Meu encontro com Marx e Freud, de Erich Fromm

Posted: 6.5.11 by Glauber Ataide in Marcadores: , , , ,
0

Meu objetivo inicial com este livro era aprofundar meus estudos na interseção entre marxismo e psicanálise, mas ele só nos permite fazê-lo superficialmente. Até aí, tudo bem, pois não é este mesmo o seu objetivo. Esta obra é uma biografia intelectual de seu autor, e não uma exposição do freudo-marxismo.

Mas o grande problema que encontrei aqui é que Erich Fromm comete o mesmo erro da maioria dos marxólogos acadêmicos, que despem o marxismo de seu caráter revolucionário para deixa-lo mais palatável para a burguesia.

Ele mesmo afirma, nesta obra, que não é engajado politicamente, ou seja, é apenas um "marxista acadêmico". E isso é uma contradição, pois não é possível ser marxista e não estar politicamente engajado. Lembremo-nos da 11ª tese sobre Feuerbach, em que Marx afirma que os filósofos até hoje se limitaram a interpretar o mundo, mas o que importa, porém, é transformá-lo. A vida do próprio Karl Marx foi de engajamento político revolucionário.

Assim, Fromm é seduzido pela cantilena burguesa de que Stalin foi um "assassino", e em diversos momentos o coloca no mesmo plano de Hitler, fazendo assim o jogo da burguesia que, derrotada e envergonhada pelo que fez na II Guerra Mundial, precisou inventar no campo da esquerda um monstro idêntico ao que eles realmente criaram e financiaram no campo da direita, Adolf Hitler.

Além disso, é muito bonito que "marxistas acadêmicos", como Fromm, digam como as coisas devem ser. Falam muito do "Homem", da "Liberdade", etc. Mas em momento algum eles dizem como isso deve ser alcançado.

Se apegam a uma imaginária "pureza da revolução", que o filósofo italiano Domenico Losurdo chama de "universalismo abstrato", e criticam toda tentativa de construção do socialismo na prática. Essa postura é sempre consequência ou de falta de engajamento político ou de oposição esquerdista que não tem nenhuma responsabilidade de construir algo, mas apenas de desconstruir. E a primeira delas, não ser politicamente engajado, é ainda uma das razões pelas quais tal pessoa não pode carregar o título de marxista, pois não consegue ver essas nuances da vida prática se está apenas confortavelmente sentado num banco da universidade. Este suposto "distanciamento do objeto" mais cega do que faz ver.

Mas para não deixar a impressão de que não há nada aproveitável neste livro, há vários pontos esclarecedores sobre o que há em comum entre Marx e Freud - cada capítulo do livro trata de um aspecto diferente.

Um dos mais interessantes é sobre a atitude cética tanto de Marx quanto de Freud sobre aquilo que pensamos que sabemos. Para Freud, muito do que se passa na vida psíquica do homem é inconsciente, e ele não sabe exatamente porque age da forma que age. Já para Marx, as pessoas também não sabem por que pensam como pensam, pois suas idéias são em grande parte reflexos das condições materiais concretas da sociedade em que vive.

Ou seja, ambos os pensadores trabalham com um conceito semelhante de "racionalização". Para Freud, a racionalização é uma tentativa de dar sentido a uma ação ou pensamento que vem do inconsciente. Na obra de Marx, essa racionalização recebe o nome de "ideologia", isso é, uma justificativa da organização social em que vive, do status quo. Mas enquanto Freud trabalha com o indivíduo, Marx trabalha com o social.

E como dica para os interessados no tema, um teórico que considero muito superior a Erich Fromm no freudo-marxismo é Wilhelm Reich, quando este ainda fazia parte do Partido Comunista da Alemanha. Sua obra deste período de militância política é muito mais profunda do que podemos encontrar neste livro de Fromm.


Problemas da moral religiosa

Posted: 20.4.11 by Glauber Ataide in Marcadores: , , ,
3


Uma das principais dificuldades da discussão moral hoje, no contexto de um mundo relativista, líquido, pós-moderno, reside no problema da fundamentação da moral. Se uma moral é fundamentada numa religião particular, mas um outro grupo não compartilha dessa crença, essa doutrina não tem nenhuma força sobre essa outra comunidade. As doutrinas morais religiosas, portanto, não possuem um caráter tão "absoluto" quanto seus adeptos julgam ter, neste aspecto.

Vemos isso na prática em discussões sobre o aborto. Pessoas religiosas, por comungarem de determinadas concepções sobre o tema, conflitam-se na arena pública com diversos outros setores da sociedade que não compartilham dessas crenças oriundas de seus livros sagrados.

Se podemos fazer uma categorização ampla e simplificada das diversas perspectivas morais, os dois principais grupos seriam 1) daquelas doutrinas que recorrem a livros sagrados como fundamento, e 2) daquelas que não inserem Deus na discussão, buscando fundamentar a moral no mundo real, e não no além.

A moral religiosa, a despeito de toda a aparente simplicidade de sua fundamentação ("Deus existe, logo, eu obedeço") apresenta vários problemas. Grande parte da discussão que aqui apresentamos se encontra na obra Moral - uma introdução à ética, do filósofo Bernard Williams, editora Martins Fontes. Falecido em 2003, Williams foi considerado pela revista Times como o filósofo moral inglês mais brilhante e mais importante de seu tempo.

