Mestrando em Filosofia pela UFMG e bacharel em Filosofia também pela UFMG. Antes disso, bacharel em Sistemas de Informação. Acho que o papel da filosofia não é apenas interpretar o mundo, mas também transformá-lo. Me interesso por psicanálise, música erudita, literatura clássica, idiomas (inglês, alemão, francês) e outras coisas que você pode encontrar neste blog. Sou também faixa preta em Taekwondo e moro em Nuremberg, Alemanha.
A força de persuasão de um argumento reside, principalmente, na articulação lógica entre suas premissas e sua conclusão. Mas se o argumento é complexo de tal forma que não é possível apresentá-lo em uma conversa informal, o melhor então é não lançar essas conclusões, principalmente se forem polêmicas.
É importante ter isso em mente para evitar desgastes em debates infrutíferos. Às vezes estamos tão convencidos da validade de determinado argumento que nos apressamos em apresentar sua conclusão a outras pessoas sem nos dar conta de que o outro não percorreu o mesmo caminho que nós - o caminho que leva das premissas à conclusão.
Certas conclusões precisam de todo um livro por trás delas. E às vezes as premissas dessas conclusões já são elas próprias conclusões de outros longos e elaborados argumentos.
Por isso é preciso sobriedade antes de apresentar certas ideias que são produto de um longo processo de aprendizado. Pois quando essas ideias, caras a nós por serem fruto de nosso esforço, são sumariamente rejeitadas, ridicularizadas ou escarnecidas, dificilmente conseguimos evitar o sentimento de estar lançando pérolas aos porcos.
Se ideias complexas pudessem ser explicadas em poucas frases não haveria ignorância no mundo.
Sou suspeito para falar de Dostoiévski. Este é o autor que mais leio, o que mais prende minha atenção e com o qual mais me identifico. Antes de ler Gente Pobre, contudo, estava um pouco apreensivo: o que esperar do primeiro livro de Dostoiévski, escrito quando o autor contava apenas 24 anos? Seria esta obra apenas uma curiosidade, uma peça histórica, digna de ser relançada apenas devido ao nome que o autor viria a construir posteriormente?
Não, nada disso. O romance Gente pobre já é o Dostoiévski que conhecemos. Vários dos traços de estilo e dos caracteres que encontramos em obras posteriores já estão presentes ali, não deixando dúvidas de que o que temos nesta obra já é aquele Dostoiévski que no futuro consolidaria seu nome no hall dos grandes escritores de todos os tempos.
Gente Pobre pode nos levar das lágrimas de indignação às gargalhadas. Construída como uma crítica social, ela revela, através de uma troca de cartas entre seus protagonistas - uma jovem órfã, Várvara Aleksiéyevna, e um funcionário público de idade mais avançada, Makár Diévuchkin -, seu estado de pobreza e suas dificuldades, como se alimentam, se vestem e moram mal.
Ao mesmo tempo, contudo, alguns episódios do cotidiano destes dois, causados principalmente por sua pobreza, já prenunciam aquilo que encontraríamos em obras posteriores, como em Notas do subsolo, por exemplo - aquelas situações constrangedoras causadas por um vestuário velho e rasgado, inadequado para determinadas ocasiões, e que deixam os protagonistas em posições muito desagradáveis. (Particularmente eu fico rindo só de lembrar desses trechos. Inclusive me surpreendi rindo novamente no momento em que escrevia isso.) Mas se você ainda não leu essas situações em Dostoiévski, não pense que já sabe como é. Seu estilo é único, inigualável.
Gente Pobre é um livro altamente recomendável, e é por isso que compartilho esta brevíssima resenha com vocês.
Fiz este vídeo e as legendas desta grande música do Queen - a minha favorita - para apresentar um trabalho de faculdade, para a disciplina Filosofia, quando estava no 8º período do curso de Sistemas de Informação (minha primeira graduação).
