"Je vous salue, Marie", de Jean-Luc Godard

Posted: 17.8.09 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Vamos imaginar que nos chegasse hoje a notícia de que há uma pequena seita pregando que seu líder nasceu de uma virgem, morreu, ressuscitou e seu corpo realmente não pode ser encontrado. Imaginemos também que ficássemos sabendo disso por acaso, porque a mídia não tem dado a mínima atenção a esse grupo. Iríamos acreditar nessa história?

Parece que quando eventos fantásticos ou miraculosos estão historicamente distantes, eles se tornam mais fáceis de se acreditar. Pensamos que talvez o mundo fosse bem diferente, talvez coisas como uma gravidez sem ato sexual ou a ressurreição dos mortos acontecessem mesmo.

Fui levado a reflexões como essas após assistir ao filme "Je vous salue, Marie", do diretor francês Jean-Luc Godard, em que a história da concepção e do nascimento virginal de Jesus se passam no mundo contemporâneo. O filme sugere uma proposta de uma reflexão sobre uma espiritualidade cristã hoje.

Maria é uma jovem comum, filha de um dono de um posto de gasolina, e José, um jovem taxista com pouca instrução. Depois de dois anos de namoro sem ato sexual, Maria aparece grávida, e José quer saber quem é o pai. Em meio a tudo isso aparece o anjo Gabriel, um homem comum que fuma, anda de táxi e até dá um tapa na cara de José. Um pouco bruto, como todo francês.

Proibido no Brasil na década de 80 por ser considerado ofensivo à fé católica, o filme retrata os dilemas, os fraquejos e as dificuldades de Maria e José como homens comuns, ao mesmo tempo em que conta uma história paralela, de um professor que mantém um caso com uma de suas alunas e que acredita numa teoria de que a vida na Terra foi semeada por extra-terrestres. As duas histórias, sem nenhuma ligação aparente entre si, ilustram a antítese carne e espírito.

O filme traz cenas interessante, como a luta de Maria contra a masturbação e a tentação do jovem casal de resistir à união sexual. Perto do final nasce Jesus, uma criança mimada e que tem um contato "escandalizador" com o corpo de sua mãe numa idade em que já não deveria mais ter essas intimidades. Jesus entra debaixo do vestido da mãe, e fica em pé examinando seu corpo e pedindo explicações do que estava vendo. Ao ver a região pubiana, por exemplo, Maria lhe explica que aquilo é o "ouriço, ou a relva".

José, um pai autoritário mas quase sem respeito para com o filho, é obrigado a se conformar em não ser o verdadeiro pai do menino, que em determinada cena chega a fugir desobedecendo-lhe e dizendo que está indo cuidar das coisas do seu Pai.

Por todo o filme aparecem insistentemente cartões com a mensagem "Naquele tempo", como se a história estivesse acontecendo em um passado distante. Mas a história se passa em nossos dias, sendo talvez esses cartões uma forma com que Godard quis nos mostrar que a história que está sendo contada é atemporal.

É um ótimo filme, profundo, que apesar de mal-compreendido por muitos, coloca importantes questões sobre uma espiritualidade cristã contemporânea. Não uma espiritualidade historicamente distante, ou empoierada em antigos museus e catedrais, mas presente no dia-a-dia dos homens e mulheres comuns. Um escândalo para a igreja.

Você "acredita" em Freud?

Posted: 10.8.09 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Muita gente me pergunta, ao ouvir algumas de minhas posições teóricas, se eu "acredito" nelas. Uma das perguntas que ouço com mais frequência é se eu "acredito" em Freud.

Vamos parar por um minuto e esclarecer uma coisa: Freud não é um concorrente de Jesus Cristo, Krishna ou outro deus. Não se "acredita" em Freud como se fosse algo semelhante a acreditar em espíritos ou em alguma outra coisa sem evidência.

Eu vejo duas razões que possibilitam o surgimento desse tipo de questionamento: a primeira é uma mentalidade estritamente religiosa, acostumada a interpretar o mundo aquém dos limites da religião, da crença, da fé. A segunda é uma consequência do próprio pensamento de Freud, que não é óbvio ou aparente ao homem comum, principalmente por lidar com conteúdos inconscientes, com aquilo que o homem sempre quis esconder de si próprio.

Teorias postuladas por Freud, como o Complexo de Édipo, por exemplo, não são observáveis pelo homem comum sem algum treino, sem alguma prática e, na raiz disso, sem muita leitura. Daí o homem comum achar "absurdas" tais teorias freudianas e pensarem que isso é "objeto de fé", que não se pode aceitar racionalmente ou intelectualmente tais posições.

A ciência trabalha com modelos. Quando falamos sobre o átomo, não nos referimos a algo que sabemos existir. Alguém já viu um átomo? Não, pois ele não é observável. Como sabemos que o átomo existe? Não sabemos. A questão é que o modelo atômico é apenas um modelo utilizado para explicar a realidade física, material, mas que tem, no entanto, se mostrado extremamente eficiente através dos séculos. Mesmo assim, é bem possível que o átomo não seja mais que uma "ficção útil". Essa é uma interessante questão da Filosofia da Ciência.

O que ocorre com as teorias de Freud é algo semelhante. Quando ele postula uma topografia hipotética do aparelho psíquico dividida no inconsciente, no pré-consciente e no consciente, no qual se situam as instâncias psíquicas do id, do ego e do superego, o que ele faz é criar um modelo. A mente humana não é observável. Se abrirmos a cabeça de alguém iremos observar seu cérebro, não sua mente.

Em seu trabalho como médico Freud desenvolveu aos poucos um método de tratamento das neuroses e, juntamente com esse método, foi desenvolvendo um modelo do funcionamento da mente humana, o qual se mostrou muito eficiente não só para curar as neuroses, mas também para explicar sua etiologia, o desenvolvimento humano da infância à fase adulta, a cultura, a religião, a arte, etc.

