Cultura de massas

Posted: 8.2.12 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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A cultura de massas consegue fabricar em grande escala, com técnicas e procedimentos industriais ideais, sonhos e ilusões, estilos pessoais e até uma vida privada em grande parte produto de uma técnica, subordinada ao lucro e à tensão permanente entre a criatividade e a padronização, apta para poder ser assimilada pelo cidadão de classe média.

A cultura de massas é o desenvolvimento de um novo modelo no qual se reforçam as diferenças e as desigualdades com estratégias e instrumentos mercadológicos cada vez mais elaborados. A ciência e o conhecimento se põe a serviço da produção de valores e símbolos estereotipados.

Os três pilares fundamentais desta cultura são: uma cultura comercial, uma sociedade de consumo e uma instituição publicitária.

Fonte: Sovietofilia

Mulheres gostam de homens inteligentes?

Posted: 26.1.12 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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A literatura de autoajuda vem reforçando um mito segundo o qual a mulher é "mais inteligente" ou "mais culta" que o homem. Talvez isso esteja baseado em estatísticas sobre o número de mulheres que cursam o ensino superior comparado ao de homens, ou coisas assim. Mas a conclusão que costumam tirar disso - que a mulher tenderia muito mais "naturalmente" que o homem aos livros e aos estudos - é uma extrapolação de todas as evidências.

A ideia que vem sendo transmitida é sempre da mulher como ser "sensível", que gosta de ler, que cultiva sua vida interior, enquanto que o homem é um bruto, que gosta de atividades físicas, de motor de carro, de cerveja e futebol. E desses estereótipos temos a oposição "mulher-culta-evoluída" versus "homem-bruto-primitivo".

Daí que, tendendo a mulher "naturalmente" para a cultura e para a erudição, ela então supostamente gostaria de homens "inteligentes". E alguns livros de autoajuda chegam a colocar o quesito "inteligência" entre os três primeiros fatores que decidem a escolha de uma mulher por um determinado parceiro.

Mas vamos confrontar o mito com a vida real, com aquilo que podemos observar no terreno da experiência. Os leitores dirão o quanto minha leitura se aproxima ou se afasta do que eles próprios podem ver.

Dentro dos meus círculos de convívio, pelo menos, observo que os homens são tão inteligentes quanto as mulheres. Alguns mais, outros menos. Mas nada nunca, jamais me fez nem sequer suspeitar que as mulheres fossem mais "inteligentes" que os homens. E entendo inteligência, em todo este texto, como uma faculdade intrinsecamente ligada ao acúmulo, processamento e produção de cultura e erudição, no sentido clássico.

Em segundo lugar, em quase todos os círculos que frequento - com excessão da universidade e dos movimentos sociais - as mulheres são de uma frivolidade ridícula, tanto quanto seus pares homens. O que costumam ler - quando leem - é porcaria, best-sellers (eis aí um critério para escolha de livros: não perca tempo com best-sellers).

Façamos um exercício de experimentação imaginativa. Visualize uma dessas mulheres fúteis, comuns  - telespectadoras do Big Brother e que eu nunca ouvi conversando nada de sério por mais de 2 minutos - tentando conversar com um homem realmente culto, inteligente e erudito. O resultado não seria uma conversa, mas uma palestra (e de 5 minutos, no máximo).

Falemos sobre política com ela, e ela desviará o assunto para a corrupção (é o que ela sabe repetir, pois a mídia hegemônica pauta a política apenas em termos morais, típico da direita, como se isso fosse o maior problema da política brasileira). Tentemos falar de música erudita, mas ela só ouve indústria cultural. Vamos falar de filosofia, mas ela só conhece religião. Vamos falar de psicanálise, mas ela só conhece autoajuda. Vamos falar de arte, cinema, pintura, ópera, mas... isso é tudo tão... "chato"!

Então, o que eu penso sobre esse assunto é o seguinte: as mulheres gostam de homens que tenham um nível intelectual próximo ao seu, and that's all (como diria o Oscar Wilde). Nem muito acima, nem muito abaixo. Assim, só mulheres inteligentes gostam de homens inteligentes. Mulheres fúteis, rasas, esvaziadas, geralmente não se darão bem com homens inteligentes, e por isso buscam alguém mais próximo do seu próprio perfil.

