Comportamento no trânsito: psicanalisando e filosofando um pouco - Parte II
Posted: 18.12.09 by Glauber Ataide in Marcadores: Filosofia, Psicanálise, Sociedade
"Die Philosophen haben die Welt nur verschieden interpretiert; es kommt aber darauf an, sie zu verändern." (Karl Marx)
A psicanálise, apesar de ter surgido apenas como um método de tratamento das neuroses, se configurou posteriormente em uma teoria geral da mente, uma terapia para os problemas anímicos, um instrumento de investigação e uma profissão. Se trata de um complexo fenômeno intelectual, médico e sociológico. (WARD, ZÁRATE, 2002).
Como um teoria da mente humana, ela fornece uma topografia hipotética do aparelho psíquico dividido em três sistemas, a saber: inconsciente, pré-consciente e consciente. Mas como afirma Tallaferro (1996), eles não devem ser concebidos como estruturas rígidas e delimitadas em três planos distintos. Antes, devem ser considerados como forças, como investimentos energéticos que se deslocam de certa forma, que têm um tipo de vibração específico. Dentro desses campos ou “regiões”, encontram-se as três instâncias chamadas id, ego e superego.
O id é a instância psíquica mais arcaica e se encontra totalmente no inconsciente. É onde se localizam as pulsões, e tem conexão íntima com o biológico. (TALLAFERRO, 1996). Segundo Mednicoff (2008), “o id está voltado a satisfazer nossas necessidades básicas desde o começo da vida. A atividade dele consiste em impulsos que buscam o prazer. Ele procura adquirir gratificação imediata e não suporta frustração. É aquele nosso lado instintivo que não mede as consequências dos atos para se satisfazer.”
Já o ego, assim como o superego, é formado a partir do id. Segundo Tallaferro (1996), o ego nada mais é, para Freud, “do que uma parte do id modificado pelo impacto ou a alteração das pulsões internas e dos estímulos externos”. De acordo com Mednicoff (2008), para compreender a formação do ego a partir do id devemos observar a vida dos bebês. Quando estão com fome, sujos ou com alguma necessidade, eles choram e quase que imediatamente seus cuidadores atendem aos seus pedidos. Mas à medida que crescem, percebem que nem sempre podem conseguir tudo o que desejam, e dessa forma precisam se adaptar às exigências e condições impostas pelo meio em que vivem. Isso mostra que enquanto o id é regido pelo chamado “princípio de prazer” (satisfação imediata, sem pensar nas consequências), o ego é regido pelo “princípio de realidade” (o que é possível alcançar em determinada situação, como alcançar, quais as consequências, etc). O ego tem como principal papel, portanto, “coordenar funções e impulsos internos, e fazer com que os mesmos possam expressar-se no mundo exterior sem conflitos.” (TALLAFERRO, 1996).
O superego, por sua vez, começa a se formar à medida que a criança percebe que existem normas, regras e padrões morais que ela ouve tanto dos pais quanto da sociedade. Ela começa a ser ensinada sobre o que é feio, o que é vergonhoso, etc, e acaba incorporando essas crenças à estrutura psíquica, dando forma, assim, ao superego. (MEDNICOFF, 2008). Segundo Tallaferro (1996), ele é aquilo a que normalmente damos o nome de “consciência” ou “voz da consciência”. O superego, da mesma forma que nossos pais faziam, nos observa, guia e ameaça, sendo formado pela introjeção do pai repressor. Ainda de acordo com Tallaferro (1996), seu mecanismo de formação pode ser explicado pelo fato de que, com a incorporação do pai no ego, o filho introjeta a atitude “má” daquele com o intuito de conservar o pai “bom” no mundo exterior. Isso é, o filho abstrai a parte “má” do pai, a introjeta em sua consciência para manter o pai “bom” disponível no mundo real. Assim ele escapa do perigo do pai “mau” e obtém, ao mesmo tempo, a proteção representada pela imagem paterna “boa”. O superego é o responsável por nos infligir aquilo que denominamos “remorso” ou “peso na consciência”. É por essa razão que verificamos que pessoas que tiveram pais muito rígidos também são muito rígidas consigo próprias, mesmo que não percebam isso.