Encontrei hoje este vídeo perdido aqui em minha máquina e resolvi compartilhar, pois, na época, se tivesse encontrado um pronto, não precisaria ter feito este. :)
Algumas curiosidades dessa canção que vale a pena mencionar são as seguintes:
- Esta música foi lançada apenas 6 semanas antes da morte de Freddie Mercury. É uma das músicas mais emotivas da banda;
- Sua letra é uma reflexão sobre a vida e sobre a iminência da morte;
- Em uma pesquisa realizada na Europa, ela foi escolhida como música favorita em funerais;
- Freddie Mercury estava muito doente na época da gravação, e pensava-se que por isso ele não conseguiria gravá-la. Mas antes das gravações ele tomou um pouco de vodka e disse: "I'll fucking do it darling!" (algo como "vamos fazer essa porra!") e gravou toda a música em apenas um take;
- A perfomance vocal de Freddie Mercury nesta música é considerada uma das melhores de toda a sua carreira.
Repare as reflexões que a canção apresenta sobre o sentido da vida na iminência da morte.
Estava ouvindo hoje este grande clássico da Legião Urbana, e resolvi compartilhar aqui algumas coisas que acho interessante nesta letra.
De forma geral, Renato Russo expressa aqui uma concepção rousseauniana* do índio, que é visto como o "bom selvagem". A seguinte estrofe, quase no final da letra, aponta para isso:
Quem me dera ao menos uma vez
Como a mais bela tribo
Dos mais belos índios
Não ser atacado por ser inocente.
O fundo histórico da letra, podemos dizer, é a invasão de nossas terras pelos europeus. É claro que estes aspectos não esgotam seu sentido, sendo ela muito mais profunda do que apenas isso. Mas é inegável que esses elementos rousseaunianos e históricos façam parte de sua estrutura.
Em vários versos podemos perceber também as tentativas de aculturação forçada dos índios, como denunciam os seguintes versos em relação à religião, mostrando a dificuldade de um índio em compreender o dogma da Trindade (que nem mesmo os cristãos compreendem):
Quem me dera ao menos uma vez
Entender como um só Deus ao mesmo tempo é três
E se esse mesmo Deus foi morto por vocês
É só maldade, então, deixar um Deus tão triste.
Em outro momento, quando a letra afirma que "nos deram espelhos e vimos um mundo doente", ele se refere à prática dos colonizadores de trocar o ouro, a prata e outras riquezas dos índios por ninharias ou bugigangas como espelhos.
Abaixo a música e, depois, a letra.
Índios
(Renato Russo)
Quem me dera ao menos uma vez
Ter de volta todo o ouro que entreguei a quem
Conseguiu me convencer que era prova de amizade
Se alguém levasse embora até o que eu não tinha.
Quem me dera ao menos uma vez
Esquecer que acreditei que era por brincadeira
Que se cortava sempre um pano-de-chão
De linho nobre e pura seda.
Quem me dera ao menos uma vez
Explicar o que ninguém consegue entender
Que o que aconteceu ainda está por vir
E o futuro não é mais como era antigamente.
Quem me dera ao menos uma vez
Provar que quem tem mais do que precisa ter
Quase sempre se convence que não tem o bastante
Fala demais por não ter nada a dizer.
Quem me dera ao menos uma vez
Que o mais simples fosse visto
Como o mais importante
Mas nos deram espelhos e vimos um mundo doente.
Quem me dera ao menos uma vez
Entender como um só Deus ao mesmo tempo é três
E se esse mesmo Deus foi morto por vocês
É só maldade, então, deixar um Deus tão triste.
Eu quis o perigo e até sangrei sozinho
Entenda
Assim pude trazer você de volta pra mim
Quando descobri que é sempre só você
Que me entende do início ao fim.
E é só você que tem a cura pro meu vício
De insistir nessa saudade que eu sinto
De tudo que eu ainda não vi.
Quem me dera ao menos uma vez
Acreditar por um instante em tudo que existe
E acreditar que o mundo é perfeito
E que todas as pessoas são felizes.
Quem me dera ao menos uma vez
Fazer com que o mundo saiba que seu nome
Está em tudo e mesmo assim
Ninguém lhe diz ao menos obrigado.
Quem me dera ao menos uma vez
Como a mais bela tribo
Dos mais belos índios
Não ser atacado por ser inocente.
