O Complexo de Édipo

Posted: 5.11.07 by Glauber Ataide in Marcadores:
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O Complexo de Édipo é considerado a pedra fundamental do edifício psicanalítico. Seu nome foi retirado do mito grego do rei Édipo que, ao nascer, recebeu um oráculo que dizia que ele mataria seu próprio pai e se casaria com a sua mãe. Mesmo sendo tomadas todas as providências para que a profecia não se cumprisse, ele acabou matando o seu pai (sem saber quem era) e casando-se e tendo um filho com a sua própria mãe (só descobrindo posteriormente que era sua mãe).

Mas de onde e por que surgiu esse conceito na psicanálise? Segundo J.-D. Nasio, todo conceito psicanalítico surge para explicar um problema encontrado na prática clínica. Assim, perguntamos: de qual problema, então, o Complexo de Édipo é solução? A resposta é: do problema de como se forma a nossa sexualidade e de como alguém se torna neurótico.

O Complexo de Édipo se desenvolve de forma diferente nos meninos e nas meninas. Vamos expor, primeiramente, de como ele se dá nos meninos.

O Complexo de Édipo nos meninos

A partir dos três anos de idade, os meninos focalizam o seu prazer sobre o pênis. Nessa idade, o pênis se torna a parte do corpo mais rica em sensações e se impõe como a zona erógena dominante.

Porém, aos quatro anos, o pênis não é apenas o órgão mais rico em sensações. É também o objeto mais amado e o que reclama mais atenções. Assim, tal culto ao pênis, característico dessa idade, o eleva ao nível de símbolo de poder e de virilidade. Quando o pênis se torna, aos olhos de todos - meninos e meninas - o representante do desejo, ele recebe o nome de FALO.

O falo não é o pênis enquanto órgão. E um pênis fantasiado, idealizado, símbolo da onipotência e do seu avesso.

Excitado sexualmente, o menino de quatro anos vê surgir dentro de si uma força misteriosa, até então desconhecida: o impulso de se dirigir ao outro, ou, mais exatamente, de se dirigir aos seus pais - aos corpos deles - para ali encontrar prazer. Mas que desejo é esse? É um desejo sexual.

Mas cabe aqui desfazer um mal entendido muito comum. Na psicanálise, tudo o que é genital é sexual, mas nem tudo o que é sexual é genital. Sendo assim, o desejo sexual do menino em direção a seus pais não é um desejo exclusivamente genital pelo fato de ser sexual.

Os três movimentos fundadores desse desejo do menino são: desejo de possuir o corpo do outro, desejo de ser possuído e desejo de suprimir.

Ora, sem ser possível atingir a satisfação desses três desejos incestuosos - obter o gozo absoluto de possuir o corpo da mãe; ser possuído pelo pai (ser sua coisa e fazê-lo gozar); e o gozo absoluto de suprimir o pai - o menino cria fantasias que lhe dão prazer ou angústia, mas que, de toda forma, satisfazem imaginariamente seus loucos desejos.

Mas o que é uma fantasia? Uma fantasia é uma cena imaginária, geralmente consciente, que propicia consolo à criança. Ela tem como função substituir uma ação ideal que baixa a tensão do desejo e propicia prazer.

Nessa idade, porém, o menino tem uma visão do corpo nu feminino, o qual é desprovido de pênis. Ele, que antes pensava que todas as pessoas no mundo possuíam um falo, agora percebe que existem seres castrados, sem pênis. Então, surgem as fantasias de angústia, pois, se existem seres que não possuem pênis, ele também pode perder o seu. Essas fantasias de angústia são: o medo de ser castrado pelo pai repressor, o medo de ser castrado pelo pai sedutor e o medo de ser castrado pelo pai rival.

Dessa angústia de castração vem a resolução da crise edipiana, que consiste em três etapas: 1) recalcamento dos desejos; 2) renúncia aos pais como objeto de desejo e 3) incorporação dos pais como objeto de identificação.

Ele deve fazer uma escolha: ou salva o seu falo-pênis ou fica com a sua mãe. Por causa do medo de perder seu falo-pênis, ele renuncia aos pais como objetos sexuais e recalca os seus desejos inconscientes.

Duas consequências decisivas ocorrem na estruturação da personalidade do menino ao fim do Complexo de Édipo: o surgimento de uma nova instância psíquica, o superego, e a confirmação de uma identidade sexual nascida por volta dos dois anos de idade e afirmada mais solidamente após o fim da puberdade.

O superego é instituído devido a um gesto psíquico surpreendente: o menino, ao renunciar aos pais como objeto sexual, os incorpora como objetos do seu eu. Na impossibilidade de tê-los como parceiros sexuais, promete inconscientemente ser como eles em suas ambições, fraquezas e ideais. Aqui vale lembrar-nos de Shakespeare: “Com o tempo você descobre que há muito mais do seus pais em você do que você supunha”.

A identidade sexual é instalada progressivamente pelo seu contexto familiar, social e linguístico, assim como pelas sensações erógenas que emanam de seu genital e a atração pelo pai de sexo oposto. Antes do Édipo, a criança ainda não sabe dizer se é menino ou menina, que o pai é um homem e a mãe uma mulher. É só na puberdade que essa identidade vai se consolidar.

O Complexo de Édipo nas meninas

O Complexo de Édipo se desenvolve de forma um pouco diferente nas meninas. Elas passam primeiramente por uma fase pré-edipiana. Ao passo em que um menino de quatro anos tem três desejos incestuosos - de possuir, de ser possuído e de suprimir o outro -, a menina tem apenas um: o de possuir a mãe.

Neste período, ela julga deter, assim como um menino, um falo, e se sente onipotente. Mas um evento crucial ofuscará o orgulho da garotinha: ela verá o corpo nu masculino, dotado de um pênis, e verá que o menino possui algo que ela não tem. A reação da menina é de decepção: "Ele tem algo que eu não tenho!". Até então, fiava-se em suas sensações de poder vaginal e clitoridiano, que a confortavam em seu sentimento de onipotência. Agora que viu o pênis, duvida de suas sensações, e julga que o poder está no corpo do outro, no sexo masculino. A menina vê-se assim dolorosamente despossuída, pois o cetro da força não é mais encarnado por suas sensações erógenas, mas pelo órgão visível do menino.