Essas instâncias psíquicas (id, ego e superego) não ficam, cada uma, localizadas especificamente dentro ou do inconsciente, ou do pré-consciente ou do consciente. O ego, por exemplo, se localiza dentro dessas três regiões, assim como o superego. São campos de limites imprecisos, dentro dos quais essas instâncias adquirem caracterísicas próprias desse nível da atividade psíquica. (TALLAFERRO, 1996). E é dentro desse aparato, dessa topografia hipotética do aparelho psíquico, que se dá lugar toda a dinâmica do psiquismo.
REFERÊNCIAS:
MEDNICOFF, Elizabeth. Dossiê Freud. São Paulo: Universo dos Livros, 2008.
TALLAFERRO, Alberto. Curso básico de Psicanálise. 2 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
WARD, Ivan; ZÁRATE, Oscar. Psicoanálisis para principiantes. Buenos Aires: Era Naciente SRL, 2002.
Caro Diogo,Fiquei intrigado quando você não me procurou após eu responder seu email. Aí me passaram sua reportagem em Veja, que foi a mais parcial análise de uma figura política contemporânea que li em muito tempo. Foi justamente este tipo de reportagem hiper editorializada, ou uma hagiografia ou – como é o seu caso – uma demonização, que me fizeram escrever a biografia de Che. Tentei pôr pele e osso na figura super-mitificada de Che para compreender que tipo de pessoa ele foi. O que você escreveu foi um texto opinativo camuflado de jornalismo imparcial, coisa que evidentemente não é. Jornalismo honesto, pelos meus critérios, envolve fontes variadas e perspectivas múltiplas, uma tentativa de compreender a pessoa sobre quem se escreve no contexto em que viveu com o objetivo de educar seus leitores com ao menos um esforço de objetividade. O que você fez com Che é o equivalente a escrever sobre George W. Bush utilizando apenas o que lhe disseram Hugo Chávez e Mahmoud Ahmadinejad para sustentar seu ponto de vista. No fim das contas, estou feliz que você não tenha me entrevistado. Eu teria falado em boa fé imaginando, equivocadamente, que você se tratava de um jornalista sério, um companheiro de profissão honesto. Ao presumir isto, eu estaria errado. Esteja à vontade para publicar esta carta em Veja, se for seu desejo.Cordialmente,Jon Lee Anderson.
Caro Anderson,Eu fiquei me perguntando, depois de lhe enviar um email pedindo (educadamente) uma entrevista, por que nunca recebi uma resposta sua. Agora sei que a mensagem deve ter-se perdido devido a algum programa antispam ou por qualquer outra questão tecnológica. Também não recebi sua ‘carta’ – talvez pelo mesmo problema. Tudo isso não tem a menor importância agora porque você resolveu o assunto valendo-se dos meios mais baixos – um email circular. O que lhe fez pensar que tinha o direito de tornar pública nossa correspondência, incluindo a mensagem em que eu (educadamente) pedia uma entrevista? Isso, caro Anderson, é antiético. Vindo de alguém que se diz um jornalista, é surpreendente. Você pode não gostar da reportagem que escrevi; ela pode ser boa ou ruim, bem-escrita ou não, editorializada ou não – mas não foi feita com os métodos antiéticos que você usa. Eu respeito a relação entre jornalistas e fontes. Você não. E mais: parece-me agora que você é daquele tipo de jornalista que tem medo de fazer uma ligação telefônica (assim são os maus jornalistas), já que tem meu cartão de visita e conhece meu número de telefone. Se você tinha algo a dizer sobre a reportagem — e já que sua mensagem não estava chegando a seu destino — poderia ter me ligado.Eu não sei que tipo de imagem de si mesmo você quer criar (ou proteger) negando os fatos que o seu próprio livro mostra, mas está claro agora que é a de alguém sem ética. Você pode ficar certo de que não aparecerá mais nas páginas desta revista.Sem mais,Diogo Schelp
