Impunidade é a maior causa da violência?

Posted: 4.4.11 by Glauber Ataide in Marcadores: , , ,
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Quem já conversou com brucutus fascistas sabe que é muito difícil fazê-los entender coisas simples, básicas, elementares. O fascismo se caracteriza pelo irracional.

Hoje, ao ouvir na TV a afirmação de que "a impunidade é a maior causa da violência", me ocorreu desenhar o esquema abaixo, tornando assim mais fácil à "elite intelectual brasileira" (a classe média se considera assim) compreender por que a proposta marxista para acabar com a violência faz mais sentido que a deles. (Eu acredito na educação, sou incorrigível nisso. Chego a ponto de acreditar que alguns poucos fascistas são recuperáveis.)

Reparem que enquanto o fascista quer acabar com a violência matando o pobre, os comunistas querem fazê-lo acabando com a pobreza.

E por último, vejam que a lógica não é o forte dos arianos tupiniquins: eles não atacam a causa do problema, mas tentam reforçar seu efeito, pensando que assim o ciclo será interrompido. Já disse que eles são uns brucutus, não?

Clique na imagem para ampliar.

Auxílio-reclusão: você já recebeu este e-mail?

Posted: 1.4.11 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Escrevo isso porque já recebi este e-mail pelo menos cinco vezes. Seu autor, provavelmente um fascistóide pseudo-revoltado-médio-classista-pequeno-burguês, esbraveja por a Previdência Social oferecer o chamado "Auxílio-reclusão" para os dependentes do segurado em situação de reclusão.

Tanto o autor quanto os forwarders dessa idiotice até hoje não devem ter tido tempo de ler o link que eles próprios nos repassam, e por isso ainda não perceberam que isso se trata de um seguro como qualquer outro, e nada mais. E tenho certeza que eles também não reclamam de nenhum outro tipo de seguro, como aqueles privados que eles próprios contratam.

Se num seguro de vida privado uma pessoa paga todo mês determinado valor e, em que caso de óbito, seus familiares recebem a quantia estipulada no contrato, com o auxílio-reclusão da Previdência acontece algo semelhante, pois ele é um seguro. O segurado, que só pode ser um trabalhador, paga sua contribuição todos os meses e, caso aconteça de ser preso por alguma razão, sua família não fica desamparada.

O que é muito racional, pois a família inteira não pode ser penalizada por um crime que não cometeu e, além disso, sem esse seguro eles teriam maior probabilidade de também se tornarem criminosos. Esta lei visa impedir o crescimento exponencial da criminalidade, isso é, que se torne uma bola de neve. Qual o futuro de uma criança que fica desamparada quando seu pai vai preso? Escola, trabalho na rua ou criminalidade?

Esses médio-classistas reclamam porque não sabem ler direito (pergunte o nome dos 10 últimos livros que leram e confirme). Enviam até o link do site da Previdência para dar credibilidade à bobagem que estão dizendo, mas eles próprios não leem o que enviam.

Pensam que qualquer preso teria direito a esse auxílio, acusando o governo de conivência com a "vagabundagem" (termo sempre presente na boca da direita) e com o crime, o que seria absurdo.

Psicologicamente eles tem a sensação de estar descobrindo informação privilegiada, um segredo que a "mídia" não divulga e que eles, desbravadores e elite intelectual do país, estão trazendo à luz.

Não, meu caros: isso é apenas um seguro, como várias empresas privadas fazem. É um seguro para trabalhadores. Uma das condições para os dependentes do segurado receberem o benefício é não "estar recebendo salário da empresa na qual trabalhava".

No site Observatório Social encontramos a informação de que este benefício, além de ser antiquíssimo, também existe em outros países.

Vários decretos-leis em plena ditadura militar - para deleite daqueles médio-classistas que adoram lamber um coturno - alteraram dispositivos dessa lei, mas não revogaram a tal "aberração".

Sugiro que os leitores deem uma olhada no texto a que nos referimos.




Esperando por mim - o mal do século e a imortalidade

Posted: 9.3.11 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Reproduzimos abaixo trechos do livro Depois do fim - Vida, amor e morte nas canções da Legião Urbana que analisam a canção "Esperando por mim", do último e melancólico álbum "A tempestade", da Legião Urbana.



Esperando por mim

Acho que você não percebeu
Que o meu sorriso era sincero
Sou tão cínico às vezes
O tempo todo
Estou tentando me defender

Digam o que disserem
O mal do século é a solidão
Cada um de nós imerso em sua própria arrogância
Esperando por um pouco de afeição

Hoje não estava nada bem
Mas a tempestade me distrai
Gosto dos pingos de chuva
Dos relâmpagos e dos trovões

Hoje à tarde foi um dia bom
Saí pra caminhar com meu pai
Conversamos sobre coisas da vida
E tivemos um momento de paz

É de noite que tudo faz sentido
No silêncio eu não ouço meus gritos

E o que disserem
Meu pai sempre esteve esperando por mim
E o que disserem
Minha mãe sempre esteve esperando por mim
E o que disserem
Meus verdadeiros amigos sempre esperaram por mim
E o que disserem
Agora meu filho espera por mim
Estamos vivendo
E o que disserem os nossos dias serão para sempre.


Em primeiro lugar, chama a atenção a referência direta que Renato Russo faz ao mal do século, o que reforça sua posição na tradição de letrista de orientação romântica (e em alguns momentos deste disco, da 2ª geração do romantismo).

O mal do século, no romantismo da 2ª geração, se identifica por temas como a depressão, a morte, o ódio, o grotesco, o absurdo, a noite, o amor não correspondido, etc. Um dos principais expoentes do gênero no Brasil foi Álvares de Azevedo .

Renato apresenta, no entanto, uma própria definição do que seja o mal do século: "Digam o que disserem / O mal do século é a solidão".

"'Esperando por mim' (8º álbum) prega a eternidade através das gerações que virão. É uma possibilidade de estar vivo para sempre no outro: 'Meu pai sempre esteve esperando por mim / E o que disserem / Minha mãe sempre esteve esperando por mim / E o que disserem / Meus verdadeiros amigos sempre esperaram por mim / E o que disserem / Agora meu filho espera por mim / Estamos vivendo e o que disserem / Os nossos dias serão para sempre'.

"Pai representa a segurança e a ordem; mãe, o aconchego e a paz; amigos, a força; filho, a certeza da perpetuação. Os dias serão para sempre, porque haverá a lembrança deles nas pessoas que ficam. É o mesmo olhar de carinho, de compreensão de 'Pais e filhos' (4º álbum). A chave da harmonia: aceitação das diferenças entre as gerações. Pais igual ao passado, amigos igual ao presente, filho igual ao futuro." (p. 122, grifo nosso)

Esta leitura realizada pelas autoras me remeteu diretamente a um trecho da obra "O banquete", de Platão. Em um diálogo com Diotima, Sócrates afirma que o amor é o desejo de imortalidade. Através do amor as criaturas se reproduzem, e essa é a forma do mortal imitar o imortal. O mortal pode prolongar sua existência apenas através da procriação.

