Comportamento no trânsito: psicanalisando e filosofando um pouco - Parte II

Posted: 18.12.09 by Glauber Ataide in Marcadores: , ,
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No texto anterior ensaiamos que algumas das prováveis causas de uma "baixa" ou de um "enfraquecimento" da atuação do ego e do superego na atividade psíquica do motorista ao volante podem ser as falsas sensações de segurança e de invisibilidade.

No entanto, isso não explica tudo. Percebemos um comportamento agressivo e também inconsequente mesmo quando essas falsas sensações parecem não estar presentes, e me refiro aqui especificamente ao caso dos motoqueiros.

O condutor de uma motocicleta está numa situação completamente oposta à do condutor de um veículo. Ele está completamente exposto a acidentes e não pode ter nenhuma expectativa de privacidade. Mas sua imprudência, todavia, é notável.

Nestes, mais do que naqueles, a predominância do princípio de prazer é ainda mais evidente, dado que uma conduta racional de seu veículo, baseada nas probabilidades de uma fatalidade em caso de acidente resultaria em um comportamento totalmente avesso ao que presenciamos em nossas ruas e avenidas.

O que parece concorrer para este tipo de comportamento é uma outra forma de invisibilidade. O trânsito é formado por uma multidão de anônimos, onde ninguém conhece ninguém. Os motociclistas, devido à sua maior fluidez no tráfego, são as maiores incógnitas deste espetáculo.

Além desse tipo de invisibilidade há um outro ponto que podemos visualizar melhor através de uma representação. Imaginem uma pessoa diante de um cachorro perigoso que está preso e atrás de grades. Essa pessoa grita, bate o pé, bate palmas e irrita o cachorro de toda forma possível. Agora imaginem, diante dessa mesma pessoa, este mesmo cachorro, mas livre e sem as grades. Adivinhem o seu comportamento.

Quando um revide é pouco provável a maioria das pessoas não se comporta da mesma maneira do que quando isso é uma possibilidade. Voltamos aqui então na questão da invisibilidade, na questão do anel de Giges abordado no texto anterior. O anonimato no trânsito é uma forma de invisibilidade, e esse anonimato é ainda mais acentuado para os motoqueiros devido à sua maior capacidade de fluidez entre os veículos.

Essa maior fluidez parece lhes dar a sensação de não ocupar lugar no espaço, daí sua direção agressiva ao trafegar em estreitos becos formados por veículos em movimento e suas lendárias "fechadas", que parecem não levar em conta sua fragilidade e o alto risco de fatalidade em caso de colisão.

Freud afirma que onde hoje pedimos alguém licença para passar, antigamente lhe dávamos um empurrão para que saísse de nossa frente. Este "antigamente" se refere a quando tudo era id, quando não havia ego. O princípio de prazer é demasiado evidente na conduta dos motoristas. Onde eles deveriam esperar, eles querem passar na frente, e quando um revide parece improvável devido ao anonimato ou à própria capacidade de fluidez no trânsito este comportamento encontra menor resistência para expressão.

Comportamento no trânsito: psicanalisando e filosofando um pouco - Parte I

Posted: 16.12.09 by Glauber Ataide in Marcadores: , ,
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Ouvi em um noticiário há pouco tempo uma discussão sobre trânsito. Os apresentadores se questionavam sobre como era possível que pessoas absolutamente "calmas" e "normais" em seu cotidiano se transformassem completamente quando estão ao volante.

Isso me remeteu a um comentário de Freud em seus "Três ensaios sobre a sexualidade", no qual ele diz que as perversões sexuais muitas vezes ocorrem de forma isolada em indivíduos que são "normais" em todas as outras áreas. O comportamento no trânsito, de forma semelhante, nem sempre reflete a personalidade do motorista. Pelo menos não aquela consciente.

Já em um outro jornal, vários dias depois, um conhecido jornalista ensaiou uma interpretação psicanalítica do comportamento agressivo ao volante. Neste seu esboço ele dizia que um indivíduo, talvez por um complexo de inferioridade ou por se sentir "passado pra trás" na vida, no amor ou nos negócios, não permitirá que ninguém o "ultrapasse" no trânsito.

Mas o que eu venho tentando compreender é o que deve acontecer com o ego e o superego quando o indivíduo está dirigindo. Sabemos que as pulsões de agressividade provindas do id a todo momento buscando gratificação são combatidas pelo ego. O id, regido pelo princípio de prazer, não se preocupa com o que possa acontecer caso ele consiga o que quer. É o ego, regido pelo princípio de realidade, que faz essa mediação entre as exigências do id e da realidade externa.

É fato que as pulsões do id encontram menor resistência no indivíduo que está ao volante. Parece haver uma "baixa" da guarda do ego e do superego, pois o comportamento transgressor no trânsito nem sempre é percebido como tal. Isso é um comportamento típico do id, um comportamento regido pela busca imediata de alguma gratificação sem se importar com as consequências.

