa luta. Todavia, repito, abstrair-se dessa divisão fundamental da sociedade e da luta fundamental entre as duas classes principais significa ignorar os fatos. Esta luta continua e continuará. O resultado dela será determinado pela classe proletária, a classe dos trabalhadores.

Wells: Porém, não há muitas pessoas que, não sendo pobres, trabalham produtivamente?

Stálin: Para começar, há pequenos proprietários de terras, artesãos, pequenos comerciantes, mas não são esses os que decidem da sorte de um país, e sim as massas trabalhadoras que produzem todas as coisas requeridas pela sociedade.

Wells: Contudo há muitas classes diferentes de capitalistas. Há capitalistas que só pensam nos lucros; mas há também os que estão preparados para fazer sacrifícios. Tomemos o velho Morgan por exemplo: só pensou nos lucros; foi um parasita da sociedade. Acumulou riquezas simplesmente. Agora tomemos Rockfeller. É um organizador brilhante, tendo dado o exemplo de como organizar a produção de petróleo, exemplo esse digno de ser imitado. Ou tomemos Ford. É claro que Ford é egoísta: Porém, não é um organizador apaixonado da produção racionalizada, de quem os senhores tomaram lições?

Desejaria insistir no fato de que recentemente se deu importante mudança de opinião a respeito da U.R.S.S. nos países de língua inglesa. A razão da mudança está ligada, antes de mais nada, à posição do Japão e à situação da Alemanha. Mas há outras razões que não decorrem somente da política internacional. Há uma razão mais profunda: refiro-me ao reconhecimento, por muita gente, do fato de que o sistema baseado no lucro privado está desmoronando. Sob estas circunstâncias, parece-me que não devemos pôr em primeiro plano o antagonismo entre os dois mundos, e sim devemos nos esforçar para combinar todos os movimentos construtivos, todas as forças construtivas, na medida do possível. Parece-me que estou mais à esquerda do que o senhor, pois considero que o mundo está mais próximo do fim do velho sistema.

Stálin: Quando falo dos capitalistas que se esforçam somente em obter lucros, somente em tornarem-se ricos, não quero dizer que sejam os últimos dos homens, incapazes de mais nada. Muitos deles, inegavelmente, possuem grande talento de organização que nem penso negar. Nós, o povo soviético, temos aprendido muito com os capitalistas. E Morgan, a quem o senhor descreveu de maneira tão desfavorável, foi sem dúvida um bom organizador, capaz. Porém, se o senhor se refere a pessoas que estejam preparadas para reconstruir o mundo, não poderá, para começar, encontrá-las nas fileiras daqueles que servem fielmente a causa dos lucros. Eles e nós estamos em campos opostos. O senhor mencionou Ford. Certamente que ele é um eficiente organizador da produção. Mas conhece o senhor a atitude dele para com a classe operária? Sabe o senhor quantos operários ele põe na rua? O capitalista está preso aos lucros, e força alguma no mundo poderá separá-lo deles. O capitalismo será liquidado, não pelos "organizadores" da produção, não pela intelectualidade técnica, e sim pela classe operária, uma vez que aquelas camadas não desempenham um papel independente. O engenheiro, o organizador da produção, não trabalha como gostaria, mas como lhe ordenam, no sentido de servir aos interesses dos patrões. Há exceções, é claro; há pessoas nessa camada média que se libertaram do ópio capitalista. A intelectualidade técnica pode, sob certas condições, fazer "milagres" e beneficiar altamente a Humanidade. Porém, pode também fazer-lhe muito mal. Nós, o povo soviético, temos experiência, e não pouca, sobre a intelectualidade técnica. Depois da Revolução de Outubro, certa parte da intelectualidade técnica se recusou a participar do trabalho de construir uma nova sociedade. Opuseram-se a esse trabalho de construção e o sabotaram. Fizemos o possível para atrair a intelectualidade técnica a este trabalho de construção; experimentamos vários caminhos. Não se passou pouco tempo para que a nossa intelectualidade técnica acedesse em apoiar o novo sistema.

Hoje, a melhor parte da intelectualidade técnica está nas primeiras fileiras dos construtores da sociedade socialista. Com esta experiência, estamos longe de subestimar o lado bom e o lado mau da intelectualidade técnica, e sabemos que uma parte pode causar o mal e a outra pode realizar "milagres". Contudo, as coisas seriam diferentes se fosse possível, de um só golpe, arrancar espiritualmente a intelectualidade técnica do mundo capitalista. Mas isso é utopia. Haverá muitos técnicos que se atreveriam a se desprender do mundo burguês e pôr-se a trabalhar para reconstruir a sociedade? Pensa o senhor que há muita gente dessa classe, digamos na Inglaterra ou na França? Não, há poucos que se desprenderiam voluntariamente dos seus patrões e começariam a reconstruir o mundo.

Além disso, podemos perder de vista o fato de que, para transformar o mundo, é necessário ter-se o poder político? Parece-me, Senhor Wells, que o senhor subestima enormemente a questão do poder político, que fica excluída da sua concepção. Que podem fazer os que, ainda que com as melhores intenções do mundo, não estão em condições de traçar o problema da tomada do poder e não têm esse poder em suas mãos? Quando muito, poderão ajudar à classe que toma o poder, porém não podem mudar o mundo. Isso só o pode fazer uma grande classe que tome o lugar da classe capitalista e venha a ser senhor soberano, como esta o era. Tal classe é a classe operária. Certamente o apoio da intelectualidade técnica deve ser aceito, e essa intelectualidade, por sua vez, deve receber ajuda, mas não se pense que ela representa papel histórico independente. A transformação do mundo é processo complicado e doloroso. Para esta grande tarefa precisa-se de uma grande classe. Para viagens longas, grandes barcos.

Wells: Sim, mas para uma longa viagem é preciso um capitão e um navegador.

Stálin: E certo, porém o que se requer em primeiro lugar, para uma viagem longa, é um grande barco. Que é um navegante sem um grande barco? Um homem ocioso.

Wells: O grande barco é a Humanidade, não uma classe.

Stálin: O senhor parte da presunção de que todos os homens são bons. Eu, entretanto, não posso esquecer que há muitos homens perversos. Não creio na bondade da burguesia.

Wells: Recordo-me da situação da intelectualidade técnica há várias décadas. Naquele tempo, era numericamente pequena, porém havia muito a fazer, e cada engenheiro, técnico ou intelectual, encontrava a sua oportunidade. Por isso era a classe menos revolucionária. Agora, entretanto, há excedente de intelectuais técnicos e a mentalidade deles mudou profundamente. Os técnicos, que antigamente não faziam caso da linguagem revolucionária, estão agora muito interessados nela. Assisti recentemente a um banquete da Royal Society (Sociedade Real), a nossa maior sociedade científica inglesa.

O discurso do Presidente foi um discurso a favor da planificação social e da gestão científica. Há trinta anos atrás, não se poderia ter escutado algo semelhante. Hoje o homem que preside a Royal Society mantém pontos de vista revolucionários e insiste na reorganização científica da sociedade humana. As mentalidades mudam. A vossa propaganda de luta de classes não leva em conta estes fatos.

Stálin: Sim, eu sei disso, e isso se explica pelo fato de a sociedade capitalista se achar agora num beco sem saída. Os capitalistas estão procurando. porém não podem encontrar uma saída deste impasse que seja compatível com a dignidade da sua classe, com os interesses da sua classe.

Poderiam, até certo ponto. sair da crise arrastando-se nas quatro patas porém não encontrarão uma porta que lhes permita sair de cabeça erguida. uma porta que não altere fundamentalmente os interesses do capitalismo. Amplos círculos da intelectualidade técnica bem que se dão conta disso. Grande parte dela está começando a compreender a vinculação dos seus interesses aos interesses da classe capaz de sair desse impasse.

Wells: Senhor Stálin, melhor do que ninguém o senhor sabe algo sobre as revoluções, no lado prático. As massas levantam-se? Não é uma verdade estabelecida que todas as revoluções são feitas pelas minorias?

Stálin: Para levar-se a cabo uma revolução é necessário uma minoria revolucionária dirigente, porém a mais inteligente, apaixonada e enérgica minoria seria impotente se não contasse com o apoio. pelo menos passivo, de milhões.

Wells: Pelo menos passivo? Talvez subconsciente?

Stálin: Digamos semi-instintivo e semi-consciente, mas sem o apoio de milhões de homens a minoria mais capaz será impotente.

Wells: Tenho observado a propaganda comunista no Ocidente, e parece-me que, nas condições atuais, tal propaganda soa muito fora de moda, por ser uma propaganda insurrecional. A propaganda a favor da derrubada violenta do sistema social soava bem quando dirigida contra as tiranias. Mas, nas atuais condições, quando o sistema se desmorona de todas as maneiras seria preciso dar mais destaque à eficiência, à competência, à produtividade, do que à insurreição. Parece-me que.o tom insurrecional é antiquado. Do ponto de vista das pessoas de mentalidade construtiva a propaganda comunista no Ocidente é um obstáculo.