Aqui, então, ela sofre com a dor de ter sido privada do falo. Enquanto o menino sente a angústia de castração, a menina vive a dor de uma privação, de uma perda. Lembrem-se que o que levou o menino à resolução do Édipo foi a angústia de castração, isso é, o medo de perder o falo. Mas a menina constata que ela não tem o falo, isso é, não tem nada a perder. Enquanto o menino sofre uma angústia, a menina sofre uma dor real - uma dor de ter sido privada de algo que ela julgava possuir. Ela sente-se então enganada. Mas quem teria mentido pra ela dizendo-lhe que ela possuía um falo todo-poderoso, senão a sua mãe? Sim, a onipotente mãe mentiu a ela sofre o falo, um falo que ela mesma também não possui. Uma mãe desprovida de falo, assim como ela, e que merece agora apenas desprezo.

É nesse exato momento que a menina, despeitada, esquiva-se da mãe, e em sua solidão, fica furiosa por ter sido privada e enganada.

Ao constatar o falo no menino, com seu orgulho ferido, ela sofre, sente-se lesada em seu amor-próprio e reivindica o que acha que lhe é de direito: "Quero esse falo de volta e o terei nem que o tenha que arrancar do menino!". A menina é então presa de um sentimento que a psicanálise chama de "inveja do pênis", mas que o autor J.D.-Nasio prefere chamar de "inveja do falo". Segundo Nasio, esse termo enfatiza melhor o fato de que a menina inveja não o órgão peniano do menino, mas sim o símbolo de potência por ele encarnado. Uma coisa é invejar o falo, outra é desejar o pênis de um homem.

Vale ressaltar que inveja não é desejo, e que para que uma menina venha a desejar um pênis, é necessário primeiro se tornar mulher, isso é, resolver o Édipo após sexualizar e dessexualizar o seu pai.

Agora entra em cena a figura do pai, o grande detentor do falo. É quando a menininha magoada e sempre ciumenta se volta para ele para lhe reivindicar seu poder e sua potência. Quer ser tão forte quanto o pai e ter de volta aquilo que perdeu.

É então que o pai lhe fala: "Não, nunca lhe darei o falo, pois ele pertence à sua mãe!". Claro que nenhum pai diz isso à filha; esse pai é um pai caricatural, fantasiado. Se um pai tivesse que dizer algo de verdade a um pedido desses, ele diria apenas o seguinte: "Não posso lhe dar o falo, simplesmente porque esse falo não existe! O falo que você me pede é um sonho, uma quimera de criança!".

Essa recusa do pai é recebida pela filha como uma bofetada que põe fim a toda esperança de um dia possuir o mítico falo. Ela acaba de compreender que nunca o terá, mas mesmo assim não se resigna. Ao contrário, lança-se agora com todas as forças nos braços do pai não mais para lhe arrancar o poder, mas para ser ela mesma a fonte do poder. Sim, ela queria ter o falo, mas agora ela quer ir além, ela quer ser o falo, ser a coisa do pai. Isso é, ela quer ser o próprio falo, a favorita do pai.

Em virtude do não, da primeira recusa paterna, surge agora o desejo incestuoso de ser possuída por ele, de ser o falo do pai. Quando era invejosa, adotava uma atitude masculina; agora que é desejante, adota uma postura feminina. Assim, ao sexualizar o pai, a menina entra efetivamente no Édipo. Por sinal, a fantasia de prazer que melhor ilustra o desejo edipiano de ser possuída pelo pai é geralmente expressa pela frase: "Quando crescer, vou me casar com o papai".

Essa entrada no Édipo é também o momento em que a mãe, após ter sido afastada, volta à cena e fascina a filha por sua graça e feminilidade. A menina então, espontaneamente, aproxima-se e identifica-se com a mãe. O comportamento edipiano da menina inspira-se completamente no ideal feminino encarnado pela mãe, na observação e no aprendizado de como seduzir um homem. É nessa fase que as meninas adoram observar a mãe se maquiando ou se embelezando. Mas é aqui que a mãe é vista, além de como um ideal, como uma grande rival. Assim, realiza-se o primeiro movimento de identificação da filha com o desejo da mãe: o de ser a mulher do homem amado e dar-lhe um filho.

Mas da mesma forma que o pai se recusou a dar o falo à filha, ele agora recusa tomá-la como objeto sexual e a considerá-la seu falo. Depois que a primeira recusa - "Não lhe darei meu falo!" - permitiu à menina se reaproximar da mãe e com ela identificar-se, a segunda - "Não a quero como mulher!" leva a filha a identificar-se com a pessoa do pai.

Ocorre aqui então um fenômeno curioso, mas extremamente saudável no Édipo feminino: uma vez que a menina não pode ser o objeto sexual do pai, ela quer ser então como ele. "Já que você não quer saber de mim como mulher, então vou ser como você!". A menina aceita recalcar o seu desejo de ser possuída pelo pai, sem com isso renunciar à sua pessoa. Enquanto o menino edipiano resigna-se a perder a mãe por covardia, a menina, por sua vez, que nada mais tem a perder, obstina-se audaciosamente a se apoderar do pai. Ela mata seu pai fantasiado, mas o ressuscita como modelo de identificação. Identificada com os traços masculinos do pai após ter se identificado com os traços femininos da mãe, a menina enfim abandona a cena edipiana, abrindo-se agora para os futuros parceiros de sua vida como mulher.

Notem que as duas identificações constitutivas da mulher - identificação com a feminilidade da mãe e com a virilidade do pai - foram desencadeadas por duas recusas do pai: recusa de dar o falo à filha e recusa de tomá-la como falo.

