O amor é Socialista

Posted: 19.10.12 by Glauber Ataide in
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O amor é Socialista 
(Pedro Munhoz)

Compreender o riso e a dor,
caminhando lado a lado,
ser amigo, irmanado,
ser fuzil e ser a flor.
Seja lá aonde for,
não perde tua razão,
derrama teu coração,
o amor não é egoísta.
O amor é Socialista,
ele faz revolução.

Ser canção pelas distâncias,
onde a verdade não chega,
por caminhos e veredas,
no olhar de uma criança.
Combater a ignorância,
o mundo é uma só nação,
te insurges, faz rebelião,
o amor não é egoísta.
O amor é Socialista,
ele faz revolução.

Ser farol e ser alerta,
silêncio e paciência,
quando falta consciência,
cabe a ti dizer:- Desperta!
Ser poema, ser poeta,
sem vaidade ou pretensão,
esta é tua missão,
o amor não é egoísta.
O amor é Socialista,
ele faz revolução.

Estudar e repartir,
conhecimento e saber,
sempre vale aprender,
sempre vale dividir.
Há vida no ir e vir,
permanente evolução,
não há vida sem paixão,
o amor não é egoísta.
O amor é Socialista,
ele faz revolução.

Abraça a pessoa amada,
faz da luta companheira,
o amor não tem fronteiras,
é bandeira desfraldada.
Preconceito está com nada,
o amor é construção,
respeita toda a opção,
o amor não é egoísta.
O amor é Socialista,
ele faz revolução.

Olga, Rosa, todas elas,
Sandino e Che Guevara,
é Marti, Simon, Dandara,
é Zumbi e Mariguela.
Fidel, Artigas, Mandela,
piqueteiros em ação,
Sem Terra semeiam o pão,
o amor não é egoísta,
o amor é Socialista,
ele faz revolução.

Primavera/2012

Filme Partner, de Bertolucci, é baseado em O duplo, de Dostoievski

Posted: 15.9.12 by Glauber Ataide in
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Baseado livremente no romance O duplo, de Dostoievski, o filme Partner, do diretor italiano Bernardo Bertolucci, apresenta diversos temas relacionados à geração de 1968, podendo ser considerado de fato um filme político, apesar de não histórico. Tomei notícia de sua existência somente ao vê-lo na estante da locadora e, como tinha lido recentemente O duplo, não hesitei em levá-lo para conferir. 

Tendo sido filmado exatamente em 1968, durante as gravações de Partner chegou-se a notícia do Maio Francês, o que fez então com que vários de seus slogans fossem incorporados ao filme ("É proibido proibir", "É vedado vedar", etc) que já seguia, segundo o próprio diretor, uma produção improvisada.

Em relação à obra de Dostoievski o filme apresenta diversas diferenças. O protagonista do livro, Golyadkin, é um pequeno funcionário público, enquanto que o protagonista Jacob, no filme, é um professor de teatro. Algumas cenas do livro foram mantidas, apesar de que, francamente, ainda não compreendi o que elas tem a ver com o restante da obra. Assisti ao filme apenas uma vez, e como ele é "de difícil compreensão", segundo o próprio Bertolucci, não entendi muitas coisas ainda. E outra diferença essencial é sobre a existência do alter ego do protagonista. No livro ele é real, mas no filme é uma obra da imaginação do professor.

O professor de teatro Jacob é, assim como Golyadkin, um sujeito cindido, dividido. O seu sósia faz exatamente tudo aquilo que ele gostaria de fazer mas que não leva a cabo devido à sua timidez ou à sua covardia. Todos os seus impulsos agressivos, destrutivos e sexuais encontram realização neste outro, o qual o leva também a ter um maior engajamento político através do teatro.

Segundo Bertolucci, seu filme mostra que os intelectuais europeus não mais podiam fazer a revolução, e Jacob é exatamente isso, um intelectual europeu. Assim, é o duplo de Jacob que trabalha com seus alunos na criação de um espetáculo (revolução?) de rua, pois o lugar do teatro é ali, junto ao povo e se misturando a ele.