Mas se o id, o ego e o superego realmente existem nós não sabemos, assim como não temos mais certeza de que o átomo existe. Mas o modelo desenvolvido por Freud explica sem paralelos o funcionamento da mente humana, e suas teorias foram desenvolvidas em plena articulação com a prática clínica, não sendo frutos de mera especulação intelectual. Foi dessa prática que Freud observou, criou modelos, hipóteses e os submeteu à prova para os validar ou corrigir.

Dessa forma, não se "acredita" em Freud. Eu não "acredito" em Freud. A questão é que ele desenvolveu um excelente modelo do funcionamento da mente humana, o qual se mostrou extremamente eficiente no tratamento das neuroses e nas posteriores aplicações da Psicanálise, e o reconhecimento disso não se dá através de um ato de "fé", mas de razão.

Ontologia

Posted: 5.8.09 by Glauber Ataide in Marcadores:
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A Ontologia, de uma maneira geral, pode ser definida como “a doutrina do ser e das suas formas” (ABBAGNANO, 2007, p. 848). Este termo hoje é às vezes usado como sinônimo de Metafísica por alguns autores, mas outros preferem fazer uma distinção, classificando a Ontologia como uma área específica da Metafísica. A razão disso é que eles consideram o termo Ontologia a) mais geral e neutro e b) mais conciliável com uma perspectiva empirista (Ibid., p.848). Segundo Abbagnano, no que se refere a a), enquanto o termo Metafísica parece pressupor a priori (ou seja, antes ainda de demonstrar) uma dimensão metassensível e metanatural, o termo Ontologia limita-se a assinalar a existência de um problema do ser que pode ser resolvido de maneiras diferentes (ou seja, não só em direção a uma metafísica transcendentalista, mas também em direção a uma metafísica imanentista. Quanto a b), a Ontologia, entendida como exposição ordenada dos caracteres fundamentais do ser que a experiência revela de modo repetido e constante, parece conter, em si mesma, um aspecto descritivo ou denotativo capaz de eliminar a velha oposição entre metafísica e experiência.

Autores como Moreland e Craig (2005), por exemplo, utilizam o termo Ontologia como sinônimo de Metafísica, ao afirmarem ser as duas divisões principais da metafísica a "ontologia geral (às vezes simplesmente chamada de ontologia) e a metafísica especial". Segundo os autores, a ontologia geral é o aspecto mais básico da metafísica, e se caracteriza por três tarefas principais que compõem esse ramo de estudo metafísico:

Primeiro, a ontologia geral enfoca a natureza da existência em si. O que é ser ou existir? A existência é uma propriedade que determinada coisa possui? O nada em si existe em algum sentido? Há um sentido de ser para o qual objetos fictícios, como o cavalo alado Pégaso, venham a ser, embora não existam? [...] Segundo, em ontologia geral estudamos os princípios gerais do ser, as características gerais que são a verdade de todas as coisas, quaisquer que sejam. Filósofos medievais usaram o termo transcendental para representar todos os aspectos que caracterizam todos os diferentes tipos de entidades que existem. [...] Terceiro, a ontologia geral inclui o que é denominado de análise categorial. É possível classificar ou agrupar as coisas existentes de diversos modos, variando entre os tipos de classificação desde aqueles muito específicos até os muito amplos. (MORELAND; CRAIG, 2005, p. 225)

Já Morente (1980), por sua vez, define a Ontologia como o “estudo dos objetos, todos os objetos, qualquer objeto, seja qual for”. Para ele, toda a Filosofia pode ser dividida em duas grandes áreas, quais sejam, a Ontologia e a Gnosiologia. Dizendo de outra forma, a Ontologia é a disciplina que “se ocupa do ser, ou seja, não deste ou daquele ser concreto e determinado, mas do ser em geral, do ser na acepção mais vasta e ampla desta palavra”, sendo esta concepção, portanto, mais próxima daquela segunda apresentada por Abbagnano, isso é, mais geral e mais neutra.


REFERÊNCIAS

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

MORELAND, J.P.; CRAIG, William Lane. Filosofia e Cosmovisão Cristã. São Paulo: Edições Vida Nova, 2005.

MORENTE, Manuel Garcia. Fundamentos de Filosofia: Lições Preliminares. 8ª ed. São Paulo: Mestre Jou, 1980.

Freud analisa uma experiência de conversão religiosa

Posted: 27.7.09 by Glauber Ataide in Marcadores: , , ,
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Em 1927, após declarar em uma entrevista sua indiferença quanto ao tema da vida após a morte e sua falta de fé religiosa, Freud recebeu uma carta de um médico americano que havia lido esta entrevista. Nesta carta ele descrevia sua experiência de conversão ao Cristianismo, na esperança de que esta pudesse levar Freud a uma reflexão sobre o assunto.

A experiência relatada pelo médico foi publicada no artigo "Uma experiência religiosa", publicada no Brasil na Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, no volume XXI, pela Editora Imago, e é como se segue:

"Certa tarde, ao atravessar a sala de dissecção, minha atenção foi atraída por uma velhinha de rosto suave que estava sendo conduzida para uma mesa de dissecção. Essa mulher de rosto suave me causou tal impressão que um pensamento atravessou minha mente: 'Não existe Deus; se existisse, não permitiria que essa pobre velhinha fosse levada a sala de dissecção.'

"Quando voltei para casa naquela tarde, o sentimento que experimentara à visão na sala de dissecção, fizera-me decidir não mais continuar indo à igreja. As doutrinas do cristianismo, antes disso, já tinham sido objeto de dúvidas em meu espírito.

"Enquanto meditava sobre o assunto, uma voz falou-me à alma que 'eu deveria considerar o passo que estava a ponto de dar'. Meu espírito replicou a essa voz interior: 'Se eu tivesse a certeza de que o cristianismo é verdade e que a Bíblia é a Palavra de Deus, então eu os aceitaria.'

"No decorrer das semanas seguintes, Deus tornou claro à minha alma que a Bíblia era Sua Palavra, que os ensinamentos a respeito de Jesus Cristo eram verdadeiros e que Jesus era nossa única salvação. Após uma revelação tão clara, aceitei a Bíblia como sendo a Palavra de Deus, e Jesus Cristo, como meu Salvador pessoal. Desde então, Deus Se revelou a mim por meio de muitas provas infalíveis."