Sêneca, filósofo romano, inclusive disse algo que pode ser apropriado neste contexto, e que mostra por que a compatibilidade de "inteligência" e erudição não pode ser um dos principais critérios para a escolha de um parceiro: "a relação com pessoas diferentes demais de nós perturba o nosso equilíbrio".

Atualização: Vejam o quadrinho que encontrei, por acaso, dois dias depois de publicar este post. Clique para ampliar.


A cabeça de Medusa, por Sigmund Freud

Posted: 15.1.12 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Não foi amiúde que tentamos interpretar temas mitológicos individuais, mas uma interpretação sugere-se facilmente no caso da horripilante cabeça decapitada da Medusa.

Decapitar = castrar. O terror da Medusa é assim um terror de castração ligado à visão de alguma coisa. Numerosas análises familiarizam-nos com a ocasião para isso: ocorre quando um menino, que até então não estava disposto a acreditar na ameaça de castração, tem a visão dos órgãos genitais femininos, provavelmente os de uma pessoa adulta, rodeados por cabelos, e, essencialmente, os de sua mãe.

Os cabelos na cabeça da Medusa são freqüentemente representados nas obras de arte sob a forma de serpentes e estas, mais uma vez, derivam-se do complexo de castração. Constitui fato digno de nota que, por assustadoras que possam ser em si mesmas, na realidade, porém, servem como mitigação do horror, por substituírem o pênis, cuja ausência é a causa do horror. Isso é uma confirmação da regra técnica segundo a qual uma multiplicação de símbolos de pênis significa castração.

A visão da cabeça da Medusa torna o espectador rígido de terror, transforma-o em pedra. Observe-se que temos aqui, mais uma vez, a mesma origem do complexo de castração e a mesma transformação de afeto, porque ficar rígido significa uma ereção. Assim, na situação original, ela oferece consolação ao espectador: ele ainda se acha de posse de um pênis e o enrijecimento tranqüiliza-o quanto ao fato.

Esse símbolo de horror é usado sobre as suas vestes pela deusa virgem Atena, e com razão, porque assim ela se torna uma mulher que é inabordável e repele todos os desejos sexuais, visto apresentar os terrificantes órgãos genitais da Mãe. De vez que os gregos eram, em geral, fortemente homossexuais, era inevitável que encontrássemos entre eles uma representação da mulher como um ser que assusta e repele por ser castrada.

Se a cabeça da Medusa toma o lugar de uma representação dos órgãos genitais femininos ou, melhor, se isola seus efeitos horripilantes dos dispensadores de prazer, pode-se recordar que mostrar os órgãos genitais é familiar, sob outros aspectos, como um ato apotropaico. O que desperta horror em nós próprios produzirá o mesmo efeito sobre o inimigo de quem estamos procurando nos defender. Lemos em Rabelais como o Diabo se pôs em fuga quando a mulher lhe mostrou sua vulva.

O órgão masculino ereto também possui um efeito apotropaico, mas graças a outro mecanismo. Mostrar o pênis (ou qualquer de seus sucedâneos) é dizer: ‘Não tenho medo de você. Desafio-o. Tenho um pênis.’ Aqui, então, temos outra maneira de intimidar o Espírito Mau.

A fim de substanciar seriamente essa interpretação, seria necessário investigar a origem desse símbolo isolado de horror na mitologia grega, bem como paralelos seus em outras mitologias.
Artigo publicado na Edição Standard das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol. XVIII.




"Nem esquerda, nem direita"... Sei... Ahan...

Posted: 3.1.12 by Glauber Ataide in Marcadores: , , ,
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Todo mundo conhece alguém que tenta ser comedido em suas posições políticas afirmando não estar em nenhum espectro das opções "esquerda" e "direita".

Se perguntado se é de um lado ou de outro, afirma não ser de nenhum deles. É verdade que existe o "centro", que reuniria características de ambos, mas o problema é que esse indivíduo nem "centrista" é. Diz estar "acima" dessas posições.

Mas o que dá para perceber é que esses aí, na maioria das vezes, são apenas direitistas envergonhados que ainda não saíram do armário.

Os últimos deste tipo com quem tive um "debate" se dizem "cristãos", e alguns destes, "calvinistas". Quanto a esses, seu objetivo, de forma geral, é implantar um estado teocrático governado pelo teólogo-rei. 