Elementos da Filosofia de Hegel no pensamento de Marx

Posted: 9.9.12 by Glauber Ataide in
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INTRODUÇÃO
Em 1837, enquanto ainda estudante de direito, Karl Marx começa a circular entre os jovens hegelianos de Berlim (BECKENKAMP, 2005). Essa aproximação se mostraria essencial para definir a direção de seu pensamento nos anos seguintes. De fato, o pensamento do jovem Marx pode ser compreendido, segundo Beckenkamp (2005, p. 64), como “uma progressiva superação do idealismo hegeliano e de diversas posições dos jovens hegelianos, culminando na formulação das concepções básicas do materialismo histórico.”
No entanto, por superação não se quer dizer total refutação de um sistema anterior, à maneira de algumas vertentes do ceticismo, por exemplo. Isso por si só já seria contrário à própria dialética hegeliana, mantida por Marx em vários aspectos. O próprio Hegel afirma, em relação a este tipo de ceticismo, que este não pode avançar e nem mesmo construir coisa alguma, pois está muito ocupado em destruir o que é erigido por outros sistemas, sendo que, após destruir tudo, fica ocioso, esperando até que algo de novo seja construído para ele novamente destruir:
“O cepticismo que termina com a abstração do nada ou do esvaziamento não pode ir além disso, mas tem de esperar que algo de novo se lhe apresente – e que novo seja esse – para jogá-lo no abismo vazio.” (HEGEL, 2011, p. 76)
Dessa forma, se a obra de Marx é uma progressiva superação do idealismo hegeliano, e se isso não quer dizer que tenha descartado por inteiro o sistema que constitui seu ponto de partida, quais foram os pontos do pensamento de Hegel que foram continuados através da obra de Marx? É o que tentaremos apontar de maneira muito resumida nas próximas páginas.
EVOLUÇÃO, RUPTURA OU AMBOS?
Segundo Poulantzas (1981), o pensamento de Marx não deve ser considerado como uma mera evolução do pensamento de Hegel. Antes, por se tratar de uma nova ciência, ele se constitui, como sistema, numa ruptura efetiva com as ordenações de noções ideológicas anteriores.
Se é verdade que o marxismo se forjou historicamente a partir das constelações teóricas que o precederam, não é menos verdade que, ao construir um objeto novo, ele muda de terreno, o que implica a descoberta de conceitos originais. (POULANTZAS, 1981).
A obra do jovem Marx é fortemente influenciada por Hegel, e é nela que encontramos sua primeira tentativa sistemática para a superação do sistema hegeliano: sua dissertação de doutorado Diferença da filosofia da natureza democrítica e epicureia, escrita em 1840-1841. Marx toma aqui a tese central de Hegel de que “estão inteiramente representados nos epicureus, estoicos e céticos todos os momentos da autoconsciência, só que cada momento como uma existência particular.” (BECKENKAMP, 2005, p.65).
Segundo Lefebvre (2009), Marx aprofundou a lógica hegeliana e continuou a elaboração do método dialético, retomando o esforço empreendido por Hegel na Fenomenologia do Espírito de esboçar uma história geral da Consciência Humana, retendo, principalmente, sua célebre noção de alienação. No entanto, deve-se ter presente que essa empresa de Marx não consiste numa mera retomada das “categorias da dialética hegeliana, extraídas do idealismo e transplantadas para o materialismo.” (POULANTZAS, 1981, p. 160)
Marx via na dialética de Hegel “a doutrina do desenvolvimento mais vasta, mais rica de conteúdo e mais profunda, a maior aquisição da filosofia clássica alemã.” (LENINE, 1986, p. 9) Um dos elementos desenvolvidos por Hegel e continuado no pensamento de Marx é a constatação de que a análise suficientemente aprofundada da realidade atinge elementos contraditórios. Segundo Lefebvre (2009), a importância da contradição escapou a Descartes e até a Kant. Somente Hegel a tinha percebido, tendo Marx aplicado posteriormente a hipótese hegeliana às condições sociais, econômicas e políticas.
No entanto, apesar da dialética hegeliana “ter chamado a atenção para a importância primordial da contradição em todos os planos (da natureza e da história)” (LEFEBVRE, 2009, p. 33), Hegel acreditou poder definir abstratamente a contradição em geral. Em seguida, se utilizou dessa definição lógica (formal) para reconstruir as contradições reais, os movimentos reais, só que de maneira puramente especulativa, metafísica, apesar da reconstrução do real empreendida por Hegel analisar números conhecimentos adquiridos e outros tantos fatos concretos.
Marx, em sentido inverso, afirma que “a ideia geral, o método, não dispensa de capturar cada objeto em sua essência” (LEFEBVRE, 2009, p. 34). Ou seja, o método é apenas um guia, uma orientação para a razão no processo de conhecimento de cada realidade. Desta feita, a lógica (formal) se submete à matéria estudada, ao conteúdo.
Assim, Marx chega à conclusão de que as ideias que se tem sobre as coisas e o mundo não são mais do que o mundo material refletido na cabeça das pessoas, ou seja, são construídas a partir do contato ativo com o mundo exterior por meio de um processo complexo de que participa toda a cultura. Tais desenvolvimentos de Marx sobre o método hegeliano deitam a base, portanto, do materialismo histórico.
Segundo Poulantzas (1981), a grande ruptura de Marx com a problemática teórica que lhe era anterior, principalmente na filosofia da história de Hegel, é que nesta
