Facebook, Big Brother e a Sociedade do Espetáculo

Posted: 9.2.10 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Guy Debord compreendeu de tal forma o mecanismo do espetáculo sob o capitalismo que, ao lermos sua intocável obra A sociedade do espetáculo, de 1967, temos a impressão que o autor já conhecia fenômenos como Facebook, Whatsapp e Big Brother. Mas não era isso. É que ele conseguiu compreender a essência daquilo que, no capitalismo, levaria ao desenvolvimento desses fenômenos.

Mas o que é o "espetáculo"? Para Debord, "o espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediada por imagens".

José Arbex Jr. no livro "Showrnalismo: a notícia como espetáculo", explica assim:

"O espetáculo consiste na multiplicação de ícones e imagens, principalmente através dos meios de comunicação de massa, mas também dos rituais políticos, religiosos e hábitos de consumo, de tudo aquilo que falta à vida real do homem comum: celebridades, atores, políticos, personalidades, gurus, mensagens publicitárias – tudo transmite uma sensação de permanente aventura, felicidade, grandiosidade e ousadia. O espetáculo é a aparência que confere integridade e sentido a uma sociedade esfacelada e dividida. É a forma mais elaborada de uma sociedade que desenvolveu ao extremo o ‘fetichismo da mercadoria’ (felicidade identifica-se a consumo). Os meios de comunicação de massa – diz Debord – são apenas ‘a manifestação superficial mais esmagadora da sociedade do espetáculo, que faz do indivíduo um ser infeliz, anônimo e solitário em meio à massa de consumidores’".

O espetáculo é a vida mediada por imagens, isso é, quando a vida é deixada de ser vivida diretamente para ser vivida através de imagens. O espetáculo é a negação da vida. Essa lógica, identificada por Debord já na década de 60, é a mesma que levou ao desenvolvimento das atuais redes virtuais de relacionamento.

O Big Brother é uma outra expressão inequívoca do espetáculo. Seu nome vem de um personagem homônimo, da obra 1984, de George Orwell. O Big Brother (ou "Grande Irmão) era o ditador da totalitária Oceania. Através de câmeras, ele vigiava todos os cidadãos em qualquer lugar, inclusive dentro de suas próprias casas.

A falsa realidade apresentada pelo reality show Big Brother é consumida por uma multidão hipnotizada e ávida por realidade. Mas o que encontram é apenas uma realidade que esvaziou-se, assim como eles próprios. O Big Brother é uma "ficção do real".

Os participantes se submetem a uma exposição humilhante de sua intimidade (como quando fazem sexo dentro da casa) apenas para obter uma fama quase tão passageira quanto a sua participação no programa. Mas Debord já explicava o por que disso:

"A primeira fase da dominação da economia sobre a vida social levou, na definição de toda a realização humana, a uma evidente degradação do ser em ter. A fase presente da ocupação total da vida social em busca da acumulação de resultados econômicos conduz a uma busca generalizada do ter e do parecer, de forma que todo o "ter" efetivo perde o seu prestígio imediato e a sua função última. Assim, toda a realidade individual se tornou social e diretamente dependente do poderio social obtido. Somente naquilo que ela não é, lhe é permitido aparecer."

Na sociedade do espetáculo, não basta a degradação do ser ao ter. Ela vai além, e degrada o ter em parecer ter.

Uma curiosa ocorrência disso encontramos entre membros da classe média, que moram em minúsculos apartamentos mas possuem carros extravagantes na garagem. Como quase ninguém os conhece em sua intimidade, eles não precisam de um imóvel grande para acomodar visitas. No entanto, como muita gente lhes vê nas ruas desfilando com o seu automóvel (desde que o seu vidro não seja fumê), daí então a necessidade do parecer.

O espetáculo, vale repetir, é a negação do real. É a vida deixada de ser vivida diretamente para ser vivida através de imagens, através do consumo de imagens. O espetáculo hoje está mais explícito do que nunca.

Vamos finalizar com o aforismo 30 do livro de Debord:

"A alienação do espectador em proveito do objeto contemplado (que é o resultado da sua própria atividade inconsciente) exprime-se assim: quanto mais ele contempla, menos vive; quanto mais aceita reconhecer-se nas imagens dominantes da necessidade, menos ele compreende a sua própria existência e o seu próprio desejo. A exterioridade do espetáculo em relação ao homem que age aparece nisto, os seus próprios gestos já não são seus, mas de um outro que lhos apresenta. Eis porque o espectador não se sente em casa em parte alguma, porque o espetáculo está em toda a parte."

Reforma ou revolução?

Posted: 2.2.10 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Já no final do século XIX o oportunismo havia tomado conta de grande parte dos líderes da social-democracia alemã, que tentavam "revisar" conceitos fundamentais do marxismo, abandonando a luta de classes e pregando a conciliação do proletariado para com a burguesia.