Fico imaginando se isso talvez não seja causado por uma falsa sensação de segurança proporcionada por se estar no interior de uma caixa de metal, que é o carro. Ou se talvez isso seja devido a uma sensação de "invisibilidade" no trânsito. Pessoas que costumam enfiar o dedo no nariz parecem se sentir particularmente invisíveis ao volante.

A "invisibilidade" e sua correlação com um comportamento ético foi abordada por Platão na famosa passagem do anel de Giges, na obra "A República". Este anel, encontrado por Giges, lhe dava a capacidade de se tornar invisível. Percebendo isso, ele seduziu a mulher de seu rei, atacou-o e matou-o com a sua ajuda. Gláucon então afirma que "se, portanto, houvesse dois anéis como este, o homem justo pusesse um, e o injusto outro, não haveria ninguém, ao que parece, tão inabalável que permanecesse no caminho da justiça...", pois "... ninguém é justo por sua vontade, mas constrangido, por entender que a justiça não é um bem para si, individualmente, uma vez que, quando cada um julga que lhe é possível cometer injustiças, comete-as".

Talvez essas falsas sensações de segurança e invisibilidade estejam entre as causas de um enfraquecimento da atuação do ego e do superego na atividade psíquica do motorista ao volante, o que explica seu comportamento agressivo e transgressor, caracterizado pelo princípio de prazer.

Id, ego e superego – uma topografia hipotética do aparelho psíquico

Posted: 30.11.09 by Glauber Ataide in Marcadores:
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A psicanálise, apesar de ter surgido apenas como um método de tratamento das neuroses, se configurou posteriormente em uma teoria geral da mente, uma terapia para os problemas anímicos, um instrumento de investigação e uma profissão. Se trata de um complexo fenômeno intelectual, médico e sociológico. (WARD, ZÁRATE, 2002).

Como um teoria da mente humana, ela fornece uma topografia hipotética do aparelho psíquico dividido em três sistemas, a saber: inconsciente, pré-consciente e consciente. Mas como afirma Tallaferro (1996), eles não devem ser concebidos como estruturas rígidas e delimitadas em três planos distintos. Antes, devem ser considerados como forças, como investimentos energéticos que se deslocam de certa forma, que têm um tipo de vibração específico. Dentro desses campos ou “regiões”, encontram-se as três instâncias chamadas id, ego e superego.

O id é a instância psíquica mais arcaica e se encontra totalmente no inconsciente. É onde se localizam as pulsões, e tem conexão íntima com o biológico. (TALLAFERRO, 1996). Segundo Mednicoff (2008), “o id está voltado a satisfazer nossas necessidades básicas desde o começo da vida. A atividade dele consiste em impulsos que buscam o prazer. Ele procura adquirir gratificação imediata e não suporta frustração. É aquele nosso lado instintivo que não mede as consequências dos atos para se satisfazer.”

Já o ego, assim como o superego, é formado a partir do id. Segundo Tallaferro (1996), o ego nada mais é, para Freud, “do que uma parte do id modificado pelo impacto ou a alteração das pulsões internas e dos estímulos externos”. De acordo com Mednicoff (2008), para compreender a formação do ego a partir do id devemos observar a vida dos bebês. Quando estão com fome, sujos ou com alguma necessidade, eles choram e quase que imediatamente seus cuidadores atendem aos seus pedidos. Mas à medida que crescem, percebem que nem sempre podem conseguir tudo o que desejam, e dessa forma precisam se adaptar às exigências e condições impostas pelo meio em que vivem. Isso mostra que enquanto o id é regido pelo chamado “princípio de prazer” (satisfação imediata, sem pensar nas consequências), o ego é regido pelo “princípio de realidade” (o que é possível alcançar em determinada situação, como alcançar, quais as consequências, etc). O ego tem como principal papel, portanto, “coordenar funções e impulsos internos, e fazer com que os mesmos possam expressar-se no mundo exterior sem conflitos.” (TALLAFERRO, 1996).

O superego, por sua vez, começa a se formar à medida que a criança percebe que existem normas, regras e padrões morais que ela ouve tanto dos pais quanto da sociedade. Ela começa a ser ensinada sobre o que é feio, o que é vergonhoso, etc, e acaba incorporando essas crenças à estrutura psíquica, dando forma, assim, ao superego. (MEDNICOFF, 2008). Segundo Tallaferro (1996), ele é aquilo a que normalmente damos o nome de “consciência” ou “voz da consciência”. O superego, da mesma forma que nossos pais faziam, nos observa, guia e ameaça, sendo formado pela introjeção do pai repressor. Ainda de acordo com Tallaferro (1996), seu mecanismo de formação pode ser explicado pelo fato de que, com a incorporação do pai no ego, o filho introjeta a atitude “má” daquele com o intuito de conservar o pai “bom” no mundo exterior. Isso é, o filho abstrai a parte “má” do pai, a introjeta em sua consciência para manter o pai “bom” disponível no mundo real. Assim ele escapa do perigo do pai “mau” e obtém, ao mesmo tempo, a proteção representada pela imagem paterna “boa”. O superego é o responsável por nos infligir aquilo que denominamos “remorso” ou “peso na consciência”. É por essa razão que verificamos que pessoas que tiveram pais muito rígidos também são muito rígidas consigo próprias, mesmo que não percebam isso.

