Atos falhos, ou parapraxias

Posted: 7.4.11 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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As parapraxias, ou atos falhos, são manifestações de intenções perturbadoras do inconsciente em nossa atividade consciente. Um exemplo de um ato falho são os lapsos de língua, quando trocamos uma palavra por outra ou o nome de uma pessoa por outro.

O esquecimento de intenções também são atos falhos. Ocorre, por exemplo, quando chegamos em um determinado lugar e perguntamos: "o que eu vim fazer aqui mesmo?"

Um ato falho ocorre quando eu saio de casa com uma carta na mão para despachá-la mas percebo que passei por uma caixa de correio e não a deixei lá. Esse esquecimento é um tipo de ato falho. Freud comenta que

"...não preciso, como indivíduo normal e livre de neuroses, carregá-la na mão por todo o caminho e ficar à cata de uma caixa de correio onde possa jogá-la; pelo contrário, costumo colocá-la no bolso, seguir meu caminho deixando os pensamentos vagarem livremente, e confiar em que uma das primeiras caixas do correio há de chamar minha atenção e fazer com que eu ponha a mão no bolso e retire a carta. A conduta normal frente a uma intenção concebida coincide por completo com o comportamento experimentalmente produzido das pessoas a quem se deu, em hipnose, uma "sugestão pós-hipnótica a longo prazo", como se costuma chamá-la. Esse fenômeno é usualmente descrito da seguinte maneira: a intenção sugerida dormita na pessoa em questão até se aproximar o momento de efetivá-la. É aí que desperta e impele a pessoa para a ação." (FREUD, 2002)

Os atos falhos ocorrem para evitar o desprazer. Eles são sempre sintomas de algum tipo de conflito psíquico. No caso da carta, o ato de depositá-la na caixa de correios poderia entrar em associação com conteúdos psíquicos que quero manter recalcados. Por essa razão, um mecanismo psíquico atua para que a ação não seja executada, e nesse caso, para que eu esqueça minha intenção de colocar a carta no correio.

Um outro ato falho muito comum é a substituição de nomes, isso é, quando vamos chamar uma pessoa e trocamos seu nome pelo de outra pessoa. Ou então quando esquecemos o nome de uma pessoa. A real motivação da troca de um nome pelo outro ou pelo seu esquecimento pode ser analisada.

Se alguém também afirma: "'Não me peça para fazer isto, tenho certeza de que vou esquecer!'", a realização dessa profecia, segundo Freud (1997), nada tem de místico, pois "quem assim fala sente em si a intenção de não executar o pedido e apenas se recusa a confessá-lo a si mesmo."

Os atos falhos, por se manifestarem em todas as pessoas, e não apenas em neuróticos, é um dos principais meios de acesso às descobertas da Psicanálise. Tanto que Freud escolheu este tema como o primeiro a apresentar em suas "Conferências Introdutórias sobre Psicanálise" (volumes XV e XVI da Edição Standard das Obras Completas).

Para ilustrar um ato falho de esquecimento, relato um incidente que me ocorreu recentemente. Estava apresentando um trabalho em sala de aula sobre o julgamento de Sócrates. Durante minha fala me esqueci completamente de uma palavra, o que foi constrangedor, pois fiquei alguns segundos calado, em pé, diante de toda a classe, que esperava que eu desse prosseguimento. Com a ajuda do texto que tinha em mãos consegui recuperar o termo reprimido: era a palavra "acusação".

Depois que terminei e me sentei, tentei analisar este episódio e logo encontrei seu motivo: a palavra "acusação" estava associada a "julgamento", o que se associava com o receio de que a audiência estivesse julgando ou acusando a apresentação que eu estava fazendo. E o contexto era propício a isso porque, como já afirmei, o tema do trabalho era o julgamento de Sócrates, e estávamos comentando a obra "Apologia de Sócrates", de Platão.

Os atos falhos foram agrupados por Freud em sete tipos: orais, escritos, de falsa leitura e de falsa audição, esquecimento temporal, perdas e atos sintomáticos. Alguns guardam muitas semelhanças com outros, como os lapsos de língua e os de escrita, por exemplo.

Por serem bem mais simples de interpretar do que os sonhos, são um bom caminho para quem deseja iniciar seus estudos em Psicanálise. São uma clara manifestação da nossa psicopatologia da vida cotidiana, uma demonstração bem acessível de que todos nós somos, no mínimo, levemente neuróticos.


REFERÊNCIAS

FREUD, Sigmund. Sobre a psicopatologia da vida cotidiana. In: Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1997.

KEEGAN, Paul. Introduction. In: FREUD, Sigmund. The psychopathology of everyday life. London: Penguin Classics, 2002.

TALLAFERRO, Alberto. Curso básico de Psicanálise [Tradução Álvares Cabral ]. 2.ed. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

O idiota, de Dostoievski, e Policarpo Quaresma, de Lima Barreto

Posted: 5.4.11 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Este artigo, de autoria do jornalista Renato Pompeu, faz uma comparação entre dois protagonistas de dois dos meus livros favoritos: o príncipe Michhkin, do livro "O idiota", de Dostoievski, e Policarpo Quaresma, do livro "O triste fim de Policarpo Quaresma", de Lima Barreto.


“Policarpo” seria um “Idiota”?

