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Economia Marxista - Breve Introdução

Posted: 22.12.10 by Glauber Ataide in Marcadores: , , ,
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O texto abaixo foi redigido apenas para guiar a parte expositiva de um curso de introdução sobre Economia Marxista. Mas apesar de não ter sido escrito para ser lido de forma independente, creio que possa, mesmo assim, ser de alguma utilidade.

Breve histórico da Economia Marxista

Assim como aconteceu em relação à Filosofia clássica alemã e ao socialismo e à historiografia franceses, que foram a base do pensamento marxista, a economia do marxismo também se baseou no que já havia sido desenvolvido até seu tempo.

Marx desenvolveu, corrigiu e aperfeiçoou a economia clássica inglesa.

Por que justamente a economia inglesa, e não a francesa ou a alemã? Porque a Inglaterra era o país capitalista mais desenvolvido.

Marx adotou a tese central da economia política clássica: a de que a troca se baseava numa equivalência (uma comparação) das quantidades de trabalho contidas na mercadoria.

Essa teoria, chamada de valor-trabalho, já havia sido expressa no século XII por Tomás de Aquino e seu mestre, Alberto, o Grande, e foi refinada por William Petty no século XVII. Recebeu sua forma definitiva com Adam Smith no século XVIII e David Ricardo, no século XIX.

Esses economistas conseguiam descrever corretamente alguns fenômenos do capitalismo, mas ficavam estacionados à beira de um conhecimento mais profundo e racional.

Algumas limitações dos economistas burgueses:

  • O valor para eles era simplesmente um instrumento de medida, um numerário que permitia reduzir a um único fator os diferentes elementos do custo das mercadorias. Não disseram qual era a natureza, a essência desse valor.
  • Isso levou Adam Smith a um raciocínio circular: Para ele o valor é determinado pelo trabalho, isso é correto. Mas o valor do trabalho é determinado pelo salário. E agora o impasse: mas o que então determina o valor do salário (ou seja, dos meios de subsistência que o operário compra com seu salário, do arroz, do feijão, etc)?
  • A economia capitalista é vista como sendo estática, visando sempre a “busca do equilíbrio”. As únicas perturbações de equilíbrio consideradas são aquelas oriundas de uma concorrência imperfeita.

Além disso, apesar de ser objetiva e descritiva em relação ao capitalismo, quando se chegava à questão da luta operária e da organização operária, ela voltava a ser normativa, subjetiva e moralizadora.

Condenava as organizações e lutas operárias como “entraves à liberdade”, “obstáculos à concorrência”, “conspirações”, “utopias contrárias a leis econômicas (leis de mercado) inexoráveis”, “atentados contra a ordem pública”, etc.

Principais características do capitalismo

1) Produção de mercadorias

No capitalismo se produz antes de tudo mercadorias. A mercadoria não é um produto qualquer, mas um produto que se destina ao mercado.

Um produto não é uma mercadoria, desde que seja feito para atender à própria necessidade.

O capitalismo tende a transformar tudo em mercadoria (educação, cultura, arte, relacionamentos descartáveis, etc), assim como o Rei Midas transformava tudo em ouro.

Midas era um rei grego que, certa vez, acolheu o pai de Baco, um velho bêbado que havia entrado em seu reino. Midas lhe reconheceu e o levou de volta a Baco, que agradecido, disse a Midas que pudesse fazer qualquer pedido.

Ganancioso, Midas pensou em inúmeras riquezas, jóias, etc. Mas lhe veio a ideia “genial” de que tudo o que ele tocasse se transformasse em ouro. Baco disse que era não era boa ideia, mas Midas insistiu e Baco atendeu. Midas agradeceu e foi dar um abraço em Baco, que se afastou e foi embora apenas acenando de longe.

Ao chegar em casa Midas tentou comer, mas a comida se transformavam em ouro na sua boca. Quando sua esposa chegou contou-lhe orgulhosamente que agora era o rei mais poderoso da terra, e pediu-lhe um abraço. Sem desconfiar de nada, a esposa lhe abraçou e imediatamente se transformou em ouro.

Midas percebeu então a sua miséria.

Depois aparece seu cunhado, que veio lhe pedir dinheiro emprestado, como sempre. Midas tocou em seu ombro, que se tranformou em ouro, e lhe disse: nunca mais vai precisar pedir nada. Então seu cunhado saiu contente e foi se vender.

Midas tentou beber água, que desceu por sua garganta como um líquido quente e espesso, e caiu como chumbo em seu estômago. Ele se ajoelhou, invocou a Baco e pediu que desfizesse seu pedido.

2) Monopolização dos meios de produção pela classe capitalista

Os meios de produção são propriedade de uma classe pouco numerosa. As fábricas, as terras, as máquinas, etc, pertencem à classe dos capitalistas.

De outro lado, uma classe muito numerosa não tem nenhum meio de produção, e é obrigada a vender sua força de trabalho para essa classe que a explora.

3) Trabalho assalariado

Antigamente, no sistema escravista, o homem era vendido por inteiro. Seu corpo, sua carne, seu sangue, enfim, sua própria pessoa era vendida.

Em Roma o escravo era uma simples coisa. Os meios de produção eram divididos em “instrumentos de trabalho mudos” (as coisas, o arado, a carroça, etc), “instrumentos de trabalhos semi-mudos” (os animais de carga, carneiros, vacas, bois, etc) e “instrumentos falantes” (os escravos, os homens).

No capitalismo o que é vendido é a força de trabalho. O operário assalariado,pessoalmente, é livre; o fabricante não pode espancá-lo nem vendê-lo ao vizinho, nem trocá-lo por um cão de caça como acontecia no tempo da servidão.

O operário estaria supostamente em “pé de igualdade”: “Se não quiseres, não trabalhes, ninguém te obriga a trabalhar.”

Mas no capitalismo a escravidão não é tão aparente por não ser “política” ou jurídica, como era na servidão. Não existe um “contrato” ou nenhuma lei que afirme isso. A escravidão é econômica.

Rosa Luxemburgo afirma que nas sociedades anteriores o antagonismo de classes encontrava expressão em relações jurídicas bem determinadas, mas hoje a situação é bem diversa. O proletariado não é obrigado por nenhuma lei a submeter-se ao jugo do capital. Ele é obrigado a tal através da miséria, pela falta de meios de produção.

Eles são acorrentados ao capital pela fome.

4) Anarquia da produção

Cada fabricante produz não para outros produtores, mas para o mercado. Ele simplesmente não sabe quem lhe comprará a mercadoria. Mas mesmo assim, os homens trabalham uns para os outros.

5) Exploração da força de trabalho

Por que os fabricantes contratam os operários? Não é porque desejam sustentar os operários esfomeados, mas sim porque querem tirar lucro deles.

Não se produz para satisfazer necessidades, mas para obter lucros. É o desejo do lucro junto com a anarquia da produção. Muitos capitalistas dedicam sua vida à fabricação de aguardente, por exemplo, que é socialmente prejudicial. Mas por que muitos capitalistas investem nisso? Porque é possível lucrar com a embriaguez do povo.

6) Principais contradições do sistema capitalista

  • Vimos que no capitalismo a produção não é planejada. Cada um produz o que quer, na quantidade que quer. A “mão invisível” do mercado é quem supostamente regularia o deus mercado. Por isso, às vezes produz-se em excesso, gerando crises de superprodução.
    Ao mesmo tempo em que há superprodução, a classe operária, empobrecida, não consegue consumir estes produtos que ela própria gera porque seu salário não é suficiente.
  • O trabalho é social, mas a apropriação deste trabalho é privada. Ou seja, produz-se coletivamente, mas apenas o capitalista, sozinho, se apropria da produção.

    Marx afirma no Manifesto:

    “O capital é um produto coletivo e só pode ser colocado em movimento pela atividade comum de muitos membros da sociedade e mesmo, em última instância, pela atividade comum de todos os membros da sociedade.

    “O capital, portanto, não é uma potência pessoal; é uma potência social. Assim, se o capital é transformado em propriedade comum pertencente a todos os membros da sociedade, não é uma propriedade pessoal que se transforma em propriedade social. Transforma-se apenas o caráter social da propriedade. Ela perde seu caráter de classe.”

Alguns conceitos da Economia Marxista

Valor

  • O que determina o valor é a quantidade de trabalho socialmente necessário para produzir determinada mercadoria.

