Homens de cabelo grande

Posted: 9.11.09 by Glauber Ataide in Marcadores: , ,
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Tive cabelo grande por aproximadamente 10 anos, e quando mais jovem, sempre ouvia a pergunta: "por que seu cabelo é assim, e não igual o de todo mundo?". Esta questão nos leva, de fato, a pensar numa resposta, e gostaria de compartilhar com os amigos do blog algumas reflexões sobre isso.

Mas não pensei na questão sem um método: foi a partir de uma perspectiva psicanalítica que, num primeiro momento, tentei compreender quais razões inconscientes me levavam a gostar de cabelo grande. Procurava uma motivação que não dissesse respeito apenas a mim, mas talvez a todo um grupo de pessoas do qual eu fosse um elemento.

Acabei descobrindo, por exemplo, que o cabelo grande é um símbolo inconsciente tanto para os genitais quanto para a própria concepção de falo.

O interessante é que as primeiras pistas que encontrei sobre os cabelos representando os genitais eu não obtive diretamente da literatura psicanalítica, mas através da interpretação de um sonho que me foi relatado por uma mulher.

Após algumas dificuldades, descobrimos que os cabelos dela, os quais apareciam insistentemente por todo o sonho e com características de ter passado por um rigoroso processo de repressão, eram um símbolo de seus genitais. Seu sonho era basicamente um sonho de exibicionismo. Posteriormente pude encontrar confirmação desse símbolo na literatura psicanalítica.

Lembrem-se da história de Rapunzel, por exemplo. Para aqueles já familiarizados com a chamada "psicanálise dos contos de fadas", não é difícil perceber que os cabelos de Rapunzel, através dos quais o príncipe consegue subir ao seu quarto, representam um complexo de associações ligados à questão da sexualidade, dentre os quais podemos destacar a maturidade sexual, isso é, o preparo para o coito adquirido na adolescência.

Já na história bíblica de Sansão, vemos o cabelo grande associado a características fálicas, masculinas. Sansão tem força, tem virilidade por causa do seu cabelo. Isso é, o cabelo grande como símbolo de um pênis grande, ou para ser mais exato, de um falo grande. Quando o cabelo de Sansão é cortado, ele perde sua força, sua masculinidade, sua virilidade.

Para determinados homens, manter o cabelo grande pode ser também uma resposta à angústia de castração. Freud afirma em "A interpretação dos sonhos" que o rabo de lagartixa é um símbolo inconsciente para essa situação, já que ele sempre cresce novamente quando é cortado. O cabelo grande, da mesma forma, pode servir a essa função.

A segunda explicação que encontrei para minha preferência por cabelos longos veio de uma perspectiva filosófica: deixar o cabelo crescer é uma expressão de valores. Os filósofos do império romano eram caracterizados pelo cabelo grande, assim como pela barba, a roupa e a bolsa que utilizavam. Encontramos na literatura deste período até mesmo críticas sobre aqueles que achavam que um filósofo se fazia apenas "pelo cabelo".

Devemos observar que ter um cabelo grande não é a mesma coisa que nascer com um nariz grande. Um cabelo grande é expressão da personalidade da pessoa, representa valores. Essa é a razão de eu sempre ter considerado tão ofensivo quando alguém fazia algum comentário depreciativo sobre o meu cabelo.

Dizer a um homem de cabelo grande "por que você não corta esse cabelo?" é um eufemismo para "por que você não deixa de ser do jeito que é?". Isso é um ataque pessoal. Isso é um ataque aos valores e à personalidade do ofendido.

As pessoas tomam convenções sociais como se fossem valores absolutos. O uso masculino de cabelo curto não é nada mais que uma convenção social, uma característica de uma cultura específica.

O cabelo grande, neste aspecto, representa para o homem consciência e crítica dessas convenções sociais. Pode representar também uma vida mais natural, humana, menos plástica e artificial. É uma reação ao processo de massificação.

Convém calçar luvas para ler "Veja"

Posted: 4.11.09 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Este título é uma paráfrase de Nietzsche, que dizia que convém calçar luvas para ler o Novo Testamento. É que após tomar conhecimento de uma "reporcagem" que Veja publicou na época dos 40 anos da morte de Che Guevara, essa frase de Nietzsche surgiu das mais profundas regiões do meu inconsciente. Talvez através da associação dos termos "Veja" e "imundície".