Renato Pompeu

Quis o acaso que os palcos paulistanos reunissem os romances “O Idiota”, do russo Fiodor Dostoievski (Fiodor é a forma russa de Teodoro), escrito em 1867-69, e “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, do carioca Lima Barreto, publicado quase meio século depois, em 1911. Mas o mais estranho é que os dois heróis, o “idiota” príncipe Michhkin e o “patriota” Quaresma têm muito em comum. A ponto que serviria para o romance russo a epígrafe do romance brasileiro: “O grande inconveniente da vida real e que a torna insuportável para o homem superior é que, se para ela são transportados os princípios do ideal, as qualidades se tornam defeitos, tanto que muito frequentemente aquele homem superior realiza e consegue bem menos do que aqueles movidos pelo egoísmo e pela rotina vulgar”, citação do livro “As origens do cristianismo”, do humanista francês Ernest Renan, do século 19.

O que é que isso tem a ver com Michkin? O príncipe, quando começa o romance, chega a São Petersburgo depois de ter passado um tempo internado num sanatório suíço, por sofrer de “idiotia” (na época, termo médico aplicado a pessoas com profundo retardamento mental) e de epilepsia. Na verdade, fosse ou não retardado (Dostoievski não deixa isso claro), Michkin era homem profundamente ético e generoso, o que o torna destoante da maioria dos demais personagens da obra, egoístas, interesseiros e que levam em conta muito mais as virtudes do dinheiro do que as virtudes morais.

Michkin, por exemplo, se dispõe a casar com uma mulher “decaída”, por ser ao mesmo tempo solteira e não mais virgem, amante de um homem poderoso que se propõe a pagar a um conhecido do príncipe para esse conhecido se casar com ela e esse homem poderoso poder continuar a ser amante da moça. Michkin quer se casar com ela, apesar de estar apaixonado pela filha mais nova de um general, para dar à “decaída” um sobrenome e uma posição de respeito na sociedade. E também para livrar seu conhecido do vexame de ser um marido pago para ser traído.

O príncipe, durante a trama, recebe uma herança, que aos poucos se descobre ser de valor bem menor do que o inicialmente esperado. Surge um enxame de credores, supostos ou reais, e de parentes e amigos, também supostos e reais, que literalmente passam a extorquir grandes quantias de Michkin. Generoso e desprendido, ou talvez “idiota”, o príncipe se esforça por atender a todos os pedidos.

Rejeitado tanto pela “decaída” com quem pretendia se casar, como pela jovem pela qual se tinha apaixonado, Michkin, igualmente abandonado por todos ao praticamente se esgotar seu dinheiro, não tem outro remédio senão novamente se internar no sanatório suíço. Ambas as mulheres se unem a homens de caráter duvidoso.

Vemos que Michkin se enquadra na definição de “homem superior” da epígrafe escolhida para “Policarpo”, pois “consegue bem menos do que aqueles movidos pelo egoísmo e pela rotina vulgar”. Pois “fora da rotina” e “destoante” era um dos sentidos da palavra “idiota” na Grécia antiga, reservada para pessoas, que, por terem opiniões muito próprias, “idiossincrasias”, não participavam da vida política dos cidadãos comuns.

Igualmente, Policarpo Quaresma poderia ser considerado “idiota”, e de fato foi considerado louco, por causa de seu extremo idealismo nacionalista. Servidor civil do Exército, onde exerce funções burocráticas, conhecido como “major” apesar de não ter a patente, Quaresma é um solteirão considerado, inicialmente, “esquisitão” por ler muito nas horas vagas (como se fosse um novo Dom Quixote). Ainda mais “esquisitão” passa a ser julgado pelos amigos quando se dispõe a aprender a tocar violão, considerado na época um instrumento ligado a malandros e vagabundos. A justificativa de Quaresma é que ele acha o violão um símbolo da nacionalidade brasileira.

No entanto, avançando em seu nacionalismo, possivelmente por considerar o violão, afinal, de origem européia e assim não ser um instrumento genuinamente brasileiro, o major Quaresma passa a estudar o tupi, “idioma” insuspeito de europeísmo, e as tradições indígenas em geral. Depois de propor ao Parlamento que tornasse obrigatório o tupi como língua oficial do País, Quaresma passa de “esquisitão” a “louco” na visão de seus conhecidos.

Logo essa visão passa a diagnóstico médico e funcional. É que Quaresma começa a redigir documentos de sua repartição em tupi, sendo por isso afastado de suas funções e internado num manicômio. Anos depois, recebe alta e, aposentado, gasta grande parte de sua pensão na compra de um sítio no interior, para viver do “solo pátrio” e difundir técnicas agrícolas avançadas.

O empreendimento fracassa com estardalhaço, e Quaresma, apesar de se isolar da política local (afinal, como Michkin, ele é também um “idiota” no sentido grego antigo da palavra), se vê perseguido pelas duas correntes políticas rivais. Pois cada partido julga seu isolamento um disfarce para Quaresma servir ao partido adversário. Na verdade, ele se mantinha afastado dos dois partidos por considerá-los, a partir de seu idealismo, por demais ligados a interesses mesquinhos.