Esse revisionismo teve como seu principal porta-voz Eduard Bernstein, que vinha com sua tática de sapa afirmar que um desmoronamento do capitalismo parecia cada vez mais improvável, e que era possível chegar ao socialismo através de pequenas reformas sociais ao invés da revolução popular armada.

Rosa Luxemburgo, levantando-se contra o oportunismo de Bernstein, publicou em 1900 a obra "Reforma ou revolução?", combatendo a corrente revisionista que se espalhava entre dirigentes do movimento proletário social-democrata alemão. Para Rosa, a questão "reforma ou revolução" significava "ser ou não ser".

Segundo Bernstein, a adaptação do capitalismo para o socialismo se daria através das reformas sociais e de instituições como os sindicatos e as cooperativas. E tudo sempre pela "via legal".

Sobre a questão dos sindicatos, Rosa demonstra que essas organizações não são mais que um meio para realizar a lei capitalista dos salários. Sua atividade é lutar por aumentos de salários e redução do tempo de trabalho, isso é, a regularização da exploração capitalista de acordo com a situação momentânea do mercado. Os sindicatos são órgãos de defesa, não de ataque contra o lucro capitalista.

Os sindicatos não podem interferir no processo de produção e regular o "controle social da produção", como o queria Bernstein. Tampouco o poderiam as cooperativas, o que ele também defendia. Dessa forma, a "expropriação por etapas" através dos sindicatos é impossível.

Bernstein também se equivoca ao considerar a evolução do estado para sociedade como uma condição para a realização passiva ao socialismo. Demonstrando graves deficiências no conhecimento das mais básicas premissas do marxismo, ele falha em compreender a natureza do estado atual, isso é, o estado como uma organização da classe capitalista.

Rosa Luxemburgo desmascara o revisionismo e demonstra que ele visa não suprimir as contradições capitalistas, mas apenas atenuá-las, suavizá-las. Ela explica que a teoria bernsteiniana nada mais é do que uma generalização teórica do ponto de vista do capital isolado, o que demonstra que sua análise econômica cometia os mesmos erros da economia clássica burguesa.

Sobre a "conquista do poder político através de reformas", isso é impossível, responde Rosa. Na sociedade burguesa a reforma legal serviu para o reforçamento progressivo da classe ascendente até essa assumir o poder político e suprimir o sistema jurídico antigo que entravava seu desenvolvimento.

Ela explica que reforma legal e revolução não são métodos diferentes de desenvolvimento histórico que se pode escolher como se escolhe salsichas quentes ou frias, e sim fatores diferentes no desenvolvimento da sociedade de classe.

Qualquer constituição legal outra coisa não é que o produto da revolução, sendo esta o ato de criação política da história de classe, e aquela a expressão política da vida e da sociedade.

Quem se pronuncia a favor das reformas legais, em vez de e em oposição à revolução social, não escolhe assim um caminho mais lento levando para a mesma finalidade, mas sim para uma finalidade diferente, isto é, modificações superficiais na antiga sociedade em vez da instauração de uma nova.

Rosa nos chama a atenção para um importante aspecto do capitalismo: a dominação de classe hoje não repousa em "direitos adquiridos", e sim em verdadeiras relações econômicas.

Por conseguinte, como suprimir "pela via legal" a escravidão do assalariado se ela não está absolutamente expressa nas leis?

Nas sociedades anteriores o antagonismo de classes encontrava expressão em relações jurídicas bem determinadas, mas hoje a situação é bem diversa. O proletariado não é obrigado por nenhuma lei a submeter-se ao jugo do capital. Ele é obrigado a tal através da miséria, pela falta de meios de produção.

Na sociedade burguesa não pode haver leis que possam proporciar ao proletariado esses meios de produção, pois não foi a lei, e sim o desenvolvimento econômico que lhos arrancou.

Assim Rosa expõe os erros do revisionismo de Bernstein & Cia, e de forma quase profética afirma: é inteiramente impossível imaginar-se que uma transformação tão formidável como é a passagem do capitalismo ao socialismo se realize de uma só vez, por meio de um golpe feliz do proletariado.

Conhecendo bem o processo histórico, que tem seus recuos momentâneos mas caminha em uma marcha sempre ascendente, ela já esperava alguns equívocos nas primeiras tentativas de implantação do socialismo.

E foi justamente esse revisionismo que Rosa tanto combateu que se configurou em uma das principais causas do colapso do socialismo na União Soviética após a morte de Stalin.


Ditadura em Cuba?

Posted: 30.1.10 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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O PIG (Partido da Imprensa Golpista) nos bombardeia tanto com a palavra "democracia" que ela tem se tornado uma palavra gasta, sem sentido. Sabe quando você fica repetindo uma mesma palavra até que você não consegue mais raciocinar sobre o seu significado? Pois é, estamos mais ou menos assim.

Em nome da "democracia" o império do norte (EUA) invade alguns países, implanta ditaduras militares em uns e derruba governos populares em outros. A "democracia" se tornou praticamente um axioma, tem quase o status de uma lei lógica ou matemática. Não se discute se o melhor sistema de governo é uma "democracia".

