Os donos da verdade

Posted: 23.8.11 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
1

Clique na imagem para ampliar.



"The show must go on", do Queen - Pelo que estamos vivendo?

Posted: 2.8.11 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
0

Fiz este vídeo e as legendas desta grande música do Queen - a minha favorita - para apresentar um trabalho de faculdade, para a disciplina Filosofia, quando estava no 8º período do curso de Sistemas de Informação (minha primeira graduação).

Encontrei hoje este vídeo perdido aqui em minha máquina e resolvi compartilhar, pois, na época, se tivesse encontrado um pronto, não precisaria ter feito este. :)

Algumas curiosidades dessa canção que vale a pena mencionar são as seguintes:

- Esta música foi lançada apenas 6 semanas antes da morte de Freddie Mercury. É uma das músicas mais emotivas da banda;

- Sua letra é uma reflexão sobre a vida e sobre a iminência da morte;

- Em uma pesquisa realizada na Europa, ela foi escolhida como música favorita em funerais;

- Freddie Mercury estava muito doente na época da gravação, e pensava-se que por isso ele não conseguiria gravá-la. Mas antes das gravações ele tomou um pouco de vodka e disse: "I'll fucking do it darling!" (algo como "vamos fazer essa porra!") e gravou toda a música em apenas um take;

- A perfomance vocal de Freddie Mercury nesta música é considerada uma das melhores de toda a sua carreira.

Repare as reflexões que a canção apresenta sobre o sentido da vida na iminência da morte.




Índios, da Legião Urbana - o bom selvagem de Rousseau

Posted: by Glauber Ataide in Marcadores: ,
0

Estava ouvindo hoje este grande clássico da Legião Urbana, e resolvi compartilhar aqui algumas coisas que acho interessante nesta letra.

De forma geral, Renato Russo expressa aqui uma concepção rousseauniana* do índio, que é visto como o "bom selvagem". A seguinte estrofe, quase no final da letra, aponta para isso:

Quem me dera ao menos uma vez
Como a mais bela tribo
Dos mais belos índios
Não ser atacado por ser inocente.

O fundo histórico da letra, podemos dizer, é a invasão de nossas terras pelos europeus. É claro que estes aspectos não esgotam seu sentido, sendo ela muito mais profunda do que apenas isso. Mas é inegável que esses elementos rousseaunianos e históricos façam parte de sua estrutura.

Em vários versos podemos perceber também as tentativas de aculturação forçada dos índios, como denunciam os seguintes versos em relação à religião, mostrando a dificuldade de um índio em compreender o dogma da Trindade (que nem mesmo os cristãos compreendem):

Quem me dera ao menos uma vez
Entender como um só Deus ao mesmo tempo é três
E se esse mesmo Deus foi morto por vocês
É só maldade, então, deixar um Deus tão triste.

Em outro momento, quando a letra afirma que "nos deram espelhos e vimos um mundo doente", ele se refere à prática dos colonizadores de trocar o ouro, a prata e outras riquezas dos índios por ninharias ou bugigangas como espelhos.

Abaixo a música e, depois, a letra.



Índios
(Renato Russo)

Quem me dera ao menos uma vez
Ter de volta todo o ouro que entreguei a quem
Conseguiu me convencer que era prova de amizade
Se alguém levasse embora até o que eu não tinha.

Quem me dera ao menos uma vez
Esquecer que acreditei que era por brincadeira
Que se cortava sempre um pano-de-chão
De linho nobre e pura seda.

Quem me dera ao menos uma vez
Explicar o que ninguém consegue entender
Que o que aconteceu ainda está por vir
E o futuro não é mais como era antigamente.

Quem me dera ao menos uma vez
Provar que quem tem mais do que precisa ter
Quase sempre se convence que não tem o bastante
Fala demais por não ter nada a dizer.

Quem me dera ao menos uma vez
Que o mais simples fosse visto
Como o mais importante
Mas nos deram espelhos e vimos um mundo doente.