Prezado Diogo Schelp:Agradeço pelo sua ‘gentil’ resposta. (Soube que você é de fato uma pessoa muito ‘gentileza’; você mesmo o disse duas vezes em suas mensagens.) Só agora percebo, o mal-entendido entre nós nasceu exclusivamente por conta de meu caráter profundamente falho. Eu jamais deveria ter presumido que você recebera meu email inicial em resposta ao seu ou minha segunda mensagem a respeito de sua reportagem, muito menos deveria ter considerado que você pudesse ter decidido ignorá-los. É evidente que você tem um sistema de bloqueio de spams muito rigoroso.Uma dica técnica: talvez devesse configurar seus sistema como ‘moderado’ e não ‘extremo’. Se o fizer, talvez comece a receber seus emails sem quaisquer problemas. Lembre-se, Diogo: moderado, não ‘extremo’. Esta é a chave.Você me acusa de ser antiético, um ‘mau jornalista’. Questiona até se posso ser chamado de jornalista. Nossa, você TEM raiva, não tem?Enquanto tento parar as gargalhadas, me permita dizer que, vindo de você, é elogio. Permita, também, recapitular por um momento a metodologia utilizada por você para distorcer as informações que o público de Veja recebeu:Você publicou na capa e na reportagem uma grande quantidade de fotografias de Che, aproveitando-se assim da popularidade da imagem de Guevara para vender mais cópias de sua revista. Para preencher seu texto, você pinçou uma certa quantidade de referências previamente escritas sobre ele – incluindo a minha – para sustentar sua tese particular, qual seja, a de que o heroismo de Che não passa de uma construção marxista, como sugere seu título: ‘Che, a farsa do herói’.Para chegar a uma conclusão assim arrasa-quarteirão, você também entrevistou, pelas minhas contas, sete pessoas. Uma delas era um antigo oponente de Che dos tempos da Bolívia. As outra seis, exilados cubanos anti-castristas, incluindo ex-prisioneiros políticos e veteranos de várias campanhas paramilitares para derrubar Fidel. (Um destes, o professor Jaime Suchlicki, você não informou a seus leitores, é pago pelo governo dos EUA para dirigir o assim chamado Projeto de Transição Cubana.) Percebi também que você prestou particular atenção no testemunho de Felix Rodriguez, ex-agente da CIA responsável pela operação que culminou na execução de Che. O fato de que você o destaca quer dizer que você o considera sua melhor testemunha? Ou terá sido porque ele foi o único que algum repórter realmente entrevistou pessoalmente? Os outros, parece, Veja só falou com eles por telefone. Mas como são rigorosos os critérios de reportagem de Veja!Como disse em minha ‘carta aberta’ a você, escrever uma reportagem deste tipo usando este tipo de fonte é o equivlente a escrever um perfil de George W. Bush citando Mahmoud Ahmadinejad e Hugo Chávez. Em outras palavras, não é algo que deva ser levado a sério. É um exercício curioso, dá para fazer piada, mas NÃO é jornalismo. Dizer a seus leitores, como você diz na abertura da reportagem, que ‘Veja conversou com historiadores, biógrafos, ex-companheiros de Che no governo cubano’ passa a impressão de que você de fato fez o dever de casa, que estava oferecendo aos leitores um trabalho jornalístico bem apurado, que apresentaria algo novo. Infelizmente, a maior parte do que você escreveu é mera propaganda, um requentado de coisas que vêm sendo ditas e reditas, sem muitas provas, pela turma de oposição a Fidel em Miami nos últimos quarenta e tantos anos.Minha questão não é política. Escrevi um livro, como você mesmo disse, que é ‘a mais completa biografia’ de Che. Há muito lá que pode ser utilizado para criticar Che, mas também há muitos aspectos a respeito de sua vida e personalidade que muitos consideram admiráveis. Em outras palavras, é um retrato por inteiro. Como sempre disse, escrevi a biografia para servir de antídoto aos inúmeros exercícios de propaganda que soterraram o verdadeiro Che numa pilha de hagiografias e demonizaçoes, caso de seu texto.Não cometa o erro de me acusar de defender Che porque critico você. Serei claro: a questão aqui não é Che, é a qualidade do seu jornalismo. Sua reportagem, no fim das contas, é simplesmente ruim e me choca vê-la nas páginas de uma revista louvável como Veja. Seus leitores merecem mais do que isso e, se aparecerei ou não novamente nas páginas da revista enquanto você estiver por aí, não me preocupa. O que PREOCUPA é que, com tantos jornalistas brilhantes como há no Brasil, foi a você que Veja escolheu para ser ‘editor de internacional’.Cordialmente,Jon Lee Anderson.