Essas instâncias psíquicas (id, ego e superego) não ficam, cada uma, localizadas especificamente dentro ou do inconsciente, ou do pré-consciente ou do consciente. O ego, por exemplo, se localiza dentro dessas três regiões, assim como o superego. São campos de limites imprecisos, dentro dos quais essas instâncias adquirem caracterísicas próprias desse nível da atividade psíquica. (TALLAFERRO, 1996). E é dentro desse aparato, dessa topografia hipotética do aparelho psíquico, que se dá lugar toda a dinâmica do psiquismo.


REFERÊNCIAS:

MEDNICOFF, Elizabeth. Dossiê Freud. São Paulo: Universo dos Livros, 2008.

TALLAFERRO, Alberto. Curso básico de Psicanálise. 2 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

WARD, Ivan; ZÁRATE, Oscar. Psicoanálisis para principiantes. Buenos Aires: Era Naciente SRL, 2002.

Complexo de vira-lata

Posted: 27.11.09 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Parece ser uma necessidade psicológica da direita brasileira, classe histérica e raivosa, perpetuar o que Nelson Rodrigues identificava no povo brasileiro como "complexo de vira-lata".

Nelson definia esse complexo como "a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo". Em nossa história recente tivemos várias campanhas publicitárias, a exemplo do slogan "sou brasileiro e não desisto nunca", para aumentar a nossa auto-estima.

Mas perpetuar esse complexo não é apenas uma necessidade psicológica da direita. Não permitir que o brasileiro o supere também faz parte do projeto da burguesia nacional para o país.

Qual é esse projeto? O projeto é justamente não ter projeto. É deixar que alguém "com mais capacidade" cuide disso. É vender o Brasil inteiro para que cuide dele "quem tem competência". Ela precisa convencer o resto do país de que somos todos um bando de incapazes, assim como eles, e que se não deixarmos que os estrangeiros tomem conta do que é nosso, estaremos todos perdidos. É a mesma mentalidade de povo colonizado de sempre. Mentalidade de povo escravo, submisso, subjugado.

A direita não tem um rumo a apontar para o país. Por essa razão, ao reconhecer sua incapacidade de governar um Brasil soberano, ela tenta projetar sua própria inferioridade ao resto da nação.

Renato Russo resumiu bem nos últmos versos da letra de "Que país é esse?" qual o projeto da direita para o Brasil:

"Mas o Brasil vai ficar rico
Pois vamos faturar um milhão
Quando vendermos todas as almas
Dos nossos índios num leilão"

Ou seja, para a burguesia brasileira, o caminho para a prosperidade da nação é se abrir para o capital estrangeiro, vender tudo o que ela tem, todas as suas riquezas naturais, tudo o que lhe é mais sagrado, expresso metaforicamente pelo leilão das almas dos nossos índios.

O povo brasileiro vem aos poucos superando seu complexo de vira-lata, mas não a direita. Ainda podemos ouvir os ecos dos gritos e dos esperneios de reação ao anúncio do Brasil como sede da Copa de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016. A direita não acredita que seremos capazes. Ela não julga o Brasil digno.

Se temos muitos problemas? Certamente, e muitos. Mas o brasileiro é um povo de luta e de trabalho, e não podemos deixar de acreditar em nossa própria capacidade.

Temos hoje que dar continuidade a um projeto progressista de um Brasil livre, soberano, para que possamos em muito breve chegar à superação do capitalismo parasitário através de uma sociedade superior, a sociedade socialista.

Por isso devemos deixar de lado esse complexo de vira-lata definitivamente. Não é a burguesia brasileira quem deve definir nossa auto-imagem. Deixemo-la gritando sua parolagem neurótica sozinha. Esse tipo de enfermidade não se cura ao mostrar ao doente que "suas idéias não correspondem aos fatos".

"A metamorfose", de Franz Kafka: Gregor Samsa como um símbolo do conceito marxista de alienação

Posted: 20.11.09 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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A obra "A metamorfose", de Franz Kafka, é um clássico no gênero de ficção simbólica experimental que surgiu no início do século XX. Seguindo estreitamente as teorias da alienação do trabalhador, de Karl Marx, o protagonista da história, Gregor Samsa, é a personificação do sufocamento da alma em meio à revolução industrial. O mais irônico na leitura de "A metamorfose" é que Gregor Samsa passa por uma metamorfose apenas no sentido físico; filosoficamente Gregor sempre foi um inseto e o fato de fisicamente se tornar um não altera em nada a sua apreciação da vida.

