Filósofos e sociólogos respondem: por que o sapo não lava o pé?

Posted: 12.11.10 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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O motivo desta incógnita desvelado por filósofos e sociólogos: por que o sapo não lava o pé?

Parmênides de Eléia
Como poderia o sapo lavar os pés, ó deuses, se o movimento não existe?

Heráclito de Éfeso
Quando o sapo lava o pé, nem ele nem o pé são mais os mesmos, pois ambos se modificam na lavagem, devido à impermanência das coisas.

Platão
Górgias: Por Zeus, Sócrates, os sapos não lavam os seus pés porque não gostam da água!

Sócrates: Pensemos um pouco, ó Górgias. Tu assumiste, quando há pouco dialogava com Filebo, que o sapo é um ser vivo, correto?

Górgias: Sou forçado a admitir que sim.

Sócrates: Pois bem, e se o sapo é um ser vivo, deve forçosamente fazer parte de uma categoria determinada de seres vivos, posto que estes dividem-se em categorias segundo seu modo de vida e sua forma corporal; os cavalos são diferentes das hidras e estas dos falcões, e assim por diante, correto?

Górgias: Sim, tu estás novamente correto.

Sócrates: A característica dos sapos é a de ser habitante da água e da terra, pois é isso que os antigos queriam dizer quando afirmaram que este animal era anfíbio, como, aliás, Homero e Hesíodo já nos atestam. Tu pensas que seria possível um sapo viver somente no deserto, tendo ele necessidade de duas vidas por natureza,ó Górgias?

Górgias: Jamais ouvi qualquer notícia a respeito.

Sócrates: Pois isto se dá porque os sapos vivem nas lagoas, nos lagos e nas poças, vistos que são animais, pertencem e uma categoria, e esta categoria é dada segundo a característica dos sapos serem anfíbios.

Górgias: É verdade.

Sócrates: Precisando da lagoa, ó Górgias meu caro, tu achas que seria o sapo insano o suficiente para não gostar de água?

Górgias: Não, não, não, mil vezes não, Ó Sócrates!

Sócrates: Então somos forçados a concluir que o sapo não lava o pé por outro motivo, que não a repulsa à água

Górgias: De acordo.

Diógenes, o Cínico
Dane-se o sapo, eu só quero tomar meu sol.

Aristóteles
O [sapo] lava de acordo com sua natureza. Se imitasse, estaria fazendo arte . Como [a arte] é digna somente do homem, é forçoso reconhecer que o sapo lava segundo sua natureza de sapo, passando da potência ao ato. O sapo que não lava o pé é o ser que não consegue realizar [essa] transição da potência ao ato.

Epicuro
O sapo deve alcançar o prazer, que é o Bem supremo, mas sem excessos. Que lave ou não o pé, decida-se de acordo com a circunstância.

O vital é que mantenha a serenidade de espírito e fuja da dor.

Estóicos
O sapo deve lavar seu pé de acordo com as estações do ano. No inverno, mantenha-o sujo, que é de acordo com a natureza. No verão, lave-o delicadamente à beira das fontes, mas sem exageros. E que pare de comer tantas moscas, a comida só serve para o sustento do corpo.

Descartes
Nada distingo na lavagem do pé senão figura, movimento e extensão. O sapo é nada mais que um autômato, um mecanismo. Deve lavar seus pés para promover a autoconservação, como um relógio precisa de corda.

Maquiavel
A lavagem do pé deve ser exigida sem rigor excessivo, o que poderia causar ódio ao Príncipe, mas com força tal que traga a este o respeito e o temor dos súditos. Luís da França, ao imperar na Itália, atraído pela ambição dos venezianos, mal agiu ao exigir que os sapos da Lombardia tivessem os pés cortados e os lagos tomados caso não aquiescessem à sua vontade. Como se vê, pagou integralmente o preço de tal crueldade, pois os sapos esquecem mais facilmente um pai assassinado que um pé cortado e uma lagoa confiscada.

Rousseau
Os sapos nascem livres, mas em toda parte coaxam agrilhoados; são presos, é certo, pela própria ganância dos seus semelhantes, que impedem uns aos outros de lavarem os pés à beira da lagoa. Somente com a alienação de cada qual de seu ramo ou touceira de capim, e mesmo de sua própria pessoa, poder-se-á firmar um contrato justo, no qual a liberdade do estado de natureza é substituída pela liberdade civil.