Os religiosos afirmam que se Deus não for acrescentado à discussão, então nada fundamenta a moral e, portanto, nenhuma outra perspectiva, a não ser a deles, pode ser universalizada.

Sua argumentação consiste em buscar por estruturas transcendentais para explicar a finalidade do homem, isso é, o que homem deve fazer e como deve ser neste mundo. Já que o homem é criado por Deus, este teria certas expectativas em relação à sua criatura, dizem.

Surge aqui, no entanto, um primeiro problema: quais características de Deus justificam nosso dever de satisfazer suas expectativas?

Seria o seu poder? Isso é discutível, pois, por analogia, temos exemplos de pais humanos e reis que não devem ser obedecidos. Isso, portanto, não constitui um critério adequado. Seria então pelo seu infinito poder, ou por ter criado tudo que existe? Mas poder ou domínio infinito não parecem mais dignos de obediência. Ou seria, então, por que Deus é bom? Tampouco, pois essa qualificação já envolve uma valoração, que deve ser a conclusão, e não a premissa do apelo a Deus (Kant).

Os argumentos acima têm sido utilizados por diversos filósofos contra a ideia puramente dedutiva e a priori de que devemos cultivar um determinado tipo de vida por sermos criaturas de Deus.

Bernard Williams afirma que o seguinte é um ponto pacífico entre os filósofos: mesmo que Deus exista, isso não faz, para um pensador moral de mente aberta, nenhuma diferença na reflexão moral.

Os motivos para obedecer a Deus, cumprir seus mandamentos morais, são morais ou não. Mas se a pessoa já está munida de motivos morais, a inserção de Deus nada acrescenta.

E se suas motivações não são morais, não podem levar adequadamente à moralidade: serão motivos de prudência, que em sua forma mais simplificada, isso é, nos sermões de padres e pastores, configuram-se num tipo de convencimento moral ad baculum (1), qual seja, a ameaça do inferno.

Nenhuma ação moral motivada por prudência pode ser uma ação moral genuína - a ação moral deve ser motivada pelo que é moralmente certo e nada mais. Qualquer apelo a Deus nesse encadeamento nada acrescenta, ou, se o faz, acrescenta os dados errados.

Na opinião de Williams, "o problema da moralidade religiosa não reside no fato de a moralidade ser inescapavelmente pura, mas sim no fato de a religião ser incuravelmente ininteligível."



NOTAS

(1) Ad baculum: tipo de falácia que tenta convencer alguém através de ameaças. Em latim, significa "apelo ao porrete".


REFERÊNCIAS

WILLIAMS, Bernard. Moral - uma introdução à ética. São Paulo: 2005, Martins Fontes.

Sonhos com pessoas falecidas

Posted: 19.4.11 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
4


Poucos dias após o falecimento de meu pai tive o seguinte sonho:

Meu pai se levantava de seu túmulo e, ainda sentado, se limpava por causa da terra que estava por cima dele. A razão dele estar se levantando é que um de meus primos tinha chegado atrasado e não teve tempo de vê-lo antes de ser enterrado.

Tive este sonho em 2003, mas somente por volta de 2011, quando já estudava psicanálise, é que consegui extrair dele algum significado. A interpretação então me pareceu bastante clara. É que quando meu pai faleceu, este meu primo não foi ao enterro porque estava viajando. O sonho então representa uma cena que não aconteceu: meu primo chegando ao enterro, mas atrasado. Isso foi razão suficiente para traduzir o seguinte pensamento latente: "Meu pai não pode ir embora sem se despedir de todos antes. Ele tem que voltar pelo menos para se despedir."

Além disso, há ainda um associação entre meu primo e eu mesmo. No dia em que meu pai faleceu era eu quem estava designado para ficar com ele no hospital, segundo nossa escala de revezamento. No entanto, logo pela manhã, antes de sair, fui acordado por um telefonema de minha irmã avisando de seu falecimento. Ou seja, eu próprio não cheguei a tempo de me despedir dele, o que aparece representado no sonho através da imagem de meu primo. O pensamento latente expresso neste conteúdo manifesto pode então ser traduzido de forma ainda mais exata: "Meu pai não pode ir embora sem se despedir de mim antes. Ele tem que voltar pelo menos para se despedir."

Sonhos com pessoas queridas, que faleceram recentemente, geralmente são uma tentativa de realização do desejo de trazer de volta esses falecidos. Notem que enfatizo aqui o geralmente porque, a partir de uma perspectiva psicanalítica, um sonho com semelhante estrutura pode ter outros significados.

Freud e os sonhos com pessoas falecidas

Para um tratamento mais aprofundado do tema, reproduzo abaixo um trecho no qual Freud discorre sobre sonhos com pessoas falecidas. Ele foi retirado da obra "Conferências introdutórias sobre Psicanálise (Partes I e II)", p. 188-191, vol. XV da Edição Standard das Obras Psicológicas Completas.