Ao final da carta, o médico americano implorava Freud para refletir sobre o tema, pois estava dirigindo orações a Deus para que este lhe concedesse fé para crer.

Essa experiência, sendo um tanto enigmática e baseada em uma lógica particularmente ruim, exigia, para Freud, uma tentativa de interpretação baseada em motivos emocionais, haja vista que Deus permite a ocorrência de coisas muito piores do que a remoção de um cadáver de uma velhinha para a sala de dissecção. E um médico, é claro, sabe muito bem disso. Então por qual razão sua indignação contra Deus irrompeu justamente ao receber essa impressão na sala de dissecção?

A interpretação dessa experiência religiosa, segundo Freud, seria como se segue:

"A visão de um cadáver de mulher, nu ou a ponto de ser despido, recordou ao jovem sua mãe. Despertou nele um anseio pela mãe que se originava de seu complexo de Édipo, e isso foi imediatamente completado por um sentimento de indignação contra o pai. Suas idéias de ‘pai’ e ‘Deus’ ainda não se tinham separado inteiramente, de modo que seu desejo de destruir o pai podia tornar-se consciente como dúvida a respeito da existência de Deus e procurar justificar-se aos olhos da razão como indignação com o mau trato dado a um objeto materno. Naturalmente, é típico do filho considerar como mau trato o que o pai faz à mãe nas relações sexuais. O novo impulso, deslocado para a esfera da religião, constituía apenas uma repetição da situação edipiana e, conseqüentemente, logo se defrontou com uma sorte semelhante, ou seja, sucumbiu a uma poderosa corrente oposta. Durante o conflito real, o nível do deslocamento não foi sustentado: não há menção de argumentos em justificação de Deus, não nos é dito quais foram os sinais infalíveis pelos quais Deus provou sua existência ao que duvidava. O conflito parece ter-se desdobrado sob a forma de uma psicose alucinatória: escutaram-se vozes interiores que enunciaram advertências contra a resistência a Deus. Mas o resultado da luta foi mais uma vez apresentado na esfera da religião, e era de um tipo predeterminado pelo destino do complexo de Édipo: submissão completa à vontade de Deus Pai. O jovem tornou-se crente e aceitou tudo o que desde a infância lhe havia sido ensinado sobre Deus e Jesus Cristo. Tivera uma experiência religiosa e experimentaria uma conversão."

É interessante notar que nesta interpretação a Psicanálise se apresenta como uma ferramenta para explicar tanto a conversão à religião quanto o seu contrário, ou seja, o ateísmo, apesar de este último, no presente caso, ter sido superado. Mas como o próprio Freud faz notar ao final deste artigo, deve-se levar em consideração que nem todas as experiências de conversão podem ser tão facilmente compreendidas quanto essa. Poderíamos estender sua conclusão e afirmar que o mesmo se aplica aos casos de ateísmo.

A descrença em Deus é aqui apresentada como consequência de uma indignação contra o pai, como um reflexo do Complexo de Édipo deslocado para a esfera da religião, e a crença, por sua vez, foi consequência da resolução do Complexo de Édipo, isso é, a submissão completa à vontade de Deus Pai.

Filosofia para educar as crianças: Rousseau e seu Emílio

Posted: 10.7.09 by Glauber Ataide in Marcadores: , ,
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Com a experiência da paternidade, um novo mundo de alegrias e preocupações surgiu diante de mim. Se o advento da minha filha me alegrava e me propunha a questão filosófica do mistério da vida, com a qual eu me espantava (Quem é esta que acaba de nascer? Onde ela estava? Desde quando existe?), a responsabilidade que me sobreveio como progenitor daquela maravilha da natureza, por outro lado, também me forneceu muito material para reflexão. Mas uma reflexão diferente da primeira: era uma reflexão da ordem da razão prática, que deveria nortear minhas atitudes como pai.

Para educar bem uma criança não bastam boas intenções. Se elas fossem o suficiente para o bem agir, em qualquer esfera, o conhecimento e a técnica seriam desnecessários. Qualquer um que tivesse a boa intenção de cozinhar bem, por exemplo, cozinharia bem. Ou qualquer um que quisesse ser um bom cientista, um bom cientista seria.

Mas sabemos que o mundo não é assim. E não deveríamos esperar que na educação dos filhos isso acontecesse. É verdade que os pais sempre querem o melhor para os filhos. Qual o pai que, pedindo seu filho um peixe, lhe daria uma pedra? Sábia observação do Cristo.

Mas a educação dos filhos é uma arte, não uma ciência. Não existem algoritmos para criar filhos. Ciente disso, para que eu não me deixasse enganar pela aparente autossuficiência da boa intenção, assim como para evitar por completo as "receitas de bolo" oferecidas pelos livros de auto-ajuda, voltei minhas leituras para algumas áreas da Filosofia e da Psicanálise que até então não tinham recebido muito de minha atenção - áreas que lidam com a educação das crianças - de forma que eu pudesse melhor compreender minha filha, a mim mesmo e a relação triangular edípica na qual agora nos encontrávamos - pai, mãe e filha. Vou compartilhar agora um pouco do que tenho encontrado na Filosofia.

Um filósofo discorre sobre a educação das crianças

O filósofo Jean-Jacques Rousseau dedicou uma obra à educação das crianças chamada Emílio, ou Da Educação, cuja primeira versão foi acabada no final de 1759. Neste livro o filósofo francês concebe uma criança imaginária que tem o nome de "Emílio" e nos acompanha por todas as suas fases de desenvolvimento, expondo as reflexões e as atitudes decorrentes para formar o homem que almejava o seu projeto educacional: um homem livre.

Para Rousseau, que considerava que o homem era originalmente livre e bom, mas posteriormente corrompido pela sociedade (teoria do bom selvagem), tanto a organização do Estado quanto a educação das crianças deveriam tentar amenizar as consequências da vida social. Isso é, já que não é possível que voltemos ao estado de natureza, que pelo menos as mazelas da vida em sociedade sejam diminuídas.