“os diversos domínios da realidade social, a economia, o Estado, a religião, a arte, etc., as suas relações e os seus princípios de inteligibilidade, fundam-se na sua origem genética, a partir de um sujeito criador da sociedade e princípio unilinear, no seu autodesenvolvimento da História. Trata-se de uma totalidade circular: todas essas totalidades se consideram engendradas por um centro, constituindo assim expressões desse sujeito central. […] Esse sujeito-essência é, para Hegel, o espírito absoluto.”
Aqui então Marx rompe com a problemática do sujeito e da essência na sua forma especulativa, sendo para ele qualquer forma de sociedade uma estrutura composta de certos níveis objetivos (como o econômico, o político, o ideológico, por exemplo), estrutura no interior da qual o nível econômico tem sempre um papel preponderante, um papel de determinação em última instância do todo. (POUlANTZAS, 1981)
No posfácio à segunda edição de O Capital Marx afirma que seu método dialético é, em seus fundamentos, não apenas diferente do hegeliano, mas exatamente o seu oposto. Para Hegel o processo de pensamento - o qual ele até transforma em um sujeito independente sob o nome de “Ideia” - é o criador do mundo real, e o mundo real é a aparência externa da ideia. No entanto, o que acontece é o oposto: o ideal não é nada além do mundo refletido na mente do homem, e traduzido nas formas do pensamento.
Apesar da “mistificação” que a dialética sofreu nas mãos de Hegel, isso não impediu que ele fosse, no entanto, a apresentar sua forma geral do movimento de uma maneira compreensível e consciente. Em Hegel a dialética está de cabeça para baixo, e é necessário invertê-la para descobrir o cerne racional que se encontra dentro desta aparência mística (MARX, 1990).
Para Marx, a grande realização do idealismo alemão e de sua crítica materialista seria “a compreensão do homem como autor de suas representações e como ser genérico a se realizar enquanto gênero humano." (BACKENKAMP, 2005, p. 71-72) Tal realização do homem teria lugar, segundo Marx, no comunismo, que seria a negação da propriedade privada, a qual, por sua vez, é a negação da verdadeira essência do homem no seio do mundo material e sensível (BACKENKAMP, 2005). Ou seja, o comunismo seria a negação da negação.
Feuerbach havia interpretado de maneira empobrecedora a dialética hegeliana da negação da negação, deixando escapar o que ela tinha de mais interessante. Marx então se propõe a resgatá-la, o que pode ser encontrado nos Manuscritos de 1844. (BACKENKAMP, 2005)
Nos Manuscritos Marx interpreta a dialética da negação da negação como uma expressão abstrata e especulativa do movimento da história:
Mas na medida em que Hegel compreendeu a negação da negação, segundo a relação positiva nela presente, como o realmente e único positivo, segundo a relação nela presente, como o único e verdadeiro ato e auto-atuação de todo ser, ele apenas encontrou a expressão abstrata, lógica, especulativa para o movimento da história, a qual ainda não é história real do homem como um sujeito pressuposto, mas apenas ato de criação, história do surgimento do homem. (BECKENKAMP, apud MARX, 2005, p. 80)
Marx efetua então uma síntese de Hegel e Feuerbach. Hegel, ao pensar o movimento histórico ou a natureza humana como algo que se faz na história, teria pensado o que Feuerbach não logrou pensar. Faltava ao materialismo feuerbachiano a dimensão histórica, a qual é pensada pela dialética hegeliana, só que de forma idealista. (BECKENKAMP, 2005)
Assim, “mesmo que em Hegel não seja compreendida a história real do homem, pelo menos encontra-se nele a perspectiva do pensamento histórico.” (BECKENKAMP, 2005, p. 80)
Hegel conservador, Marx revolucionário?
O conjunto da doutrina de Hegel deu grande margem a que nela se abrigassem as mais diversas ideias partidárias práticas (ENGELS, 1975), como ficou historicamente demonstrado pelas alas hegelianas de esquerda e de direita. Mas era Hegel de fato um conservador? Se sim, como pôde Marx, a partir do sistema hegeliano, desenvolver um pensamento revolucionário?
A tese de Hegel de que “tudo o que é real é racional; e tudo o que é racional é real” teria sido, segundo Engels (1975, p. 82), interpretada de maneira equivocada como “a santificação de tudo que existe, a bênção filosófica dada ao despotismo, ao Estado policial, à justiça de gabinete” e à censura, inclusive por Frederico Guilherme III e seus súditos.
Assim, afirma Engels, esta tese hegeliana, aplicada ao estado prussiano da época, permitia
uma única interpretação: este estado é racional, corresponde à razão, na medida em que é necessário; se, no entanto, nos parece mau, e continua existindo, apesar disso, a má qualidade do governo justifica-se e explica-se pela má qualidade correspondente de seus súditos. Os prussianos da época tinham o governo que mereciam. (ENGELS, 1975. p. 82)
No entanto, pergunta Engels (1975), não era também real república romana, assim como o império romano que a substituiu? Não havia se tornado irreal a monarquia francesa em 1789, isto é, “tão destituída de toda necessidade, tão irracional, que teve de ser varrida pela grande Revolução” (ENGELS, 1975, p. 82), da qual Hegel falava sempre com grande entusiasmo? Aqui, portanto, o irreal era a monarquia e o real, a revolução.
Desta feita, considerando que os estados e os sistemas políticos passam de reais a irreais, eles perderiam assim seu caráter de necessidade, seu direito de existir, seu caráter racional, tornando a tese de Hegel em seu contrário:
tudo que é real, nos domínios da história humana, converte-se em irracional, com o correr do tempo; já o é, portanto, por seu próprio destino, leva previamente, em si mesmo, o germe do irracional, e tudo que é racional na cabeça do homem está hoje com a aparente realidade existente. (ENGELS, 1975, p. 82)
A tese de Hegel se resolveria, portanto, segundo as regras de seu próprio método dialético, nesta outra: “tudo o que existe merece perecer” (ENGELS, 1975, p. 82).
Nisso residiria, segundo Engels (1975), o caráter revolucionário da filosofia hegeliana, pois ela acabou com o caráter definitivo de todos os resultados do pensamento e da ação do homem. Para Hegel, a verdade que a filosofia procurava conhecer já não era uma coleção de teses dogmáticas fixas, mas residia no próprio processo do conhecimento, através do longo desenvolvimento histórico da ciência, da filosofia, nos demais ramos do conhecimento e no domínio da atividade prática.
Se é possível, portanto, reconhecer um aspecto conservador nesta tese de Hegel quando ela legitima determinadas formas sociais, este conservadorismo é apenas relativo. Seu caráter revolucionário, pelo contrário, é absoluto – na verdade, “a única coisa absoluta que ele deixa de pé” (ENGELS, 1975, p. 83).
A alienação
A teoria filosófica da alienação, trazida até nós pela metafísica e pela religião, foi retomada na modernidade por Hegel, mas foi Marx quem lhe atribuiu seu sentido dialético, racional e positivo (LEFEBVRE, 2009).
Os metafísicos definiam o humano por um único de seus atributos: o conhecimento ou a razão. Assim, todos os outros aspectos do homem eram relegados a segundo plano e considerados desumanos. Para Platão, por exemplo, “a vida, a natureza e a matéria são 'o outro' aspecto da Ideia pura (do Conhecimento), isso é, sua decadência.” (LEFEBVRE, 2009, p. 39-40)
Na religião tanto o humano quanto o desumano aparecem como uma alienação da verdade eterna, como uma queda da condição divina. Tal concepção, no entanto, foi superada pelo homem moderno, para o qual o humano pode ser discernido do desumano. Contudo, tal demarcação não consiste prova de que eles possam ser definidos abstratamente, e menos ainda que se possa negar o desumano por meio de um ato de pensamento ou de condenação moral.
A aplicação da dialética à história humana efetuada por Marx demonstra que o humano precisou desenvolver-se ao longo da história, e que isso não foi feito de forma harmoniosa. O desumano através da história é um fato, assim como o humano, e ambos estão indissociavelmente misturados até o emergir da consciência moderna. Tal constatação, explicada pela dialética e elevada à posição de verdade racional conclui portanto que
o homem só poderia ter se desenvolvido através de contradições; portanto, o humano só poderia ter se formado em oposição ao desumano, inicialmente misturado com ele, para enfim ser discernido através de um conflito e dominá-lo pela resolução desse conflito. (LEFEBVRE, 2009, p. 39-40)
Marx nos traz, então, um sentido preciso à confusa teoria da alienação, liberta das interpretações místicas e metafísicas, ao separá-la de toda hipótese fantasiosa sobre a queda do homem, o pecado, a decadência, o mal, etc. (LEFEBVRE, 2009, p. 39-40)
A alienação do homem se define, então, não religiosa, metafísica ou moralmente. Estes aspectos, pelo contrário, apenas contribuem para alienar o homem, arrancando-o de si mesmo, afastá-lo de sua natureza real e de seus verdadeiros problemas. (LEFEBVRE, 2009)
Para o marxismo, a alienação do homem contemporâneo, ou seja, na atual etapa do desenvolvimento histórico, se manifesta no relacionamento do homem com seus fetiches, o qual se manifesta como um desarraigamento de si e uma perda de si mesmo. Este conflito só pode ser resolvido pela destruição dos fetiches, por meio da supressão progressiva dos fetichismo e da recuperação humana dos poderes que os fetiches utilizavam contra o homem. O homem só se torna humano criando um mundo humano, mundo este que é a proposta do comunismo. (LEFEBVRE, 2009)
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Pode-se dizer que o pensamento de Marx é, de certa forma, uma evolução e uma ruptura da filosofia de Hegel. Em contato com os círculos hegelianos desde quando ainda estudante de direito, a influência deste último pode-se fazer sentir principalmente nas obras do jovem Marx. Ao tomar de empréstimo o método dialético hegeliano e categorias como a de alienação, a novidade trazida por Marx nestes campos consistiu em aplicar ao domínio da vida material e das relações de produção o que antes se encontrava circunscrito apenas ao pensamento ou à consciência. As contradições que Hegel identificava na consciência Marx as identificou como oriundas do mundo material, colocando, assim, Hegel sobre seus próprios pés, pois que se encontrava “de cabeça para baixo” (MARX, 1990).
BIBLIOGRAFIA
BECKENKAMP, Joãosinho. Seis Modernos. Pelotas: EGUFPel, 2005.
ENGELS, Friedrich. Ludwing Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã. In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Textos. São Paulo: Edições Sociais, 1975.
HEGEL, Georg Wilhelm. Fenomenologia do Espírito. 6ª ed. Petrópolis: Vozes, 2011.
LEFEBVRE, Henri. Marxismo. Porto Alegre: L&PM, 2009.
LENINE, V. I. Karl MarxIn: Obras Escolhidas. São Paulo: Alfa e Ômega, 1986.
MARX, Karl. Capital. London: Penguin Books, 1990.
POULANTZAS, Nicos. Marx e Engels. In: CHÂTELET, François. História da Filosofia. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1981.
VÁZQUEZ, Adolfo Sánchez. Filosofia da práxis. São Paulo: Expressão Popular, 2011.
Autor: Glauber Ataide