Stálin: Para começar, o velho sistema se desmorona, está em decadência. Isso é certo, Porém também é certo que novos esforços se fazem, por outros métodos, por todos os meios, para proteger, para salvar este sistema agonizante. O senhor tira conclusão errônea de premissa certa, O senhor estabelece, corretamente, que o velho mundo se afunda. Mas o senhor está enganado pensando que se afunda por si mesmo. Não. A substituição de um sistema social por outro é processo revolucionário complexo e de longo fôlego. Não é simplesmente um processo espontâneo, e sim uma luta, um processo relacionado com o choque entre as classes. O capitalismo está em decadência, porém não deve ser comparado simplesmente com uma árvore que haja apodrecido tanto que virá ao chão com seu próprio peso. Não, a revolução, a substituição de um sistema social por outro, foi sempre uma luta, luta cruel e dolorosa, luta de vida e de morte. E cada vez que os representantes do novo mundo chegam ao poder têm de se defender contra as tentativas do velho mundo de restaurar pela força a ordem antiga; os representantes do novo mundo têm sempre de estar alerta, de estar preparados para repelir os ataques do velho mundo contra o sistema novo.

Sim, o senhor tem razão quando diz que o velho sistema social desmorona, porém não desmorona por si mesmo. Veja o fascismo, por exemplo. O fascismo é uma força reacionária que tenta preservar, por meio da violência, o velho mundo. Que farão os senhores com os fascistas? Discutirão com eles? Tratarão de convencê-los? Isso não teria, absolutamente, nenhum efeito. Os comunistas não idealizam, em absoluto, os métodos violentos, não querem, porém, ser apanhados de surpresa; não podem esperar que o velho regime se retire da cena, espontaneamente; vêem que o velho sistema se defende violentamente, e, por isso, dizem à classe operária: Preparem-se para responder com violência à violência; façam todo o possível para impedir que a ordem agonizante os esmague, não permitam que lhes algemem as mãos, estas mesmas mãos que demolirão o sistema velho. Como o senhor vê, os comunistas consideram a substituição de um sistema social por outro, não simplesmente como processo pacífico e espontâneo, e sim como processo complicado, longo e violento. Os comunistas não podem ignorar os fatos.

Wells: Contudo, observe o que se está passando no mundo capitalista. Não é um simples colapso; é o estouro da violência reacionária que está degenerando em gangsterismo. E parece-me que, quando se chega ao conflito com a violência reacionária e não inteligente, podem os socialistas apelar para a lei e, em vez de considerar a polícia um inimigo, devem apoiá-la na luta contra os reacionários. Penso ser inútil trabalhar simplesmente com os rígidos métodos da insurreição do velho socialismo.

Stálin: Os comunistas se baseiam na rica experiência histórica, a qual ensina que as classes caducas não abandonam voluntariamente o cenário histórico. Lembre-se da história da Inglaterra no século XVII. Não eram numerosos os que diziam que o velho sistema social estava apodrecido? Entretanto não foi necessário um Cromwell para esmagá-lo pela força?

Wells: Cromwell agiu baseado na Constituição e em nome da ordem constitucional.

Stálin: Em nome da Constituição recorreu à violência, decapitou o Rei, dissolveu o Parlamento, prendeu uns e decapitou outros!

Tome também o exemplo da nossa história. Não foi evidente, durante muito tempo, que o regime tzarista estava decaindo, que estava desmoronando? Mas, quanto sangue se teve de derramar para abatê-lo!

E a Revolução de Outubro? Eram pouco numerosas as pessoas que sabiam que nós, os bolcheviques, éramos os únicos a apontar o caminho certo? Não estava claro que o capitalismo russo achava-se em decadência? Contudo, o senhor sabe quão grande foi a resistência, quanto sangue se teve de derramar para defender a Revolução de Outubro de todos os seus inimigos internos e externos?

Ou tome a França do fim do século XVIII. Muito antes de 1789, era evidente a podridão do Poder Real, do feudalismo. Porém não se pôde evitar uma rebelião popular, um choque de classes. Por quê? Por que as classes que devem abandonar o cenário da história são as últimas a se convencerem de que seu papel terminou. É impossível convencê-las disso. Pensam que as fendas do decadente edifício da ordem antiga podem ser remendadas, que o vacilante edifício da ordem antiga pode ser restaurado e salvo. É por isso que as classes agonizantes tomam as armas e recorrem a todos os meios para salvar sua existência de classe dominante.

Wells: Mas havia bastante advogados à frente da grande Revolução francesa.

Stálin: Nega o senhor o papel da intelectualidade nos movimento revolucionários? Foi a grande Revolução francesa uma revolução de advogados, e não uma revolução popular, que alcançou a vitória levantando grandes massas do povo contra o feudalismo convertendo-s em chefes do Terceiro Estado? E por acaso atuaram os advogados existentes entre os líderes da grande Revolução francesa de acordo com as leis da ordem antiga? Não instituíram uma legalidade nova, a legalidade revolucionária burguesa?

A rica experiência da história ensina que até hoje nenhuma classe cedeu voluntariamente o lugar a outra. Não há tal precedente na história mundial. Os comunistas assimilaram essa experiência histórica. Os comunistas aplaudiriam a retirada voluntária da burguesia.

Mas tal processo é improvável, eis o que ensina a experiência. Por isso é que os comunistas querem estar preparados para o pior e concitam a classe operária a ser vigilante, a estar preparada para o combate. Quem deseja um capitão que se descuide da vigilância do seu exército, um capitão que não compreenda que o inimigo não se renderá, que deve ser esmagado? Tal capitão enganaria, trairia a classe operária. Por isso penso que o que ao senhor parece antiquado é, de fato, método revolucionário oportuno para a classe operária.

Wells: Não nego que se tenha de empregar a força, porém penso que as formas de luta devem adaptar-se o mais estreitamente possível às oportunidades que oferecem as leis existentes, que devem ser defendidas dos ataques dos reacionários. Não há necessidade de desorganizar-se o velho sistema porque ele está se desorganizando, e bastante. Assim, parece-me que a rebelião contra a ordem, contra a lei, é coisa antiquada, fora de moda. Incidentalmente, exagerei de propósito, para apresentar mais claramente a verdade.

Posso formular o meu ponto de vista da seguinte maneira: primeiro, sou pela ordem; segundo, ataco o sistema atual naquilo em que não possa garantir a ordem; terceiro, penso que a propaganda das idéias da luta de classes é capaz de isolar do socialismo as pessoas instruídas de que ele necessita.

Stálin: Para atingir um grande objetivo, um objetivo social importante, é necessário uma força principal, um baluarte, uma classe revolucionária. Depois, é necessário organizar-se a ajuda de uma força auxiliar para essa força principal; nesse caso, a força auxiliar é o Partido, ao qual pertencem as melhores forças da intelectualidade. Agora, o senhor fala de "círculos instruídos". Porém, que pessoas instruídas tem o senhor em mente? Não havia muitos homens instruídos ao lado da ordem antiga na Inglaterra do século XVII, na França em fins do século XVIII e na Rússia à época da Revolução de Outubro? A ordem antiga tinha a seu serviço muita gente de instrução elevada que defendeu tal estado de coisas, que se opôs à ordem nova. A educação é arma cujo efeito é determinado pelas mãos que a esgrimem. Está claro que o proletariado, o socialismo, necessita de gente altamente instruída, pois é evidente que não são os simplórios que poderão ajudar o proletariado a lutar pelo socialismo, a construir a nova sociedade. Eu não subestimo o papel da intelectualidade, ao contrário, reforço-o. A questão, entretanto, é sobre que espécie de intelectualidade estamos discutindo, porque há diversos tipos de intelectuais.

Wells: Não pode haver revolução sem mudança radical no sistema de instrução pública. Basta assinalar dois exemplos: o da República alemã, que deixou intacto o velho sistema educacional e, por isso, nunca chegou a ser uma República; e o Partido Trabalhista britânico, a quem falta coragem para insistir na mudança radical do sistema de educação.

Stálin: Essa é uma observação acertada. Permita-me agora rebater os seus três pontos de vista.

Primeiro: O principal para a revolução é a existência de um apoio social. Esse apoio é a classe operária.

Segundo: É indispensável uma força auxiliar a que os comunistas chamam Partido. Nele se incluem os trabalhadores intelectuais e os elementos da intelectualidade técnica que estão estreitamente vinculados à classe operária. A intelectualidade somente pode ser forte se se une à classe operária. Se se opõe a ela, anula-se.