Gregor, depois de sua metamorfose, persiste obstinadamente na mesma mentalidade conformista que tinha antes. Apesar de Gregor acordar numa manhã e se encontrar transformado num inseto gigante, e depois de perceber que ele não é mais humano, os processos de pensamento de Gregor não passam por nenhuma mudança (Kafka, 1997). "Ao invés de reagir com franca ansiedade, Gregor pensa, o tempo todo, sobre seu emprego e sua família; ele se torna ansioso sobre a passagem do tempo e preocupado com suas novas sensações corporais e suas estranhas dores" (Bouson, 56). Em outras palavras, Gregor não pode escapar do fato de que mesmo como um humano, ele era desumanizado. Suas preocupações sobre obrigações familiares servem para ressaltar que Gregor é agora um inseto na forma física, mas que psiquicamente ele tinha sido pouco mais que isso até então.

De acordo com Karl Marx, para o trabalhador o seu trabalho "é externo a si, i.e., não é parte essencial de seu ser, de forma que ao invés de se sentir bem em seu trabalho, ele se sente infeliz, ao invés de desenvolver sua energial física e mental, ele abusa de seu corpo e arruína sua mente" (Bloom, 107). Gregor é o símbolo ideal do que Marx denuncia; ele é alienado do produto do seu trabalho porque este não lhe pertence. Além disso, ele não está nem mesmo trabalhando por um salário para si próprio; seu salário é direcionado para quitar os débitos de seu pai. Uma vez que Gregor se transforma fisicamente em um inseto ele apenas segue o que já havia lhe acontecido filosoficamente; seu isolamento e alienação se tornam completos. "A transformação de Gregor Samsa em um inseto representa a auto-alienação em um sentido literal, não é meramente uma metáfora costumeira que se torna um fato ficcional... Nenhuma forma mais drástica poderia ilustrar a alienação da consciência do seu próprio ser do que o despertar assustador de Gregor Samsa" (Bloom, 105).

Finalmente, a alienação de Gregor Samsa em relação à sua humanidade é totalmente física e realizada: "Isso é, Samsa, tendo sido um bem-sucedido vendedor, já foi o pilar de sua família, mas agora, sendo impotente, sua irmã assume na frente de seus pais o papel de liderança e força tranquilizadora que tinha sido dele" (Scott, 37). Assim como um inseto é apenas um pequeno ator no esquema maior da natureza e dele não se espera que sinta coisas como satisfação ou ambição, assim Gregor eventualmente se rende completamente à intenção de um sistema de destruir aqueles componentes essenciais de que se constituem a humanidade.


Por Timothy Sexton, tradução de Glauber Ataide. Texto original em inglês aqui.


REFERÊNCIAS:

Bloom, Harold, ed. Franz Kafka's the Metamorphosis. New York: Chelsea House, 1988.

Bouson, J. Brooks. A Study of the Narcissistic Character and the Drama of the Self A Study of the Narcissistic Character and the Drama of the Self. Amherst : University of Massachusetts Press, 1989.

Scott, Nathan A. Rehearsals of Discomposure: Alienation and Reconciliation in Modern Literature: Franz Kafka, Ignazio Silone, D. H. Lawrence . New York: King's Crown Press, 1952.

Kafka, Franz. "The Metamorphosis." The Norton Anthology of World Literature, Vol. F: The Twentieth Century. 2nd Edition. Ed. Sarah Lawall. New York: W.W. Norton & Company, 2003.

Hitler e a direita

Posted: 12.11.09 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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A direita parece não suportar a vergonha de ter enquadrado em suas fileiras alguém como Adolf Hitler. Ela tenta a todo custo encontrar alguma forma de "transferir" essa "responsabilidade" para o campo da esquerda.

Você já reparou com que frequência vemos o socialismo associado ao nazismo em capas de revista, por exemplo? Pois é, são coisas desse tipo que a direita vem fazendo para tentar "emplacar" a idéia de que Hitler não era um dos seus.

Como um jovem pobre que foi recusado na faculdade de artes por duas vezes conseguiu chegar ao poder e causar todo o estrago que fez ao mundo? Pura habilidade política? Pura retórica? Claro que não.

No período entre as duas guerras e com o sucesso da revolução russa em 1917, o socialismo estava se tornando uma ameaça na Alemanha. O partido comunista era o maior e o mais influente. Literalmente, "um espectro rondava a Alemanha".

Para tentar conter o avanço comunista, a burguesia alemã injetou dinheiro nas campanhas de Hitler. Sim, os industriais alemães financiaram Hitler para que ele pudesse deter a "ameaça comunista". Ao se tornar chanceler, Hitler logo tratou de matar membros do partido comunista por serem da oposição no congresso. Com o apoio da igreja católica, da social-democracia e com a ausência dos parlamentares comunistas assassinados por ele, era fácil fazer aprovar suas propostas.

Contra fatos não há argumentos. As elucubrações direitistas sobre as "definições" do que é "esquerda" e o que é "direita" nunca serão capazes de alterar esse passado. Ninguém além deles pode acreditar que o passado é alterado simplesmente ao se redefinir termos. Hitler é filho da direita e foi financiado pela burguesia, pelos industriais alemães para conter o socialismo.