(3) Quando se perde alguém que é de nossas relações e nos é caro, surgem sonhos de um tipo especial, durante algum tempo após, nos quais o conhecimento da morte chega às mais estranhas conciliações com a necessidade de trazer novamente à vida a pessoa morta. Em alguns desses sonhos, a pessoa que morreu está morta e ao mesmo tempo permanece viva porque não sabe que está morta; somente se soubesse, morreria completamente. Em outros, a pessoa está meio morta e meio viva, e cada um desses estados vem indicado por uma forma particular. Não devemos descrever esses sonhos como simplesmente absurdos; pois ser devolvido novamente à vida não é mais inconcebível nos sonhos do que o é, por exemplo, em contos de fadas, nos quais isso ocorre como fato muito rotineiro. Sempre que pude avaliar tais sonhos, constatei que eles são passíveis de uma solução racional; contudo, o piedoso desejo de fazer retornar à vida a pessoa morta conseguiu operar pelos mais estranhos meios. Apresentar-lhes-ei agora um sonho desse tipo, que parece tão esquisito e absurdo, e, no entanto, sua análise lhes mostrará muitas coisas para as quais nossas explicações teóricas os terão preparado. É o sonho de um homem que havia perdido seu pai, vários anos antes:

Seu pai estava morto, mas havia sido exumado e parecia estar mal. Tinha estado vivendo desde então e o homem, no sonho, fazia todo o possível para evitar que o pai percebesse. (O sonho continuava com outros assuntos, aparentemente muito diferentes.)

Seu pai estava morto; sabemos disso. O ter sido exumado não corresponde à realidade; e não havia nada de realidade em tudo o que se seguia. O sonhador, porém, relatou que, após ter voltado dos funerais do pai, um de seus dentes começou a doer. Ele queria tratar o dente segundo o preceito da doutrina judaica: ‘Se teu dente incomoda, arranca-o!’ E ele foi ao dentista. Mas o dentista disse: ‘Não se arranca um dente. Deve-se ter paciência com ele. Porei dentro dele algo que o mate; volte em três dias e eu o extrairei.’

‘Esse “extrair”’, disse o homem que teve o sonho, ‘é exumar!’

Será que o homem estava certo do que dizia? Isso apenas se adapta mais ou menos, não completamente; pois não foi extraído o dente, foi extraído apenas algo nele que morrera. No entanto, imprecisões deste tipo podem, com prova em outras experiências, ser atribuídas à elaboração onírica. Sendo assim, o homem que teve este sonho condensara seu pai morto e o dente que havia sido morto, porém conservado; ele os fundiu numa unidade. Não é de causar admiração, portanto, que algo de absurdo emergisse no sonho manifesto, de vez que, afinal, nem tudo que se disse do dente poderia ajustar-se a seu pai. Onde pode haver, talvez, um tertium comparationis [ver em [1], anterior] entre o dente e seu pai, para que se tornasse possível a condensação?

Entretanto, sem dúvida ele deve ter tido razão, pois prosseguiu dizendo que sabia que sonhar com a queda de um dente significa que se vai perder um membro da família.

Essa interpretação popular, como sabemos, é incorreta, ou, pelo menos, correta somente em sentido grosseiro. Todos ficaremos muito surpresos por encontrar, pois, o assunto assim abordado reaparecendo agora em outras partes do conteúdo do sonho.Este sonhador, sem nenhum outro encorajamento, começou a falar na doença e na morte de seu pai, bem como a respeito de suas próprias relações com ele. Seu pai esteve doente durante longo tempo, e os cuidados e o tratamento tinham-lhe custado (ao filho) grande soma de dinheiro. Não obstante, nunca era demais, ele jamais se impacientou, jamais desejou que, afinal, tudo pudesse logo chegar ao fim. Orgulhava-se de sua verdadeira dedicação filial judaica para com o pai, de sua estrita obediência à lei judaica. E aqui nos surpreendemos com uma contradição existente nos pensamentos pertinentes ao sonho. Ele havia identificado o dente com seu pai. Devia proceder com o dente segundo a lei judaica que lhe ordenava arrancá-lo se lhe causasse dor ou incômodo. Desejava também proceder do mesmo modo com seu pai, segundo os preceitos da lei; neste caso, porém, ela lhe ordenava não poupar gastos nem atribulações, assumir todo o encargo sobre si mesmo e não permitir que alguma intenção hostil emergisse contra o objeto que lhe estava causando sofrimento. Será que as duas atitudes não teriam sido conciliadas muito mais convincentemente, se ele tivesse realmente desenvolvido sentimentos para com seu pai doente semelhantes àqueles com relação a seu dente doente — isto é, se tivesse desejado que a morte se antecipasse e pusesse fim à sua existência desnecessária dolorosa e custosa?