As autoras também mostram como Renato Russo se enquadra na tradição romântica:

"A letra caracteriza bem o eu romântico ao desenvolver um discurso irônico: 'Acho que você não percebeu / Meu sorriso era sincero / Sou tão cínico às vezes / O tempo todo / Estou tentando me defender', o que está de acordo com os sentimentos românticos de marginalidade, de desilusão e de tédio: 'O mal do século é a solidão / Cada um de nós imerso em sua própria arrogância / Esperando por um pouco de afeição'. Versos sínteses da visão romântica, do eu-lírico como possuidor de um mal incurável." (p. 122)

E também neste trecho:

"A noite também é o grande espaço do eu romântico: 'É de noite que tudo faz sentido / No silêncio eu não ouço meus gritos / E o que disserem'. Ele busca no silêncio a paz que não está no seu interior. É uma tentativa do externo dar conta do interno." (p. 30)

O eu-lírico pode se esquecer por um momento de todas as suas perturbações através do trabalho. Os versos "Hoje não estava nada bem / Mas a tempestade me distrai" parece fazer referência ao título do álbum em que o autor estava trabalhando, "A tempestade".

Já nos seguintes versos podemos ver atuando um mecanismo de defesa do ego denominado pela Psicanálise de projeção: "O mal do século é a solidão / Cada um de nós imerso em sua própria arrogância / Esperando por um pouco de afeição". Isso é, o eu-lírico universaliza a sua própria experiência interna. Ele se considera, conscientemente ou não, um indivíduo que em sua solitária arrogância está na verdade esperando por afeição, e a partir disso aplica essa sua própria característica a todos os seus interlocutores e se defronta com isso como se estivesse vindo de fora..

(CASTILHO, Angélica, SCHLUDE, Erica. Depois do fim. Vida, amor e morte nas canções da Legião Urbana. Rio de Janeiro: Hama, 2002.)

Da série "Contradições do Capitalismo" - Parte I

Posted: 7.3.11 by Glauber Ataide in Marcadores: , , , ,
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O segredo para não se endividar é "administrar" bem o que você ganha. Ou pelo menos é isso que os "especialistas" nos ensinam nos quadros dos telejornais. Mas vamos prestar bem atenção no que esses "especialistas", papagaios do óbvio, estão propalando na mídia burguesa.

Reparem que a questão dos baixos salários nunca é apontada como pelo menos um dos principais fatores do decadente nível de vida da população. Parte-se do pressuposto que não há nada de errado com o sistema econômico. E como a ideologia burguesa cultua o individualismo à Robinson Crusoé desde os seus fundamentos, quando o cidadão se endivida o problema é dele, somente dele, foi causado por ele e por mais ninguém.

Mas vamos abstrair este quadro e fazer uma análise social, global (ou seja, marxista) deste fenômeno.

Os indivíduos são compelidos a comprarem sempre mais e mais para que a roda da economia capitalista não pare de girar. Se as pessoas compram menos, isso compromete o sistema capitalista, que vive de lucros e precisa vender cada vez mais.

Mas essas pessoas não tem dinheiro para comprar sempre mais e mais, como o capitalismo exige. Vejam então uma das grandes contradições deste sistema: de um lado temos uma enorme quantidade de mercadorias que precisam ser consumidas, e do outro, uma enorme quantidade de consumidores que não tem dinheiro para comprar essas mercadorias.

Mas isso ainda não é o pior: esses consumidores, que não tem dinheiro para comprar essas mercadorias, são, ao mesmo tempo, os seus próprios produtores! Resumindo: os trabalhadores produzem uma enorme quantidade de mercadorias, mas eles próprios não conseguem comprar todas essas mercadorias porque não tem dinheiro, porque seus salários são baixos.

Os capitalistas, por sua vez, não conseguem vender todas as suas mercadorias porque pagam baixos salários aos trabalhadores. Mas se não fizessem isso teriam os seus lucros diminuídos.

Isso é a insanidade. O capitalista então contrata o "marketeiro" (que se apropriou indevidamente até de algumas descobertas da psicanálise) para vender o seu peixe, e faz de tudo para forçar esses trabalhadores a comprarem o seu produto. Nem que para isso seja necessário recorrer ao crédito.

Aí entra o espertalhão do capital financeiro, a mais pura expressão do parasitismo a que chegou o capitalismo desde o início do século passado. Este indivíduo faz dinheiro gerar dinheiro sem passar pelos processos de produção. É alguém completamente dispensável num outro tipo de sociedade, na qual todos devem trabalhar (socialismo).

Este vampiro suga grande parte da energia vital dos trabalhadores, e se enriquece dia após dia apenas de juros. Ele é uma peça fundamental para o capitalista que trabalha na produção, pois sem ele grande parte de suas mercadorias não encontraria saída de seu estoque.

O trabalhador empobrecido, seduzido para ter um pouco além de apenas arroz e feijão (já que ele vive numa sociedade que tem condições de lhe proporcionar isso), acaba se endividando. E a culpa é dele, segundo os "especialistas".

Qual a solução burguesa para isso? Resp: O trabalhador deve se contentar com o arroz e o feijão, deve trabalhar apenas para sobreviver. Mas notem que se os trabalhadores realmente fizessem isso e parassem de consumir, o capitalismo entraria em crise.

Então o trabalhador não pode parar de consumir, mas também não pode se endividar. E aí?

Estas são algumas das grandes contradições do capitalismo, que só podem se harmonizar com a revolução do modo socialista de produção. No capitalismo a produção é coletiva mas a apropriação é privada. Ou seja, os trabalhadores produzem as mercadorias, mas não podem consumi-las porque elas pertencem ao capitalista e não a eles próprios, os produtores.

Já no socialismo, como a produção é coletiva e a apropriação também é coletiva, não há tal problema. Além do que, estando o ser humano em primeiro lugar, tudo é produzido para o seu consumo, e não para o lucro, como ocorre no capitalismo.

Charge sobre Marx

Posted: 4.3.11 by Glauber Ataide in Marcadores: , , ,
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Essa é a 11ª tese de Marx sobre Feuerbach: "Os filósofos até hoje se limitaram a interpretar o mundo. A questão, porém, é transformá-lo." Clique aqui para ver todas as teses.


Psicologia de massas do fascismo, de Wilhelm Reich - uma resenha

Posted: 2.3.11 by Glauber Ataide in Marcadores: , , , ,
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A importância do estudo do fascismo não é meramente histórica. A definição de fascismo dada pelo psicanalista marxista Wilhelm Reich, como "a expressão da estrutura irracional do caráter do homem médio, cujas necessidades biológicas primárias e cujos impulsos têm sido reprimidos há milênios", deixa claro que o fascismo é um fenômeno atual, quer apresente-se de forma aberta ou apenas latente.