E no final das contas, quem é que livrou o mundo dos nazistas? Foram os socialistas. Foram as tropas soviéticas que invadiram Berlim e esmagaram as tropas nazistas em seu próprio território. Mas já imaginou quantos filmes já não teriam sido produzidos se fossem os EUA quem tivessem invadido a Alemanha e derrotado Hitler? Já imaginou as cenas das bandeiras americanas triunfantes e flamejantes adentrando Berlim?

Mas a direita prefere não comentar muito sobre o assunto. Preferem não comentar que Hitler foi uma "cria" da direita, e que a entrada dos socialistas, isso é, da União Soviética na II Guerra foi fundamental para a derrota do nazismo.

"Mas o mundo é assim mesmo!"

Posted: 11.11.09 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Essa é uma das frases mais imbecis que alguém pode ser capaz de dizer. Geralmente ela aparece como interpelação diante da exposição que alguém faz de determinada situação da realidade social.

Exemplo: alguém afirma que a classe rica do país tem aumentado os seus lucros de forma cafajeste e exorbitante, enquanto que a maioria da população tem dificuldade de garantir direitos básicos como alimentação, moradia e educação.

Então um idiota diz: "Mas o mundo é assim mesmo!".

Isso é imbecil, em primeiro lugar, porque se a pessoa tem a intenção de confirmar que a leitura que se está fazendo da realidade é correta, ficar calado ou apenas acenar positivamente com a cabeça daria o mesmo resultado.

Isso é imbecil, em segundo lugar, porque é expressão de uma concepção fatalista da História. Se o mundo "é" assim mesmo, então isso significa que somos apenas objeto da História, não os seus agentes.

Uma concepção fatalista da História é como aquela das tragédias gregas. Um oráculo é anunciado, o herói tenta fugir do destino mas ele sempre é cumprido no final das contas. É como o mito do Rei Édipo.

O oráculo dizia que Édipo mataria seu pai e se casaria com sua mãe. Logo ao nascer ele é abandonado numa floresta, pois a pessoa encarregada de o matar não teve coragem para isso. Um homem o encontra e o leva para criar. Tudo isso acontece para evitar que o oráculo se cumprisse. Mas no final nada disso adiantou. Ele acaba matando seu pai, se casando com sua mãe e ainda teve filhos com ela. Esse era o seu Destino.

Pessoas que afirmam que "o mundo é assim" têm essa mesma concepção fatalista da História. Pensam haver um plano cósmico que traçou o destino de todos os seres humanos, e assim justificam toda situação de miséria e exploração no mundo.

Mas em sua "Pedagogia da autonomia", Paulo Freire nos adverte que não somos apenas objeto da História mas seus sujeitos igualmente. E mais à frente, diz a esses fatalistas reacionários que querem manter essa ordem social de exploração:

"O mundo não é. O mundo está sendo."

Somos nós que construímos a História. O mundo em que vivemos foi construído por gerações passadas. Ele não é um mundo "dado", um mundo que "sempre esteve aí" e que não pode ser alterado.

Para finalizar, deixo um trecho desta mesma obra de Paulo Freire, em que ele comenta sobre um episódio de que todos devemos nos lembrar, pois teve ampla exposição midiática na época. Foi quando uma família, em Recife, ficou intoxicada após comer restos de um seio humano encontrado em um lixão (contendo lixo hospitalar), no qual procuravam sua sobrevivência:

"É possível que a notícia tenha provocado em pragmáticos neoliberais sua reação habitual e fatalista sempre em favor dos poderosos. 'É triste, mas, que fazer? A realidade é mesmo esta.' A realidade, porém, não é inexoravelmente esta. Está sendo esta como poderia ser outra e é para que seja outra é que precisamos, os progressistas, lutar. Eu me sentiria mais do que triste, desolado e sem achar sentido para minha presença no mundo, se fortes e indestrutíveis razões me convencessem de que a existência humana se dá no domínio da determinação. Domínio em que dificilmente se poderia falar de opções, de decisão, de liberdade, de ética."

Homens de cabelo grande

Posted: 9.11.09 by Glauber Ataide in Marcadores: , ,
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Tive cabelo grande por aproximadamente 10 anos, e quando mais jovem, sempre ouvia a pergunta: "por que seu cabelo é assim, e não igual o de todo mundo?". Esta questão nos leva, de fato, a pensar numa resposta, e gostaria de compartilhar com os amigos do blog algumas reflexões sobre isso.

Mas não pensei na questão sem um método: foi a partir de uma perspectiva psicanalítica que, num primeiro momento, tentei compreender quais razões inconscientes me levavam a gostar de cabelo grande. Procurava uma motivação que não dissesse respeito apenas a mim, mas talvez a todo um grupo de pessoas do qual eu fosse um elemento.