Não duvido de que era esta, realmente, sua atitude para com seu pai durante a fatigante doença, e que suas altivas afirmações de amor filial se destinavam a desviá-lo dessas lembranças. Sob essas condições, o desejo de morte contra um pai está pronto a entrar em atividade e esconder-se sob o disfarce dessas reflexões caridosas tais como ‘seria um feliz alívio para ele’. Mas, por favor, observem que, nisso, ultrapassamos uma barreira existente nos próprios pensamentos oníricos latentes. Sem dúvida, a primeira parte dos mesmos esteve inconsciente apenas temporariamente, isto é, durante a construção do sonho; seus impulsos hostis contra o pai, contudo, devem ter sido permanentemente inconscientes. Podem ter-se originado de cenas de sua infância e, ocasionalmente, emergiram como conscientes, tímida e disfarçadamente, durante a doença do pai. Isto podemos afirmar, com grande certeza; acerca de outros pensamentos latentes que contribuíram inequivocamente para o conteúdo do sonho. Nada, realmente, deve ser descoberto, no sonho, sobre seus impulsos hostis para com seu pai. Se, porém, procurarmos na infância as raízes dessa hostilidade contra um pai, nos recordaremos de que o medo ao pai tem início nos primeiros anos de vida, porque este se opõe às atividades sexuais do menino, exatamente como terá de acontecer mais uma vez, por motivos sociais, após a idade púbere. Essa relação com o pai aplica-se também a esse nosso sonhador: o amor pelo pai incluía uma estranha mescla de reverência e temor, que tinha sua origem no fato de, quando menino, por meio de ameaças, ter sido tolhido em sua atividade sexual.As frases restantes do sonho manifesto podem ser explicadas, agora, em relação ao complexo da masturbação. ‘Ele parecia estar mal‘ é realmente uma alusão a uma outra observação do dentista no sentido de que parece mau alguém perder um dente nessa parte da boca; mas refere-se, ao mesmo tempo, ao ‘parecer estar mal’ pelo qual um jovem, na puberdade, revela, ou receia revelar, sua atividade sexual excessiva. Não foi sem alívio para seus próprios sentimentos que, no conteúdo manifesto, este que sonhou deslocou o ‘parecer estar mal’ de si mesmo para seu pai — um dos tipos de inversão feitos pela elaboração onírica, que os senhores já conhecem [ver em [1]]. ‘Tinha estado com vida desde então‘ coincide com o desejo de trazer de volta à vida, assim como coincide com a promessa do dentista de que o dente sobreviveria. A frase ‘o sonhador fazia todo o possível para evitar que ele (o pai) percebesse‘ é muito sutilmente arquitetada para nos desorientar, fazendo-nos pensar que ela deveria ser completada com as palavras ‘que ele estava morto’. A única completação, entretanto, que faz sentido, provém, uma vez mais, do complexo de masturbação; em relação a isto, é evidente que o jovem fez tudo quanto pôde para ocultar de seu pai sua vida sexual. E, finalmente, lembrem-se de que sempre devemos interpretar os chamados ‘sonhos com um estímulo dental’ como sendo relacionados com masturbação e com o temido castigo correspondente. [ver em [1].]

Agora podem ver como esse sonho incompreensível se efetuou. Fez-se produzindo uma condensação estranha e desorientadora, desprezando todos os pensamentos que estavam no centro do processo de pensamentos latentes e criando substitutos ambíguos para os mais profundos e cronologicamente mais remotos desses pensamentos.

Atos falhos, ou parapraxias

Posted: 7.4.11 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
4

As parapraxias, ou atos falhos, são manifestações de intenções perturbadoras do inconsciente em nossa atividade consciente. Um exemplo de um ato falho são os lapsos de língua, quando trocamos uma palavra por outra ou o nome de uma pessoa por outro.

O esquecimento de intenções também são atos falhos. Ocorre, por exemplo, quando chegamos em um determinado lugar e perguntamos: "o que eu vim fazer aqui mesmo?"

Um ato falho ocorre quando eu saio de casa com uma carta na mão para despachá-la mas percebo que passei por uma caixa de correio e não a deixei lá. Esse esquecimento é um tipo de ato falho. Freud comenta que

"...não preciso, como indivíduo normal e livre de neuroses, carregá-la na mão por todo o caminho e ficar à cata de uma caixa de correio onde possa jogá-la; pelo contrário, costumo colocá-la no bolso, seguir meu caminho deixando os pensamentos vagarem livremente, e confiar em que uma das primeiras caixas do correio há de chamar minha atenção e fazer com que eu ponha a mão no bolso e retire a carta. A conduta normal frente a uma intenção concebida coincide por completo com o comportamento experimentalmente produzido das pessoas a quem se deu, em hipnose, uma "sugestão pós-hipnótica a longo prazo", como se costuma chamá-la. Esse fenômeno é usualmente descrito da seguinte maneira: a intenção sugerida dormita na pessoa em questão até se aproximar o momento de efetivá-la. É aí que desperta e impele a pessoa para a ação." (FREUD, 2002)

Os atos falhos ocorrem para evitar o desprazer. Eles são sempre sintomas de algum tipo de conflito psíquico. No caso da carta, o ato de depositá-la na caixa de correios poderia entrar em associação com conteúdos psíquicos que quero manter recalcados. Por essa razão, um mecanismo psíquico atua para que a ação não seja executada, e nesse caso, para que eu esqueça minha intenção de colocar a carta no correio.

Um outro ato falho muito comum é a substituição de nomes, isso é, quando vamos chamar uma pessoa e trocamos seu nome pelo de outra pessoa. Ou então quando esquecemos o nome de uma pessoa. A real motivação da troca de um nome pelo outro ou pelo seu esquecimento pode ser analisada.

Se alguém também afirma: "'Não me peça para fazer isto, tenho certeza de que vou esquecer!'", a realização dessa profecia, segundo Freud (1997), nada tem de místico, pois "quem assim fala sente em si a intenção de não executar o pedido e apenas se recusa a confessá-lo a si mesmo."

Os atos falhos, por se manifestarem em todas as pessoas, e não apenas em neuróticos, é um dos principais meios de acesso às descobertas da Psicanálise. Tanto que Freud escolheu este tema como o primeiro a apresentar em suas "Conferências Introdutórias sobre Psicanálise" (volumes XV e XVI da Edição Standard das Obras Completas).

Para ilustrar um ato falho de esquecimento, relato um incidente que me ocorreu recentemente. Estava apresentando um trabalho em sala de aula sobre o julgamento de Sócrates. Durante minha fala me esqueci completamente de uma palavra, o que foi constrangedor, pois fiquei alguns segundos calado, em pé, diante de toda a classe, que esperava que eu desse prosseguimento. Com a ajuda do texto que tinha em mãos consegui recuperar o termo reprimido: era a palavra "acusação".

Depois que terminei e me sentei, tentei analisar este episódio e logo encontrei seu motivo: a palavra "acusação" estava associada a "julgamento", o que se associava com o receio de que a audiência estivesse julgando ou acusando a apresentação que eu estava fazendo. E o contexto era propício a isso porque, como já afirmei, o tema do trabalho era o julgamento de Sócrates, e estávamos comentando a obra "Apologia de Sócrates", de Platão.

Os atos falhos foram agrupados por Freud em sete tipos: orais, escritos, de falsa leitura e de falsa audição, esquecimento temporal, perdas e atos sintomáticos. Alguns guardam muitas semelhanças com outros, como os lapsos de língua e os de escrita, por exemplo.

Por serem bem mais simples de interpretar do que os sonhos, são um bom caminho para quem deseja iniciar seus estudos em Psicanálise. São uma clara manifestação da nossa psicopatologia da vida cotidiana, uma demonstração bem acessível de que todos nós somos, no mínimo, levemente neuróticos.


REFERÊNCIAS

FREUD, Sigmund. Sobre a psicopatologia da vida cotidiana. In: Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1997.

KEEGAN, Paul. Introduction. In: FREUD, Sigmund. The psychopathology of everyday life. London: Penguin Classics, 2002.

TALLAFERRO, Alberto. Curso básico de Psicanálise [Tradução Álvares Cabral ]. 2.ed. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

O idiota, de Dostoievski, e Policarpo Quaresma, de Lima Barreto

Posted: 5.4.11 by Glauber Ataide in Marcadores:
0

Este artigo, de autoria do jornalista Renato Pompeu, faz uma comparação entre dois protagonistas de dois dos meus livros favoritos: o príncipe Michhkin, do livro "O idiota", de Dostoievski, e Policarpo Quaresma, do livro "O triste fim de Policarpo Quaresma", de Lima Barreto.


“Policarpo” seria um “Idiota”?

Renato Pompeu

Quis o acaso que os palcos paulistanos reunissem os romances “O Idiota”, do russo Fiodor Dostoievski (Fiodor é a forma russa de Teodoro), escrito em 1867-69, e “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, do carioca Lima Barreto, publicado quase meio século depois, em 1911. Mas o mais estranho é que os dois heróis, o “idiota” príncipe Michhkin e o “patriota” Quaresma têm muito em comum. A ponto que serviria para o romance russo a epígrafe do romance brasileiro: “O grande inconveniente da vida real e que a torna insuportável para o homem superior é que, se para ela são transportados os princípios do ideal, as qualidades se tornam defeitos, tanto que muito frequentemente aquele homem superior realiza e consegue bem menos do que aqueles movidos pelo egoísmo e pela rotina vulgar”, citação do livro “As origens do cristianismo”, do humanista francês Ernest Renan, do século 19.

O que é que isso tem a ver com Michkin? O príncipe, quando começa o romance, chega a São Petersburgo depois de ter passado um tempo internado num sanatório suíço, por sofrer de “idiotia” (na época, termo médico aplicado a pessoas com profundo retardamento mental) e de epilepsia. Na verdade, fosse ou não retardado (Dostoievski não deixa isso claro), Michkin era homem profundamente ético e generoso, o que o torna destoante da maioria dos demais personagens da obra, egoístas, interesseiros e que levam em conta muito mais as virtudes do dinheiro do que as virtudes morais.

Michkin, por exemplo, se dispõe a casar com uma mulher “decaída”, por ser ao mesmo tempo solteira e não mais virgem, amante de um homem poderoso que se propõe a pagar a um conhecido do príncipe para esse conhecido se casar com ela e esse homem poderoso poder continuar a ser amante da moça. Michkin quer se casar com ela, apesar de estar apaixonado pela filha mais nova de um general, para dar à “decaída” um sobrenome e uma posição de respeito na sociedade. E também para livrar seu conhecido do vexame de ser um marido pago para ser traído.

O príncipe, durante a trama, recebe uma herança, que aos poucos se descobre ser de valor bem menor do que o inicialmente esperado. Surge um enxame de credores, supostos ou reais, e de parentes e amigos, também supostos e reais, que literalmente passam a extorquir grandes quantias de Michkin. Generoso e desprendido, ou talvez “idiota”, o príncipe se esforça por atender a todos os pedidos.

Rejeitado tanto pela “decaída” com quem pretendia se casar, como pela jovem pela qual se tinha apaixonado, Michkin, igualmente abandonado por todos ao praticamente se esgotar seu dinheiro, não tem outro remédio senão novamente se internar no sanatório suíço. Ambas as mulheres se unem a homens de caráter duvidoso.

Vemos que Michkin se enquadra na definição de “homem superior” da epígrafe escolhida para “Policarpo”, pois “consegue bem menos do que aqueles movidos pelo egoísmo e pela rotina vulgar”. Pois “fora da rotina” e “destoante” era um dos sentidos da palavra “idiota” na Grécia antiga, reservada para pessoas, que, por terem opiniões muito próprias, “idiossincrasias”, não participavam da vida política dos cidadãos comuns.

Igualmente, Policarpo Quaresma poderia ser considerado “idiota”, e de fato foi considerado louco, por causa de seu extremo idealismo nacionalista. Servidor civil do Exército, onde exerce funções burocráticas, conhecido como “major” apesar de não ter a patente, Quaresma é um solteirão considerado, inicialmente, “esquisitão” por ler muito nas horas vagas (como se fosse um novo Dom Quixote). Ainda mais “esquisitão” passa a ser julgado pelos amigos quando se dispõe a aprender a tocar violão, considerado na época um instrumento ligado a malandros e vagabundos. A justificativa de Quaresma é que ele acha o violão um símbolo da nacionalidade brasileira.

No entanto, avançando em seu nacionalismo, possivelmente por considerar o violão, afinal, de origem européia e assim não ser um instrumento genuinamente brasileiro, o major Quaresma passa a estudar o tupi, “idioma” insuspeito de europeísmo, e as tradições indígenas em geral. Depois de propor ao Parlamento que tornasse obrigatório o tupi como língua oficial do País, Quaresma passa de “esquisitão” a “louco” na visão de seus conhecidos.

Logo essa visão passa a diagnóstico médico e funcional. É que Quaresma começa a redigir documentos de sua repartição em tupi, sendo por isso afastado de suas funções e internado num manicômio. Anos depois, recebe alta e, aposentado, gasta grande parte de sua pensão na compra de um sítio no interior, para viver do “solo pátrio” e difundir técnicas agrícolas avançadas.

O empreendimento fracassa com estardalhaço, e Quaresma, apesar de se isolar da política local (afinal, como Michkin, ele é também um “idiota” no sentido grego antigo da palavra), se vê perseguido pelas duas correntes políticas rivais. Pois cada partido julga seu isolamento um disfarce para Quaresma servir ao partido adversário. Na verdade, ele se mantinha afastado dos dois partidos por considerá-los, a partir de seu idealismo, por demais ligados a interesses mesquinhos.

Quaresma, sempre nacionalista, era também republicano de carteirinha. Quando ocorre, no início dos anos 1890, o movimento monarquista para a derrubada do presidente da República, marechal Floriano Peixoto, movimento conhecido como Revolta da Armada, o “major” deixa o sítio para combater no Rio de Janeiro a revolta, sendo engajado com a patente de fato de major num regimento.

Acontece que, lutando pela República, Quaresma descobre que o novo regime está longe de corresponder a seus ideais elevados, corroído que está por corruptos e bajuladores. Ele passa a criticar essas mazelas, o que o leva a ser considerado traidor e a ser condenado ao fuzilamento. Realmente, triste fim de Policarpo Quaresma. Como também foi triste o fim de Michkin, outro “idiota”.

Assim, ficam claras as semelhanças entre os dois heróis dos romances agora encenados em São Paulo.


P.S.: Na foto deste post, à esquerda, temos o Príncipe Michkin conforme interpretado na mini-série russa em 10 episódios "O idiota", baseada no livro homônimo de Dostoievski. Vale a pena assistir, foi muito bem feita bem e é muito próxima ao livro.


Impunidade é a maior causa da violência?

Posted: 4.4.11 by Glauber Ataide in Marcadores: , , ,
6

Quem já conversou com brucutus fascistas sabe que é muito difícil fazê-los entender coisas simples, básicas, elementares. O fascismo se caracteriza pelo irracional.

Hoje, ao ouvir na TV a afirmação de que "a impunidade é a maior causa da violência", me ocorreu desenhar o esquema abaixo, tornando assim mais fácil à "elite intelectual brasileira" (a classe média se considera assim) compreender por que a proposta marxista para acabar com a violência faz mais sentido que a deles. (Eu acredito na educação, sou incorrigível nisso. Chego a ponto de acreditar que alguns poucos fascistas são recuperáveis.)

Reparem que enquanto o fascista quer acabar com a violência matando o pobre, os comunistas querem fazê-lo acabando com a pobreza.

E por último, vejam que a lógica não é o forte dos arianos tupiniquins: eles não atacam a causa do problema, mas tentam reforçar seu efeito, pensando que assim o ciclo será interrompido. Já disse que eles são uns brucutus, não?

Clique na imagem para ampliar.

Auxílio-reclusão: você já recebeu este e-mail?

Posted: 1.4.11 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
0

Escrevo isso porque já recebi este e-mail pelo menos cinco vezes. Seu autor, provavelmente um fascistóide pseudo-revoltado-médio-classista-pequeno-burguês, esbraveja por a Previdência Social oferecer o chamado "Auxílio-reclusão" para os dependentes do segurado em situação de reclusão.

Tanto o autor quanto os forwarders dessa idiotice até hoje não devem ter tido tempo de ler o link que eles próprios nos repassam, e por isso ainda não perceberam que isso se trata de um seguro como qualquer outro, e nada mais. E tenho certeza que eles também não reclamam de nenhum outro tipo de seguro, como aqueles privados que eles próprios contratam.

Se num seguro de vida privado uma pessoa paga todo mês determinado valor e, em que caso de óbito, seus familiares recebem a quantia estipulada no contrato, com o auxílio-reclusão da Previdência acontece algo semelhante, pois ele é um seguro. O segurado, que só pode ser um trabalhador, paga sua contribuição todos os meses e, caso aconteça de ser preso por alguma razão, sua família não fica desamparada.

O que é muito racional, pois a família inteira não pode ser penalizada por um crime que não cometeu e, além disso, sem esse seguro eles teriam maior probabilidade de também se tornarem criminosos. Esta lei visa impedir o crescimento exponencial da criminalidade, isso é, que se torne uma bola de neve. Qual o futuro de uma criança que fica desamparada quando seu pai vai preso? Escola, trabalho na rua ou criminalidade?

Esses médio-classistas reclamam porque não sabem ler direito (pergunte o nome dos 10 últimos livros que leram e confirme). Enviam até o link do site da Previdência para dar credibilidade à bobagem que estão dizendo, mas eles próprios não leem o que enviam.

Pensam que qualquer preso teria direito a esse auxílio, acusando o governo de conivência com a "vagabundagem" (termo sempre presente na boca da direita) e com o crime, o que seria absurdo.

Psicologicamente eles tem a sensação de estar descobrindo informação privilegiada, um segredo que a "mídia" não divulga e que eles, desbravadores e elite intelectual do país, estão trazendo à luz.

Não, meu caros: isso é apenas um seguro, como várias empresas privadas fazem. É um seguro para trabalhadores. Uma das condições para os dependentes do segurado receberem o benefício é não "estar recebendo salário da empresa na qual trabalhava".

No site Observatório Social encontramos a informação de que este benefício, além de ser antiquíssimo, também existe em outros países.

Vários decretos-leis em plena ditadura militar - para deleite daqueles médio-classistas que adoram lamber um coturno - alteraram dispositivos dessa lei, mas não revogaram a tal "aberração".

Sugiro que os leitores deem uma olhada no texto a que nos referimos.




Esperando por mim - o mal do século e a imortalidade

Posted: 9.3.11 by Glauber Ataide in Marcadores:
5

Reproduzimos abaixo trechos do livro Depois do fim - Vida, amor e morte nas canções da Legião Urbana que analisam a canção "Esperando por mim", do último e melancólico álbum "A tempestade", da Legião Urbana.



Esperando por mim

Acho que você não percebeu
Que o meu sorriso era sincero
Sou tão cínico às vezes
O tempo todo
Estou tentando me defender

Digam o que disserem
O mal do século é a solidão
Cada um de nós imerso em sua própria arrogância
Esperando por um pouco de afeição

Hoje não estava nada bem
Mas a tempestade me distrai
Gosto dos pingos de chuva
Dos relâmpagos e dos trovões

Hoje à tarde foi um dia bom
Saí pra caminhar com meu pai
Conversamos sobre coisas da vida
E tivemos um momento de paz

É de noite que tudo faz sentido
No silêncio eu não ouço meus gritos

E o que disserem
Meu pai sempre esteve esperando por mim
E o que disserem
Minha mãe sempre esteve esperando por mim
E o que disserem
Meus verdadeiros amigos sempre esperaram por mim
E o que disserem
Agora meu filho espera por mim
Estamos vivendo
E o que disserem os nossos dias serão para sempre.


Em primeiro lugar, chama a atenção a referência direta que Renato Russo faz ao mal do século, o que reforça sua posição na tradição de letrista de orientação romântica (e em alguns momentos deste disco, da 2ª geração do romantismo).

O mal do século, no romantismo da 2ª geração, se identifica por temas como a depressão, a morte, o ódio, o grotesco, o absurdo, a noite, o amor não correspondido, etc. Um dos principais expoentes do gênero no Brasil foi Álvares de Azevedo .

Renato apresenta, no entanto, uma própria definição do que seja o mal do século: "Digam o que disserem / O mal do século é a solidão".

"'Esperando por mim' (8º álbum) prega a eternidade através das gerações que virão. É uma possibilidade de estar vivo para sempre no outro: 'Meu pai sempre esteve esperando por mim / E o que disserem / Minha mãe sempre esteve esperando por mim / E o que disserem / Meus verdadeiros amigos sempre esperaram por mim / E o que disserem / Agora meu filho espera por mim / Estamos vivendo e o que disserem / Os nossos dias serão para sempre'.

"Pai representa a segurança e a ordem; mãe, o aconchego e a paz; amigos, a força; filho, a certeza da perpetuação. Os dias serão para sempre, porque haverá a lembrança deles nas pessoas que ficam. É o mesmo olhar de carinho, de compreensão de 'Pais e filhos' (4º álbum). A chave da harmonia: aceitação das diferenças entre as gerações. Pais igual ao passado, amigos igual ao presente, filho igual ao futuro." (p. 122, grifo nosso)

Esta leitura realizada pelas autoras me remeteu diretamente a um trecho da obra "O banquete", de Platão. Em um diálogo com Diotima, Sócrates afirma que o amor é o desejo de imortalidade. Através do amor as criaturas se reproduzem, e essa é a forma do mortal imitar o imortal. O mortal pode prolongar sua existência apenas através da procriação.

As autoras também mostram como Renato Russo se enquadra na tradição romântica:

"A letra caracteriza bem o eu romântico ao desenvolver um discurso irônico: 'Acho que você não percebeu / Meu sorriso era sincero / Sou tão cínico às vezes / O tempo todo / Estou tentando me defender', o que está de acordo com os sentimentos românticos de marginalidade, de desilusão e de tédio: 'O mal do século é a solidão / Cada um de nós imerso em sua própria arrogância / Esperando por um pouco de afeição'. Versos sínteses da visão romântica, do eu-lírico como possuidor de um mal incurável." (p. 122)

E também neste trecho:

"A noite também é o grande espaço do eu romântico: 'É de noite que tudo faz sentido / No silêncio eu não ouço meus gritos / E o que disserem'. Ele busca no silêncio a paz que não está no seu interior. É uma tentativa do externo dar conta do interno." (p. 30)

O eu-lírico pode se esquecer por um momento de todas as suas perturbações através do trabalho. Os versos "Hoje não estava nada bem / Mas a tempestade me distrai" parece fazer referência ao título do álbum em que o autor estava trabalhando, "A tempestade".

Já nos seguintes versos podemos ver atuando um mecanismo de defesa do ego denominado pela Psicanálise de projeção: "O mal do século é a solidão / Cada um de nós imerso em sua própria arrogância / Esperando por um pouco de afeição". Isso é, o eu-lírico universaliza a sua própria experiência interna. Ele se considera, conscientemente ou não, um indivíduo que em sua solitária arrogância está na verdade esperando por afeição, e a partir disso aplica essa sua própria característica a todos os seus interlocutores e se defronta com isso como se estivesse vindo de fora..

(CASTILHO, Angélica, SCHLUDE, Erica. Depois do fim. Vida, amor e morte nas canções da Legião Urbana. Rio de Janeiro: Hama, 2002.)

Da série "Contradições do Capitalismo" - Parte I

Posted: 7.3.11 by Glauber Ataide in Marcadores: , , , ,
1

O segredo para não se endividar é "administrar" bem o que você ganha. Ou pelo menos é isso que os "especialistas" nos ensinam nos quadros dos telejornais. Mas vamos prestar bem atenção no que esses "especialistas", papagaios do óbvio, estão propalando na mídia burguesa.

Reparem que a questão dos baixos salários nunca é apontada como pelo menos um dos principais fatores do decadente nível de vida da população. Parte-se do pressuposto que não há nada de errado com o sistema econômico. E como a ideologia burguesa cultua o individualismo à Robinson Crusoé desde os seus fundamentos, quando o cidadão se endivida o problema é dele, somente dele, foi causado por ele e por mais ninguém.

Mas vamos abstrair este quadro e fazer uma análise social, global (ou seja, marxista) deste fenômeno.

Os indivíduos são compelidos a comprarem sempre mais e mais para que a roda da economia capitalista não pare de girar. Se as pessoas compram menos, isso compromete o sistema capitalista, que vive de lucros e precisa vender cada vez mais.

Mas essas pessoas não tem dinheiro para comprar sempre mais e mais, como o capitalismo exige. Vejam então uma das grandes contradições deste sistema: de um lado temos uma enorme quantidade de mercadorias que precisam ser consumidas, e do outro, uma enorme quantidade de consumidores que não tem dinheiro para comprar essas mercadorias.

Mas isso ainda não é o pior: esses consumidores, que não tem dinheiro para comprar essas mercadorias, são, ao mesmo tempo, os seus próprios produtores! Resumindo: os trabalhadores produzem uma enorme quantidade de mercadorias, mas eles próprios não conseguem comprar todas essas mercadorias porque não tem dinheiro, porque seus salários são baixos.

Os capitalistas, por sua vez, não conseguem vender todas as suas mercadorias porque pagam baixos salários aos trabalhadores. Mas se não fizessem isso teriam os seus lucros diminuídos.

Isso é a insanidade. O capitalista então contrata o "marketeiro" (que se apropriou indevidamente até de algumas descobertas da psicanálise) para vender o seu peixe, e faz de tudo para forçar esses trabalhadores a comprarem o seu produto. Nem que para isso seja necessário recorrer ao crédito.

Aí entra o espertalhão do capital financeiro, a mais pura expressão do parasitismo a que chegou o capitalismo desde o início do século passado. Este indivíduo faz dinheiro gerar dinheiro sem passar pelos processos de produção. É alguém completamente dispensável num outro tipo de sociedade, na qual todos devem trabalhar (socialismo).

Este vampiro suga grande parte da energia vital dos trabalhadores, e se enriquece dia após dia apenas de juros. Ele é uma peça fundamental para o capitalista que trabalha na produção, pois sem ele grande parte de suas mercadorias não encontraria saída de seu estoque.

O trabalhador empobrecido, seduzido para ter um pouco além de apenas arroz e feijão (já que ele vive numa sociedade que tem condições de lhe proporcionar isso), acaba se endividando. E a culpa é dele, segundo os "especialistas".

Qual a solução burguesa para isso? Resp: O trabalhador deve se contentar com o arroz e o feijão, deve trabalhar apenas para sobreviver. Mas notem que se os trabalhadores realmente fizessem isso e parassem de consumir, o capitalismo entraria em crise.

Então o trabalhador não pode parar de consumir, mas também não pode se endividar. E aí?

Estas são algumas das grandes contradições do capitalismo, que só podem se harmonizar com a revolução do modo socialista de produção. No capitalismo a produção é coletiva mas a apropriação é privada. Ou seja, os trabalhadores produzem as mercadorias, mas não podem consumi-las porque elas pertencem ao capitalista e não a eles próprios, os produtores.

Já no socialismo, como a produção é coletiva e a apropriação também é coletiva, não há tal problema. Além do que, estando o ser humano em primeiro lugar, tudo é produzido para o seu consumo, e não para o lucro, como ocorre no capitalismo.

Charge sobre Marx

Posted: 4.3.11 by Glauber Ataide in Marcadores: , , ,
2


Essa é a 11ª tese de Marx sobre Feuerbach: "Os filósofos até hoje se limitaram a interpretar o mundo. A questão, porém, é transformá-lo." Clique aqui para ver todas as teses.