Venho afirmando e assim fazendo eco a vários jornalistas sérios deste país que Veja é um panfleto. Deixou de ser uma revista há muito tempo. Mas desta vez, a credibilidade de Veja é atacada por um jornalista de fora. O renomado jornalista norte-americado John Lee Anderson, autor da mais completa biografia de Che Guevara já escrita, tomou conhecimento da "reporcagem" que Veja publicou sobre Che Guevara, e ele não gostou do que leu. As cartas trocadas entre o renomado jornalista americano e o jovem jornalista de Veja fornecem um bom quadro do que Veja se tornou.

As cartas traduzidas de Anderson, assim como o material através do qual tomei conhecimento do assunto, são de autoria do jornalista Pedro Doria.

A primeira carta de Anderson é a seguinte:

Caro Diogo,

Fiquei intrigado quando você não me procurou após eu responder seu email. Aí me passaram sua reportagem em Veja, que foi a mais parcial análise de uma figura política contemporânea que li em muito tempo. Foi justamente este tipo de reportagem hiper editorializada, ou uma hagiografia ou – como é o seu caso – uma demonização, que me fizeram escrever a biografia de Che. Tentei pôr pele e osso na figura super-mitificada de Che para compreender que tipo de pessoa ele foi. O que você escreveu foi um texto opinativo camuflado de jornalismo imparcial, coisa que evidentemente não é. Jornalismo honesto, pelos meus critérios, envolve fontes variadas e perspectivas múltiplas, uma tentativa de compreender a pessoa sobre quem se escreve no contexto em que viveu com o objetivo de educar seus leitores com ao menos um esforço de objetividade. O que você fez com Che é o equivalente a escrever sobre George W. Bush utilizando apenas o que lhe disseram Hugo Chávez e Mahmoud Ahmadinejad para sustentar seu ponto de vista. No fim das contas, estou feliz que você não tenha me entrevistado. Eu teria falado em boa fé imaginando, equivocadamente, que você se tratava de um jornalista sério, um companheiro de profissão honesto. Ao presumir isto, eu estaria errado. Esteja à vontade para publicar esta carta em Veja, se for seu desejo.

Cordialmente,
Jon Lee Anderson.

A fraca resposta de Diogo foi a seguinte:

Caro Anderson,

Eu fiquei me perguntando, depois de lhe enviar um email pedindo (educadamente) uma entrevista, por que nunca recebi uma resposta sua. Agora sei que a mensagem deve ter-se perdido devido a algum programa antispam ou por qualquer outra questão tecnológica. Também não recebi sua ‘carta’ – talvez pelo mesmo problema. Tudo isso não tem a menor importância agora porque você resolveu o assunto valendo-se dos meios mais baixos – um email circular. O que lhe fez pensar que tinha o direito de tornar pública nossa correspondência, incluindo a mensagem em que eu (educadamente) pedia uma entrevista? Isso, caro Anderson, é antiético. Vindo de alguém que se diz um jornalista, é surpreendente. Você pode não gostar da reportagem que escrevi; ela pode ser boa ou ruim, bem-escrita ou não, editorializada ou não – mas não foi feita com os métodos antiéticos que você usa. Eu respeito a relação entre jornalistas e fontes. Você não. E mais: parece-me agora que você é daquele tipo de jornalista que tem medo de fazer uma ligação telefônica (assim são os maus jornalistas), já que tem meu cartão de visita e conhece meu número de telefone. Se você tinha algo a dizer sobre a reportagem — e já que sua mensagem não estava chegando a seu destino — poderia ter me ligado.
Eu não sei que tipo de imagem de si mesmo você quer criar (ou proteger) negando os fatos que o seu próprio livro mostra, mas está claro agora que é a de alguém sem ética. Você pode ficar certo de que não aparecerá mais nas páginas desta revista.

Sem mais,
Diogo Schelp

A tréplica demolidora de Anderson é como se segue:

Prezado Diogo Schelp:

Agradeço pelo sua ‘gentil’ resposta. (Soube que você é de fato uma pessoa muito ‘gentileza’; você mesmo o disse duas vezes em suas mensagens.) Só agora percebo, o mal-entendido entre nós nasceu exclusivamente por conta de meu caráter profundamente falho. Eu jamais deveria ter presumido que você recebera meu email inicial em resposta ao seu ou minha segunda mensagem a respeito de sua reportagem, muito menos deveria ter considerado que você pudesse ter decidido ignorá-los. É evidente que você tem um sistema de bloqueio de spams muito rigoroso.