Mas há pelo menos dois graves problemas com tudo isso: o primeiro é que não existe uma única forma de "democracia", e o segundo é que a nossa chamada "democracia" não é nada mais que a democracia burguesa.

Em Cuba, país acusado de viver sob uma "ditadura" do "terrível ditador" Fidel Castro, há eleições regularmente para definir os representantes da população. E o que é mais interessante: apesar do voto não ser obrigatório, mais de 95% da população sempre comparece às urnas nas eleições periódicas desde 1976. Este percentual é muito diferente do que acontece até mesmo nos EUA, no qual a média está entre 50% e 60%.

Neste momento alguém pode perguntar: mas como há eleições se existe apenas um partido? Ele disputa a eleição contra si próprio? Não, isso seria ridículo. O que acontece, na verdade, é que o Partido Comunista de Cuba nem mesmo participa das eleições.

Os candidatos se inscrevem, primeiramente, em reuniões de seus bairros para este fim, de forma bem simples e rústica. Às vezes não têm nem som para cantar o hino nacional. Os pré-candidatos apresentam então as suas propostas, e a população local, neste momento levantando as mãos, escolhe o candidato que irá concorrer às eleições para vereador.

Ou seja, estes candidatos não são definidos por uma "elite", por ordens "de cima". É a própria população que elege os seus candidatos que posteriormente concorrerão com outros candidatos, também eleitos pelas populações de outras localidades, para ocupar determinado posto.

O próprio Fidel Castro se candidatava como deputado. Ele era eleito, primeiramente, como deputado de um distrito. E só então é que ele ficava encarregado de constituir o Governo e se tornava Chefe-de-Estado, da mesmíssima forma que ocorreu no caso de Tony Blair quando tomou posse da Inglaterra como primeiro ministro.

É bem provável que se este sistema fosse adotado no Brasil, por exemplo, muitos dos nossos governantes nunca chegariam ao poder, porque para isso, eles deveriam ser eleitos por seus vizinhos e pelas pessoas do seu próprio bairro.

Um outro fato interessante em Cuba é que durante a votação as urnas são vigiadas por crianças. Isso é para demonstrar a limpeza do processo eleitoral. Antes da revolução cubana, quem fazia isso era o exército. Não precisamos falar sobre as correntes fraudes que isso suscitava. E a contagem dos votos é pública, diante de quem quiser ver, com o resultado parcial sendo divulgado na mesma hora, diretamente aos ali presentes.

A democracia burguesa diz que não pode haver verdadeira "democracia" em um sistema de partido único, como é o caso de Cuba. Mas a questão é que uma pluraridade de partidos de maneira nenhuma garante uma democracia. O que se verifica na prática é que existem muitos partidos mas apenas uma classe social exercendo todos os poderes.

Tampouco a divisão dos poderes (executivo, legislativo e judiciário) garante a "democracia". Diz-se que eles estão dividos e independentes, mas estão todos, no entanto, no controle de pessoas de uma única e mesma classe.

Além disso, quando dizem que em Cuba não há "democracia", fazem questão de omitir que lá existem mais de duas mil organizações socias e organizações não-governamentais de caráter científico, religioso, de proteção ao meio ambiente, etc. E algumas delas com milhões de membros.

O PIG parece ter aprendido bem com Goebbels, ministro de propaganda de Hitler, que dizia que uma mentira repetida mil vezes se torna uma verdade. Querendo difamar de toda forma a revolução cubana e tentando desqualificar aos olhos da grande população o socialismo como a única alternativa ao capitalismo, espalha a todo canto, ad nauseam, a mentira deslavada de que não há democracia em Cuba. Mas a única democracia que lá não existe é a democracia burguesa. Os cubanos adotam uma forma superior de democracia em que a população tem uma participação muito mais efetiva na direção política de seu país do que é possível acontecer na democracia burguesa.


Notas

A maioria das informações deste post se encontram no excelente documentário argentino "Fatos, não palavras: os direitos humanos em Cuba", de Carolina Silvestre. Neste documentário podemos conhecer muito mais de Cuba, como o seu sistema prisional que transforma infratores em trabalhadores, fazendo com que os presos estudem e saiam da cadeia formados. Este documentário pode ser baixado via torrent ou visualizado no Youtube. A primeira parte está aqui: http://www.youtube.com/watch?v=JdQU0mXrUXo.

Stalin - um novo olhar

Posted: 26.1.10 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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É impressionante como a propaganda nazista, criada por Hitler & Cia para justificar sua agressão à União Soviética, não foi morta e enterrada debaixo dos escombros de Berlim após a vitória fulminante dos russos comunistas sobre a grande ameaça ariana. Essa propaganda, infelizmente, teve os EUA como seus continuadores.

É praticamente uma "verdade indiscutível" dizer que Stalin matou milhões de pessoas; que Stalin era um "ditador" sangue-frio; que tinha uma "inteligência medíocre"; que ele causou a fome da Ucrânia; que ele planejou mal a guerra contra Hitler, etc, etc.