Sim, não seria mais o filósofo-rei da República de Platão, mas o teólogo-rei calvinista, pois só este, apesar de sua "depravação total" (uma doutrina calvinista, para quem não conhece), recebeu iluminação suficiente dos céus para "corrigir" sua mente afetada pelo pecado e contemplar as verdades divinas (o Bem, diria Platão). (É a velha vontade de potência do sacerdote, diria ainda Nietzsche).

Então, não estão nem na esquerda, nem na direita, mas "acima" (!!) disso tudo.

Mas trazendo o calvinista de volta das nuvens, para o mundo real, para a terra, uma única pergunta deve ser suficiente para desmascarar sua evasiva envergonhada de direitista não assumido.

A questão é: qual será o modo de produção de sua sociedade teocrática aqui na terra? A quem pertencem os chamados meios de produção - fábricas, terras, máquinas, etc? São propriedade de alguns poucos indivíduos que se enriquecem às custas da extração de mais-valia dos trabalhadores ou são propriedade social?

Essa resposta vai definir quase tudo, pois é principalmente o tipo de propriedade dos meios de produção em sua sociedade que apontará onde realmente se situa o calvinista.

A evasiva a um posicionamento político já é um posicionamento político. Se dizer "neutro" aqui é como se dizer "imóvel" num barco arrastado por uma correnteza. Pode-se não remar contra a maré, mas cruzar os braços não significa não estar indo a lugar algum.


P.S.: Na foto, marxista, de camisa vermelha, tira calvinista do armário.

O perfeito imbecil politicamente incorreto

Posted: 21.10.11 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Por Cynara Menezes, na Carta Capital

Em 1996, três jornalistas –entre eles o filho do Nobel de Literatura Mario Vargas Llosa, Álvaro –lançaram com estardalhaço o “Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano”. Com suas críticas às idéias de esquerda, o livro se tornaria uma espécie de bíblia do pensamento conservador no continente. Vivia-se o auge do deus mercado e a obra tinha como alvo o pensamento de esquerda, o protecionismo econômico e a crença no Estado como agente da justiça social. Quinze anos e duas crises econômicas mundiais depois, vemos quem de fato era o perfeito idiota.

Mas, quem diria, apesar de derrotado pela história, o Manual continua sendo não só a única referência intelectual do conservadorismo latino-americano como gerou filhos. No Brasil, é aquele sujeito que se sente no direito de ir contra as idéias mais progressistas e civilizadas possíveis em nome de uma pretensa independência de opinião que, no fundo, disfarça sua real ideologia e as lacunas em sua formação. Como de fato a obra de Álvaro e companhia marcou época, até como homenagem vamos chamá-los de “perfeitos imbecis politicamente incorretos”. Eles se dividem em três grupos:

1. o “pensador” imbecil politicamente incorreto: ataca líderes LGBTs (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Trânsgeneros) e defende homofóbicos sob o pretexto de salvaguardar a liberdade de expressão. Ataca a política de cotas baseado na idéia que propaga de que não existe racismo no Brasil. Além disso, ações afirmativas seriam “privilégios” que não condizem com uma sociedade em que há “oportunidades iguais para todos”. Defende as posições da Igreja Católica contra a legalização do aborto e ignora as denúncias de pedofilia entre o clero. Adora chamar socialistas de “anacrônicos” e os guerrilheiros que lutaram contra a ditadura de “terroristas”, mas apoia golpes de Estado “constitucionais”. Um torturado? “Apenas um idiota que se deixou apanhar.” Foge do debate de idéias como o diabo da cruz, optando por ridicularizar os adversários com apelidos tolos. Seu mote favorito é o combate à corrupção, mas os corruptos sempre estão do lado oposto ao seu. Prega o voto nulo para ocultar seu direitismo atávico. Em vez de se ocupar em escrever livros elogiando os próprios ídolos, prefere a fórmula dos guias que detonam os ídolos alheios –os de esquerda, claro. Sua principal característica é confundir inteligência com escrever e falar corretamente o português.