Uma dica técnica: talvez devesse configurar seus sistema como ‘moderado’ e não ‘extremo’. Se o fizer, talvez comece a receber seus emails sem quaisquer problemas. Lembre-se, Diogo: moderado, não ‘extremo’. Esta é a chave.

Você me acusa de ser antiético, um ‘mau jornalista’. Questiona até se posso ser chamado de jornalista. Nossa, você TEM raiva, não tem?

Enquanto tento parar as gargalhadas, me permita dizer que, vindo de você, é elogio. Permita, também, recapitular por um momento a metodologia utilizada por você para distorcer as informações que o público de Veja recebeu:

Você publicou na capa e na reportagem uma grande quantidade de fotografias de Che, aproveitando-se assim da popularidade da imagem de Guevara para vender mais cópias de sua revista. Para preencher seu texto, você pinçou uma certa quantidade de referências previamente escritas sobre ele – incluindo a minha – para sustentar sua tese particular, qual seja, a de que o heroismo de Che não passa de uma construção marxista, como sugere seu título: ‘Che, a farsa do herói’.

Para chegar a uma conclusão assim arrasa-quarteirão, você também entrevistou, pelas minhas contas, sete pessoas. Uma delas era um antigo oponente de Che dos tempos da Bolívia. As outra seis, exilados cubanos anti-castristas, incluindo ex-prisioneiros políticos e veteranos de várias campanhas paramilitares para derrubar Fidel. (Um destes, o professor Jaime Suchlicki, você não informou a seus leitores, é pago pelo governo dos EUA para dirigir o assim chamado Projeto de Transição Cubana.) Percebi também que você prestou particular atenção no testemunho de Felix Rodriguez, ex-agente da CIA responsável pela operação que culminou na execução de Che. O fato de que você o destaca quer dizer que você o considera sua melhor testemunha? Ou terá sido porque ele foi o único que algum repórter realmente entrevistou pessoalmente? Os outros, parece, Veja só falou com eles por telefone. Mas como são rigorosos os critérios de reportagem de Veja!

Como disse em minha ‘carta aberta’ a você, escrever uma reportagem deste tipo usando este tipo de fonte é o equivlente a escrever um perfil de George W. Bush citando Mahmoud Ahmadinejad e Hugo Chávez. Em outras palavras, não é algo que deva ser levado a sério. É um exercício curioso, dá para fazer piada, mas NÃO é jornalismo. Dizer a seus leitores, como você diz na abertura da reportagem, que ‘Veja conversou com historiadores, biógrafos, ex-companheiros de Che no governo cubano’ passa a impressão de que você de fato fez o dever de casa, que estava oferecendo aos leitores um trabalho jornalístico bem apurado, que apresentaria algo novo. Infelizmente, a maior parte do que você escreveu é mera propaganda, um requentado de coisas que vêm sendo ditas e reditas, sem muitas provas, pela turma de oposição a Fidel em Miami nos últimos quarenta e tantos anos.

Minha questão não é política. Escrevi um livro, como você mesmo disse, que é ‘a mais completa biografia’ de Che. Há muito lá que pode ser utilizado para criticar Che, mas também há muitos aspectos a respeito de sua vida e personalidade que muitos consideram admiráveis. Em outras palavras, é um retrato por inteiro. Como sempre disse, escrevi a biografia para servir de antídoto aos inúmeros exercícios de propaganda que soterraram o verdadeiro Che numa pilha de hagiografias e demonizaçoes, caso de seu texto.

Não cometa o erro de me acusar de defender Che porque critico você. Serei claro: a questão aqui não é Che, é a qualidade do seu jornalismo. Sua reportagem, no fim das contas, é simplesmente ruim e me choca vê-la nas páginas de uma revista louvável como Veja. Seus leitores merecem mais do que isso e, se aparecerei ou não novamente nas páginas da revista enquanto você estiver por aí, não me preocupa. O que PREOCUPA é que, com tantos jornalistas brilhantes como há no Brasil, foi a você que Veja escolheu para ser ‘editor de internacional’.

Cordialmente,
Jon Lee Anderson.

Para ver qual a conclusão de Pedro Doria sobre isso, clique aqui.

Dois minutos do ódio

Posted: 23.10.09 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Na obra "1984", de George Orwell, há um estranho "ritual" em que as pessoas são obrigadas a participar diariamente. Ele é chamado de "Dois minutos do ódio", e consiste na exibição, em uma teletela, da imagem e da fala de Emanuel Goldstein, que no livro é o líder exilado da oposição ao governo do Big Brother, juntamente com outros opositores do "Partido" (como é chamado o partido do Big Brother, o Ingsoc).