Terceiro: E preciso o poder político como alavanca, para se conseguir as mudanças. O novo poder político cria uma legalidade nova, uma nova ordem, que é a ordem revolucionária. Eu não sou por qualquer ordem. Sou pela ordem que corresponda aos interesses da classe operária. Entretanto, se algumas leis do antigo regime podem ser utilizadas em benefício da luta pela ordem nova, tais leis devem também ser empregadas. Não posso opor-me à sua tese de que é preciso atacar o sistema existente quando ele não assegurar a ordem necessária ao povo.

E, finalmente, o senhor se equivoca ao pensar que os comunistas têm sede de violência. Ficariam muito satisfeitos suprimindo os métodos violentos se a classe dominante consentisse em ceder o lugar à classe operária. Porém, a experiência da história fala contra tal suposição.

Wells: Há na história da Inglaterra, entretanto, o caso de uma classe que entregou voluntariamente o poder a outra classe. No período de 1830 a 1870, a aristocracia - cuja influência era ainda considerável no fim do século XVIII - cedeu o poder voluntariamente, sem luta séria, à burguesia, que serve como apoio sentimental à monarquia. Conseqüentemente, esta transferência do poder conduziu ao estabelecimento do domínio da oligarquia financeira.

Stálin: Porém, o senhor passou, imperceptivelmente, do problema da revolução ao problema das reformas. Não é a mesma coisa. Não crê que o movimento cartista representou o grande papel nas reformas da Inglaterra no século XIX?

Wells: Os cartistas pouco fizeram e desapareceram sem deixar rastro.

Stálin: Não concordo com o senhor; os cartistas e o movimento grevista por eles organizado representaram grande papel; obrigaram as classes dominantes a fazer uma série de concessões no domínio do sistema eleitoral, na esfera da liquidação do que se chamava os "burgos podres", na realização de certos pontos da "Carta". O cartismo representou papel histórico não pouco importante e incitou uma parte da classe dominante a fazer certas concessões, certas reformas, para evitar grandes choques. Em geral, deve-se dizer que de todas as classes dominantes, as classes dominantes da Inglaterra, a aristocracia e a burguesia, demonstraram ser mais inteligentes, mais flexíveis do ponto de vista de seus interesses de classe, do ponto de vista da manutenção do poder. Tome como exemplo, digamos, da história moderna, a greve geral da Inglaterra em 1926. A primeira coisa que qualquer outra burguesia teria feito para enfrentar a situação, quando o Conselho Geral dos Sindicatos chamou à greve, seria a de encarcerarem os dirigentes dos sindicatos. A burguesia britânica tal não fez e agiu habilmente, segundo seus próprios interesses. Não posso conceber que a burguesia dos Estados Unidos, da Alemanha ou da França empregue estratégia tão flexível. Para manter predomínio, as classes dominantes da Grã-Bretanha não se têm negado nunca a fazer pequenas concessões, reformas. Mas seria erro pensar-se que estas reformas representam a revolução.

Wells: O senhor tem uma opinião mais elevada das classes dominantes do meu país do que eu mesmo. Porém, há grande diferença entre uma pequena revolução e uma grande reforma? Não é uma reforma uma pequena revolução?

Stálin: Obedecendo à pressão de baixo, à pressão das massas, pode a burguesia conceder, algumas vezes, certas reformas parciais, enquanto permanecem inalteráveis as bases do sistema social-econômico existente. Agindo dessa maneira, calcula que tais concessões são necessárias para preservar o seu predomínio de classe. Esta, a essência da reforma. A revolução, entretanto, significa a transferência de poder de uma classe para a outra. Por isso é impossível descrever qualquer reforma como uma revolução. Por isso é que não podemos contar com mudanças nos sistemas sociais que se operem como transição imperceptível de um sistema para o outro por meio de reformas, por concessões da classe dominante.

Wells: Fico-lhe grato por essa conversa que muito significou para mim. Ao dar-me esta explicação, o senhor se recordou, provavelmente, de como explicava os fundamentos do socialismo, nos círculos ilegais, antes da Revolução. Atualmente, há no mundo apenas duas pessoas cuja opinião, cada palavra, é ouvida por milhões: o senhor e Roosevelt.

Outros poderão pregar tudo que lhes agrade; o que disserem nunca será escrito ou escutado. Ainda não pude apreciar que os senhores fizeram no país; cheguei ontem. Porém já vi os rostos felizes de homens e mulheres saudáveis, e sei que algo de considerável está- se fazendo aqui. O contraste com 1920 é assombroso.

Stálin: Muito mais teríamos feito nós, bolcheviques, se fôssemos mais capazes.

Wells: Não, se em geral os seres humanos fossem mais inteligentes. Seria uma grande coisa inventar um plano qüinqüenal para a reconstrução do cérebro humano que, evidentemente, carece de muitas coisas necessárias para uma ordem social perfeita. (Risos)

Stálin: O senhor não vai ficar para assistir ao Congresso da União de Escritores Soviéticos?

Wells: Infelizmente, não. Tenho vários compromissos e só poderei demorar uma semana na União Soviética. Vim vê-lo, e estou muito satisfeito com a nossa entrevista. Porém, tenho intenção de falar com os escritores soviéticos, para ver se consigo que se filiem ao P.E.N. Club. Esta é uma organização internacional de escritores fundada por Galsworthy. Depois da morte dele, o sucedi como presidente. A organização ainda é débil, mas tem seções em numerosos países e, o que é mais importante, as intervenções dos seus membros são amplamente comentadas na imprensa. Essa organização defende o direito da livre expressão de todas as opiniões, nelas compreendidas as de oposição. Espero poder discutir este ponto com Gorki. Não sei se uma tão ampla liberdade pode ser permitida aqui.

Stálin: Nós, os bolcheviques, chamamos a isso "auto-crítica". É amplamente usada na U.R.S.S. Se há algo que eu possa fazer para ajudá-lo, fa-lo-ei com muito prazer.

Wells: Muito agradecido.

Stálin: Agradeço pela entrevista.


Impressões sobre Ouro Preto

Posted: 12.2.10 by Glauber Ataide in Marcadores:
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No mês passado finalmente fui conhecer a cidade histórica de Ouro Preto, que apesar de tão perto daqui de Belo Horizonte, eu nunca tido ido visitar.

Chegamos bem cedo na cidade. Pegamos algumas informações sobre seus pontos turísticos, um mapa e fomos caminhando. Essa opção de ir a pé e deixar o carro estacionado nos deixou exaustos ao final do dia, mas valeu a pena. Dessa forma pudemos "sentir" mais a cidade.

Quanto entrei na primeira igreja (São Francisco de Assis), fiquei impressionado. A igreja possui mais de 400 kg de ouro em suas obras, de autoria do Mestre Ataíde. E quando se olha para cima, contempla-se o imponente teto da nave da igreja, com uma maravilhosa pintura representando a Virgem Maria, o Menino Jesus, alguns pais da igreja em suas extremidades (como Santo Ambrósio, Santo Agostinho, etc) e dezenas de anjos.

Mas uma das coisas que mais me impressionou nesta igreja foi perceber que o chão era demarcado em uma série de retângulos, todos numerados. Fiquei sabendo então que estávamos andando sobre túmulos! Sim, por todo o piso da igreja estão enterrados frades franciscanos! Veja uma foto da fachada dessa igreja.


Diante do fato das pinturas e esculturas do interior retratarem frequentemente um Cristo extremamente flagelado, machucado, a informação de estarmos caminhando sobre dezenas de túmulos deu um clima ainda mais mórbido-medieval ao lugar.

Depois fomos à igreja na qual Aleijadinho está enterrado, e visitamos o seu museu. O clima mórbido se tornou ainda mais agudo quando entramos em uma seção apenas de peças mortuárias. Ela é escura, com o teto baixo e algumas imagens chegam a ser macabras. Fiquei ainda mais impressionado quando vi, exposto em meio às obras, um pedaço de osso do próprio Aleijadinho, exumado na década de 90.

E quanto mais conhecíamos a cidade, mais latente ficava a impressão de morbidez e violência expressa em sua arte.

Depois fizemos uma incursão à Mina do Chico Rei. Este Chico Rei foi um escravo que, antes de ser trazido para o Brasil como tal, era um rei na África. Ele conseguiu posteriormente sua carta de alforria e comprou essa mina, a qual lhe forneceu recursos para que ele libertasse muitos outros escravos posteriormente. A mina é bem estreita, e em alguns trechos só se consegue passar agachando-se. Só de pensar que ali era uma mina de ouro de verdade na qual escravos trabalhavam há pouco mais de 200 anos atrás nos dá uma real sensação de estar voltando no tempo.


Passamos em alguns outros lugares e, ao final do dia, fomos visitar o Museu dos Inconfidentes. Achei um dos melhores pontos da cidade. Lá vimos várias peças mobiliárias, roupas, acessórios, armas e muitas outras coisas que só vemos em filmes que retratam o século XVIII. Estava tudo ali, de verdade, na nossa frente.