Eu quis o perigo e até sangrei sozinho
Entenda
Assim pude trazer você de volta pra mim
Quando descobri que é sempre só você
Que me entende do início ao fim.
E é só você que tem a cura pro meu vício
De insistir nessa saudade que eu sinto
De tudo que eu ainda não vi.
Nos deram espelhos e vimos um mundo doente
Tentei chorar e não consegui.
* O próprio sobrenome artístico "Russo", de Renato Russo, foi tomado de empréstimo de Jean-Jacques Rousseau, entre outros, revelando a afinidade que tinha Renato com o pensamento deste filósofo.
Me digam se vocês já não perceberam isso: tem muita gente que se considera "bem informada" só porque acompanha notícias na internet. Gente que olha seu timeline no Twitter e com apenas um clique pula, quando a chamada interessa, para algum lugar da rede.
Alguém me disse certa vez que as pessoas hoje estão mais bem informadas, que estão "lendo mais". Eu já ouvi isso, é verdade. E o cara ainda justificou seu argumento citando o Twitter...
Foi então que fiquei pensando: o que adianta este filho de Deus se afogar num mar de informações se ele não sabe o que fazer com elas?
Isso deixou mais claro pra mim mesmo o seguinte: se você não tem formação teórica, você não vai saber o que fazer com as informações que recebe, seja de onde for. Não vai saber como ler, como criticar, identificar interesses e contextualizar.
Não adianta fugir dos livros, achar que é "bem informado" porque lê notícias na internet. Sem livros de formação teórica, sem filosofia, sem história, sem sociologia, sem economia, sem literatura, não é possível se considerar um indíviduo "crítico" e "bem informado".
Eu até consultei o Houaiss para ver a etimologia de "informar", e ele diz, entre outras definições, que este termo designa a ação de formar. Ou seja, o objetivo da informação é justamente formar. De certa forma, então, o "interneteiro" está obtendo uma formação, sim: tudo bem que é torta, superficial e acrítica, mas já é uma formação, se o que conta pra ele é só o "diproma".
Quando estive em Cuba, em 1995, saímos a caminhar por Havana Velha e algumas crianças chegaram ao nosso redor nos pedindo um dólar. Ao garoto que se aproximou de mim, Julio, lhe disse que daria seu dólar, mas lhe pedi em troca que me deixasse tirar uma foto dele. Ele aceitou de bom grado, tiramos algumas fotos e logo depois ele desapareceu.
Passado um momento, e depois de caminhar alguns quarteirões, Julio me alcança correndo, com suas duas irmãs, e disse que estava me procurando. Me conta que com o dinheiro que lhe dei comprou quatro pães, um para ele, um para cada uma de suas irmãs e o outro... para mim! Não podia acreditar. Claro que compartilhamos o pão, a caminhada, a manhã e algumas coisas mais.
Anos mais tarde, no bairro de Recoleta, em Buenos Aires, quando estava tirando fotos, se aproxima um outro menino. Dei-lhe sua moeda em troca de uma foto, mas em seguida ele me pede que vá embora, pois a sua "senhora" vai ficar muito irritada se ele não continuar a "trabalhar".
Dois países diferentes, duas realidades diferentes.
Apenas olhem para os rostos de ambas as crianças para ver a diferença.
Foi por causa de uma questão filosófica levantada na sinopse do filme "O clone" que resolvi comprá-lo, sem nenhuma indicação anterior. E não me arrependi.
"À ton image" (ou "À tua imagem", numa tradução que considero mais elegante e pertinente do que "O clone"), é uma produção francesa que conta com o consagrado Christophe Lambert em seu elenco. Tendo como tema principal a clonagem humana, o filme tem como protagonista Mathilde, uma mulher que, segundo a sinopse, "dá a luz a si própria, mas sem nunca saber disto." Foi essa a questão que despertou meu interesse. Como seria uma pessoa dar a luz a si própria?
Vejam se isso não é interessante: como seria se eu ou você convivêssemos com uma pessoa exatamente igual a nós? Quando me lembro da criança que fui, às vezes tenho saudades dela. E essa saudade existe porque ela não existe mais. Onde está, pois, aquela criança que era eu próprio? Não sei, me parece que não existe mais.