Mas em sua extremamente bem documentada obra "Stalin - um novo olhar", Ludo Martens nos mostra um Stalin vivo, forte, determinado, de grande capacidade intelectual, lúcido, coerente e um excelente estrategista militar, o que contrasta completamente com as velhas propagandas nazistas da década de 30 que ainda enganam o mundo. Nos mostra como as "estatísticas" dos "milhões" de mortos sob Stalin foram forjadas antes e durante a guerra fria, mas depois completamente desmascaradas nas aberturas dos arquivos soviéticos na década de 1990, apesar da burguesia não ter interesse em "corrigir" sua literatura anticomunista defasada.

As velhas mentiras hitleristas persistem, mas não sem razão: Stalin é o pior pesadelo que a burguesia já teve. Foi ele quem elevou a URSS a uma condição de potência em apenas algumas décadas de socialismo e venceu a II Guerra Mundial. A burguesia ainda hoje teme Stalin como o diabo teme a cruz.

Refreie os seus impulsos de caridade!

Posted: 14.1.10 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Neste final de ano, devido às festas natalinas, acompanhamos várias demonstrações de caridade nos telejornais. Mas uma matéria em particular me chamou a atenção, na qual uma "boa alma" de classe média, em seu veículo de porte pequeno-burguês, estava a distribuir presentes para crianças em uma determinada periferia de São Paulo, terrivelmente castigada pelas enchentes.

Achei impressionante nenhum repórter ter questionado a razão daqueles miseráveis não estarem preparando um peru ao invés de estarem removendo as águas da chuva de dentro de suas casas. Parece que isso não passa pela cabeça da maioria das pessoas. Mas mesmo se alguém perguntar, muita gente vai dar a resposta default: "Mas o mundo é assim mesmo!".

Não obstante eu estar evocando exemplos recentes, caridades acontecem o ano inteiro, o tempo todo. Não em proporções natalinas, mas acontecem.

Mas deixe-me aqui discordar de que a caridade seja algo sempre bom. Não é. A caridade, embora praticada com intenções louváveis, tem o efeito nefasto não de curar as doenças diagnosticadas no seio social, mas apenas de prolongá-las. É isso o que afirma o escritor Oscar Wilde em seu pequeno artigo "A alma do homem sob o socialismo".

Segundo Wilde, os caridosos "buscam solucionar o problema da pobreza... mantendo vivo o pobre. Mas isso não é uma solução: é um agravamento da dificuldade".

As pessoas não querem esmolas, querem dignidade. Querem trabalhar, serem vistas como tendo valor e sendo capazes. Os pobres deveriam rejeitar as esmolas, mas ainda lhes falta essa consciência.

Vale a pena ler Wilde sobre isso:

"Frequentemente ouvimos dizer que os pobres são gratos pela caridade. Decerto alguns são gratos, mas nunca os melhores dentre eles. São ingratos, insatisfeitos, desobedientes e rebeldes. Têm toda a razão em o serem. Para eles, a caridade é uma forma ridícula e inadequada de restituição parcial, ou esmola piedosa, em geral acompanhada de alguma tentativa por parte da alma apiedada de tiranizar suas vidas. Por que deveriam ser gratos pelas migalhas que caem da mesa do homem rico? Deveriam é estar sentados a ela, e já começam a se dar conta disso. Quanto à insatisfação, aquele que não se sentisse insatisfeito com essa condição inferior de vida seria um perfeito estúpido. A desobediência é, aos olhos de qualquer estudioso de História, a virtude original do homem. É através da desobediência que se faz o progresso, através da desobediência e da rebelião. Às vezes elogiam-se os pobres por serem parcimoniosos. Mas recomendar-lhes parcimônia é tão grotesco quanto insultuoso. É como aconselhar um homem que esteja passando fome que coma menos.

[...]

Um homem não deveria estar pronto a mostrar-se capaz de viver como um animal mal alimentado. Deveria recusar-se a viver assim, e deveria ou roubar ou viver às expensas do Estado, o que muitos consideram uma forma de roubo. Quanto a pedir esmolas, é mais seguro pedir do que tomar, mas é bem mais digno tomar do que pedir (!). Não: um homem pobre que seja ingrato, perdulário, insatisfeito e rebelde possui decerto uma personalidade plena e verdadeira. Constitui, de qualquer forma, um protesto sadio. Quanto aos pobres virtuosos, é natural que deles se tenha piedade, mas não admiração. Fizeram um acordo secreto com o inimigo e venderam seus direitos inatos em troca de um péssimo prato de comida. Devem também ser muito tolos. Posso compreender que um homem aceite as leis que protegem a propriedade privada e admita sua acumulação, desde que nessas circunstâncias ele próprio seja capaz de atingir alguma forma de existência harmoniosa e intelectual. Parece-me, porém, quase inacreditável que um homem cuja existência se perdeu e abrutalhou por força dessas mesmas leis possa vir a concordar com a sua vigência." (Grifo nosso)

Os bons samaritanos deveriam aplicar melhor seu humanismo. A saída não é manter o pobre vivo para viver na pobreza. A meta adequada, ainda segundo Wilde, é esforçar-se por reconstruir a sociedade em bases tais que nela seja impossível a pobreza. Mas as virtudes altruístas têm na realidade impedido de alcançar essa meta.