Mas o ponto máximo foi quando cheguei diante de uma enorme peça de madeira e vi que se tratava de uma parte da forca do Tiradentes. Logo ali do lado havia um livro muito antigo no qual estava inscrito a condenação original do inconfidente. Lá pode-se ler:

"Portanto condenam ao Réu Joaquim José da Silva Xavier por alcunha o Tiradentes Alferes que foi da tropa paga da Capitania de Minas a que com baraço e pregão seja conduzido pelas ruas publicas ao lugar da forca e nella morra morte natural para sempre, e que depois de morto lhe seja cortada a cabeça e levada a Villa Rica aonde em lugar mais publico della será pregada, em um poste alto até que o tempo a consuma, e o seu corpo será dividido em quatro quartos, e pregados em postes pelo caminho de Minas no sitio da Varginha e das Sebolas aonde o Réu teve as suas infames práticas e os mais nos sitios (sic) de maiores povoações até que o tempo também os consuma; declaram o Réu infame, e seus filhos e netos tendo-os, e os seus bens applicam para o Fisco e Câmara Real, e a casa em que vivia em Villa Rica será arrasada e salgada, para que nunca mais no chão se edifique e não sendo própria será avaliada e paga a seu dono pelos bens confiscados e no mesmo chão se levantará um padrão pelo qual se conserve em memória a infamia deste abominavel Réu..."

Numa câmara adjacente se encontram túmulos com os restos mortais de vários inconfidentes, no qual há um simbólico túmulo vazio, representando todas os outros heróis do povo que lutaram pela libertação nacional mas que não estavam fisicamente ali. E em um lugar de honra, especial, com uma bandeira de Minas Gerais ao fundo, o túmulo vazio de Tiradentes.


Após ler a condenação de Tiradentes, ver sua forca e me lembrar de toda a arte que tinha visto até ali, cheguei a comentar com a minha esposa: como podia um povo que era tão religioso, a ponto de sua arte não expressar nada além da religião, ser ao mesmo tempo tão violento? Tentando compreender isso, a única ligação que encontrei para harmonizar essas duas coisas, isso é, a violência da época e a religião, foi que sua violência estava também na religião. Sua religião era também violenta, como bem mostram os flagelos de Cristo e a constante presença de crânios nas pinturas.

Visitamos vários outros lugares da cidade, como a casa do poeta Tomás Antônio de Gonzaga, nas paredes da qual há vários versos para Marília de Dirceu. É uma sensação diferente estar no lugar e pensar: "Ahn, então era aqui que ele morava...". Talvez seja uma sensação de real "proximidade" com um personagem histórico.



Ouro Preto é uma cidade fascinante. Uma viagem no tempo. Antes de ir para lá, cheguei a ler em um site a seguinte informação:

"Os médiuns dificilmente conseguem visitar Ouro Preto. Talvez sintam a forte carga de energia humana que paira sobre suas igrejas e casas. Não é preciso ser mais sensível para perceber que não se entra sozinho nesta cidade mineira. Há sempre algo, um vulto que acompanha e sussurra palavras contundentes de amor ou de ódio. Ouro Preto é uma fascinante maquete do que a humanidade produziu de melhor e pior. Aqui a história pesa em nossos ombros."

Também tive essa impressão.


Notas:

Apenas a foto do túmulo do Tiradentes não é de minha autoria, já que é proibido fotografar o interior do museu e das igrejas.

Facebook, Big Brother e a Sociedade do Espetáculo

Posted: 9.2.10 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Guy Debord compreendeu de tal forma o mecanismo do espetáculo sob o capitalismo que, ao lermos sua intocável obra A sociedade do espetáculo, de 1967, temos a impressão que o autor já conhecia fenômenos como Facebook, Whatsapp e Big Brother. Mas não era isso. É que ele conseguiu compreender a essência daquilo que, no capitalismo, levaria ao desenvolvimento desses fenômenos.

Mas o que é o "espetáculo"? Para Debord, "o espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediada por imagens".

José Arbex Jr. no livro "Showrnalismo: a notícia como espetáculo", explica assim:

"O espetáculo consiste na multiplicação de ícones e imagens, principalmente através dos meios de comunicação de massa, mas também dos rituais políticos, religiosos e hábitos de consumo, de tudo aquilo que falta à vida real do homem comum: celebridades, atores, políticos, personalidades, gurus, mensagens publicitárias – tudo transmite uma sensação de permanente aventura, felicidade, grandiosidade e ousadia. O espetáculo é a aparência que confere integridade e sentido a uma sociedade esfacelada e dividida. É a forma mais elaborada de uma sociedade que desenvolveu ao extremo o ‘fetichismo da mercadoria’ (felicidade identifica-se a consumo). Os meios de comunicação de massa – diz Debord – são apenas ‘a manifestação superficial mais esmagadora da sociedade do espetáculo, que faz do indivíduo um ser infeliz, anônimo e solitário em meio à massa de consumidores’".

O espetáculo é a vida mediada por imagens, isso é, quando a vida é deixada de ser vivida diretamente para ser vivida através de imagens. O espetáculo é a negação da vida. Essa lógica, identificada por Debord já na década de 60, é a mesma que levou ao desenvolvimento das atuais redes virtuais de relacionamento.

O Big Brother é uma outra expressão inequívoca do espetáculo. Seu nome vem de um personagem homônimo, da obra 1984, de George Orwell. O Big Brother (ou "Grande Irmão) era o ditador da totalitária Oceania. Através de câmeras, ele vigiava todos os cidadãos em qualquer lugar, inclusive dentro de suas próprias casas.

A falsa realidade apresentada pelo reality show Big Brother é consumida por uma multidão hipnotizada e ávida por realidade. Mas o que encontram é apenas uma realidade que esvaziou-se, assim como eles próprios. O Big Brother é uma "ficção do real".

Os participantes se submetem a uma exposição humilhante de sua intimidade (como quando fazem sexo dentro da casa) apenas para obter uma fama quase tão passageira quanto a sua participação no programa. Mas Debord já explicava o por que disso:

"A primeira fase da dominação da economia sobre a vida social levou, na definição de toda a realização humana, a uma evidente degradação do ser em ter. A fase presente da ocupação total da vida social em busca da acumulação de resultados econômicos conduz a uma busca generalizada do ter e do parecer, de forma que todo o "ter" efetivo perde o seu prestígio imediato e a sua função última. Assim, toda a realidade individual se tornou social e diretamente dependente do poderio social obtido. Somente naquilo que ela não é, lhe é permitido aparecer."

Na sociedade do espetáculo, não basta a degradação do ser ao ter. Ela vai além, e degrada o ter em parecer ter.

Uma curiosa ocorrência disso encontramos entre membros da classe média, que moram em minúsculos apartamentos mas possuem carros extravagantes na garagem. Como quase ninguém os conhece em sua intimidade, eles não precisam de um imóvel grande para acomodar visitas. No entanto, como muita gente lhes vê nas ruas desfilando com o seu automóvel (desde que o seu vidro não seja fumê), daí então a necessidade do parecer.

O espetáculo, vale repetir, é a negação do real. É a vida deixada de ser vivida diretamente para ser vivida através de imagens, através do consumo de imagens. O espetáculo hoje está mais explícito do que nunca.

Vamos finalizar com o aforismo 30 do livro de Debord:

"A alienação do espectador em proveito do objeto contemplado (que é o resultado da sua própria atividade inconsciente) exprime-se assim: quanto mais ele contempla, menos vive; quanto mais aceita reconhecer-se nas imagens dominantes da necessidade, menos ele compreende a sua própria existência e o seu próprio desejo. A exterioridade do espetáculo em relação ao homem que age aparece nisto, os seus próprios gestos já não são seus, mas de um outro que lhos apresenta. Eis porque o espectador não se sente em casa em parte alguma, porque o espetáculo está em toda a parte."

Reforma ou revolução?

Posted: 2.2.10 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Já no final do século XIX o oportunismo havia tomado conta de grande parte dos líderes da social-democracia alemã, que tentavam "revisar" conceitos fundamentais do marxismo, abandonando a luta de classes e pregando a conciliação do proletariado para com a burguesia.

Esse revisionismo teve como seu principal porta-voz Eduard Bernstein, que vinha com sua tática de sapa afirmar que um desmoronamento do capitalismo parecia cada vez mais improvável, e que era possível chegar ao socialismo através de pequenas reformas sociais ao invés da revolução popular armada.

Rosa Luxemburgo, levantando-se contra o oportunismo de Bernstein, publicou em 1900 a obra "Reforma ou revolução?", combatendo a corrente revisionista que se espalhava entre dirigentes do movimento proletário social-democrata alemão. Para Rosa, a questão "reforma ou revolução" significava "ser ou não ser".