    Esse “socialmente necessário” significa o tempo de trabalho utilizado em média pelos vários produtores, e que portanto cada mercadoria deveria ser considerada como umexemplar médio de sua espécie.

    Por exemplo: o valor de um par de sapatos seria equivalente ao tempo de trabalho que em média os dez, vinte, cem ou mil fabricantes de sapatos necessitam para produzi-los, e não ao tempo de trabalho necessário para produzir este ou aquele par.

    Seria ilícito portanto argumentar que um par fabricado por um sapateiro preguiçoso, porque demandaria mais tempo para ser produzido, teria maior valor do que o fabricado por um sapateiro diligente.

  • Dois aspectos fundamentais do valor: valor de uso e valor de troca: diferença entre qualidade e quantidade.
  • Uma coisa pode ter valor de uso sem ter valor. É o caso sempre que sua utilidade não é mediada pelo trabalho. Ex: ar, terra virgem, florestas não plantadas, etc.
  • Valor de troca: quantidades definidas de “tempo de trabalho congelado”.
  • A lei do valor foi uma descoberta fundamental de Marx, que superou dificulades que a lei da oferta e da procura não conseguia responder.

    A lei da oferta e da procura, que produz oscilações de preços, só explicam se o equilíbrio entre oferta e procura for atingido ou não, mas não explicacomo os valores são determinados.

    Exemplo: Se em uma determinada sociedade tanto os pães quanto os aviões tiverem a mesma oferta e a mesma procura, eles terão o mesmo valor? Claro que não, pois mesmo que as pessoas estivessem passando fome e os pães fossem muito necessários, os aviões requerem muito mais trabalho socialmente necessário para sua produção do que os pães.
  • Importantíssimo: a única coisa que gera valor é o trabalho.

Mais-valia

  • É o trabalho excedente do operário. Durante um dia de trabalho o operário produz mais do que ele recebe de volta em forma de salário.
  • O operário trabalha parte do dia para pagar seu salário e a outra parte de graça para sustentar o capitalista.

  • O capitalista tem duas formas de aumentar a mais-valia: a mais-valia absoluta e a mais-valia relativa.

    Mais-valia absoluta: pode ser obtida através da extensão da jornada de trabalho ou do aumento da intensidade do trabalho.

    Mais-valia relativa: pode ser obtida através do aumento da produtividade, de melhorias nas técnicas, no maquinário, etc.

Mercadoria

  • Produto destinado ao mercado, não à satisfação humana. Nem todo produto é uma mercadoria.

  • Um produto não é uma mercadoria, desde que seja feito para atender à própria necessidade.

Força de trabalho

  • O trabalhador não vende o seu trabalho, mas a sua força de trabalho.
  • É uma mercadoria da qual o único reservatório é a carne e o sangue do homem.
  • É a única mercadoria que gera todas as outras – a única que gera valor.
  • É o segredo do lucro do capitalista. A força de trabalho gera valor além daquilo que recebe de volta em forma de salário.

Salário

· Como se determina o salário?

“... o valor da força de trabalho é determinado pelo valor dos artigos de primeira necessidade exigidos para produzir, desenvolver, manter e perpetuar a força de trabalho.” (Marx)

· “É a parte mínima indispensável do produto, tanto quanto o trabalhador precisa para subsistir como trabalhador, não como homem, e para originar a classe aprisionada dos trabalhadores, não a humanidade.” (Marx)

· “Assim como um cavalo, [o trabalhador] deve receber somente o que precisa para ser capaz de trabalhar. A economia política não se ocupa dele no seu tempo livre como homem, mas deixa este aspecto para o direito penal, os médicos, a religião, as tabelas estatísticas, a política e o funcionário de manicômio”. (Marx)

· Os preços do trabalho são mais constantes que os preços dos meios de subsistência.

· Característica interessante do salário:

No sistema de trabalho assalariado, até o trabalho não pago parece trabalho pago. No sistema de escravidão, até o trabalho pago parece ser trabalho não pago.

Parte do trabalho do escravo era necessário para cobrir os custos de sua própria moradia, alimentação, saúde, etc. Mas esse aspecto é obscurecido, e parece que o escravo não recebia nada pelo que fazia.

No capitalismo tem-se a impressão de que todo o trabalho do operário lhe é retornado em forma de salário, mas isso é uma grande ilusão.

Capital

  • Não é “riqueza acumulada”, como vulgarmente se define e às vezes se atribui a Marx. Nem tampouco “qualquer meio para aumentar a produtividade do trabalho”.

    Um chimpanzé usando um pedaço de pau para pegar bananas mais facilmente não foi o primeiro capitalista da história. Também não seria “acumular capital” uma comunidade tribal querendo aumentar sua riqueza através da pecuária ou da irrigação da terra.

  • O capital pressupõe o seguinte:

    Que os bens não são produzidos para consumo direto, mas são vendidos como commodities (mercadorias);

    Que o potencial total de trabalho da sociedade foi fragmentado emtrabalhos privados conduzidos independentemente uns dos outros;

    Que as mercadorias são dotadas de valor;

    Que esse valor é realizado através da troca com uma mercadoria especial chamada dinheiro;
  • A lógica interna do capital é sempre aumentar o grande capital, levando à formação de grandes monopólios, e eliminar o pequeno.
  • O capitalista, por ter capital para iniciar um negócio privado, passa pelo seguinte processo:

    D – M – D',

    onde D (dinheiro) é trocado por mercadoria (M) que, por sua vez, gera uma quantidade D' de dinheiro superior à primeira.

  • Já o trabalhador segue o seguinte ciclo:

    M – D – M,

    onde M é a força de trabalho (mercadoria, no capitalismo), que se tranforma em dinheiro utilizado para comprar meios de subsitência (arroz, feijão, moradia, etc).

    Assim, o operário nunca consegue acumular no capital.

Filósofos e sociólogos respondem: por que o sapo não lava o pé?

Posted: 12.11.10 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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O motivo desta incógnita desvelado por filósofos e sociólogos: por que o sapo não lava o pé?

Parmênides de Eléia
Como poderia o sapo lavar os pés, ó deuses, se o movimento não existe?

Heráclito de Éfeso
Quando o sapo lava o pé, nem ele nem o pé são mais os mesmos, pois ambos se modificam na lavagem, devido à impermanência das coisas.

Platão
Górgias: Por Zeus, Sócrates, os sapos não lavam os seus pés porque não gostam da água!

Sócrates: Pensemos um pouco, ó Górgias. Tu assumiste, quando há pouco dialogava com Filebo, que o sapo é um ser vivo, correto?

Górgias: Sou forçado a admitir que sim.

Sócrates: Pois bem, e se o sapo é um ser vivo, deve forçosamente fazer parte de uma categoria determinada de seres vivos, posto que estes dividem-se em categorias segundo seu modo de vida e sua forma corporal; os cavalos são diferentes das hidras e estas dos falcões, e assim por diante, correto?

Górgias: Sim, tu estás novamente correto.

Sócrates: A característica dos sapos é a de ser habitante da água e da terra, pois é isso que os antigos queriam dizer quando afirmaram que este animal era anfíbio, como, aliás, Homero e Hesíodo já nos atestam. Tu pensas que seria possível um sapo viver somente no deserto, tendo ele necessidade de duas vidas por natureza,ó Górgias?

Górgias: Jamais ouvi qualquer notícia a respeito.

Sócrates: Pois isto se dá porque os sapos vivem nas lagoas, nos lagos e nas poças, vistos que são animais, pertencem e uma categoria, e esta categoria é dada segundo a característica dos sapos serem anfíbios.

Górgias: É verdade.

Sócrates: Precisando da lagoa, ó Górgias meu caro, tu achas que seria o sapo insano o suficiente para não gostar de água?

Górgias: Não, não, não, mil vezes não, Ó Sócrates!

Sócrates: Então somos forçados a concluir que o sapo não lava o pé por outro motivo, que não a repulsa à água

Górgias: De acordo.

Diógenes, o Cínico
Dane-se o sapo, eu só quero tomar meu sol.

Aristóteles
O [sapo] lava de acordo com sua natureza. Se imitasse, estaria fazendo arte . Como [a arte] é digna somente do homem, é forçoso reconhecer que o sapo lava segundo sua natureza de sapo, passando da potência ao ato. O sapo que não lava o pé é o ser que não consegue realizar [essa] transição da potência ao ato.

Epicuro
O sapo deve alcançar o prazer, que é o Bem supremo, mas sem excessos. Que lave ou não o pé, decida-se de acordo com a circunstância.