Às vezes é difícil conter nossos impulsos altruístas. Eu sou particularmente sensível a uma criança abandonada na rua ou mendigando. Mas isso ao mesmo tempo me dá ódio. Talvez é o sentimento ao qual Che Guevara se referia quando afirmava que "se você é capaz de tremer de indignação a cada vez que se comete uma injustiça no mundo, então somos companheiros".

Mas como comunista, sei que luto por uma sociedade em que isso não vai existir. Seria imbecil acreditar que a solução é apenas deixar de dar esmolas ou de praticar caridades. Este não é o caminho. O caminho é a luta. E a luta, pela via revolucionária, é por uma sociedade em que caridades não sejam necessárias.

Eu confesso que ainda tenho recaídas. Algumas vezes não resisto e compro uma bala de alguma criança que aparece vendendo, apesar do peso na consciência que me sobrevém depois. Mas há poucas semanas resisti a uma garotinha dessas que aparecem na janela do carro. Eu lhe perguntei:

- Quantos anos você tem?
- Onze.
- Você estuda?
- Sim.
- Em que série você está?
- Na quarta.
- Por que você vende balas? É a sua mãe que manda?
- Sim.
- Não pode não, viu filha? Você tem que estudar.
- (Ela acena positivamente com a cabeça, de forma meio triste e reflexiva.)

E o sinal abriu. Eu não ajudei dessa maneira a melhorar a vida desta garota, que talvez nem se lembre de mim da forma que eu me lembro dela. Mas o que eu guardo dessa situação é esse sentimento de indignação, de ódio contra a exploração e a miséria no capital. E isso me dá forças para seguir em frente em minha militância para a destruição do capitalismo rumo à instauração de uma sociedade superior, a sociedade socialista, o que é, na verdade, uma exigência do próprio desenvolvimento histórico, à medida que cada vez mais o capitalismo, em sua forma imperialista e parasitária, apresenta elementos reais de estagnação.

Refreie os seus impulsos de caridade. Mas não faça só isso. Deixar de prolongar a doença não significa curá-la.


Teologia da crueldade

Posted: 4.1.10 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Uma fábula de La Fontaine conta que dois cachorros viram o cadáver de um burro boiando no rio. Tendo muita fome mas não sabendo nadar para alcançá-lo, eles tiveram uma idéia: beber toda a água do rio para que o cadáver ficasse em terra seca. Eles começaram a tarefa mas em pouco tempo já estavam quase estourando e o nível do rio continuava o mesmo. La Fontaine conclui que assim são os homens quando tentam fazer o impossível.

Me lembrei dessa fábula hoje quando passava pela minha cabeça o que eu chamo (internamente, para mim mesmo) de "teologia da crueldade".Essa é aquela teologia que resgata a concepção tribalista judaica de "povo escolhido" e que despeja o resto da humanidade no inferno.

Na verdade, essa fábula me vem à mente sempre que vejo algum "reformado", aqui ou ali, tentando justificar sua teologia da crueldade e enfeitá-la com a cobertura do "amor cristão".

Os "eleitos", vestindo seu manto da humildade "Made in Paraguay", parecem sentir grande satisfação interior em serem "Os Salvos". Enquanto observam o resto do mundo desabar, tem a forte convicção de que o que virá ao resto do mundo é ainda pior no inferno de fogo. "É triste, mas é assim mesmo", dizem. "Nós não podemos entender a mente de Deus, você tem apenas que acreditar. Quem sabe você também não é salvo e faz parte do nosso clubinho?".

Sim, porque os "eleitos" são pessoas que têm mais sorte do que qualquer ganhador da mega-sena. Eles foram "escolhidos" porque "Deus é soberano", porque "Deus poderia ter escolhido a qualquer um" ou mesmo não ter escolhido ninguém.

Eles nos lembram que Deus poderia ter criado o homem para mandar a raça inteira pro inferno, mesmo sabendo de antemão, pela sua onisciência, que o homem iria pecar. Da mesma forma que qualquer pessoa poderia tomar a decisão de ter um filho apenas para descartá-lo numa lata de lixo depois.

E uma coisa que não dá pra entender é quando eles ainda falam em "restauração da cultura". Restaurar a cultura pra que? Para criar uma nova cristandade? Mas qual o sentido disso para um mundo que não tem a mínima esperança de redenção?

Essas dicussões teológicas podem assumir uma grande complexidade, mas o que eu estou expressando aqui, e tenho consciência disso, é apenas a minha reação emocional a esse tipo de doutrina teológica.