2. o comediante imbecil politicamente incorreto: sua visão de humor é a do bullying. Para ele não existe o humor físico de um Charles Chaplin ou Buster Keaton, ou o humor nonsense do Monty Python: o único humor possível é o que ri do próximo. Por “próximo”, leia-se pobres, negros, feios, gays, desdentados, gordos, deficientes mentais, tudo em nome da “liberdade de fazer rir.” Prega que não há limites para o humor, mas é uma falácia. O limite para este tipo de comediante é o bolso: só é admoestado pelos empregadores quando incomoda quem tem dinheiro e pode processá-los. Não é à toa que seus personagens sempre estão no ônibus ou no metrô, nunca num 4X4. Ri do office-boy e da doméstica, jamais do patrão. Iguala a classe política por baixo e não tem nenhum respeito pelas instituições: o Congresso? “Melhor seria atear fogo”. Diz-se defensor da democracia, mas adora repetir a “piada” de que sente saudades da ditadura. Sua principal característica é não ser engraçado.

3. o cidadão imbecil politicamente incorreto: não se sabe se é a causa ou o resultados dos dois anteriores, mas é, sem dúvida, o que dá mais tristeza entre os três. Sua visão de mundo pode ser resumida na frase “primeiro eu”. Não lhe importa a desigualdade social desde que ele esteja bem. O pobre para o cidadão imbecil é, antes de tudo, um incompetente. Portanto, que mal haveria em rir dele? Com a mulher e o negro é a mesma coisa: quem ganha menos é porque não fez por merecer. Gordos e feios, então, era melhor que nem existissem. Hahaha. Considera normal contar piadas racistas, principalmente diante de “amigos” negros, e fazer gozação com os subordinados, porque, afinal, é tudo brincadeira. É radicalmente contra o bolsa-família porque estimula uma “preguiça” que, segundo ele, todo pobre (sobretudo se for nordestino) possui correndo em seu sangue. Também é contrário a qualquer tipo de ação afirmativa: se a pessoa não conseguiu chegar lá, problema dela, não é ele que tem de “pagar o prejuízo”. Sua principal característica é não possuir ideias além das que propagam os “pensadores” e os comediantes imbecis politicamente incorretos.

Peça Radiofônica: "A árvore de Natal na casa do Cristo", de Dostoiévski

Posted: 29.9.11 by Glauber Ataide in Marcadores:
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No post anterior compartilhamos "A árvore de Natal na casa do Cristo", um pequeno escrito de Dostoiévski carregado de grande sensibilidade. Dando sequência ao surto dostoievskiano que acometeu hoje este blogueiro, compartilho novamente a mesma obra, mas agora em uma versão radiofônica. 

Você pode ouvi-la usando o controle ao final desta página ou então fazendo o download do Mp3 (14,6MB) no link mais abaixo. O tempo de duração é 21:16 minutos.

P.S.: Se você ainda não leu a história, sugiro que faça isso antes.

Informações extraídas do site dos autores:

A árvore de Natal da casa do Cristo [ Uma Leitura Radiofônica do conto de Fiódor Dostoiévski  - 1997 ].

Posso dizer que o interesse maior da peça está numa idéia simples e um tanto arriscada: intercalar a narrativa original de Dostoiévski com depoimentos de meninos de rua da Praça da Sé.

Sinceramente, acho o resultado alcançado muito interessante:  uma fusão intuitiva e experimental de ficção e documentário – algo próximo ao formato radiofônico conhecido como “feature”.

Autores: Roberto D'Ugo e Adriana Cotias.
Reportagens: Marilu Cabañas. Narração: Hélio Vaccari. 
Trabalhos Técnicos: Jonas Bicev (Transmitido pela Cultura FM em dez.1999).



Clique aqui para fazer o download da peça radiofônica "A árvore de Natal na casa do Cristo", de Dostoiévski.

Dostoiévski: A árvore de Natal na casa do Cristo

Posted: by Glauber Ataide in Marcadores:
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Abaixo um pequeno conto de Dostoiévski, tão curto quanto intenso.