Acabei descobrindo, por exemplo, que o cabelo grande é um símbolo inconsciente tanto para os genitais quanto para a própria concepção de falo.

O interessante é que as primeiras pistas que encontrei sobre os cabelos representando os genitais eu não obtive diretamente da literatura psicanalítica, mas através da interpretação de um sonho que me foi relatado por uma mulher.

Após algumas dificuldades, descobrimos que os cabelos dela, os quais apareciam insistentemente por todo o sonho e com características de ter passado por um rigoroso processo de repressão, eram um símbolo de seus genitais. Seu sonho era basicamente um sonho de exibicionismo. Posteriormente pude encontrar confirmação desse símbolo na literatura psicanalítica.

Lembrem-se da história de Rapunzel, por exemplo. Para aqueles já familiarizados com a chamada "psicanálise dos contos de fadas", não é difícil perceber que os cabelos de Rapunzel, através dos quais o príncipe consegue subir ao seu quarto, representam um complexo de associações ligados à questão da sexualidade, dentre os quais podemos destacar a maturidade sexual, isso é, o preparo para o coito adquirido na adolescência.

Já na história bíblica de Sansão, vemos o cabelo grande associado a características fálicas, masculinas. Sansão tem força, tem virilidade por causa do seu cabelo. Isso é, o cabelo grande como símbolo de um pênis grande, ou para ser mais exato, de um falo grande. Quando o cabelo de Sansão é cortado, ele perde sua força, sua masculinidade, sua virilidade.

Para determinados homens, manter o cabelo grande pode ser também uma resposta à angústia de castração. Freud afirma em "A interpretação dos sonhos" que o rabo de lagartixa é um símbolo inconsciente para essa situação, já que ele sempre cresce novamente quando é cortado. O cabelo grande, da mesma forma, pode servir a essa função.

A segunda explicação que encontrei para minha preferência por cabelos longos veio de uma perspectiva filosófica: deixar o cabelo crescer é uma expressão de valores. Os filósofos do império romano eram caracterizados pelo cabelo grande, assim como pela barba, a roupa e a bolsa que utilizavam. Encontramos na literatura deste período até mesmo críticas sobre aqueles que achavam que um filósofo se fazia apenas "pelo cabelo".

Devemos observar que ter um cabelo grande não é a mesma coisa que nascer com um nariz grande. Um cabelo grande é expressão da personalidade da pessoa, representa valores. Essa é a razão de eu sempre ter considerado tão ofensivo quando alguém fazia algum comentário depreciativo sobre o meu cabelo.

Dizer a um homem de cabelo grande "por que você não corta esse cabelo?" é um eufemismo para "por que você não deixa de ser do jeito que é?". Isso é um ataque pessoal. Isso é um ataque aos valores e à personalidade do ofendido.

As pessoas tomam convenções sociais como se fossem valores absolutos. O uso masculino de cabelo curto não é nada mais que uma convenção social, uma característica de uma cultura específica.

O cabelo grande, neste aspecto, representa para o homem consciência e crítica dessas convenções sociais. Pode representar também uma vida mais natural, humana, menos plástica e artificial. É uma reação ao processo de massificação.

Convém calçar luvas para ler "Veja"

Posted: 4.11.09 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Este título é uma paráfrase de Nietzsche, que dizia que convém calçar luvas para ler o Novo Testamento. É que após tomar conhecimento de uma "reporcagem" que Veja publicou na época dos 40 anos da morte de Che Guevara, essa frase de Nietzsche surgiu das mais profundas regiões do meu inconsciente. Talvez através da associação dos termos "Veja" e "imundície".

Venho afirmando e assim fazendo eco a vários jornalistas sérios deste país que Veja é um panfleto. Deixou de ser uma revista há muito tempo. Mas desta vez, a credibilidade de Veja é atacada por um jornalista de fora. O renomado jornalista norte-americado John Lee Anderson, autor da mais completa biografia de Che Guevara já escrita, tomou conhecimento da "reporcagem" que Veja publicou sobre Che Guevara, e ele não gostou do que leu. As cartas trocadas entre o renomado jornalista americano e o jovem jornalista de Veja fornecem um bom quadro do que Veja se tornou.

As cartas traduzidas de Anderson, assim como o material através do qual tomei conhecimento do assunto, são de autoria do jornalista Pedro Doria.

A primeira carta de Anderson é a seguinte:

Caro Diogo,

Fiquei intrigado quando você não me procurou após eu responder seu email. Aí me passaram sua reportagem em Veja, que foi a mais parcial análise de uma figura política contemporânea que li em muito tempo. Foi justamente este tipo de reportagem hiper editorializada, ou uma hagiografia ou – como é o seu caso – uma demonização, que me fizeram escrever a biografia de Che. Tentei pôr pele e osso na figura super-mitificada de Che para compreender que tipo de pessoa ele foi. O que você escreveu foi um texto opinativo camuflado de jornalismo imparcial, coisa que evidentemente não é. Jornalismo honesto, pelos meus critérios, envolve fontes variadas e perspectivas múltiplas, uma tentativa de compreender a pessoa sobre quem se escreve no contexto em que viveu com o objetivo de educar seus leitores com ao menos um esforço de objetividade. O que você fez com Che é o equivalente a escrever sobre George W. Bush utilizando apenas o que lhe disseram Hugo Chávez e Mahmoud Ahmadinejad para sustentar seu ponto de vista. No fim das contas, estou feliz que você não tenha me entrevistado. Eu teria falado em boa fé imaginando, equivocadamente, que você se tratava de um jornalista sério, um companheiro de profissão honesto. Ao presumir isto, eu estaria errado. Esteja à vontade para publicar esta carta em Veja, se for seu desejo.

