A psicoterapia da histeria

Posted: 27.8.12 by Glauber Ataide in Marcadores:
0

No capítulo IV dos Estudos sobre a Histeria (1893-1895), Freud se propõe a fazer um relato do método terapêutico desenvolvido até então para a cura da histeria. Por se tratar de um ponto em que ele e Breuer já davam sinais de distanciamento ou divergências teóricas, o autor deixa claro que as considerações do capítulo são apenas de sua autoria, não envolvendo a participação do estimado companheiro. 

Após examinar grande número de pacientes, Freud é forçado a aplicar duas alterações tanto em sua técnica quanto em sua visão dos fatos, a saber: “1) que nem todas as pessoas que exibiam sintomas histéricos indiscutíveis e que, muito provavelmente, eram regidas pelo mesmo mecanismo psíquico podiam ser hipnotizadas” e (2) tomar uma posição quanto à questão do que, afinal, caracteriza essencialmente a histeria e do que a distingue de outras neuroses. 

Uma das grandes descobertas de Freud relatadas neste capítulo é o fator sexual como causa determinante que leva à aquisição das neuroses, à qual ele chegou partindo do método de Breuer e ponderando sobre a etiologia das neuroses e de seu mecanismo em geral. 

O autor discorre, a seguir, sobre os diferentes tipos de histeria e de neuroses, concluindo que é muito difícil encontrar formas de histeria e neurose obsessiva puras. Elas aparecem, na esmagadora maioria dos casos, de forma mista. Para sustentar tal opinião, Freud discute alguns casos clínicos anteriormente apresentados. 

Passados os casos em revista, Freud chega à conclusão de que o método catártico “não consegue afetar as causas subjacentes da histeria: assim, não consegue impedir que novos sintomas tomem o lugar daqueles que foram eliminados” (FREUD, 2006). Ou seja, este método é sintomático, e não causal, o que, no entanto, não diminui em nada o seu valor. 

Um dos pressupostos do método terapêutico comunicado por Freud nesta obra é que o analista tenha um grande interesse pessoal pelos pacientes. Além disso, o processo requer certo nível de inteligência abaixo do qual o método se torna impraticável. Uma outra característica é a confiança do paciente no analista, haja vista que a análise invariavelmente leva à revelação dos eventos psíquicos mais íntimos. 

Na segunda seção do capítulo, Freud detalha como chegou à conclusão mencionada acima de que nem todas as pessoas são hipnotizáveis. Sua conclusão é de que “as pessoas não hipnotizáveis eram as que faziam uma objeção psíquica à hipnose, quer sua objeção se expressasse como má vontade ou não.” 

Um problema ainda persistia, contudo: se elas eram resistentes à hipnose, como contorná-la e, ainda assim, obter as lembranças patogênicas? 

Freud então começa a descrever seu método, que consistia em insistir com os pacientes para que falassem sobre o que tinha originado o sintoma em questão. O referencial teórico para tal eram as experiências de Bernheim, nas quais os pacientes se lembravam de eventos ocorridos em estado sonambúlico e que tinham aparentemente sido esquecidas. Assim, ao perceber que era de fato possível extrair dos pacientes lembranças que eles próprios haviam esquecido, ele chegou à teoria de que, por meio de seu trabalho psíquico, ele tinha “superar uma força psíquica nos pacientes que se opunha a que as representações patogênicas se tornassem conscientes (fossem lembradas). 

Percebendo não ser suficiente, no entanto, apenas a insistência para que o paciente falasse, ele passou a se utilizar primeiramente de um velho artifício: o de fazer uma leve pressão com a mão sobre a testa do paciente, lhe informando que, a partir daquele momento, lembranças emergiriam à sua mente, e que ele deveria relatar exatamente o que viu, sem nenhuma alteração ou censura. 