Quem me dera ao menos uma vez
Entender como um só Deus ao mesmo tempo é três
E se esse mesmo Deus foi morto por vocês
É só maldade, então, deixar um Deus tão triste.

Eu quis o perigo e até sangrei sozinho
Entenda
Assim pude trazer você de volta pra mim
Quando descobri que é sempre só você
Que me entende do início ao fim.

E é só você que tem a cura pro meu vício
De insistir nessa saudade que eu sinto
De tudo que eu ainda não vi.

Quem me dera ao menos uma vez
Acreditar por um instante em tudo que existe
E acreditar que o mundo é perfeito
E que todas as pessoas são felizes.

Quem me dera ao menos uma vez
Fazer com que o mundo saiba que seu nome
Está em tudo e mesmo assim
Ninguém lhe diz ao menos obrigado.

Quem me dera ao menos uma vez
Como a mais bela tribo
Dos mais belos índios
Não ser atacado por ser inocente.

Eu quis o perigo e até sangrei sozinho
Entenda
Assim pude trazer você de volta pra mim
Quando descobri que é sempre só você
Que me entende do início ao fim.

E é só você que tem a cura pro meu vício
De insistir nessa saudade que eu sinto
De tudo que eu ainda não vi.

Nos deram espelhos e vimos um mundo doente
Tentei chorar e não consegui.


* O próprio sobrenome artístico "Russo", de Renato Russo, foi tomado de empréstimo de Jean-Jacques Rousseau, entre outros, revelando a afinidade que tinha Renato com o pensamento deste filósofo.


Formação x Informação

Posted: 20.7.11 by Glauber Ataide in Marcadores: , ,
0

Me digam se vocês já não perceberam isso: tem muita gente que se considera "bem informada" só porque acompanha notícias na internet. Gente que olha seu timeline no Twitter e com apenas um clique pula, quando a chamada interessa, para algum lugar da rede.

Alguém me disse certa vez que as pessoas hoje estão mais bem informadas, que estão "lendo mais". Eu já ouvi isso, é verdade. E o cara ainda justificou seu argumento citando o Twitter...

Foi então que fiquei pensando: o que adianta este filho de Deus se afogar num mar de informações se ele não sabe o que fazer com elas?

Isso deixou mais claro pra mim mesmo o seguinte: se você não tem formação teórica, você não vai saber o que fazer com as informações que recebe, seja de onde for. Não vai saber como ler, como criticar, identificar interesses e contextualizar.

Não adianta fugir dos livros, achar que é "bem informado" porque lê notícias na internet. Sem livros de formação teórica, sem filosofia, sem história, sem sociologia, sem economia, sem literatura, não é possível se considerar um indíviduo "crítico" e "bem informado".

Eu até consultei o Houaiss para ver a etimologia de "informar", e ele diz, entre outras definições, que este termo designa a ação de formar. Ou seja, o objetivo da informação é justamente formar. De certa forma, então, o "interneteiro" está obtendo uma formação, sim: tudo bem que é torta, superficial e acrítica, mas já é uma formação, se o que conta pra ele é só o "diproma".

Diferentes realidades

Posted: 6.7.11 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
0

Traduzido do blog Un poco de luz

Quando estive em Cuba, em 1995, saímos a caminhar por Havana Velha e algumas crianças chegaram ao nosso redor nos pedindo um dólar. Ao garoto que se aproximou de mim, Julio, lhe disse que daria seu dólar, mas lhe pedi em troca que me deixasse tirar uma foto dele. Ele aceitou de bom grado, tiramos algumas fotos e logo depois ele desapareceu.

Passado um momento, e depois de caminhar alguns quarteirões, Julio me alcança correndo, com suas duas irmãs, e disse que estava me procurando. Me conta que com o dinheiro que lhe dei comprou quatro pães, um para ele, um para cada uma de suas irmãs e o outro... para mim! Não podia acreditar. Claro que compartilhamos o pão, a caminhada, a manhã e algumas coisas mais.