O vital é que mantenha a serenidade de espírito e fuja da dor.

Estóicos
O sapo deve lavar seu pé de acordo com as estações do ano. No inverno, mantenha-o sujo, que é de acordo com a natureza. No verão, lave-o delicadamente à beira das fontes, mas sem exageros. E que pare de comer tantas moscas, a comida só serve para o sustento do corpo.

Descartes
Nada distingo na lavagem do pé senão figura, movimento e extensão. O sapo é nada mais que um autômato, um mecanismo. Deve lavar seus pés para promover a autoconservação, como um relógio precisa de corda.

Maquiavel
A lavagem do pé deve ser exigida sem rigor excessivo, o que poderia causar ódio ao Príncipe, mas com força tal que traga a este o respeito e o temor dos súditos. Luís da França, ao imperar na Itália, atraído pela ambição dos venezianos, mal agiu ao exigir que os sapos da Lombardia tivessem os pés cortados e os lagos tomados caso não aquiescessem à sua vontade. Como se vê, pagou integralmente o preço de tal crueldade, pois os sapos esquecem mais facilmente um pai assassinado que um pé cortado e uma lagoa confiscada.

Rousseau
Os sapos nascem livres, mas em toda parte coaxam agrilhoados; são presos, é certo, pela própria ganância dos seus semelhantes, que impedem uns aos outros de lavarem os pés à beira da lagoa. Somente com a alienação de cada qual de seu ramo ou touceira de capim, e mesmo de sua própria pessoa, poder-se-á firmar um contrato justo, no qual a liberdade do estado de natureza é substituída pela liberdade civil.

Locke
Em primeiro lugar, faz-se mister refutar a tese de Filmer sobre a lavagem bíblica dos pés. Se fosse assim, eu próprio seria obrigado a lavar meus pés na lagoa, o que, sustento, não é o caso. Cada súdito contrata com o Soberano para proteger sua propriedade, e entendo contido nesse ideal o conceito de liberdade. Se o sapo não quer lavar o pé, o Soberano não pode obrigá-lo, tampouco recriminá-lo pelo chulé. E ainda afirmo: caso o Soberano queira, incorrendo em erro, obrigá-lo, o sapo possuirá legítimo direito de resistência contra esta reconhecida injustiça e opressão.

Filmer
Podemos ver que, desde a época de Adão, os sapos têm lavado os pés. Aliás, os seres, em geral, têm lavado os pés à beira da lagoa. Sendo o sapo um descendente do sapo ancestral, é legítimo, obrigatório e salutar que ele lave seus pés todos os dias à beira do lago ou lagoa. Caso contrário, estará incorrendo duplamente em pecado e infração.

Kant
O sapo age moralmente, pois, ao deixar de lavar seu pé, nada faz além de agir segundo sua lei moral universal apriorística, que prescreve atitudes consoantes com o que o sujeito cognoscente possa querer que se torne uma ação universal.

Nota de Freud: Kant jamais lavou seus pés.

Hegel
Podemos observar na lavagem do pé a manifestação da Dialética. Observando a História, constatamos uma evolução gradativa da ignorância absoluta do sapo – em relação à higiene – para uma preocupação maior em relação a esta. Ao longo da evolução do Espírito da História, vemos os sapos se aproximando cada vez mais das lagoas, cada vez mais comprando esponjas e sabões. O que falta agora é, tão somente, lavar o pé, coisa que, quando concluída, representará o fim da História e o ápice do progresso.

Marx
A lavagem do pé, enquanto atividade vital do anfíbio, encontra-se profundamente alterada no panorama capitalista. O sapo, obviamente um proletário, tendo que vender sua força de trabalho para um sistema de produção baseado na detenção da propriedade privada pelas classes dominantes, gasta em atividade produtiva alienada o tempo que deveria ter para si próprio. Em conseqüência, a miséria domina os campos, e o sapo não tem acesso à própria lagoa, que em tempos imemoriais fazia parte do sistema comum de produção.

Engels: Isso mesmo.

Schopenhauer
O sapo cujo pé vejo lavar é nada mais que uma representação, um fenômeno, oriundo da ilusão fundamental que é o meu princípio de razão, parte componente do principio individuationis, a que a sabedoria vedanta chamou "véu de Maya". A Vontade, que o velho e grande filósofo de Königsberg chamou de Coisa-em si, e que Platão localizava no mundo das idéias, essa força cega que está por trás de qualquer fenômeno, jamais poderá ser capturada por nós, seres individuados, através do princípio da razão, conforme já demonstrado por mim em uma série de trabalhos, entre os quais o que considero o maior livro de filosofia já escrito no passado, no presente e no futuro: "O mundo como vontade e representação".

Nietzsche
Um espírito astucioso e camuflado, um gosto anfíbio pela dissimulação - herança de povos mediterrâneos, certamente - uma incisividade de espírito ainda não encontrada nas mais ermas redondezas de quaisquer lagoas do mundo dito civilizado. Um animal que, livrando-se de qualquer metafísica, e que, aprimorando seu instinto de realidade, com a dolcezza audaciosa já perdida pelo europeu moderno, nega o ato supremo, o ato cuja negação configura a mais nítida – e difícil – fronteira entre o Sapo e aquele que está por vir, o Além- do-Sapo: a lavagem do pé.

Foucault
Em primeiro lugar, creio que deveríamos começar a análise do poder a partir de suas extremidades menos visíveis, a partir dos discursos médicos de saúde, por exemplo. Por que deveria o sapo lavar o pé? Se analisarmos os hábitos higiênicos e sanitários da Europa no século XII, veremos que os sapos possuíam uma menor preocupação em relação à higiene do pé – bem como de outras áreas do corpo. Somente com a preocupação burguesa em relação às disciplinas – domesticação do corpo do indivíduo, sem a qual o sistema capitalista jamais seria possível – é que surge a preocupação com a lavagem do pé. Portanto, temos o discurso da lavagem do pé como sinal sintomático da sociedade disciplinar.

Freud
Um superego exacerbado pode ser a causa da falta de higiene do sapo. Quando analisava o caso de Dora, há vinte anos, pude perceber alguns dos traços deste problema. De fato, em meus numerosos estudos posteriores, pude constatar que a aversão pela limpeza, do mesmo modo que a obsessão por ela, podem constituir-se num desejo de autopunição. A causa disso encontra-se, sem dúvida, na construção do superego a partir das figuras perdidas dos pais, que antes representavam a fonte de todo conteúdo moral do girino.

Jung
O mito do sapo do deserto, presente no imaginário semita, vem a calhar para a compreensão do fenômeno. O inconsciente coletivo do sapo, em outras épocas desenvolvido, guardou em sua composição mais íntima a idéia da seca, da privação, da necessidade. Por isso, mesmo quando colocado frente a uma lagoa, em época de abundância, o sapo não lava o
pé.

Kierkegaard
O sapo lavando o pé ou não, o que importa é a existência.

Comte
O sapo deve lavar o pé, posto que a higiene é imprescindível. A lavagem do pé deve ser submetida a procedimentos científicos universal e atemporalmente válidos. Só assim poder-se-á obter um conhecimento verdadeiro a respeito.

Weber
A conduta do sapo só poderá ser compreendida em termos de ação social racional orientada por valores. A crescente racionalização e o desencantamento do mundo provocaram, no pensamento ocidental, uma preocupação excessiva na orientação racional com relação a fins. Eis que, portanto, parece absurdo à maior parte das pessoas o sapo não lavar o pé. Entretanto, é fundamental que seja compreendido que, se o sapo não lava o pé, é porque tal atitude encontra-se perfeitamente coerente com seu sistema valorativo – a vida na lagoa.

Horkheimer e Adorno
A cultura popular diferencia-se da cultura de massas, filha bastarda da indústria cultural. Para a primeira, a lavagem do pé é algo ritual e sazonal, inerente ao grupamento societário; para a segunda, a ação impetuosa da razão instrumental, em sua irracionalidade galopante, transforma em mercadoria e modismo a lavagem do pé, exterminando antigas tradições e obrigando os sapos a um procedimento diário de higienização.

Gramsci
O sapo, e além dele, todos os sapos, só poderão lavar seus pés a partir do momento em que, devido à ação dos intelectuais orgânicos, uma consciência coletiva principiar a se desenvolver gradativamente na classe batráquia. Consciência de sua importância e função social no modo de produção da vida. Com a guerra de posições - representada pela progressiva formação, através do aparato ideológico da sociedade civil, de consensos favoráveis– serão criadas possibilidades para uma nova hegemonia, dessa vez sob a direção das classes anteriormente subordinadas.