Quaresma, sempre nacionalista, era também republicano de carteirinha. Quando ocorre, no início dos anos 1890, o movimento monarquista para a derrubada do presidente da República, marechal Floriano Peixoto, movimento conhecido como Revolta da Armada, o “major” deixa o sítio para combater no Rio de Janeiro a revolta, sendo engajado com a patente de fato de major num regimento.

Acontece que, lutando pela República, Quaresma descobre que o novo regime está longe de corresponder a seus ideais elevados, corroído que está por corruptos e bajuladores. Ele passa a criticar essas mazelas, o que o leva a ser considerado traidor e a ser condenado ao fuzilamento. Realmente, triste fim de Policarpo Quaresma. Como também foi triste o fim de Michkin, outro “idiota”.

Assim, ficam claras as semelhanças entre os dois heróis dos romances agora encenados em São Paulo.


P.S.: Na foto deste post, à esquerda, temos o Príncipe Michkin conforme interpretado na mini-série russa em 10 episódios "O idiota", baseada no livro homônimo de Dostoievski. Vale a pena assistir, foi muito bem feita bem e é muito próxima ao livro.


Impunidade é a maior causa da violência?

Posted: 4.4.11 by Glauber Ataide in Marcadores: , , ,
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Quem já conversou com brucutus fascistas sabe que é muito difícil fazê-los entender coisas simples, básicas, elementares. O fascismo se caracteriza pelo irracional.

Hoje, ao ouvir na TV a afirmação de que "a impunidade é a maior causa da violência", me ocorreu desenhar o esquema abaixo, tornando assim mais fácil à "elite intelectual brasileira" (a classe média se considera assim) compreender por que a proposta marxista para acabar com a violência faz mais sentido que a deles. (Eu acredito na educação, sou incorrigível nisso. Chego a ponto de acreditar que alguns poucos fascistas são recuperáveis.)

Reparem que enquanto o fascista quer acabar com a violência matando o pobre, os comunistas querem fazê-lo acabando com a pobreza.

E por último, vejam que a lógica não é o forte dos arianos tupiniquins: eles não atacam a causa do problema, mas tentam reforçar seu efeito, pensando que assim o ciclo será interrompido. Já disse que eles são uns brucutus, não?

Clique na imagem para ampliar.

Auxílio-reclusão: você já recebeu este e-mail?

Posted: 1.4.11 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Escrevo isso porque já recebi este e-mail pelo menos cinco vezes. Seu autor, provavelmente um fascistóide pseudo-revoltado-médio-classista-pequeno-burguês, esbraveja por a Previdência Social oferecer o chamado "Auxílio-reclusão" para os dependentes do segurado em situação de reclusão.

Tanto o autor quanto os forwarders dessa idiotice até hoje não devem ter tido tempo de ler o link que eles próprios nos repassam, e por isso ainda não perceberam que isso se trata de um seguro como qualquer outro, e nada mais. E tenho certeza que eles também não reclamam de nenhum outro tipo de seguro, como aqueles privados que eles próprios contratam.

Se num seguro de vida privado uma pessoa paga todo mês determinado valor e, em que caso de óbito, seus familiares recebem a quantia estipulada no contrato, com o auxílio-reclusão da Previdência acontece algo semelhante, pois ele é um seguro. O segurado, que só pode ser um trabalhador, paga sua contribuição todos os meses e, caso aconteça de ser preso por alguma razão, sua família não fica desamparada.

O que é muito racional, pois a família inteira não pode ser penalizada por um crime que não cometeu e, além disso, sem esse seguro eles teriam maior probabilidade de também se tornarem criminosos. Esta lei visa impedir o crescimento exponencial da criminalidade, isso é, que se torne uma bola de neve. Qual o futuro de uma criança que fica desamparada quando seu pai vai preso? Escola, trabalho na rua ou criminalidade?

Esses médio-classistas reclamam porque não sabem ler direito (pergunte o nome dos 10 últimos livros que leram e confirme). Enviam até o link do site da Previdência para dar credibilidade à bobagem que estão dizendo, mas eles próprios não leem o que enviam.

Pensam que qualquer preso teria direito a esse auxílio, acusando o governo de conivência com a "vagabundagem" (termo sempre presente na boca da direita) e com o crime, o que seria absurdo.

Psicologicamente eles tem a sensação de estar descobrindo informação privilegiada, um segredo que a "mídia" não divulga e que eles, desbravadores e elite intelectual do país, estão trazendo à luz.

Não, meu caros: isso é apenas um seguro, como várias empresas privadas fazem. É um seguro para trabalhadores. Uma das condições para os dependentes do segurado receberem o benefício é não "estar recebendo salário da empresa na qual trabalhava".

No site Observatório Social encontramos a informação de que este benefício, além de ser antiquíssimo, também existe em outros países.

Vários decretos-leis em plena ditadura militar - para deleite daqueles médio-classistas que adoram lamber um coturno - alteraram dispositivos dessa lei, mas não revogaram a tal "aberração".

Sugiro que os leitores deem uma olhada no texto a que nos referimos.




Esperando por mim - o mal do século e a imortalidade

Posted: 9.3.11 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Reproduzimos abaixo trechos do livro Depois do fim - Vida, amor e morte nas canções da Legião Urbana que analisam a canção "Esperando por mim", do último e melancólico álbum "A tempestade", da Legião Urbana.