Segundo Bernstein, a adaptação do capitalismo para o socialismo se daria através das reformas sociais e de instituições como os sindicatos e as cooperativas. E tudo sempre pela "via legal".

Sobre a questão dos sindicatos, Rosa demonstra que essas organizações não são mais que um meio para realizar a lei capitalista dos salários. Sua atividade é lutar por aumentos de salários e redução do tempo de trabalho, isso é, a regularização da exploração capitalista de acordo com a situação momentânea do mercado. Os sindicatos são órgãos de defesa, não de ataque contra o lucro capitalista.

Os sindicatos não podem interferir no processo de produção e regular o "controle social da produção", como o queria Bernstein. Tampouco o poderiam as cooperativas, o que ele também defendia. Dessa forma, a "expropriação por etapas" através dos sindicatos é impossível.

Bernstein também se equivoca ao considerar a evolução do estado para sociedade como uma condição para a realização passiva ao socialismo. Demonstrando graves deficiências no conhecimento das mais básicas premissas do marxismo, ele falha em compreender a natureza do estado atual, isso é, o estado como uma organização da classe capitalista.

Rosa Luxemburgo desmascara o revisionismo e demonstra que ele visa não suprimir as contradições capitalistas, mas apenas atenuá-las, suavizá-las. Ela explica que a teoria bernsteiniana nada mais é do que uma generalização teórica do ponto de vista do capital isolado, o que demonstra que sua análise econômica cometia os mesmos erros da economia clássica burguesa.

Sobre a "conquista do poder político através de reformas", isso é impossível, responde Rosa. Na sociedade burguesa a reforma legal serviu para o reforçamento progressivo da classe ascendente até essa assumir o poder político e suprimir o sistema jurídico antigo que entravava seu desenvolvimento.

Ela explica que reforma legal e revolução não são métodos diferentes de desenvolvimento histórico que se pode escolher como se escolhe salsichas quentes ou frias, e sim fatores diferentes no desenvolvimento da sociedade de classe.

Qualquer constituição legal outra coisa não é que o produto da revolução, sendo esta o ato de criação política da história de classe, e aquela a expressão política da vida e da sociedade.

Quem se pronuncia a favor das reformas legais, em vez de e em oposição à revolução social, não escolhe assim um caminho mais lento levando para a mesma finalidade, mas sim para uma finalidade diferente, isto é, modificações superficiais na antiga sociedade em vez da instauração de uma nova.

Rosa nos chama a atenção para um importante aspecto do capitalismo: a dominação de classe hoje não repousa em "direitos adquiridos", e sim em verdadeiras relações econômicas.

Por conseguinte, como suprimir "pela via legal" a escravidão do assalariado se ela não está absolutamente expressa nas leis?

Nas sociedades anteriores o antagonismo de classes encontrava expressão em relações jurídicas bem determinadas, mas hoje a situação é bem diversa. O proletariado não é obrigado por nenhuma lei a submeter-se ao jugo do capital. Ele é obrigado a tal através da miséria, pela falta de meios de produção.

Na sociedade burguesa não pode haver leis que possam proporciar ao proletariado esses meios de produção, pois não foi a lei, e sim o desenvolvimento econômico que lhos arrancou.

Assim Rosa expõe os erros do revisionismo de Bernstein & Cia, e de forma quase profética afirma: é inteiramente impossível imaginar-se que uma transformação tão formidável como é a passagem do capitalismo ao socialismo se realize de uma só vez, por meio de um golpe feliz do proletariado.

Conhecendo bem o processo histórico, que tem seus recuos momentâneos mas caminha em uma marcha sempre ascendente, ela já esperava alguns equívocos nas primeiras tentativas de implantação do socialismo.

E foi justamente esse revisionismo que Rosa tanto combateu que se configurou em uma das principais causas do colapso do socialismo na União Soviética após a morte de Stalin.


Ditadura em Cuba?

Posted: 30.1.10 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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O PIG (Partido da Imprensa Golpista) nos bombardeia tanto com a palavra "democracia" que ela tem se tornado uma palavra gasta, sem sentido. Sabe quando você fica repetindo uma mesma palavra até que você não consegue mais raciocinar sobre o seu significado? Pois é, estamos mais ou menos assim.

Em nome da "democracia" o império do norte (EUA) invade alguns países, implanta ditaduras militares em uns e derruba governos populares em outros. A "democracia" se tornou praticamente um axioma, tem quase o status de uma lei lógica ou matemática. Não se discute se o melhor sistema de governo é uma "democracia".

Mas há pelo menos dois graves problemas com tudo isso: o primeiro é que não existe uma única forma de "democracia", e o segundo é que a nossa chamada "democracia" não é nada mais que a democracia burguesa.

Em Cuba, país acusado de viver sob uma "ditadura" do "terrível ditador" Fidel Castro, há eleições regularmente para definir os representantes da população. E o que é mais interessante: apesar do voto não ser obrigatório, mais de 95% da população sempre comparece às urnas nas eleições periódicas desde 1976. Este percentual é muito diferente do que acontece até mesmo nos EUA, no qual a média está entre 50% e 60%.

Neste momento alguém pode perguntar: mas como há eleições se existe apenas um partido? Ele disputa a eleição contra si próprio? Não, isso seria ridículo. O que acontece, na verdade, é que o Partido Comunista de Cuba nem mesmo participa das eleições.

Os candidatos se inscrevem, primeiramente, em reuniões de seus bairros para este fim, de forma bem simples e rústica. Às vezes não têm nem som para cantar o hino nacional. Os pré-candidatos apresentam então as suas propostas, e a população local, neste momento levantando as mãos, escolhe o candidato que irá concorrer às eleições para vereador.

Ou seja, estes candidatos não são definidos por uma "elite", por ordens "de cima". É a própria população que elege os seus candidatos que posteriormente concorrerão com outros candidatos, também eleitos pelas populações de outras localidades, para ocupar determinado posto.

O próprio Fidel Castro se candidatava como deputado. Ele era eleito, primeiramente, como deputado de um distrito. E só então é que ele ficava encarregado de constituir o Governo e se tornava Chefe-de-Estado, da mesmíssima forma que ocorreu no caso de Tony Blair quando tomou posse da Inglaterra como primeiro ministro.

É bem provável que se este sistema fosse adotado no Brasil, por exemplo, muitos dos nossos governantes nunca chegariam ao poder, porque para isso, eles deveriam ser eleitos por seus vizinhos e pelas pessoas do seu próprio bairro.

Um outro fato interessante em Cuba é que durante a votação as urnas são vigiadas por crianças. Isso é para demonstrar a limpeza do processo eleitoral. Antes da revolução cubana, quem fazia isso era o exército. Não precisamos falar sobre as correntes fraudes que isso suscitava. E a contagem dos votos é pública, diante de quem quiser ver, com o resultado parcial sendo divulgado na mesma hora, diretamente aos ali presentes.

A democracia burguesa diz que não pode haver verdadeira "democracia" em um sistema de partido único, como é o caso de Cuba. Mas a questão é que uma pluraridade de partidos de maneira nenhuma garante uma democracia. O que se verifica na prática é que existem muitos partidos mas apenas uma classe social exercendo todos os poderes.

Tampouco a divisão dos poderes (executivo, legislativo e judiciário) garante a "democracia". Diz-se que eles estão dividos e independentes, mas estão todos, no entanto, no controle de pessoas de uma única e mesma classe.

Além disso, quando dizem que em Cuba não há "democracia", fazem questão de omitir que lá existem mais de duas mil organizações socias e organizações não-governamentais de caráter científico, religioso, de proteção ao meio ambiente, etc. E algumas delas com milhões de membros.

O PIG parece ter aprendido bem com Goebbels, ministro de propaganda de Hitler, que dizia que uma mentira repetida mil vezes se torna uma verdade. Querendo difamar de toda forma a revolução cubana e tentando desqualificar aos olhos da grande população o socialismo como a única alternativa ao capitalismo, espalha a todo canto, ad nauseam, a mentira deslavada de que não há democracia em Cuba. Mas a única democracia que lá não existe é a democracia burguesa. Os cubanos adotam uma forma superior de democracia em que a população tem uma participação muito mais efetiva na direção política de seu país do que é possível acontecer na democracia burguesa.


Notas

A maioria das informações deste post se encontram no excelente documentário argentino "Fatos, não palavras: os direitos humanos em Cuba", de Carolina Silvestre. Neste documentário podemos conhecer muito mais de Cuba, como o seu sistema prisional que transforma infratores em trabalhadores, fazendo com que os presos estudem e saiam da cadeia formados. Este documentário pode ser baixado via torrent ou visualizado no Youtube. A primeira parte está aqui: http://www.youtube.com/watch?v=JdQU0mXrUXo.