Logo nas primeiras páginas ele define o que seria um homem bem-educado: "Aquele que melhor souber suportar os bens e os males desta vida é, para mim, o mais bem-educado." (ROUSSEAU, 2004, p.15)

A criança deve ser educada para suportar todas as coisas, "os golpes da sorte, a desafiar a opulência e a miséria, a viver, se preciso, nos gelos da Islândia ou sobre o ardente rochedo de Malta." (Ibid., p.16)

Mas a educação não consiste apenas nisso. Ele ainda afirma que os pais, ao gerar e sustentar um filho, só cumprem com isso um terço de sua tarefa. Os progenitores 1) devem homens à sua espécie, 2) devem homens sociáveis à sociedade e 3) devem cidadãos ao Estado. A tarefa é tríplice. "Quem não pode cumprir os deveres de pai não tem direito de tornar-se pai", conclui. (Ibid., p. 27)

Assim, tendo inicialmente esclarecido o que ele almejava em seu projeto educacional, Rousseau, que tivera experiências como preceptor, discorre sobre os mais diversos aspectos da educação infantil.

As reflexões no "Emílio"

Ainda que seja possível identificar uma certa estrutura nesta obra, o próprio Rousseau admitia que seu livro era mais uma "coletânea de reflexões e de observações, sem ordem e quase sem sequência..." (Ibid., p.3) Modéstias à parte, o livro realmente apresenta em sua superfície uma leve desordem.

Por isso, caso o restante deste texto pareça também estar "sem ordem e sem sequência", levem isso em consideração. O que se segue é uma coletânea de anotações que eu fiz a partir desta "coletânea" de Rousseau, destacando aquelas reflexões que mais me chamaram a atenção.

Para começar, um problema que Rousseau encontrava em sua época e que é de extrema relevância ainda hoje é a questão de uma alta rotatividade na "terceirização" da educação dos filhos (este termo é meu, não de Rousseau). Isso é, filhos que mudam constantemente de babás ou outros cuidadores. Sobre essa questão, ele observava que é impossível que uma criança que passe sucessivamente por tantas mãos diferentes seja bem-educada, pois a cada mudança a criança faz comparações que sempre tendem a diminuir sua estima para com aqueles que a educam, e consequentemente, a autoridade deles sobre ela. "Se alguma vez", ele diz,

"a criança chegar a pensar que há adultos que não têm mais razão do que as crianças, toda a autoridade que vem da idade estará perdida, e a educação, estragada. Uma criança não deve conhecer outros superiores além dos pais, ou na falta deles, do preceptor e da ama-de-leite, e, mesmo assim, um deles já é demais." (Ibid., p.40)

A criança educada em liberdade (de acordo com o seu projeto de educação) deve aprender a não temer. Desde cedo ela deve ser exposta a máscaras feias, como de animais ferozes, por exemplo, para que se acostume com essas imagens. Rousseau comparava as crianças do campo e da cidade, e percebia que só as urbanas tinham medo de aranhas, já que as que viviam no campo eram desde sempre expostas a esses animais.

Para que não se tornem irritadas e coléricas, é necessário deixar as crianças pegar em tudo, e que não encontrem resistência nas vontades, mas sim nas coisas (Ibid., p.51). Se a criança não deve pegar um determinado objeto, este deve ser retirado de seu alcançe, ao invés de se proibir o acesso da criança a ele.

Caso a criança solicite que algum objeto que não esteja ao seu alcance lhe seja trazido, isso não deve ser feito: a criança é que deve ser levada até o objeto. Rousseau observou que "não é necessária uma longa experiência para perceber como é agradável agir pelas mãos de outrem e só precisar mexer a língua para fazer com que o universo se mova." (Ibid., p.57)

É preciso cautela com os artifícios utilizados pelos pequeninos para dominar os adultos, pois uma criança não deve exercer nenhuma dominação. Uma outra forma em que isso pode se manifestar, e à qual devemos ficar atentos, é o "pretender ser sempre escutado". A criança deve saber bem que não terá atenção a todo momento.

Não se deve zangar com as crianças quando quebrarem algo caro, pois suas ações são destituídas de moralidade. Elas não agem com a intenção de prejudicar. Aliás, coisas caras são o que deve estar longe dos seus quartos. Elas não devem ser expostas ao luxo, mas seus móveis devem rústicos, e ela deve viver em toda simplicidade.

A razão de se educar as crianças na simplicidade é que a educação deve ser negativa: não se deve ensinar virtudes à criança, mas deve-se livrá-la do vício. O luxo, como veremos mais adiante, é um vício.

Rousseau insistia muito que as crianças deviam ser criadas como crianças. Não se deve pensá-las apenas como "adultos em formação". "A natureza quer que as crianças sejam crianças antes de serem homens." (Ibid., p.91) Elas são seres integrais na forma em que estão. Ele criticava aqueles que nunca achavam que era cedo demais para repreender, corrigir, admoestar, adular, ameaçar, prometer, instruir, argumentar. Afinal de contas, ele ironizava, "não se quer fazer de uma criança uma criança, mas sim um doutor." E depois exortava: "Deixais que amadureça a infância nas crianças." (Ibid., p.97)

A criança não deve ser nem um animal, nem um homem, mas sim uma criança. Ela é de uma natureza específica, e deve ser tratada como tal, sempre em liberdade. Para que fosse seguido esse caminho da natureza e da liberdade, ele defendia que ninguém tinha o direito, nem mesmo o pai, de ordenar à criança o que não lhe serve para nada. Só a experiência e a impotência devem ser lei para a criança.

E para que ela perceba sua insuficiência diante do mundo e também sinta sua relação de dependência para com os pais, o filósofo propõe quatro máximas para que ela cresça no caminho da natureza:

  1. "Longe de terem forças supérfluas, as crianças nem mesmo têm forças suficientes para tudo que a natureza lhes exige. É preciso, portanto, facultar-lhes o emprego de todas as forças que ela lhes dá e de que não poderiam abusar."
  2. "É preciso ajudá-las e suprir o que lhes falta, quer em inteligência, quer em força, em tudo o que diz respeito à necessidade física."
  3. "No auxílio que lhes prestamos, devemos limitar-nos unicamente ao realmente útil, sem nada conceber à fantasia ou ao desejo irrazoável, pois a fantasia não as atormentará enquanto não se a fizer nascer, dado que ela não pertence à natureza."
  4. "É preciso estudar com atenção sua linguagem e seus sinais, para que, numa idade em que elas não sabem fingir, distingamos em seus desejos o que vem imediatamente da natureza e o que vem da opinião." (Ibid., p.58)

Além dessas, algumas outras medidas mais específicas são sugeridas adiante, como não proibir a criança de agir mal, mas sempre impedí-la, e deixá-las pular, correr e gritar quanto têm vontade, por exemplo.