Durante os "Dois minutos do ódio", as pessoas são levadas a um estado de exaltação histérica, de muita raiva, de ódio, onde proferem insultos e ameaças contra a imagem sendo exibida na teletela. Algumas vezes os telespectadores partem até mesmo para a agressão física contra o aparelho.

Orwell fez com isso uma referência à comum demonização dos inimigos que era utilizada durante a II Guerra Mundial através da mídia. Coisa que não precisamos recorrer aos livros de história para saber como era.

A mídia continua atuando da mesmíssima forma para desestabilizar governos e manipular opiniões. A leitura do panfleto Veja e de outros jornalões do PIG (Partido da Imprensa Golspista) não são nada mais que alguns "minutos do ódio".

Esses veículos não procuram informar, mas formar opinião - coisa de panfleto -, mostrando que deixaram de ser jornalismo há muito tempo. Segundo Diego Cruz, no artigo "Os fantasmas da revista Veja", "...a diferença entre um panfleto e um jornal é que, enquanto o panfleto lança algumas poucas ideias a fim de persuadir, o jornal ou uma revista traz informação, parte da apuração dos fatos, análise e dados, ainda que não possa ser imparcial. Veja, por esse critério, é mais um panfleto que uma revista. E, certamente, não tem nada a ver com jornalismo. "



Eis um exemplo. A exposição de "inimigos" fotografados pelos ângulos mais desfavoráveis com a intenção de provocar desprezo, levar os leitores a um frenesi, juntamente com falas distorcidas ou reproduzidas pela metade, omissão de informações e toda sorte de sujeira para defender interesses que são apresentados com um manto de objetividade.

Orwell foi perfeito em sua metáfora. Nos "Dois minutos do ódio", Goldstein aparecia na tela denunciando a ditadura do "Partido", exigindo o imediato acordo de paz com os países inimigos, exigindo liberdade de expressão, liberdade de imprensa, liberdade de reunião, de pensamento, etc.

Mas à medida que ele falava, o ódio dos telespectadores apenas aumentava. As pessoas pulavam em seus assentos, gritando como animais, com todas as suas forças, numa tentativa de calar a voz que vinha da teletela. E o pior é que sabemos que isso não é apenas ficção.

Para que "serve" a Filosofia?

Posted: 21.10.09 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Essa é uma pergunta capciosa. É o tipo de pergunta que devemos examinar bem antes de tentar responder na forma em que vem elaborada.

Imagine que alguém lhe faça a seguinte pergunta: "Por que você matou sua família ontem à noite?" Você não irá tentar responder a essa pergunta se você não matou sua família ontem à noite. Você irá imediatamente questionar a própria pergunta e chamará de louco quem a elaborou.

Isso porque você identificou que a pergunta trazia em si pressupostos claramente identificáveis. Apesar de ser uma "pergunta", ela trazia implícita a afirmação de que ontem à noite você matou sua família.

Este é um exemplo bem exagerado, mas o exagero é um bom recurso didático. Estou exagerando justamente para deixar claro que perguntas (quase) sempre trazem pressupostos implícitos, e que devemos analisar bem uma pergunta antes de elaborar sua resposta.

Se você tentasse responder à pergunta do nosso exemplo acima, você estaria implicitamente admitindo que matou sua família ontem à noite. Mas se isso não aconteceu, você não diria "eu matei minha família ontem à noite porque...", mas sim "você é louco? nem eu e nem ninguém matou minha família, estamos todos vivos, e eu nunca faria isso".

Quando então alguém pergunta "para que serve a Filosofia?", essa pergunta, da mesma maneira, traz implícitos alguns pressupostos que devemos analisar bem antes de tentar responder.

E que pressupostos seriam esses? O mais evidente é o de que a Filosofia tem que servir para alguma coisa. Mas em que sentido? No sentido de que hoje em dia tudo serve para alguma coisa.

Essa é uma pergunta que não podemos desvincular do nosso período histórico, uma era de pragmatismo, de utilitarismo, em que tudo deve ser "prático". Daí as pessoas pensarem sempre nesses termos e tentarem encontrar "aplicação prática" para qualquer coisa que existe.

A essa pergunta, então, podemos responder com uma outra: "A Filosofia tem que servir para alguma coisa?" Eu não estou querendo dizer com isso que a Filosofia não tem "utilidade", mas estou fazendo um chamamento à reflexão.