Stalin - um novo olhar

Posted: 26.1.10 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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É impressionante como a propaganda nazista, criada por Hitler & Cia para justificar sua agressão à União Soviética, não foi morta e enterrada debaixo dos escombros de Berlim após a vitória fulminante dos russos comunistas sobre a grande ameaça ariana. Essa propaganda, infelizmente, teve os EUA como seus continuadores.

É praticamente uma "verdade indiscutível" dizer que Stalin matou milhões de pessoas; que Stalin era um "ditador" sangue-frio; que tinha uma "inteligência medíocre"; que ele causou a fome da Ucrânia; que ele planejou mal a guerra contra Hitler, etc, etc.

Mas em sua extremamente bem documentada obra "Stalin - um novo olhar", Ludo Martens nos mostra um Stalin vivo, forte, determinado, de grande capacidade intelectual, lúcido, coerente e um excelente estrategista militar, o que contrasta completamente com as velhas propagandas nazistas da década de 30 que ainda enganam o mundo. Nos mostra como as "estatísticas" dos "milhões" de mortos sob Stalin foram forjadas antes e durante a guerra fria, mas depois completamente desmascaradas nas aberturas dos arquivos soviéticos na década de 1990, apesar da burguesia não ter interesse em "corrigir" sua literatura anticomunista defasada.

As velhas mentiras hitleristas persistem, mas não sem razão: Stalin é o pior pesadelo que a burguesia já teve. Foi ele quem elevou a URSS a uma condição de potência em apenas algumas décadas de socialismo e venceu a II Guerra Mundial. A burguesia ainda hoje teme Stalin como o diabo teme a cruz.

Refreie os seus impulsos de caridade!

Posted: 14.1.10 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Neste final de ano, devido às festas natalinas, acompanhamos várias demonstrações de caridade nos telejornais. Mas uma matéria em particular me chamou a atenção, na qual uma "boa alma" de classe média, em seu veículo de porte pequeno-burguês, estava a distribuir presentes para crianças em uma determinada periferia de São Paulo, terrivelmente castigada pelas enchentes.

Achei impressionante nenhum repórter ter questionado a razão daqueles miseráveis não estarem preparando um peru ao invés de estarem removendo as águas da chuva de dentro de suas casas. Parece que isso não passa pela cabeça da maioria das pessoas. Mas mesmo se alguém perguntar, muita gente vai dar a resposta default: "Mas o mundo é assim mesmo!".

Não obstante eu estar evocando exemplos recentes, caridades acontecem o ano inteiro, o tempo todo. Não em proporções natalinas, mas acontecem.

Mas deixe-me aqui discordar de que a caridade seja algo sempre bom. Não é. A caridade, embora praticada com intenções louváveis, tem o efeito nefasto não de curar as doenças diagnosticadas no seio social, mas apenas de prolongá-las. É isso o que afirma o escritor Oscar Wilde em seu pequeno artigo "A alma do homem sob o socialismo".

Segundo Wilde, os caridosos "buscam solucionar o problema da pobreza... mantendo vivo o pobre. Mas isso não é uma solução: é um agravamento da dificuldade".

As pessoas não querem esmolas, querem dignidade. Querem trabalhar, serem vistas como tendo valor e sendo capazes. Os pobres deveriam rejeitar as esmolas, mas ainda lhes falta essa consciência.

Vale a pena ler Wilde sobre isso:

"Frequentemente ouvimos dizer que os pobres são gratos pela caridade. Decerto alguns são gratos, mas nunca os melhores dentre eles. São ingratos, insatisfeitos, desobedientes e rebeldes. Têm toda a razão em o serem. Para eles, a caridade é uma forma ridícula e inadequada de restituição parcial, ou esmola piedosa, em geral acompanhada de alguma tentativa por parte da alma apiedada de tiranizar suas vidas. Por que deveriam ser gratos pelas migalhas que caem da mesa do homem rico? Deveriam é estar sentados a ela, e já começam a se dar conta disso. Quanto à insatisfação, aquele que não se sentisse insatisfeito com essa condição inferior de vida seria um perfeito estúpido. A desobediência é, aos olhos de qualquer estudioso de História, a virtude original do homem. É através da desobediência que se faz o progresso, através da desobediência e da rebelião. Às vezes elogiam-se os pobres por serem parcimoniosos. Mas recomendar-lhes parcimônia é tão grotesco quanto insultuoso. É como aconselhar um homem que esteja passando fome que coma menos.

[...]

Um homem não deveria estar pronto a mostrar-se capaz de viver como um animal mal alimentado. Deveria recusar-se a viver assim, e deveria ou roubar ou viver às expensas do Estado, o que muitos consideram uma forma de roubo. Quanto a pedir esmolas, é mais seguro pedir do que tomar, mas é bem mais digno tomar do que pedir (!). Não: um homem pobre que seja ingrato, perdulário, insatisfeito e rebelde possui decerto uma personalidade plena e verdadeira. Constitui, de qualquer forma, um protesto sadio. Quanto aos pobres virtuosos, é natural que deles se tenha piedade, mas não admiração. Fizeram um acordo secreto com o inimigo e venderam seus direitos inatos em troca de um péssimo prato de comida. Devem também ser muito tolos. Posso compreender que um homem aceite as leis que protegem a propriedade privada e admita sua acumulação, desde que nessas circunstâncias ele próprio seja capaz de atingir alguma forma de existência harmoniosa e intelectual. Parece-me, porém, quase inacreditável que um homem cuja existência se perdeu e abrutalhou por força dessas mesmas leis possa vir a concordar com a sua vigência." (Grifo nosso)

Os bons samaritanos deveriam aplicar melhor seu humanismo. A saída não é manter o pobre vivo para viver na pobreza. A meta adequada, ainda segundo Wilde, é esforçar-se por reconstruir a sociedade em bases tais que nela seja impossível a pobreza. Mas as virtudes altruístas têm na realidade impedido de alcançar essa meta.

Às vezes é difícil conter nossos impulsos altruístas. Eu sou particularmente sensível a uma criança abandonada na rua ou mendigando. Mas isso ao mesmo tempo me dá ódio. Talvez é o sentimento ao qual Che Guevara se referia quando afirmava que "se você é capaz de tremer de indignação a cada vez que se comete uma injustiça no mundo, então somos companheiros".

Mas como comunista, sei que luto por uma sociedade em que isso não vai existir. Seria imbecil acreditar que a solução é apenas deixar de dar esmolas ou de praticar caridades. Este não é o caminho. O caminho é a luta. E a luta, pela via revolucionária, é por uma sociedade em que caridades não sejam necessárias.

Eu confesso que ainda tenho recaídas. Algumas vezes não resisto e compro uma bala de alguma criança que aparece vendendo, apesar do peso na consciência que me sobrevém depois. Mas há poucas semanas resisti a uma garotinha dessas que aparecem na janela do carro. Eu lhe perguntei:

- Quantos anos você tem?
- Onze.
- Você estuda?
- Sim.
- Em que série você está?
- Na quarta.
- Por que você vende balas? É a sua mãe que manda?
- Sim.
- Não pode não, viu filha? Você tem que estudar.
- (Ela acena positivamente com a cabeça, de forma meio triste e reflexiva.)

E o sinal abriu. Eu não ajudei dessa maneira a melhorar a vida desta garota, que talvez nem se lembre de mim da forma que eu me lembro dela. Mas o que eu guardo dessa situação é esse sentimento de indignação, de ódio contra a exploração e a miséria no capital. E isso me dá forças para seguir em frente em minha militância para a destruição do capitalismo rumo à instauração de uma sociedade superior, a sociedade socialista, o que é, na verdade, uma exigência do próprio desenvolvimento histórico, à medida que cada vez mais o capitalismo, em sua forma imperialista e parasitária, apresenta elementos reais de estagnação.

Refreie os seus impulsos de caridade. Mas não faça só isso. Deixar de prolongar a doença não significa curá-la.


Comportamento no trânsito: psicanalisando e filosofando um pouco - Parte II

Posted: 18.12.09 by Glauber Ataide in Marcadores: , ,
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No texto anterior ensaiamos que algumas das prováveis causas de uma "baixa" ou de um "enfraquecimento" da atuação do ego e do superego na atividade psíquica do motorista ao volante podem ser as falsas sensações de segurança e de invisibilidade.

No entanto, isso não explica tudo. Percebemos um comportamento agressivo e também inconsequente mesmo quando essas falsas sensações parecem não estar presentes, e me refiro aqui especificamente ao caso dos motoqueiros.

O condutor de uma motocicleta está numa situação completamente oposta à do condutor de um veículo. Ele está completamente exposto a acidentes e não pode ter nenhuma expectativa de privacidade. Mas sua imprudência, todavia, é notável.