Já havíamos falado que a educação é negativa, isso é, deve-se evitar os vícios de brotar nas crianças, ao invés de lhes ensinar virtudes. Se a criança já sabe falar, mas pede algo chorando, por exemplo, seu pedido deve ser recusado. Seu quarto, como já havíamos mencionado, deve ser simples, com móveis rústicos, e não se deve expor a criança ao luxo. O mesmo se aplica a seus brinquedos e suas outras posses. As crianças não devem ganhar brinquedos em excesso, a todo tempo, e não devem ter tudo o que pedem. Rousseau explicava por qual razão:

"Sabeis qual é o meio mais seguro de tornar miserável vosso filho? É acostumá-lo a obter tudo, pois, crescendo seus desejos sem cessar pela facilidade de satisfazê-los, mais cedo ou mais tarde a impotência vos forçará, ainda que contra a vontade, a usar da recusa. E essa recusa inabitual dar-lhe-á um tormento maior do que a própria privação do que deseja." (Ibid., p.86)

Ele concordava, porém, que a criança só deve fazer o que quer. Todavia, ela só deve querer "o que quereis que ela faça". Mas tudo isso deve estar dentro de certos limites. E a polêmica questão dos livros também se encaixa aqui.

Sabemos que Rousseau, desde muito novo, era um rato de biblioteca. Quando criança, ele passava grande parte do seu dia visitando o acervo deixado como herança por sua falecida mãe. Não obstante, em seu "Emílio", ele desencoraja veemente que as crianças fossem apresentadas aos livros antes dos 12 anos de idade. Mas como?

Talvez isso possa ser esclarecido pelo contexto francês do século XVIII. Ao que parece, a educação que os pais burgueses buscavam inculcar nos filhos através dos preceptores que contratavam enchia-lhes as cabecinhas de conhecimento inútil para a sua idade, conhecimento dos quais elas de fato não se apropriavam, mas apenas memorizavam. Os pais queriam fazer de uma criança um doutor, não uma criança. O filósofo percebia que isso era extremamente prejudicial, e que esse fato explicava o que levava as crianças a se afastarem posteriormente dos livros: "Uma criança não tem muita curiosidade de aperfeiçoar o instrumento com o qual a torturam." (Ibid., p.134)

Conclusão

A breve exposição que fizemos é apenas dos livros I e II, que tratam até aos 12 anos de idade da criança. Sendo que ainda levará um bom tempo até que minha filha atinga essa idade, não tenho tanta pressa em ler os demais livros do Emílio, que vai até o volume V, o qual cobre as idades entre 20 e 25 anos.

Aqueles que já leram essa obra poderiam apontar outros tantos trechos que poderiam constar aqui, e não o fariam sem razão. Mas como foi necessário excluir trechos das seleções que empreendi, reconheço que o que foi apresentado realmente não faz justiça à excelência e grandeza dessa obra.

O "Emílio" é uma obra sem grande sistematização, em que Rousseau por algumas vezes parece ter se perdido. Ele atesta isso quando afirma: "Leitores vulgares, perdoai meus paradoxos, é preciso cometê-los quando refletimos; e digam o que disserem, prefiro ser homem de paradoxos a ser homem de preconceitos." (Ibid., p.96)

Mas seu legado, no entanto, é inquestionável. As reflexões de Rousseau sobre a educação tem oferecido aos pais, professores e pedagogos nos últimos séculos orientações precisas e seguras para aqueles que reconhecem que apenas intuição e boas intenções nem sempre são suficientes para o bem educar.


REFERÊNCIAS:

ROUSSEAU, Jean-Jacques. Emílio, ou, Da educação. 3ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

A legitimidade das pesquisas com células-tronco

Posted: 30.6.09 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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O debate sobre a legitimidade das pesquisas com células-tronco toca em muitas das questões que estão presentes também na discussão sobre o aborto, já que para que uma das formas dessas pesquisas sejam realizadas é necessária a interrupção da vida de um embrião.

Já vimos no post "Um ponto de vista sobre o aborto" que um embrião humano é um ser humano em um determinado estágio de desenvolvimento, e não alguma outra coisa não-humana, mesmo que diversas de suas potencialidades ainda não tenham passado dessa potência ao ato. Vimos também que assim como os humanos passam pelas fases da infância, da adolescência, etc, ele também passa por uma fase de desenvolvimento chamada embrionária.

No entanto, se na questão do aborto essa interrupção da vida em muitos casos é desproposital, ancorada apenas no "desejo" da mãe, no caso das pesquisas com células embrionárias há uma promessa de que o resultado dessas pesquisas traga benefícios para a humanidade.

Mas seria a mera possibilidade de benefícios legitimadora de qualquer tipo de experiência científica? Estão os procedimentos científicos livres de qualquer orientação ética? Essa parece ser a tendência. De acordo com Teixeira e Buglione (2008, p. 151-155), "o avanço inexorável da biotecnologia é o avanço do discurso que, pelo simples fato de um poder fazer, se tem, implícito, a legitimidade para fazê-lo [...] A promessa de benefícios à qualidade de vida humana justifica qualquer ação. Esse é o novo imperativo."

E os autores citam Schramm (apud Teixeira e Buglione, 2008, p. 158), que complementa :

...este fato é conhecido também como niilismo tecnocientífico, que consiste numa espécie de imperativo categórico segundo o qual: tudo aquilo que é tecnicamente possível fazer será inevitavelmente feito cedo ou tarde, independentemente do fato de que seja moralmente lícito ou não.