Ou seja, aquele fascismo de ontem, destruído na II Guerra Mundial pelos comunistas da URSS, é o mesmo fascismo de hoje, e tem todas as possibilidades de se reorganizar como outrora sob Hitler. Daí a importância de compreendê-lo, de dominá-lo teoricamente, para então melhor combatê-lo.

É isso o que Reich afirma: "O fascismo só pode ser vencido se for enfrentado de modo objetivo e prático, com um conhecimento bem fundamentado dos problemas da vida." (p. XX)

A abordagem de Reich sobre o fascismo é riquíssima, se configurando como uma genial síntese entre Marx e Freud, entre marxismo e psicanálise. Seu livro "Psicologia de massas do fascismo" foi escrito e publicado no início da década de 1930, enquanto o fascismo era ainda incipiente, e antes também de causar todas aquelas atrocidades que chocariam o mundo anos depois. Isso mostraria, mais tarde, a justeza da análise de Reich.

Nesta obra ele responde a questões fundamentais sobre o fascismo e o seu surgimento, coisas que em sua época não era possível responder com a análise apenas econômica do chamado "marxismo vulgar".

Algumas dessas questões eram: como foi possível o surgimento do fascismo, sendo ele não um pequeno movimento associado a Hitler ou a Mussolini, mas sim um movimento de amplas massas? Como puderam as massas empobrecidas se alinhar com um discurso completamente contrários aos seus próprios interesses de classe? Por que Hitler foi mais eficiente do que o Partido Comunista em alcançar uma vasta audiência antes apolítica?

Essas perguntas eram de importância fundamental, principalmente dentro do Partido Comunista da Alemanha, do qual Reich era o editor da revista de psicologia.


A clivagem

Um ponto fundamental da análise de Reich para responder a essas questões é o que ele chama de "clivagem" da situação econômica com a situação ideológica do trabalhador.

Isso é, seria de se esperar que o trabalhador empobrecido, diante do trabalho de agitação e propaganda do partido comunista, desenvolvesse uma clara consciência de sua situação social, a qual se tranformaria numa determinação revolucionária de se livrar de sua própria miséria social.

Mas o contrário aconteceu na Alemanha de Hitler, e ainda hoje acontece, com frequência. Mas por quê? O que causa essa chamada clivagem entre a situação econômica e a ideológica do trabalhador?

Reich explica essa clivagem apontando para a estrutura de caráter do homem médio, que tem como um dos principais fatores a sexualidade reprimida.

Esta estrutura de caráter, gestada há milênios sob uma sociedade patriarcal, é utilizada de forma eficiente pela ideologia imperialista para servir aos seus propósitos.


A função social da repressão sexual

O marxista Reich compreende perfeitamente que são as condições materiais que determinam a superestrutura ideológica de toda sociedade. Mas é baseando-se em Sigmund Freud que ele vai dizercomo isso acontece na mente do indivíduo, e também como a ideologia afeta a estrutura econômica. Munido com as revolucionárias descobertas de Freud sobre o inconsciente e a sexualidade infantil, Reich afirma:

"A inibição moral da sexualidade natural na infância, cuja última etapa é o grave dano da sexualidade genital, torna a criança medrosa, tímida, submissa, obediente, "boa", e "dócil", no sentido autoritário das palavras. Ela tem um efeito de paralisação sobre as forças de rebelião do homem, porque qualquer impulso vital é associado ao medo; e como sexo é um assunto proibido, há uma paralisação geral do pensamento e do espírito crítico. Em resumo, o objetivo da moralidade é a criação do indivíduo submisso que se adapta à ordem autoritária, apesar do sofrimento e da humilhação. Assim, a família é o Estado autoriário em miniatura, ao qual a criança deve aprender a se adaptar, como uma preparação para o ajustamento geral que será exigido dela mais tarde. A estrutura autoritária do homem é basicamente produzida - é necessário ter isso presente - através da fixação das inibições e dos medos sexuais na substância viva dos impulsos sexuais." (p. 28, grifo nosso)

[...]

"O resultado é o conservadorismo, o medo de liberdade; em resumo, a mentalidade reacionária." (p. 29, grifo nosso)

O efeito, então, da ideologia sobre a base econômica e que vai gerar essa clivagem é resumida dessa forma:

"...a inibição sexual altera de tal modo a estrutura do homem economicamente oprimido, que ele passa a agir, sentir e pensar contra os seus próprios interesses materiais." (p. 30)


A estrutura familiar e o fascismo

Wilhelm Reich nos fornece inúmeras citações de panfletos nazistas da época para mostrar a importância dada pelo Partido Nacional-Socialista à estrutura familiar patriarcal, conservadora. Obviamente eles o faziam mais por "instinto" do que por um conhecimento psicológico profundo.

A partir da análise da família, Reich compreende a razão do fascismo ser um fenômeno típico da classe média-baixa: é devido à estrutura familiar autoritária deste estrato social.

Na família do operário, por exemplo, como a mulher precisa trabalhar e ele não sustenta a casa sozinho, o caráter patriarcal é menos influente do que na família de classe média.

A posição dos nazistas em temas como o aborto, por exemplo, deixa claro o que estava em jogo: a repressão sexual. Eles se manifestavam veemente contra o aborto e contra qualquer tipo de regulação da vida sexual.

Os nazistas pregavam o sexo apenas após o casamento, e eram a favor de um estrito controle sobre a sexualidade, combatendo o "bolchevismo cultural".

Reich identifica nisso que o homem médio não conhece a regulação da vida sexual - acha que tem que escolher ou a moral sexual repressiva ou a anarquia sexual, a libertinagem. Uma forma de maniqueísmo sexual.


Religião e misticismo

Os panfletos nazistas reproduzidos por Reich também mostram o quanto eles se apoiavam na religião e no misticismo.

Mas a psicanálise já havia desvendado o efeito psicológico ocorrido nas pessoas sob influência de cultos religiosos. Já havia mostrado a correlação entre as idéias de Deus como pai; de mãe de Deus como mãe e da Trindade como o triângulo familiar (pai, mãe e filho).

Isso é, "os conteúdos psíquicos da religião têm a sua origem nas relações familiares desde a primeira infância."