Havia num porão uma criança, um garotinho de seis anos de idade, ou menos ainda. Esse garotinho despertou certa manhã no porão úmido e frio. Tiritava, envolto nos seus pobres andrajos. Seu hálito formava, ao se exalar, uma espécie de vapor branco, e ele, sentado num canto em cima de um baú, por desfastio, ocupava-se em soprar esse vapor da boca, pelo prazer de vê-lo se esvolar. Mas bem que gostaria de comer alguma coisa. Diversas vezes, durante a manhã, tinha se aproximado do catre, onde num colchão de palha, chato como um pastelão, com um saco sob a cabeça à guisa de almofada, jazia a mãe enferma. Como se encontrava ela nesse lugar? Provavelmente tinha vindo de outra cidade e subitamente caíra doente. A patroa que alugava o porão tinha sido presa na antevéspera pela polícia; os locatários tinham se dispersado para se aproveitarem também da festa, e o único tapeceiro que tinha ficado cozinhava a bebedeira há dois dias: esse nem mesmo tinha esperado pela festa. No outro canto do quarto gemia uma velha octogenária, reumática, que outrora tinha sido babá e que morria agora sozinha, soltando suspiros, queixas e imprecações contra o garoto, de maneira que ele tinha medo de se aproximar da velha. No corredor ele tinha encontrado alguma coisa para beber, mas nem a menor migalha para comer, e mais de dez vezes tinha ido para junto da mãe para despertá-la. Por fim, a obscuridade lhe causou uma espécie de angústia: há muito tempo tinha caído a noite e ninguém acendia o fogo. Tendo apalpado o rosto de sua mãe, admirou-se muito: ela não se mexia mais e estava tão fria como as paredes. "Faz muito frio aqui", refletia ele, com a mão pousada inconscientemente no ombro da morta; depois, ao cabo de um instante, soprou os dedos para esquentá-los, pegou o seu gorrinho abandonado no leito e, sem fazer ruído, saiu do cômodo, tateando. Por sua vontade, teria saído mais cedo, se não tivesse medo de encontrar, no alto da escada, um canzarrão que latira o dia todo, nas soleiras das casas vizinhas. Mas o cão não se encontrava alí, e o menino já ganhava a rua.

Senhor! que grande cidade! Nunca tinha visto nada parecido, De lá, de onde vinha, era tão negra a noite! Uma única lanterna para iluminar toda a rua. As casinhas de madeira são baixas e fechadas por trás dos postigos; desde o cair da noite, não se encontra mais ninguém fora, toda gente permanece bem enfurnada em casa, e só os cães,às centenas e aos milhares,uivam, latem, durante a noite. Mas, em compensação, lá era tão quente; davam-lhe de comer... ao passo que ali... Meu Deus! se ele ao menos tivesse alguma coisa para comer! E que desordem, que grande algazarra ali, que claridade, quanta gente, cavalos, carruagens... e o frio, ah! este frio! O nevoeiro gela em filamentos nas ventas dos cavalos que galopam; através da neve friável o ferro dos cascos tine contra a calçada;toda gente se apressa e se acotovela, e, meu Deus! como gostaria de comer qualquer coisa, e como de repente seus dedinhos lhe doem! Um agente de policia passa ao lado da criança e se volta, para fingir que não vê.