Sei que há boas razões para defender tanto a predestinação (teologia da crueldade) quanto o livre-arbítrio, e sei que muita gente, em cada um desses lados, tem uma forte convicção de estar com a verdade. Uma convicção quase tão forte quanto a de um muçulmano de que todos dois estão errados. As convicções religiosas são assim.

Daí que quando estamos neste campo de discussão, tentar convencer alguém é quase sempre tentar fazer o mesmo que os dois cachorros da fábula de La Fontaine. Ainda mais quando os "reformados" tentam nos enfiar goela abaixo que existe algum tipo de "amor" em sua teologia da crueldade. Esse tipo de doutrina teológica parece expressar, pelo contrário, muito mais o "ressentimento cristão" de que Nietzsche tanto falava.


Comportamento no trânsito: psicanalisando e filosofando um pouco - Parte II

Posted: 18.12.09 by Glauber Ataide in Marcadores: , ,
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No texto anterior ensaiamos que algumas das prováveis causas de uma "baixa" ou de um "enfraquecimento" da atuação do ego e do superego na atividade psíquica do motorista ao volante podem ser as falsas sensações de segurança e de invisibilidade.

No entanto, isso não explica tudo. Percebemos um comportamento agressivo e também inconsequente mesmo quando essas falsas sensações parecem não estar presentes, e me refiro aqui especificamente ao caso dos motoqueiros.

O condutor de uma motocicleta está numa situação completamente oposta à do condutor de um veículo. Ele está completamente exposto a acidentes e não pode ter nenhuma expectativa de privacidade. Mas sua imprudência, todavia, é notável.

Nestes, mais do que naqueles, a predominância do princípio de prazer é ainda mais evidente, dado que uma conduta racional de seu veículo, baseada nas probabilidades de uma fatalidade em caso de acidente resultaria em um comportamento totalmente avesso ao que presenciamos em nossas ruas e avenidas.

O que parece concorrer para este tipo de comportamento é uma outra forma de invisibilidade. O trânsito é formado por uma multidão de anônimos, onde ninguém conhece ninguém. Os motociclistas, devido à sua maior fluidez no tráfego, são as maiores incógnitas deste espetáculo.

Além desse tipo de invisibilidade há um outro ponto que podemos visualizar melhor através de uma representação. Imaginem uma pessoa diante de um cachorro perigoso que está preso e atrás de grades. Essa pessoa grita, bate o pé, bate palmas e irrita o cachorro de toda forma possível. Agora imaginem, diante dessa mesma pessoa, este mesmo cachorro, mas livre e sem as grades. Adivinhem o seu comportamento.

Quando um revide é pouco provável a maioria das pessoas não se comporta da mesma maneira do que quando isso é uma possibilidade. Voltamos aqui então na questão da invisibilidade, na questão do anel de Giges abordado no texto anterior. O anonimato no trânsito é uma forma de invisibilidade, e esse anonimato é ainda mais acentuado para os motoqueiros devido à sua maior capacidade de fluidez entre os veículos.

Essa maior fluidez parece lhes dar a sensação de não ocupar lugar no espaço, daí sua direção agressiva ao trafegar em estreitos becos formados por veículos em movimento e suas lendárias "fechadas", que parecem não levar em conta sua fragilidade e o alto risco de fatalidade em caso de colisão.

Freud afirma que onde hoje pedimos alguém licença para passar, antigamente lhe dávamos um empurrão para que saísse de nossa frente. Este "antigamente" se refere a quando tudo era id, quando não havia ego. O princípio de prazer é demasiado evidente na conduta dos motoristas. Onde eles deveriam esperar, eles querem passar na frente, e quando um revide parece improvável devido ao anonimato ou à própria capacidade de fluidez no trânsito este comportamento encontra menor resistência para expressão.

Comportamento no trânsito: psicanalisando e filosofando um pouco - Parte I

Posted: 16.12.09 by Glauber Ataide in Marcadores: , ,
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Ouvi em um noticiário há pouco tempo uma discussão sobre trânsito. Os apresentadores se questionavam sobre como era possível que pessoas absolutamente "calmas" e "normais" em seu cotidiano se transformassem completamente quando estão ao volante.

Isso me remeteu a um comentário de Freud em seus "Três ensaios sobre a sexualidade", no qual ele diz que as perversões sexuais muitas vezes ocorrem de forma isolada em indivíduos que são "normais" em todas as outras áreas. O comportamento no trânsito, de forma semelhante, nem sempre reflete a personalidade do motorista. Pelo menos não aquela consciente.

Já em um outro jornal, vários dias depois, um conhecido jornalista ensaiou uma interpretação psicanalítica do comportamento agressivo ao volante. Neste seu esboço ele dizia que um indivíduo, talvez por um complexo de inferioridade ou por se sentir "passado pra trás" na vida, no amor ou nos negócios, não permitirá que ninguém o "ultrapasse" no trânsito.