Nestes, mais do que naqueles, a predominância do princípio de prazer é ainda mais evidente, dado que uma conduta racional de seu veículo, baseada nas probabilidades de uma fatalidade em caso de acidente resultaria em um comportamento totalmente avesso ao que presenciamos em nossas ruas e avenidas.

O que parece concorrer para este tipo de comportamento é uma outra forma de invisibilidade. O trânsito é formado por uma multidão de anônimos, onde ninguém conhece ninguém. Os motociclistas, devido à sua maior fluidez no tráfego, são as maiores incógnitas deste espetáculo.

Além desse tipo de invisibilidade há um outro ponto que podemos visualizar melhor através de uma representação. Imaginem uma pessoa diante de um cachorro perigoso que está preso e atrás de grades. Essa pessoa grita, bate o pé, bate palmas e irrita o cachorro de toda forma possível. Agora imaginem, diante dessa mesma pessoa, este mesmo cachorro, mas livre e sem as grades. Adivinhem o seu comportamento.

Quando um revide é pouco provável a maioria das pessoas não se comporta da mesma maneira do que quando isso é uma possibilidade. Voltamos aqui então na questão da invisibilidade, na questão do anel de Giges abordado no texto anterior. O anonimato no trânsito é uma forma de invisibilidade, e esse anonimato é ainda mais acentuado para os motoqueiros devido à sua maior capacidade de fluidez entre os veículos.

Essa maior fluidez parece lhes dar a sensação de não ocupar lugar no espaço, daí sua direção agressiva ao trafegar em estreitos becos formados por veículos em movimento e suas lendárias "fechadas", que parecem não levar em conta sua fragilidade e o alto risco de fatalidade em caso de colisão.

Freud afirma que onde hoje pedimos alguém licença para passar, antigamente lhe dávamos um empurrão para que saísse de nossa frente. Este "antigamente" se refere a quando tudo era id, quando não havia ego. O princípio de prazer é demasiado evidente na conduta dos motoristas. Onde eles deveriam esperar, eles querem passar na frente, e quando um revide parece improvável devido ao anonimato ou à própria capacidade de fluidez no trânsito este comportamento encontra menor resistência para expressão.

Comportamento no trânsito: psicanalisando e filosofando um pouco - Parte I

Posted: 16.12.09 by Glauber Ataide in Marcadores: , ,
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Ouvi em um noticiário há pouco tempo uma discussão sobre trânsito. Os apresentadores se questionavam sobre como era possível que pessoas absolutamente "calmas" e "normais" em seu cotidiano se transformassem completamente quando estão ao volante.

Isso me remeteu a um comentário de Freud em seus "Três ensaios sobre a sexualidade", no qual ele diz que as perversões sexuais muitas vezes ocorrem de forma isolada em indivíduos que são "normais" em todas as outras áreas. O comportamento no trânsito, de forma semelhante, nem sempre reflete a personalidade do motorista. Pelo menos não aquela consciente.

Já em um outro jornal, vários dias depois, um conhecido jornalista ensaiou uma interpretação psicanalítica do comportamento agressivo ao volante. Neste seu esboço ele dizia que um indivíduo, talvez por um complexo de inferioridade ou por se sentir "passado pra trás" na vida, no amor ou nos negócios, não permitirá que ninguém o "ultrapasse" no trânsito.

Mas o que eu venho tentando compreender é o que deve acontecer com o ego e o superego quando o indivíduo está dirigindo. Sabemos que as pulsões de agressividade provindas do id a todo momento buscando gratificação são combatidas pelo ego. O id, regido pelo princípio de prazer, não se preocupa com o que possa acontecer caso ele consiga o que quer. É o ego, regido pelo princípio de realidade, que faz essa mediação entre as exigências do id e da realidade externa.

É fato que as pulsões do id encontram menor resistência no indivíduo que está ao volante. Parece haver uma "baixa" da guarda do ego e do superego, pois o comportamento transgressor no trânsito nem sempre é percebido como tal. Isso é um comportamento típico do id, um comportamento regido pela busca imediata de alguma gratificação sem se importar com as consequências.

Fico imaginando se isso talvez não seja causado por uma falsa sensação de segurança proporcionada por se estar no interior de uma caixa de metal, que é o carro. Ou se talvez isso seja devido a uma sensação de "invisibilidade" no trânsito. Pessoas que costumam enfiar o dedo no nariz parecem se sentir particularmente invisíveis ao volante.

A "invisibilidade" e sua correlação com um comportamento ético foi abordada por Platão na famosa passagem do anel de Giges, na obra "A República". Este anel, encontrado por Giges, lhe dava a capacidade de se tornar invisível. Percebendo isso, ele seduziu a mulher de seu rei, atacou-o e matou-o com a sua ajuda. Gláucon então afirma que "se, portanto, houvesse dois anéis como este, o homem justo pusesse um, e o injusto outro, não haveria ninguém, ao que parece, tão inabalável que permanecesse no caminho da justiça...", pois "... ninguém é justo por sua vontade, mas constrangido, por entender que a justiça não é um bem para si, individualmente, uma vez que, quando cada um julga que lhe é possível cometer injustiças, comete-as".

Talvez essas falsas sensações de segurança e invisibilidade estejam entre as causas de um enfraquecimento da atuação do ego e do superego na atividade psíquica do motorista ao volante, o que explica seu comportamento agressivo e transgressor, caracterizado pelo princípio de prazer.

Complexo de vira-lata

Posted: 27.11.09 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Parece ser uma necessidade psicológica da direita brasileira, classe histérica e raivosa, perpetuar o que Nelson Rodrigues identificava no povo brasileiro como "complexo de vira-lata".

Nelson definia esse complexo como "a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo". Em nossa história recente tivemos várias campanhas publicitárias, a exemplo do slogan "sou brasileiro e não desisto nunca", para aumentar a nossa auto-estima.

Mas perpetuar esse complexo não é apenas uma necessidade psicológica da direita. Não permitir que o brasileiro o supere também faz parte do projeto da burguesia nacional para o país.

Qual é esse projeto? O projeto é justamente não ter projeto. É deixar que alguém "com mais capacidade" cuide disso. É vender o Brasil inteiro para que cuide dele "quem tem competência". Ela precisa convencer o resto do país de que somos todos um bando de incapazes, assim como eles, e que se não deixarmos que os estrangeiros tomem conta do que é nosso, estaremos todos perdidos. É a mesma mentalidade de povo colonizado de sempre. Mentalidade de povo escravo, submisso, subjugado.

A direita não tem um rumo a apontar para o país. Por essa razão, ao reconhecer sua incapacidade de governar um Brasil soberano, ela tenta projetar sua própria inferioridade ao resto da nação.

Renato Russo resumiu bem nos últmos versos da letra de "Que país é esse?" qual o projeto da direita para o Brasil:

"Mas o Brasil vai ficar rico
Pois vamos faturar um milhão
Quando vendermos todas as almas
Dos nossos índios num leilão"

Ou seja, para a burguesia brasileira, o caminho para a prosperidade da nação é se abrir para o capital estrangeiro, vender tudo o que ela tem, todas as suas riquezas naturais, tudo o que lhe é mais sagrado, expresso metaforicamente pelo leilão das almas dos nossos índios.

O povo brasileiro vem aos poucos superando seu complexo de vira-lata, mas não a direita. Ainda podemos ouvir os ecos dos gritos e dos esperneios de reação ao anúncio do Brasil como sede da Copa de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016. A direita não acredita que seremos capazes. Ela não julga o Brasil digno.

Se temos muitos problemas? Certamente, e muitos. Mas o brasileiro é um povo de luta e de trabalho, e não podemos deixar de acreditar em nossa própria capacidade.

Temos hoje que dar continuidade a um projeto progressista de um Brasil livre, soberano, para que possamos em muito breve chegar à superação do capitalismo parasitário através de uma sociedade superior, a sociedade socialista.

Por isso devemos deixar de lado esse complexo de vira-lata definitivamente. Não é a burguesia brasileira quem deve definir nossa auto-imagem. Deixemo-la gritando sua parolagem neurótica sozinha. Esse tipo de enfermidade não se cura ao mostrar ao doente que "suas idéias não correspondem aos fatos".

Hitler e a direita

Posted: 12.11.09 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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A direita parece não suportar a vergonha de ter enquadrado em suas fileiras alguém como Adolf Hitler. Ela tenta a todo custo encontrar alguma forma de "transferir" essa "responsabilidade" para o campo da esquerda.

Você já reparou com que frequência vemos o socialismo associado ao nazismo em capas de revista, por exemplo? Pois é, são coisas desse tipo que a direita vem fazendo para tentar "emplacar" a idéia de que Hitler não era um dos seus.

Como um jovem pobre que foi recusado na faculdade de artes por duas vezes conseguiu chegar ao poder e causar todo o estrago que fez ao mundo? Pura habilidade política? Pura retórica? Claro que não.