Mas o que emerge nesses momentos, afirma Freud, “nem sempre é uma lembrança ‘esquecida’; apenas nos casos mais raros é que as lembranças patogênicas reais acham-se tão facilmente à mão na superfície.” O que é mais comum é o surgimento de representações intermediárias, elos na cadeia de associações entre a representação da qual se parte e aquela na qual se quer chegar, ou seja, na patogênica. 

Freud se mostra ciente de que “a técnica da pressão nada mais é do que um truque para apanhar temporariamente desprevenido um ego ansioso por defender-se”, enfatizando, com essa observação, o papel que oferece a resistência em todos os casos mais ou menos graves. A resistência impede, não obstante a técnica da pressão, que lembranças ou associações sejam produzidas pelo paciente em determinados momentos do tratamento, sendo necessário um maior esforço para tentar superá-la. 

(3) 

Apesar de todas as dificuldades encontradas no uso da técnica da pressão, Freud não considera que o tratamento catártico sob hipnose seja mais adequado que o primeiro para conseguir extrair o material patogênico. De fato, afirma ele, “nas situações em que apliquei um tratamento catártico sob hipnose, em vez de concentração, não achei que isso diminuísse o trabalho que eu tinha a executar.” A principal questão que se apresentava, utilizando um método ou outro, era a questão da resistência, a qual se impunha em primeiro plano. 

O trabalho de Freud até então o levou à visão de que “a histeria se origina por meio do recalcamento de uma ideia incompatível, de uma motivação de defesa.” Freud resume seus achados da seguinte maneira: 

Segundo esse ponto de vista, a ideia recalcada persistiria como um traço mnêmico fraco (de pouca intensidade), enquanto o afeto dela arrancado seria utilizado para uma inervação somática. (Em outras palavras, a excitação é “convertida”.) Ao que parece, portanto, é precisamente por meio de seu recalcamento que a idéia se transforma na causa de sintomas mórbidos — ou seja, torna-se patogênica. Pode-se dar a designação de “histeria de defesa” à histeria que exiba esse mecanismo psíquico. 

Além da histeria de defesa, outros dois tipos de histeria já vinham sendo abordadas por Freud e Breuer: a histeria hipnóide e a histeria de retenção. No entanto, apesar da utilidade teórica de se fazer essa distinção, só muito raramente pode-se encontrar qualquer uma delas em sua forma pura no tratamento. 

Na última parte do capítulo, Freud trata mais uma vez de algumas dificuldades relacionadas à técnica do método catártico, independente do tipo de histeria em questão. A primeira e mais forte impressão causada num tratamento deste tipo é a de que “o material psíquico patogênico aparentemente esquecido, que não se acha à disposição do ego e não desempenha nenhum papel na associação e na memória, não obstante está de algum modo à mão, e em ordem correta e adequada.” Trata-se, portanto, de remover as resistências que barram o caminho a este material, tema sobre o qual Freud discorre pormenorizadamente. 

Uma lembrança ou uma ligação patogênicas, que antes estavam fora da consciência do ego e que são então reveladas pela análise e introduzidas no ego, são geralmente reconhecidas pelo paciente com declarações do tipo: “Eu sempre soube disso, poderia ter-lhe dito antes.” 

Um outro tópico de grande interesse para a análise é a questão de quando a técnica - da pressão, neste caso – falhar, apesar de toda insistência. Freud aponta duas possibilidades da causa desse fracasso: não há nada mais a ser extraído do paciente (o que pode ser reconhecido pela serenidade de sua expressão facial), ou temos diante de nós uma resistência que só poderá ser superada mais tarde, uma resistência que ainda não temos condições de vencer. 

Além dessas duas possibilidades, Freud enumera uma terceira, que diz respeito à relação entre o analista e o paciente. Esta última, de importância capital para a análise, seria mais tarde denominada de relação transferencial.

Valores do homem do século XXI

Posted: 11.6.12 by Glauber Ataide in Marcadores:
0

Clique na imagem para ampliar.