Mas o que eu venho tentando compreender é o que deve acontecer com o ego e o superego quando o indivíduo está dirigindo. Sabemos que as pulsões de agressividade provindas do id a todo momento buscando gratificação são combatidas pelo ego. O id, regido pelo princípio de prazer, não se preocupa com o que possa acontecer caso ele consiga o que quer. É o ego, regido pelo princípio de realidade, que faz essa mediação entre as exigências do id e da realidade externa.

É fato que as pulsões do id encontram menor resistência no indivíduo que está ao volante. Parece haver uma "baixa" da guarda do ego e do superego, pois o comportamento transgressor no trânsito nem sempre é percebido como tal. Isso é um comportamento típico do id, um comportamento regido pela busca imediata de alguma gratificação sem se importar com as consequências.

Fico imaginando se isso talvez não seja causado por uma falsa sensação de segurança proporcionada por se estar no interior de uma caixa de metal, que é o carro. Ou se talvez isso seja devido a uma sensação de "invisibilidade" no trânsito. Pessoas que costumam enfiar o dedo no nariz parecem se sentir particularmente invisíveis ao volante.

A "invisibilidade" e sua correlação com um comportamento ético foi abordada por Platão na famosa passagem do anel de Giges, na obra "A República". Este anel, encontrado por Giges, lhe dava a capacidade de se tornar invisível. Percebendo isso, ele seduziu a mulher de seu rei, atacou-o e matou-o com a sua ajuda. Gláucon então afirma que "se, portanto, houvesse dois anéis como este, o homem justo pusesse um, e o injusto outro, não haveria ninguém, ao que parece, tão inabalável que permanecesse no caminho da justiça...", pois "... ninguém é justo por sua vontade, mas constrangido, por entender que a justiça não é um bem para si, individualmente, uma vez que, quando cada um julga que lhe é possível cometer injustiças, comete-as".

Talvez essas falsas sensações de segurança e invisibilidade estejam entre as causas de um enfraquecimento da atuação do ego e do superego na atividade psíquica do motorista ao volante, o que explica seu comportamento agressivo e transgressor, caracterizado pelo princípio de prazer.

Id, ego e superego – uma topografia hipotética do aparelho psíquico

Posted: 30.11.09 by Glauber Ataide in Marcadores:
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A psicanálise, apesar de ter surgido apenas como um método de tratamento das neuroses, se configurou posteriormente em uma teoria geral da mente, uma terapia para os problemas anímicos, um instrumento de investigação e uma profissão. Se trata de um complexo fenômeno intelectual, médico e sociológico. (WARD, ZÁRATE, 2002).

Como um teoria da mente humana, ela fornece uma topografia hipotética do aparelho psíquico dividido em três sistemas, a saber: inconsciente, pré-consciente e consciente. Mas como afirma Tallaferro (1996), eles não devem ser concebidos como estruturas rígidas e delimitadas em três planos distintos. Antes, devem ser considerados como forças, como investimentos energéticos que se deslocam de certa forma, que têm um tipo de vibração específico. Dentro desses campos ou “regiões”, encontram-se as três instâncias chamadas id, ego e superego.

O id é a instância psíquica mais arcaica e se encontra totalmente no inconsciente. É onde se localizam as pulsões, e tem conexão íntima com o biológico. (TALLAFERRO, 1996). Segundo Mednicoff (2008), “o id está voltado a satisfazer nossas necessidades básicas desde o começo da vida. A atividade dele consiste em impulsos que buscam o prazer. Ele procura adquirir gratificação imediata e não suporta frustração. É aquele nosso lado instintivo que não mede as consequências dos atos para se satisfazer.”

Já o ego, assim como o superego, é formado a partir do id. Segundo Tallaferro (1996), o ego nada mais é, para Freud, “do que uma parte do id modificado pelo impacto ou a alteração das pulsões internas e dos estímulos externos”. De acordo com Mednicoff (2008), para compreender a formação do ego a partir do id devemos observar a vida dos bebês. Quando estão com fome, sujos ou com alguma necessidade, eles choram e quase que imediatamente seus cuidadores atendem aos seus pedidos. Mas à medida que crescem, percebem que nem sempre podem conseguir tudo o que desejam, e dessa forma precisam se adaptar às exigências e condições impostas pelo meio em que vivem. Isso mostra que enquanto o id é regido pelo chamado “princípio de prazer” (satisfação imediata, sem pensar nas consequências), o ego é regido pelo “princípio de realidade” (o que é possível alcançar em determinada situação, como alcançar, quais as consequências, etc). O ego tem como principal papel, portanto, “coordenar funções e impulsos internos, e fazer com que os mesmos possam expressar-se no mundo exterior sem conflitos.” (TALLAFERRO, 1996).