Há muitas coisas que as pessoas fazem hoje e sobre as quais não questionam sua utilidade. Um exemplo é ter filhos. Para que serve ter filhos? Qual a utilidade de se ter filhos?

Outra coisa, que Aristóteles já havia identificado, é a própria felicidade. Ninguém quer a felicidade para alguma coisa, para algum outro propósito. Todos querem a felicidade simplesmente pela felicidade em si. Ainda não encontrei alguém que me perguntasse para que serve ser feliz.

Ainda em Aristóteles, lembremos que este pensador dividiu o conhecimento em três categorias, a saber: o conhecimento produtivo, o conhecimento prático e o conhecimento filosófico. O produtivo diz respeito a coisas como o conhecimento de um artesão, de um artista, de um médico, de um programador, de um pedreiro, etc. O conhecimento prático diz respeito à ética é à política (eles não "produzem" nada materialmente, mas são práticos, notem bem a distinção), e o terceiro é o conhecimento filosófico, o conhecimento sobre a realidade.

Para o estagirita, este terceiro conhecimento é pura e simplesmente "o conhecimento pelo conhecimento". É um conhecimento que tem como objetivo o próprio conhecimento, e nada mais.

Mas podemos ir um pouco além desta definição de Aristóteles e terminar este texto citando o último parágrafo do capítulo I do livro "Convite à Filosofia", de Marilena Chauí, intitulado "Para que Filosofia?". Após se perguntar qual seria a utilidade da Filosofia, a filósofa responde:

"Se abandonar a ingenuidade e os preconceitos do senso comum for útil; se não se deixar guiar pela submissão às idéias dominantes e aos poderes estabelecidos for útil; se buscar compreender a significação do mundo, da cultura, da história for útil; se conhecer o sentido das criações humanas nas artes, nas ciências e na política for útil; se dar a cada um de nós e à nossa sociedade os meios para serem conscientes de si e de suas ações numa prática que deseja a liberdade e a felicidade para todos for útil, então podemos dizer que a Filosofia é o mais útil de todos os saberes de que os seres humanos são capazes."

Carta Aberta a William Waack

Posted: 20.10.09 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Não utilizamos aqui qualquer pronome ou outro tratamento à sua pessoa, por você mesmo se desqualificar através de seus conhecidos e ingentes esforços como traidor da pátria.

Nós, do MVC — Movimento pela Vergonha na Cara, tivemos o desprazer de acompanhar hoje, 16/10/09, sua declaração ao programa Entre Aspas da Globo News de que a reserva petrolífera do pré-sal não terá relevância alguma ao futuro do país, em razão do desenvolvimento de energias alternativas.

Fosse você um completo desinformado, incapaz de deduzir as milhares de aplicações dos derivados do petróleo, poderíamos compreender a ignorância contida nessa afirmação e procurar esclarecê-lo, fornecendo-lhe informações elementares a respeito do assunto. Mas é evidente que a bobagem proferida não reflete ignorância ou imbecilidade. Muito pior, reflete mórbida falta de caráter que se faz persistente, denotando-lhe como um dos mais esforçados porta-vozes da UGP — União dos Gigolôs da Pátria.

Sabemos que você não é um idiota de graça. Sabemos que ganha para desinformar o povo brasileiro em benefício do maior crime lesa-pátria já intentado em nossa história com a não consumada privatização da Petrobras, quando já se evidenciavam os indícios de uma das maiores bacias terrestres da matéria prima. Sabemos que, como cúmplice daqueles gigolôs, você é um dos que sobrevive através de mentiras desenvolvidas para enganar ao povo brasileiro e incentivar a prostituição do país aos interesses internacionais.

Esta carta para desmascarar suas intenções será distribuída pela internet através da rede de correspondentes que integra o Movimento pela Vergonha na Cara e, certos de que chegará até você através daqueles a quem tenta enganar, esclarecemos que nosso objetivo é erradicar o malefício que você, seus colegas, seus patrões, e os políticos a que vocês apóiam e promovem, representam para o Brasil e o povo brasileiro.

Esteja certo de que voltaremos a apontar suas farsas a cada vez que você usar de espaços públicos de comunicação, sejam concedidos ou assinados, para mentir aos brasileiros se passando por idiota, imbecil ou ignorante.

Sempre que para desqualificar os esforços do maior patrimônio empresarial do povo brasileiro, a Petrobras, você se mentir como incapaz de imaginar que mesmo depois de que todos os biocombustíveis e fontes alternativas de energia substituírem a gasolina ou o diesel, a ampla diversidade de empregos e aplicações do petróleo continuará tornando a exploração do pré-sal um dos mais significativos empreendimentos mundiais; desmascararemos abertamente sua farsa.