Reich, se baseando nas descobertas da psicanálise sobre a experiência psíquica da religião, afirma:

"...o homem religioso encontra-se num estado de total desamparo. Em consequência da total repressão da sua energia sexual, perdeu a capacidade para a felicidade e para a agressividade necessária ao combate das dificuldades da vida. Quanto mais desamparado ele se torna, mais é forçado a acreditar em forças sobrenaturais que o apóiam e o protegem. Assim se compreende que, em algumas situações, ele seja capaz de desenvolver um incrível poder de convicção; de fato, uma indiferença passiva com relação à morte. Essa força advém-lhe do amor às suas próprias convicções religiosas, que são sustentadas por excitações físicas altamente prazerosas. Mas ele acredita que essa força provém de 'Deus'. O seu anseio por Deus é, na realidade, o anseio originado pela sua excitação sexual anterior ao prazer e que exige ser satisfeito. A liberação não é, nem pode ser, mais do que a libertação das tensões físicas insuportáveis, que podem ser agradáveis enquanto puderem ser associadas a uma união imaginária com Deus, isto é, à satisfação e ao alívio. A tendência dos religiosos fanáticos para se flagelarem, para atos masoquistas, etc, só vem confirmar o que dissemos. A experiência clínica em economia sexual mostra que o desejo de ser espancado ou a autopunição corresponde ao desejo instintivo de alívio sem incorrer em culpa. Não há tensão física que não evoque fantasias de estar sendo espancado ou torturado, se o indivíduo em questão se sente incapaz de produzir por si próprio o alívio. É essa a origem da ideologia do sofrimento passivo, presente em todas as religiões." (p. 139-140)

[...]

"Em nenhuma classe social florescem as histerias e as perversões, tanto como acontece nos círculos ascéticos da igreja."

O misticismo e a religião reforçam a inibição sexual, a moralidade de submissão e a estrutura familiar patriarcal autoritária. Daí o enorme interesse do fascismo e de toda sorte de reacionarismo político em se utilizar dessas instituições para desarmar o proletariado e manter intacto, sem perturbações, o seu sistema de dominação.


Economia sexual no combate ao fascismo

Reich, como todo marxista, compreende que mais importante do que interpretar o mundo, o que importa é transformá-lo. Por isso sua obra não poderia deixar de apontar alguns caminhos para combater as bases do fascismo.

Vamos nos limitar a citar apenas uma das políticas de economia sexual que ele apresenta, que é resumida da seguinte forma:

"Se conseguimos eliminar o medo infantil da masturbação - o que tem como consequência o aumento da necessidade de satisfação sexual genital -, então o conhecimento intelectual e a satisfação sexual prevalecerão. À medida que desaparece o medo da sexualidade, ou o medo da antiga proibição sexual paterna, diminui também a crença mística." (p. 171)

"A consciência sexual e os sentimentos místicos são incompatíveis."

[...]

"Não nos interessa discutir a existência ou inexistência de Deus: limitamo-nos a suprimir as repressões sexuais e a romper os laços infantis em relação aos pais." (p. 172)

Para comprovar a justeza da linha de seu trabalho, Reich cita os resultados que ele vinha obtendo em seu trabalho de economia sexual com os operários e suas famílias.


Conclusão

Esta obra de Reich, em nosso entendimento, seria melhor se não tivesse sofrido as revisões que sofreu nas edições seguintes à original. À medida que se passam os capítulos, sua obra começa a se mostrar uma colcha de retalhos. Isso foi causado pelo afastamento de Reich do Partido Comunista da Alemanha e seu abandono do marxismo, que ocorreu entre uma edição e outra, num espaço de mais de 10 anos.

As críticas que Reich ensaia sobre a URSS, por exemplo, são em sua maioria descabidas, tendo ele incorrido no grave erro do reducionismo psicológico. E justamente ele, que tanto criticava os "marxistas vulgares" pelo reducionismo econômico.

Nos primeiros capítulos Reich é comunista; no último já abandonou completamente o comunismo e o marxismo, defendendo a teoria da "democracia do trabalho", inventada por ele mesmo. Isso comprometeu a coesão e a coerência de sua obra.

No entanto, permanece intocável o valor de sua análise do fascismo presente nos primeiros capítulos, sendo esta obra altamente recomendável a todos aqueles que pretendem empreender uma análise profunda do fascismo.

Fonte: O Marxista-Leninista (com adaptações)

Sou radical só para os superficiais

Posted: 2.2.11 by Glauber Ataide in Marcadores: , , ,
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Algumas pessoas já me disseram que acham minhas posições políticas muito "radicais". Talvez quisessem que eu defendesse reformas moderadas no capitalismo, a conta-gotas, para daqui a mil anos e muitas gerações, quem sabe, alcançar melhorias significativas na vida de todo o povo (o que, no final das contas, é uma ilusão, conforme nos mostra o mundo).

Mas não é nenhum mistério para os marxistas o por que dessas pessoas pensarem assim. Marx demonstrou que são as condições materiais, concretas, econômicas, que determinam a forma como as pessoas pensam. Isso é, a ideologia é um reflexo das condições materiais concretas. (Clique aqui para ver mais sobre isso.)

Assim, pessoas de classe média, pelo fato de não sofrerem com a miséria e tampouco serem ricas, costumam adotar posições sempre "moderadas", "no meio do caminho". Ou seja, suas posições políticas são quase sempre "medianas", assim como sua posição social.

Para elas é muito feio ser "radical". Isso é coisa de fanáticos. Você deve ter algum problema se pensa assim. O correto é ser moderado, estar ora para lá, ora para cá, sempre oscilando, numa falsa busca pelo "equilíbrio".

Mas refletindo um pouco mais sobre isso, percebi que não é que eu seja exatamente "radical", seja qual for o sentido que atribuem a este termo quando me reprovam. Acho que o termo correto seria "profundo".

Ser profundo significa ir às raízes das coisas. É neste sentido que sou radical. O próprio significado do termo "radical" indica isso, algo relativo a "raízes".

Quem não desce até às raízes fica ou na superfícialidade da análise ou sem possibilidades de respostas, estacionado no meio do caminho.

Daí uma das características do método filosófico ser a "radicalidade" (clique aqui para ler sobre isso).

Daí a Psicanálise não poder ser preterida pela farmacologia, pois enquanto a primeira busca as causas, a segunda ataca apenas os sintomas.

E daí, finalmente, a solução da exploração do homem pelo homem, da miséria e da desigualdade ser o Socialismo, e não reformas moderadas no capitalismo.

E analisando isso de uma perspectiva dialética, quem me chama de radical, pelo fato de descer às raízes, só pode dizer isso do ponto de vista de quem está mais acima, na superficialidade. Ou seja, só posso ser radical quando quem me chama assim está mais próximo da superfície do que eu.



She-ra, a Princesa do Poder - sua mensagem política

Posted: 19.1.11 by Glauber Ataide in Marcadores:
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No final do último ano comecei a comprar e (re)assistir alguns seriados da década de 80 que marcaram minha infância, numa espécie de "sessão revival". Comprei Jaspion, Changeman, He-man e She-ra, até agora.

Todos tem se mostrado tão bons hoje quanto eram na época em que os vi pela primeira vez. E da minha opinião compartilha também a minha filha, que gosta muito de todos.