Bobbio
Existem três tipos de teoria sobre o sapo não lavar o pé. O primeiro tipo aceita a não-lavagem do pé como natural, nada existindo a reprovar nesse ato. O segundo tipo acredita que ela seja moral ou axiologicamente errada. A terceira espécie limita-se a descrever o fenômeno, procurando uma certa neutralidade.

Olavo de Carvalho
O sapo não lava o pé. Não lava porque não quer. Ele mora lá na lagoa, não lava o pé porque não quer e ainda culpa o sistema, quando a culpa é da PREGUIÇA. Este tipo de atitude é que infesta o Brasil e o Mundo, um tipo de atitude oriundo de uma complexa conspiração moscovita contra a livre-iniciativa e os valores humanos da educação e da higiene!


Onde o socialismo deu certo?

Posted: 20.10.10 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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A pergunta "onde o socialismo deu certo?" é  geralmente lançada de forma meramente retórica, com o objetivo de referenciar supostas "provas concretas" da inexequibilidade deste modo de produção. Elaborar os problemas de forma correta, porém, já é mais da metade de sua solução. Perguntas (quase) sempre carregam pressupostos que não são assim tão evidentes, e aceitar respondê-las sem analisá-las resulta, várias vezes, em tomar pseudo-problemas como problemas reais.

No caso em questão é preciso esclarecer pelo menos dois pressupostos: em primeiro lugar, o que significa "dar certo"? E em segundo lugar, um sistema econômico ou político tem que "dar certo" para quem?

É evidente que o capitalismo "dá certo" para uma restrita camada da população mundial, enquanto fracassa miseravelmente para aqueles 815 milhões de pessoas que passam fome hoje no planeta. Um sistema com mais de quatro séculos de existência e que não foi capaz até hoje de solucionar problemas básicos como o da fome, do saneamento básico e da moradia deveria ser visto com muito ceticismo.

Vamos dar uma olhada em que medida o socialismo e também o capitalismo "dão certo". Inicialmente faremos algumas considerações sobre o socialismo cubano, depois sobre a União Soviética e o Leste Europeu e, por último, apresentaremos algumas estatísticas sobre o capitalismo no mundo inteiro.

O socialismo em Cuba

Cuba é um país pobre e, como todos os outros países da América Latina, uma ex-colônia. A análise de um país não pode abstrair de sua história. Para agravar esta herança, Cuba ainda sofre um bloqueio econômico por parte dos EUA há mais de 50 anos, o que lhe impede de ter relações comerciais normais não só com as empresas estadunidenses, mas também com empresas de diversos outros países devido à extensão do bloqueio.

Se Cuba tem algum problema econômico, este não começou com o socialismo, mas com a "pobreza" comum a todos os países do continente e anterior à revolução de 1959. Como se isso não bastasse, as dificuldades de Cuba se agravam com o criminoso bloqueio econômico que nenhum outro país da América sofre, e que nenhum outro país suportaria nem por 5 meses, quanto mais por 50 anos.

Quando dizem que o "modelo cubano" não funciona, os capitalistas pretendem comparar a riqueza dos países capitalistas com a pobreza dos cubanos.

Mas por que não comparar a pobreza dos países capitalistas com a pobreza dos países socialistas?

Qualquer comparação entre dois países deve considerar sua história e seu contexto. A colonização dos EUA e do Canadá, por exemplo, foi de um tipo bem diferente da colonização da América do Sul e da África.

Uma comparação honesta de Cuba com outro país deve tomar como parâmetro não os EUA ou a Inglaterra, mas sim países como o Haiti e Trinidad e Tobago, por exemplo.

O que encontramos, então, ao comparar a "pobreza" dos cubanos com a literal miséria do restante da América? Cuba possui o melhor sistema de saúde público e gratuito de todo o continente. Seu sistema educacional gratuito abrange toda a população. Seu índice de analfabetimo é o menor da AL, assim como da desnutrição infantil. Seu índice de desenvolvimento humano (IDH) também é o maior.

Isso seria "dar certo" ou não?

Vemos que isso depende dos parâmetros de avaliação, e também do para quem dá certo.

Confira neste link uma lista mais completa dos indicadores sociais cubanos:


Vejamos agora o caso da União Soviética, URSS.

O socialismo na URSS

A Rússia virou o século XX como um país semi-feudal, que ainda possuía um tsar. A revolução ocorreu em 1917. O país passou por difíceis períodos de guerra civil, perdeu mais de 25 milhões de pessoas na II Guerra Mundial, foi devastado com a invasão alemã, mas mesmo assim se tornou uma potência mundial, contando apenas com suas próprias forças para isso, ao contrário dos países imperialistas que receberam uma boa fatia do Plano Marshall para se reerguer.

Seu avanço tecnológico chegou a tal ponto que foi o primeiro país a enviar o homem para o espaço (o astronauta Yuri Gagárin), em 1961.

Vejam bem: de semi-feudal em 1917, ano da revolução, a URSS estava enviando o homem para o espaço em 1961.

Num espaço de apenas quatro décadas o país, sob o socialismo, saiu do arado de madeira para o espaço sideral.

Um documentário recente da BBC - insuspeita de quaisquer simpatias pela União Soviética - mostra que a URSS foi a verdadeira vencedora da corrida espacial, e não os EUA.

Neste parâmetro de avaliação, isso seria "dar certo" ou não?

Além de tudo aquilo que conhecemos através dos livros sobre os sistemas de saúde, de educação, de transportes, etc, já tive a oportunidade de conversar diretamente com um soviético (com quem trabalhei por um tempo) sobre como era a vida em seu país.

Ele, um cidadão comum da URSS, me disse que não conhecia pessoalmente nenhum indivíduo que não pudesse fazer faculdade, por exemplo. Me disse que não conhecia ninguém desempregado, e que o grande problema lá é que até faltava mão-de-obra. Lá ninguém era rico, mas também ninguém era "pobre".

É verdade que tanto na URSS como em todo o leste europeu houve um retrocesso ao capitalismo. Mas isso de forma alguma é um sinal de que o socialismo "não deu certo". O próprio capitalismo sofreu inúmeros retrocessos históricos antes de se estabelecer.

O socialismo no Leste Europeu

No caso do leste europeu há importantes fatores que determinaram este retrocesso e que quase nunca são mencionados neste tipo de discussão.

Em primeiro lugar, o leste europeu não se tornou socialista através de revoluções populares decorrentes de um amplo trabalho de massas, apesar do enorme apoio dos partidos comunistas entre o povo. O socialismo foi implantado nesses países principalmente em virtude das circunstâncias existentes na Europa ao final da II Guerra Mundial.

Antes do término da guerra, esses países estavam sob governos fascistas, implantados por Hitler. Na famosa Conferência de Yalta chegou-se à conclusão de que eles não poderiam ser deixados "sozinhos" após a guerra, sob o risco da ameaça fascista ressurgir naquela região. Fixou-se então que a URSS ficaria encarregada por ela.

No entanto, os partidos comunistas desses países se encontravam desbaratados. Vários dos seus principais quadros e lideranças haviam sido assassinados pelos fascistas. Este foi um dos importantes fatores que não permitiram que o socialismo seguisse um rumo diferente do que poderia em condições normais.

Mas mesmo assim, quando comparamos o nível de desenvolvimento industrial desses países antes e depois da guerra (períodos capitalista e socialista), vemos como o socialismo avançou a indústria dessa "periferia" da Europa.

(A propósito, veja alguns dados comparando a situação do leste europeu nos períodos do socialismo e da volta ao capitalismo: Capitalismo, golpe fatal no Leste Europeu)

Além disso, ao contrário do que alguns costumam afirmar, não se pode considerar todo o leste europeu como "várias experiências" socialistas. Apesar das particularidades de cada país, todos constituem uma única experiência socialista, a experiência de praticamente um único modelo.

Enfim, o que essas e todas as experiências socialistas mostraram e continuam mostrando é que, ao contrário do que dizem, o socialismo é um sistema exequível.

A história não segue linearmente, isso é, como se fosse uma linha reta. O curso histórico talvez seja mais parecido com uma espiral, com seus recuos momentâneos. O próprio capitalismo sofreu diversos golpes e contra-revoluções, levando séculos para se estabelecer completamente. Por que esperar então que o socialismo fosse estabelecido de uma vez por todas com um só golpe?