Autor: Quino (cartunista argentino, o criador da Mafalda)

Pela imigração, contra a xenofobia

Posted: 25.4.12 by Glauber Ataide in Marcadores:
2

Socialismo não é "dividir tudo igual"

Posted: 24.4.12 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
20


Fonte: Blog do Dario

Freud e o sentimento de insignificância do homem diante do universo

Posted: 18.4.12 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
0


"Os críticos insistem em descrever como ‘profundamente religioso’ qualquer um que admita uma sensação da insignificância ou impotência do homem diante do universo, embora o que constitua a essência da atitude religiosa não seja essa sensação, mas o passo seguinte, a reação que busca um remédio para ela. O homem que não vai além, mas humildemente concorda com o pequeno papel que os seres humanos desempenham no grande mundo, esse homem é, pelo contrário, irreligioso no sentido mais verdadeiro da palavra." (Sigmund Freud, O futuro de uma ilusão)

Reacionários: medíocres e perigosos

Posted: 24.3.12 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
0


O reacionário é o covarde que passa a vida toda defendendo velhos privilégios e convicções. O mundo e suas mudanças são sempre uma ameaça a ser exterminada. 

- Por Matheus Pichonelli, na Carta Capital, lido no Tudo em cima

O reacionário é, antes de tudo, um fraco. Um fraco que conserva ideias como quem coleciona tampinhas de refrigerante ou maços de cigarro – tudo o que consegue juntar mas não têm utilidade a não ser para ele. Nasce e cresce em extremos: ou da falta de atenção ou do excesso de cuidados. E vive com a certeza de que o mundo fora da bolha onde lacrou seu refúgio é um mundo de perigos, pronto para tirar dele o que acumulou em suposta dignidade.

Como tem medo de tudo, vive amargurado, lamentando que jamais estenderam um tapete à sua passagem. Conserva uma vida medíocre, ele e suas concepções e nojos do mundo que o cerca. Como tem medo, não anda na rua com receio de alguém levar muito do pouco que tem (nem sempre o reacionário é um quatrocentão). Por isso, só frequenta lugares em que se sente seguro, onde ninguém vai ameaçar, desobedecer ou contradizer suas verdades. Nem dizer que precisa relaxar, levar as coisas menos a sério ou ver graça na leveza das coisas. O reacionário leva a sério a ideia de que é um vencedor.

Como passou a vida toda tendo tudo aos alcance – da empregada que esquentava o leite no copo favorito aos pais que viam uma obra de arte em cada rabisco em folha de sulfite que ele fazia – cultivou uma dificuldade doentia em se ver num mundo de aptidões diversas. Para ele, tudo o que é diferente tem potencial de destruição.

Por isso se tranca e pede para não ser perturbado no próprio mundo. Porque tudo perturba: o presidente da República quer seu voto e seus impostos; os parlamentares querem fazê-lo de otário; os juízes estão doidos para tirar os direitos acumulados; a universidade é financiada (por ele, lógico) para propagar ideias absurdas sobre ideais que despreza; o vizinho está sempre de olho na sua esposa, em seu carro, em sua piscina. Mesmo os cadeados, portões de aço, sistemas de monitoramento, paredes e vidros anti-bala não angariam de todo a sua confiança. O mundo está cheio de presidiários com indulto debaixo do braço para visitar seus familiares e ameaçar os nossos (porque os nossos nunca vão presos, mesmo quando botam fogo em índios, mendigos, prostitutas e ciclistas; índios, mendigos, prostitutas e ciclistas estão aí para isso, quem mandou sair de casa e poluir nosso caminho de volta ao lar).

Como não conhece o mundo afora, a não ser nas viagens programadas em pacotes que garantem o translado para o hotel, e despreza as ideias que não são suas (aquelas que recebeu de pronto dos pais e o ensinaram a trabalhar, vencer e selecionar o que é útil e o que é supérfluo), tudo o que é novo soa ameaçador. O mundo muda, mas ele não: ele não sabe que é infeliz porque para ele só o que não é ele, e os seus, são lamentáveis.