O superego, por sua vez, começa a se formar à medida que a criança percebe que existem normas, regras e padrões morais que ela ouve tanto dos pais quanto da sociedade. Ela começa a ser ensinada sobre o que é feio, o que é vergonhoso, etc, e acaba incorporando essas crenças à estrutura psíquica, dando forma, assim, ao superego. (MEDNICOFF, 2008). Segundo Tallaferro (1996), ele é aquilo a que normalmente damos o nome de “consciência” ou “voz da consciência”. O superego, da mesma forma que nossos pais faziam, nos observa, guia e ameaça, sendo formado pela introjeção do pai repressor. Ainda de acordo com Tallaferro (1996), seu mecanismo de formação pode ser explicado pelo fato de que, com a incorporação do pai no ego, o filho introjeta a atitude “má” daquele com o intuito de conservar o pai “bom” no mundo exterior. Isso é, o filho abstrai a parte “má” do pai, a introjeta em sua consciência para manter o pai “bom” disponível no mundo real. Assim ele escapa do perigo do pai “mau” e obtém, ao mesmo tempo, a proteção representada pela imagem paterna “boa”. O superego é o responsável por nos infligir aquilo que denominamos “remorso” ou “peso na consciência”. É por essa razão que verificamos que pessoas que tiveram pais muito rígidos também são muito rígidas consigo próprias, mesmo que não percebam isso.

Essas instâncias psíquicas (id, ego e superego) não ficam, cada uma, localizadas especificamente dentro ou do inconsciente, ou do pré-consciente ou do consciente. O ego, por exemplo, se localiza dentro dessas três regiões, assim como o superego. São campos de limites imprecisos, dentro dos quais essas instâncias adquirem caracterísicas próprias desse nível da atividade psíquica. (TALLAFERRO, 1996). E é dentro desse aparato, dessa topografia hipotética do aparelho psíquico, que se dá lugar toda a dinâmica do psiquismo.


REFERÊNCIAS:

MEDNICOFF, Elizabeth. Dossiê Freud. São Paulo: Universo dos Livros, 2008.

TALLAFERRO, Alberto. Curso básico de Psicanálise. 2 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

WARD, Ivan; ZÁRATE, Oscar. Psicoanálisis para principiantes. Buenos Aires: Era Naciente SRL, 2002.

Complexo de vira-lata

Posted: 27.11.09 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Parece ser uma necessidade psicológica da direita brasileira, classe histérica e raivosa, perpetuar o que Nelson Rodrigues identificava no povo brasileiro como "complexo de vira-lata".

Nelson definia esse complexo como "a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo". Em nossa história recente tivemos várias campanhas publicitárias, a exemplo do slogan "sou brasileiro e não desisto nunca", para aumentar a nossa auto-estima.

Mas perpetuar esse complexo não é apenas uma necessidade psicológica da direita. Não permitir que o brasileiro o supere também faz parte do projeto da burguesia nacional para o país.

Qual é esse projeto? O projeto é justamente não ter projeto. É deixar que alguém "com mais capacidade" cuide disso. É vender o Brasil inteiro para que cuide dele "quem tem competência". Ela precisa convencer o resto do país de que somos todos um bando de incapazes, assim como eles, e que se não deixarmos que os estrangeiros tomem conta do que é nosso, estaremos todos perdidos. É a mesma mentalidade de povo colonizado de sempre. Mentalidade de povo escravo, submisso, subjugado.

A direita não tem um rumo a apontar para o país. Por essa razão, ao reconhecer sua incapacidade de governar um Brasil soberano, ela tenta projetar sua própria inferioridade ao resto da nação.

Renato Russo resumiu bem nos últmos versos da letra de "Que país é esse?" qual o projeto da direita para o Brasil:

"Mas o Brasil vai ficar rico
Pois vamos faturar um milhão
Quando vendermos todas as almas
Dos nossos índios num leilão"

Ou seja, para a burguesia brasileira, o caminho para a prosperidade da nação é se abrir para o capital estrangeiro, vender tudo o que ela tem, todas as suas riquezas naturais, tudo o que lhe é mais sagrado, expresso metaforicamente pelo leilão das almas dos nossos índios.

O povo brasileiro vem aos poucos superando seu complexo de vira-lata, mas não a direita. Ainda podemos ouvir os ecos dos gritos e dos esperneios de reação ao anúncio do Brasil como sede da Copa de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016. A direita não acredita que seremos capazes. Ela não julga o Brasil digno.

Se temos muitos problemas? Certamente, e muitos. Mas o brasileiro é um povo de luta e de trabalho, e não podemos deixar de acreditar em nossa própria capacidade.

Temos hoje que dar continuidade a um projeto progressista de um Brasil livre, soberano, para que possamos em muito breve chegar à superação do capitalismo parasitário através de uma sociedade superior, a sociedade socialista.

Por isso devemos deixar de lado esse complexo de vira-lata definitivamente. Não é a burguesia brasileira quem deve definir nossa auto-imagem. Deixemo-la gritando sua parolagem neurótica sozinha. Esse tipo de enfermidade não se cura ao mostrar ao doente que "suas idéias não correspondem aos fatos".