Quando pobres defendem interesses de ricos

Posted: 1.10.09 by Glauber Ataide in Marcadores: , ,
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Quando vemos pobres defendendo interesses de ricos, identificamos aí a atuação do que Marx chama de ideologia. A burguesia, para manter o mundo em que domina da forma como está, apresenta os seus próprios interesses como sendo interesses gerais, de toda a sociedade. E muita gente pobre, mas principalmente a classe média, não sofrendo com a miséria e aspirando ao modo de vida burguês, compra esse discurso e o repete na forma de uma sabedoria de papagaio. Marx e Engels expressam o primeiro ponto da seguinte forma:

"... cada nova classe que ocupa o lugar da que dominava anteriormente vê-se obrigada, para atingir seus fins, a apresentar seus interesses como sendo o interesse comum de todos os membros da sociedade; ou seja, para expressar isso em termos ideais; é obrigada a dar às suas idéias a forma de universalidade, a apresentá-las como as únicas racionais e universalmente legítimas." (MARX, ENGELS, 2005, p. 53)

Mas como não poderia deixar de ser, essa superficialidade da sabedoria de papagaio nunca resiste a alguns pedidos de explicação.

Cito um exemplo. Alguns desses papagaios, quando questionados sobre alguns problemas sociais graves, tais como a fome e a dificuldade que milhões de pais trabalhadores enfrentam para colocar comida na mesa para os filhos, respondem da seguinte forma: "Se não podem ter filhos, que não tenham. Eles deveriam fazer planejamento familiar."

Vejam que incrível! Ao invés de apontar as causas do problema social da desigualdade, dos baixos salários, etc, o problema é transferido para o trabalhador que não faz "planejamento familiar". Para o burguês e seus lacaios, essa lógica é muito simples: se você não tem dinheiro para ter filhos, não os tenha.

E querem falar de "planejamento familiar" para pessoas que, muitas das vezes, não sabem nem ler. Indivíduos que não podem pensar no futuro porque estão ocupados demais pensando no que vão comer na próxima refeição.

Se o problema é "pessoas com fome", a burguesia vê duas soluções: ou você elimina a fome, ou elimina as pessoas...

Um outro exemplo de brilhantismo ao analisar problemas sociais é a forma como o panfleto Veja, instrumento burguês, demoniza setores excluídos e movimentos sociais. Há algum tempo ela veiculou uma matéria fascista sobre moradores de ruas ("Profissionais da esmola", edição 2.126), os quais, em resposta, organizaram uma manifestação e queimaram exemplares do panfleto na Praça da Sé, no centro de São Paulo. Em uma "reporcagem" mais recente ("Por dentro do cofre do MST", edição 2128), novamente ela deu chifres, rabo e tridente a um movimento social: o MST.

Para a classe dominante e seus veículos de propaganda ideológica, simplesmente evita-se pensar em problemas como dos exemplos anteriores como sendo oriundos de uma complexa teia de relações causais que afluem de todos os lados para sua formação.

Pelo fato de a burguesia apresentar o mundo em que domina como o melhor dos mundos, a classe média, aspirante a esse estrato social superior, não vê nada de errado na forma como a sociedade está organizada. Se crianças passam fome, não têm comida na mesa ou no futuro se tornarão marginais, a solução é simples: elas não deveriam nunca ter existido. A culpa é dos pais que as colocaram no mundo. Se trabalhadores pedem terra para cultivar enquanto latifundiários mantêm enormes propriedades improdutivas, o problema deve ser de quem?


REFERÊNCIAS:

MARX, Karl, ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. Tradução de Frank Müller. 3ª ed. São Paulo: Martin Claret, 2005.

A educação transformada em mercadoria

Posted: 25.9.09 by Glauber Ataide in Marcadores:
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A exemplo do mito grego do rei Midas, que transformava em ouro tudo o que tocava, o capitalismo transforma em mercadoria tudo aquilo em que põe as mãos. Grandes barões da educação vêm sucateando a educação no Brasil, sendo grupos como Anhanguera, Anima e Kroton alguns dos principais protagonistas da mercantilização da educação em terras tupiniquins.

Com capital aberto na bolsa de valores, esses grandes grupos do "negócio" da educação, comprometidos com os acionistas, vêm implantando medidas que visam maximizar os lucros, deixando a qualidade de ensino em segundo plano, apenas como um meio necessário para se garantir os ganhos.