Eis uma rua ainda: como é larga! Esmaga-lo-ão ali, seguramente; como todo mundo grita, vai, vem e corre, e como está claro, como é claro! Que é aquilo ali? Ah! uma grande vidraça, e atrás dessa vidraça um quarto, com uma árvore que sobe até o teto; é um pinheiro, uma árvore de Natal onde há muitas luzes, muitos objetos pequenos, frutas douradas, e em torno bonecas e cavalinhos. No quarto há crianças que correm; estão bem vestidas e muito limpas, riem e brincam, comem e bebem alguma coisa.   Eis ali uma menina que se pôs a dançar com um rapazinho. Que bonita menina! Ouve-se música através da vidraça. A criança olha, surpresa; logo sorri, enquanto os dedos dos seus pobres pezinhos doem e os das mãos se tornaram tão roxos, que não podem se dobrar nem mesmo se mover. De repente o menino se lembrou de que seus dedos doem muito; põe-se a chorar, corre para mais longe, e eis que, através de uma vidraça, avista ainda um quarto, e neste outra árvore, mas sobre as mesas há bolos de todas as qualidades, bolos de amêndoa, vermelhos, amarelos, e eis sentadas quatro formosas damas que distribuem bolos a todos os que se apresentem. A cada instante, a porta se abre para um senhor que entra. Na ponta dos pés, o menino se aproximou, abriu a porta e bruscamente entrou. Hu! com que gritos e gestos o repeliram! Uma senhora se aproximou logo, meteu-lhe furtivamente uma moeda na mão, abrindo-lhe ela mesma a porta da rua. Como ele teve medo! Mas a moeda rolou pelos degraus com um tilintar sonoro: ele não tinha podido fechar os dedinhos para segurá-la. O menino apertou o passo para ir mais longe - nem ele mesmo sabe aonde. Tem vontade de chorar; mas dessa vez tem medo e corre. Corre soprando os dedos. Uma angústia o domina, por se sentir tão só e abandonado, quando, de repente: Senhor! Que poderá ser ainda? Uma multidão que se detém, que olha com curiosidade. Em uma janela, através da vidraça, há três grandes bonecos vestidos com roupas vermelhas e verdes e que parecem vivos! Um velho sentado parece tocar violino, dois outros estão em pé junto de e tocam violinos menores, e todos maneiam em cadência as delicadas cabeças, olham uns para os outros, enquanto seus lábios se mexem; falam, devem falar - de verdade - e, se não se ouve nada, é por causa da vidraça. O menino julgou, a princípio, que eram pessoas vivas, e, quando finalmente compreendeu que eram bonecos, pôs-se de súbito a rir. Nunca tinha visto bonecos assim, nem mesmo suspeitava que existissem! Certamente, desejaria chorar, mas era tão cômico, tão engraçado ver esses bonecos! De repente pareceu-lhe que alguém o puxava por trás. Um moleque grande, malvado, que estava ao lado dele, deu-lhe de repente um tapa na cabeça, derrubou o seu gorrinho e passou-lhe uma rasteira. O menino rolou pelo chão, algumas pessoas se puseram a gritar: aterrorizado, ele se levantou para fugir depressa e correu com quantas pernas tinha, sem saber para onde. Atravessou o portão de uma cocheira, penetrou num pátio e sentou-se atrás de um monte de lenha. "Aqui, pelo menos", refletiu ele, "não me acharão: está muito escuro."

Sentou-se e encolheu-se, sem poder retomar fôlego, de tanto medo, e bruscamente, pois foi muito rápido, sentiu um grande bem-estar, as mãos e os pés tinham deixado de doer, e sentia calor, muito calor, como ao pé de uma estufa. Subitamente se mexeu: um pouco mais e ia dormir! Como seria bom dormir nesse lugar! "mais um instante e irei ver outra vez os bonecos", pensou o menino, que sorriu à sua lembrança: "Podia jurar que eram vivos!"... E de repente pareceu-lhe que sua mãe lhe cantava uma canção. "Mamãe, vou dormir; ah! como é bom dormir aqui!"

- Venha comigo, vamos ver a árvore de Natal, meu menino - murmurou repentinamente uma voz cheia de doçura.

Ele ainda pensava que era a mãe, mas não, não era ela. Quem então acabava de chamá-lo? Não vê quem, mas alguém está inclinado sobre ele e o abraça no escuro, estende-lhe os braços e... logo... Que claridade! A maravilhosa árvore de Natal! E agora não é um pinheiro, nunca tinha visto árvores semelhantes! Onde se encontra então nesse momento? Tudo brilha, tudo resplandece, e em torno, por toda parte, bonecos - mas não, são meninos e meninas, só que muito luminosos! Todos o cercam, como nas brincadeiras de roda, abraçam-no em seu vôo, tomam-no, levam-no com eles, e ele mesmo voa e vê: distingue sua mãe e lhe sorrir com ar feliz.

- Mamãe! mamãe! Como é bom aqui, mamãe! - exclama a criança. De novo abraça seus companheiros, e gostaria de lhes contar bem depressa a história dos bonecos da vidraça... - Quem são vocês então, meninos? E vocês, meninas, quem são? - pergunta ele, sorrindo-lhes e mandando-lhes beijos.
- Isto... é a árvore de Natal de Cristo - respondem-lhe. - Todos os anos, neste dia, há, na casa de Cristo, uma árvore de Natal, para os meninos que não tiveram sua árvore na terra...