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O texto acima é uma resenha do livro Édipo – O complexo do qual nenhuma criança escapa, do autor J.-D. Nasio, Jorge Zahar Editor.

Freud e a religião - a neurose obsessiva universal da humanidade

Posted: 30.10.07 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Em O futuro de uma ilusão, Freud se propõe a explicar a origem da religião através de uma aplicação histórico-social de suas descobertas psicanalíticas. Como um ilustre representante tardio do esclarecimento ele aponta, também, o que lhe afigurava como o seu provável destino, e daí a presença do termo "futuro" no título da obra.

Seria importante ressaltar, em primeiro lugar, que a origem "psicológica" da religião não diz nada sobre a existência (ou não existência) de Deus. Não é muito incomum encontrar pessoas fazendo referência a esta obra de Freud para "provar" ou "demonstrar" que Deus não existe, o que é um grosseiro erro de lógica.

Philip L. Quinn, em um artigo contido no livro Philosophy of religion (William Lane Craig), critica Alvin Plantinga por sua injusta e depreciativa avaliação da teoria de Freud sobre a origem da religião. Quinn afirma que a teoria exposta por Freud pode ser o mecanismo do qual Deus nos dotou para que pudéssemos reconhecer a Sua existência e buscar com Ele um relacionamento, e deixa o campo aberto para que futuras pesquisas sejam realizadas em cima dessa hipótese.

No geral, podemos ver essa teoria de Freud, se verdadeira, da seguinte perspectiva: se Deus não existe, então a teoria de Freud é uma explicação muito plausível de como se originou a crença religiosa e a ideia de Deus. Por outro lado, se Deus existe, esta teoria pode esclarecer o mecanismo do qual Ele nos dotou para pudéssemos reconhecer a sua existência e sentir a necessidade de estabelecer com Ele um relacionamento. (Apesar de que acho que teríamos aqui um problema com os calvinistas, mas eu mesmo não sou calvinista.)

Dito isso, vamos resumir alguns pontos importantes dessa magnífica obra de Freud, cuja leitura eu recomendo.

A origem da religião

Para Freud, a religião surgiu de uma necessidade de defesa contra as forças da natureza, como todas as outras realizações da civilização. No indivíduo, ela surge do desamparo. Esse desamparo é inicialmente o desamparo da criança, e posteriormente, o desamparo do adulto que a continua.

Vejamos a vida mental da criança: quando bebê, o indivíduo passa pela fase de escolha do objeto do tipo anaclítico. A sua libido é direcionada pelas necessidades narcísicas a objetos que asseguram a satisfação de suas necessidades. A mãe, que satisfaz a fome da criança, torna-se seu primeiro objeto amoroso e também sua primeira proteção contra os perigos do mundo externo - a primeira proteção contra a ansiedade.

Na função de proteção, a mãe é substituída posteriormente pelo pai mais forte, que retém essa posição pelo resto da infância. Mas a relação com o pai é uma relação ambivalente: o próprio pai é também um perigo para a criança, talvez por causa de sua relação com a mãe. Assim, a criança teme e admira o pai.

Quando o indivíduo cresce e descobre que está destinado a permanecer uma criança para sempre, que nunca poderá passar sem proteção contra os poderes superiores (da morte, da natureza, etc), empresta a esses poderes as características pertencentes à figura do pai; cria para si próprio os deuses a quem teme e, não obstante, confia sua própria proteção.

Sendo assim, Freud afirma que "é a defesa contra o desamparo infantil que empresta suas feições características à reação do adulto ao desamparo que ele tem de reconhecer - reação que é, exatamente, a formação da religião."

Mais tarde ele diz: "Assim, a religião seria a neurose obsessiva das crianças, ela surgiu do complexo de Édipo, do relacionamento com o pai."

Freud afirma, porém, que as religiões estão cheias das mais gritantes contradições e discordâncias com a realidade que conhecemos. Então, ele se pergunta: Sendo as religiões contraditórias, de onde vem a sua força? Onde reside a força interior das doutrinas religiosas, independente, como são, do reconhecimento da razão?

A isso ele responde dizendo que as ideias religiosas são ilusões, realizações dos mais antigos, fortes e prementes desejos da humanidade. O segredo de sua força reside na força desses desejos.

Uma ilusão, porém, é diferente de um erro. As ilusões não precisam ser necessariamente falsas, ou seja, irrealizáveis ou em contradição com a realidade. Ele cita como exemplo uma mulher que tem a ilusão de que um príncipe encantado virá buscá-la, casar-se com ela e lhe dar filhos. Isso em si não está em contradição com a realidade, e nem é irrealizável, pois essas coisas já aconteceram algumas vezes. Então, ele afirma que o que é característico das ilusões é o fato de derivarem de desejos humanos.

As ideias religiosas são ilusões porque, segundo Freud, seria realmente muito bom se existisse um Deus benevolente, que cuida de nós e que nos dá uma vida após a morte. Um Deus que fará justiça a todas as injustiças que há neste mundo, e que nos recompensará por todas as privações a que somos submetidos por causa da civilização. Na verdade, nós queremos acreditar que isso seja verdade. Essas crenças são ilusões pois derivam de desejos humanos, do nosso desejo de que as coisas realmente sejam assim.

Mas assim como uma criança não pode completar com sucesso o seu desenvolvimento para o estágio civilizado sem passar por uma neurose, a humanidade, de forma análoga, tombou em seu desenvolvimento através das eras.

Isso é, a neurose infantil é uma parte do desenvolvimento de qualquer indivíduo, assim como a neurose da humanidade. E assim como o indivíduo supera sua neurose infantil, a civilização irá superar a sua neurose, e "o afastamento da religião está fadado a ocorrer com a fatal inevitabilidade de um processo de crescimento."


Considerações finais

É interessante notar que a psicanálise e, mais especificamente, o Complexo de Édipo, que têm sido utilizados durante décadas como ferramentas para explicar a crença religiosa, podem ser utilizados também para explicar o ateísmo.