É isso o que confirma à revista Veja a vice-presidente do Grupo Kroton, Alicia Figueiró, grupo que possui capital aberto na bolsa: “Outro fato que pode impulsionar a melhora do ensino diz respeito à simples lógica do mercado: faculdades muito ruins espantam os investidores e, por isso, aquelas que vão à bolsa têm de se preocupar mais com o lado acadêmico.” (Veja, Edição 2067, 2 de Julho de 2008).

Isso é, a qualidade da educação é considerada não como um fim em si mesma, ou como um meio para buscar o desenvolvimento soberano do país, mas sim como um meio para se alcançar o “bem supremo” do capital: o lucro.

Nessa mesma reportagem, Veja ainda revela: o Grupo Anhanguera “recebe investidores estrangeiros interessados em comprar suas ações”. Mas não é novidade para ninguém que investidores estrangeiros não têm o menor compromisso com a qualidade da educação em países de terceiro mundo. Isso só acontece, é claro, quando ela tem relação direta com seus investimentos.

Essas instituições, que pouco ou nada investem em projetos de pesquisa, empurram em seus discentes uma formação puramente tecnicista, da qual podemos dizer o mesmo que Marx dizia sobre a cultura burguesa em relação ao proletariado: não passam de "um adestramento para os homens agirem como máquinas". Se queremos que o Brasil se torne um país forte, exportador de tecnologia e que seu povo tenha consciência de classe, estamos no caminho errado.

Mensagem de aniversário

Posted: 21.9.09 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Muito mais do que apenas uma formalidade. É assim que considero cada data de aniversário. É sempre uma data para se rever o próprio projeto de vida. Analisar as potencialidades e acompanhar o andamento do que havíamos planejado.

Os animais já nascem prontos. Já nascem contendo em seu código genético tudo aquilo que poderão ser. Um joão-de-barro constrói ninhos da mesma forma que todos os seus antepassados. Eles não acumulam e transmitem conhecimentos de geração a geração como o homem. Este, ao contrário, é um ser por se fazer. Ele não nasce pronto.

O aniversário, como recordação do dia em que chegamos a este mundo, deve também servir para nos lembrar que seria muito mais fácil para nós não existir do que estarmos vivos aqui.

Em categorias aristotélicas, dizemos que se hoje existimos, isso quer dizer que existimos em ato. Mas antes disso existíamos em potência. Passamos então da potência ao ato.

Mas quantas pessoas existem hoje apenas em potência, mas nunca chegarão a existir em ato! Dizendo de outra maneira, quantas pessoas poderiam existir, mas não existem, e nunca existirão! E pensar que somos justamente nós que existimos...

Assim, todo "feliz aniversário" que se ouve deve ser, no fundo, um reconhecimento de que a existência do aniversariante neste mundo é querida, desejada e reconhecida.

E toda omissão desse tipo de felicitação é afirmação tácita de que sua existência é indiferente. De que se ele nunca tivesse passado da potência ao ato, o mundo seria pouco diferente do que é.

E é com discursos desse tipo que eu gosto de congratular os aniversariantes. Com essa chamada à reflexão, a se tornarem melhores, a se construirem, a se fazerem a si próprios a cada dia. A pensar que as probabilidades de não existirmos sempre foram esmagadoramente maiores do que a de existirmos.

Eu já sei "a verdade", pra que perder tempo com "a mentira"?

Posted: 16.9.09 by Glauber Ataide in Marcadores: , ,
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Foi um pensamento como este que estagnou o pensamento filosófico e científico por quase mil anos na história da humanidade. E é assim que muita gente ainda pensa.

A Idade Média, subjugada à tutoria da Igreja Católica, foi um período em que o pensamento filosófico foi escravizado. Sim, a Filosofia se tornou literalmente "serva da Teologia", e tinha como única função esclarecer a fé. Apesar de empreender um aprofundamento nos estudos de pensadores como Aristóteles, este período não trouxe avanços significativos.

Isso se deu porque "a verdade" já havia sido encontrada. Sim, ela estava logo ali, revelada na Bíblia. Ora, se o homem então já estava de posse da verdade, que lhe foi revelada diretamente do céu, por que perder tempo filosofando?

Em um diálogo com meu amigo Eliel, cristão, do blog "Desconstruindo", ele defendeu posição semelhante, quando falávamos sobre alguns "apologistas" que dizem estar "refutando" Marx e Freud sem nunca terem lido uma única página desses pensadores:

"Se alguém chegar a você e dizer que a terra é plana, você não vai se dar ao trabalho de ler seus argumentos. Pra você o fato de cientistas e filósofos já terem refutado esta visão antiga de mundo é suficiente."