Mas este último, particularmente, chamou minha atenção por seu conteúdo político que me era impossível analisar quando tinha 5 anos de idade, e do qual nada podia lembrar em anos posteriores.

Quem é She-ra

She-ra é o "alter-ego" da princesa Adora, a irmã gêmea do He-man. Quando era ainda um bebê foi roubada por Hordak e levada para uma outra dimensão, a qual nem a Feiticeira e nem ninguém em Etérnia (onde vive o He-man) podiam localizar.

A princesa, então, foi criada por Hordak e ensinada nos caminhos da Horda, que mantém uma ditadura opressora sobre o povo de Etéria.

Essa é a explicação da história. She-ra vive em Etéria porque foi roubada de seus pais, em Etérnia, por Hordak (que, inclusive, foi o mentor de Esqueleto). Assim, antes de se tornar uma heroína, ela servia às forças do mal, à ditadura opressora de Hordak.

De governista a rebelde

A conversão da princesa Adora acontece quando ela é desafiada por He-man (em um filme longa-metragem que conta sua história) a ir para o campo e ver com seus próprios olhos como era a vida do povo. Adora pensava que Hordak era do bem, e que os "maus" eram os inimigos "rebeldes".

Mas quando Adora, pela primeira vez em sua vida, sai da fortaleza para ver como era o mundo, não tem dúvidas de quem realmente é das forças do mal. Assim, com a ajuda de He-man, que lhe trouxera de Grayskull uma espada (parecida com a sua própria) para cumprir sua missão, ela rompe com a Horda e se junta à chamada Grande Rebelião, tornando-se assim a She-ra.

A Grande Rebelião

A chamada "Grande Rebelião" é literalmente um foco de guerrilha no meio de uma floresta chamada "Floresta do Sussurro". Ali se reúnem todos aqueles dispostos a enfrentar e derrubar a ditadura de Hordak.

Fazem parte da rebelião não apenas pessoas com super podereres (que são poucos), mas também os cidadãos comuns e os camponeses pobres, armados apenas com paus e pedras.

Seu objetivo é derrubar, através da luta, a ditadura de Hordak que oprime e cobra pesadíssimos impostos dos camponeses.

Bons valores para as crianças

Enquanto assistia aos primeiros episódios de She-ra fiquei positivamente surpreso, perplexo até. E pensava: "Como assim, 'Grande Rebelião'? Eles são um foco de guerrilha, com base numa floresta? Se orgulham de ser 'rebeldes'? Se preocupam com a vida do povo pobre e luta com ele para libertar Etéria?"

Foi, enfim, uma grande satisfação descobrir mais de duas décadas depois que, quando ainda não tinha idade suficiente para discernir muitas coisas e estava exposto a tudo, felizmente assistia uma série como essa que me transmitia valores tão bons. E sei que séries como essa certamente deram alguma contribuição à formação das posições políticas que vim a ter em minha vida adulta. Por isso é muito bom poder resgatar estes episódios e torná-los disponíveis para uma nova geração, a quem pertence e irá construir o futuro. Pela honra de Grayskull! Por uma Etéria livre!

Acrilic on canvas, da Legião Urbana - análise literária

Posted: 9.1.11 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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O texto abaixo, extraído do livro "Depois do fim - vida, amor e morte nas canções da Legião Urbana", é uma análise literária da letra de "Acrilic on canvas", de Renato Russo, lançada no disco "Dois" (1986).

Suas autoras, Angélica Castilho e Erica Schlude, possuem o título de Doutoras e Mestres em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

A letra copiada abaixo mantem todas as pontuações originais de Renato Russo.





Acrilic on canvas

- É saudade então.

E mais uma vez
De você fiz o desenho mais perfeito que se fez:
Os traços copiei do que não aconteceu.
As cores que escolhi, entre as tintas que inventei,
Misturei com a promessa que nós dois nunca fizemos
De um dia sermos três.
Trabalhei você em luz e sombra.

Era sempre:
- Não foi por mal. Eu juro que nunca
Quis deixar você tão triste.
Sempre as mesmas desculpas
E desculpas nem sempre são sinceras -
Quase nunca são.

Preparei a minha tela
Com pedaços de lençóis
Que não chegamos a sujar.
A armação fiz com madeira
Da janela do seu quarto.
Do portão da sua casa
Fiz paleta e cavalete
E com as lágrimas que não brincaram com você
Destilei óleo de linhaça
E da sua cama arranquei pedaços
Que talhei em estiletes
De tamanhos diferentes
E fiz então
Pincéis com seus cabelos.
Fiz carvão do batom que roubei de você
E com ele marquei dois pontos de fuga
E rabisquei meu horizonte.

Era sempre:
- Não foi por mal. Eu juro que não foi por mal.
Eu não queria machucar você: prometo que isso nunca vai
Acontecer mais uma vez.
E era sempre, sempre o mesmo novamente -
A mesma traição.

Às vezes é difícil esquecer:
- Sinto muito, ela não mora mais aqui.

Mas então por que eu finjo que acredito no que invento?
Nada disso aconteceu assim - não foi desse jeito.
Ninguém sofreu: é só você que provoca essa saudade vazia
Tentando pintar essas flores com o nome
De "amor-perfeito" e "não-te-esqueças-de-mim".



O título "Acrilic on canvas" (2º álbum) remete a uma técnica de pintura 49: acrílico sobre tela. O vocabulário está ligado às artes plásticas, por isso, palavras como "traços", "sombra" são alternadas com reflexões do eu-lírico sobre o objeto amado. Em seguida, mais palavras relacionadas à pintura, como "carvão", "pontos de fuga" 50, "tela", "paleta", "cavalete" são novamente interrompidas pelos pensamentos do eu-lírico. A proposta da letra é bastante criativa. Traz a pintura para o mundo das palavras. São duas manifestações artísticas distintas que aqui se unem, formando uma declaração de amor das mais originais. O ouvinte/leitor é capaz de criar a imagem das situações vividas e idealizadas através das palavras: "De você fiz o desenho mais perfeito que se fez: / Os traços copiei do que não aconteceu. / As cores que escolhi, entre as tintas que inventei, ". É a descrição do processo de idealização do objeto amado.

A música começa com um verso isolado que reflete a solidão: "- É saudade então." A letra trata a temática de despedida (4ª etapa), consequentemente, aborda a decepção, revelando uma obsessão do eu em relação a planos: "Misturei com a promessa que nós dois nunca fizemos / De um dia sermos três." Ele está sempre projetando para o futuro, quer construir um relacionamento ideal e o filho seria a síntese e o produto do amor.

A antítese do verso "Trabalhei você em luz e sombra." mostra que o objeto de desejo é razão e sentimento, certeza e dúvida, salvação e perdição, conhecimento e desconhecimento. É a figura do eu dividido entre o que é aceito e o que é proibido até mesmo dentro dele, pois a letra toda evidencia uma luta entre o sentimento e a incompatibilidade deste com o relacionamento.