Anos mais tarde, no bairro de Recoleta, em Buenos Aires, quando estava tirando fotos, se aproxima um outro menino. Dei-lhe sua moeda em troca de uma foto, mas em seguida ele me pede que vá embora, pois a sua "senhora" vai ficar muito irritada se ele não continuar a "trabalhar".

Dois países diferentes, duas realidades diferentes.

Apenas olhem para os rostos de ambas as crianças para ver a diferença.


Havana, Cuba, 1995


Buenos Aires, Argentina, 2003

Complexo de Édipo no filme "O clone"

Posted: 4.7.11 by Glauber Ataide in Marcadores: , ,
2

Foi por causa de uma questão filosófica levantada na sinopse do filme "O clone" que resolvi comprá-lo, sem nenhuma indicação anterior. E não me arrependi.

"À ton image" (ou "À tua imagem", numa tradução que considero mais elegante e pertinente do que "O clone"), é uma produção francesa que conta com o consagrado Christophe Lambert em seu elenco. Tendo como tema principal a clonagem humana, o filme tem como protagonista Mathilde, uma mulher que, segundo a sinopse, "dá a luz a si própria, mas sem nunca saber disto." Foi essa a questão que despertou meu interesse. Como seria uma pessoa dar a luz a si própria?

Vejam se isso não é interessante: como seria se eu ou você convivêssemos com uma pessoa exatamente igual a nós? Quando me lembro da criança que fui, às vezes tenho saudades dela. E essa saudade existe porque ela não existe mais. Onde está, pois, aquela criança que era eu próprio? Não sei, me parece que não existe mais.

Mas e se ela existisse agora? E se a criança que eu fui pudesse de novo existir, ao meu lado? E se aquele adolescente que fui estivesse de novo vivo, em outro corpo que não o meu? Seríamos nós rivais, amigos ou indiferentes?

São muitas as questões, mas vamos antes à sinopse do filme.

"O que aconteceria se, num futuro próximo, mulheres estéreis pudessem dar a luz a si mesmas através de seus próprios embriões? E se este futuro próximo fosse hoje? Para deixar um passado sofrido e um terrível senso de culpa para trás, uma jovem estéril vai ao extremo para conseguir ter sua filha, incentivada por seu marido obstetra. O rápido crescimento da criança é anormal e ela se torna uma cópia perfeita de sua mãe, substituindo-a gradualmente no comando da família. Uma espiral diabólica inspirada no tema da clonagem. Uma história nunca vista de uma mulher que dá a luz a si própria mas sem nunca saber disto."

Apesar da temática apresentada na sinopse ser muito interessante, o que mais me chamou a atenção no filme não foi o tema da clonagem, mas sim os conflitos familiares que no filme são atribuídos a essa experiência.

Essa jovem que dá a luz a seu clone é a Mathilde (que já apresentamos), e sua filha se chama Manon. À medida que cresce, Manon tenta tomar o lugar da mãe no triângulo familiar. Ela se torna uma rival insuportável para a mãe, e se apaixona pelo seu próprio pai.

O nome disso na psicanálise é Complexo de Édipo. Foi esse o aspecto do filme que mais me chamou a atenção e que abstraí para essa análise.

Na minha opinião, o que deixa o filme tão intenso é justamente esse conflito familiar. No entanto, o conflito psicológico é secundarizado pelo tema da clonagem, assim como o mito grego de Édipo o coloca em segundo plano como mero acidente provocado pelo destino (ou fado), que é o foco consciente da obra. Foi só com Freud que o sentido inconsciente deste mito foi revelado, e o mesmo se passa com "O clone".

À medida que o relacionamento entre mãe e filha vai piorando, é legítimo perguntar: seria esse conflito familiar causado apenas pela constituição genética de Manon, que é um clone da mãe? É tentando responder a isso que começamos a perceber a rivalidade própria do Complexo de Édipo que, neste caso, é só mais evidente do que costuma ser. Ou seja, esse conflito não é mero efeito dos genes, mas é parte de toda família. Mas até onde a clonagem acentuou isso é o que resta saber.