Locke
Em primeiro lugar, faz-se mister refutar a tese de Filmer sobre a lavagem bíblica dos pés. Se fosse assim, eu próprio seria obrigado a lavar meus pés na lagoa, o que, sustento, não é o caso. Cada súdito contrata com o Soberano para proteger sua propriedade, e entendo contido nesse ideal o conceito de liberdade. Se o sapo não quer lavar o pé, o Soberano não pode obrigá-lo, tampouco recriminá-lo pelo chulé. E ainda afirmo: caso o Soberano queira, incorrendo em erro, obrigá-lo, o sapo possuirá legítimo direito de resistência contra esta reconhecida injustiça e opressão.

Filmer
Podemos ver que, desde a época de Adão, os sapos têm lavado os pés. Aliás, os seres, em geral, têm lavado os pés à beira da lagoa. Sendo o sapo um descendente do sapo ancestral, é legítimo, obrigatório e salutar que ele lave seus pés todos os dias à beira do lago ou lagoa. Caso contrário, estará incorrendo duplamente em pecado e infração.

Kant
O sapo age moralmente, pois, ao deixar de lavar seu pé, nada faz além de agir segundo sua lei moral universal apriorística, que prescreve atitudes consoantes com o que o sujeito cognoscente possa querer que se torne uma ação universal.

Nota de Freud: Kant jamais lavou seus pés.

Hegel
Podemos observar na lavagem do pé a manifestação da Dialética. Observando a História, constatamos uma evolução gradativa da ignorância absoluta do sapo – em relação à higiene – para uma preocupação maior em relação a esta. Ao longo da evolução do Espírito da História, vemos os sapos se aproximando cada vez mais das lagoas, cada vez mais comprando esponjas e sabões. O que falta agora é, tão somente, lavar o pé, coisa que, quando concluída, representará o fim da História e o ápice do progresso.

Marx
A lavagem do pé, enquanto atividade vital do anfíbio, encontra-se profundamente alterada no panorama capitalista. O sapo, obviamente um proletário, tendo que vender sua força de trabalho para um sistema de produção baseado na detenção da propriedade privada pelas classes dominantes, gasta em atividade produtiva alienada o tempo que deveria ter para si próprio. Em conseqüência, a miséria domina os campos, e o sapo não tem acesso à própria lagoa, que em tempos imemoriais fazia parte do sistema comum de produção.

Engels: Isso mesmo.

Schopenhauer
O sapo cujo pé vejo lavar é nada mais que uma representação, um fenômeno, oriundo da ilusão fundamental que é o meu princípio de razão, parte componente do principio individuationis, a que a sabedoria vedanta chamou "véu de Maya". A Vontade, que o velho e grande filósofo de Königsberg chamou de Coisa-em si, e que Platão localizava no mundo das idéias, essa força cega que está por trás de qualquer fenômeno, jamais poderá ser capturada por nós, seres individuados, através do princípio da razão, conforme já demonstrado por mim em uma série de trabalhos, entre os quais o que considero o maior livro de filosofia já escrito no passado, no presente e no futuro: "O mundo como vontade e representação".

Nietzsche
Um espírito astucioso e camuflado, um gosto anfíbio pela dissimulação - herança de povos mediterrâneos, certamente - uma incisividade de espírito ainda não encontrada nas mais ermas redondezas de quaisquer lagoas do mundo dito civilizado. Um animal que, livrando-se de qualquer metafísica, e que, aprimorando seu instinto de realidade, com a dolcezza audaciosa já perdida pelo europeu moderno, nega o ato supremo, o ato cuja negação configura a mais nítida – e difícil – fronteira entre o Sapo e aquele que está por vir, o Além- do-Sapo: a lavagem do pé.

Foucault
Em primeiro lugar, creio que deveríamos começar a análise do poder a partir de suas extremidades menos visíveis, a partir dos discursos médicos de saúde, por exemplo. Por que deveria o sapo lavar o pé? Se analisarmos os hábitos higiênicos e sanitários da Europa no século XII, veremos que os sapos possuíam uma menor preocupação em relação à higiene do pé – bem como de outras áreas do corpo. Somente com a preocupação burguesa em relação às disciplinas – domesticação do corpo do indivíduo, sem a qual o sistema capitalista jamais seria possível – é que surge a preocupação com a lavagem do pé. Portanto, temos o discurso da lavagem do pé como sinal sintomático da sociedade disciplinar.

Freud
Um superego exacerbado pode ser a causa da falta de higiene do sapo. Quando analisava o caso de Dora, há vinte anos, pude perceber alguns dos traços deste problema. De fato, em meus numerosos estudos posteriores, pude constatar que a aversão pela limpeza, do mesmo modo que a obsessão por ela, podem constituir-se num desejo de autopunição. A causa disso encontra-se, sem dúvida, na construção do superego a partir das figuras perdidas dos pais, que antes representavam a fonte de todo conteúdo moral do girino.