Freud afirma: "O crente está ligado aos ensinamentos da religião por certos vínculos afetivos. Contudo, indubitavelmente existem inumeráveis outras pessoas que não são crentes, no mesmo sentido." Isso é, a causa tanto da crença quanto da descrença são primariamente emocionais, e só secundariamente racionais.

Veja o artigo The psychology of atheism, de Paul C. Vitz, no qual ele utiliza o conceito do Complexo de Édipo para explicar o ateísmo. (http://www.leaderu.com/truth/1truth12.html)

Freud quis deixar claro que não é psicanálise que chega a essas conclusões, mas que ela é apenas uma ferramenta utilizada que proporcionou a um pensador chegar a essas conclusões. Em suas palavras: "Se a aplicação do método psicanalítico torna possível encontrar um novo argumento contra as verdades da religião, tant pis para a religião, mas os defensores desta, com o mesmo direito, poderão fazer uso da psicanálise para dar valor integral à significação emocional das doutrinas religiosas."

Freud e os chistes

Posted: 22.9.07 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Em sua obra The joke and its relation to the unconscious ("Os chistes e a sua relação com o inconsciente", tradução inglesa do original alemão realizada pela editora Penguin), Freud analisa os chistes (piadas, gracejos), buscando responder questões tais como: o que faz com que uma determinada brincadeira ou piada nos leve ao riso? No que reside a sua graça? Seria na técnica utilizada para formar a piada? Ou no pensamento transmitido por ela?

Freud aponta que tanto a técnica utilizada para a formação de um chiste quanto o pensamento expresso por ele geram satisfação e nos fazem rir. Contudo, rimos ainda com mais intensidade quando há um pensamento sendo expresso pelo chiste (isso é, quando a piada cumpre um propósito ou uma "tendência").

Para Freud, há dois tipos de piadas: inócuas e tendenciosas. As piadas inócuas são aquelas que nos proporcionam prazer apenas por causa das técnicas utilizadas para formá-la, como os jogos de palavras, representação pelo oposto, condensação, etc. Essas técnicas consistem basicamente nos mesmos processos utilizados pelo censor para gerar o conteúdo manisfesto dos sonhos.

Já as piadas tendenciosas são aquelas que apresentam uma "tendência". Isso é, elas tendem a cumprir alguma finalidade. E o seu fim último é o mesmo que o dos sonhos: a satisfação de desejos inconscientes.

Elas são, segundo Freud, uma forma de nos libertarmos de nossas inibições para expressar instintos agressivos, sexuais, cinismo, etc. São usadas para que possamos expressar aquilo que, de outra forma, não ganharia expressão a nível consciente.

Podemos perceber como as piadas e "brincadeirinhas" nos livram de nossas inibições ao perceber como rimos, por exemplo, de piadas cujo conteúdo é sexual. Se uma pessoa nos expressa o conteúdo de uma piada sexual sem se valer das técnicas que tornam esse conteúdo uma piada, provavelmente não rimos. Pelo contrário, podemos até sentir a famosa "vergonha alheia". E achamos a piada tanto melhor quanto mais bem feita for sua elaboração, quanto mais velada for a expressão do seu conteúdo.

Há um exemplo muito interessante que Freud cita em seu livro que ilustra como o chiste livra o seu criador de inibições. É uma piada sobre uma pessoa de classe subalterna que se dirige a um superior e expressa o que não poderia nunca expressar diretamente. Através da piada ele se livra das inibições tanto de atacar a pessoa superior a quem se dirige quanto de expressar conteúdo sexual sobre a mãe deste.

Essa história é a de um rei que passeava por seus domínios, quando encontrou um aldeão que era extremamente parecido consigo mesmo. Ele ficou impressionado com a semelhança física entre eles, e lhe perguntou: "A sua mãe já esteve na corte?". O aldeão, então, lhe respondeu: "Não, senhor, mas meu pai sim.".

A pergunta que o rei dirige ao aldeão é extremamente ofensiva, mas este lhe dá o troco na mesma moeda.

Podemos perceber que a fonte de prazer dessa piada não é somente o conteúdo expresso por ela, mas também a técnica utilizada para sua formação. Podemos comprovar isso se expressarmos diretamente o seu pensamento, lhe retirando a sua "roupagem" de piada. A resposta do aldeão, expressa de forma direta, ficaria algo como: "Não, senhor, o seu pai não fez sexo com a minha mãe, mas provavelmente foi meu pai que fez sexo com a sua."

Apesar da fonte de prazer de uma piada ser tanto o pensamento expresso por ela quanto as técnicas utilizadas para sua formação, Freud diz que não podemos saber qual a proporção de cada uma no resultado final da piada. Isso é, não sabemos se estamos rindo mais da técnica ou do conteúdo. Mas, como já afirmamos, o fato é que tanto a técnica utilizada para a formação de um chiste quanto o pensamento expresso por ele geram satisfação e nos provocam o riso.

Nietzsche e a morte de Deus

Posted: 9.8.07 by Glauber Ataide in Marcadores:
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É parte de uma cultura popular crer que Nietzsche disse "Deus está morto". Tecnicamente, não foi exatamente ele quem disse isso. Essa frase foi proferida por um louco, um personagem de um livro seu chamado Assim falou Zaratustra. Da mesma forma que não foi Shakespeare quem disse "ser ou não ser, eis a questão", mas Hamlet, um de seus personagens, não foi Nietzsche quem disse "Deus está morto". Algumas pessoas fazem até piadas com essa frase, achando-se espertas ao colocar a frase "Nietzsche está morto" na boca de Deus.