Cordialmente,
Jon Lee Anderson.

A fraca resposta de Diogo foi a seguinte:

Caro Anderson,

Eu fiquei me perguntando, depois de lhe enviar um email pedindo (educadamente) uma entrevista, por que nunca recebi uma resposta sua. Agora sei que a mensagem deve ter-se perdido devido a algum programa antispam ou por qualquer outra questão tecnológica. Também não recebi sua ‘carta’ – talvez pelo mesmo problema. Tudo isso não tem a menor importância agora porque você resolveu o assunto valendo-se dos meios mais baixos – um email circular. O que lhe fez pensar que tinha o direito de tornar pública nossa correspondência, incluindo a mensagem em que eu (educadamente) pedia uma entrevista? Isso, caro Anderson, é antiético. Vindo de alguém que se diz um jornalista, é surpreendente. Você pode não gostar da reportagem que escrevi; ela pode ser boa ou ruim, bem-escrita ou não, editorializada ou não – mas não foi feita com os métodos antiéticos que você usa. Eu respeito a relação entre jornalistas e fontes. Você não. E mais: parece-me agora que você é daquele tipo de jornalista que tem medo de fazer uma ligação telefônica (assim são os maus jornalistas), já que tem meu cartão de visita e conhece meu número de telefone. Se você tinha algo a dizer sobre a reportagem — e já que sua mensagem não estava chegando a seu destino — poderia ter me ligado.
Eu não sei que tipo de imagem de si mesmo você quer criar (ou proteger) negando os fatos que o seu próprio livro mostra, mas está claro agora que é a de alguém sem ética. Você pode ficar certo de que não aparecerá mais nas páginas desta revista.

Sem mais,
Diogo Schelp

A tréplica demolidora de Anderson é como se segue:

Prezado Diogo Schelp:

Agradeço pelo sua ‘gentil’ resposta. (Soube que você é de fato uma pessoa muito ‘gentileza’; você mesmo o disse duas vezes em suas mensagens.) Só agora percebo, o mal-entendido entre nós nasceu exclusivamente por conta de meu caráter profundamente falho. Eu jamais deveria ter presumido que você recebera meu email inicial em resposta ao seu ou minha segunda mensagem a respeito de sua reportagem, muito menos deveria ter considerado que você pudesse ter decidido ignorá-los. É evidente que você tem um sistema de bloqueio de spams muito rigoroso.

Uma dica técnica: talvez devesse configurar seus sistema como ‘moderado’ e não ‘extremo’. Se o fizer, talvez comece a receber seus emails sem quaisquer problemas. Lembre-se, Diogo: moderado, não ‘extremo’. Esta é a chave.

Você me acusa de ser antiético, um ‘mau jornalista’. Questiona até se posso ser chamado de jornalista. Nossa, você TEM raiva, não tem?

Enquanto tento parar as gargalhadas, me permita dizer que, vindo de você, é elogio. Permita, também, recapitular por um momento a metodologia utilizada por você para distorcer as informações que o público de Veja recebeu:

Você publicou na capa e na reportagem uma grande quantidade de fotografias de Che, aproveitando-se assim da popularidade da imagem de Guevara para vender mais cópias de sua revista. Para preencher seu texto, você pinçou uma certa quantidade de referências previamente escritas sobre ele – incluindo a minha – para sustentar sua tese particular, qual seja, a de que o heroismo de Che não passa de uma construção marxista, como sugere seu título: ‘Che, a farsa do herói’.

Para chegar a uma conclusão assim arrasa-quarteirão, você também entrevistou, pelas minhas contas, sete pessoas. Uma delas era um antigo oponente de Che dos tempos da Bolívia. As outra seis, exilados cubanos anti-castristas, incluindo ex-prisioneiros políticos e veteranos de várias campanhas paramilitares para derrubar Fidel. (Um destes, o professor Jaime Suchlicki, você não informou a seus leitores, é pago pelo governo dos EUA para dirigir o assim chamado Projeto de Transição Cubana.) Percebi também que você prestou particular atenção no testemunho de Felix Rodriguez, ex-agente da CIA responsável pela operação que culminou na execução de Che. O fato de que você o destaca quer dizer que você o considera sua melhor testemunha? Ou terá sido porque ele foi o único que algum repórter realmente entrevistou pessoalmente? Os outros, parece, Veja só falou com eles por telefone. Mas como são rigorosos os critérios de reportagem de Veja!