Jung
O mito do sapo do deserto, presente no imaginário semita, vem a calhar para a compreensão do fenômeno. O inconsciente coletivo do sapo, em outras épocas desenvolvido, guardou em sua composição mais íntima a idéia da seca, da privação, da necessidade. Por isso, mesmo quando colocado frente a uma lagoa, em época de abundância, o sapo não lava o
pé.

Kierkegaard
O sapo lavando o pé ou não, o que importa é a existência.

Comte
O sapo deve lavar o pé, posto que a higiene é imprescindível. A lavagem do pé deve ser submetida a procedimentos científicos universal e atemporalmente válidos. Só assim poder-se-á obter um conhecimento verdadeiro a respeito.

Weber
A conduta do sapo só poderá ser compreendida em termos de ação social racional orientada por valores. A crescente racionalização e o desencantamento do mundo provocaram, no pensamento ocidental, uma preocupação excessiva na orientação racional com relação a fins. Eis que, portanto, parece absurdo à maior parte das pessoas o sapo não lavar o pé. Entretanto, é fundamental que seja compreendido que, se o sapo não lava o pé, é porque tal atitude encontra-se perfeitamente coerente com seu sistema valorativo – a vida na lagoa.

Horkheimer e Adorno
A cultura popular diferencia-se da cultura de massas, filha bastarda da indústria cultural. Para a primeira, a lavagem do pé é algo ritual e sazonal, inerente ao grupamento societário; para a segunda, a ação impetuosa da razão instrumental, em sua irracionalidade galopante, transforma em mercadoria e modismo a lavagem do pé, exterminando antigas tradições e obrigando os sapos a um procedimento diário de higienização.

Gramsci
O sapo, e além dele, todos os sapos, só poderão lavar seus pés a partir do momento em que, devido à ação dos intelectuais orgânicos, uma consciência coletiva principiar a se desenvolver gradativamente na classe batráquia. Consciência de sua importância e função social no modo de produção da vida. Com a guerra de posições - representada pela progressiva formação, através do aparato ideológico da sociedade civil, de consensos favoráveis– serão criadas possibilidades para uma nova hegemonia, dessa vez sob a direção das classes anteriormente subordinadas.

Bobbio
Existem três tipos de teoria sobre o sapo não lavar o pé. O primeiro tipo aceita a não-lavagem do pé como natural, nada existindo a reprovar nesse ato. O segundo tipo acredita que ela seja moral ou axiologicamente errada. A terceira espécie limita-se a descrever o fenômeno, procurando uma certa neutralidade.

Olavo de Carvalho
O sapo não lava o pé. Não lava porque não quer. Ele mora lá na lagoa, não lava o pé porque não quer e ainda culpa o sistema, quando a culpa é da PREGUIÇA. Este tipo de atitude é que infesta o Brasil e o Mundo, um tipo de atitude oriundo de uma complexa conspiração moscovita contra a livre-iniciativa e os valores humanos da educação e da higiene!


Em nome de Deus

Posted: 25.10.10 by Glauber Ataide in Marcadores:
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A compra deste DVD foi uma grata surpresa. Não apenas pelo filme em si, mas por algumas coisas sobre ele que só descobri depois.

A história se passa no século XII, e um dos protagonistas é um filósofo. Ele se torna tutor de Heloise, uma jovem muito inteligente e questionadora, versada em grego e latim. A intimidade acaba sendo perigosa, eles não resistem e Abelard quebra seus votos de castidade, o que era exigido na época para um professor de Filosofia como ele.

Isso foi suficiente para despertar meu interesse pelo filme. Século XII, um filósofo, e pronto. Gosto de filmes ambientados nessa época.

Mas gostei tanto da história que fui pesquisar sobre o filme depois de assistí-lo, para então descobrir que, além da história ser baseada em fatos reais, o protagonista do filme, o Abelard, não é ninguém menos que o filósofo medieval Pedro Abelardo.

O mais interessante é que não se trata apenas de mais uma "história de amor" clichê. Não é apenas "mais um romance" numa outra época. O resultado desse affair entre Abelard e Heloise trouxe consequências para ambos que eu nunca vi parecidos em nenhum outro filme - e no caso do Abelard, acho que nem mesmo nos noticiários policiais.

Um filme belíssimo, que além de ser comovente, traz como pano de fundo a atmosfera de opressão (inclusive a sexual) da igreja medieval.