Mas estes argumentos cometem a boa e velha falácia ad verecundiam, isso é, o "apelo à autoridade." Ou seja, acredita-se em uma determinada posição não por causa de sua correspondência à realidade ou pela força de suas premissas que levam a uma conclusão lógica inevitável, mas por causa de uma autoridade qualquer que diz que deve ser de tal e tal modo.

Foi por argumentos assim que por tanto tempo a humanidade acreditou que era o Sol que girava em torno da Terra, e não o contrário. As "autoridades" diziam isso, apesar de pensadores da corrente "não-oficial" já terem descoberto o contrário.

Acredita-se às vezes que determinado pensador foi "refutado" simplesmente porque existem críticas à sua obra. Mas como saber se as críticas são procedentes se eu não conheço o pensamento criticado? Como saber se o crítico está expondo corretamente o pensamento do seu opositor?

O verdadeiro filósofo é aquele que não se contenta com as primeiras impressões, para quem a verdade está sempre lhe escapando por entre os dedos. A Filosofia é a busca do saber, não a sua posse. A "descoberta da verdade" é o fim da Filosofia.

Relacionamento (namoro) entre professora e aluno

Posted: 1.9.09 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Há alguns dias, enquanto dirigia da faculdade para casa, tentava compreender uma cena que havia presenciado na sala de aula pouco antes. O que aconteceu e o que pensei durante o trajeto é como se segue.

Minutos antes do intervalo da aula, estava eu sentado na última cadeira da fila lateral esquerda da sala, lendo Marx, quando minha atenção foi desviada para a conversação que travavam alguns alunos com a professora. Esta dizia que já estava há algum tempo sozinha, e que não queria se relacionar por agora. Um aluno, em tom chistoso, lhe disse que caso ela quisesse, poderia ligar-lhe num final de semana para vê-lo.

Todos os alunos riram, o que é característico deste tipo de situação. Freud demonstrou em sua obra "Os chistes e sua relação com o inconsciente" que os chistes são uma forma de expressar desejos inconscientes. Através de "brincadeiras" dizemos aquilo que não poderíamos expressar de forma direta, e essa é uma das causas do prazer que certas situações nos trazem, provocando gargalhadas.

Mas a professora lhe respondeu que se relacionar com aluno "não era possível". Com ex-aluno até poderia ser ("quem sabe no semestre que vem"), mas com aluno, não. Ela argumentou que isso não era "ético", e foi claro perceber que havia alguma resistência que lhe vedava esse tipo de relacionamento.

Quando a professora disse que se relacionar com alunos não era "ético", essa palavrinha logo me chamou a atenção, pois, como sabemos, a Ética é uma área da Filosofia. Mas ela simplesmente não conseguiu explicar o que havia de "antiético" nisso. Isso me sugeriu que a explicação para esse quadro não seria encontrada através da Filosofia, no eu consciente, mas pela Psicanálise, no inconsciente.

Uma possível interpretação deste caso irá passar pela questão da barreira do incesto. Uma professora, em relação a seus alunos, torna-se uma "mãe" para eles. E isso é especialmente claro no presente caso, haja vista a constante presença de termos e expressões afetivas e maternas que encontramos no discurso dessa professora durante as aulas.

Sabemos que em nossa vida adulta reproduzimos os comportamentos que tínhamos com nossos pais. A forma com que lidamos com as figuras de autoridade ou com nossos cônjuges é moldada pela nossa relação infatil com eles.

Mas também reproduzimos em grande parte a forma como nossos pais nos tratava em nossas relações com os outros. Quando observamos uma menina brincando com bonecas, para citar um exemplo, podemos identificar se há algum problema dela com os pais pela forma com que ela trata a boneca, pois ela a trata em partes da mesma forma que ela sente que seus pais lhe tratam.

Assim, poderíamos reconstruir a resposta inconsciente dessa professora ao aluno da seguinte forma: "Eu não posso me relacionar com você pois, enquanto sua professora, eu sou uma mãe para você. Mas assim que você deixar de ser meu filho, no semestre que vem, essa barreira não mais existirá."

Em muitos casos essa barreira é ultrapassada, mas não sem ponderação ou superação de alguma dificuldade, o que reforça a tese de que existe um tabu inconsciente na relação entre professora e aluno, e esse tabu é, de certa maneira, um deslocamento da barreira do incesto para esse tipo de relacionamento.