Ainda segundo este autor, a biotecnologia "se caracteriza por utilizar um ‘imperativo categórico próprio’, que é a idéia de que na técnica não há limites, e não deveria haver, portanto, obediência a padrões éticos ou morais (SCHRAMM, 1996, apud Teixeira e Buglione, 2008, p. 150).

O relativismo moral torna a questão extremamente problemática, já que a ausência de valores absolutos, em muitos casos, inviabiliza qualquer discussão sobre ética. Mas assim como na questão do aborto, a seguinte objeção à pesquisa com células embrionárias precisa ser elucidada: se e é lícito interromper a vida humana na fase embrionária, então por qual razão ela não poderia também ser interrompida em outras fases do desenvolvimento humano, como na infância ou na adolescência, por exemplo, se isso implicasse a possibilidade de benefícios para a humanidade? Essa não é uma simples questão à qual possamos fechar os olhos, tapar os ouvidos e desqualificar aos gritos de "reacionária!" a postura crítica.


REFERÊNCIAS:

TEIXEIRA, Eduardo Didonet; BUGLIONE, Samantha. Cenários contemporâneos. Palhoça: UnisulVirtual, 2008.

Um ponto de vista sobre o aborto

Posted: 25.6.09 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Ser lacônico em uma discussão sobre o aborto é correr sério risco de parecer superficial e incompleto. Mesmo assim, gostaria de expor brevemente algumas considerações de um ponto de vista que considero razoável no debate.

Em primeiro lugar, de forma simples e direta, o aborto pode ser definido como a interrupção da vida de um ser vivo através de sua expulsão extemporânea do útero. E disso segue-se uma pergunta ontológica crucial: mas de que tipo de ser é a vida tirada no ato do aborto humano?

É retirada a vida de um embrião, responderiam corretamente alguns. Mas às vezes há uma confusão sobre o que é um embrião. Parece-se compreendê-lo, em algumas oportunidades, como um tipo de ser que viria a se transformar em um humano se seu desenvolvimento fosse continuado. Mas isso me parece um erro.

Para desfazer essa incompreensão (que se deve também à linguagem), seria melhor usar a expressão "fase embrionária" no lugar de "embrião". Assim, podemos ver com mais clareza que um embrião é um ser de uma determinada espécie que se encontra numa fase de crescimento específica, chamada de "embrionária". Assim como os humanos, por exemplo, passam pelas fases da infância, da adolescência, etc, eles também passam por uma fase de desenvolvimento chamada embrionária. Outros seres vivos também possuem fase embrionária. Todo coelho, gato ou cachorro um dia foi um embrião.

Se dizemos "ali está uma criança", todos entendem que nos referimos a um ser humano em uma determinada fase de desenvolvimento. Mas se dizemos "ali está um embrião", aí já surge a dúvida sobre do que estamos falando. Assim, cabe esclarecer que um embrião humano é um ser humano em um determinado estágio de desenvolvimento, e não alguma outra coisa diferente de um ser humano, mesmo que diversas de suas potencialidades ainda não tenham passado dessa potência ao ato.

Disso segue-se que o aborto humano é a interrupção de uma vida humana que se encontra em uma determinada fase de desenvolvimento. Ora, mas se é possível perpetrar o aborto, poderia a máxima subjacente a esse ato ser aplicada a outros seres humanos em outras fases de desenvolvimento? Isso é, se podemos matar um ser humano em fase embrionária, poderíamos também matar humanos na infância? Poderíamos também matar seres humanos na adolescência, caso eles sejam indesejáveis à mãe? Se sim ou não, por qual razão?

Os argumentos de que a mãe pode fazer o que quiser com um ser humano em fase embrionária simplesmente porque ele se encontra geograficamente localizado em seu ventre carecem de fundamentação e esclarecimento. Há de fato diversas ocasiões em que o aborto é necessário, principalmente nos clássicos casos em que a gravidez enseja risco de vida ou para a mãe ou para o filho. Mas note que nessas oportunidades a escolha é entre salvar uma vida ou perder duas. O aborto cuja única justificativa é o "desejo" da mãe não me parece racional ou sensato. Ninguém é permitido a fazer tudo que deseja, e eu não vejo razão para que o "desejo" da mãe seja árbitro nesses casos.

Fundamentalismo

Posted: 20.6.09 by Glauber Ataide in Marcadores: , ,
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Desde os atentados de 11 de setembro de 2001, o termo "fundamentalismo" passou a ser amplamente utilizado para identificar uma determinada corrente da religião islâmica, caracterizada por sua interpretação radical do Corão e pelo fervor com que seus fiéis se dedicam à jihad.

Mas o fundamentalismo não está relacionado a nenhuma corrente de pensamento, religião ou doutrina específica. Antes, o fundamentalismo é uma forma de interpretar e viver a doutrina. Segundo o teólogo Leonardo Boff, o fundamentalismo "representa a atitude daquele que confere caráter absoluto ao seu ponto de vista" (2002, p. 25).

Se buscarmos a própria origem do termo, ali mesmo veremos que o fundamentalismo não é algo específico do Islã. Este termo foi cunhado em 1915, quando da publicação de uma coleção de doze livros chamados "Fundamentals", de autoria de professores de Teologia da Universidade de Princeton. Estes livros foram uma contra-ofensiva à onda de modernização de que era tomada a sociedade estadounidense, e tinham a intenção de estabelecer bases sólidas para os fundamentos cristãos bíblicos que vinham sendo então ou atacados ou considerados irrelevantes. Esses dados nos permitem ver que o próprio termo "fundamentalismo" nasceu em berço protestante, e nos Estados Unidos.

Sendo o fundamentalismo não uma doutrina, mas sim uma forma, uma maneira de interpretar e viver a doutrina, ele pode ser encontrado não apenas em diversas outras religiões, mas também em sistemas econômicos, na política, na cultura, etc.

No âmbito religioso, o fundamentalismo protestante, por exemplo, se apega à Bíblia em interpretações literais de seu conteúdo, crendo que o mundo foi criado em seis dias, que o homem foi feito do barro, que Eva foi gerada a partir de uma costela física de Adão, etc. Para vários grupos protestantes, a Igreja Católica é a besta descrita no capítulo 13 do Apocalipse, e todas as outras religiões são obra do demônio.

Um tipo de fundamentalismo católico, chamado "Restauração e Integrismo", por sua vez, procura reavivar a antiga ordem medieval com a fusão entre poder, política e religião, buscando submeter todos os aspectos da vida humana aos ditames da igreja católica, que é a "única igreja verdadeira", fora da qual não há salvação.

Já um certo tipo de fundamentalismo islâmico quer implantar a forma de vida descrita no alcorão ao mundo inteiro, também em todas as esferas da existência humana, levando à instauração de Estados teocráticos. Interpretações literais de seu livro sagrado levam grupos radicais a distorcer o conceito original de jihad (que é fervor e empenho pela causa de Deus) para guerra santa, e a encarar os ocidentais como ateus, materialistas, secularistas, pagãos, ímpios e infiéis.

Fora do âmbito das religiões, um exemplo citado por Boff (2002, p. 38) é o do fundamentalismo da ideologia política do neoliberalismo, do modo de produção capitalista e de sua melhor expressão, o mercado mundialmente integrado, o qual se apresenta como solução única para todos os países e para todas as carências da humanidade. Um sistema que é, no entanto, criador de grandes desigualdades, explorador da força de trabalho e predador da natureza. A cultura capitalista, onde quer que se instale, cria uma cosmovisão materialista, individualista e sem qualquer freio ético. Não obstante, alguns teóricos (fundamentalistas, claro) apresentam essa etapa como o fim da história. Para eles não há alternativa, a não ser que todos se insiram neste processo.

Um outro exemplo de fundamentalismo não religioso é o do paradigma científico moderno. A ciência, que artificialmente compartimenta a realidade, que é una e diversa, se arroga como a única a ter acesso ao real, e dessa forma desqualifica e desmoraliza outras formas de conhecimento que "vão além ou ficam aquém dos caminhos da razão instrumental-analítica". (BOFF, 2001, p. 40).

Como se pode ver, o fundamentalismo não é especificamente um conteúdo doutrinário ou religioso, mas está mais relacionado a uma forma, a uma maneira de se posicionar. Como dito anteriormente, é o ato de conferir caráter absoluto ao seu ponto de vista. E a consequência disso, segundo nosso teólogo, é que "quem se sente portador de uma verdade absoluta não pode tolerar outra verdade, e seu destino é a intolerância. E a intolerância gera o desprezo, e o desprezo, a agressividade, e a agressividade, a guerra contra o erro a ser combatido e exterminado".

REFERÊNCIAS

BOFF, Leonardo. Fundamentalismo: A globalização e o futuro da humanidade. Rio de Janeiro: Sextante, 2002.

A apropriação da psicanálise pela publicidade

Posted: 10.6.09 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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No documentário The century of the self, Adam Curtis mostra como as ideias de Freud foram apropriadas por publicitários e governantes, a partir do início do século XX, para controlar as pessoas em uma era chamada de "democracia das massas". Seu trabalho foi ganhador dos prêmios de Melhor Série de Documentário da Broadcast Awards e de Filme Histórico do Ano da Longman\History Today Awards.

Adam nos conta que o indivíduo que começou tudo isso foi Edward Bernays, sobrinho do próprio Freud. Após ler alguns livros do tio, que ainda não era muito conhecido nos EUA, ele teve a "brilhante" idéia de utilizar suas descobertas sobre o inconsciente para controlar as massas. Sem o consentimento do tio, claro.

Um exemplo prático de como se deu essa aplicação da Psicanálise na publicidade nos é fornecido quando estudamos a tática adotada pela indústria tabagista estadounidense no início do século XX para incluir as mulheres entre os seus consumidores. Bernays tentou descobrir por qual razão as mulheres eram resistentes ao cigarro, e o que descobriu foi algo que Freud já havia analisado na seção de "símbolos típicos", no capítulo VI de sua obra "A interpretação dos sonhos": o cigarro é um símbolo inconsciente do pênis, do poder masculino.

Bernays, então, para mudar essa imagem através da publicidade, efetuou uma associação do cigarro a um desafio feminino do poder masculino, ao mostrar mulheres independentes e "poderosas" fumando. A partir disso mulheres fumantes se tornaram parte do mercado consumidor de tabaco, um fenômeno de massas.

Um outro exemplo é quando apareceram os primeiros bolos de caixinha, aqueles semi-prontos. As mulheres se mostraram inicialmente resistentes ao produto, e pesquisas demonstraram que isso era devido a um senso de culpa que elas sentiam devido às idéias de facilidade e conveniência (lembre-se de que estamos no início do século XX). Para remover essa barreira de "culpa", a estratégia foi dar às donas de casa um senso de participação na confecção do bolo. As campanhas publicitárias então passaram a mostrar as mulheres participando de todo o processo, e como consequência, as vendas triunfaram.

Da sociedade de massas à sociedade do self

No início do século XX ainda havia por parte dos indivíduos algum senso de pertencimento a uma sociedade, a um organismo maior, ou mais especificamente, de ser parte de uma "massa". Essa concepção, no entanto, começou a ser questionada a partir da década de 60, nos EUA, principalmente pelo movimento estudantil, o qual também acusava as corporações de manipular as pessoas. Herbert Marcuse, filósofo com alguma habilitação psicanalítica, afirmava que a Psicanálise estava sendo utilizada para os propósitos errados. Como resultado de vários movimentos dessa época, dentro de algum tempo as pessoas começaram a se considerar únicas, distintas da massa. Não havia mais propriamente aquele senso de "sociedade", a qual agora parecia ter se tornado apenas um "bando de indivíduos juntos".

Como a publicidade passou a não mais ter apelo para a maioria das pessoas pelo fato de até então o foco ter sido sobre as massas, das quais os indivíduos passaram a não mais se considerar parte e a se afastar, a tática publicitária agora foi tirar proveito da situação: "se o indivíduo quer ser único, então vamos lhe vender a sua individualidade. Ele poderá comprá-la de nós."