Em uma das diversas discussões entre filha e mãe, Manon, já adolescente, diz a Mathilde que é apenas ela própria, só que mais nova, mais bonita, mais sexy e sem a morte do filho na consciência (pois Mathilde já havia perdido um filho). Freud já havia colocado essa questão, afirmando que muitas das rivalidades entre pais e filhos adolescentes se devem a uma comparação inconsciente que os primeiros fazem entre sua própria adolescência e a adolescência dos seus filhos. E quando a situação dos filhos é melhor do que foi a deles, a rivalidade é ainda mais intensa.

Aqui volta então aquela questão que colocamos no início: seríamos nós insuportáveis rivais de nós mesmos, se pudéssemos existir ao nosso próprio lado, só que mais jovens?

O filme acentua ainda mais a questão do Complexo de Édipo através do relacionamento entre Manon e seu pai, Thomas (Christophe Lambert). Manon se apaixona completamente pelo pai, e no ápice dessa tensão, estando ela já adolescente e com corpo de moça, ela marca um encontro com ele, se passando por sua mãe ao telefone (a voz era muito parecida). No local, ela seduz o pai e tenta fazer sexo com ele. Thomas quase cedeu, e só sentiu repulsa quando o convite ao sexo foi feito abertamente.

Este filme, além de colocar questões filosóficas interessantes em relação à clonagem humana ("se um clone humano realmente existisse, até que medida ele seria uma extensão do dono de seus genes?"), apresenta de forma impactante o Complexo de Édipo e todas as suas tensões e rivalidades. Se você gosta de filmes fora do eixo hollywoodiano e que levam mais a refletir do que a divertir, acho que "O clone" é uma boa indicação.


Instrução para Sísifo

Posted: 21.6.11 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
0

Instrução para Sísifo
Hans Magnus Enzensberger

Não tem perspectiva o que fazes. Bem:
tu o compreendeste, admite,
mas não te conformes,
homem da pedra. Ninguém
te agradece; linhas de giz,
que a chuva indolente lambe,
marcam a morte. Não te regozijes
antes da hora, o que não tem futuro
não é sucesso. Com
trágica própria tuteiam-se monstros,
espantalhos, áugures. Cala,
fala com o sol dois dedos de prosa
enquanto a pedra rola, mas
não te deleites com a tua impotência,
aumenta de um quintal
a ira no mundo, de um grão.
Faltam homens que realizem
em silêncio o que não tem futuro
e arranquem como grama a esperança,
seus risos, o futuro, a rolarem,
a rolarem sua ira sobre as montanhas.

(Trad. Kurt Scharf e Armindo Trevisan)


Glauber Rocha

Posted: 19.6.11 by Glauber Ataide in Marcadores: , ,
0

No vídeo abaixo o histórico discurso de Darcy Ribeiro, no enterro do grande Glauber Rocha.



O mito de Sísifo, de Albert Camus - o suicídio é legítimo, já que não há sentido para a vida?

Posted: 17.6.11 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
0

Compartilho abaixo alguns trechos dessa obra de Albert Camus, que li recentemente. São, respectivamente, um parágrafo do início do texto e o seu último capítulo.

Uma das questões que ele tenta responder é: mesmo que a vida não tenha sentido, o suicídio é legítimo? Considerando que não há transcendência, por que ainda continuar vivo?

Ele faz sua dissertação alertando o leitor de que este é o seu pressuposto: que não há valores absolutos, que não há transcendência. Se eles existem ou não, isso é outra discussão. Ele vai tomar o absurdo como ponto de partida, e não como conclusão.


O absurdo e o suicídio

Só existe um problema filosófico realmente sério: é o suicídio. Julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida é responder à questão fundamental da filosofia. O resto, se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias, aparece em seguida. São jogos. É preciso, antes de tudo, responder. E se é verdade, como pretende Nietzsche, que um filósofo, para ser confiável, deve pregar com o exemplo, percebe-se a importância dessa resposta, já que ela vai preceder o gesto definitivo. Estão aí as evidências que são sensíveis para o coração, mas que é preciso aprofundar para torná-las claras à inteligência.