Sobre a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais

Posted: 28.8.09 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Durante esta semana meu amigo Eliel e eu tivemos um proveitoso debate online sobre algumas questões políticas, as quais giraram em torno principalmente dos modos de produção capitalista e socialista. Posteriormente este assunto se estendeu, e chegamos a um tópico que tem sido debatido não apenas entre amigos ou nas mesas de bar, mas também no próprio Legislativo: a redução da jornada de trabalho semanal para 40 horas.

Eliel publicou em seu blog uma continuação deste debate que tivemos, e o presente post é uma réplica ao seu texto, que pode ser acessado clicando aqui.

Creio que o argumento do Eliel contra a redução da jornada se resume no seguinte ponto: "Menos horas trabalhadas geralmente corresponde a menos produção, e menos produção corresponde a aumento de preço no mercado."

A seguinte informação que ele apresentou parece reforçar isso:

"Michel Aburachid, presidente do Sindicato das Indústrias do Vestuário no Estado de Minas Gerais (Sindivest-MG), disse ao Jornal do Comércio que 'se a mudança for aprovada será, literalmente, o fim das confecções em Minas Gerais.' Uma vez que a indústria do vestuário está perdendo mercado internacional (e até nacional) por causa da indústria chinesa (na China a carga horária semanal é de 60 horas) e da queda do Dólar ante ao Real, uma diminuição da carga horária seria altamente prejudicial ao setor.'"

Mas veja bem que este é um argumento patronal antigo, e pode ser remontado à época da Revolução Industrial. Foi muito utilizado quando os movimentos sindicais na Europa tentavam extinguir o trabalho infantil de crianças de 5 anos de idade.

Para responder a essa questão, vejamos alguns trechos de um estudo realizado pelo DIEESE - Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos:

"Conforme dados da Confederação Nacional das Indústrias (CNI), a participação dos salários no custo das indústrias de transformação era de 22%, em média, em 1999. Assim, uma redução de 9,09% da jornada de trabalho, conforme demandada pela campanha das centrais, representaria um aumento no custo total de apenas 1,99%, como mostram os dados a seguir:

a. Considerando que a participação dos salários no custo das indústrias de transformação é de 22%;
b. que a redução da jornada de trabalho reivindicada de 44 para 40 horas representa uma redução 9,09% das horas trabalhadas;
c. A conta é a seguinte: 1,0909 x 22= 23,99;
23,99 - 22 = 1,99% de aumento no custo total da produção

"Ao se considerar o fato de que uma redução de jornada leva a pessoa a trabalhar mais motivada, com mais atenção e concentração e sofrendo menor desgaste, é de se esperar, como resposta, um aumento da produtividade do trabalho, que entre 1990 e 2000, cresceu a uma taxa média anual de 6,50%."

"Assim, ao comparar o aumento de custo (1,99%), que ocorrerá uma única vez, com o aumento da produtividade, que já ocorreu no passado e continuará ocorrendo no futuro, vê-se que o diferencial no custo é irrisório. E quando se olha para a produtividade no futuro, em menos de seis meses ele já estará compensado.

"Mais um argumento a favor da redução da jornada de trabalho pode ser encontrado nos dados do Departamento do Trabalho dos Estados Unidos que mostram o custo horário da mão-de-obra na indústria manufatureira em vários países. Um simples olhar para a tabela a seguir mostra que o custo da mão-de-obra brasileira não só é mais baixo, mas é muitas vezes mais baixo. O custo na Coréia do Sul, país que mais se aproxima dos valores brasileiros, é três vezes maior que o do Brasil. Isso significa que há muita margem para a redução da jornada.



"Assim, a redução de jornada não traria prejuízo algum à competitividade brasileira. Além disso, muitos países já têm jornada de trabalho menor que o Brasil. Na realidade, o diferencial na competitividade dos países não está no custo da mão-de-obra. Caso assim o fosse, os EUA e o Japão estariam entre os países menos competitivos do mundo, pois o custo da mão-de-obra está entre os maiores. O que torna um país competitivo são as vantagens sistêmicas que ele oferece: um sistema financeiro a serviço do financiamento de capital de giro e de longo prazo com taxas de juros acessíveis; redes de institutos de pesquisa e universidades voltadas para o desenvolvimento tecnológico; população com altas taxas de escolaridade; trabalhadores especializados; infra-estrutura desenvolvida, entre várias outras vantagens."