Esperando por mim

Acho que você não percebeu
Que o meu sorriso era sincero
Sou tão cínico às vezes
O tempo todo
Estou tentando me defender

Digam o que disserem
O mal do século é a solidão
Cada um de nós imerso em sua própria arrogância
Esperando por um pouco de afeição

Hoje não estava nada bem
Mas a tempestade me distrai
Gosto dos pingos de chuva
Dos relâmpagos e dos trovões

Hoje à tarde foi um dia bom
Saí pra caminhar com meu pai
Conversamos sobre coisas da vida
E tivemos um momento de paz

É de noite que tudo faz sentido
No silêncio eu não ouço meus gritos

E o que disserem
Meu pai sempre esteve esperando por mim
E o que disserem
Minha mãe sempre esteve esperando por mim
E o que disserem
Meus verdadeiros amigos sempre esperaram por mim
E o que disserem
Agora meu filho espera por mim
Estamos vivendo
E o que disserem os nossos dias serão para sempre.


Em primeiro lugar, chama a atenção a referência direta que Renato Russo faz ao mal do século, o que reforça sua posição na tradição de letrista de orientação romântica (e em alguns momentos deste disco, da 2ª geração do romantismo).

O mal do século, no romantismo da 2ª geração, se identifica por temas como a depressão, a morte, o ódio, o grotesco, o absurdo, a noite, o amor não correspondido, etc. Um dos principais expoentes do gênero no Brasil foi Álvares de Azevedo .

Renato apresenta, no entanto, uma própria definição do que seja o mal do século: "Digam o que disserem / O mal do século é a solidão".

"'Esperando por mim' (8º álbum) prega a eternidade através das gerações que virão. É uma possibilidade de estar vivo para sempre no outro: 'Meu pai sempre esteve esperando por mim / E o que disserem / Minha mãe sempre esteve esperando por mim / E o que disserem / Meus verdadeiros amigos sempre esperaram por mim / E o que disserem / Agora meu filho espera por mim / Estamos vivendo e o que disserem / Os nossos dias serão para sempre'.

"Pai representa a segurança e a ordem; mãe, o aconchego e a paz; amigos, a força; filho, a certeza da perpetuação. Os dias serão para sempre, porque haverá a lembrança deles nas pessoas que ficam. É o mesmo olhar de carinho, de compreensão de 'Pais e filhos' (4º álbum). A chave da harmonia: aceitação das diferenças entre as gerações. Pais igual ao passado, amigos igual ao presente, filho igual ao futuro." (p. 122, grifo nosso)

Esta leitura realizada pelas autoras me remeteu diretamente a um trecho da obra "O banquete", de Platão. Em um diálogo com Diotima, Sócrates afirma que o amor é o desejo de imortalidade. Através do amor as criaturas se reproduzem, e essa é a forma do mortal imitar o imortal. O mortal pode prolongar sua existência apenas através da procriação.

As autoras também mostram como Renato Russo se enquadra na tradição romântica:

"A letra caracteriza bem o eu romântico ao desenvolver um discurso irônico: 'Acho que você não percebeu / Meu sorriso era sincero / Sou tão cínico às vezes / O tempo todo / Estou tentando me defender', o que está de acordo com os sentimentos românticos de marginalidade, de desilusão e de tédio: 'O mal do século é a solidão / Cada um de nós imerso em sua própria arrogância / Esperando por um pouco de afeição'. Versos sínteses da visão romântica, do eu-lírico como possuidor de um mal incurável." (p. 122)

E também neste trecho:

"A noite também é o grande espaço do eu romântico: 'É de noite que tudo faz sentido / No silêncio eu não ouço meus gritos / E o que disserem'. Ele busca no silêncio a paz que não está no seu interior. É uma tentativa do externo dar conta do interno." (p. 30)

O eu-lírico pode se esquecer por um momento de todas as suas perturbações através do trabalho. Os versos "Hoje não estava nada bem / Mas a tempestade me distrai" parece fazer referência ao título do álbum em que o autor estava trabalhando, "A tempestade".

Já nos seguintes versos podemos ver atuando um mecanismo de defesa do ego denominado pela Psicanálise de projeção: "O mal do século é a solidão / Cada um de nós imerso em sua própria arrogância / Esperando por um pouco de afeição". Isso é, o eu-lírico universaliza a sua própria experiência interna. Ele se considera, conscientemente ou não, um indivíduo que em sua solitária arrogância está na verdade esperando por afeição, e a partir disso aplica essa sua própria característica a todos os seus interlocutores e se defronta com isso como se estivesse vindo de fora..

(CASTILHO, Angélica, SCHLUDE, Erica. Depois do fim. Vida, amor e morte nas canções da Legião Urbana. Rio de Janeiro: Hama, 2002.)

Da série "Contradições do Capitalismo" - Parte I

Posted: 7.3.11 by Glauber Ataide in Marcadores: , , , ,
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O segredo para não se endividar é "administrar" bem o que você ganha. Ou pelo menos é isso que os "especialistas" nos ensinam nos quadros dos telejornais. Mas vamos prestar bem atenção no que esses "especialistas", papagaios do óbvio, estão propalando na mídia burguesa.