Destacaremos que você mesmo entrevistou, com abjeta subserviência, um general do Departamento de Defesa dos Estados Unidos especialmente enviado ao Brasil para negociar a participação daquele país na exploração do pré-sal, como você mesmo anunciou em notável demonstração da canalhice contida em sua personalidade que com tamanha empáfia, hoje, declara nossa reserva do pré-sal como inócua.

Se faz de imbecil, mas tem plena ciência de que se o pré-sal fosse tão insignificante quanto afirmou para sua colega (em caráter inclusive) Monica Waldvogel no Entre Aspas, aquele seu entrevistado não seria enviado pelo governo norte-americano ao Brasil e nem teria se servido, há poucas semanas atrás, de seu servilismo no lamentável noticiário que você apresenta.

Não nos interessa quem lhe paga para ser capacho dos interesses externos e prepotentemente contrário aos interesses do futuro do povo brasileiro, mas nos esforçaremos para tornar pública sua função de gigolô da pátria, alertando a todos que queiram recuperar a dignidade e a vergonha na cara, até que um dia possamos erradicar os farsantes que como você trabalham para corromper o futuro de nossos filhos e do nosso país.

Por enquanto, continuaremos colhendo informações sobre sua longa experiência como sabujo dos interesses do capital estrangeiro, a serem usadas sempre que tornar a expor suas mentiras e enganações de gigolô.

MVC - MOVIMENTO PELA VERGONHA NA CARA

A "natureza humana" para a burguesia

Posted: 19.10.09 by Glauber Ataide in Marcadores: , ,
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O capitalismo é um sistema baseado na exploração e no lucro. A chamada "globalização", que não é mais do que um eufemismo para a fase imperialista deste sistema, polarizou a miséria no mundo inteiro, evitando que os efeitos nefastos deste modo de produção sejam sentidos em toda sua força dentro das fronteiras nacionais dos países mais ricos.

Não obstante, a burguesia, para justificar este mundo no qual ela domina e apresentá-lo como o melhor possível, recorre a toda forma de artifícios ideológicos. Um deles é apelar para a "natureza humana", para mostrar como este sistema é "natural".

Para justificar a competição e a falta de ética nas relações sociais e humanas, ela aponta o reino animal e nos lembra que somos isso: animais. Apenas os mais aptos sobrevivem. Inspirada no darwinismo, ela nos lembra pelo Discovery Channel e pelo Globo Repórter que aquilo que acontece nas savanas - leões caçando zebras e tantos outros animais engolindo outros - é o que acontece no mercado e em nossas relações sociais.

Mas há uma grande contradição nisso tudo. Ao mesmo tempo em que ela apela ao que há de mais baixo, de mais animal na natureza humana para justificar o capitalismo, é justamente o que há de mais nobre no homem que permite que esse sistema se mantenha. É justamente a capacidade de frear as pulsões humanas de destruir, roubar e matar o que permite que a burguesia perpetue o sistema de propriedade privada.

Um estado de completa selvageria social só é evitado porque o homem é um animal superior, é o único ser capaz de dizer "não" aos seus impulsos, segundo o filósofo Max Scheler em sua obra "A posição do homem no cosmos". Scheler nesta obra também recorre a Freud e nos lembra que o homem é o único ser capaz de sublimar suas pulsões, isso é, transformá-las ou canalizá-las para as mais altas construções culturais.

Essa é a posição contraditória da ideologia burguesa: ao mesmo tempo em que a competição, a falta de ética e a eliminação dos "menos aptos" é justificada pelo que há de mais animal no homem, a atual organização social baseada na propriedade privada dos meios de produção só pode ser sustentada apelando para o lado mais nobre e superior do homem, por sua capacidade em obedecer a normas éticas em detrimento de determinações biológicas.

A revolução não será televisionada

Posted: 13.10.09 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Os leitores brasileiros cujas principais fontes de informação são veículos como a Rede Globo, os jornalões "Folha", "O Estado de São Paulo" e o panfleto Veja, só para citar alguns, nutrem em sua maioria uma grande antipatia pelo presidente venezuelano Hugo Chávez.

Mas graças ao surgimento de canais alternativos de informação podemos ter acesso ao "lado B" das notícias que os supracitados veículos publicam. E mais ainda, podemos também complementar as notícias que eles dão pela metade.