Como o capitalismo dá certo

Para finalizar, apresento agora alguns dados sobre o capitalismo e inverto a pergunta: o capitalismo "dá certo"? O capitalismo "funciona"? O que seria "dar certo" no capitalismo? Ele "funciona" para quem?


População mundial: 6,8 bilhões, dos quais:

  • 1,02 bilhão têm desnutrição crônica (FAO, 2009)
  • 2 bilhões não têm acesso a medicamentos (www.fic.nih.gov)
  • 884 milhões não têm acesso a água potável (OMS/UNICEF 2008)
  • 924 milhões de "sem teto" ou que vivem em moradias precárias (UN Habitat 2003)
  • 1, 6 bilhão não tem eletricidade (UN Habitat, “Urban Energy”)
  • 2,5 bilhões não tem acesso a saneamento básico e esgotos (OMS/UNICEF 2008)
  • 774 milhões de adultos são analfabetos (www.uis.unesco.org)
  • 18 milhões de mortes por ano devido à pobreza, a maioria delas de crianças com menos de 5 anos (OMS)
  • 218 milhões de crianças, entre 5 e 17 anos, trabalham em condições de escravidão ou em tarefas perigosas ou humilhantes, como soldados, prostitutas, serventes na agricultura, na construção civil ou na indústria têxtil (OIT: A Eliminação do Trabalho Infantil: Um Objetivo a Nosso Alcance, 2006)
  • Entre 1988 e 2002, os 25% mais pobres da população mundial reduziram sua participação na riqueza global de 1,16% para 0,92%, enquanto que os 10% mais ricos acrescentaram mais riquezas, passando de 64,7 para 71,1% da riqueza produzida mundialmente. O enriquecimento de poucos tem como reverso o empobrecimento de muitos.
  • Só esse 6,4 % de aumento da riqueza dos mais ricos seria suficiente para duplicar a renda de 70% da população da Terra, salvando inumeráveis vidas e reduzindo as penúrias e sofrimentos dos mais pobres. Entenda-se bem: tal coisa seria obtida se tão só fosse redistribuído o enriquecimento adicional produzido entre 1988 e 2002, dos 10% dos mais ricos do planeta, deixando intactas suas exorbitantes fortunas. Mas nem sequer algo tão elementar como isso é aceitável para as classes dominantes do capitalismo mundial.

É possível derrotar a pobreza sob o capitalismo?

Posted: 21.9.10 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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As pessoas mais realistas acompanharam o estabelecimento pela Organização das Nações Unidas, em 2000, das chamadas Metas do Milênio, para combater a pobreza e a fome no mundo até 2015, com uma pergunta: este é um objetivo viável sob o domínio do sistema capitalista?

A cúpula sobre os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio iniciada ontem (20) na sede da ONU, em Nova York, com a presença de representantes de 140 países, é parte da resposta àquela pergunta. Faltam cinco anos para o cumprimento daquele prazo; neste período o mundo assistiu ao auge da hegemonia neoliberal e também ao início de sua derrocada com a grave crise econômica que, com epicentro nos EUA, varreu o mundo e arrasou algumas economias, principalmente as mais ricas e desenvolvidas.

É nesse contexto que o secretário geral da ONU, Ban Ki Moon apresentou um balanço sóbrio, para dizer o mínimo, do cumprimento daquelas metas. Ressaltando que parte do compromisso está sendo cumprido (a luta contra a pobreza) ele lamentou a dificuldade para alcançar os demais (acesso à educação, igualdade de gêneros, a melhoria dos serviços básicos de saúde, luta contra doenças como a Aids e a malária, elevação da qualidade de vida e o respeito ao meio ambiente). Investindo contra a falta de empenho dos países ricos, afirmou que será necessário um financiamento que ultrapassa 100 bilhões de dólares para que as metas sejam cumpridas no prazo.

Mas não vai dar - é o que se depreende da posição de governantes como a alemã Angela Merkel, que foi clara em seu discurso: as metas não serão atingidas, disse ela. O problema, afirmou, não é o dinheiro, mas o que fazer com ele. Enquanto o primeiro ministro da Noruega, Jens Stoltenberg, repetia as palavras de sua colega alemã, o representante do governo dos EUA dizia que o presidente Obama não deve fazer doações para completar o volume de recursos necessários.

No outro extremo, Evo Morales, presidente de um dos países mais pobres do planeta, a Bolívia, foi ao ponto: o fim da pobreza só é possível com a mudança do sistema político e econômico. “Se não mudam as condições nunca poderemos superar a pobreza”, disse, criticando a voracidade dos países ricos em se apropriar dos recursos naturais dos países em desenvolvimento e exigindo o cumprimento do compromisso daqueles países destinarem 0,7% do PIB para implementar aquelas metas. “Não se trata de dar um presente, mas isto é parte da dívida que têm” com os demais países, disse.

O estabelecimento de metas tão ambiciosas quanto aquelas adotadas há uma década ajuda a entender a dinâmica do sistema hegemônico no mundo, o capitalismo, suas limitações e também as ilusões daqueles que as formulam.

O capitalismo é hegemônico há uns três séculos; há cem anos, o imperialismo emergiu e passou a conduzir a expansão planetária desse sistema; há dez anos, o neoliberalismo, carranca mais selvagem e agressiva do domínio do dinheiro, parecia imbatível. Esse desenvolvimento deixou um rastro de pilhagem dos povos, miséria crescente e desorganização da vida em quase todo o planeta. O domínio capitalista aprofundou as desigualdades e a miséria no mundo, sendo a causa e o fator do aumento da pobreza; hoje, em cada grupo de seis seres humanos, um passa fome (925 milhões, segundo a ONU) justamente porque a expansão da produção voltada para o mercado e para a remuneração do capital destruiu suas formas tradicionais de vida. Este é o papel histórico do capitalismo - superar formas rotineiras de produzir e aumentar a produtividade. Mas o passo seguinte só será possível com sua superação e o início de uma nova forma, superior, de organização da vida, da produção e da distribuição da riqueza.

Entretanto, esse patamar civilizatório mais avançado da humanidade não será alcançado nos salões badalados de cidades como Nova York, mas no duro combate dos povos e dos trabalhadores por seus direitos, em busca de uma nova ordem econômica e política que derrote o sistema imperialista e assegure as condições para uma vida digna para todos.

Capitalismo verde é sujeira: Marina e Gabeira

Posted: 19.9.10 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Agora todo mundo capitalista deu para ser verde.

A General Eletric prega a "ecoimaginação", ou este oxímoro insano: "carvão limpo". Na propaganda ela põe um elefantão cantando "Singing in the rain".

O barão da mídia, Murdoch, que está louquinho para derrubar Chávez, declarou: "sinto orgulho de ser verde".

É impossível existir capitalismo sem toxina.

A mistificação do capitalismo verde é reproduzida por aqui com Gabeira e Marina. Como é que alguém a favor do lucro capitalista evangélico pode falar em natureza? A única coisa verdecoevangélica que existe é a nota verde do dólar.

Marina é pró-capitalismo, portanto é antiecológica. Seus assessores almofadinhas e janotas são udenistas e tucanos de corpo e finanças, portanto contra a minhoca, o arado natural, Eles são entusiastas da Monsanto que inventou o herbicida round up devastador da natureza e que financia a biotecnologia e a engenharia genética.

Marina, me dizia Marcelo Guimarães, não moveu uma palha pelo projeto das micro-destilarias a álcool em pequenas propriedades; agora ela se diz devota do álcool e óleos vegetais, só que produzidos em economia de escala com plantation latifundiária para exportação multinacional.

Marina é adversária da reforma agrária radical, portanto joga no time do ecocídio, Serra batalhou pela aprovação da lei das patentes para felicidade das grandes corporações multinacionais na Câmara e Senado.

A agricultura capitalista multinacional arruína a terra e envenena as pessoas. Tudo isso sob o comando dos grãos geneticamente manipulados pela Monsanto, que é a Rede Globo da agricultura.

A juventude não poderá cair na esparrela agrobiocancerigenotucano. O descalabro da natureza é causado pelo regime social chamado capitalismo, por conseguinte crítica ecológica que não seja anticapitalista é conversa de urubu com bode.

E Gabeira? É a ideologia pós-moderna do Banco Mundial em ação, que no Rio de Janeiro é a expressão da burguesia comercial e imobiliária, de onde provêm Carlos Lacerda e César Maia.

Nunca entendi a notoriedade de Gabeira. Chegou da Suécia de tanguinha de crochê na praia pousando de "candidato jovem" pré-Collor para destruir os CIEPs de Darcy Ribeiro.

Glauber Rocha tinha a maior bronca dele porque queria tacar fogo no filme Terra em Transe. Glauber dizia que a ambição de Gabeira era freqüentar a casa de Caetano Veloso, que convenhamos não é o barraco de Goethe.

Glauber escreveu: "traíram Jango em 1964 e 1974, destruíram o projeto de nação que ficou no esqueleto do Gabeira".

Sobre as flores do estilo, pergunto quem foi o gênio linguista que bolou o mote gerundiano da campanha de Dilma? Refiro-me à palavra de ordem: "Para o Brasil seguir mudando". Que coisa feia. É isso que dá colocar campanha política em agência de publicidade.

Gilberto Felisberto Vasconcellos é sociólogo, jornalista e escritor.

Fonte: Caros Amigos

Política x Administração

Posted: 9.9.10 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Assim como o rei Midas transformava em ouro tudo o que tocava, o capitalismo transforma em mercadoria tudo aquilo em que põe as patas. E quando não transforma exatamente em mercadoria, transforma em algo relacionado à produção de mercadorias.

Na política isso não poderia ser diferente, claro. E isso se nota inequivocadamente agora quando ouvimos nos debates eleitorais sobre quem é o candidato "mais preparado".

Isso é um tremendo engodo, uma tremenda enganação. Os capitalistas pretendem reduzir política a administração, o que é um erro. A política engloba a administração, mas não se reduz a isso.

Da mesma maneira que o sucesso das ciências naturais no século XIII influenciava as ciências humanas a seguirem os seus métodos, o capitalismo tem induzido a se pensar na administração de um país como na administração de uma grande empresa, e aí o melhor administrador seria o melhor presidente.

Não irá demorar muito para que apareça alguém com a proposta de que o cargo de presidente seja preenchido por concurso público.

A orientação política de um país é algo que não se enquadra dentro da mera administração. Um presidente, além do mais, não governa sozinho. Ele tem toda uma equipe consigo para tratar dos setores estratégicos do país. É importante que esses ministros sejam técnicos competentes, bons administradores, assim como seus deputados e senadores. Mas que também sua orientação política seja a mesma do presidente.

Tirar o foco do debate da orientação política para o preparo administrativo é fugir do principal. É talvez medo de que a orientação política de alguns candidatos não encontrem eco na sociedade.

Socialismo para os ricos e capitalismo para os pobres

Posted: 26.8.10 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Foi com estes termos que ninguém menos que o vice-presidente dos EUA, Joe Biden, definiu a política estadunidense de socorrer os bancos durante a crise. Em uma entrevista ao programa de televisão "The Daily Show", Biden reconheceu que as medidas que retiraram trilhões de dólares dos cofres públicos para injetar nos bancos foram necessárias para evitar o colapso do sistema financeiro: "Porque se nós não os tivéssemos socorrido, estaríamos numa posição em que haveria não apenas uma recessão, mas literalmente uma depressão". E se lembrou de uma "grande expressão" que era muito utilizada por seu avô: "É socialismo para os ricos e capitalismo para os pobres."

E os números corroboram a justeza da análise de Biden: apesar da euforia de alguns economistas que falam sobre uma suposta recuperação da economia estadunidense, se baseando apenas na revalorização das ações e dos lucros obtidos pelos bancos, os EUA devem fechar o ano de 2010 com a taxa de desemprego na casa dos 10%. Antes da crise este percentual estava abaixo de 5%.

Durante a crise as perdas foram socializadas. Mas agora, no período de recuperação, os lucros são novamente privatizados, e uma enorme massa de desempregados ainda não consegue se realocar no mercado de trabalho. E como se não bastasse, grande parte desses desempregados também aparece nas estatísticas de despejos que, segundo especialistas, deve gerar até o final de 2010 mais de 1 milhão de novos sem-teto. Os ricos se recuperam (às custas do estado), mas os trabalhadores não. Socialismo para os ricos, capitalismo para os pobres.

(O vídeo da entrevista de Biden está disponível aqui.)

Pirâmide do capitalismo

Posted: 12.8.10 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Esta gravura, de 1911, ilutra a hierarquia social do capitalismo, representando os trabalhadores na base da pirâmide que sustenta toda a sociedade. São estes que geram as riquezas apropriadas pelas classes exploradoras e dominantes.


Capitalismo & outras coisas de crianças (vídeo)

Posted: 20.7.10 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Capitalismo & outras coisas de crianças é um vídeo que nos convida a olhar de uma forma diferente para o mundo em que vivemos e a questionar algumas das mais básicas premissas da vida no Capitalismo.

Este trabalho apresenta em linguagem clara e sem jargões econômicos ou políticos as bases sobre as quais se assentam o Capitalismo.

Após assistir ao vídeo pela primeira vez, em inglês, entrei em contato com os produtores e perguntei se não havia legenda para outros idiomas. Eles disseram que infelizmente não. Eu me ofereci então para traduzir o vídeo para o português e também para criar as legendas. Eles apoiaram o projeto, se mostrando muito gratos e incentivando.

Após algumas semanas de trabalho finalizei a tradução de todo o vídeo (51 minutos), criei o arquivo de legenda, submeti o trabalho a uma revisão e finalmente embuti a legenda no arquivo de vídeo. O resultado do trabalho está disponível abaixo, e também pode ser baixado nos links disponíveis neste post.

Não é apenas um emprego...

Posted: 16.7.10 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Original de Sidewalk Bubblegum © - Tradução de Glauber Ataide

Jesus Cristo foi um revolucionário?

Posted: 11.7.10 by Glauber Ataide in Marcadores: , ,
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O cristianismo, em seus primórdios, encontrou principalmente entre as camadas mais pobres da população um fértil terreno para sua expansão. Não simplesmente como ideologia alienante imposta pelas classes dominantes, pois era uma religião proibida, ilegal e perseguida. Era um movimento autenticamente popular e que ganhava espaço justamente por responder aos anseios populares por justiça e igualdade social. A estrutura comunista primitiva da igreja deixa isso muito claro, sendo um dos principais atrativos do cristianismo para os pobres.

Pela proximidade tanto temporal quanto doutrinária entre a atividade de Jesus e o surgimento das primeiras comunidades cristãs tem-se uma boa indicação de que as posições políticas de Jesus realmente se aproximavam daquilo que praticavam essas comunidades no seu dia-a-dia. Sua mensagem dificilmente seria acolhida entre os pobres apenas por causa do seu conteúdo "intelectual".

Outro aspecto que parece explicar e reforçar esta caracterização política do cristianismo primitivo é através da investigação da progressiva tomada de consciência de Jesus tanto sobre ele próprio quanto de sua atividade.

Se Jesus é Deus e homem ao mesmo tempo, como afirma a doutrina cristã, em que momento ele adquiriu essa consciência?

É muito estranho imaginar, como afirmam alguns evangelhos apócrifos, que desde pequeno ele já tenha se considerado "filho de Deus" e até saísse matando outras crianças por aí com poderes que só ele tinha (vide o evangelho apócrifo de Tomé, no qual ele mata algumas pessoas apenas ao proferir maldições sobre elas).

É bem mais razoável que Jesus tenha adquirido a consciência de sua identidade de forma progressiva. E este termo - "progressiva" - é muito importante para auxiliar na compreensão de sua atividade.

Imaginemos o momento em que ele compreendeu que o Messias era ninguém menos que ele próprio. O que ele entendia por "Messias"? Provavelmente a mesma coisa que todo mundo: que o Messias era uma figura política, um rei temporal que libertaria Israel do jugo estrangeiro imperialista romano.

A Palestina, na época de Jesus, fervilhava de partidos e movimentos de libertação nacional. Tanto é que até um de seus apóstolos escolhidos era um revolucionário zelote (Simão, o Zelote). Os zelotes eram um grupo político nacionalista que praticava a luta armada contra Roma.

As supostas "profecias" no AT de que o Messias seria um profeta pacífico que morreria para dar libertação apenas "espiritual" são, no mínimo, "forçadas". Não convencem judeu nenhum hoje. Os primeiros intérpretes cristãos se utilizaram de uma forma de interpretação alegórica e fora de contexto bem peculiar, forçada, estranha até.