A psicoterapia da histeria

Posted: 27.8.12 by Glauber Ataide in Marcadores:
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No capítulo IV dos Estudos sobre a Histeria (1893-1895), Freud se propõe a fazer um relato do método terapêutico desenvolvido até então para a cura da histeria. Por se tratar de um ponto em que ele e Breuer já davam sinais de distanciamento ou divergências teóricas, o autor deixa claro que as considerações do capítulo são apenas de sua autoria, não envolvendo a participação do estimado companheiro. 

Após examinar grande número de pacientes, Freud é forçado a aplicar duas alterações tanto em sua técnica quanto em sua visão dos fatos, a saber: “1) que nem todas as pessoas que exibiam sintomas histéricos indiscutíveis e que, muito provavelmente, eram regidas pelo mesmo mecanismo psíquico podiam ser hipnotizadas” e (2) tomar uma posição quanto à questão do que, afinal, caracteriza essencialmente a histeria e do que a distingue de outras neuroses. 

Uma das grandes descobertas de Freud relatadas neste capítulo é o fator sexual como causa determinante que leva à aquisição das neuroses, à qual ele chegou partindo do método de Breuer e ponderando sobre a etiologia das neuroses e de seu mecanismo em geral. 

O autor discorre, a seguir, sobre os diferentes tipos de histeria e de neuroses, concluindo que é muito difícil encontrar formas de histeria e neurose obsessiva puras. Elas aparecem, na esmagadora maioria dos casos, de forma mista. Para sustentar tal opinião, Freud discute alguns casos clínicos anteriormente apresentados. 

Passados os casos em revista, Freud chega à conclusão de que o método catártico “não consegue afetar as causas subjacentes da histeria: assim, não consegue impedir que novos sintomas tomem o lugar daqueles que foram eliminados” (FREUD, 2006). Ou seja, este método é sintomático, e não causal, o que, no entanto, não diminui em nada o seu valor. 

Um dos pressupostos do método terapêutico comunicado por Freud nesta obra é que o analista tenha um grande interesse pessoal pelos pacientes. Além disso, o processo requer certo nível de inteligência abaixo do qual o método se torna impraticável. Uma outra característica é a confiança do paciente no analista, haja vista que a análise invariavelmente leva à revelação dos eventos psíquicos mais íntimos. 

Na segunda seção do capítulo, Freud detalha como chegou à conclusão mencionada acima de que nem todas as pessoas são hipnotizáveis. Sua conclusão é de que “as pessoas não hipnotizáveis eram as que faziam uma objeção psíquica à hipnose, quer sua objeção se expressasse como má vontade ou não.” 

Um problema ainda persistia, contudo: se elas eram resistentes à hipnose, como contorná-la e, ainda assim, obter as lembranças patogênicas? 

Freud então começa a descrever seu método, que consistia em insistir com os pacientes para que falassem sobre o que tinha originado o sintoma em questão. O referencial teórico para tal eram as experiências de Bernheim, nas quais os pacientes se lembravam de eventos ocorridos em estado sonambúlico e que tinham aparentemente sido esquecidas. Assim, ao perceber que era de fato possível extrair dos pacientes lembranças que eles próprios haviam esquecido, ele chegou à teoria de que, por meio de seu trabalho psíquico, ele tinha “superar uma força psíquica nos pacientes que se opunha a que as representações patogênicas se tornassem conscientes (fossem lembradas). 

Percebendo não ser suficiente, no entanto, apenas a insistência para que o paciente falasse, ele passou a se utilizar primeiramente de um velho artifício: o de fazer uma leve pressão com a mão sobre a testa do paciente, lhe informando que, a partir daquele momento, lembranças emergiriam à sua mente, e que ele deveria relatar exatamente o que viu, sem nenhuma alteração ou censura. 

Mas o que emerge nesses momentos, afirma Freud, “nem sempre é uma lembrança ‘esquecida’; apenas nos casos mais raros é que as lembranças patogênicas reais acham-se tão facilmente à mão na superfície.” O que é mais comum é o surgimento de representações intermediárias, elos na cadeia de associações entre a representação da qual se parte e aquela na qual se quer chegar, ou seja, na patogênica. 