Vê-se assim como os velhos argumentos patronais se encontram com os pés firmemente plantados no meio do ar. Além disso, ainda poderíamos complementar dizendo o seguinte: não haverá queda de produção por causa da redução da jornada de trabalho. Na verdade, menos horas trabalhadas corresponderá à geração de novos postos de emprego, e geração de emprego é geração de renda, a qual aumentará a demanda, pois pessoas que antes estavam desempregadas agora entram para o mercado consumidor.

Eliel afirma em seu texto que "o importante é ter ciência de que, em economia, não existem respostas prontas e pré-fabricas, como os comunistas às vezes passam a impressão que é. "

Mas não são os comunistas que passam essa impressão. Ela é forjada pelos jornalões a serviço da classe dominante, os quais tentam de toda forma desqualificar qualquer alternativa à presente organização social da qual eles se beneficiam. É por isso que tem-se a impressão de que os comunistas postulam "sonhos como se fossem realidade". E que também comem criancinhas.

Um pouco sobre o conceito de ideologia em Marx e o materialismo histórico

Posted: 26.8.09 by Glauber Ataide in Marcadores: , ,
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Em vários outros posts deste blog eu já havia feito referência a dois conceitos fundamentais do pensamento de Marx: o de "ideologia" e o de "materialismo histórico". Tentarei agora, através de algumas citações do primeiro volume da obra A ideologia alemã ("Feuerbach - A contraposição entre as cosmovisões Materialista e Idealista"), de autoria de Marx e Engels, apresentar uma visão geral desses conceitos.

Ao inverter a dialética hegeliana de cabeça para baixo, "colocando-a de pé", Marx demonstrou que o homem não pensa para depois entrar ou viver no mundo. Ele primeiro está no mundo, vivo, e só depois disso é que pensa. Assim,

"...o primeiro pressuposto de toda a existência humana e, portanto, de toda a história, é que todos os homens devem estar em condições de viver para poder 'fazer história'. Mas, para viver, é preciso antes de tudo comer, beber, ter moradia, vestir-se e algumas coisas mais. O primeiro fato histórico é, portanto, a produção dos meios que permitam que haja a satisfação dessas necessidades, a produção da própria vida material." (MARX, ENGELS, 2005, p. 53)

E para que essa produção da própria vida material aconteça, o homem estabelece relações sociais, de onde se segue que

"... um modo de produção ou uma determinada fase industrial estão sempre ligados a uma determinada forma de cooperação e a uma fase social determinada, e que essa forma de cooperação é, em si própria, uma 'força produtiva'; decorre disso que o conjunto das forças produtivas acessíveis aos homens condiciona o estado social e que, assim, a 'história dos homens' deve ser estudada e elaborada sempre em conexão com a história da indústria e do intercâmbio." (Ibid., p. 55)

Veja bem o final da última frase: "a 'história dos homens' deve ser estudada e elaborada sempre em conexão com a história da indústria e do intercâmbio." Por essa razão,

"A produção de idéias, de representações e da consciência está, no princípio, diretamente vinculada à atividade material e o intercâmbio material dos homens, como a linguagem da vida real. As representações, o pensamento, o comércio espiritual entre os homens, aparecem aqui como emanação direta do seu comportamento material. O mesmo ocorre com a produção espiritual, tal como aparece na linguagem da política, das leis, da moral, da religião, da metafísica, etc, de um povo." (Ibid., p. 51)

Disso ele conclui que "não é a consciência que determina a vida, mas a vida é que determina a consciência." (Ibid., p. 52)

"A consciência, consequentemente, desde o início é um produto social, e o continuará sendo enquanto existirem homens. A consciência é, antes de tudo, mera consciência do meio sensível mais próximo e consciência de uma interdependência limitada com as demais pessoas e coisas que estão situadas fora do indivíduo que se torna consciência." (Ibid., p. 55)

Mas a consciência comum de uma determinada época não expressa as relações sociais da forma como elas realmente são. Essa consciência é uma expressão das relações ideais da classe dominante, que por dominar materialmente, domina também espiritualmente:

"As idéias da classe dominante são, em todas as épocas, as idéais dominantes; ou seja, a classe que é a força material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo sua força espiritual dominante. A classe que dispõe dos meios de produção material dispõe também dos meios de produção espiritual, o que faz com que sejam a ela submetidas, ao mesmo tempo, as idéias daqueles que não possuem os meios de produção espiritual. As idéias dominantes, são, pois, nada mais que a expressão ideal das relações materiais dominantes, são essas as relações materiais dominantes compreendidas sob a forma de idéias; são, portanto, a manifestação das relações que transformam uma classe em classe dominante; são dessa forma, as idéias de sua dominação." (Ibid., p. 78)

"... cada nova classe que ocupa o lugar da que dominava anteriormente vê-se obrigada, para atingir seus fins, a apresentar seus interesses como sendo o interesse comum de todos os membros da sociedade; ou seja, para expressar isso em termos ideais; é obrigada a dar às suas idéias a forma de universalidade, a apresentá-las como as únicas racionais e universalmente legítimas." (Ibid., p. 80, grifo nosso)

Mas neste ponto geralmente surge a seguinte dúvida, principalmente àqueles recém-chegados ao pensamento de Marx: "mas há ideias que questionam essas ideias da classe dominante, a qual sempre tenta apresentar o seu mundo como o melhor e único possível. Como explicar então a existência de idéias divergentes das idéias da classe dominante?"

Para responder a isso, basta lembrar que o que foi dito há pouco: são as condições materiais que determinam a consciência. Por essa razão,

"A existência de ideias revolucionárias em um determinado tempo já supõe a existência de uma classe revolucionária, sobre cujos pressupostos já dissemos antes o necessário." (Ibid., p. 79)

Para finalizar, vamos resumir esses dois conceitos citando Abbagnano (2007):

"Marx de fato (cf. Sagrada família, 1845; Miséria da filosofia, 1847) afirmara que as crenças religiosas, filosóficas, políticas e morais dependem das relações de produção e de trabalho, na forma como essas se constituem em cada fase da história econômica. Essa era a tese que posteriormente foi denominada materialismo histórico. Hoje, por Ideologia, entende-se o conjunto dessas crenças, porquanto só têm a validade de expressar certa fase das relações econômicas e, portanto, de servir à defesa dos interesses que prevalecem em cada fase dessa relação."

Algumas poucas citações nunca poderão esclarecer um assunto ao qual um livro inteiro foi dedicado por seus autores. Espero que os trechos acima sirvam como incentivo a se beber direto na fonte.


REFERÊNCIAS:

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

MARX, Karl, ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. Tradução de Frank Müller. 3ª ed. São Paulo: Martin Claret, 2005.

Ideologia e o capitalismo como fim da história

Posted: 18.8.09 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Apesar de a história nos ensinar que o mundo está em constante transformação, há um sentimento comum, em determinados estratos sociais, de que as coisas ou sempre foram assim ou para sempre permanecerão como estão. Talvez com uma variação aqui ou outra acolá, mas sempre assim. Não é que essas pessoas, no entanto, ignorem o básico da história. As raízes de sua crença no imobilismo das formas sociais são outras.  

O indivíduo de hoje se assemelha àquele do período romano. Se olharmos para a História da Filosofia, veremos que na época da Roma Imperial a Filosofia Política praticamente desapareceu, enquanto que os filósofos voltavam suas reflexões principalmente para a Filosofia Moral. Isso é, o que deveria ser mudado era o indivíduo, não o mundo. Havia uma sensação de impotência diante do império da mesma forma que muitas pessoas experimentam hoje. Basta darmos uma olhada nas prateleiras de livros mais vendidos para saber o que mais interesa ao homem médio: livros para mudar a si mesmo e alcançar sucesso individual.

E mesmo sabendo que impérios como o romano se desintegram, tem gente que ainda não consegue se livrar da sensação de que o mundo sempre será como está. Daí a afirmação precedente de que o problema não é saber olhar para a história e ver que tudo passa. A questão é essa sensação, esse sentimento de imobilização diante do mundo.

Se analisarmos atentamente a história, veremos que antes que elementos revolucionários surjam e questionem o status quo de determinado momento histórico, o mundo vigente até então parece sempre o melhor e o mais natural dos mundos.

Vamos ilustrar isso com um exemplo. A escravidão era vigente no Brasil até pouco mais de 150 anos atrás. Sua abolição é historicamente muito recente, e essa instituição se perpetuou por milênios na humanidade.