Mas o que Nietzsche queria dizer com isso? É óbvio que ele não dizia que o homem literalmente matou Deus, um ser metafísico. Segundo Reale (1995, p. 22), "o significado da afirmação da morte de Deus tem um alcance bem mais amplo do que o de exprimir uma forma de ateísmo comum". Nietzsche se referia na verdade ao que Deus representava para a cultura européia, à crença cultural compartilhada em Deus que no passado havia sido a característica que unia e definia a Europa. Nietzsche estava falando da Europa sem Deus, falando que a noção cristã de Deus estava morta, que não podia mais ser racionalmente aceita. Ele falava da decadência da metafísica no pensamento ocidental.

No tempo de Nietzsche, a ciência, a política e a arte estavam deixando Deus para trás, como algo do passado. Deus havia ocupado até então o centro do conhecimento e do sentido da vida, mas não mais.

A "morte de Deus" não deve ser entendida como uma blasfêmia ou uma afronta gratuita proferida por Nietzsche, como pensam muitos religiosos. Ela é uma constatação de uma situação histórica do pensamento ocidental.

Heidegger, citado por Reale (1995,  p. 24), afirma que 

"enquanto entendermos a expressão 'Deus está morto' apenas como a fórmula da descrença, só estaremos pensando no modo teológico-apologético, renunciando ao objetivo do pensamento de Nietzsche, ou seja, à reflexão que tende a pensar o que já aconteceu à verdade do mundo supra-sensível e à sua relação com o mundo sensível."

E Reale (Ibid.) conclui: "A 'morte de Deus', portanto, significa o desaparecimento da dimensão da transcendência, a anulação total dos valores ligados a ela, a perda de todos os ideais."


REFERÊNCIAS:

REALE, Giovanni. O saber dos antigos - terapia para os tempos atuais. São Paulo: Edições Loyola, 1995.

A historicidade da ressurreição de Jesus Cristo

Posted: 4.4.07 by Glauber Ataide in Marcadores:
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"Se Cristo não ressuscitou, logo é vã a nossa fé. (1 Coríntios 15:17)"

A ressurreição física de Jesus é um evento crucial da fé cristã, como atesta o versículo acima. Haveria, contudo, alguma evidência histórica que poderia confirmar ou contestar o relato bíblico?

Não pretendo fazer um tratamento exaustivo do assunto, mas apenas abordar alguns aspectos da discussão, baseando-me principalmente no trabalho do filósofo Dr. William Lane Craig. Para um tratamento menos lacônico, recomendo a bibliografia ao final deste texto.

Prelimares: uma metologia de pesquisa

Em primeiro lugar, devemos ter em mente que uma discussão como esta é de natureza histórica. O historiador deve tentar reconstruir o curso do passado, baseando-se, para isso, em evidências. O passado já passou, não está mais disponível aos 5 sentidos, não pode ser levado a um laboratório e ser experimentado. Assim, o material que um historiador usa para reconstruir o passado é principalmente de dois tipos: relatos de testemunhas e artefatos arqueológicos. Mas para avaliar o material que ele tem em mãos e afirmar o que provavelmente ocorreu no passado, ele deve seguir uma metodologia.

Antes de fazer uma exposição positiva da ressurreição de Jesus, é necessário que estejamos familiarizados com uma metodologia de pesquisa utilizada pelos historiadores para decidir qual, dado um conjunto de hipóteses, explica melhor um conjunto de dados de que dispomos. Essa metodologia é conhecida como inferência para a melhor explicação.

Nessa abordagem, somos confrontados com certos dados a serem explicados. Assim, reunimos um grupo de alternativas coerentes, que consiste nas várias explicações para os dados em questão. Do grupo, selecionamos a explicação que, se verdadeira, melhor explica os dados. Entre os critérios geralmente admitidos estarão propriedades como as seguintes:

1)Escopo explicativo: a melhor hipótese esclarecerá uma extensão mais ampla de dados do que as hipóteses rivais.

2)Força explicativa: a melhor hipótese tornará os dados observáveis mais epistemicamente prováveis do que as hipóteses rivais.

3)Plausibilidade: a melhor hipótese deverá ser inferida de uma maior variedade de verdades aceitas (enquanto sua negação, de poucas) do que as hipóteses rivais.

4)Menos ad hoc: a melhor hipótese envolverá menos novas suposições não inferidas do conhecimento existente do que as hipóteses rivais.

5)Concordância com as crenças aceitas: a melhor hipótese, quando em conjunto com verdades aceitas, deverá implicar menos falsidades do que as hipóteses rivais.

6)Superioridade comparativa: a melhor hipótese excederá suas rivais ao satisfazer as condições de (1) a (5) de tal modo que haja pouca probabilidade de uma hipótese rival excedê-la no preenchimento dessas condições.

A teoria neodarwinista da evolução biológica é um bom exemplo de inferência para a melhor explicação.

Se você não compreendeu muito bem o que essa metodologia tem a ver com nosso assunto, não se preocupe. Ao término deste texto você entenderá melhor o que acabou de ler.

A ressurreição: uma exposição positiva

Como já afirmei anteriormente, o historiador deve trabalhar com evidências para tentar reconstruir o curso do passado. Essas evidências são principalmente de dois tipos: relatos de testemunhas e artefatos arqueológicos. No caso da ressurreição de Jesus, a principal evidência do historiador são relatos de testemunhas. Esses relatos são as quatro biografias de Jesus que chegaram até nós e que foram incluídas no cânon cristão, a saber: os evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João.

No entanto, é importante salientar que não se pressupõe aqui que estes relatos sejam verdadeiros. Muitas pessoas cometem o erro de afirmar que essa abordagem seria um pensamento circular, pois eu estaria usando a bíblia para provar a própria bíblia, o que não é verdade. Essas quatro biografias sobre Jesus (Mateus, Marcos, Lucas e João) não estão sendo consideradas como verdadeiras ou inspiradas por Deus. Antes, estão sendo consideradas como qualquer documento oriundo da antiguidade.

Na busca pelo Jesus histórico, a maioria dos historiadores contemporâneos do NT estabeleceram alguns fatos como que pertencentes à figura histórica de Jesus, e dentre eles estão os seguintes que interessam a essa discussão:

1) O sepultamento de Jesus por José de Arimatéia;
2) A descoberta do túmulo vazio;
3) As aparições post mortem de Jesus;
4) A origem da fé cristã

Vamos analisar algumas das razões que levaram os historiadores a considerarem como históricos esses quatro fatos.