A terceira estrofe é uma quebra da idealização do outro, pois apresenta o comportamento do objeto amado e a desilusão: "Era sempre: / - Não foi por mal. Eu juro que nunca / Quis deixar você tão triste. / Sempre as mesmas desculpas / E desculpas nem sempre são sinceras - / Quase nunca são." É o discurso das dúvidas, porque se quer o outro, apesar de tudo, e se quer recuperar um estado de graça perdido.

Todo o universo do eu-lírico é construído através do outro, ele torna pessoais os objetos. A saudade faz com que o quadro precise de retoques, à medida que novas recordações vão dando mais vida ao desenho iniciado: "Preparei a minha tela / Com pedaços de lençóis / Que não chegamos a sujar. / A armação fiz com madeira / Da janela do seu quarto. / Do portão da sua casa / Fiz paleta e cavalete / E com as lágrimas que não brincaram com você / Destilei óleo de linhaça / E da sua cama arranquei pedaços / Que talhei em estiletes / De tamanhos diferentes / E fiz então / Pincéis com seus cabelos. / Fiz carvão do batom que roubei de você / e com ele marquei dois pontos de fuga / E rabisquei meu horizonte." A letra é realmente a pintura de um quadro que tem a função de representar o outro, lembrando até a pintura clássica e renascentista, pois estas mantêm um compromisso com a fidelidade da representação do objeto pintado, mas, é claro, sempre de acordo com a visão do pintor desse objeto.

Mas, na estrofe, "Era sempre: / - Não foi por mal. Eu juro que não foi por mal / Eu não queria machucar você: prometo que isso nunca vai / Acontecer mais uma vez. / E era sempre, sempre o mesmo novamente - / A mesma traição. // Às vezes é difícil esquecer: / - Sinto muito, ela não mora mais aqui.", percebe-se que há novamente uma quebra da idealização do objeto amado. O outro, que ele imaginava, torna-se, na verdade, a pintura: "Mas então por que eu finjo que acredito no que invento? / Nada disso aconteceu assim - não foi desse jeito. / Ninguém sofreu: é só você que provoca essa saudade vazia / Tentando pintar essas flores com o nome / De 'amor-perfeito' e 'não-te-esqueças-de-mim'." A conclusão do fracasso amoroso resulta não mais no retrato do objeto amado, mas somente em flores, símbolo do relacionamento. A pintura em si já é simbólica, porque ela é uma representação, seja de uma imagem real, seja de uma imagem que busque expor idéias, expectativas, delírios. Na letra, o objeto amado é representado pela flor, que é símbolo de efemeridade, de harmonia, de juventude, logo, é a representação desse amor que não durou, sintetizando a história vivida em "amor-perfeito" (antes) e em "não-te-esqueças-de-mim" (depois). Mesmo havendo a decepção, o eu não consegue atribuir à imagem do outro aspectos negativos.

Vale lembrar que, na letra, não há a voz do outro, apenas o eu-lírico fala desse amor. O outro é representado, não tem voz, apesar dos diálogos representados por travessão. E o fato de apenas um dos amantes fazer o relato torna o discurso interessante, pois não se trata da busca pela verdade, mas sim da análise das argumentações utilizadas por quem sofre uma desilusão amorosa.

Notas

49 A poesia e a pintura transitam pela natureza do poético. Entendemos poético aqui como tudo aquilo que trabalha com a sensibilidade. Diferente de um texto jornalístico, por exemplo, o poema deve situar-se no entredito. Ele nunca diz tudo e permite várias leituras. Outro ponto de contato entre poesia e pintura é que ambas lidam com o espaço.

50 Ponto de fuga é um elemento do desenho de perspectiva, uma forma de marcar e calcular corretamente perspectivas e distância em desenhos de paisagens, ou mesmo para desenhos de sólidos geométricos, objetos e figuras humanas. Imagine uma entrada em campo aberto. Se você olhar para a estrada até onde a vista alcança, verá que os lados parecem se encontrar no horizonte. Em um desenho, o ponto onde os lados da estrada se encontram na linha do horizonte corresponde ao ponto de fuga relativo a essa estrada. O mesmo serviria, por exemplo, para postes que acompanhassem essa estrada e que diminuiriam de tamanho até chegarem ao ponto de fuga, na linha do horizonte.

(CASTILHO, Angélica, SCHLUDE, Erica. Depois do fim. Vida, amor e morte nas canções da Legião Urbana. Rio de Janeiro: Hama, 2002.)
(p. 159-162)

Einstein: Por que o Socialismo?

Posted: 7.1.11 by Glauber Ataide in Marcadores: , , ,
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Einstein escreveu este artigo especialmente para o lançamento da Monthly Review , cujo primeiro número foi publicado em Maio de 1949. Tradução de Anabela Magalhães.

Será aconselhável para quem não é especialista em assuntos econômicos e sociais exprimir opiniões sobre a questão do socialismo? Eu penso que sim, por uma série de razões.

Consideremos antes de mais nada a questão sob o ponto de vista do conhecimento científico. Poderá parecer que não há diferenças metodológicas essenciais entre a astronomia e a economia: os cientistas em ambos os campos tentam descobrir leis de aceitação geral para um grupo circunscrito de fenômenos de forma a tornar a interligação destes fenômenos tão claramente compreensível quanto possível. Mas, na realidade, estas diferenças metodológicas existem. A descoberta de leis gerais no campo da economia torna-se difícil pela circunstância de que os fenômenos econômicos observados são frequentemente afetados por muitos fatores que são muito difíceis de avaliar separadamente. Além disso, a experiência acumulada desde o início do chamado período civilizado da história humana tem sido – como é bem conhecido – largamente influenciada e limitada por causas que não são, de forma alguma, exclusivamente económicas por natureza. Por exemplo, a maior parte dos principais estados da história ficou a dever a sua existência à conquista. Os povos conquistadores estabeleceram-se, legal e economicamente, como a classe privilegiada do país conquistado. Monopolizaram as terras e nomearam um clero de entre as suas próprias fileiras. Os sacerdotes, que controlavam a educação, tornaram a divisão de classes da sociedade numa instituição permanente e criaram um sistema de valores segundo o qual as pessoas se têm guiado desde então, até grande medida de forma inconsciente, no seu comportamento social.

Mas a tradição histórica é, por assim dizer, coisa do passado; em lado nenhum ultrapassámos de facto o que Thorstein Veblen chamou de “fase predatória” do desenvolvimento humano. Os factos económicos observáveis pertencem a essa fase e mesmo as leis que podemos deduzir a partir deles não são aplicáveis a outras fases. Uma vez que o verdadeiro objectivo do socialismo é precisamente ultrapassar e ir além da fase predatória do desenvolvimento humano, a ciência económica no seu actual estado não consegue dar grandes esclarecimentos sobre a sociedade socialista do futuro.