Muitas vezes o reacionário se torna pai e aprende, na marra, o conceito de família. Às vezes vai à igreja e pede paz, amor, saúde aos seus. Aos seus. Vê nos filhos a extensão das próprias virtudes, e por isso os protege: não permite que brinquem com os meninos da rua nem que tenham contato com ideias que os retirem da sua órbita. O índice de infarto entre os reacionários é maior quando o filho traz uma camisa do Che Guevara para casa ou a filha começa a ouvir axé e namorar o vocalista da banda (se ele for negro o infarto é fulminante).

Mas a vida é repleta de frestas, e o tempo todo estamos testando as mais firmes das convicções. Mas ele não quer testá-las: quer mantê-las. Por isso as mudanças lhe causam urticárias.

Nos anos 70, vivia com medo dos hippies que ousavam dizer que o amor não precisava de amarras. Eram vagabundos e irresponsáveis, pensava ele, em sua sobriedade.

Depois vieram os punks, os excluídos de aglomerações urbanas desajeitadas, os militantes a pedir o alargamento das liberdades civis e sociais. Para o reacionário, nada daquilo faz sentido, porque ninguém estudou como ele, ninguém acumulou bens e verdades como ele e, portanto, seria muito injusto que ele e o garçom (que ele adora chamar de incompetente) tivessem o mesmo peso numa urna, o mesmo direito num guichê de aeroporto, o mesmo assento na mesa de fast food.

Para não dividir espaços cativos, frutos de séculos de exclusão que ele não reconhece, eleva o tom sobre tudo o que está errado. Sabendo de seus medos e planos de papel, revistas, rádios, televisão, padres, pastores e professores fazem a festa: basta colocar uma chamada alarmista (“Por que você trabalha tanto e o País cresce tão pouco?”) ou música de suspense nas cenas de violência (descontrolada!) na tevê para que ele se trema todo e se prepare para o Armagedoon. Como bicho assustado, volta para a caixinha e fica mirabolando planos para garantir mais segurança aos seus. Tudo o que vê, lê e ouve o convence de que tudo é um perigo, tudo é decadente, tudo é importante, tudo é indigno. Por isso não se deve medir esforços para defender suas conquistas morais e materiais.

E ele só se sente seguro quando imagina que pode eliminar o outro.

Primeiro, pelo discurso. No começo, diz que não gosta desse povinho que veio ao seu estado tirar espaço dos seus. Vive lembrando que trabalha mais e paga mais impostos do que o povinho do estado ao norte, que agora vem construir casas em seu bairro, frequentam os clubes e shoppings antes só repletos de suas réplicas. Para ele, qualquer barberagem no trânsito é coisa da maldita inclusão, aqueles povos bárbaros que hoje tiram carta de habilitação e ainda penduram diplomas universitários nas paredes. No tempo dele, sim, é que era bom: a escola pública funcionava (para ele), o policial não se corrompia (sobre ele), o político não loteava a administração (não com pessoas que não eram ele).

Há que se entender a dor do sujeito. Ele recebeu um mundo pronto, mas que não estava acabado. E as coisas mudaram, apesar de seu esforço e sua indignação.

Ele não sabe, mas basta ter dois neurônios para rebater com um sopro qualquer ideia que ele tenha sobre os problemas e soluções para o mundo – que está, mas ele não vê, muito além de um simples umbigo. Mas o reacionário não ouve: os ignorantes são os outros: os gays que colocam em risco a continuidade da espécie, as vagabundas que já não respeitam a ordem dos pais e maridos, os estudantes que pedem a extensão de direitos (e não sabem como é duro pegar na enxada), os drogados que não estão necessariamente a fim de contribuir para o progresso da nação, o governante que agora vem com esse papo de distribuir esmola, combater preconceitos inexistentes (“nada contra, mas eles que se livrem da própria herança”), os países vizinhos que mandam rebas para emporcalhar suas ruas.