Para o homem de hoje pode ser absurdo imaginar uma cena em que um punhado de homens brancos armados fosse de navio a outro continente arrancar outros homens livres, à força, de sua terra natal para serem escravizados longe de suas casas. Parece absurdo para nós, mas havia uma justificação para isso. Sempre houve uma justificação. E esse tipo de justificação do status quo, do mundo como ele é, se chama "ideologia".

A ideologia é a forma com que as classes dominantes justificam o sistema vigente e o apresentam como o melhor e o mais natural dos mundos. E da mesma forma que sempre houve justificativas para a escravidão, há hoje justificativas para o modo de produção capitalista.

Os burgueses nos pedem para olhar para o reino animal e ver como é natural a concorrência, como um animal engole o outro, como os mais aptos sobrevivem e os mais fracos são exterminados. Isso é um exemplo de ideologia. Isso é justificativa do status quo, do mundo como ele é.

Karl Marx afirmou que são as relações materiais e concretas da vida material que determinam a forma de pensar de uma determinada sociedade. As idéias dominantes de uma época são sempre as idéias da classe dominante daquela época.

Se a verdade é imutável, e se a escravidão algum dia foi devidamente justificada, ela ainda o seria hoje. Isso mostra que aquilo que sustentou a escravidão e que sustenta o capitalismo não são verdades "eternas". Os argumentos só servem para tentar justificar a forma como o mundo já está organizado.

Se demos apenas o exemplo da instituição da escravidão, o leitor poderá varrer a história para ver por si só que sempre foi assim. O feudalismo, na Idade Média, é um outro exemplo, o qual tinha na Igreja sua principal âncora ideológica.

A ideologia burguesa diz que o trem da história chegou a uma estação chamada "capitalismo" e que essa é a estação final. Ela quer congelar o devir, o processo histórico. Mas ao contrário do que às vezes pode sugerir este sentimento de impotência e imobilização diante do mundo, não há nada que sinalize que o capitalismo é o último sistema inventado pela humanidade e que nele permaneceremos até a extinção natural do sistema solar. Ou até a queda de um meteoro na Terra. Ou até a explosão de uma bomba atômica. Quando alguém afirma que uma alternativa ao capitalismo é utópica, devemos lhe lembrar que a mais irrealizável de todas as utopias é achar que nada muda.

"Je vous salue, Marie", de Jean-Luc Godard

Posted: 17.8.09 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Vamos imaginar que nos chegasse hoje a notícia de que há uma pequena seita pregando que seu líder nasceu de uma virgem, morreu, ressuscitou e seu corpo realmente não pode ser encontrado. Imaginemos também que ficássemos sabendo disso por acaso, porque a mídia não tem dado a mínima atenção a esse grupo. Iríamos acreditar nessa história?

Parece que quando eventos fantásticos ou miraculosos estão historicamente distantes, eles se tornam mais fáceis de se acreditar. Pensamos que talvez o mundo fosse bem diferente, talvez coisas como uma gravidez sem ato sexual ou a ressurreição dos mortos acontecessem mesmo.

Fui levado a reflexões como essas após assistir ao filme "Je vous salue, Marie", do diretor francês Jean-Luc Godard, em que a história da concepção e do nascimento virginal de Jesus se passam no mundo contemporâneo. O filme sugere uma proposta de uma reflexão sobre uma espiritualidade cristã hoje.

Maria é uma jovem comum, filha de um dono de um posto de gasolina, e José, um jovem taxista com pouca instrução. Depois de dois anos de namoro sem ato sexual, Maria aparece grávida, e José quer saber quem é o pai. Em meio a tudo isso aparece o anjo Gabriel, um homem comum que fuma, anda de táxi e até dá um tapa na cara de José. Um pouco bruto, como todo francês.

Proibido no Brasil na década de 80 por ser considerado ofensivo à fé católica, o filme retrata os dilemas, os fraquejos e as dificuldades de Maria e José como homens comuns, ao mesmo tempo em que conta uma história paralela, de um professor que mantém um caso com uma de suas alunas e que acredita numa teoria de que a vida na Terra foi semeada por extra-terrestres. As duas histórias, sem nenhuma ligação aparente entre si, ilustram a antítese carne e espírito.

O filme traz cenas interessante, como a luta de Maria contra a masturbação e a tentação do jovem casal de resistir à união sexual. Perto do final nasce Jesus, uma criança mimada e que tem um contato "escandalizador" com o corpo de sua mãe numa idade em que já não deveria mais ter essas intimidades. Jesus entra debaixo do vestido da mãe, e fica em pé examinando seu corpo e pedindo explicações do que estava vendo. Ao ver a região pubiana, por exemplo, Maria lhe explica que aquilo é o "ouriço, ou a relva".