Onde o socialismo deu certo?

Posted: 20.10.10 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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A pergunta "onde o socialismo deu certo?" é  geralmente lançada de forma meramente retórica, com o objetivo de referenciar supostas "provas concretas" da inexequibilidade deste modo de produção. Elaborar os problemas de forma correta, porém, já é mais da metade de sua solução. Perguntas (quase) sempre carregam pressupostos que não são assim tão evidentes, e aceitar respondê-las sem analisá-las resulta, várias vezes, em tomar pseudo-problemas como problemas reais.

No caso em questão é preciso esclarecer pelo menos dois pressupostos: em primeiro lugar, o que significa "dar certo"? E em segundo lugar, um sistema econômico ou político tem que "dar certo" para quem?

É evidente que o capitalismo "dá certo" para uma restrita camada da população mundial, enquanto fracassa miseravelmente para aqueles 815 milhões de pessoas que passam fome hoje no planeta. Um sistema com mais de quatro séculos de existência e que não foi capaz até hoje de solucionar problemas básicos como o da fome, do saneamento básico e da moradia deveria ser visto com muito ceticismo.

Vamos dar uma olhada em que medida o socialismo e também o capitalismo "dão certo". Inicialmente faremos algumas considerações sobre o socialismo cubano, depois sobre a União Soviética e o Leste Europeu e, por último, apresentaremos algumas estatísticas sobre o capitalismo no mundo inteiro.

O socialismo em Cuba

Cuba é um país pobre e, como todos os outros países da América Latina, uma ex-colônia. A análise de um país não pode abstrair de sua história. Para agravar esta herança, Cuba ainda sofre um bloqueio econômico por parte dos EUA há mais de 50 anos, o que lhe impede de ter relações comerciais normais não só com as empresas estadunidenses, mas também com empresas de diversos outros países devido à extensão do bloqueio.

Se Cuba tem algum problema econômico, este não começou com o socialismo, mas com a "pobreza" comum a todos os países do continente e anterior à revolução de 1959. Como se isso não bastasse, as dificuldades de Cuba se agravam com o criminoso bloqueio econômico que nenhum outro país da América sofre, e que nenhum outro país suportaria nem por 5 meses, quanto mais por 50 anos.

Quando dizem que o "modelo cubano" não funciona, os capitalistas pretendem comparar a riqueza dos países capitalistas com a pobreza dos cubanos.

Mas por que não comparar a pobreza dos países capitalistas com a pobreza dos países socialistas?

Qualquer comparação entre dois países deve considerar sua história e seu contexto. A colonização dos EUA e do Canadá, por exemplo, foi de um tipo bem diferente da colonização da América do Sul e da África.

Uma comparação honesta de Cuba com outro país deve tomar como parâmetro não os EUA ou a Inglaterra, mas sim países como o Haiti e Trinidad e Tobago, por exemplo.

O que encontramos, então, ao comparar a "pobreza" dos cubanos com a literal miséria do restante da América? Cuba possui o melhor sistema de saúde público e gratuito de todo o continente. Seu sistema educacional gratuito abrange toda a população. Seu índice de analfabetimo é o menor da AL, assim como da desnutrição infantil. Seu índice de desenvolvimento humano (IDH) também é o maior.

Isso seria "dar certo" ou não?

Vemos que isso depende dos parâmetros de avaliação, e também do para quem dá certo.

Confira neste link uma lista mais completa dos indicadores sociais cubanos:


Vejamos agora o caso da União Soviética, URSS.

O socialismo na URSS

A Rússia virou o século XX como um país semi-feudal, que ainda possuía um tsar. A revolução ocorreu em 1917. O país passou por difíceis períodos de guerra civil, perdeu mais de 25 milhões de pessoas na II Guerra Mundial, foi devastado com a invasão alemã, mas mesmo assim se tornou uma potência mundial, contando apenas com suas próprias forças para isso, ao contrário dos países imperialistas que receberam uma boa fatia do Plano Marshall para se reerguer.

Seu avanço tecnológico chegou a tal ponto que foi o primeiro país a enviar o homem para o espaço (o astronauta Yuri Gagárin), em 1961.

Vejam bem: de semi-feudal em 1917, ano da revolução, a URSS estava enviando o homem para o espaço em 1961.

Num espaço de apenas quatro décadas o país, sob o socialismo, saiu do arado de madeira para o espaço sideral.

Um documentário recente da BBC - insuspeita de quaisquer simpatias pela União Soviética - mostra que a URSS foi a verdadeira vencedora da corrida espacial, e não os EUA.