Reparem que a questão dos baixos salários nunca é apontada como pelo menos um dos principais fatores do decadente nível de vida da população. Parte-se do pressuposto que não há nada de errado com o sistema econômico. E como a ideologia burguesa cultua o individualismo à Robinson Crusoé desde os seus fundamentos, quando o cidadão se endivida o problema é dele, somente dele, foi causado por ele e por mais ninguém.

Mas vamos abstrair este quadro e fazer uma análise social, global (ou seja, marxista) deste fenômeno.

Os indivíduos são compelidos a comprarem sempre mais e mais para que a roda da economia capitalista não pare de girar. Se as pessoas compram menos, isso compromete o sistema capitalista, que vive de lucros e precisa vender cada vez mais.

Mas essas pessoas não tem dinheiro para comprar sempre mais e mais, como o capitalismo exige. Vejam então uma das grandes contradições deste sistema: de um lado temos uma enorme quantidade de mercadorias que precisam ser consumidas, e do outro, uma enorme quantidade de consumidores que não tem dinheiro para comprar essas mercadorias.

Mas isso ainda não é o pior: esses consumidores, que não tem dinheiro para comprar essas mercadorias, são, ao mesmo tempo, os seus próprios produtores! Resumindo: os trabalhadores produzem uma enorme quantidade de mercadorias, mas eles próprios não conseguem comprar todas essas mercadorias porque não tem dinheiro, porque seus salários são baixos.

Os capitalistas, por sua vez, não conseguem vender todas as suas mercadorias porque pagam baixos salários aos trabalhadores. Mas se não fizessem isso teriam os seus lucros diminuídos.

Isso é a insanidade. O capitalista então contrata o "marketeiro" (que se apropriou indevidamente até de algumas descobertas da psicanálise) para vender o seu peixe, e faz de tudo para forçar esses trabalhadores a comprarem o seu produto. Nem que para isso seja necessário recorrer ao crédito.

Aí entra o espertalhão do capital financeiro, a mais pura expressão do parasitismo a que chegou o capitalismo desde o início do século passado. Este indivíduo faz dinheiro gerar dinheiro sem passar pelos processos de produção. É alguém completamente dispensável num outro tipo de sociedade, na qual todos devem trabalhar (socialismo).

Este vampiro suga grande parte da energia vital dos trabalhadores, e se enriquece dia após dia apenas de juros. Ele é uma peça fundamental para o capitalista que trabalha na produção, pois sem ele grande parte de suas mercadorias não encontraria saída de seu estoque.

O trabalhador empobrecido, seduzido para ter um pouco além de apenas arroz e feijão (já que ele vive numa sociedade que tem condições de lhe proporcionar isso), acaba se endividando. E a culpa é dele, segundo os "especialistas".

Qual a solução burguesa para isso? Resp: O trabalhador deve se contentar com o arroz e o feijão, deve trabalhar apenas para sobreviver. Mas notem que se os trabalhadores realmente fizessem isso e parassem de consumir, o capitalismo entraria em crise.

Então o trabalhador não pode parar de consumir, mas também não pode se endividar. E aí?

Estas são algumas das grandes contradições do capitalismo, que só podem se harmonizar com a revolução do modo socialista de produção. No capitalismo a produção é coletiva mas a apropriação é privada. Ou seja, os trabalhadores produzem as mercadorias, mas não podem consumi-las porque elas pertencem ao capitalista e não a eles próprios, os produtores.

Já no socialismo, como a produção é coletiva e a apropriação também é coletiva, não há tal problema. Além do que, estando o ser humano em primeiro lugar, tudo é produzido para o seu consumo, e não para o lucro, como ocorre no capitalismo.

Charge sobre Marx

Posted: 4.3.11 by Glauber Ataide in Marcadores: , , ,
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Essa é a 11ª tese de Marx sobre Feuerbach: "Os filósofos até hoje se limitaram a interpretar o mundo. A questão, porém, é transformá-lo." Clique aqui para ver todas as teses.


Psicologia de massas do fascismo, de Wilhelm Reich - uma resenha

Posted: 2.3.11 by Glauber Ataide in Marcadores: , , , ,
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A importância do estudo do fascismo não é meramente histórica. A definição de fascismo dada pelo psicanalista marxista Wilhelm Reich, como "a expressão da estrutura irracional do caráter do homem médio, cujas necessidades biológicas primárias e cujos impulsos têm sido reprimidos há milênios", deixa claro que o fascismo é um fenômeno atual, quer apresente-se de forma aberta ou apenas latente.

Ou seja, aquele fascismo de ontem, destruído na II Guerra Mundial pelos comunistas da URSS, é o mesmo fascismo de hoje, e tem todas as possibilidades de se reorganizar como outrora sob Hitler. Daí a importância de compreendê-lo, de dominá-lo teoricamente, para então melhor combatê-lo.

É isso o que Reich afirma: "O fascismo só pode ser vencido se for enfrentado de modo objetivo e prático, com um conhecimento bem fundamentado dos problemas da vida." (p. XX)

A abordagem de Reich sobre o fascismo é riquíssima, se configurando como uma genial síntese entre Marx e Freud, entre marxismo e psicanálise. Seu livro "Psicologia de massas do fascismo" foi escrito e publicado no início da década de 1930, enquanto o fascismo era ainda incipiente, e antes também de causar todas aquelas atrocidades que chocariam o mundo anos depois. Isso mostraria, mais tarde, a justeza da análise de Reich.