Segundo, o socialismo é dirigido para um fim sócio-ético. A ciência, contudo, não pode criar fins e, muito menos, incuti-los nos seres humanos; quando muito, a ciência pode fornecer os meios para atingir determinados fins. Mas os próprios fins são concebidos por personalidades com ideais éticos elevados e – se estes ideais não nascerem já votados ao insucesso, mas forem vitais e vigorosos – adoptados e transportados por aqueles muitos seres humanos que, semi-inconscientemente, determinam a evolução lenta da sociedade.

Por estas razões, devemos precaver-nos para não sobrestimarmos a ciência e os métodos científicos quando se trata de problemas humanos; e não devemos assumir que os peritos são os únicos que têm o direito a expressarem-se sobre questões que afectam a organização da sociedade.

Inúmeras vozes afirmam desde há algum tempo que a sociedade humana está a passar por uma crise, que a sua estabilidade foi gravemente abalada. É característico desta situação que os indivíduos se sintam indiferentes ou mesmo hostis em relação ao grupo, pequeno ou grande, a que pertencem. Para ilustrar o meu pensamento, permitam-me que exponha aqui uma experiência pessoal. Falei recentemente com um homem inteligente e cordial sobre a ameaça de outra guerra, que, na minha opinião, colocaria em sério risco a existência da humanidade, e comentei que só uma organização supra-nacional ofereceria protecção contra esse perigo. Imediatamente o meu visitante, muito calma e friamente, disse-me: “Porque se opõe tão profundamente ao desaparecimento da raça humana?”

Tenho a certeza de que há tão pouco tempo como um século atrás ninguém teria feito uma afirmação deste tipo de forma tão leve. É a afirmação de um homem que tentou em vão atingir um equilíbrio interior e que perdeu mais ou menos a esperança de ser bem sucedido. É a expressão de uma solidão e isolamento dolorosos de que sofre tanta gente hoje em dia. Qual é a causa? Haverá uma saída?

É fácil levantar estas questões, mas é difícil responder-lhes com um certo grau de segurança. No entanto, devo tentar o melhor que posso, embora esteja consciente do facto de que os nossos sentimentos e esforços são muitas vezes contraditórios e obscuros e que não podem ser expressos em fórmulas fáceis e simples.

O homem é, simultaneamente, um ser solitário e um ser social. Enquanto ser solitário, tenta proteger a sua própria existência e a daqueles que lhe são próximos, satisfazer os seus desejos pessoais, e desenvolver as suas capacidades inatas. Enquanto ser social, procura ganhar o reconhecimento e afeição dos seus semelhantess, partilhar os seus prazeres, confortá-los nas suas tristezas e melhorar as suas condições de vida. Apenas a existência destes esforços diversos e frequentemente conflituosos respondem pelo carácter especial de um ser humano, e a sua combinação específica determina até que ponto um indivíduo pode atingir um equilíbrio interior e pode contribuir para o bem-estar da sociedade. É perfeitamente possível que a força relativa destes dois impulsos seja, no essencial, fixada por herança. Mas a personalidae que finalmente emerge é largamente formada pelo ambinte em que um indivíduo acaba por se descobrir a si próprio durante o seu desenvolvimento, pela estrutura da sociedade em que cresce, pela tradição dessa sociedade, e pelo apreço por determinados tipos de comportamento. O conceito abstracto de “sociedade” significa para o ser humano individual o conjunto das suas relações directas e indirectas com os seus contemporâneos e com todas as pessoas de gerações anteriores. O indíviduo é capaz de pensar, sentir, lutar e trabalhar sozinho, mas depende tanto da sociedade – na sua existência física, intelectual e emocional – que é impossível pensar nele, ou compreendê-lo, fora da estrutura da sociedade. É a “sociedade” que lhe fornece comida, roupa, casa, instrumentos de trabalho, língua, formas de pensamento, e a maior parte do conteúdo do pensamento; a sua vida foi tornada possível através do trabalho e da concretização dos muitos milhões passados e presentes que estão todos escondidos atrás da pequena palavra “sociedade”.

É evidente, portanto, que a dependência do indivíduo em relação à sociedade é um facto da natureza que não pode ser abolido – tal como no caso das formigas e das abelhas. No entanto, enquanto todo o processo de vida das formigas e abelhas é reduzido ao mais pequeno pormenor por instintos hereditários rígidos, o padrão social e as interrelações dos seres humanos são muito variáveis e susceptíveis de mudança. A memória, a capacidade de fazer novas combinações, o dom da comunicação oral tornaram possíveis os desenvolvimentos entre os seres humanos que não são ditados por necessidades biológicas. Estes desenvolvimentos manifestam-se nas tradições, instituições e organizações; na literatura; nas obras científicas e de engenharia; nas obras de arte. Isto explica a forma como, num determinado sentido, o homem pode influenciar a sua vida através da sua própria conduta, e como neste processo o pensamento e a vontade conscientes podem desempenhar um papel.

O homem adquire à nascença, através da hereditariedade, uma constituição biológica que devemos considerar fixa ou inalterável, incluindo os desejos naturais que são característicos da espécie humana. Além disso, durante a sua vida, adquire uma constituição cultural que adopta da sociedade através da comunicação e através de muitos outros tipos de influências. É esta constituição cultural que, com a passagem do tempo, está sujeita à mudança e que determina, em larga medida, a relação entre o indivíduo e a sociedade. A antropologia moderna ensina-nos, através da investigação comparativa das chamadas culturas primitivas, que o comportamento social dos seres humanos pode divergir grandemente, dependendo dos padrões culturais dominantes e dos tipos de organização que predominam na sociedade. É nisto que aqueles que lutam por melhorar a sorte do homem podem fundamentar as suas esperanças: os seres humanos não estão condenados, devido à sua constituição biológica, a exterminarem-se uns aos outros ou a ficarem à mercê de um destino cruel e auto-infligido.

Se nos interrogarmos sobre como deveria mudar a estrutura da sociedade e a atitude cultural do homem para tornar a vida humana o mais satisfatória possível, devemos estar permanentemente conscientes do facto de que há determinadas condições que não podemos alterar. Como mencionado anteriormente, a natureza biológica do homem, para todos os objectivos práticos, não está sujeita à mudança. Além disso, os desenvolvimentos tecnológicos e demográficos dos últimos séculos criaram condições que vieram para ficar. Em populações com fixação relativamente densa e com bens indispensáveis à sua existência continuada, é absolutamente necessário haver uma extrema divisão do trabalho e um aparelho produtivo altamente centralizado. Já lá vai o tempo – que, olhando para trás, parece ser idílico – em que os indivíduos ou grupos relativamente pequenos podiam ser completamente auto-suficientes. É apenas um pequeno exagero dizer-se que a humanidade constitui, mesmo actualmente, uma comunidade planetária de produção e consumo.