Até mesmo o filósofo estadunidense William Lane Craig parece reconhecer isso implicitamente quando afirma que deve ter acontecido um fenômeno muito impactante que levou os discípulos a tentarem conciliar a pessoa de Jesus com o Messias do AT, procurando, desesperadamente, "provas" de que as profecias se cumpriam nele. Este fenômeno teria sido a ressurreição, segundo Craig. Afinal, se esse cara ressuscitou, ele só pode ser o Messias.

Jesus não defendeu até o final de sua vida posições políticas tão avançadas quanto à dos zelotes. Se considerarmos, contudo, que sua tomada de consciência foi progressiva, isso joga luz sobre várias passagens que a interpretação tradicional não consegue explicar satisfatoriamente, indicando que num determinado momento ele chegou a se alinhar com tais grupos de libertação nacional .

Em diversas passagens Jesus fala sobre espadas, guerras, etc. Interpretações alegóricas simplesmente "rebolam" para explicar por que é que ele disse "quem não tem espada venda a sua capa e compre uma", por exemplo. (Interpretações alegóricas são perigosas, e com elas se prova qualquer coisa. A imaginação é o seu único limite).

O que alguns autores irão afirmar é que essas aparentes "contradições" entre um Jesus que algumas vezes fala sobre "guerras" e "espadas", por um lado, e "amar o inimigo" e "dar a César o que é de César", por outro, são explicadas por essa tomada de consciência progressiva, tanto de sua identidade quanto de sua atividade.

Essa perspectiva é explorada de forma fictícia no filme A última tentação de Cristo. Não obstante ser apenas um romance, esta obra nos chama a atenção para o aspecto mais humano da figura de Jesus, já que quase sempre ouvimos falar só no seu lado divino.

Um tratamento histórico desta questão se encontra em um capítulo da obra História do socialismo e das lutas sociais, de Max Beer. Após fazer uma breve exposição do contexto em que atuou e viveu Jesus e de mostrar como ele abandonou posteriormente o projeto popular de libertação nacional, o autor faz este balanço:

"Jesus Cristo foi um revolucionário acima de seu tempo. Ultrapassa o judaísmo. Atravessa as fronteiras nacionais e reduz a pó o edifício religioso tradicional que seu povo havia erigido à custa de tantos sacrifícios e de tantas angústias. Os judeus, certamente, poderiam ter perdoado Jesus, se ele tivesse colocado a sua popularidade a serviço do movimento de emancipação nacional contra Roma. Os judeus não obtiveram o perdão para Barrabás, que fora condenado a morrer na cruz em virtude da sua atividade revolucionária contra o domínio de Roma? Mas Jesus e os seus partidários estavam, nesse ponto, tão distantes das massas judaicas, que o evangelista Marcos chegou a condenar a atividade patriótica de Barrabás como um 'crime', um incitamento à 'matança'. Tanto do ponto de vista religioso quanto do político-social, Jesus se situava tão distante da civilização judaica como da romana. Eis porque foi condenado a morrer crucificado."


A atividade de Jesus, de acordo com Beer, foi continuar a obra dos profetas. Tinha um sentido claramente antinacional e antireligioso, sendo sua doutrina anarcocomunista e baseada na moral estóica. Jesus Cristo foi um revolucionário em algum momento de sua vida, mas não morreu como tal. Suas posições políticas se alteraram com o passar do tempo, de forma que as aparentes contradições dos textos bíblicos são melhor explicados justamente por estas transformações em sua consciência.

Uma anedota do "pacífico" povo brasileiro - a Guerra do Paraguai

Posted: 8.7.10 by Glauber Ataide in Marcadores:
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A velha cantilena de que o brasileiro é “pacífico”, “acomodado” e etc é um dos engodos das classes dominantes mais fáceis de se desmentir. Basta abrirmos um bom livro de história para ali encontrarmos, sem folhear muito, histórias de revoltas, guerrilhas e revoluções que pedem para ser esfregadas na cara de quem quer imputar essa autoimagem ao brasileiro.

Nem todas essas lutas, contudo, foram por “boas causas”. Apesar de a maioria dos movimentos armados praticados no país terem sido por liberdade e independência, o Brasil também já praticou guerras de rapina. E uma delas foi contra o nosso vizinho Paraguai.

Em 1864, o Paraguai era uma nação em franco desenvolvimento. Lá não havia analfabetismo. Os telégrafos se expandiam e a indústria da construção naval prosperava. Isso era uma ameaça à maior potência sul-americana da época - o Brasil.

Não foi difícil encontrar um motivo para justificar a guerra (como esses que os EUA sempre formulam para invadir outros países). O Paraguai tinha se aliado à França, o que contrariava os interesses da Inglaterra no continente. Além disso, o Paraguai tinha um pacto com o Uruguai, e quando este foi invadido pelo Brasil (que cismou ter o direito de depor seu governante), o Paraguai veio em seu socorro e a matança teve início. E para ambos os lados.

Num determinado momento, os paraguaios chegam a invadir o estado do Mato Grosso, com uma ofensiva bem planejada, com mais de 30.000 soldados concentrados na região. Provocaram, contudo, a fúria da Argentina ao passar por uma de suas cidades sem permissão, sendo este o estopim para que a Argentina se aliasse ao Brasil contra eles.

A coisa foi tão feia quem numa determinada batalham mais de 20 mil paraguaios foram mortos de uma só vez. E o ódio dos soldados brasileiros era tão grande que nem os cavalos do inimigo foram poupados.

Quando, finalmente, Assunção é invadida, os brasileiros saqueiam a cidade e levam até pianos, com os quais eles enchem os porões de dois navios. A ordem de D. Pedro II era acabar com todo mundo, mas o general Caxias lhe escreve dizendo que não quer continuar: “... senão terei que matar o último paraguaio, no ventre da última paraguaia.”

Mas a guerra prossegue, e D. Pedro II manda o seu genro, Luís Filipe Gastão, para substituir Caxias. Para novamente conseguir fugir, o presidente paraguaio López tentou um ardil: colocou 10.000 crianças vestidas com o uniforme do exército paraguaio usando barbas de milho e armas de brinquedo. Mas Luís Filipe não teve dó nem piedade. Mandou matar todas as crianças e ainda mandou incendiar o Hospital do Sangue, onde agonizavam os soldados paraguaios.

Resultado: o Paraguai perdeu 2,2 milhões de cidadãos, e o Brasil, 200 mil. O Paraguai se desestabilizou por completo, assim como o Brasil, que não conseguiu se reerguer.

Eis aí um pequeno capítulo de nossa (não muito comentada) história, do “pacífico” povo brasileiro. E isso não é para mostrar que somos "maus" ou qualquer coisa assim. É para dissipar essa imagem romântica de que o brasileiro não luta. Ele luta, sempre lutou, e algumas vezes até por interesses reprováveis, como nessa guerra.


REFERÊNCIA

VIEIRA, Cláudio. A história do Brasil são outros 500. São Paulo: Record, 2000.

É assim que somos livres no capitalismo

Posted: 30.6.10 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Original de Sidewalk Bubblegum © - Tradução de Glauber Ataide

Assim é o capitalismo

Posted: 29.6.10 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Original de Sidewalk Bubblegum © - Tradução de Glauber Ataide

Produção de mercadorias no capitalismo

Posted: 23.6.10 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Quadrinho sobre a extração da mais-valia. Clique na imagem para ampliar.




O mais completo ser humano de nossa era

Posted: 15.6.10 by Glauber Ataide in Marcadores: , ,
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O filósofo existencialista Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir em encontro com Che Guevara, a quem Sartre classificou como "o mais completo ser humano de nossa era".


Socialismo igualitário não existe no marxismo

Posted: 25.5.10 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Um dos mitos mais difundidos sobre o socialismo é que neste sistema "todos são iguais", no sentido de que todos recebem a mesma quantia de produtos por seu trabalho, seja ele qual for. Um suposto "igualitarismo" salarial. Alguns mitos, ainda mais exagerados, dizem que ninguém é dono de sua própria casa, que todos dormem debaixo de um enorme galpão comunitário compartilhando um enorme cobertor, etc.

Este "igualitarismo" salarial soa estranho a muita gente que pensa ser "injusto" que o mérito e o esforço pessoal não sejam levados em consideração. Que uma pessoa que não trabalhe, trabalhe mal ou não se esforce tenha a mesma recompensa que uma pessoa esforçada.