O mundo ideal, para o reacionário, é um mundo estático: no fundo, ele não se importa em pagar impostos, desde que não o incomodem. Como muitos não o levam a sério, os reacionários se agrupam. Lotam restaurantes, condomínios e associações de bairro com seus pares, e passam a praguejar contra tudo.

Quando as queixas não são mais suficientes, eles se organizam (justo ele, que detestava tudo o que era coletivo, do sindicato ao partido político). Juntos, eles identificam e escolhem os porta-vozes de suas paúras em debates nacionais. Às vezes são hilários, às vezes incomodam.

Mas, quando se vê como uma voz inexpressiva entre os grupos que deveriam representá-lo, o reacionário bota para fora sua paranóia, pragueja contra o sistema democrático (às vezes com o argumento de que o sistema é antidemocrático) e se arma. Como o caldo cultural legitima seu discurso e sua paranoia, ele passa a defender crimes para evitar outros crimes – nos Estados Unidos, alvejam imigrantes na fronteira, na Europa, arrebentam árabes latinos, e na Candelária, encomendam chacinas e, em QGs anônimos, planejam ataques contra universitários de Brasília que propagam imoralidades.

O reacionário é um cidadão do mundo. Seu nome é legião porque são muitos. Pode até ser fraco e viver com medo de tudo. Mas nunca foi inofensivo.

Sobre a probabilidade dos milagres

Posted: 15.2.12 by Glauber Ataide in Marcadores: , ,
4


Lendo ontem alguns trechos da "Investigação sobre o entendimento humano", de David Hume, me veio à memória um argumento apresentado pelo filósofo cristão William Lane Craig, que li já faz alguns anos, em defesa da questão dos milagres e da ressurreição de Cristo.

É que Craig afirma, contrariando Hume, que mesmo que a ocorrência de um milagre seja um evento altamente improvável, isso não seria razão suficiente para não acreditar nele, pois em nossa vida real acreditamos em diversos outros eventos cuja probabilidade também são astronômicas.

Usando um exemplo de combinações de números da loteria para ilustrar seu argumento, o apologista nos pergunta algo mais ou menos assim: qual a probabilidade de que a combinação de números 02-12-19-22-36-58 seja sorteada na mega-sena? Apesar de ser apenas 1 em 50.063.860, ninguém duvida que essa ocorrência de fato aconteceu no sorteio do dia 11/02/2012. Foi um evento altamente improvável, mas ocorreu.

No entanto, essa analogia de Craig me parece falaciosa. Apesar de não sabermos qual a combinação numérica que cairá em determinado sorteio da loteria, uma coisa é certa: sempre será sorteada uma combinação qualquer cuja probabilidade de ocorrência é de 1 em 50.063.860. 

Uma outra diferença importante entre os milagres e o sorteio é que essa ocorrência é aleatória, não precisa carregar uma intencionalidade como os primeiros. Pois um milagre nunca é um ato aleatório, mas sempre um ato dirigido a um fim pré-determinado (curar uma determinada doença de uma determinada pessoa, transformar água em vinho, etc).

Assim, no caso da loteria, a pergunta deveria ser: qual a probabilidade de que hoje seja sorteada uma combinação qualquer cuja probabilidade de ocorrência de 1 em 50.063.860?

Ora, considerando que os sorteios da mega-sena vem sendo realizados regularmente todas as quartas e sextas, a probabilidade de que este evento não aconteça dessa vez é mínima (não calculei para exemplificar aqui, mas creio não ser necessário para ser compreendido).

Portanto, uma combinação qualquer num sorteio da loteria não é algo tão improvável quanto um milagre. Porque tal comparação, a fim de não ser falaciosa, deveria ser mais ou menos no seguinte sentido: qual a probabilidade de que um morto qualquer ressuscite hoje? E qual a probabilidade de que uma combinação qualquer de X números seja sorteada hoje?