Com esse novo individualismo, as pessoas não eram mais classificadas por classes sociais, mas por "estilo de vida". A partir disso se firmou a noção de que as pessoas poderiam "comprar uma identidade". As empresas finalmente perceberam que era do seu interesse incentivar cada pessoa a se sentir "única".

Dezenas das peças publicitárias que nos bombardeiam a todo instante são dessa espécie. Prometem unicidade e individualidade tão somente o produto anunciado seja consumido. E as associações dos produtos com as reais necessidades das pessoas também continuam. Produtos são associados ao amor, à vida familiar, à liberdade, a ideais nobres, etc, quando na verdade eles nada têm a ver com isso.

Mas a sujeira não acaba por aí. As indústrias frequentemente precisam, pela própria lógica interna do capitalismo, criar e vender coisas que as pessoas não precisam. Então a publicidade diz para o indivíduo: "Você precisa disso", o indivíduo acredita e acaba comprando.

O consumidor sente apenas que quer comprar, e isso é verdade: ele realmente quer. Mas o que lhe escapa à compreensão é que esse desejo foi criado pela ação publicitária. Muita gente pode precisar de um telefone celular, mas quem realmente precisa de um telefone celular novo a cada ano? As pessoas quase sempre se convencem (isso é, são convencidas) de que precisam consumir isto ou aquilo, e acham que estão agindo livremente.

Assim como Santos Dummont e Einstein desaprovaram completamente a utilização de suas descobertas e invenções nas guerras, Freud também não aprovou o uso da psicanálise pela indústria. Mas assim como uma faca pode cortar um pão ou matar uma pessoa, a psicanálise, inicialmente um método terapêutico para cura da histeria e das neuroses, se tornou uma arma nas mãos de políticos e capitalistas.

Martin Claret: pura picaretagem editorial?

Posted: 3.6.09 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Em praticamente qualquer livraria que se entre hoje lá está uma seção com dezenas e dezenas de títulos da Editora Martin Claret. Ainda me lembro do primeiro livro que comprei dessa editora, que foi o "Manifesto do Partido Comunista", de Marx e Engels, há uns 10 anos. Eu havia lido uma outra edição que minha professora de História no 3º ano do Ensino Médio havia me emprestado, e essa leitura mudou a minha vida. Quando lhe devolvi o livro, quis comprar uma cópia para mim, e descobri então a Martin. A partir disso comecei a comprar mais e mais de seus livros, porque poucos além deles estavam dentro do meu poder de aquisição na época.

Mas só muito tempo depois comecei a observar os aspectos editoriais dos livros em geral, pois até ali minha preocupação sempre esteve voltada somente para o conteúdo. Foi quando um colega de turma chegou a comentar, em tom de reclamação, que um livro didático que usávamos na faculdade tinha nas referências bibliográficas um livro da Martin Claret. Como nessa época eu já tinha mais de 20 volumes dessa editora, quis saber mais sobre o assunto, e o que descobri foi surpreendente: a Martin Claret já havia sido processada por plágios de traduções, além de ser acusada de vários outros casos ainda não confirmados.

Algo realmente muito estranho nos livros de literatura estrangeira que a Martin Claret publica é o fato de que os tradutores quase sempre são os mesmos. Há um tal de "Pietro Nassetti", por exemplo, que traduz obras do grego, do alemão, do francês, do inglês, etc. É inevitável que não surja pelo menos a suspeita de que a Martin está se valendo da obra de outros tradutores e assinando como esse misterioso senhor "Nassetti".

Eu digo "suspeita" porque talvez sou bonzinho demais. Para o blog "Não gosto de plágio", que é um blog especializado em picaretagens editoriais, não há mais "suspeita" sobre isso, mas sim fatos puros.

Mas em toda essa confusão, a questão é: qual é o problema com o plágio? Apenas o espólio dos tradutores? Ou também a qualidade comprometida da obra? Penso que os dois. Mas meu posicionamento na questão é que eu não vou deixar de comprar livros da Martin Claret quando isso for possível. E vou explicar por qual razão e em quais situações.

Nem tudo que a Martin Claret lança é picaretagem. As edições da "Divina comédia", de Dante, e do "Fausto", de Goethe, por exemplo, já tinham suas traduções em domínio público quando lançadas pela Martin. Ninguém está sendo lesado nesses casos. Há também traduções cujo copyright pertence à própria editora, como da obra "A ideologia alemã", de Marx e Engels, que foi efetuada por Frank Müller. Mas se a tradução é do tal "Pietro Nassetti", aí eu já fico com um pé atrás e procuro outras edições. A mudança de atitude que tive então foi verificar antes da compra quem é o tradutor da obra.

Mas por outro lado, eu não quero aqui apenas criticar a Martin Claret. Eu realmente acho que eles têm feito um grande trabalho para democratizar e popularizar a leitura em nosso país. Nas primeiras páginas de seus livros sempre há um texto informativo sobre a missão, visão e valores da empresa, no qual eles admitem que se utilizam de meios ortodoxos e "heterodoxos" para comercializar suas obras. O que eu fico pensando é se esses meios "heterodoxos" não são mesmo uma ação consciente sobre a indústria editorial brasileira que realmente não parece se importar com a instrução das classes mais baixas, resguardadas algumas exceções.

Livros no Brasil são caros. Às vezes fica mais barato importar um livro em inglês do que comprar sua versão traduzida em português. Só pra citar um exemplo, eu tenho vários livros de Freud em inglês, pois fica muito mais barato importar (mesmo pagando frete internacional) do que pagar pelo livro aqui no Brasil. Mas e quem não é fluente em inglês, ou não consegue ler um livro inteiro em outro idioma, como é que fica? Vai à biblioteca pública? E se muita gente resolvesse fazer isso, haveria exemplares disponíveis? E nos lugares em que não existe biblioteca? Será que o indivíduo não pode construir seu acervo particular em casa se não tiver dinheiro? O capital é intermediário no acesso à cultura e à informação? Talvez esse seja um daqueles casos não de avaliar se estamos jogando de acordo com as regras, mas sim de questionar as próprias regras do jogo.