Kant - Da impossibilidade de uma prova cosmológica da existência de Deus

Posted: 2.10.13 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Da impossibilidade de uma prova cosmológica da existência de Deus *

Pretender extrair de uma idéia, traçada com total arbitrariedade, a própria existência do objeto correspondente, era totalmente contrário à natureza e uma pura inovação do espírito escolástico. Com efeito, nunca se teria tentado esta via, se a razão não tivesse previamente sentido a necessidade de admitir algo necessário para a existência em geral (onde se pudesse parar na ascensão) e se, pelo fato desta necessidade ter de ser incondicionada e certa a priori, a razão não fosse obrigada a procurar um conceito que, na medida do possível, satisfizesse uma tal exigência e desse a conhecer uma existência, completamente a priori. Julgou-se encontrar esse conceito na idéia de um Ser realíssimo e, se foiutilizada esta idéia, foi somente para obter um conhecimento mais determinado de uma coisa de que já se estava, aliás, convencido ou persuadido que devia existir, ou seja, do ser necessário. Contudo, dissimulou-se este curso natural da razão e, em vez de terminar neste conceito, tentou-se começar por ele, para dele derivar a necessidade da existência que ele se destinava unicamente a completar. Daí surgiu a malograda prova ontológica, que nada tem de satisfatório, nem para o são entendimento natural, nem para sustentar um exame científico.

A prova cosmológica, que vamos agora examinar, mantém a ligação da necessidade absoluta com a realidade suprema; mas, em vez de partir, como a precedente, da realidade suprema, para deduzir a necessidade na existência, conclui da necessidade incondicionada e previamente dada, de qualquer ser, a sua realidade ilimitada e, deste modo, tudo encaminha por um raciocínio, não sei se racional se sofístico, mas que é, pelo menos, natural e que possui a maior força persuasiva, não só para o entendimento comum, mas também para o entendimento especulativo; e desta maneira traça visivelmente as primeiras linhas diretrizes de todos os argumentos da teologia natural, linhas que sempre foram seguidas e hão de sê-lo sempre, por muito que_ se adornem e disfarcem sob floreados e arrebiques. Esta prova, a que Leibniz deu também o nome de prova a contingentia mundi, é a que vamos agora expor e submeter a exame.

Formula-se assim: se algo existe deve existir também um ser absolutamente necessário. Ora, pelo menos, existo eu próprio; logo, existe um ser absolutamente necessário. A premissa menor contém uma experiência e a maior infere de uma experiência em geral a existência do necessário*. A prova parte, pois, da experiência; não é, por conseguinte, conduzida totalmente a priori ou ontologicamente; e, porque o objeto de toda a experiência possível se chama mundo, denomina-se prova cosmológica. Como também abstrai de todas as propriedades particulares dos objetos da experiência, pelas quais este mundo se distingue de qualquer outro mundo possível, distingue-se já, na sua designação, da prova físicoteológica, que utiliza, como argumentos, observações acerca da constituição particular . deste nosso mundo dos sentidos.

Mas a prova prossegue e conclui que o ser necessário só pode ser determinado de uma única maneira, isto é, só mediante um dos predicados de entre todos os predicados opostos possíveis e, por conseguinte, deverá ser integralmente determinado pelo seu conceito. Ora, só pode haver um único conceito de coisa que determine integralmente a priori esta coisa, ou seja, o conceito de ens realissimum; portanto, o conceito do ser soberanamente real é o único pelo qual pode ser pensado um ser necessário, isto é, existe necessariamente um Ser supremo.

Neste argumento cosmológico reúnem-se tantos princípios sofísticos, que a razão especulativa parece ter aqui desenvolvido toda a sua arte dialética a fim de produzir a máxima aparência transcendental possível. Vamos, no entanto, afastar por um momento o seu exame, para só pôr em evidência o artifício pelo qual apresenta, disfarçado de novo, um velho argumento, invocando o acordo de dois testemunhos, dos quais um é o da razão pura e o outro o de confirmação empírica, quando afinal é só o primeiro que muda o trajo e a voz para ser tomado pelo segundo. Para bem assegurar o seu fundamento esta prova estriba-se na experiência, dando assim a impressão de se distinguir da prova ontológica, que deposita toda a confiança em meros conceitos puros a priori. Mas a prova cosmológica só se serve desta experiência para dar um único passo, a saber, para se elevar à existência de um ser necessário em geral. O fundamento empírico da prova nada nos pode ensinar acerca dos atributos deste ser; então a razão afasta-se dele inteiramente e, por detrás de simples conceitos, investiga os atributos que um ser absolutamente necessário em geral deve possuir; ou seja, um ser que, entre todas as coisas possíveis, encerra as condições requeridas (requisita) para uma necessidade absoluta. Julga então encontrar estes requisitos unicamente no conceito de um ser soberanamente real e logo conclui: é este o ser absolutamente necessário. Mas, é claro, pressupõe-se aqui que o conceito de um ser dotado da realidade suprema satisfaz plenamente o conceito da necessidade absoluta na existência, ou seja, que este se conclui daquele; eis uma proposição, sustentada pelo argumento ontológico, que assim se admite e se dá por fundamento ao argumento cosmológico, o que afinal se pretendera evitar. Com efeito, a necessidade absoluta é uma existência extraída de simples conceitos. Se digo, então, que o conceito de ens realissimum é um desses conceitos e o único que é conforme e adequado à existência necessária, também tenho que concordar que esta se poderia inferir dele. Portanto, na chamada prova cosmológica, só a prova ontológica a partir de puros conceitos contém propriamente toda a força demonstrativa e a suposta experiência é totalmente inútil, servindo talvez somente para nos conduzir ao conceito de necessidade absoluta, mas não para nos mostrar essa necessidade em qualquer coisa determinada. Com efeito, sendo esta a nossa intenção, temos de abandonar toda a experiência e procurar entre conceitos puros qual deles contém as condições da possibilidade de um ser absolutamente necessário. Mas, deste modo, basta compreender-se a possibilidade de tal ser, para logo se demonstrar a sua existência; o mesmo é dizer que entre todo o possível há um ser que tem implícita a necessidade absoluta, isto é, que este ser existe de modo absolutamente necessário.

Tudo o que há de falacioso no raciocínio descobre-se muito facilmente, reduzindo os seus argumentos à forma escolástica. É o que vamos fazer.

Se é certa a proposição: Todo o ser absolutamente necessário é, ao mesmo tempo, soberanamente real (o que é o nervus probandi da prova cosmológica), deverá poder converter-se, como todos os juízos afirmativos, pelo menos per accidens; portanto: Alguns seres soberanamente reais são, ao mesmo tempo, seres absolutamente necessários. Ora um ens realissimum, não se distingue de outro ens realissimum em coisa alguma e o que vale em relação a alguns seres, englobados neste conceito, vale também em relação a todos. Por conseguinte, também (neste caso) poderei converter absolutamente a proposição, dizendo: Todo o ser soberanamente real é um ser necessário. Como esta proposição é determinada a priori unicamente pelos seus conceitos, o simples conceito de ser soberanamente real tem de conter, implicitamente, a necessidade absoluta desse ser. É o que a prova ontológica afirmava e a cosmológica não queria admitir, muito embora seja o fundamento das suas conclusões, se bem que de uma maneira oculta.

Assim, pois, a segunda via que segue a razão especulativa para demonstrar a existência do Ser supremo não só é tão enganadora como a primeira, mas, além disso, incorre no erro de cometer uma ignoratio elenchi, prometendo levar-nos por outro caminho e fazendo-nos regressar, após pequeno rodeio, ao antigo, que por sua causa abandonáramos.

Ainda há pouco disse que neste argumento cosmológico se ocultava todo um ninho de pretensões dialéticas, que a crítica transcendental facilmente pode descobrir e destruir. Vou limitar-me a citá-las, por agora, e deixo ao leitor já exercitado a tarefa de investigar e anular esses princípios ilusórios.

Aí se encontra por exemplo: 1. o princípio transcendental que do contingente nos faz inferir uma causa, princípio que só tem significado no mundo sensível, mas que já não tem sentido fora desse mundo. Com efeito, o conceito puramente intelectual do contingente não pode produzir nenhuma proposição sintética como a da causalidade, e o princípio desta só no mundo sensível encontra significação e critério para a sua aplicação; aqui, porém, deveria precisamente servir para sair do mundo sensível. 2. O raciocínio que consiste em concluir, da impossibilidade de uma série infinita de causas sobrepostas dadas no mundo sensível, uma causa primeira; o que nem os princípios do uso da razão autorizam na própria experiência, quanto mais tornar extensivo este princípio para além dela (até onde esta cadeia não pode prolongar-se). 3. A falsa satisfação da razão consigo mesma em relação ao acabamento desta série, em virtude de pôr enfim de lado toda a condição, sem a qual todavia não pode ter lugar nenhum conceito de necessidade; como então nada mais se pode compreender, considera-se isto como o acabamento do seu conceito. 4. A confusão da possibilidade lógica de um conceito de toda a realidade reunida (sem contradição interna) com a possibilidade transcendental; ora esta última, para operar uma síntese desse gênero, requer um princípio que, por sua vez, só pode aplicar-se no campo das experiências possíveis, etc.

O artifício da prova cosmológica tem a finalidade única de evitar a prova que pretende demonstrar a priori a existência de um ser necessário, mediante simples conceitos, prova que deve-ria ser estabelecida ontologicamente, coisa de que nos sentimos completamente incapazes. Com essa intenção concluímos, tanto quanto é possível, de uma existência real que se põe como fundamento (de uma experiência em geral), uma condição absolutamente necessária dessa existência. Não temos, pois, necessidade de explicar a sua possibilidade. Pois, se está provado que ela existe, é inútil o problema da sua possibilidade. Se queremos agora determinar, de uma maneira mais precisa, na sua essência, este ser necessário, não procuramos aquilo que é suficiente para compreender, pelo seu conceito, a necessidade da existência; pois que se pudéssemos fazê-lo não teríamos necessidade de nenhum pressuposto empírico; não, nós procuramos apenas a condição negativa (conditio sine qua non) sem a qual um ser não seria absolutamente necessário. Ora, isto seria viável em qualquer espécie de raciocínios que remontam de uma conseqüência dada ao seu princípio; porém, aqui, infelizmente, a condição que se exige para a necessidade absoluta só pode ser encontrada num ser único que, por conseguinte, deveria conter no seu conceito tudo o que se requer para a necessidade absoluta e que, portanto, possibilita uma conclusão a priori de esta necessidade; isto é, deveria também poder concluir-se, reciprocamente, que a coisa, à qual este conceito (da realidade suprema) convém, é absolutamente necessária, e se não posso concluir assim (o que terei de confessar, se quiser evitar a prova ontológica), esta nova via é também um malogro e novamente me encontro no ponto de onde parti. O conceito do Ser supremo satisfaz, certamente, a priori, todas as questões que se podem pôr quanto às determinações internas de uma coisa e é, também, por esse motivo, um ideal ímpar, porque o conceito geral o designa, ao mesmo tempo, como um indivíduo entre todas as coisas possíveis. Mas não satisfaz à questão que se refere à sua própria existência, que era afinal a única que importava; e a quem tenha admitido a existência de um ser necessário e só pretenda saber qual dentre todas as coisas deverá ser considerada como tal, não se lhe poderá responder: eis aqui o ser necessário.

Bem pode ser permitido admitir a existência de um ser soberanamente suficiente como causa de todos os efeitos possíveis, para facilitar à razão a unidade dos princípios explicativos que procura. Porém, chegar ao extremo de dizer que tal ser existe necessariamente, não é já a modesta expressão de uma hipótese permitida, mas a pretensão orgulhosa de uma certeza apodítica; porque o conhecimento do que se afirma como absolutamente necessário deve também comportar uma absoluta necessidade.

Todo o problema do ideal transcendental consiste em encontrar para a necessidade absoluta um conceito ou para o conceito de uma coisa a absoluta necessidade dessa coisa. Se um dos casos for possível também o outro deverá sê-lo, pois que a razão só reconhece como absolutamente necessário o que seja necessário pelo seu conceito. Porém, ambas as coisas não só excedem totalmente todos os esforços que podemos tentar para satisfazer o nosso entendimento, quanto a este ponto, mas também todas as tentativas para o tranqüilizar quanto a esta incapacidade.

A necessidade incondicionada de que tão imprescindivelmente carecemos, como suporte último de todas as coisas é o verdadeiro abismo da razão humana. A própria eternidade, por mais terrivelmente sublime que um Haller a possa descrever, está longe de provocar no espírito esta impressão de vertigem, porquanto apenas mede a duração das coisas, mas não as sustenta. Não podemos afastar nem tão-pouco suportar o pensamento de que um ser, que representamos como o mais alto entre todos os possíveis, diga de certo modo para consigo: Eu sou desde a eternidade para a eternidade; fora de mim nada existe a não ser pela minha vontade; mas de onde sou então? Eis que tudo aqui se afunda sob os nossos pés, e tanto a maior como a mais pequena perfeição pairam desamparadas perante a nossa razão especulativa, à qual nada custa fazer desaparecer uma e outra sem o menor entrave.

Muitas forças da natureza, que só através de certos efeitos manifestam a sua existência, continuam impenetráveis para nós, porque não podemos segui-las pela observação durante tempo suficiente. O objeto transcendental, que serve de fundamento aos fenômenos, e, a par deste, o princípio pelo qual a nossa sensibilidade está submetida a estas condições supremas e não a outras, são e continuam sendo para nós indecifráveis, embora a própria coisa seja dada, mas sem ser compreendida. Porém, um ideal da razão pura não pode considerar-se imperscrutável, porque não apresenta qualquer outra garantia da sua realidade além da necessidade que a razão tem de completar, por este meio, a unidade sintética. Se não é mesmo dado como objeto pensável, também não é, como tal, imperscrutável; antes deverá, como simples idéia, poder ter a sua sede na natureza da razão e aí encontrar solução, podendo ser, por conseguinte, perscrutado, pois que a razão consiste precisamente nisso, em podermos prestar contas de todos os nossos conceitos, opiniões e afirmações, quer seja mediante princípios objetivos, quer tratando-se de uma simples aparência, mediante princípios subjetivos.

* Immanuel Kant
Crítica da razão pura
Tradução: Manuela Pinto dos Santos e Alexandre Fradique Morujão
Edição: Fundação Calouste Gulbenkian, 5. ed, Lisboa, 2001.

Adiamento, de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

Posted: 20.8.13 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Adiamento

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não... 
Não, hoje nada; hoje não posso. 
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva, 
O sono da minha vida real, intercalado, 
O cansaço antecipado e infinito, 
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico... 
Esta espécie de alma... 
Só depois de amanhã... 
Hoje quero preparar-me, 
Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte... 
Ele é que é decisivo. 
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos... 
Amanhã é o dia dos planos. 
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo; 
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã... 
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo. 
Só depois de amanhã... 
Quando era criança o circo de domingo divertia-rne toda a semana. 
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância... 
Depois de amanhã serei outro, 
A minha vida triunfar-se-á, 
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático 
Serão convocadas por um edital... 
Mas por um edital de amanhã... 
Hoje quero dormir, redigirei amanhã... 
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância? 
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã, 
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo... 
Antes, não... 
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei. Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser. 
Só depois de amanhã... 
Tenho sono como o frio de um cão vadio. 
Tenho muito sono. 
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã... 
Sim, talvez só depois de amanhã...

O porvir...
Sim, o porvir...

Álvaro de Campos
(Heterônimo de Fernando Pessoa)

Meu amigo Nietzsche

Posted: 8.7.13 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Bom mesmo é ser ignorante... disse um ignorante

Posted: 11.6.13 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Navegando no Facebook, pelo perfil de uma pessoa que não conheço, encontrei a seguinte citação:

"Tem coisas na vida que não precisam de respostas pensadas. A ignorância teórica e racional, além de ser uma benção, quase sempre não atrapalha o curso de nossas viagens pessoais. O homem pensa enquanto Deus ri." (Roberto Severo - Coluna "Última" - Revista Motociclismo Junho/2013)

Claro, afinal de contas, vejam como são felizes os bois num pasto. Viver, comer, trabalhar e morrer: qualquer animal faz isso. E para o autor, que joga água benta na "ignorância teórica", a vida humana se resume a isso.

O alienado se agarra à sua ignorância e resiste em deixa-la. Será medo de perder sua verdade? De perder suas mentiras, suas ilusões? Ou apenas preguiça intelectual?

O pós-moderno, paradoxalmente, tenta elaborar uma teoria para justificar sua "ignorância teórica". Mas ele não irá muito longe, e permanecerá ignorante sem justificação.

Ele se esquece - ou talvez não saiba mesmo - que se o conhecimento suscita problemas, não é a ignorância que vai resolve-los.

"Sócrates disse, celebremente, que uma vida sem reflexão não merece ser vivida. Queria ele dizer que uma vida vivida sem ponderação nem princípio é tão vulnerável ao acaso e tão dependente das escolhas e acções de terceiros que pouco valor real tem para a pessoa que a vive. Queria ainda dizer que uma vida bem vivida é aquela que possui objectivos e integridade, que é escolhida e orientada pelo que a vive, tanto quanto possível a um agente humano enredado nas teias da sociedade e da História (...) Uma pessoa que não pense na vida é como um forasteiro sem mapa numa terra estrangeira: para alguém assim, perdido e desorientado, um desvio no caminho é tão bom como qualquer outro e, se o rumo tomado conduzir a um local que vale a pena, terá sido meramente por acaso. " (by A.C. Grayling, O Significado das Coisas.)

A revolução sexual, de Wilhelm Reich – Marxismo e Psicanálise

Posted: 31.5.13 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Reproduzo abaixo alguns dos trechos do livro A revolução sexual, de Wilhelm Reich, que me pareceram mais significativos em alguns dos temas que vou destacar a seguir. 

Mas antes vale ressaltar que um dos aspectos mais interessantes de Reich, que era marxista e freudiano no período em que a primeira edição deste livro foi lançada, é o diálogo que ele media entre essas duas correntes, fazendo com que uma complemente e integre a outra quando fora de seus domínios. 

Este fecundo diálogo impede tanto que questões políticas descambem no mero psicologismo, por um lado, quanto que questões de sexualidade caiam num reducionismo materialista-vulgar mecanicista (não-marxista), pelo outro. 

Assim, ao abordar a questão da liberdade sexual, por exemplo, veremos que ele se mostra plenamente consciente de que não adianta falar sobre este tipo de liberdade dissociada da libertação econômica geral da sociedade sob o jugo capitalista. Isso é, a liberdade sexual está ligada à libertação econômica. 

E na esteira de Engels, Reich ataca a família e a monogamia, mas mostrando de maneira então inédita – ou seja, através da prática da psicanálise – que a monogamia vitalícia é algo não só irrealizável, mas que pode também se mostrar altamente perniciosa para a saúde psíquica. 

Economia sexual 


“Acusam a economia sexual de querer destruir a família. Falam do "caos sexual" que a vida com amor livre acarretaria, e as massas dão ouvidos às palavras dessas pessoas e confiam nelas porque usam casaca e óculos de aro dourado, podendo assim falar como líderes. A pessoa deve saber sobre o que está falando. A escravização econômica das mulheres e crianças deve ser eliminada. A escravização autoritária da mesma forma. Somente quando isso se tornar realidade, o marido amará a mulher, os filhos os pais e os pais os filhos. Não terão mais motivo para se odiarem mutuamente. 

“O que queremos destruir, portanto, é o ódio gerado pela família e pela violentação "apaixonada". Se o amor familiar é o grande bem humano, ele tem que afirmar-se. Se um cachorro amarrado não foge, ninguém por isso o considerará um companheiro fiel. Ninguém, em seu juízo perfeito, falará de amor quando um homem possui uma mulher de pés e mãos amarradas e indefesa. Nenhum homem decente ficará orgulhoso com o amor de uma mulher que ele compra com alimentação ou influência de poder. Nenhum homem correto tomará um amor que não for dado voluntariamente. A moral forçada do dever conjugal e da autoridade familiar é uma moral de covardes dementes da vida e de impotentes incapazes de conseguir pela força natural do amor aquilo que pretendem conseguir por intermédio da polícia e do direito conjugal. 

“Querem enfiar toda a humanidade na sua própria camisa-de-força por serem incapazes de tolerar nos outros a sexualidade natural. Isso os aborrece e os enche de inveja, porque eles próprios gostariam de viver assim e não conseguem. Nós não queremos forçar ninguém a abandonar a vida familiar, mas também não queremos permitir a ninguém que obrigue aquele que não a quer a aceitá-la. Quem pode e quer passar toda a vida como monógamo, que o faça; quem, entretanto, não o pode e talvez se arruíne por causa disso, deve ter a possibilidade de organizar a sua vida de outra forma. No entanto, a organização de uma "nova vida" pressupõe o conhecimento das contradições da antiga.” 

O fracasso da reforma sexual 


“As lutas em prol da reforma sexual fazem parte da luta geral político-cultural. O liberal, como por exemplo Norman Haire, com a sua reforma sexual, combate apenas uma deficiência da sociedade, sem pretender tocar nela mesma. O socialista pacífico, o "reformista", pretende com isso implantar um pouco de socialismo na sociedade existente. Tenta inverter o processo de desenvolvimento fazendo que a reforma sexual ocorra antes que se verifique a modificação da estrutura econômica.” 

A moral sexual conservadora 


“Em conclusão apresentamos dois casos típicos do consultório sexual, que deverão demonstrar que a consciência médica é forçada a providências que se encontram em contraste diametral oposto, não somente com a moral conservadora, mas também com a reforma sexual na modalidade descrita. 

“Uma moça de 16 anos e um rapaz de 17, ambos fortes e bem desenvolvidos, entram tímidos e temerosos no consultório. Depois de muito encorajamento, o rapaz pergunta receosamente se é realmente prejudicial ter relações sexuais antes dos 20 anos. 

— Por que você acha que isso possa ser prejudicial? 
— Foi o que o chefe de grupo dos Falcões Vermelhos nos disse e é o que dizem todos entre nós  que falam sobre a questão sexual. 
— Nos Falcões Vermelhos vocês falam dessas coisas? 
— Claro, mas todos nós sofremos muito ninguém tem a coragem de falar francamente. Agora um grupo de moças e rapazes saiu do nosso grupo e formou um grupo separado, porque não se dão com o nosso chefe de grupo. Este também sempre diz que as relações sexuais fazem mal. 
— Há quanto tempo vocês se conhecem? 
— Há três anos! 
— Vocês já tiveram relações sexuais 
— Não, mas gostamos muito um do outro e temos que nos separar porque sempre ficamos extremamente excitados. 
— Como assim? 

(Silêncio prolongado)

— Bem, nós nos beijamos e fazemos outras coisas. A maioria o faz. Mas agora estamos ficando quase malucos. O pior é que, pelas nossas funções, sempre temos que trabalhar juntos. Ela nos últimos tempos tem freqüentemente crises de choro e eu já não acompanho mais as aulas na escola. 
— Que é que vocês mesmos acham que seria o melhor? 
— Queremos separar-nos, mas não é possível; todo o grupo, cujos líderes nós somos, se  desintegraria, e depois a mesma coisa se repetiria com outro com toda a certeza. 
— Vocês praticam esportes? 
— Sim, mas não adianta nada. Quando estamos juntos, não podemos pensar em nada a não ser numa só coisa. Por favor, diga-nos se isso faz mal mesmo. 
— Não, não faz mal, mas freqüentemente cria grandes complicações na casa dos pais. 

“Expliquei-lhes a seguir a fisiologia da puberdade e das relações sexuais, os obstáculos sociais, os perigos da gravidez e o uso de anticoncepcionais. Despedi-os com o conselho de pensar no assunto e de voltarem à consulta. 

“Duas semanas mais tarde os vi de novo, alegres, agradecidos, contentes com o trabalho. 

“Haviam superado todas as dificuldades internas e externas. Acompanhei o caso por mais alguns meses e obtive a certeza de ter evitado que dois jovens caíssem doentes. A alegria ficou empanada apenas pelo conhecimento de que tais sucessos do simples aconselhamento, por causa das fixações neuróticas da maioria dos consulentes juvenis, são exceções raras. 

“Como segundo exemplo apresentamos uma mulher de 35 anos, de aparência ainda jovem, que procurou o consultório sexual com o seguinte problema: Era casada há 18 anos, tinha um filho crescido e vivia com o marido em matrimônio exteriormente feliz. Há três anos o marido tinha relações com outra mulher. A consulente sabia e tolerava com a boa compreensão de que, depois de um casamento tão prolongado, aparecem desejos por outra pessoa. Até então havia permanecido fiel, apesar de que o marido já há dois anos deixara de ter relações com ela. Há alguns meses vinha sofrendo em virtude da abstinência sexual, mas era orgulhosa demais para induzir o marido a ter relações com ela. Nos últimos tempos se verificaram distúrbios cardíacos, insônia, irritabilidade e depressão, cada vez mais freqüentes e intensivos. Por considerações morais, não conseguiu resolver-se a ter relações sexuais com um homem que conhecera há, algum tempo, se bem que ela mesma reconhecesse a falta de sentido desses escrúpulos. O marido sempre se vangloriara da fidelidade da esposa e, ela sabia muito bem que ele não estaria disposto a lhe conceder o direito que ele mesmo passara a usufruir com a maior naturalidade. Ela perguntava o que deveria fazer, pois já não suportava mais a situação. 

“Pensamos cuidadosamente no caso. O prolongamento da abstinência social significaria doença neurótica certa. Perturbar o marido na sua nova ligação e reconquistá-lo estava fora de cogitação por dois motivos. Primeiro, porque ele não se deixaria perturbar e já confessara claramente que não tinha mais interesse sexual por ela; segundo, porque ela mesma não mais queria o marido. Restava apenas a solução de ter relações sexuais com o homem a quem amava agora. A coisa, no entanto, tinha um porém: ela não era economicamente independente, e o marido, quando soubesse do caso, exigiria divórcio imediatamente. Expliquei à mulher todas essas possibilidades, deixei-a em liberdade para a decisão e, depois de algumas semanas, eu soube, que ela havia resolvido manter relações sexuais com o amigo sem que o marido soubesse. Seus distúrbios neuróticos desapareceram pouco depois. 

“Ela havia criado coragem para tomar essa resolução em virtude de meus esforços para dissipar os seus escrúpulos morais. De acordo com a lei, eu me tornarei culpado de um crime; possibilitei a uma mulher que se encontrava à beira de uma doença neurótica a satisfação sexual fora do casamento, praticando assim a infidelidade conjugal.” 

O problema da puberdade 


“Quem conscientemente quiser matar a sua sexualidade, que o faça. Não queremos obrigar ninguém à vida sexual satisfatória, mas devemos dizer: quem quiser viver em abstinência, com o risco de uma doença mental ou uma diminuição da alegria de viver e de trabalhar, que o faça. Quem não o quiser, que trate de chegar a uma vida sexual regrada, satisfatória, assim que o impulso sexual não possa mais deixar de ser atendido. No entanto, é nossa obrigação salientar a atrofia da sexualidade, seu retrocesso para atividades infantis e perversas e o distúrbio mental como conseqüência do modo da abstinência sexual do adolescente. Pois são os mais trágicos os pacientes de 35, 40 e até 50 e 60 anos que vêm ao nosso consultório, com as mais graves perturbações de sua economia mental, neuróticos, irritadiços, solitários e cansados de viver, em busca de conselho e ajuda. Em sua maior parte se vangloriam de não terem vivido "intensamente", o que querem dizer que evitaram o onanismo e as relações sexuais precoces. 

O onanismo 


“O onanismo pode mitigar os malefícios da abstinência só até certo limite. Só pode regularizar a economia sexual se ela ocorre sem sentimentos de culpa ou grandes perturbações no processo da excitação, e só se a falta de um parceiro real não for sentida intensamente. Poderá ajudar os jovens sadios a amainar as primeiras tormentas da puberdade. Dadas as condições que influenciaram o desenvolvimento sexual do adolescente desde a infância, desempenha essas funções apenas na minoria dos casos. Somente minoria ínfima dos jovens se libertara das influências morais da educação recebida a ponto de recorrer sem escrúpulos à satisfação onanística. Na maioria dos casos, os jovens lutam contra a compulsão do onanismo com maior ou menor sucesso. Se não conseguem abolir a atividade onanística, masturbam-se sob as inibições mais severas, com as práticas mais prejudiciais, por exemplo refreando ejeção do esperma. Assim se encaminham seguramente pelo menos para uma perturbação neurastênica. Se vencem na luta, recaem novamente naquela abstinência, da qual se salvaram pelo onanismo; mas dessa vez a situação se tornou muito mais desfavorável, porque as fantasias entrementes ativadas e a excitação sexual despertada tornam a  abstinência ainda mais insuportável do que antes. Apenas alguns encontram a melhor solução sexual-economicamente, a das relações sexuais.” 

Casamento compulsório e relação sexual 


“Todo mundo está exposto constantemente a excitações sexuais novas provocadas por outras pessoas que não o parceiro, especialmente com a coletivização do trabalho de hoje. Essas excitações de fora permanecem inócuas no período alto da relação. Nunca, porém, podem ser eliminadas, e nenhuma regulamentação quanto às roupas que devem ser usadas na igreja, ou qualquer medida ascética social, conseguirá em tempo algum qualquer coisa diversa a não ser o incremento da excitação, porque a tentativa de reprimir a exigência sexual resulta sempre no aumento dela. A não-consideração desse fato fundamental é que constitui a tragédia, ou mesmo tragicomédia, de toda moral sexual orientada asceticamente. As novas excitações sexuais, contra as quais só existe uma defesa eficiente, que é a inibição sexual neurótica, libertam pois, em cada pessoa sexualmente intacta, mais ou menos conscientemente (ou antes: tanto mais sadios quanto conscientes) desejos sexuais por outros objetos. Pela relação sexual satisfatória existente, esses desejos inicialmente permanecem sem efeito especial e podem ser reprimidos tanto mais eficientemente quanto mais conscientes forem. Está claro que, quanto menos consideração de caráter moral, quanto mais  depreciação sexual-econômica ou condenação participa dessa repressão, tanto mais inocente ela será. 

“Quando, entretanto, se avolumam esses desejos por outros objetos, eles retroagem sobre a relação sexual para com o parceiro, acelerando principalmente o embotamento. As características seguras desse embotamento são: a diminuição do impulso sexual, antes do ato, e do prazer, no ato. As relações sexuais paulatinamente se tornam um hábito ou obrigação. A diminuição da satisfação com o parceiro e o desejo de outros objetos se somam e se fortalecem mutuamente. Contra isso não adianta nenhuma determinação, nenhuma técnica amorosa. Agora começa então o estágio crítico da irritação contra o parceiro, que, de acordo com o temperamento ou educação, chega a se manifestar ou é reprimido. Em todo caso: o ódio inconsciente contra o parceiro, como revelam análises de tais condições insofismavelmente, torna-se cada vez mais forte; seu motivo é a frustração da satisfação dos desejos por outros, por parte do parceiro; sim, o fato de que o ódio inconsciente poderá tornar-se tanto mais forte quanto mais amável e tolerante for o parceiro é apenas aparentemente um paradoxo. 

“Não se tem então nenhum motivo para odiar pessoalmente o parceiro, mas a pessoa sente isso, ou, melhor, o próprio amor ao parceiro passa a ser um empecilho. O ódio fica assim amortecido por um carinho extremo. Esse carinho originado do ódio e os sentimentos de culpa que proliferam em tal estágio são os componentes específicos da ligação pegajosa na relação permanente e o próprio motivo pelo qual tão freqüentemente mesmo os não-casados não se podem separar, mesmo que nada mais tenham que dizer ou muito menos que dar um ao outro, e sua relação signifique apenas um martírio mútuo. 

“Mas esse embotamento não precisa ser definitivo. De uma circunstância passageira pode-se tornar facilmente definitivo quando os parceiros sexuais não tomam conhecimento dos seus impulsos mútuos de ódio e recusam seus desejos por outros objetos como indecentes e imorais. A isso geralmente se segue uma repressão das excitações com todo o mal e prejuízo para a relação entre duas pessoas que justamente costumam resultar da repressão de impulsos poderosos. Quando a pessoa pode enfrentar tais fatos desinibidamente, sem distorção moral-sexual, o conflito se apresenta mais suave, e encontrar-se-á uma saída. É pressuposição que o ciúme normal que se sente não se torne expressão de uma reivindicação de posse, que se reconheça a naturalidade e axiomatismo do desejo por outros. A ninguém ocorrerá criticar alguém porque não gosta de usar o mesmo traje ano após ano, ou que porque está enjoado de comer sempre o mesmo prato. Somente no campo sexual a exclusividade de posse tornou-se um valor sentimental forte, porque o entrelaçamento dos interesses econômicos e das relações sexuais aumentou o ciúme da reivindicação de posse natural. Muitas pessoas maduras e comedidas me comunicaram que, depois da superação do conflito, a imaginação de que o parceiro sexual uma ou outra vez tenha entrado em relação com outros perdeu seu terror e de que mais tarde a impossibilidade anterior de imaginar uma "infidelidade" parecia ridícula. 

“Incontáveis exemplos ensinam que fidelidade por consciência, com o tempo, prejudica a relação sexual. A isso se contrapõem muitos exemplos dos quais aparece claramente que uma relação fortuita com outro parceiro apenas foi útil à relação sexual que estava justamente em via de se tornar uma relação matrimonial. Na relação permanente, sem ligação econômica, existem duas possibilidades: Ou a relação com o terceiro foi somente passageira; isso prova que não podia concorrer com a permanente; nesse caso, a relação apenas se fortaleceu; a mulher perdeu a impressão de estar inibida ou de ser incapaz de relações com outro homem. Ou a relação para com o outro parceiro se torna mais intensiva do que a existente, mais prazerosa e de outra forma mais satisfatória; então, a primeira é desfeita. 

“O que acontece então com o parceiro cuja relação amorosa ainda não estava deteriorada? Sem dúvida terá que travar uma luta difícil, em primeiro lugar consigo mesmo. Ciúme e sentimento de inferioridade sexual lutarão com a compreensão do destino do seu parceiro. Talvez que fique empenhado em reconquistar seu parceiro, o que terminará com o automatismo da relação duradoura, destruindo a segurança de posse; talvez que preferirá também permanecer passivamente na expectativa, deixando a decisão para o decorrer dos acontecimentos. Não damos conselhos, mas apenas aventamos hipóteses de possibilidades que correspondem a fatos reais. Em todo caso, a dificuldade é menor do que a desgraça que se verifica quando duas pessoas estão grudadas uma à outra por considerações morais ou outras. A consideração, que tantos indivíduos em tais casos costumam ter para com o parceiro, ao reprimir constantemente seus desejos, sem poder eliminá-los, muitas vezes se transforma no contrário. Quem teve consideração demais facilmente se sente no direito de obrigar o outro a agradecimento por isso, considerar-se vítima, ficar intolerante, atitudes  essas que fazem perigar a relação muito mais e certamente a tornam mais feia do que qualquer "infidelidade" o poderia ter feito. Não queremos, porém, iludir-nos de que tal consideração para com as necessidades do parceiro, sob as condições da estrutura humana e ideologia sexual de hoje, seja possível em grande proporção.” 

O ascetismo e a monogamia duradoura são irrealizáveis 


“Relações sexuais permanentes, que não se tornam matrimoniais, em geral não duram a vida toda. Quanto mais cedo tais relações são iniciadas, tanto maior é a probabilidade e, como se pode demonstrar, a justificação psicológica e biológica de que se rompam mais depressa do que as iniciadas mais tarde. Até aproximadamente a idade de 30 anos, o homem se encontra, quando não é esmagado pela sua situação econômica, cm contínuo desenvolvimento psíquico. Somente nessa época, costumam em média fortalecer-se os interesses, tornando-se duradouros. A ideologia do ascetismo e da monogamia duradoura, portanto, se encontra em contradição crassa ao processo de desenvolvimento físico e psíquico. Praticamente, é irrealizável. Isso leva à contradição de qualquer ideologia matrimonial.” 

Trote no Direito da UFMG - o que Freud diz sobre as "brincadeirinhas"

Posted: 21.3.13 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Foi causa de repúdio geral o trote ocorrido na Faculdade de Direito da UFMG na semana passada. A ampla repercussão do assunto motivou a instituição a abrir um processo administrativo para investigar o caso, o que provavelmente não teria ocorrido não fosse sua exaustiva repercussão midiática.

As fotos neste post mostram dois momentos do trote. Na primeira, um veterano segura as correntes que amarram uma caloura pintada de preto, a qual segura um cartaz com os dizeres "Caloura Chica da Silva".

Na outra, os veteranos fazem a saudação nazista ao lado de um calouro amarrado a uma pilastra, com o rosto pintado de vermelho (uma referência também aos comunistas, inimigos mortais e vencedores dos nazistas na II Guerra Mundial?).

Não bastasse a gravidade do ato por si só, tão ou mais preocupante ainda tem sido sua repercussão entre os estudantes de direito da UFMG. Um grande número desses tem se posicionado a favor (!) dos veteranos, valendo-se de argumentos pífios que demonstram seu baixíssimo nível de consciência política e histórica.

A argumentação dos futuros advogados é que tudo não passa de uma "brincadeira". Tentam, dessa maneira, desqualificar o ocorrido como se o caráter chistoso de um ato lhe caracterizasse como algo "para além do bem e do mal".

Mas "brincadeiras" não são, de forma alguma, amorais. Em "Os chistes e sua relação com o inconsciente", Freud desvenda o mecanismo das "brincadeirinhas" e das "piadinhas", mostrando que elas são formas veladas de expressão de conteúdos agressivos e que cumprem uma função de realização de desejos.

A propósito, especula-se que uma das principais motivações de Freud ao escrever esta obra tenha sido sua própria experiência de ter sido vítima do que hoje denomina-se bullying. É que Freud, sendo judeu, era constantemente agredido através de "brincadeirinhas" e "piadinhas", numa Viena em que o anti-semitismo já se mostrava bastante desenvolvido.

Freud mostra que certo tipo de chistes (que ele chama de "tendenciosos"), assim como os sonhos, são realizações de desejos inconscientes. As "brincadeirinhas" são um meio de nos libertarmos de nossas inibições para que possamos expressar aquilo que, de outra forma, não ganharia expressão a nível consciente. Dizendo de outra maneira, as "brincadeirinhas" são uma maneira de dar expressão a conteúdos que são moral ou socialmente inaceitáveis.

Podemos perceber como as piadas e "brincadeirinhas" nos livram de nossas inibições ao perceber como rimos, por exemplo, de piadas cujo conteúdo é sexual. Para isso basta fazer um teste. Se uma pessoa nos expressa o conteúdo de uma piada sexual de forma direta, sem se valer das técnicas que tornam esse conteúdo uma piada (jogos de palavras, representação pelo oposto, condensação, etc - ou seja, basicamente os mesmos processos utilizados pelo censor para gerar o conteúdo manisfesto dos sonhos), provavelmente não rimos. Pelo contrário, podemos até sentir a chamada "vergonha alheia" pelo nosso interlocutor. Mas achamos a piada tanto melhor quanto mais bem feita for sua elaboração, quanto mais velada for a expressão do seu conteúdo (piadas "inteligentes").

A abordagem psicanalítica dos chistes (ou das "brincadeirinhas") só reforça, portanto, a gravidade do trote racista desses estudantes de direito da UFMG, mostrando que, longe de ser "amoral", o ato foi extremamente grave e é muito preocupante, pois revela que os elementos e a estrutura de caráter que tornam os indivíduos suscetíveis a discursos como os de Adolf Hitler se fazem presentes em cada um deles. E estão urgindo por expressão consciente.

Marx e Freud técnicos de futebol

Posted: 8.3.13 by Glauber Ataide in Marcadores: ,
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Já reparou como o futebol é cheio de expressões, digamos... libidinosas?

"Ele sofreu uma entrada dura por trás!"

"Que bela enfiada de bola pelo meio!"

Repare as expressões utilizadas pelo narrador na próxima partida.

Filmes em alemão e com legenda em alemão

Posted: 24.1.13 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Alguns meses atrás estive procurando por filmes em alemão para me auxiliar no aprendizado deste desafiante idioma, o qual venho estudando por pelo menos uns 4 anos. Assistir filmes é ótimo para o aprendizado de línguas em geral, pois além de nos fornecer novo vocabulário dentro de contextos específicos e aumentar nossa exposição ao idioma, o fazemos de forma bem mais distraída do que consultando dicionários. Gosto de usar este método tanto para aprender o alemão quanto para ensinar inglês aos meus alunos.

Mas eu não queria apenas filmes com áudio em alemão: queria também que os DVD's tivessem legenda em alemão, de forma que eu pudesse ouvir e ler (de maneira pelo menos aproximada) o que se estava dizendo.

Mas como não encontrei muitas referências compiladas na internet eu mesmo tive que garimpar essa informação na locadora e em sites de várias lojas. Comprei alguns filmes desde então, e compartilho o que consegui encontrar. Espero que seja útil àqueles que estão fazendo agora o mesmo que fiz meses atrás.

Num próximo post vou compartilhar outros filmes em alemão, independente do idioma da legenda.

Auf wiedersehen!

P.S.: Entre os títulos tem um filme infantil (que minha filha adora) e até uma comédia daquelas "bobinhas". Não estou dizendo quais filmes são bons ou não, estou listando apenas os que possuem legenda em alemão, que é o que importa aqui :)


ADEUS LENIN!

POSSUI LEGENDA EM ALEMÃO

Diretor: Wolfgang Becker

Sinopse: O filme mais assistido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e premiado em diversos festivais, Adeus Lenin! conta, com muito humor, a história de uma família que vive durante a queda do muro de Berlim, na Alemanha. Alex é um filho dedicado que tem sua mãe em coma quando o muro de Berlim cai. Ela acorda depois de oito meses muito debilitada, sem poder sofrer qualquer emoção. Desesperado e igualmente criativo, Alex faz de tudo para esconder a situação do país de sua mãe. Entre suas peripécias, conta com a ajuda da irmã, dos vizinhos e até de um editor de vídeos.

9º DIA

POSSUI LEGENDA EM ALEMÃO

Diretor: Volker Schlöndorff

Sinopse: Durante o Regime Nazista um padre é preso e enviado a um campo de concentração.Para sair de lá com vida ele recebe uma condição: negociar com a Igreja Católica uma aliança com Hitler. Em nove dias a sua consciência e sua paz são atormentadas por causa do objetivo nazista e pela lembrança do inferno onde ficou preso. Em nove dias ele decidirá: se permanece vivo, se foge para outro país e principalmente, o futuro de sua nação.

A QUEDA! AS ÚLTIMAS HORAS DE HITLER

POSSUI LEGENDA EM ALEMÃO

Diretor: Oliver Hirschbiegel

Sinopse: Abril de 1945. Adolf Hitler, sua amante e seus principais assessores estão escondidos em um abrigo subterrâneo construído em plena Berlim. Os soviéticos avançam tomando a cidade com fúria. O som das explosões se aproxima e marca o fim do líder nazista e da Segunda Guerra Mundial.
Doente, louco e irritado, acompanhamos Hitler em sua intimidade. Seu aniversário, decisões insanas de destruição, seu casamento e o derradeiro suicídio. Sob os olhos da secretária do ditador, temos uma visão de quem foi este homem que mudou a história para sempre. Com cenas de guerra fantásticas, A Queda tem seu roteiro baseado em relatos de Traudl Junge, secretária pessoal de Hitler, e no livro do escritor Joachim Fest, a maior autoridade mundial em nazismo.
A Queda! As Últimas Horas de Hilter é um filme obrigatório e definitivo, que registra a soberba - e muito elogiada - interpretação de Bruno Ganz, no papel de Hitler. Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro 2005
BIBI - A BRUXINHA

POSSUI LEGENDA EM ALEMÃO

Diretor: Hermine Huntgeburth

Sinopse: A bruxinha Bibi está contente, pois salvou duascrianças de um incêndio. Mal sabe que, ao ser premiada pelo conselho de magia por sua ação de heroísmo, atrai a inveja da malvada bruxa Rabia, que fará de tudo para prejudicar sua vida e de sua família. Mas Bibi não desiste. Ao lado de seu amigo Florian e de outras bruxinhas, ela vai enfrentar Rabia e seu gato falante Rufus. Será uma deliciosa e engraçada batalha com direito a muitas feitiçarias.oioi

CONFUSÕES GENIAIS

POSSUI LEGENDA EM ALEMÃO
 
Diretor: Klaus Knoesel

Sinopse: No Instituto de Pesquisas Moleculares de Munique, o ambiente é dos mais tensos e turbulentos. O cientista Jacob Dankovsky (Michael von Au) e seu colega Lehmann (Peter Ender) trabalham sob uma terrível pressão desenvolvendo um projeto revolucionário que pode solucionar todos os problemas de instabilidades emocionais e mau humor. Eles têm apenas 24 horas para obter resultados concretos. Caso contrário, suas verbas serão canceladas.
Em meio ao desespero e à correria, o professor Jacob se depara com um estranho jarro que irá mudar seu destino para sempre. Nele vive a gênio Tabatah (Erika Marozsán), uma mulher com grande poder e exótica beleza, que sempre serviu ao seu tio Assis (Oliver Nagele). Ela concede a Jacob três desejos, mas além da devoção ao novo mestre, Tabatah também acaba se apaixonando por ele. Porém, o antigo mestre descobre o paradeiro de sua preciosa gênia, e vai tentar a todo custo reaver seu tesouro, dando início a uma série de situações hilariantes, divertidas, românticas... e geniais..!

LENYA - A GUERREIRA

POSSUI LEGENDA EM ALEMÃO

Diretor: Michael Rowitz

Sinopse: Lenya é uma bela jovem que foi criada por pais adotivos num pacato vilarejo, longe da violência e das disputas políticas da corte real. Sua verdadeira origem, assim como a sua força monumental, ficaram escondidas por anos.
Quando a vila de Lenya é atacada, e seus amigos e familiares são brutalmente assassinados, ela consegue se salvar e jura vingança. Na busca pela justiça, a jovem desperta seu lado heróico. Ajudada pelo guerreiro Gero, ela enfrentará a terrível bruxa Kundrie para salvar seu povo, ao mesmo tempo em que busca desvendar dois grandes mistérios. O primeiro, sobre seu passado. O segundo, sobre seus próprios sentimentos...

A LETRA ESCARLATE

POSSUI LEGENDA EM ALEMÃO

Diretor: Win Wenders

Sinopse: Essa é a versão feita por Win Wenders do romance de Nathaniel Hawthorne. A história de Hester, que vive um amor adúltero com o reverendo Dimmesdale e assim é obrigada a usar na roupa a letra A na cor escarlate. Intolerância e paixão num dos mais belos clássicos da literatura mundial.


MOVIMENTO EM FALSO

POSSUI LEGENDA EM ALEMÃO

Diretor: Win Wenders

Sinopse: O primeiro filme de Natassja Kinski. Seis dias na vida de Wilhelm: um destacado homem, com nenhuma qualidade. Ele gostaria de escrever, então sua mãe lhe deu uma passagem para Bonn, dizendo a ele que vivesse. No trem ele encontra um homem, um atleta de 1936 dos Jogos Olímpicos e seu companheiro de time mudo, Mignon. Ela é uma acróbata. Uma atriz que Wilhelm olhou fixamente, apaixonado. Eles impedem o suicídio de um homem...

O amor é Socialista

Posted: 19.10.12 by Glauber Ataide in
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O amor é Socialista 
(Pedro Munhoz)

Compreender o riso e a dor,
caminhando lado a lado,
ser amigo, irmanado,
ser fuzil e ser a flor.
Seja lá aonde for,
não perde tua razão,
derrama teu coração,
o amor não é egoísta.
O amor é Socialista,
ele faz revolução.

Ser canção pelas distâncias,
onde a verdade não chega,
por caminhos e veredas,
no olhar de uma criança.
Combater a ignorância,
o mundo é uma só nação,
te insurges, faz rebelião,
o amor não é egoísta.
O amor é Socialista,
ele faz revolução.

Ser farol e ser alerta,
silêncio e paciência,
quando falta consciência,
cabe a ti dizer:- Desperta!
Ser poema, ser poeta,
sem vaidade ou pretensão,
esta é tua missão,
o amor não é egoísta.
O amor é Socialista,
ele faz revolução.

Estudar e repartir,
conhecimento e saber,
sempre vale aprender,
sempre vale dividir.
Há vida no ir e vir,
permanente evolução,
não há vida sem paixão,
o amor não é egoísta.
O amor é Socialista,
ele faz revolução.

Abraça a pessoa amada,
faz da luta companheira,
o amor não tem fronteiras,
é bandeira desfraldada.
Preconceito está com nada,
o amor é construção,
respeita toda a opção,
o amor não é egoísta.
O amor é Socialista,
ele faz revolução.

Olga, Rosa, todas elas,
Sandino e Che Guevara,
é Marti, Simon, Dandara,
é Zumbi e Mariguela.
Fidel, Artigas, Mandela,
piqueteiros em ação,
Sem Terra semeiam o pão,
o amor não é egoísta,
o amor é Socialista,
ele faz revolução.

Primavera/2012

Filme Partner, de Bertolucci, é baseado em O duplo, de Dostoievski

Posted: 15.9.12 by Glauber Ataide in
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Baseado livremente no romance O duplo, de Dostoievski, o filme Partner, do diretor italiano Bernardo Bertolucci, apresenta diversos temas relacionados à geração de 1968, podendo ser considerado de fato um filme político, apesar de não histórico. Tomei notícia de sua existência somente ao vê-lo na estante da locadora e, como tinha lido recentemente O duplo, não hesitei em levá-lo para conferir. 

Tendo sido filmado exatamente em 1968, durante as gravações de Partner chegou-se a notícia do Maio Francês, o que fez então com que vários de seus slogans fossem incorporados ao filme ("É proibido proibir", "É vedado vedar", etc) que já seguia, segundo o próprio diretor, uma produção improvisada.

Em relação à obra de Dostoievski o filme apresenta diversas diferenças. O protagonista do livro, Golyadkin, é um pequeno funcionário público, enquanto que o protagonista Jacob, no filme, é um professor de teatro. Algumas cenas do livro foram mantidas, apesar de que, francamente, ainda não compreendi o que elas tem a ver com o restante da obra. Assisti ao filme apenas uma vez, e como ele é "de difícil compreensão", segundo o próprio Bertolucci, não entendi muitas coisas ainda. E outra diferença essencial é sobre a existência do alter ego do protagonista. No livro ele é real, mas no filme é uma obra da imaginação do professor.

O professor de teatro Jacob é, assim como Golyadkin, um sujeito cindido, dividido. O seu sósia faz exatamente tudo aquilo que ele gostaria de fazer mas que não leva a cabo devido à sua timidez ou à sua covardia. Todos os seus impulsos agressivos, destrutivos e sexuais encontram realização neste outro, o qual o leva também a ter um maior engajamento político através do teatro.

Segundo Bertolucci, seu filme mostra que os intelectuais europeus não mais podiam fazer a revolução, e Jacob é exatamente isso, um intelectual europeu. Assim, é o duplo de Jacob que trabalha com seus alunos na criação de um espetáculo (revolução?) de rua, pois o lugar do teatro é ali, junto ao povo e se misturando a ele.