José, um pai autoritário mas quase sem respeito para com o filho, é obrigado a se conformar em não ser o verdadeiro pai do menino, que em determinada cena chega a fugir desobedecendo-lhe e dizendo que está indo cuidar das coisas do seu Pai.

Por todo o filme aparecem insistentemente cartões com a mensagem "Naquele tempo", como se a história estivesse acontecendo em um passado distante. Mas a história se passa em nossos dias, sendo talvez esses cartões uma forma com que Godard quis nos mostrar que a história que está sendo contada é atemporal.

É um ótimo filme, profundo, que apesar de mal-compreendido por muitos, coloca importantes questões sobre uma espiritualidade cristã contemporânea. Não uma espiritualidade historicamente distante, ou empoierada em antigos museus e catedrais, mas presente no dia-a-dia dos homens e mulheres comuns. Um escândalo para a igreja.

Você "acredita" em Freud?

Posted: 10.8.09 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Muita gente me pergunta, ao ouvir algumas de minhas posições teóricas, se eu "acredito" nelas. Uma das perguntas que ouço com mais frequência é se eu "acredito" em Freud.

Vamos parar por um minuto e esclarecer uma coisa: Freud não é um concorrente de Jesus Cristo, Krishna ou outro deus. Não se "acredita" em Freud como se fosse algo semelhante a acreditar em espíritos ou em alguma outra coisa sem evidência.

Eu vejo duas razões que possibilitam o surgimento desse tipo de questionamento: a primeira é uma mentalidade estritamente religiosa, acostumada a interpretar o mundo aquém dos limites da religião, da crença, da fé. A segunda é uma consequência do próprio pensamento de Freud, que não é óbvio ou aparente ao homem comum, principalmente por lidar com conteúdos inconscientes, com aquilo que o homem sempre quis esconder de si próprio.

Teorias postuladas por Freud, como o Complexo de Édipo, por exemplo, não são observáveis pelo homem comum sem algum treino, sem alguma prática e, na raiz disso, sem muita leitura. Daí o homem comum achar "absurdas" tais teorias freudianas e pensarem que isso é "objeto de fé", que não se pode aceitar racionalmente ou intelectualmente tais posições.

A ciência trabalha com modelos. Quando falamos sobre o átomo, não nos referimos a algo que sabemos existir. Alguém já viu um átomo? Não, pois ele não é observável. Como sabemos que o átomo existe? Não sabemos. A questão é que o modelo atômico é apenas um modelo utilizado para explicar a realidade física, material, mas que tem, no entanto, se mostrado extremamente eficiente através dos séculos. Mesmo assim, é bem possível que o átomo não seja mais que uma "ficção útil". Essa é uma interessante questão da Filosofia da Ciência.

O que ocorre com as teorias de Freud é algo semelhante. Quando ele postula uma topografia hipotética do aparelho psíquico dividida no inconsciente, no pré-consciente e no consciente, no qual se situam as instâncias psíquicas do id, do ego e do superego, o que ele faz é criar um modelo. A mente humana não é observável. Se abrirmos a cabeça de alguém iremos observar seu cérebro, não sua mente.

Em seu trabalho como médico Freud desenvolveu aos poucos um método de tratamento das neuroses e, juntamente com esse método, foi desenvolvendo um modelo do funcionamento da mente humana, o qual se mostrou muito eficiente não só para curar as neuroses, mas também para explicar sua etiologia, o desenvolvimento humano da infância à fase adulta, a cultura, a religião, a arte, etc.

Mas se o id, o ego e o superego realmente existem nós não sabemos, assim como não temos mais certeza de que o átomo existe. Mas o modelo desenvolvido por Freud explica sem paralelos o funcionamento da mente humana, e suas teorias foram desenvolvidas em plena articulação com a prática clínica, não sendo frutos de mera especulação intelectual. Foi dessa prática que Freud observou, criou modelos, hipóteses e os submeteu à prova para os validar ou corrigir.

Dessa forma, não se "acredita" em Freud. Eu não "acredito" em Freud. A questão é que ele desenvolveu um excelente modelo do funcionamento da mente humana, o qual se mostrou extremamente eficiente no tratamento das neuroses e nas posteriores aplicações da Psicanálise, e o reconhecimento disso não se dá através de um ato de "fé", mas de razão.