Neste parâmetro de avaliação, isso seria "dar certo" ou não?

Além de tudo aquilo que conhecemos através dos livros sobre os sistemas de saúde, de educação, de transportes, etc, já tive a oportunidade de conversar diretamente com um soviético (com quem trabalhei por um tempo) sobre como era a vida em seu país.

Ele, um cidadão comum da URSS, me disse que não conhecia pessoalmente nenhum indivíduo que não pudesse fazer faculdade, por exemplo. Me disse que não conhecia ninguém desempregado, e que o grande problema lá é que até faltava mão-de-obra. Lá ninguém era rico, mas também ninguém era "pobre".

É verdade que tanto na URSS como em todo o leste europeu houve um retrocesso ao capitalismo. Mas isso de forma alguma é um sinal de que o socialismo "não deu certo". O próprio capitalismo sofreu inúmeros retrocessos históricos antes de se estabelecer.

O socialismo no Leste Europeu

No caso do leste europeu há importantes fatores que determinaram este retrocesso e que quase nunca são mencionados neste tipo de discussão.

Em primeiro lugar, o leste europeu não se tornou socialista através de revoluções populares decorrentes de um amplo trabalho de massas, apesar do enorme apoio dos partidos comunistas entre o povo. O socialismo foi implantado nesses países principalmente em virtude das circunstâncias existentes na Europa ao final da II Guerra Mundial.

Antes do término da guerra, esses países estavam sob governos fascistas, implantados por Hitler. Na famosa Conferência de Yalta chegou-se à conclusão de que eles não poderiam ser deixados "sozinhos" após a guerra, sob o risco da ameaça fascista ressurgir naquela região. Fixou-se então que a URSS ficaria encarregada por ela.

No entanto, os partidos comunistas desses países se encontravam desbaratados. Vários dos seus principais quadros e lideranças haviam sido assassinados pelos fascistas. Este foi um dos importantes fatores que não permitiram que o socialismo seguisse um rumo diferente do que poderia em condições normais.

Mas mesmo assim, quando comparamos o nível de desenvolvimento industrial desses países antes e depois da guerra (períodos capitalista e socialista), vemos como o socialismo avançou a indústria dessa "periferia" da Europa.

(A propósito, veja alguns dados comparando a situação do leste europeu nos períodos do socialismo e da volta ao capitalismo: Capitalismo, golpe fatal no Leste Europeu)

Além disso, ao contrário do que alguns costumam afirmar, não se pode considerar todo o leste europeu como "várias experiências" socialistas. Apesar das particularidades de cada país, todos constituem uma única experiência socialista, a experiência de praticamente um único modelo.

Enfim, o que essas e todas as experiências socialistas mostraram e continuam mostrando é que, ao contrário do que dizem, o socialismo é um sistema exequível.

A história não segue linearmente, isso é, como se fosse uma linha reta. O curso histórico talvez seja mais parecido com uma espiral, com seus recuos momentâneos. O próprio capitalismo sofreu diversos golpes e contra-revoluções, levando séculos para se estabelecer completamente. Por que esperar então que o socialismo fosse estabelecido de uma vez por todas com um só golpe?

Como o capitalismo dá certo

Para finalizar, apresento agora alguns dados sobre o capitalismo e inverto a pergunta: o capitalismo "dá certo"? O capitalismo "funciona"? O que seria "dar certo" no capitalismo? Ele "funciona" para quem?


População mundial: 6,8 bilhões, dos quais:

  • 1,02 bilhão têm desnutrição crônica (FAO, 2009)
  • 2 bilhões não têm acesso a medicamentos (www.fic.nih.gov)
  • 884 milhões não têm acesso a água potável (OMS/UNICEF 2008)
  • 924 milhões de "sem teto" ou que vivem em moradias precárias (UN Habitat 2003)
  • 1, 6 bilhão não tem eletricidade (UN Habitat, “Urban Energy”)
  • 2,5 bilhões não tem acesso a saneamento básico e esgotos (OMS/UNICEF 2008)
  • 774 milhões de adultos são analfabetos (www.uis.unesco.org)
  • 18 milhões de mortes por ano devido à pobreza, a maioria delas de crianças com menos de 5 anos (OMS)
  • 218 milhões de crianças, entre 5 e 17 anos, trabalham em condições de escravidão ou em tarefas perigosas ou humilhantes, como soldados, prostitutas, serventes na agricultura, na construção civil ou na indústria têxtil (OIT: A Eliminação do Trabalho Infantil: Um Objetivo a Nosso Alcance, 2006)
  • Entre 1988 e 2002, os 25% mais pobres da população mundial reduziram sua participação na riqueza global de 1,16% para 0,92%, enquanto que os 10% mais ricos acrescentaram mais riquezas, passando de 64,7 para 71,1% da riqueza produzida mundialmente. O enriquecimento de poucos tem como reverso o empobrecimento de muitos.
  • Só esse 6,4 % de aumento da riqueza dos mais ricos seria suficiente para duplicar a renda de 70% da população da Terra, salvando inumeráveis vidas e reduzindo as penúrias e sofrimentos dos mais pobres. Entenda-se bem: tal coisa seria obtida se tão só fosse redistribuído o enriquecimento adicional produzido entre 1988 e 2002, dos 10% dos mais ricos do planeta, deixando intactas suas exorbitantes fortunas. Mas nem sequer algo tão elementar como isso é aceitável para as classes dominantes do capitalismo mundial.