Fato nº 1: Sobre o sepultamento de Jesus por José de Arimatéia

Os historiadores estabeleceram esse fato baseados nas seguintes evidências:

1.1) O sepultamento de Jesus é multiplamente atestado em fontes primitivas e independentes. O relato do sepultamento é parte do material usado por Marcos para escrever sobre o sofrimento e a morte de Jesus. Além disso, Paulo também cita fontes extremamente primitivas que a maioria dos pesquisadores datam de apenas 5 anos após a crucificação.

1.2) Como um membro do sinédrio judeu que condenou Jesus, é improvável que José de Arimatéia seja uma invenção cristã. Havia uma compreensível hostilidade da igreja primitiva em relação aos líderes judeus. Aos olhos dos primeiros cristãos, eles tinham planejado o assassinato judicial de Jesus. Assim, de acordo com o pesquisador Raymond Brown, o sepultamento de Jesus por José de Arimatéia é “muito provável”, desde que é “quase que inexplicável” por qual razão os cristãos iriam inventar uma história sobre um membro do sinédrio que faz o que é correto em relação a Jesus.

Segundo John A.T. Robinson, da Universidade de Cambridge, o sepultamento de Jesus em seu túmulo “é um dos mais primitivos e bem atestados fatos sobre Jesus”.

Fato nº 2: O túmulo de Jesus foi encontrado vazio, e por um grupo de mulheres

Entre as razões que levaram a maioria dos estudiosos a concluir esse fato como histórico se encontram as seguintes:

2.1) A tentativa de explicação do túmulo vazio por parte dos próprios oponentes do cristianismo indica sua veracidade. “O Dr. Paul Maier diz: ‘Onde o Cristianismo começou? A resposta deve ser: apenas em um ponto da terra: a cidade de Jerusalém. Mas este seria o último lugar em que poderia começar, se o túmulo de Jesus permanecesse ocupado, desde que alguém, exibindo um Jesus morto, poderia ter desferido um golpe direto no coração do cristianismo incipiente, inflamado por sua suposta ressurreição. A explicação oficial – de que os discípulos tinham roubado o corpo – foi uma admissão de que o sepulcro estava realmente vazio.'”

Quando os discípulos começaram a pregar sua mensagem, os judeus não disseram “o corpo está lá no túmulo!” ou “os discípulos estão loucos!”, mas sim que “os discípulos roubaram o corpo”. A evidência do próprio adversário atesta a historicidade do túmulo vazio.

2.2) A história é simples, não tem traços de contos mitológicos, lendários. Isso se torna evidente ao comparar o relato de Marcos com o relato contido no evangelho de Pedro que, ao contrário, é um bom exemplo de floreio mitológico no relato da ressurreição. Contos mitológicos são coloridos por toda sorte de motivos teológicos.

2.3) A própria idéia que o conceito de “ressuscitado” encerra, exclui a possibilidade de um corpo no túmulo. Um judeu do século 1º nunca poderia pensar numa ressurreição assim. Seria impossível um movimento baseado na ressurreição de um homem que jazia em seu túmulo.

2.4) O túmulo foi descoberto vazio por mulheres. Na sociedade patriarcal judaica o testemunho de mulheres não era considerado. De fato, Josefo afirma que às mulheres não era nem mesmo permitido servir de testemunha numa corte judaica. À luz desse fato, é impressionante o fato de que foram mulheres que descobriram o túmulo de Jesus vazio. Qualquer relato lendário iria certamente fazer com que discípulos homens como Pedro e João descobrissem o túmulo vazio. O fato de que mulheres e não homens foram as principais testemunhas do túmulo vazio é melhor explicado pelo fato de que realmente foram mulheres as principais testemunhas, e os escritores da biografia de Jesus fielmente registraram o que, para eles, era extremamente embaraçoso.

Fato nº 3: Em diferentes ocasiões e em diferentes circunstâncias, diferentes indivíduos e grupos de pessoas experimentaram aparições de Jesus.

Este é um fato reconhecido virtualmente por quase todos os estudiosos da área, e dentre as razões que os levaram a essa conclusão estão as seguintes:

3.1) Essas aparições são bem documentadas em antigas tradições cristãs (1 Coríntios e Gálatas). Há relatos de que diferentes pessoas viram Jesus, e isso consta em fontes múltiplas e independentes, o que é um critério para se definir a veracidade de um fato histórico (vale lembrar que as cartas de Paulo e os evangelhos são fontes múltiplas, não uma unidade).

3.2) A lista que Paulo faz das testemunhas oculares das aparições. Dado que a data dessa informação é extremamente primitiva (Coríntios é datada de 55 a.D.), essa lista de Paulo é um convite implícito para que os destinatários de sua carta confirmem o que ele está falando, dado que inúmeras testemunhas ainda estavam vivas em torno do ano 55 a.D.. Um adolescente que tinha 15 anos quando Jesus foi crucificado, por exemplo, nesta época estaria ainda com 40 anos de idade.

3.3) As narrativas das aparições nos evangelhos são de fontes múltiplas e independentes.Por exemplo, a aparição a Pedro é atestada por Lucas e Paulo; a aparição aos Doze é atestada por Lucas, João e Paulo; e a aparição às mulheres é atestada por Mateus e João. Até mesmo o cético crítico do Novo Testamento, Gerd Ludermann, conclui que “pode ser tomado como historicamente certo que Pedro e os discípulos tiveram experiências após a morte de Jesus nas quais ele lhes apareceu como o Cristo ressuscitado.”