No período entre as duas guerras e com o sucesso da revolução russa em 1917, o socialismo estava se tornando uma ameaça na Alemanha. O partido comunista era o maior e o mais influente. Literalmente, "um espectro rondava a Alemanha".

Para tentar conter o avanço comunista, a burguesia alemã injetou dinheiro nas campanhas de Hitler. Sim, os industriais alemães financiaram Hitler para que ele pudesse deter a "ameaça comunista". Ao se tornar chanceler, Hitler logo tratou de matar membros do partido comunista por serem da oposição no congresso. Com o apoio da igreja católica, da social-democracia e com a ausência dos parlamentares comunistas assassinados por ele, era fácil fazer aprovar suas propostas.

Contra fatos não há argumentos. As elucubrações direitistas sobre as "definições" do que é "esquerda" e o que é "direita" nunca serão capazes de alterar esse passado. Ninguém além deles pode acreditar que o passado é alterado simplesmente ao se redefinir termos. Hitler é filho da direita e foi financiado pela burguesia, pelos industriais alemães para conter o socialismo.

E no final das contas, quem é que livrou o mundo dos nazistas? Foram os socialistas. Foram as tropas soviéticas que invadiram Berlim e esmagaram as tropas nazistas em seu próprio território. Mas já imaginou quantos filmes já não teriam sido produzidos se fossem os EUA quem tivessem invadido a Alemanha e derrotado Hitler? Já imaginou as cenas das bandeiras americanas triunfantes e flamejantes adentrando Berlim?

Mas a direita prefere não comentar muito sobre o assunto. Preferem não comentar que Hitler foi uma "cria" da direita, e que a entrada dos socialistas, isso é, da União Soviética na II Guerra foi fundamental para a derrota do nazismo.

"Mas o mundo é assim mesmo!"

Posted: 11.11.09 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Essa é uma das frases mais imbecis que alguém pode ser capaz de dizer. Geralmente ela aparece como interpelação diante da exposição que alguém faz de determinada situação da realidade social.

Exemplo: alguém afirma que a classe rica do país tem aumentado os seus lucros de forma cafajeste e exorbitante, enquanto que a maioria da população tem dificuldade de garantir direitos básicos como alimentação, moradia e educação.

Então um idiota diz: "Mas o mundo é assim mesmo!".

Isso é imbecil, em primeiro lugar, porque se a pessoa tem a intenção de confirmar que a leitura que se está fazendo da realidade é correta, ficar calado ou apenas acenar positivamente com a cabeça daria o mesmo resultado.

Isso é imbecil, em segundo lugar, porque é expressão de uma concepção fatalista da História. Se o mundo "é" assim mesmo, então isso significa que somos apenas objeto da História, não os seus agentes.

Uma concepção fatalista da História é como aquela das tragédias gregas. Um oráculo é anunciado, o herói tenta fugir do destino mas ele sempre é cumprido no final das contas. É como o mito do Rei Édipo.

O oráculo dizia que Édipo mataria seu pai e se casaria com sua mãe. Logo ao nascer ele é abandonado numa floresta, pois a pessoa encarregada de o matar não teve coragem para isso. Um homem o encontra e o leva para criar. Tudo isso acontece para evitar que o oráculo se cumprisse. Mas no final nada disso adiantou. Ele acaba matando seu pai, se casando com sua mãe e ainda teve filhos com ela. Esse era o seu Destino.

Pessoas que afirmam que "o mundo é assim" têm essa mesma concepção fatalista da História. Pensam haver um plano cósmico que traçou o destino de todos os seres humanos, e assim justificam toda situação de miséria e exploração no mundo.

Mas em sua "Pedagogia da autonomia", Paulo Freire nos adverte que não somos apenas objeto da História mas seus sujeitos igualmente. E mais à frente, diz a esses fatalistas reacionários que querem manter essa ordem social de exploração:

"O mundo não é. O mundo está sendo."

Somos nós que construímos a História. O mundo em que vivemos foi construído por gerações passadas. Ele não é um mundo "dado", um mundo que "sempre esteve aí" e que não pode ser alterado.

Para finalizar, deixo um trecho desta mesma obra de Paulo Freire, em que ele comenta sobre um episódio de que todos devemos nos lembrar, pois teve ampla exposição midiática na época. Foi quando uma família, em Recife, ficou intoxicada após comer restos de um seio humano encontrado em um lixão (contendo lixo hospitalar), no qual procuravam sua sobrevivência:

"É possível que a notícia tenha provocado em pragmáticos neoliberais sua reação habitual e fatalista sempre em favor dos poderosos. 'É triste, mas, que fazer? A realidade é mesmo esta.' A realidade, porém, não é inexoravelmente esta. Está sendo esta como poderia ser outra e é para que seja outra é que precisamos, os progressistas, lutar. Eu me sentiria mais do que triste, desolado e sem achar sentido para minha presença no mundo, se fortes e indestrutíveis razões me convencessem de que a existência humana se dá no domínio da determinação. Domínio em que dificilmente se poderia falar de opções, de decisão, de liberdade, de ética."

Homens de cabelo grande

Posted: 9.11.09 by Glauber Ataide in Marcadores: , ,
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Tive cabelo grande por aproximadamente 10 anos, e quando mais jovem, sempre ouvia a pergunta: "por que seu cabelo é assim, e não igual o de todo mundo?". Esta questão nos leva, de fato, a pensar numa resposta, e gostaria de compartilhar com os amigos do blog algumas reflexões sobre isso.

Mas não pensei na questão sem um método: foi a partir de uma perspectiva psicanalítica que, num primeiro momento, tentei compreender quais razões inconscientes me levavam a gostar de cabelo grande. Procurava uma motivação que não dissesse respeito apenas a mim, mas talvez a todo um grupo de pessoas do qual eu fosse um elemento.

Acabei descobrindo, por exemplo, que o cabelo grande é um símbolo inconsciente tanto para os genitais quanto para a própria concepção de falo.

O interessante é que as primeiras pistas que encontrei sobre os cabelos representando os genitais eu não obtive diretamente da literatura psicanalítica, mas através da interpretação de um sonho que me foi relatado por uma mulher.

Após algumas dificuldades, descobrimos que os cabelos dela, os quais apareciam insistentemente por todo o sonho e com características de ter passado por um rigoroso processo de repressão, eram um símbolo de seus genitais. Seu sonho era basicamente um sonho de exibicionismo. Posteriormente pude encontrar confirmação desse símbolo na literatura psicanalítica.

Lembrem-se da história de Rapunzel, por exemplo. Para aqueles já familiarizados com a chamada "psicanálise dos contos de fadas", não é difícil perceber que os cabelos de Rapunzel, através dos quais o príncipe consegue subir ao seu quarto, representam um complexo de associações ligados à questão da sexualidade, dentre os quais podemos destacar a maturidade sexual, isso é, o preparo para o coito adquirido na adolescência.

Já na história bíblica de Sansão, vemos o cabelo grande associado a características fálicas, masculinas. Sansão tem força, tem virilidade por causa do seu cabelo. Isso é, o cabelo grande como símbolo de um pênis grande, ou para ser mais exato, de um falo grande. Quando o cabelo de Sansão é cortado, ele perde sua força, sua masculinidade, sua virilidade.

Para determinados homens, manter o cabelo grande pode ser também uma resposta à angústia de castração. Freud afirma em "A interpretação dos sonhos" que o rabo de lagartixa é um símbolo inconsciente para essa situação, já que ele sempre cresce novamente quando é cortado. O cabelo grande, da mesma forma, pode servir a essa função.

A segunda explicação que encontrei para minha preferência por cabelos longos veio de uma perspectiva filosófica: deixar o cabelo crescer é uma expressão de valores. Os filósofos do império romano eram caracterizados pelo cabelo grande, assim como pela barba, a roupa e a bolsa que utilizavam. Encontramos na literatura deste período até mesmo críticas sobre aqueles que achavam que um filósofo se fazia apenas "pelo cabelo".

Devemos observar que ter um cabelo grande não é a mesma coisa que nascer com um nariz grande. Um cabelo grande é expressão da personalidade da pessoa, representa valores. Essa é a razão de eu sempre ter considerado tão ofensivo quando alguém fazia algum comentário depreciativo sobre o meu cabelo.

Dizer a um homem de cabelo grande "por que você não corta esse cabelo?" é um eufemismo para "por que você não deixa de ser do jeito que é?". Isso é um ataque pessoal. Isso é um ataque aos valores e à personalidade do ofendido.

As pessoas tomam convenções sociais como se fossem valores absolutos. O uso masculino de cabelo curto não é nada mais que uma convenção social, uma característica de uma cultura específica.

O cabelo grande, neste aspecto, representa para o homem consciência e crítica dessas convenções sociais. Pode representar também uma vida mais natural, humana, menos plástica e artificial. É uma reação ao processo de massificação.