Che: un hombre nuevo.

Posted: 6.10.10 by Glauber Ataide in
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Trailer do novo documentário sobre Che Guevara.

"Nas grandes lutas latino-americanas encontra-se homens de ação que deram tudo de si, inclusive sua própria vida, e encontra-se também grandes teóricos que escreveram e levaram a uma reflexão mais profunda das idéias libertárias. Mas no Che confluíram as duas coisas: era um homem que enquanto estava no meio de um combate estava escrevendo, e que enquanto estava tomando uma decisão central para sua subsistência, estava fazendo uma crítica ao manual de economia marxista que chegava da URSS."

Tristán Bauer, diretor

A canção que dá nome a este blog

Posted: 25.9.10 by Glauber Ataide in
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Compartilho abaixo a música "Perfeição", da Legião Urbana, a qual dá nome a este blog. Encontrei este vídeo de excelente qualidade fornecido pela própria EMI no Youtube, mas como ele não pode ser incorporado em sites externos será necessário um clique a mais para assistí-lo. :) (Mais informações sobre o nome do blog no link "Sobre o blog").

Urbana Legio omnia vincit!

Enjoy :)


Passado que não passa...

Posted: 23.9.10 by Glauber Ataide in
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Às vezes é difícil nos desvincilharmos de algumas heranças do passado, das quais gostaríamos de nos ver livres o quanto antes.

São companhias, assuntos e situações que parecem nos arrastar para um tempo do qual não temos a menor saudade, que poderia ter sido diferente ou simplesmente não ter acontecido.

Certa vez li uma pequena análise sobre a obra "Drácula", de Bram Stoker, que nunca mais esqueci. Talvez por retratar perfeitamente isso que tento explicar.

O autor, Richard Noll, em seu livro "O culto de Jung", dizia o seguinte:

"Rei dos vampiros, Drácula é o perfeito horror cultural do fim de século: algo que, embora continue vivo há séculos, ainda assim está morto; um morto-vivo que suga a vitalidade dos vivos, tal como fazia a própria civilização europeia."

Essa é uma imagem perfeita para o que me refiro. Um passado que nos persegue não é nada mais que isso: um morto que permanece vivo e suga nossa energia vital. Um fardo, um parasita, um hospedeiro que vive sobre nossos ombros e que lutamos e sacudimos com violência para lançar ao chão, mas que sempre volta.

É possível derrotar a pobreza sob o capitalismo?

Posted: 21.9.10 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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As pessoas mais realistas acompanharam o estabelecimento pela Organização das Nações Unidas, em 2000, das chamadas Metas do Milênio, para combater a pobreza e a fome no mundo até 2015, com uma pergunta: este é um objetivo viável sob o domínio do sistema capitalista?

A cúpula sobre os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio iniciada ontem (20) na sede da ONU, em Nova York, com a presença de representantes de 140 países, é parte da resposta àquela pergunta. Faltam cinco anos para o cumprimento daquele prazo; neste período o mundo assistiu ao auge da hegemonia neoliberal e também ao início de sua derrocada com a grave crise econômica que, com epicentro nos EUA, varreu o mundo e arrasou algumas economias, principalmente as mais ricas e desenvolvidas.

É nesse contexto que o secretário geral da ONU, Ban Ki Moon apresentou um balanço sóbrio, para dizer o mínimo, do cumprimento daquelas metas. Ressaltando que parte do compromisso está sendo cumprido (a luta contra a pobreza) ele lamentou a dificuldade para alcançar os demais (acesso à educação, igualdade de gêneros, a melhoria dos serviços básicos de saúde, luta contra doenças como a Aids e a malária, elevação da qualidade de vida e o respeito ao meio ambiente). Investindo contra a falta de empenho dos países ricos, afirmou que será necessário um financiamento que ultrapassa 100 bilhões de dólares para que as metas sejam cumpridas no prazo.