Quanto à confiabilidade dos registros de que dispomos sobre essas aparições, Josh MacDowell afirma: “Os eruditos são virtualmente unânimes em aceitar que a primeira carta de Paulo aos Coríntios, assim como outras cartas que ele escreveu, são anteriores à forma acabada dos relatos do evangelho. Tanto Gálatas (escrita provavelmente em 48 ou 49 a.D., de Antioquia da Síria) como 1 Tessalonicenses (escrita mais provavelmente em 50 ou 51 a.D., de Corinto) contêm declarações claras de que Deus levantou Jesus dentre os mortos.”

1 Coríntios 15:3-8:

3 Porque primeiramente vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras,
4 E que foi sepultado, e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras.
5 E que foi visto por Cefas, e depois pelos doze.
6 Depois foi visto, uma vez, por mais de quinhentos irmãos, dos quais vive ainda a maior parte, mas alguns já dormem também.
7 Depois foi visto por Tiago, depois por todos os apóstolos.
8 E por derradeiro de todos me apareceu também a mim, como a um abortivo.

Sobre esse texto de 1 Coríntios, MacDowell afirma que “os eruditos não viram, nessa passagem, as palavras de Paulo, mas um relatório muito antigo que foi, de fato, ‘recebido’ das primeiras testemunhas.”

Em vista do testemunho anterior de Paulo sobre a ressurreição de Jesus, qualquer argumento alegando que este evento não passava de uma lenda é inconcebível. As lendas se desenvolvem no correr de muitas gerações e séculos, e não no espaço de alguns anos.

Fato nº 4: Os discípulos originais repentinamente e sinceramente passaram a acreditar que Jesus havia ressuscitado, apesar de terem toda predisposição ao contrário.

Pense na situação que os discípulos enfrentaram após a morte de Jesus:

4.1) Seu líder estava morto. As expectativas messiânicas judaicas não tinham a menor idéia de um Messias que, ao invés de triunfar sobre os inimigos de Israel, seria vergonhosamente executado como um criminoso.

4.2) As crenças judaicas de uma vida após a morte eram extremamente contrárias à idéia de alguém ressuscitando para a glória ANTES da ressurreição geral dos mortos e no FIM dos tempos. Mas, mesmo assim, os discípulos originais vieram a crer fortemente que Jesus havia ressuscitado. O que nesse mundo os levou a crer numa idéia tão anti-judaica?

Além disso, o cristianismo nunca poderia ter surgido sem o evento histórico da ressurreição física de Jesus. O que originou essa crença se a ressurreição não aconteceu? Seria o que diz a teoria da conspiração? Seria o que diz a teoria da alucinação? Seria o que diz a teoria da síncope? Seria o que diz a teoria do irmão gêmeo de Jesus (que diz que esse irmão gêmeo foi separado dele ao nascer e que depois surgiu em cena justamente quando Cristo morreu, gerando a falsa impressão de que Jesus havia ressuscitado)?

Juntando os fatos

É importante aqui salientar que não há nada de sobrenatural nos 4 fatos expostos acima. Não há nada demais em afirmar que o túmulo de Jesus foi encontrado vazio, por exemplo. Este fato por si só não é sobrenatural. Porém, o que é sobrenatural no argumento que apresento é a explicação desses 4 fatos, a saber: que Deus ressuscitou Jesus dentre os mortos.

Seguindo agora os seis passos da metodologia de inferência para a melhor explicação, a hipótese de que Deus ressuscitou Jesus dentre os mortos:

1) Tem maior escopo explicativo, pois explica, entre outros fatores, por que o túmulo foi encontrado vazio, por que os discípulos viram as aparições de Jesus, por que a fé cristã se originou, etc;

2) Tem maior força explicativa, pois explica, entre oturos fatores, por que o corpo de Jesus sumiu, por que várias pessoas repetidamente viram aparições de Jesus depois de sua execução pública, etc;

3) É mais plausível, pois dado o contexto histórico da vida de Jesus, a ressurreição serve como uma confirmação de suas radicais afirmações sobre si mesmo;

4) Não é ad hoc, pois ela requer apenas uma hipótese adicional, que é a hipótese de que Deus existe (o que nem mesmo seria uma hipótese adicional para quem já crê em Sua existência);

5) Está de acordo com as crenças aceitas, pois a hipótese de que Deus ressuscitou Jesus dentre os mortos de forma alguma entra em conflito com a crença aceita de que as pessoas não voltam à vida NATURALMENTE.

6) A hipótese de que Deus levantou Jesus dentre os mortos supera em todos os itens anteriores suas hipóteses rivais.

Assim, de acordo com a metodologia de inferência para a melhor explicação, o que melhor explica esses quatro fatos sobre Jesus é a hipótese de que Deus O ressuscitou dentre os mortos.

Veja, por exemplo, a hipótese da ressurreição de Jesus em contraste com a teoria da alucinação. Essa teoria tenta explicar as aparições de Jesus como "alucinações" que os discípulos tiveram e que originaram a crença de que ele havia ressuscitado. Porém, pela metodologia de inferência para a melhor explicação, essa teoria é menos plausível pois ela 1) tem menor escopo explicativo, pois não explica o fato do túmulo ter sido encontrado vazio e 2) tem menor força explicativa, pois é extremamente presunçoso e delicado tentar fazer uma avaliação psicológica de determinadas pessoas em determinadas situações que ocorreram há quase 2000 anos atrás, além de ser implausível o fato de várias pessoas terem a mesma alucinação ao mesmo tempo.

Podemos comparar também a teoria da ressurreição com a teoria da síncope, que afirma que Jesus não morreu verdadeiramente na cruz, mas que sofreu uma síncope e retornou desse estado já dentro do seu túmulo. Essa teoria tem menor força explicativa, pois:
1) os romanos eram executadores profissionais e se certificavam bem de que o crucificado havia morrido (quebravam suas pernas para acelerar o processo de morte do indivíduo ou o perfuravam na altura do peito para se certificar do óbito, como fizeram com Jesus);
2) ao ficar embalsamado dentro de um túmulo frio, envolto em mortalhas que pesavam em torno de 40 quilos, Jesus certamente morreria em poucas horas se ainda não estivesse morto.