Reproduzo abaixo um trecho de uma entrevista de Stálin ao autor alemão Emil Ludwig, de 1932, na qual o dirigente soviético é confrontado com a questão do "igualitarismo" salarial e esclare um pouco sobre o que o socialismo marxista realmente diz sobre isso.

[...]

Ludwig: Sou muito grato por esta sua afirmação. Permita-me fazer a seguinte pergunta: o senhor fala de “igualamento salarial”, dando à expressão uma conotação distintamente irônica em relação ao igualamento geral. Mas, com certeza, o igualamento geral é um ideal socialista.

Stálin: O tipo de socialismo no qual todos receberiam o mesmo pagamento, a mesma quantidade de carne e a mesma quantidade de pão, vestiriam as mesmas roupas e receberiam os mesmos artigos nas mesmas quantidades – tal socialismo é desconhecido para o marxismo.

Tudo que o marxismo diz é que até que as classes tenham sido finalmente abolidas e até que o trabalho tenha sido transformado de um meio de subsistência na necessidade básica do homem, no trabalho voluntário pela sociedade, as pessoas serão pagas por seu esforço de acordo com o trabalho executado. “De cada um de acordo com sua habilidade, para cada um de acordo com seu trabalho.” Esta é a fórmula marxista do socialismo, a fórmula para o primeiro estágio do comunismo, o primeiro estágio da sociedade comunista.

Apenas no mais alto estágio do comunismo, apenas em sua fase mais desenvolvida, é que cada um, trabalhando de acordo com a sua habilidade, será recompensado por seu trabalho de acordo com suas necessidades. “De cada um de acordo com sua habilidade, para cada um de acordo com suas necessidades.”

Está muito claro que as necessidades das pessoas variam e continuarão variando sob o socialismo. O socialismo nunca negou que as pessoas sejam diferentes em seus gostos, e na quantidade e qualidade de suas necessidades. Leia como Marx criticou Stirner por sua inclinação em direção ao igualitarismo; leia a crítica de Marx ao Gotha Programme de 1875; leia os trabalhos subseqüentes de Marx, Engels e Lênin, e você verá quão agudamente eles atacam o igualitarismo. O igualitarismo deve sua origem ao tipo de mentalidade camponesa individual, à psicologia de compartilhar e compartilhar igualmente, à psicologia do “comunismo” primitivo camponês. Igualitarismo não tem nada em comum com o marxismo socialista. Apenas as pessoas sem qualquer familiaridade com o marxismo podem ter a idéia primitiva de que os bolcheviques russos desejam juntar toda a riqueza e então dividi-la igualmente. Essa é a idéia de pessoas que não têm nada em comum com o marxismo. É assim que tais pessoas como os “comunistas” primitivos da época de Cromwell e da Revolução Francesa imaginaram o comunismo para si próprios. Mas o marxismo e os bolcheviques russos não têm nada em comum com tais “comunistas” igualitaristas.



Miséria é o principal "produto" do capitalismo

Posted: 19.5.10 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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O capitalismo tem legiões de defensores. Muitos o fazem de boa vontade, produto de sua ignorância e pelo fato de que, como dizia Marx, o sistema é opaco e sua natureza exploradora e predatória não é evidente ante os olhos de homens e mulheres. Outros o defendem porque são seus grandes beneficiários e amassam enormes fortunas, graças às suas injustiças e iniquidades.

Além do mais há outros ("gurus" financeiros, "opinólogos", jornalistas "especializados", acadêmicos "pensadores" e os diversos expoentes do "pensamento único") que conhecem perfeitamente bem os custos sociais que, em termos de degradação humana e do meio-ambiente, o sistema impõe.

No entanto, são muito bem pagos para enganar as pessoas e prosseguem com seu trabalho de forma incansável. Eles sabem muito bem, aprenderam muito bem, que a "batalha de ideias", à qual Fidel Castro nos convocou, é absolutamente estratégica para a preservação do sistema, e não retrocedem em seu empenho.

Para resistir à proliferação de versões idílicas acerca do capitalismo e de sua capacidade para promover o bem-estar geral, examinemos alguns dados obtidos de documentos oficiais do sistema pelas Nações Unidas.

Isso é sumamente didático quando se escuta, principalmente no contexto da crise atual, que a solução aos problemas do capitalismo se obtém com mais capitalismo; o que o G-20, o FMI, a OMC e o Banco Mundial, arrependidos de seus erros passados, vão poder resolver os problemas que provocam agonia à humanidade. Todas essas instituições são incorrigíveis e irreformáveis, e qualquer esperança de mudança não é nada mais que uma ilusão. Seguem propondo o mesmo, só que com um discurso diferente e uma estratégia de "Relações Públicas", desenhada para ocultar suas verdadeiras intenções. Quem tiver dúvidas que olhe o que está propondo para "solucionar" a crise na Grécia: as mesmas receitas que aplicaram e que seguem aplicando na América Latina e na África desde os anos 1980!

A seguir, alguns dados (com suas respectivas fontes) recentemente sistematizados pelo Programa Internacional de Estudos Comparativos sobre a Pobreza (CROP, na sigla em inglês), da Universidade de Bergen, na Noruega. O CROP está fazendo um grande esforço para, a partir de uma perspectiva crítica, combater o discurso oficial sobre a pobreza elaborado há mais de trinta anos pelo Banco Mundial e reproduzido incansavelmente pelos grandes meios de comunicação, autoridades governamentais, acadêmicos e vários "especialistas".

População mundial: 6,8 bilhões, dos quais:

  • 1,02 bilhão têm desnutrição crônica (FAO, 2009)

  • 2 bilhões não têm acesso a medicamentos (www.fic.nih.gov)

  • 884 milhões não têm acesso a água potável (OMS/UNICEF 2008)

  • 924 milhões de "sem teto" ou que vivem em moradias precárias (UN Habitat 2003)

  • 1, 6 bilhão não tem eletricidade (UN Habitat, “Urban Energy”)

  • 2,5 bilhões não tem acesso a saneamento básico e esgotos (OMS/UNICEF 2008)

  • 774 milhões de adultos são analfabetos (www.uis.unesco.org)

  • 18 milhões de mortes por ano devido à pobreza, a maioria delas de crianças com menos de 5 anos (OMS)

  • 218 milhões de crianças, entre 5 e 17 anos, trabalham em condições de escravidão ou em tarefas perigosas ou humilhantes, como soldados, prostitutas, serventes na agricultura, na construção civil ou na indústria têxtil (OIT: A Eliminação do Trabalho Infantil: Um Objetivo a Nosso Alcance, 2006)

  • Entre 1988 e 2002, os 25% mais pobres da população mundial reduziram sua participação na riqueza global de 1,16% para 0,92%, enquanto que os 10% mais ricos acrescentaram mais riquezas, passando de 64,7 para 71,1% da riqueza produzida mundialmente. O enriquecimento de poucos tem como reverso o empobrecimento de muitos.

  • Só esse 6,4 % de aumento da riqueza dos mais ricos seria suficiente para duplicar a renda de 70% da população da Terra, salvando inumeráveis vidas e reduzindo as penúrias e sofrimentos dos mais pobres. Entenda-se bem: tal coisa seria obtida se tão só fosse redistribuído o enriquecimento adicional produzido entre 1988 e 2002, dos 10% dos mais ricos do planeta, deixando intactas suas exorbitantes fortunas. Mas nem sequer algo tão elementar como isso é aceitável para as classes dominantes do capitalismo mundial.

Conclusão: Se não se combate a pobreza (nem fale de erradicá-la sob o capitalismo!) é porque o sistema obedece a uma lógica implacável, centrada na obtenção do lucro, o que concentra a riqueza e aumenta incessantemente a pobreza e a desigualdade econômico-social.

Depois de cinco séculos de existência, isto é o que o capitalismo tem para oferecer. Que esperamos para mudar o sistema? Se a humanidade tem futuro, será claramente socialista. Com o capitalismo, em troca, não haverá futuro para ninguém. Nem para os ricos, nem para os pobres. A sentença de Friedrich Engels, e também de Rosa Luxemburgo: "Socialismo ou barbárie", é hoje mais atual e vigente que nunca. Nenhuma sociedade sobrevive quando seu impulso vital reside na busca incessante do lucro, e seu motor é a ganância. Mais cedo que tarde provoca a desintegração da vida social, a destruição do meio ambiente, a decadência política e uma crise moral. Todavia ainda temos tempo, mas não muito.


Fonte: Jornal La República, Espanha