Nesta obra ele responde a questões fundamentais sobre o fascismo e o seu surgimento, coisas que em sua época não era possível responder com a análise apenas econômica do chamado "marxismo vulgar".

Algumas dessas questões eram: como foi possível o surgimento do fascismo, sendo ele não um pequeno movimento associado a Hitler ou a Mussolini, mas sim um movimento de amplas massas? Como puderam as massas empobrecidas se alinhar com um discurso completamente contrários aos seus próprios interesses de classe? Por que Hitler foi mais eficiente do que o Partido Comunista em alcançar uma vasta audiência antes apolítica?

Essas perguntas eram de importância fundamental, principalmente dentro do Partido Comunista da Alemanha, do qual Reich era o editor da revista de psicologia.


A clivagem

Um ponto fundamental da análise de Reich para responder a essas questões é o que ele chama de "clivagem" da situação econômica com a situação ideológica do trabalhador.

Isso é, seria de se esperar que o trabalhador empobrecido, diante do trabalho de agitação e propaganda do partido comunista, desenvolvesse uma clara consciência de sua situação social, a qual se tranformaria numa determinação revolucionária de se livrar de sua própria miséria social.

Mas o contrário aconteceu na Alemanha de Hitler, e ainda hoje acontece, com frequência. Mas por quê? O que causa essa chamada clivagem entre a situação econômica e a ideológica do trabalhador?

Reich explica essa clivagem apontando para a estrutura de caráter do homem médio, que tem como um dos principais fatores a sexualidade reprimida.

Esta estrutura de caráter, gestada há milênios sob uma sociedade patriarcal, é utilizada de forma eficiente pela ideologia imperialista para servir aos seus propósitos.


A função social da repressão sexual

O marxista Reich compreende perfeitamente que são as condições materiais que determinam a superestrutura ideológica de toda sociedade. Mas é baseando-se em Sigmund Freud que ele vai dizercomo isso acontece na mente do indivíduo, e também como a ideologia afeta a estrutura econômica. Munido com as revolucionárias descobertas de Freud sobre o inconsciente e a sexualidade infantil, Reich afirma:

"A inibição moral da sexualidade natural na infância, cuja última etapa é o grave dano da sexualidade genital, torna a criança medrosa, tímida, submissa, obediente, "boa", e "dócil", no sentido autoritário das palavras. Ela tem um efeito de paralisação sobre as forças de rebelião do homem, porque qualquer impulso vital é associado ao medo; e como sexo é um assunto proibido, há uma paralisação geral do pensamento e do espírito crítico. Em resumo, o objetivo da moralidade é a criação do indivíduo submisso que se adapta à ordem autoritária, apesar do sofrimento e da humilhação. Assim, a família é o Estado autoriário em miniatura, ao qual a criança deve aprender a se adaptar, como uma preparação para o ajustamento geral que será exigido dela mais tarde. A estrutura autoritária do homem é basicamente produzida - é necessário ter isso presente - através da fixação das inibições e dos medos sexuais na substância viva dos impulsos sexuais." (p. 28, grifo nosso)

[...]

"O resultado é o conservadorismo, o medo de liberdade; em resumo, a mentalidade reacionária." (p. 29, grifo nosso)

O efeito, então, da ideologia sobre a base econômica e que vai gerar essa clivagem é resumida dessa forma:

"...a inibição sexual altera de tal modo a estrutura do homem economicamente oprimido, que ele passa a agir, sentir e pensar contra os seus próprios interesses materiais." (p. 30)


A estrutura familiar e o fascismo

Wilhelm Reich nos fornece inúmeras citações de panfletos nazistas da época para mostrar a importância dada pelo Partido Nacional-Socialista à estrutura familiar patriarcal, conservadora. Obviamente eles o faziam mais por "instinto" do que por um conhecimento psicológico profundo.

A partir da análise da família, Reich compreende a razão do fascismo ser um fenômeno típico da classe média-baixa: é devido à estrutura familiar autoritária deste estrato social.

Na família do operário, por exemplo, como a mulher precisa trabalhar e ele não sustenta a casa sozinho, o caráter patriarcal é menos influente do que na família de classe média.

A posição dos nazistas em temas como o aborto, por exemplo, deixa claro o que estava em jogo: a repressão sexual. Eles se manifestavam veemente contra o aborto e contra qualquer tipo de regulação da vida sexual.

Os nazistas pregavam o sexo apenas após o casamento, e eram a favor de um estrito controle sobre a sexualidade, combatendo o "bolchevismo cultural".

Reich identifica nisso que o homem médio não conhece a regulação da vida sexual - acha que tem que escolher ou a moral sexual repressiva ou a anarquia sexual, a libertinagem. Uma forma de maniqueísmo sexual.


Religião e misticismo

Os panfletos nazistas reproduzidos por Reich também mostram o quanto eles se apoiavam na religião e no misticismo.

Mas a psicanálise já havia desvendado o efeito psicológico ocorrido nas pessoas sob influência de cultos religiosos. Já havia mostrado a correlação entre as idéias de Deus como pai; de mãe de Deus como mãe e da Trindade como o triângulo familiar (pai, mãe e filho).

Isso é, "os conteúdos psíquicos da religião têm a sua origem nas relações familiares desde a primeira infância."

Reich, se baseando nas descobertas da psicanálise sobre a experiência psíquica da religião, afirma:

"...o homem religioso encontra-se num estado de total desamparo. Em consequência da total repressão da sua energia sexual, perdeu a capacidade para a felicidade e para a agressividade necessária ao combate das dificuldades da vida. Quanto mais desamparado ele se torna, mais é forçado a acreditar em forças sobrenaturais que o apóiam e o protegem. Assim se compreende que, em algumas situações, ele seja capaz de desenvolver um incrível poder de convicção; de fato, uma indiferença passiva com relação à morte. Essa força advém-lhe do amor às suas próprias convicções religiosas, que são sustentadas por excitações físicas altamente prazerosas. Mas ele acredita que essa força provém de 'Deus'. O seu anseio por Deus é, na realidade, o anseio originado pela sua excitação sexual anterior ao prazer e que exige ser satisfeito. A liberação não é, nem pode ser, mais do que a libertação das tensões físicas insuportáveis, que podem ser agradáveis enquanto puderem ser associadas a uma união imaginária com Deus, isto é, à satisfação e ao alívio. A tendência dos religiosos fanáticos para se flagelarem, para atos masoquistas, etc, só vem confirmar o que dissemos. A experiência clínica em economia sexual mostra que o desejo de ser espancado ou a autopunição corresponde ao desejo instintivo de alívio sem incorrer em culpa. Não há tensão física que não evoque fantasias de estar sendo espancado ou torturado, se o indivíduo em questão se sente incapaz de produzir por si próprio o alívio. É essa a origem da ideologia do sofrimento passivo, presente em todas as religiões." (p. 139-140)

[...]

"Em nenhuma classe social florescem as histerias e as perversões, tanto como acontece nos círculos ascéticos da igreja."

O misticismo e a religião reforçam a inibição sexual, a moralidade de submissão e a estrutura familiar patriarcal autoritária. Daí o enorme interesse do fascismo e de toda sorte de reacionarismo político em se utilizar dessas instituições para desarmar o proletariado e manter intacto, sem perturbações, o seu sistema de dominação.


Economia sexual no combate ao fascismo

Reich, como todo marxista, compreende que mais importante do que interpretar o mundo, o que importa é transformá-lo. Por isso sua obra não poderia deixar de apontar alguns caminhos para combater as bases do fascismo.

Vamos nos limitar a citar apenas uma das políticas de economia sexual que ele apresenta, que é resumida da seguinte forma:

"Se conseguimos eliminar o medo infantil da masturbação - o que tem como consequência o aumento da necessidade de satisfação sexual genital -, então o conhecimento intelectual e a satisfação sexual prevalecerão. À medida que desaparece o medo da sexualidade, ou o medo da antiga proibição sexual paterna, diminui também a crença mística." (p. 171)

"A consciência sexual e os sentimentos místicos são incompatíveis."

[...]

"Não nos interessa discutir a existência ou inexistência de Deus: limitamo-nos a suprimir as repressões sexuais e a romper os laços infantis em relação aos pais." (p. 172)

Para comprovar a justeza da linha de seu trabalho, Reich cita os resultados que ele vinha obtendo em seu trabalho de economia sexual com os operários e suas famílias.


Conclusão

Esta obra de Reich, em nosso entendimento, seria melhor se não tivesse sofrido as revisões que sofreu nas edições seguintes à original. À medida que se passam os capítulos, sua obra começa a se mostrar uma colcha de retalhos. Isso foi causado pelo afastamento de Reich do Partido Comunista da Alemanha e seu abandono do marxismo, que ocorreu entre uma edição e outra, num espaço de mais de 10 anos.

As críticas que Reich ensaia sobre a URSS, por exemplo, são em sua maioria descabidas, tendo ele incorrido no grave erro do reducionismo psicológico. E justamente ele, que tanto criticava os "marxistas vulgares" pelo reducionismo econômico.

Nos primeiros capítulos Reich é comunista; no último já abandonou completamente o comunismo e o marxismo, defendendo a teoria da "democracia do trabalho", inventada por ele mesmo. Isso comprometeu a coesão e a coerência de sua obra.

No entanto, permanece intocável o valor de sua análise do fascismo presente nos primeiros capítulos, sendo esta obra altamente recomendável a todos aqueles que pretendem empreender uma análise profunda do fascismo.

Fonte: O Marxista-Leninista (com adaptações)

Sou radical só para os superficiais

Posted: 2.2.11 by Glauber Ataide in Marcadores: , , ,
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Algumas pessoas já me disseram que acham minhas posições políticas muito "radicais". Talvez quisessem que eu defendesse reformas moderadas no capitalismo, a conta-gotas, para daqui a mil anos e muitas gerações, quem sabe, alcançar melhorias significativas na vida de todo o povo (o que, no final das contas, é uma ilusão, conforme nos mostra o mundo).

Mas não é nenhum mistério para os marxistas o por que dessas pessoas pensarem assim. Marx demonstrou que são as condições materiais, concretas, econômicas, que determinam a forma como as pessoas pensam. Isso é, a ideologia é um reflexo das condições materiais concretas. (Clique aqui para ver mais sobre isso.)