Cultura de massas

Posted: 8.2.12 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
6


A cultura de massas consegue fabricar em grande escala, com técnicas e procedimentos industriais ideais, sonhos e ilusões, estilos pessoais e até uma vida privada em grande parte produto de uma técnica, subordinada ao lucro e à tensão permanente entre a criatividade e a padronização, apta para poder ser assimilada pelo cidadão de classe média.

A cultura de massas é o desenvolvimento de um novo modelo no qual se reforçam as diferenças e as desigualdades com estratégias e instrumentos mercadológicos cada vez mais elaborados. A ciência e o conhecimento se põe a serviço da produção de valores e símbolos estereotipados.

Os três pilares fundamentais desta cultura são: uma cultura comercial, uma sociedade de consumo e uma instituição publicitária.

Fonte: Sovietofilia

Mulheres gostam de homens inteligentes?

Posted: 26.1.12 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
9


A literatura de autoajuda vem reforçando um mito segundo o qual a mulher é "mais inteligente" ou "mais culta" que o homem. Talvez isso esteja baseado em estatísticas sobre o número de mulheres que cursam o ensino superior comparado ao de homens, ou coisas assim. Mas a conclusão que costumam tirar disso - que a mulher tenderia muito mais "naturalmente" que o homem aos livros e aos estudos - é uma extrapolação de todas as evidências.

A ideia que vem sendo transmitida é sempre da mulher como ser "sensível", que gosta de ler, que cultiva sua vida interior, enquanto que o homem é um bruto, que gosta de atividades físicas, de motor de carro, de cerveja e futebol. E desses estereótipos temos a oposição "mulher-culta-evoluída" versus "homem-bruto-primitivo".

Daí que, tendendo a mulher "naturalmente" para a cultura e para a erudição, ela então supostamente gostaria de homens "inteligentes". E alguns livros de autoajuda chegam a colocar o quesito "inteligência" entre os três primeiros fatores que decidem a escolha de uma mulher por um determinado parceiro.

Mas vamos confrontar o mito com a vida real, com aquilo que podemos observar no terreno da experiência. Os leitores dirão o quanto minha leitura se aproxima ou se afasta do que eles próprios podem ver.

Dentro dos meus círculos de convívio, pelo menos, observo que os homens são tão inteligentes quanto as mulheres. Alguns mais, outros menos. Mas nada nunca, jamais me fez nem sequer suspeitar que as mulheres fossem mais "inteligentes" que os homens. E entendo inteligência, em todo este texto, como uma faculdade intrinsecamente ligada ao acúmulo, processamento e produção de cultura e erudição, no sentido clássico.

Em segundo lugar, em quase todos os círculos que frequento - com excessão da universidade e dos movimentos sociais - as mulheres são de uma frivolidade ridícula, tanto quanto seus pares homens. O que costumam ler - quando leem - é porcaria, best-sellers (eis aí um critério para escolha de livros: não perca tempo com best-sellers).

Façamos um exercício de experimentação imaginativa. Visualize uma dessas mulheres fúteis, comuns  - telespectadoras do Big Brother e que eu nunca ouvi conversando nada de sério por mais de 2 minutos - tentando conversar com um homem realmente culto, inteligente e erudito. O resultado não seria uma conversa, mas uma palestra (e de 5 minutos, no máximo).

Falemos sobre política com ela, e ela desviará o assunto para a corrupção (é o que ela sabe repetir, pois a mídia hegemônica pauta a política apenas em termos morais, típico da direita, como se isso fosse o maior problema da política brasileira). Tentemos falar de música erudita, mas ela só ouve indústria cultural. Vamos falar de filosofia, mas ela só conhece religião. Vamos falar de psicanálise, mas ela só conhece autoajuda. Vamos falar de arte, cinema, pintura, ópera, mas... isso é tudo tão... "chato"!