Freud se mostra ciente de que “a técnica da pressão nada mais é do que um truque para apanhar temporariamente desprevenido um ego ansioso por defender-se”, enfatizando, com essa observação, o papel que oferece a resistência em todos os casos mais ou menos graves. A resistência impede, não obstante a técnica da pressão, que lembranças ou associações sejam produzidas pelo paciente em determinados momentos do tratamento, sendo necessário um maior esforço para tentar superá-la. 

(3) 

Apesar de todas as dificuldades encontradas no uso da técnica da pressão, Freud não considera que o tratamento catártico sob hipnose seja mais adequado que o primeiro para conseguir extrair o material patogênico. De fato, afirma ele, “nas situações em que apliquei um tratamento catártico sob hipnose, em vez de concentração, não achei que isso diminuísse o trabalho que eu tinha a executar.” A principal questão que se apresentava, utilizando um método ou outro, era a questão da resistência, a qual se impunha em primeiro plano. 

O trabalho de Freud até então o levou à visão de que “a histeria se origina por meio do recalcamento de uma ideia incompatível, de uma motivação de defesa.” Freud resume seus achados da seguinte maneira: 

Segundo esse ponto de vista, a ideia recalcada persistiria como um traço mnêmico fraco (de pouca intensidade), enquanto o afeto dela arrancado seria utilizado para uma inervação somática. (Em outras palavras, a excitação é “convertida”.) Ao que parece, portanto, é precisamente por meio de seu recalcamento que a idéia se transforma na causa de sintomas mórbidos — ou seja, torna-se patogênica. Pode-se dar a designação de “histeria de defesa” à histeria que exiba esse mecanismo psíquico. 

Além da histeria de defesa, outros dois tipos de histeria já vinham sendo abordadas por Freud e Breuer: a histeria hipnóide e a histeria de retenção. No entanto, apesar da utilidade teórica de se fazer essa distinção, só muito raramente pode-se encontrar qualquer uma delas em sua forma pura no tratamento. 

Na última parte do capítulo, Freud trata mais uma vez de algumas dificuldades relacionadas à técnica do método catártico, independente do tipo de histeria em questão. A primeira e mais forte impressão causada num tratamento deste tipo é a de que “o material psíquico patogênico aparentemente esquecido, que não se acha à disposição do ego e não desempenha nenhum papel na associação e na memória, não obstante está de algum modo à mão, e em ordem correta e adequada.” Trata-se, portanto, de remover as resistências que barram o caminho a este material, tema sobre o qual Freud discorre pormenorizadamente. 

Uma lembrança ou uma ligação patogênicas, que antes estavam fora da consciência do ego e que são então reveladas pela análise e introduzidas no ego, são geralmente reconhecidas pelo paciente com declarações do tipo: “Eu sempre soube disso, poderia ter-lhe dito antes.” 

Um outro tópico de grande interesse para a análise é a questão de quando a técnica - da pressão, neste caso – falhar, apesar de toda insistência. Freud aponta duas possibilidades da causa desse fracasso: não há nada mais a ser extraído do paciente (o que pode ser reconhecido pela serenidade de sua expressão facial), ou temos diante de nós uma resistência que só poderá ser superada mais tarde, uma resistência que ainda não temos condições de vencer. 

Além dessas duas possibilidades, Freud enumera uma terceira, que diz respeito à relação entre o analista e o paciente. Esta última, de importância capital para a análise, seria mais tarde denominada de relação transferencial.

Valores do homem do século XXI

Posted: 11.6.12 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Autor: Quino (cartunista argentino, o criador da Mafalda)

Pela imigração, contra a xenofobia

Posted: 25.4.12 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Socialismo não é "dividir tudo igual"

Posted: 24.4.12 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Fonte: Blog do Dario

Freud e o sentimento de insignificância do homem diante do universo

Posted: 18.4.12 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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"Os críticos insistem em descrever como ‘profundamente religioso’ qualquer um que admita uma sensação da insignificância ou impotência do homem diante do universo, embora o que constitua a essência da atitude religiosa não seja essa sensação, mas o passo seguinte, a reação que busca um remédio para ela. O homem que não vai além, mas humildemente concorda com o pequeno papel que os seres humanos desempenham no grande mundo, esse homem é, pelo contrário, irreligioso no sentido mais verdadeiro da palavra." (Sigmund Freud, O futuro de uma ilusão)

Reacionários: medíocres e perigosos

Posted: 24.3.12 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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O reacionário é o covarde que passa a vida toda defendendo velhos privilégios e convicções. O mundo e suas mudanças são sempre uma ameaça a ser exterminada. 

- Por Matheus Pichonelli, na Carta Capital, lido no Tudo em cima

O reacionário é, antes de tudo, um fraco. Um fraco que conserva ideias como quem coleciona tampinhas de refrigerante ou maços de cigarro – tudo o que consegue juntar mas não têm utilidade a não ser para ele. Nasce e cresce em extremos: ou da falta de atenção ou do excesso de cuidados. E vive com a certeza de que o mundo fora da bolha onde lacrou seu refúgio é um mundo de perigos, pronto para tirar dele o que acumulou em suposta dignidade.

Como tem medo de tudo, vive amargurado, lamentando que jamais estenderam um tapete à sua passagem. Conserva uma vida medíocre, ele e suas concepções e nojos do mundo que o cerca. Como tem medo, não anda na rua com receio de alguém levar muito do pouco que tem (nem sempre o reacionário é um quatrocentão). Por isso, só frequenta lugares em que se sente seguro, onde ninguém vai ameaçar, desobedecer ou contradizer suas verdades. Nem dizer que precisa relaxar, levar as coisas menos a sério ou ver graça na leveza das coisas. O reacionário leva a sério a ideia de que é um vencedor.

Como passou a vida toda tendo tudo aos alcance – da empregada que esquentava o leite no copo favorito aos pais que viam uma obra de arte em cada rabisco em folha de sulfite que ele fazia – cultivou uma dificuldade doentia em se ver num mundo de aptidões diversas. Para ele, tudo o que é diferente tem potencial de destruição.

Por isso se tranca e pede para não ser perturbado no próprio mundo. Porque tudo perturba: o presidente da República quer seu voto e seus impostos; os parlamentares querem fazê-lo de otário; os juízes estão doidos para tirar os direitos acumulados; a universidade é financiada (por ele, lógico) para propagar ideias absurdas sobre ideais que despreza; o vizinho está sempre de olho na sua esposa, em seu carro, em sua piscina. Mesmo os cadeados, portões de aço, sistemas de monitoramento, paredes e vidros anti-bala não angariam de todo a sua confiança. O mundo está cheio de presidiários com indulto debaixo do braço para visitar seus familiares e ameaçar os nossos (porque os nossos nunca vão presos, mesmo quando botam fogo em índios, mendigos, prostitutas e ciclistas; índios, mendigos, prostitutas e ciclistas estão aí para isso, quem mandou sair de casa e poluir nosso caminho de volta ao lar).

Como não conhece o mundo afora, a não ser nas viagens programadas em pacotes que garantem o translado para o hotel, e despreza as ideias que não são suas (aquelas que recebeu de pronto dos pais e o ensinaram a trabalhar, vencer e selecionar o que é útil e o que é supérfluo), tudo o que é novo soa ameaçador. O mundo muda, mas ele não: ele não sabe que é infeliz porque para ele só o que não é ele, e os seus, são lamentáveis.

Muitas vezes o reacionário se torna pai e aprende, na marra, o conceito de família. Às vezes vai à igreja e pede paz, amor, saúde aos seus. Aos seus. Vê nos filhos a extensão das próprias virtudes, e por isso os protege: não permite que brinquem com os meninos da rua nem que tenham contato com ideias que os retirem da sua órbita. O índice de infarto entre os reacionários é maior quando o filho traz uma camisa do Che Guevara para casa ou a filha começa a ouvir axé e namorar o vocalista da banda (se ele for negro o infarto é fulminante).

Mas a vida é repleta de frestas, e o tempo todo estamos testando as mais firmes das convicções. Mas ele não quer testá-las: quer mantê-las. Por isso as mudanças lhe causam urticárias.

Nos anos 70, vivia com medo dos hippies que ousavam dizer que o amor não precisava de amarras. Eram vagabundos e irresponsáveis, pensava ele, em sua sobriedade.

Depois vieram os punks, os excluídos de aglomerações urbanas desajeitadas, os militantes a pedir o alargamento das liberdades civis e sociais. Para o reacionário, nada daquilo faz sentido, porque ninguém estudou como ele, ninguém acumulou bens e verdades como ele e, portanto, seria muito injusto que ele e o garçom (que ele adora chamar de incompetente) tivessem o mesmo peso numa urna, o mesmo direito num guichê de aeroporto, o mesmo assento na mesa de fast food.

Para não dividir espaços cativos, frutos de séculos de exclusão que ele não reconhece, eleva o tom sobre tudo o que está errado. Sabendo de seus medos e planos de papel, revistas, rádios, televisão, padres, pastores e professores fazem a festa: basta colocar uma chamada alarmista (“Por que você trabalha tanto e o País cresce tão pouco?”) ou música de suspense nas cenas de violência (descontrolada!) na tevê para que ele se trema todo e se prepare para o Armagedoon. Como bicho assustado, volta para a caixinha e fica mirabolando planos para garantir mais segurança aos seus. Tudo o que vê, lê e ouve o convence de que tudo é um perigo, tudo é decadente, tudo é importante, tudo é indigno. Por isso não se deve medir esforços para defender suas conquistas morais e materiais.

E ele só se sente seguro quando imagina que pode eliminar o outro.

Primeiro, pelo discurso. No começo, diz que não gosta desse povinho que veio ao seu estado tirar espaço dos seus. Vive lembrando que trabalha mais e paga mais impostos do que o povinho do estado ao norte, que agora vem construir casas em seu bairro, frequentam os clubes e shoppings antes só repletos de suas réplicas. Para ele, qualquer barberagem no trânsito é coisa da maldita inclusão, aqueles povos bárbaros que hoje tiram carta de habilitação e ainda penduram diplomas universitários nas paredes. No tempo dele, sim, é que era bom: a escola pública funcionava (para ele), o policial não se corrompia (sobre ele), o político não loteava a administração (não com pessoas que não eram ele).

Há que se entender a dor do sujeito. Ele recebeu um mundo pronto, mas que não estava acabado. E as coisas mudaram, apesar de seu esforço e sua indignação.

Ele não sabe, mas basta ter dois neurônios para rebater com um sopro qualquer ideia que ele tenha sobre os problemas e soluções para o mundo – que está, mas ele não vê, muito além de um simples umbigo. Mas o reacionário não ouve: os ignorantes são os outros: os gays que colocam em risco a continuidade da espécie, as vagabundas que já não respeitam a ordem dos pais e maridos, os estudantes que pedem a extensão de direitos (e não sabem como é duro pegar na enxada), os drogados que não estão necessariamente a fim de contribuir para o progresso da nação, o governante que agora vem com esse papo de distribuir esmola, combater preconceitos inexistentes (“nada contra, mas eles que se livrem da própria herança”), os países vizinhos que mandam rebas para emporcalhar suas ruas.

O mundo ideal, para o reacionário, é um mundo estático: no fundo, ele não se importa em pagar impostos, desde que não o incomodem. Como muitos não o levam a sério, os reacionários se agrupam. Lotam restaurantes, condomínios e associações de bairro com seus pares, e passam a praguejar contra tudo.

Quando as queixas não são mais suficientes, eles se organizam (justo ele, que detestava tudo o que era coletivo, do sindicato ao partido político). Juntos, eles identificam e escolhem os porta-vozes de suas paúras em debates nacionais. Às vezes são hilários, às vezes incomodam.

Mas, quando se vê como uma voz inexpressiva entre os grupos que deveriam representá-lo, o reacionário bota para fora sua paranóia, pragueja contra o sistema democrático (às vezes com o argumento de que o sistema é antidemocrático) e se arma. Como o caldo cultural legitima seu discurso e sua paranoia, ele passa a defender crimes para evitar outros crimes – nos Estados Unidos, alvejam imigrantes na fronteira, na Europa, arrebentam árabes latinos, e na Candelária, encomendam chacinas e, em QGs anônimos, planejam ataques contra universitários de Brasília que propagam imoralidades.

O reacionário é um cidadão do mundo. Seu nome é legião porque são muitos. Pode até ser fraco e viver com medo de tudo. Mas nunca foi inofensivo.

Sobre a probabilidade dos milagres

Posted: 15.2.12 by Glauber Ataide in Marcadores: , ,
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Lendo ontem alguns trechos da "Investigação sobre o entendimento humano", de David Hume, me veio à memória um argumento apresentado pelo filósofo cristão William Lane Craig, que li já faz alguns anos, em defesa da questão dos milagres e da ressurreição de Cristo.

É que Craig afirma, contrariando Hume, que mesmo que a ocorrência de um milagre seja um evento altamente improvável, isso não seria razão suficiente para não acreditar nele, pois em nossa vida real acreditamos em diversos outros eventos cuja probabilidade também são astronômicas.

Usando um exemplo de combinações de números da loteria para ilustrar seu argumento, o apologista nos pergunta algo mais ou menos assim: qual a probabilidade de que a combinação de números 02-12-19-22-36-58 seja sorteada na mega-sena? Apesar de ser apenas 1 em 50.063.860, ninguém duvida que essa ocorrência de fato aconteceu no sorteio do dia 11/02/2012. Foi um evento altamente improvável, mas ocorreu.

No entanto, essa analogia de Craig me parece falaciosa. Apesar de não sabermos qual a combinação numérica que cairá em determinado sorteio da loteria, uma coisa é certa: sempre será sorteada uma combinação qualquer cuja probabilidade de ocorrência é de 1 em 50.063.860. 

Uma outra diferença importante entre os milagres e o sorteio é que essa ocorrência é aleatória, não precisa carregar uma intencionalidade como os primeiros. Pois um milagre nunca é um ato aleatório, mas sempre um ato dirigido a um fim pré-determinado (curar uma determinada doença de uma determinada pessoa, transformar água em vinho, etc).

Assim, no caso da loteria, a pergunta deveria ser: qual a probabilidade de que hoje seja sorteada uma combinação qualquer cuja probabilidade de ocorrência de 1 em 50.063.860?

Ora, considerando que os sorteios da mega-sena vem sendo realizados regularmente todas as quartas e sextas, a probabilidade de que este evento não aconteça dessa vez é mínima (não calculei para exemplificar aqui, mas creio não ser necessário para ser compreendido).

Portanto, uma combinação qualquer num sorteio da loteria não é algo tão improvável quanto um milagre. Porque tal comparação, a fim de não ser falaciosa, deveria ser mais ou menos no seguinte sentido: qual a probabilidade de que um morto qualquer ressuscite hoje? E qual a probabilidade de que uma combinação qualquer de X números seja sorteada hoje?