Assim, pessoas de classe média, pelo fato de não sofrerem com a miséria e tampouco serem ricas, costumam adotar posições sempre "moderadas", "no meio do caminho". Ou seja, suas posições políticas são quase sempre "medianas", assim como sua posição social.

Para elas é muito feio ser "radical". Isso é coisa de fanáticos. Você deve ter algum problema se pensa assim. O correto é ser moderado, estar ora para lá, ora para cá, sempre oscilando, numa falsa busca pelo "equilíbrio".

Mas refletindo um pouco mais sobre isso, percebi que não é que eu seja exatamente "radical", seja qual for o sentido que atribuem a este termo quando me reprovam. Acho que o termo correto seria "profundo".

Ser profundo significa ir às raízes das coisas. É neste sentido que sou radical. O próprio significado do termo "radical" indica isso, algo relativo a "raízes".

Quem não desce até às raízes fica ou na superfícialidade da análise ou sem possibilidades de respostas, estacionado no meio do caminho.

Daí uma das características do método filosófico ser a "radicalidade" (clique aqui para ler sobre isso).

Daí a Psicanálise não poder ser preterida pela farmacologia, pois enquanto a primeira busca as causas, a segunda ataca apenas os sintomas.

E daí, finalmente, a solução da exploração do homem pelo homem, da miséria e da desigualdade ser o Socialismo, e não reformas moderadas no capitalismo.

E analisando isso de uma perspectiva dialética, quem me chama de radical, pelo fato de descer às raízes, só pode dizer isso do ponto de vista de quem está mais acima, na superficialidade. Ou seja, só posso ser radical quando quem me chama assim está mais próximo da superfície do que eu.



She-ra, a Princesa do Poder - sua mensagem política

Posted: 19.1.11 by Glauber Ataide in Marcadores:
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No final do último ano comecei a comprar e (re)assistir alguns seriados da década de 80 que marcaram minha infância, numa espécie de "sessão revival". Comprei Jaspion, Changeman, He-man e She-ra, até agora.

Todos tem se mostrado tão bons hoje quanto eram na época em que os vi pela primeira vez. E da minha opinião compartilha também a minha filha, que gosta muito de todos.

Mas este último, particularmente, chamou minha atenção por seu conteúdo político que me era impossível analisar quando tinha 5 anos de idade, e do qual nada podia lembrar em anos posteriores.

Quem é She-ra

She-ra é o "alter-ego" da princesa Adora, a irmã gêmea do He-man. Quando era ainda um bebê foi roubada por Hordak e levada para uma outra dimensão, a qual nem a Feiticeira e nem ninguém em Etérnia (onde vive o He-man) podiam localizar.

A princesa, então, foi criada por Hordak e ensinada nos caminhos da Horda, que mantém uma ditadura opressora sobre o povo de Etéria.

Essa é a explicação da história. She-ra vive em Etéria porque foi roubada de seus pais, em Etérnia, por Hordak (que, inclusive, foi o mentor de Esqueleto). Assim, antes de se tornar uma heroína, ela servia às forças do mal, à ditadura opressora de Hordak.

De governista a rebelde

A conversão da princesa Adora acontece quando ela é desafiada por He-man (em um filme longa-metragem que conta sua história) a ir para o campo e ver com seus próprios olhos como era a vida do povo. Adora pensava que Hordak era do bem, e que os "maus" eram os inimigos "rebeldes".

Mas quando Adora, pela primeira vez em sua vida, sai da fortaleza para ver como era o mundo, não tem dúvidas de quem realmente é das forças do mal. Assim, com a ajuda de He-man, que lhe trouxera de Grayskull uma espada (parecida com a sua própria) para cumprir sua missão, ela rompe com a Horda e se junta à chamada Grande Rebelião, tornando-se assim a She-ra.

A Grande Rebelião

A chamada "Grande Rebelião" é literalmente um foco de guerrilha no meio de uma floresta chamada "Floresta do Sussurro". Ali se reúnem todos aqueles dispostos a enfrentar e derrubar a ditadura de Hordak.

Fazem parte da rebelião não apenas pessoas com super podereres (que são poucos), mas também os cidadãos comuns e os camponeses pobres, armados apenas com paus e pedras.

Seu objetivo é derrubar, através da luta, a ditadura de Hordak que oprime e cobra pesadíssimos impostos dos camponeses.

Bons valores para as crianças

Enquanto assistia aos primeiros episódios de She-ra fiquei positivamente surpreso, perplexo até. E pensava: "Como assim, 'Grande Rebelião'? Eles são um foco de guerrilha, com base numa floresta? Se orgulham de ser 'rebeldes'? Se preocupam com a vida do povo pobre e luta com ele para libertar Etéria?"

Foi, enfim, uma grande satisfação descobrir mais de duas décadas depois que, quando ainda não tinha idade suficiente para discernir muitas coisas e estava exposto a tudo, felizmente assistia uma série como essa que me transmitia valores tão bons. E sei que séries como essa certamente deram alguma contribuição à formação das posições políticas que vim a ter em minha vida adulta. Por isso é muito bom poder resgatar estes episódios e torná-los disponíveis para uma nova geração, a quem pertence e irá construir o futuro. Pela honra de Grayskull! Por uma Etéria livre!