Como disse em minha ‘carta aberta’ a você, escrever uma reportagem deste tipo usando este tipo de fonte é o equivlente a escrever um perfil de George W. Bush citando Mahmoud Ahmadinejad e Hugo Chávez. Em outras palavras, não é algo que deva ser levado a sério. É um exercício curioso, dá para fazer piada, mas NÃO é jornalismo. Dizer a seus leitores, como você diz na abertura da reportagem, que ‘Veja conversou com historiadores, biógrafos, ex-companheiros de Che no governo cubano’ passa a impressão de que você de fato fez o dever de casa, que estava oferecendo aos leitores um trabalho jornalístico bem apurado, que apresentaria algo novo. Infelizmente, a maior parte do que você escreveu é mera propaganda, um requentado de coisas que vêm sendo ditas e reditas, sem muitas provas, pela turma de oposição a Fidel em Miami nos últimos quarenta e tantos anos.

Minha questão não é política. Escrevi um livro, como você mesmo disse, que é ‘a mais completa biografia’ de Che. Há muito lá que pode ser utilizado para criticar Che, mas também há muitos aspectos a respeito de sua vida e personalidade que muitos consideram admiráveis. Em outras palavras, é um retrato por inteiro. Como sempre disse, escrevi a biografia para servir de antídoto aos inúmeros exercícios de propaganda que soterraram o verdadeiro Che numa pilha de hagiografias e demonizaçoes, caso de seu texto.

Não cometa o erro de me acusar de defender Che porque critico você. Serei claro: a questão aqui não é Che, é a qualidade do seu jornalismo. Sua reportagem, no fim das contas, é simplesmente ruim e me choca vê-la nas páginas de uma revista louvável como Veja. Seus leitores merecem mais do que isso e, se aparecerei ou não novamente nas páginas da revista enquanto você estiver por aí, não me preocupa. O que PREOCUPA é que, com tantos jornalistas brilhantes como há no Brasil, foi a você que Veja escolheu para ser ‘editor de internacional’.

Cordialmente,
Jon Lee Anderson.

Para ver qual a conclusão de Pedro Doria sobre isso, clique aqui.

Dois minutos do ódio

Posted: 23.10.09 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Na obra "1984", de George Orwell, há um estranho "ritual" em que as pessoas são obrigadas a participar diariamente. Ele é chamado de "Dois minutos do ódio", e consiste na exibição, em uma teletela, da imagem e da fala de Emanuel Goldstein, que no livro é o líder exilado da oposição ao governo do Big Brother, juntamente com outros opositores do "Partido" (como é chamado o partido do Big Brother, o Ingsoc).

Durante os "Dois minutos do ódio", as pessoas são levadas a um estado de exaltação histérica, de muita raiva, de ódio, onde proferem insultos e ameaças contra a imagem sendo exibida na teletela. Algumas vezes os telespectadores partem até mesmo para a agressão física contra o aparelho.

Orwell fez com isso uma referência à comum demonização dos inimigos que era utilizada durante a II Guerra Mundial através da mídia. Coisa que não precisamos recorrer aos livros de história para saber como era.

A mídia continua atuando da mesmíssima forma para desestabilizar governos e manipular opiniões. A leitura do panfleto Veja e de outros jornalões do PIG (Partido da Imprensa Golspista) não são nada mais que alguns "minutos do ódio".

Esses veículos não procuram informar, mas formar opinião - coisa de panfleto -, mostrando que deixaram de ser jornalismo há muito tempo. Segundo Diego Cruz, no artigo "Os fantasmas da revista Veja", "...a diferença entre um panfleto e um jornal é que, enquanto o panfleto lança algumas poucas ideias a fim de persuadir, o jornal ou uma revista traz informação, parte da apuração dos fatos, análise e dados, ainda que não possa ser imparcial. Veja, por esse critério, é mais um panfleto que uma revista. E, certamente, não tem nada a ver com jornalismo. "



Eis um exemplo. A exposição de "inimigos" fotografados pelos ângulos mais desfavoráveis com a intenção de provocar desprezo, levar os leitores a um frenesi, juntamente com falas distorcidas ou reproduzidas pela metade, omissão de informações e toda sorte de sujeira para defender interesses que são apresentados com um manto de objetividade.

Orwell foi perfeito em sua metáfora. Nos "Dois minutos do ódio", Goldstein aparecia na tela denunciando a ditadura do "Partido", exigindo o imediato acordo de paz com os países inimigos, exigindo liberdade de expressão, liberdade de imprensa, liberdade de reunião, de pensamento, etc.

Mas à medida que ele falava, o ódio dos telespectadores apenas aumentava. As pessoas pulavam em seus assentos, gritando como animais, com todas as suas forças, numa tentativa de calar a voz que vinha da teletela. E o pior é que sabemos que isso não é apenas ficção.