Cheguei agora ao ponto em que vou indicar sucintamente o que para mim constitui a essência da crise do nosso tempo. Diz respeito à relação do indivíduo com a sociedade. O indivíduo tornou-se mais consciente do que nunca da sua dependência relativamente à sociedade. Mas ele não sente esta dependência como um bem positivo, como um laço orgânico, como uma força protectora, mas mesmo como uma ameaça aos seus direitos naturais, ou ainda à sua existência económica. Além disso, a sua posição na sociedade é tal que os impulsos egotistas da sua composição estão constantemente a ser acentuados, enquanto os seus impulsos sociais, que são por natureza mais fracos, se deterioram progressivamente. Todos os seres humanos, seja qual for a sua posição na sociedade, sofrem este processo de deterioração. Inconscientemente prisioneiros do seu próprio egotismo, sentem-se inseguros, sós, e privados do gozo naïve, simples e não sofisticado da vida. O homem pode encontrar sentido na vida, curta e perigosa como é, apenas dedicando-se à sociedade.

A anarquia económica da sociedade capitalista como existe actualmente é, na minha opinião, a verdadeira origem do mal. Vemos perante nós uma enorme comunidade de produtores cujos membros lutam incessantemente para despojar os outros dos frutos do seu trabalho colectivo – não pela força, mas, em geral, em conformidade com as regras legalmente estabelecidas. A este respeito, é importante compreender que os meios de produção – ou seja, toda a capacidade produtiva que é necessária para produzir bens de consumo bem como bens de equipamento adicionais – podem ser legalmente, e na sua maior parte são, propriedade privada de indivíduos.

Para simplificar, no debate que se segue, chamo “trabalhadores” a todos aqueles que não partilham a posse dos meios de produção – embora isto não corresponda exactamente à utilização habitual do termo. O detentor dos meios de produção está em posição de comprar a mão-de-obra. Ao utilizar os meios de produção, o trabalhador produz novos bens que se tornam propriedade do capitalista. A questão essencial deste processo é a relação entre o que o trabalhador produz e o que recebe, ambos medidos em termos de valor real. Na medida em que o contrato de trabalho é “livre”, o que o trabalhador recebe é determinado não pelo valor real dos bens que produz, mas pelas suas necessidades mínimas e pelas exigências dos capitalistas para a mão-de-obra em relação ao número de trabalhadores que concorrem aos empregos. É importante compreender que, mesmo em teoria, o pagamento do trabalhador não é determinado pelo valor do seu produto.

O capital privado tende a concentrar-se em poucas mãos, em parte por causa da concorrência entre os capitalistas e em parte porque o desenvolvimento tecnológico e a crescente divisão do trabalho encorajam a formação de unidades de produção maiores à custa de outras mais pequenas. O resultado destes desenvolvimentos é uma oligarquia de capital privado cujo enorme poder não pode ser eficazmente controlado mesmo por uma sociedade política democraticamente organizada. Isto é verdade, uma vez que os membros dos órgãos legislativos são escolhidos pelos partidos políticos, largamente financiados ou influenciados pelos capitalistas privados que, para todos os efeitos práticos, separam o eleitorado da legislatura. A consequência é que os representantes do povo não protegem suficientemente os interesses das secções sub-privilegidas da população. Além disso, nas condições existentes, os capitalistas privados controlam inevitavelmente, directa ou indirectamente, as principais fontes de informação (imprensa, rádio, educação). É assim extremamente difícil e mesmo, na maior parte dos casos, completamente impossível, para o cidadão individual, chegar a conclusões objectivas e utilizar inteligentemente os seus direitos políticos.

Assim, a situação predominante numa economia baseada na propriedade privada do capital caracteriza-se por dois principais princípios: primeiro, os meios de produção (capital) são privados e os detentores utilizam-nos como acham adequado; segundo, o contrato de trabalho é livre. Claro que não há tal coisa como uma sociedade capitalista pura neste sentido. É de notar, em particular, que os trabalhadores, através de longas e duras lutas políticas, conseguiram garantir uma forma algo melhorada do “contrato de trabalho livre” para determinadas categorias de trabalhadores. Mas tomada no seu conjunto, a economia actual não difere muito do capitalismo “puro”.

A produção é feita para o lucro e não para o uso. Não há nenhuma disposição em que todos os que possam e queiram trabalhar estejam sempre em posição de encontrar emprego; existe quase sempre um “exército de desempregados. O trabalhador está constantemente com medo de perder o seu emprego. Uma vez que os desempregados e os trabalhadores mal pagos não fornecem um mercado rentável, a produção de bens de consumo é restrita e tem como consequência a miséria. O progresso tecnológico resulta frequentemente em mais desemprego e não no alívio do fardo da carga de trabalho para todos. O motivo lucro, em conjunto com a concorrência entre capitalistas, é responsável por uma instabilidade na acumulação e utilização do capital que conduz a depressões cada vez mais graves. A concorrência sem limites conduz a um enorme desperdício do trabalho e a esse enfraquecimento consciência social dos indivíduos que mencionei anteriormente.

Considero este enfraquecimento dos indivíduos como o pior mal do capitalismo. Todo o nosso sistema educativo sofre deste mal. É incutida uma atitude exageradamente competitiva no aluno, que é formado para venerar o sucesso de aquisição como preparação para a sua futura carreira.

Estou convencido que só há uma forma de eliminar estes sérios males, nomeadamente através da constituição de uma economia socialista, acompanhada por um sistema educativo orientado para objectivos sociais. Nesta economia, os meios de produção são detidos pela própria sociedade e são utilizados de forma planeada. Uma economia planeada, que adeque a produção às necessidades da comunidade, distribuiria o trabalho a ser feito entre aqueles que podem trabalhar e garantiria o sustento a todos os homens, mulheres e crianças. A educação do indivíduo, além de promover as suas próprias capacidades inatas, tentaria desenvolver nele um sentido de responsabilidade pelo seu semelhante em vez da glorificação do poder e do sucesso na nossa actual sociedade.

No entanto, é necessário lembrar que uma economia planeada não é ainda o socialismo. Uma tal economia planeada pode ser acompanhada pela completa opressão do indivíduo. A concretização do socialismo exige a solução de problemas socio-políticos extremamente difíceis; como é possível, perante a centralização de longo alcance do poder económico e político, evitar a burocracia de se tornar toda-poderosa e vangloriosa? Como podem ser protegidos os direitos do indivíduo e com isso assegurar-se um contrapeso democrático ao poder da burocracia?

A clareza sobre os objectivos e problemas do socialismo é da maior importância na nossa época de transição. Visto que, nas actuais circunstâncias, a discussão livre e sem entraves destes problemas surge sob um tabu poderoso, considero a fundação desta revista como um serviço público importante.

O original deste artigo encontra-se em http://www.monthlyreview.org/598einst.htm.