E soube assim que todos aqueles meninos e meninas tinham sido outrora crianças como ele, mas alguns tinham morrido, gelados nos cestos, onde tinham sido abandonados nos degraus das escadas dos palácios de Petersburgo; outros tinham morrido junto às amas, em algum dispensário finlandês; uns sobre o seio exaurido de suas mães, no tempo em que grassava, cruel, a fome de Samara; outros, ainda, sufocados pelo ar mefítico de um vagão de terceira classe. Mas todos estão ali nesse momento, todos são agora como anjos, todos juntos a Cristo, e Ele, no meio das crianças, estende as mãos para abençoá-las e às pobres mães... E as mães dessas crianças estão ali, todas, num lugar separado, e choram; cada uma reconhece seu filhinho ou filhinha que acorrem voando para elas, abraçam-nas, e com suas mãozinhas enxugam-lhes as lágrimas, recomendando-lhes que não chorem mais, que eles estão muito bem ali...

E nesse lugar, pela manhã, os porteiros descobriram o cadaverzinho de uma criança gelada junto de um monte de lenha. Procurou-se a mãe... Estava morta um pouco adiante; os dois se encontraram no céu, junto ao bom Deus.

Antes de tentar convencer alguém, lembre-se disso

Posted: 28.9.11 by Glauber Ataide in Marcadores:
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A força de persuasão de um argumento reside, principalmente, na articulação lógica entre suas premissas e sua conclusão. Mas se o argumento é complexo de tal forma que não é possível apresentá-lo em uma conversa informal, o melhor então é não lançar essas conclusões, principalmente se forem polêmicas.

É importante ter isso em mente para evitar desgastes em debates infrutíferos. Às vezes estamos tão convencidos da validade de determinado argumento que nos apressamos em apresentar sua conclusão a outras pessoas sem nos dar conta de que o outro não percorreu o mesmo caminho que nós - o caminho que leva das premissas à conclusão.

Certas conclusões precisam de todo um livro por trás delas. E às vezes as premissas dessas conclusões já são elas próprias conclusões de outros longos e elaborados argumentos.

Por isso é preciso sobriedade antes de apresentar certas ideias que são produto de um longo processo de aprendizado. Pois quando essas ideias, caras a nós por serem fruto de nosso esforço, são sumariamente rejeitadas, ridicularizadas ou escarnecidas, dificilmente conseguimos evitar o sentimento de estar lançando pérolas aos porcos.

Se ideias complexas pudessem ser explicadas em poucas frases não haveria ignorância no mundo.

Gente Pobre já é Dostoiévski

Posted: 19.9.11 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Sou suspeito para falar de Dostoiévski. Este é o autor que mais leio, o que mais prende minha atenção e com o qual mais me identifico. Antes de ler Gente Pobre, contudo, estava um pouco apreensivo: o que esperar do primeiro livro de Dostoiévski, escrito quando o autor contava apenas 24 anos? Seria esta obra apenas uma curiosidade, uma peça histórica, digna de ser relançada apenas devido ao nome que o autor viria a construir posteriormente?

Não, nada disso. O romance Gente pobre já é o Dostoiévski que conhecemos. Vários dos traços de estilo e dos caracteres que encontramos em obras posteriores já estão presentes ali, não deixando dúvidas de que o que temos nesta obra já é aquele Dostoiévski que no futuro consolidaria seu nome no hall dos grandes escritores de todos os tempos.

Gente Pobre pode nos levar das lágrimas de indignação às gargalhadas. Construída como uma crítica social, ela revela, através de uma troca de cartas entre seus protagonistas - uma jovem órfã, Várvara Aleksiéyevna, e um funcionário público de idade mais avançada, Makár Diévuchkin -, seu  estado de pobreza e suas dificuldades, como se alimentam, se vestem e moram mal.

Ao mesmo tempo, contudo, alguns episódios do cotidiano destes dois, causados principalmente por sua pobreza, já prenunciam aquilo que encontraríamos em obras posteriores, como em Notas do subsolo, por exemplo - aquelas situações constrangedoras causadas por um vestuário velho e rasgado, inadequado para determinadas ocasiões, e que deixam os protagonistas em posições muito desagradáveis. (Particularmente eu fico rindo só de lembrar desses trechos. Inclusive me surpreendi rindo novamente no momento em que escrevia isso.) Mas se você ainda não leu essas situações em Dostoiévski, não pense que já sabe como é. Seu estilo é único, inigualável.

Gente Pobre é um livro altamente recomendável, e é por isso que compartilho esta brevíssima resenha com vocês.

Os donos da verdade

Posted: 23.8.11 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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