Mas e se ela existisse agora? E se a criança que eu fui pudesse de novo existir, ao meu lado? E se aquele adolescente que fui estivesse de novo vivo, em outro corpo que não o meu? Seríamos nós rivais, amigos ou indiferentes?
São muitas as questões, mas vamos antes à sinopse do filme.
"O que aconteceria se, num futuro próximo, mulheres estéreis pudessem dar a luz a si mesmas através de seus próprios embriões? E se este futuro próximo fosse hoje? Para deixar um passado sofrido e um terrível senso de culpa para trás, uma jovem estéril vai ao extremo para conseguir ter sua filha, incentivada por seu marido obstetra. O rápido crescimento da criança é anormal e ela se torna uma cópia perfeita de sua mãe, substituindo-a gradualmente no comando da família. Uma espiral diabólica inspirada no tema da clonagem. Uma história nunca vista de uma mulher que dá a luz a si própria mas sem nunca saber disto."
Apesar da temática apresentada na sinopse ser muito interessante, o que mais me chamou a atenção no filme não foi o tema da clonagem, mas sim os conflitos familiares que no filme são atribuídos a essa experiência.
Essa jovem que dá a luz a seu clone é a Mathilde (que já apresentamos), e sua filha se chama Manon. À medida que cresce, Manon tenta tomar o lugar da mãe no triângulo familiar. Ela se torna uma rival insuportável para a mãe, e se apaixona pelo seu próprio pai.
O nome disso na psicanálise é Complexo de Édipo. Foi esse o aspecto do filme que mais me chamou a atenção e que abstraí para essa análise.
Na minha opinião, o que deixa o filme tão intenso é justamente esse conflito familiar. No entanto, o conflito psicológico é secundarizado pelo tema da clonagem, assim como o mito grego de Édipo o coloca em segundo plano como mero acidente provocado pelo destino (ou fado), que é o foco consciente da obra. Foi só com Freud que o sentido inconsciente deste mito foi revelado, e o mesmo se passa com "O clone".
À medida que o relacionamento entre mãe e filha vai piorando, é legítimo perguntar: seria esse conflito familiar causado apenas pela constituição genética de Manon, que é um clone da mãe? É tentando responder a isso que começamos a perceber a rivalidade própria do Complexo de Édipo que, neste caso, é só mais evidente do que costuma ser. Ou seja, esse conflito não é mero efeito dos genes, mas é parte de toda família. Mas até onde a clonagem acentuou isso é o que resta saber.
Em uma das diversas discussões entre filha e mãe, Manon, já adolescente, diz a Mathilde que é apenas ela própria, só que mais nova, mais bonita, mais sexy e sem a morte do filho na consciência (pois Mathilde já havia perdido um filho). Freud já havia colocado essa questão, afirmando que muitas das rivalidades entre pais e filhos adolescentes se devem a uma comparação inconsciente que os primeiros fazem entre sua própria adolescência e a adolescência dos seus filhos. E quando a situação dos filhos é melhor do que foi a deles, a rivalidade é ainda mais intensa.
Aqui volta então aquela questão que colocamos no início: seríamos nós insuportáveis rivais de nós mesmos, se pudéssemos existir ao nosso próprio lado, só que mais jovens?
O filme acentua ainda mais a questão do Complexo de Édipo através do relacionamento entre Manon e seu pai, Thomas (Christophe Lambert). Manon se apaixona completamente pelo pai, e no ápice dessa tensão, estando ela já adolescente e com corpo de moça, ela marca um encontro com ele, se passando por sua mãe ao telefone (a voz era muito parecida). No local, ela seduz o pai e tenta fazer sexo com ele. Thomas quase cedeu, e só sentiu repulsa quando o convite ao sexo foi feito abertamente.
Este filme, além de colocar questões filosóficas interessantes em relação à clonagem humana ("se um clone humano realmente existisse, até que medida ele seria uma extensão do dono de seus genes?"), apresenta de forma impactante o Complexo de Édipo e todas as suas tensões e rivalidades. Se você gosta de filmes fora do eixo hollywoodiano e que levam mais a refletir do que a divertir, acho que "O clone" é uma boa indicação.