Então, o que eu penso sobre esse assunto é o seguinte: as mulheres gostam de homens que tenham um nível intelectual próximo ao seu, and that's all (como diria o Oscar Wilde). Nem muito acima, nem muito abaixo. Assim, só mulheres inteligentes gostam de homens inteligentes. Mulheres fúteis, rasas, esvaziadas, geralmente não se darão bem com homens inteligentes, e por isso buscam alguém mais próximo do seu próprio perfil.

Sêneca, filósofo romano, inclusive disse algo que pode ser apropriado neste contexto, e que mostra por que a compatibilidade de "inteligência" e erudição não pode ser um dos principais critérios para a escolha de um parceiro: "a relação com pessoas diferentes demais de nós perturba o nosso equilíbrio".

Atualização: Vejam o quadrinho que encontrei, por acaso, dois dias depois de publicar este post. Clique para ampliar.


A cabeça de Medusa, por Sigmund Freud

Posted: 15.1.12 by Glauber Ataide in Marcadores:
7


Não foi amiúde que tentamos interpretar temas mitológicos individuais, mas uma interpretação sugere-se facilmente no caso da horripilante cabeça decapitada da Medusa.

Decapitar = castrar. O terror da Medusa é assim um terror de castração ligado à visão de alguma coisa. Numerosas análises familiarizam-nos com a ocasião para isso: ocorre quando um menino, que até então não estava disposto a acreditar na ameaça de castração, tem a visão dos órgãos genitais femininos, provavelmente os de uma pessoa adulta, rodeados por cabelos, e, essencialmente, os de sua mãe.

Os cabelos na cabeça da Medusa são freqüentemente representados nas obras de arte sob a forma de serpentes e estas, mais uma vez, derivam-se do complexo de castração. Constitui fato digno de nota que, por assustadoras que possam ser em si mesmas, na realidade, porém, servem como mitigação do horror, por substituírem o pênis, cuja ausência é a causa do horror. Isso é uma confirmação da regra técnica segundo a qual uma multiplicação de símbolos de pênis significa castração.

A visão da cabeça da Medusa torna o espectador rígido de terror, transforma-o em pedra. Observe-se que temos aqui, mais uma vez, a mesma origem do complexo de castração e a mesma transformação de afeto, porque ficar rígido significa uma ereção. Assim, na situação original, ela oferece consolação ao espectador: ele ainda se acha de posse de um pênis e o enrijecimento tranqüiliza-o quanto ao fato.

Esse símbolo de horror é usado sobre as suas vestes pela deusa virgem Atena, e com razão, porque assim ela se torna uma mulher que é inabordável e repele todos os desejos sexuais, visto apresentar os terrificantes órgãos genitais da Mãe. De vez que os gregos eram, em geral, fortemente homossexuais, era inevitável que encontrássemos entre eles uma representação da mulher como um ser que assusta e repele por ser castrada.

Se a cabeça da Medusa toma o lugar de uma representação dos órgãos genitais femininos ou, melhor, se isola seus efeitos horripilantes dos dispensadores de prazer, pode-se recordar que mostrar os órgãos genitais é familiar, sob outros aspectos, como um ato apotropaico. O que desperta horror em nós próprios produzirá o mesmo efeito sobre o inimigo de quem estamos procurando nos defender. Lemos em Rabelais como o Diabo se pôs em fuga quando a mulher lhe mostrou sua vulva.

O órgão masculino ereto também possui um efeito apotropaico, mas graças a outro mecanismo. Mostrar o pênis (ou qualquer de seus sucedâneos) é dizer: ‘Não tenho medo de você. Desafio-o. Tenho um pênis.’ Aqui, então, temos outra maneira de intimidar o Espírito Mau.

A fim de substanciar seriamente essa interpretação, seria necessário investigar a origem desse símbolo isolado de horror na mitologia grega, bem como paralelos seus em outras mitologias.
Artigo publicado na Edição Standard das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol. XVIII.