Mas não vai dar - é o que se depreende da posição de governantes como a alemã Angela Merkel, que foi clara em seu discurso: as metas não serão atingidas, disse ela. O problema, afirmou, não é o dinheiro, mas o que fazer com ele. Enquanto o primeiro ministro da Noruega, Jens Stoltenberg, repetia as palavras de sua colega alemã, o representante do governo dos EUA dizia que o presidente Obama não deve fazer doações para completar o volume de recursos necessários.

No outro extremo, Evo Morales, presidente de um dos países mais pobres do planeta, a Bolívia, foi ao ponto: o fim da pobreza só é possível com a mudança do sistema político e econômico. “Se não mudam as condições nunca poderemos superar a pobreza”, disse, criticando a voracidade dos países ricos em se apropriar dos recursos naturais dos países em desenvolvimento e exigindo o cumprimento do compromisso daqueles países destinarem 0,7% do PIB para implementar aquelas metas. “Não se trata de dar um presente, mas isto é parte da dívida que têm” com os demais países, disse.

O estabelecimento de metas tão ambiciosas quanto aquelas adotadas há uma década ajuda a entender a dinâmica do sistema hegemônico no mundo, o capitalismo, suas limitações e também as ilusões daqueles que as formulam.

O capitalismo é hegemônico há uns três séculos; há cem anos, o imperialismo emergiu e passou a conduzir a expansão planetária desse sistema; há dez anos, o neoliberalismo, carranca mais selvagem e agressiva do domínio do dinheiro, parecia imbatível. Esse desenvolvimento deixou um rastro de pilhagem dos povos, miséria crescente e desorganização da vida em quase todo o planeta. O domínio capitalista aprofundou as desigualdades e a miséria no mundo, sendo a causa e o fator do aumento da pobreza; hoje, em cada grupo de seis seres humanos, um passa fome (925 milhões, segundo a ONU) justamente porque a expansão da produção voltada para o mercado e para a remuneração do capital destruiu suas formas tradicionais de vida. Este é o papel histórico do capitalismo - superar formas rotineiras de produzir e aumentar a produtividade. Mas o passo seguinte só será possível com sua superação e o início de uma nova forma, superior, de organização da vida, da produção e da distribuição da riqueza.

Entretanto, esse patamar civilizatório mais avançado da humanidade não será alcançado nos salões badalados de cidades como Nova York, mas no duro combate dos povos e dos trabalhadores por seus direitos, em busca de uma nova ordem econômica e política que derrote o sistema imperialista e assegure as condições para uma vida digna para todos.

Capitalismo verde é sujeira: Marina e Gabeira

Posted: 19.9.10 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Agora todo mundo capitalista deu para ser verde.

A General Eletric prega a "ecoimaginação", ou este oxímoro insano: "carvão limpo". Na propaganda ela põe um elefantão cantando "Singing in the rain".

O barão da mídia, Murdoch, que está louquinho para derrubar Chávez, declarou: "sinto orgulho de ser verde".

É impossível existir capitalismo sem toxina.

A mistificação do capitalismo verde é reproduzida por aqui com Gabeira e Marina. Como é que alguém a favor do lucro capitalista evangélico pode falar em natureza? A única coisa verdecoevangélica que existe é a nota verde do dólar.

Marina é pró-capitalismo, portanto é antiecológica. Seus assessores almofadinhas e janotas são udenistas e tucanos de corpo e finanças, portanto contra a minhoca, o arado natural, Eles são entusiastas da Monsanto que inventou o herbicida round up devastador da natureza e que financia a biotecnologia e a engenharia genética.

Marina, me dizia Marcelo Guimarães, não moveu uma palha pelo projeto das micro-destilarias a álcool em pequenas propriedades; agora ela se diz devota do álcool e óleos vegetais, só que produzidos em economia de escala com plantation latifundiária para exportação multinacional.

Marina é adversária da reforma agrária radical, portanto joga no time do ecocídio, Serra batalhou pela aprovação da lei das patentes para felicidade das grandes corporações multinacionais na Câmara e Senado.

A agricultura capitalista multinacional arruína a terra e envenena as pessoas. Tudo isso sob o comando dos grãos geneticamente manipulados pela Monsanto, que é a Rede Globo da agricultura.