Sendo esse "enviesamento" da mídia burguesa um fenômeno geral, não restrito apenas ao Brasil, um grupo de produtores irlandeses, desconfiando que a mídia local venezuelana não estava transmitindo a real situação do país, se deslocou para a Venezuela em 2002, a fim de compreender o que estava acontecendo ali. A intenção era fazer um documentário sobre o presidente Chávez.

Mas percebendo a agitação política do momento, os cineastas Kim Bartley e Donnacha O'Briain mudaram o foco e acabaram registrando o golpe de Estado da burguesia local que depôs naquele ano o presidente democraticamente eleito, Hugo Chávez.

O resultado deste trabalho é o documentário chamado "A revolução não será televisionada", que mostra os bastidores do golpe antes, durante e depois. A obra recebeu doze importantes prêmios internacionais e foi nomeada para outros quatro.

Aproveitando o ensejo, indico também um outro documentário que mostra como há um despertar de consciência de classe entre o povo venezuelano, jogando por terra o engodo imperialista de que existe uma ditadura na Venezuela: é o documentário "No volverán! - The Venezuelan Revolution Now", filmado por um grupo de estrangeiros que visitou os bairros pobres do país, entrevistando trabalhadores em suas fábricas e acompanhando de perto o que a mídia burguesa se recusa a mostrar.

Sites oficiais:


Quando pobres defendem interesses de ricos

Posted: 1.10.09 by Glauber Ataide in Marcadores: , ,
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Quando vemos pobres defendendo interesses de ricos, identificamos aí a atuação do que Marx chama de ideologia. A burguesia, para manter o mundo em que domina da forma como está, apresenta os seus próprios interesses como sendo interesses gerais, de toda a sociedade. E muita gente pobre, mas principalmente a classe média, não sofrendo com a miséria e aspirando ao modo de vida burguês, compra esse discurso e o repete na forma de uma sabedoria de papagaio. Marx e Engels expressam o primeiro ponto da seguinte forma:

"... cada nova classe que ocupa o lugar da que dominava anteriormente vê-se obrigada, para atingir seus fins, a apresentar seus interesses como sendo o interesse comum de todos os membros da sociedade; ou seja, para expressar isso em termos ideais; é obrigada a dar às suas idéias a forma de universalidade, a apresentá-las como as únicas racionais e universalmente legítimas." (MARX, ENGELS, 2005, p. 53)

Mas como não poderia deixar de ser, essa superficialidade da sabedoria de papagaio nunca resiste a alguns pedidos de explicação.

Cito um exemplo. Alguns desses papagaios, quando questionados sobre alguns problemas sociais graves, tais como a fome e a dificuldade que milhões de pais trabalhadores enfrentam para colocar comida na mesa para os filhos, respondem da seguinte forma: "Se não podem ter filhos, que não tenham. Eles deveriam fazer planejamento familiar."

Vejam que incrível! Ao invés de apontar as causas do problema social da desigualdade, dos baixos salários, etc, o problema é transferido para o trabalhador que não faz "planejamento familiar". Para o burguês e seus lacaios, essa lógica é muito simples: se você não tem dinheiro para ter filhos, não os tenha.

E querem falar de "planejamento familiar" para pessoas que, muitas das vezes, não sabem nem ler. Indivíduos que não podem pensar no futuro porque estão ocupados demais pensando no que vão comer na próxima refeição.

Se o problema é "pessoas com fome", a burguesia vê duas soluções: ou você elimina a fome, ou elimina as pessoas...

Um outro exemplo de brilhantismo ao analisar problemas sociais é a forma como o panfleto Veja, instrumento burguês, demoniza setores excluídos e movimentos sociais. Há algum tempo ela veiculou uma matéria fascista sobre moradores de ruas ("Profissionais da esmola", edição 2.126), os quais, em resposta, organizaram uma manifestação e queimaram exemplares do panfleto na Praça da Sé, no centro de São Paulo. Em uma "reporcagem" mais recente ("Por dentro do cofre do MST", edição 2128), novamente ela deu chifres, rabo e tridente a um movimento social: o MST.

Para a classe dominante e seus veículos de propaganda ideológica, simplesmente evita-se pensar em problemas como dos exemplos anteriores como sendo oriundos de uma complexa teia de relações causais que afluem de todos os lados para sua formação.

Pelo fato de a burguesia apresentar o mundo em que domina como o melhor dos mundos, a classe média, aspirante a esse estrato social superior, não vê nada de errado na forma como a sociedade está organizada. Se crianças passam fome, não têm comida na mesa ou no futuro se tornarão marginais, a solução é simples: elas não deveriam nunca ter existido. A culpa é dos pais que as colocaram no mundo. Se trabalhadores pedem terra para cultivar enquanto latifundiários mantêm enormes propriedades improdutivas, o problema deve ser de quem?


REFERÊNCIAS:

MARX, Karl, ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. Tradução de Frank Müller. 3ª ed. São Paulo: Martin Claret, 2005.

A educação transformada em mercadoria

Posted: 25.9.09 by Glauber Ataide in Marcadores:
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A exemplo do mito grego do rei Midas, que transformava em ouro tudo o que tocava, o capitalismo transforma em mercadoria tudo aquilo em que põe as mãos. Grandes barões da educação vêm sucateando a educação no Brasil, sendo grupos como Anhanguera, Anima e Kroton alguns dos principais protagonistas da mercantilização da educação em terras tupiniquins.

Com capital aberto na bolsa de valores, esses grandes grupos do "negócio" da educação, comprometidos com os acionistas, vêm implantando medidas que visam maximizar os lucros, deixando a qualidade de ensino em segundo plano, apenas como um meio necessário para se garantir os ganhos.

É isso o que confirma à revista Veja a vice-presidente do Grupo Kroton, Alicia Figueiró, grupo que possui capital aberto na bolsa: “Outro fato que pode impulsionar a melhora do ensino diz respeito à simples lógica do mercado: faculdades muito ruins espantam os investidores e, por isso, aquelas que vão à bolsa têm de se preocupar mais com o lado acadêmico.” (Veja, Edição 2067, 2 de Julho de 2008).

Isso é, a qualidade da educação é considerada não como um fim em si mesma, ou como um meio para buscar o desenvolvimento soberano do país, mas sim como um meio para se alcançar o “bem supremo” do capital: o lucro.

Nessa mesma reportagem, Veja ainda revela: o Grupo Anhanguera “recebe investidores estrangeiros interessados em comprar suas ações”. Mas não é novidade para ninguém que investidores estrangeiros não têm o menor compromisso com a qualidade da educação em países de terceiro mundo. Isso só acontece, é claro, quando ela tem relação direta com seus investimentos.

Essas instituições, que pouco ou nada investem em projetos de pesquisa, empurram em seus discentes uma formação puramente tecnicista, da qual podemos dizer o mesmo que Marx dizia sobre a cultura burguesa em relação ao proletariado: não passam de "um adestramento para os homens agirem como máquinas". Se queremos que o Brasil se torne um país forte, exportador de tecnologia e que seu povo tenha consciência de classe, estamos no caminho errado.

Mensagem de aniversário

Posted: 21.9.09 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Muito mais do que apenas uma formalidade. É assim que considero cada data de aniversário. É sempre uma data para se rever o próprio projeto de vida. Analisar as potencialidades e acompanhar o andamento do que havíamos planejado.

Os animais já nascem prontos. Já nascem contendo em seu código genético tudo aquilo que poderão ser. Um joão-de-barro constrói ninhos da mesma forma que todos os seus antepassados. Eles não acumulam e transmitem conhecimentos de geração a geração como o homem. Este, ao contrário, é um ser por se fazer. Ele não nasce pronto.

O aniversário, como recordação do dia em que chegamos a este mundo, deve também servir para nos lembrar que seria muito mais fácil para nós não existir do que estarmos vivos aqui.

Em categorias aristotélicas, dizemos que se hoje existimos, isso quer dizer que existimos em ato. Mas antes disso existíamos em potência. Passamos então da potência ao ato.

Mas quantas pessoas existem hoje apenas em potência, mas nunca chegarão a existir em ato! Dizendo de outra maneira, quantas pessoas poderiam existir, mas não existem, e nunca existirão! E pensar que somos justamente nós que existimos...

Assim, todo "feliz aniversário" que se ouve deve ser, no fundo, um reconhecimento de que a existência do aniversariante neste mundo é querida, desejada e reconhecida.

E toda omissão desse tipo de felicitação é afirmação tácita de que sua existência é indiferente. De que se ele nunca tivesse passado da potência ao ato, o mundo seria pouco diferente do que é.

E é com discursos desse tipo que eu gosto de congratular os aniversariantes. Com essa chamada à reflexão, a se tornarem melhores, a se construirem, a se fazerem a si próprios a cada dia. A pensar que as probabilidades de não existirmos sempre foram esmagadoramente maiores do que a de existirmos.