[...]


O mito de Sísifo

Os deuses tinham condenado Sísifo a rolar um rochedo incessantemente até o cimo de uma montanha, de onde a pedra caía de novo por seu próprio peso. Eles tinham pensado, com as suas razões, que não existe punição mais terrível do que o trabalho inútil e sem esperança.

Se acreditarmos em Homero, Sísifo era o mais sábio e mais prudente dos mortais. Segundo uma outra tradição, porém, ele tinha queda para o ofício de salteador. Não vejo aí contradição. Diferem as opiniões sobre os motivos que lhe valeram ser o trabalhador inútil dos infernos. Reprovam-lhe, antes de tudo, certa leviandade para com os deuses. Espalhou os segredos deles. Egina, filha de Asopo, foi raptada por Júpiter. O pai, abalado por esse desaparecimento, se queixou a Sísifo. Este, que tomara conhecimento do rapto, ofereceu a Asopo orientá-lo a respeito, com a condição de que fornecesse água à cidadela de Corinto. Às cóleras celestes ele preferiu a bênção da água. Foi punido por isso nós infernos. Homero nos conta ainda que Sísifo acorrentara a Morte. Plutão não pôde tolerar o espetáculo de seu império deserto e silencioso. Despachou o deus da guerra, que libertou a Morte das mãos de seu vencedor.

Diz-se também que Sísifo, estando prestes a morrer, imprudentemente quis pôr à prova o amor de sua mulher. Ele lhe ordenou jogar o seu corpo insepulto em plena praça pública. Sísifo se recobrou nos infernos. Ali, exasperado com uma obediência tão contrária ao amor humano, obteve de Plutão o consentimento para voltar à terra e castigar a mulher. Mas, quando ele de novo pôde rever a face deste mundo, provar a água e o sol, as pedras aquecidas e o mar, não quis mais retornar à escuridão infernal. Os chamamentos, as iras, as advertências de nada adiantaram. Ainda por muitos anos ele viveu diante da curva do golfo, do mar arrebentando e dos sorrisos da terra. Foi necessária uma sentença dos deuses. Mercúrio veio apanhar o atrevido pelo pescoço e, arrancando-o de suas alegrias, reconduziu-o à força aos infernos, onde seu rochedo estava preparado.

Já deu para compreender que Sísifo é o herói absurdo. Ele o é tanto por suas paixões como por seu tormento. O desprezo pelos deuses, o ódio à Morte e a paixão pela vida lhe valeram esse suplício indescritível em que todo o ser se ocupa em não completar nada. É o preço a pagar pelas paixões deste mundo. Nada nos foi dito sobre Sísifo nos infernos. Os mitos são feitos para que a imaginação os anime. Neste caso, vê-se apenas todo o esforço de um corpo estirado para levantar a pedra enorme, rolá-la e fazê-la subir uma encosta, tarefa cem vezes recomeçada. Vê-se o rosto crispado, a face colada à pedra, o socorro de uma espádua que recebe a massa recoberta de barro, e de um pé que a escora, a repetição na base do braço, a segurança toda humana de duas mãos cheias de terra. Ao final desse esforço imenso medido pelo espaço sem céu e pelo tempo sem profundidade, o objetivo é atingido. Sísifo; então, vê a pedra desabar em alguns instantes para esse mundo inferior de onde será preciso reerguê-la até os cimos. E desce de novo para a planície.

É durante esse retorno, essa pausa, que Sísifo me interessa. Um rosto que pena, assim tão perto das pedras, é já ele próprio pedra! Vejo esse homem redescer, com o passo pesado, mas igual, para o tormento cujo fim não conhecerá. Essa hora que é como uma respiração e que ressurge tão certamente quanto sua infelicidade, essa hora é aquela da consciência. A cada um desses momentos, em que ele deixa os cimos e se afunda pouco a pouco no covil dos deuses, ele é superior ao seu destino. É mais forte que seu rochedo.