A juventude não poderá cair na esparrela agrobiocancerigenotucano. O descalabro da natureza é causado pelo regime social chamado capitalismo, por conseguinte crítica ecológica que não seja anticapitalista é conversa de urubu com bode.

E Gabeira? É a ideologia pós-moderna do Banco Mundial em ação, que no Rio de Janeiro é a expressão da burguesia comercial e imobiliária, de onde provêm Carlos Lacerda e César Maia.

Nunca entendi a notoriedade de Gabeira. Chegou da Suécia de tanguinha de crochê na praia pousando de "candidato jovem" pré-Collor para destruir os CIEPs de Darcy Ribeiro.

Glauber Rocha tinha a maior bronca dele porque queria tacar fogo no filme Terra em Transe. Glauber dizia que a ambição de Gabeira era freqüentar a casa de Caetano Veloso, que convenhamos não é o barraco de Goethe.

Glauber escreveu: "traíram Jango em 1964 e 1974, destruíram o projeto de nação que ficou no esqueleto do Gabeira".

Sobre as flores do estilo, pergunto quem foi o gênio linguista que bolou o mote gerundiano da campanha de Dilma? Refiro-me à palavra de ordem: "Para o Brasil seguir mudando". Que coisa feia. É isso que dá colocar campanha política em agência de publicidade.

Gilberto Felisberto Vasconcellos é sociólogo, jornalista e escritor.

Fonte: Caros Amigos

Política x Administração

Posted: 9.9.10 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Assim como o rei Midas transformava em ouro tudo o que tocava, o capitalismo transforma em mercadoria tudo aquilo em que põe as patas. E quando não transforma exatamente em mercadoria, transforma em algo relacionado à produção de mercadorias.

Na política isso não poderia ser diferente, claro. E isso se nota inequivocadamente agora quando ouvimos nos debates eleitorais sobre quem é o candidato "mais preparado".

Isso é um tremendo engodo, uma tremenda enganação. Os capitalistas pretendem reduzir política a administração, o que é um erro. A política engloba a administração, mas não se reduz a isso.

Da mesma maneira que o sucesso das ciências naturais no século XIII influenciava as ciências humanas a seguirem os seus métodos, o capitalismo tem induzido a se pensar na administração de um país como na administração de uma grande empresa, e aí o melhor administrador seria o melhor presidente.

Não irá demorar muito para que apareça alguém com a proposta de que o cargo de presidente seja preenchido por concurso público.

A orientação política de um país é algo que não se enquadra dentro da mera administração. Um presidente, além do mais, não governa sozinho. Ele tem toda uma equipe consigo para tratar dos setores estratégicos do país. É importante que esses ministros sejam técnicos competentes, bons administradores, assim como seus deputados e senadores. Mas que também sua orientação política seja a mesma do presidente.

Tirar o foco do debate da orientação política para o preparo administrativo é fugir do principal. É talvez medo de que a orientação política de alguns candidatos não encontrem eco na sociedade.

Socialismo para os ricos e capitalismo para os pobres

Posted: 26.8.10 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Foi com estes termos que ninguém menos que o vice-presidente dos EUA, Joe Biden, definiu a política estadunidense de socorrer os bancos durante a crise. Em uma entrevista ao programa de televisão "The Daily Show", Biden reconheceu que as medidas que retiraram trilhões de dólares dos cofres públicos para injetar nos bancos foram necessárias para evitar o colapso do sistema financeiro: "Porque se nós não os tivéssemos socorrido, estaríamos numa posição em que haveria não apenas uma recessão, mas literalmente uma depressão". E se lembrou de uma "grande expressão" que era muito utilizada por seu avô: "É socialismo para os ricos e capitalismo para os pobres."

E os números corroboram a justeza da análise de Biden: apesar da euforia de alguns economistas que falam sobre uma suposta recuperação da economia estadunidense, se baseando apenas na revalorização das ações e dos lucros obtidos pelos bancos, os EUA devem fechar o ano de 2010 com a taxa de desemprego na casa dos 10%. Antes da crise este percentual estava abaixo de 5%.

Durante a crise as perdas foram socializadas. Mas agora, no período de recuperação, os lucros são novamente privatizados, e uma enorme massa de desempregados ainda não consegue se realocar no mercado de trabalho. E como se não bastasse, grande parte desses desempregados também aparece nas estatísticas de despejos que, segundo especialistas, deve gerar até o final de 2010 mais de 1 milhão de novos sem-teto. Os ricos se recuperam (às custas do estado), mas os trabalhadores não. Socialismo para os ricos, capitalismo para os pobres.

(O vídeo da entrevista de Biden está disponível aqui.)