Assim, é simplesmente fantástico que Jesus conseguisse se desfazer dessa mortalha, rolar a pedra do túmulo (que, segundo especialistas, pesava de 1,5 a 2 toneladas) , se desfazer da guarda romana e depois, desesperadamente precisando de cuidados médicos, aparecesse aos seus discípulos como o senhor da vida e os convencesse de que havia ressuscitado.

Qualquer teoria alternativa à ressurreição de Jesus deve explicar adequadamente a existência dos quatro fatos que citamos anteriormente, a saber: 1) o sepultamento de Jesus por José de Arimatéia, 2) a descoberta do túmulo vazio, 3) as aparições de Jesus e 4) a origem da fé cristã.

A hipótese de que Deus levantou Jesus dentre os mortos explica melhor do que todas as hipóteses rivais esses quatro fatos, e as supera em todos os requisitos da metodologia de inferência para a melhor explicação.

P.S.: Para um tratamento mais extenso do assunto, recomendo o livro "The resurrection of the son of God" (sem tradução para o português), de N. T. Wright, e vários debates e palestras em mp3 (que podem ser encontradas gratuitamente pela web) do Dr. William Lane Craig, que tem feito um maravilhoso trabalho em seus debates sobre a ressurreição de Jesus.

BIBLIOGRAFIA

MORELAND J.P.,CRAIG William Lane. Filosofia e cosmovisão cristã, 1ª ed. São Paulo. Edições Vida Nova, 2005. 788 p.

MacDowell, Josh. Ele andou entre nós, 1ª ed. São Paulo. Editora Candeia, 1999, 392 p.

MacDowell, Josh. As evidências da ressurreição de Cristo, 3ª ed. São Paulo. Editora Candeia, 1999, 235 p.

GAARDER, Jostein. O mundo de Sofia. ___ São Paulo.Editora Cia das Letras, 1998, 560 p.

NOLT, John. ROHATYN, Dennis. VARZI, Achille. Schaum’s Outlines of Theory and Problems of Logic, 2nd ed. New York:McGraw Hill, 1998.

STROBEL, Lee. Em defesa da fé, 1ª ed. São Paulo:Editora Vida, 2002. 362 p.

William Lane Craig - Evidence for the resurrection (MP3)http://www.euroleadershipresources.org/resource.php?ID=15&Tab=AudioDownload

Raul Seixas e Freud

Posted: 4.11.06 by Glauber Ataide in
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Em sua obra A interpretação dos sonhos, Freud tece breves comentários sobre as semelhanças entre o processo de criação artística e o processo de formação dos sonhos. Como todos sabem, alguns elementos nos sonhos aparecem representadas por símbolos. Os sonhos não são totalmente simbólicos, mas a intepretação dos símbolos é apenas um dos métodos utilizados para auxiliar na compreensão de um significado mais amplo do processo onírico. Assim, muitas coisas que vemos representadas por símbolos nos sonhos podem aparecer representadas pela mesma imagem também em uma obra de arte, seja ela uma pintura, uma escultura, um poema, etc.

Um destes símbolos que Freud cita na seção de "símbolos típicos" de sua obra é o de um trem, isso é, quando a pessoa sonha com um trem (ou com um determinado tipo de veículo) em que ela não consegue embarcar. Segundo Freud, essa é uma imagem usada pela psique para representar o desejo de escapar da morte. Em nossa linguagem usamos com frequência o termo "partir" para dizer que alguém morreu, e essa é uma das razões dessa expressão ser transformada exatamente nestas imagens em nossos sonhos. Assim, quando uma pessoa sonha, por exemplo, que um trem está partindo mas que ela não consegue nele embarcar, isso é, segundo Freud, um sonho de conforto que diz à pessoa: "Olha, não se preocupe, você não vai morrer. Você perdeu o trem, não vê?"

O trem das sete

Estava ouvindo há poucos dias a música Trem das sete, de Raul Seixas, quando pela primeira vez parei para compreender e analisar sua letra. Ela começa dizendo:

"Ói, ói o trem, 
Vem surgindo de trás das montanhas azuis
Ói o trem".

O que me chamou a atenção foi ela falar sobre trem, e me lembrei imediatamente das observações de Freud sobre o símbolo do trem em A interpretação dos sonhos. Levantei então a hipótese de que a música fala sobre a morte e, prosseguindo na análise, tudo encaixava e fazia sentido nesta chave de leitura.

Isso parece especialmente claro quando a música diz, por exemplo:

"Quem vai chorar, quem vai sorrir? 
Quem vai ficar, quem vai partir?"

E também quando em seguida fala sobre o céu e sobre Deus:

"Ói, olhe o céu, já não é o mesmo céu que você conheceu, não é mais"
[...]
Vê, é o sinal, é o sinal das trombetas, dos anjos e dos guardiões
Ói, lá vem Deus, deslizando no céu entre brumas de mil megatons"

Abaixo está a letra, na íntegra.

Trem das Sete
(Raul Seixas)
Ói, ói o trem, vem surgindo de trás das montanhas azuis, olha o trem
Ói, ói o trem, vem trazendo de longe as cinzas do velho éon

Ói, já é vem, fumegando, apitando, chamando os que sabem do trem
Ói, é o trem, não precisa passagem nem mesmo bagagem no trem

Quem vai chorar, quem vai sorrir ?
Quem vai ficar, quem vai partir ?
Pois o trem está chegando, tá chegando na estação
É o trem das sete horas, é o último do sertão, do sertão

Ói, olhe o céu, já não é o mesmo céu que você conheceu, não é mais
Vê, ói que céu, é um céu carregado e rajado, suspenso no ar

Vê, é o sinal, é o sinal das trombetas, dos anjos e dos guardiões
Ói, lá vem Deus, deslizando no céu entre brumas de mil megatons

Ói, olhe o mal, vem de braços e abraços com o bem num romance astral

Amém.