Se esse mito é trágico, é que seu herói é consciente. Onde estaria, de fato, a sua pena, se a cada passo 0 sustentasse a esperança de ser bem-sucedido? O operário de hoje trabalha todos os dias de sua vida nas mesmas tarefas e esse destino não é menos absurdo. Mas ele só é trágico nos raros momentos em que se torna consciente. Sísifo, proletário dos deuses, impotente e revoltado, conhece toda a extensão de sua condição miserável: é nela que ele pensa enquanto desce. A lucidez que devia produzir o seu tormento consome, com a mesma força, sua vitória. Não existe destino que não se supere pelo desprezo.

Se a descida, assim, em certos dias se faz para a dor, ela também pode se fazer para a alegria. Esta palavra não está demais. Imagino ainda Sísifo indo outra vez para seu rochedo, e a dor estava no começo. Quando as imagens da terra se mantêm muito intensas na lembrança, quando o apelo da felicidade se faz demasiadamente pesado, acontece que a tristeza se impõe ao coração humano: é a vitória do rochedo, é o próprio rochedo. O enorme desgosto é pesado demais para carregar. São nossas noites de Getsêmani. Mas as verdades esmagadoras perecem ao serem reconhecidas. Assim, Édipo de início obedece ao destino sem o saber. A partir do momento em que ele sabe, sua tragédia principia. Mas no mesmo instante, cego e desesperado, reconhece que o único laço que o prende ao mundo é ó frescor da mão de uma garota. Uma fala descomedida ressoa então: "Apesar de tantas experiências, minha idade avançada e a grandeza da minha alma me fazem achar é que tudo está bem”. O Édipo de Sófocles, como o Kirílov de Dostoiévski, dá assim a fórmula da vitória absurda. A sabedoria antiga torna a se encontrar com o heroísmo moderno.

Não se descobre o absurdo sem ser tentado a escrever algum manual de felicidade. "Mas como, com umas trilhas tão estreitas?" No entanto, só existe um mundo. A felicidade e o absurdo são dois filhos da mesma terra. São inseparáveis. O erro seria dizer que a felicidade nasce forçosamente da descoberta absurda. Ocorre do mesmo modo o sentimento do absurdo nascer da felicidade. "Acho que tudo está bem", diz Édipo, e essa fala é sagrada. Ela ressoa no universo feroz e limitado do homem. Ensina que tudo não é e não foi esgotado. Expulsa deste mundo um deus que nele havia entrado com a insatisfação e o gosto pelas dores inúteis. Faz do destino um assunto do homem e que deve ser acertado entre os homens.

Toda a alegria silenciosa de Sísifo está aí. Seu destino lhe pertence. Seu rochedo é sua questão. Da mesma forma o homem absurdo, quando contempla o seu tormento, faz calar todos os ídolos. No universo subitamente restituído ao seu silêncio, elevam-se as mil pequenas vozes maravilhadas da terra. Apelos inconscientes e secretos, convites de todos os rostos, são o reverso necessário e o preço da vitória. Não existe sol sem sombra, e é preciso conhecer a noite. O homem absurdo diz sim e seu esforço não acaba mais. Se há um destino pessoal, não há nenhuma destinação superior ou, pelo menos, só existe uma, que ele julga fatal e desprezível. No mais, ele se tem como senhor de seus dias. Nesse instante sutil em que o homem se volta sobre sua vida, Sísifo, vindo de novo para seu rochedo, contempla essa seqüência de atos sem nexo que se torna seu destino, criado por ele, unificado sob o olhar de sua memória e em breve selado por sua morte. Assim, convencido da origem toda humana de tudo o que é humano, cego que quer ver e que sabe que a noite não tem fim, ele está sempre caminhando. O rochedo continua a rolar.

Deixo Sísifo no sopé da montanha! Sempre se reencontra seu fardo. Mas Sísifo ensina a fidelidade superior que nega os deuses e levanta os rochedos. Ele também acha que tudo está bem. Esse universo doravante sem senhor não lhe parece nem estéril nem fútil. Cada um dos grãos dessa pedra, cada clarão mineral dessa montanha cheia de noite, só para ele forma um mundo. A própria luta em direção aos cimos é suficiente para preencher um coração humano. É preciso imaginar Sísifo feliz.


O luto, por Freud

Posted: 24.5.11 by Glauber Ataide in Marcadores:
0

"O luto, de modo geral, é a reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade ou o ideal de alguém, e assim por diante. Em algumas pessoas, as mesmas influências produzem melancolia em vez de luto; por conseguinte, suspeitamos de que essas pessoas possuem uma disposição patológica. Também vale a pena notar que, embora o luto envolva graves afastamentos daquilo que constitui a atitude normal para com a vida, jamais nos ocorre considerá-lo como sendo uma condição patológica e submetê-lo a tratamento médico. Confiamos em que seja superado após certo lapso de tempo, e julgamos inútil ou mesmo prejudicial qualquer interferência em relação a ele.

"Os traços mentais distintivos da melancolia são um desânimo profundamente penoso, a cessação de interesse pelo mundo externo, a perda da capacidade de amar, a inibição de toda e qualquer atividade, e uma diminuição dos sentimentos de auto-estima a ponto de encontrar expressão em auto-recriminação e auto-envilecimento, culminando numa expectativa delirante de punição. Esse quadro torna-se um pouco mais inteligível quando consideramos que, com uma única exceção, os mesmos traços são encontrados no luto. A perturbação da auto-estima está ausente no luto; afora isso, porém, as características são as mesmas. O luto profundo, a reação à perda de alguém que se ama, encerra o mesmo estado de espírito penoso, a mesma perda de interesse pelo mundo externo — na medida em que este não evoca esse alguém —, a mesma perda da capacidade de adotar um novo objeto de amor (o que significaria substituí-lo) e o mesmo afastamento de toda e qualquer atividade que não esteja ligada a pensamentos sobre ele. É fácil constatar que essa inibição e circunscrisão do ego é expressão de uma exclusiva devoção ao luto, devoção que nada deixa a outros propósitos ou a outros interesses. E, realmente, só porque sabemos explicá-la tão bem é que essa atitude não nos parece patológica.

"Parece-nos também uma comparação adequada chamar a disposição para o luto de ‘dolorosa’. É bem provável que vejamos a justificação disso quando estivermos em condições de apresentar uma caracterização da economia da dor.

"Em que consiste, portanto, o trabalho que o luto realiza? Não me parece forçado apresentá-lo da forma que se segue. O teste da realidade revelou que o objeto amado não existe mais, passando a exigir que toda a libido seja retirada de suas ligações com aquele objeto. Essa exigência provoca uma oposição compreensível — é fato notório que as pessoas nunca abandonam de bom grado uma posição libidinal, nem mesmo, na realidade, quando um substituto já se lhes acena. Esta oposição pode ser tão intensa, que dá lugar a um desvio da realidade e a um apego ao objeto por intermédio de uma psicose alucinatória carregada de desejo. Normalmente, prevalece o respeito pela realidade, ainda que suas ordens não possam ser obedecidas de imediato. São executadas pouco a pouco, com grande dispêndio de tempo e de energia catexial, prolongando-se psiquicamente, nesse meio tempo, a existência do objeto perdido. Cada uma das lembranças e expectativas isoladas através das quais a libido está vinculada ao objeto é evocada e hipercatexizada, e o desligamento da libido se realiza em relação a cada uma delas. Por que essa transigência, pela qual o domínio da realidade se faz fragmentariamente, deve ser tão extraordinariamente penosa, de forma alguma é coisa fácil de explicar em termos de economia. É notável que esse penoso desprazer seja aceito por nós como algo natural. Contudo, o fato é que, quando o trabalho do luto se conclui, o ego fica outra vez livre e desinibido."


Trechos retirados do artigo "Luto e melancolia", vol. XIV da Edição Standard das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud.