Se eu morresse amanhã, de Álvares de Azevedo

Posted: 23.2.14 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Se eu morresse amanhã
(Álvares de Azevedo)

Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
Se eu morresse amanhã!

Quanta glória pressinto em meu futuro!
Que aurora de porvir e que amanhã!
Eu perdera chorando essas coroas
Se eu morresse amanhã!

Que sol! que céu azul! que doce n'alva
Acorda a natureza mais louçã!
Não me batera tanto amor no peito
Se eu morresse amanhã!

Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o doloroso afã...
A dor no peito emudecera ao menos
Se eu morresse amanhã!

Albert Camus: se eu me matasse, descobriria então que não tenho amigos

Posted: 21.2.14 by Glauber Ataide in Marcadores:
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"Como sei que não tenho amigos? É muito simples: eu o descobri no dia em que pensei em matar-me para lhes pregar uma boa peça, para puni-los, de certa forma. Mas punir quem? Alguns ficariam surpreendidos; ninguém se sentiria punido. Compreendi que não tinha amigos. Além disso, mesmo se os tivesse, não adiantaria nada. Se eu pudesse suicidar-me e ver em seguida a cara deles, então, sim, valeria a pena." (Albert Camus, A queda)

Freud e a melancolia: por que precisamos adoecer para saber a verdade sobre nós mesmos?

Posted: 20.2.14 by Glauber Ataide in Marcadores:
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No trecho abaixo Freud descreve algumas características da melancolia e sua relação com o luto. A melancolia, grosso modo, se instala a partir da perda do objeto - como o término de um relacionamento, por exemplo. Freud faz então uma afirmação interessante: a baixa auto-estima que o melancólico apresenta, assim como suas recriminações a si próprio, não são de todo erradas; a questão é saber por que as pessoas precisam adoecer para ter acesso a tais verdades sobre si próprias.

"O melancólico exibe ainda uma outra coisa que está ausente no luto — uma diminuição extraordinária de sua auto-estima, um empobrecimento de seu ego em grande escala. No luto, é o mundo que se torna pobre e vazio; na melancolia, é o próprio ego. O paciente representa seu ego para nós como sendo desprovido de valor, incapaz de qualquer realização e moralmente desprezível; ele se repreende e se envilece, esperando ser expulso e punido. Degrada-se perante todos, e sente comiseração por seus próprios parentes por estarem ligados a uma pessoa tão desprezível. Não acha que uma mudança se tenha processado nele, mas estende sua autocrítica até o passado, declarando que nunca foi melhor. Esse quadro de um delírio de inferioridade (principalmente moral) é completado pela insônia e pela recusa a se alimentar, e — o que é psicologicamente notável — por uma superação do instinto que compele todo ser vivo a se apegar à vida.

"Seria igualmente infrutífero, de um ponto de vista científico e terapêutico, contradizer um paciente que faz tais acusações contra seu ego. Certamente, de alguma forma ele deve estar com a razão, e descreve algo que é como lhe parece ser. Devemos, portanto, confirmar de imediato, e sem reservas, algumas de suas declarações. Ele se encontra, de fato, tão desinteressado e tão incapaz de amor e de realização quanto afirma. Mas isso, como sabemos, é secundário; trata-se do efeito do trabalho interno que lhe consome o ego — trabalho que, nos sendo desconhecido, é, porém, comparável ao do luto. O paciente também nos parece justificado em fazer outras auto-acusações; apenas, ele dispõe de uma visão mais penetrante da verdade do que outras pessoas que não são melancólicas. Quando, em sua exacerbada autocrítica, ele se descreve como mesquinho, egoísta, desonesto, carente de independência, alguém cujo único objetivo tem sido ocultar as fraquezas de sua própria natureza, pode ser, até onde sabemos, que tenha chegado bem perto de se compreender a si mesmo; ficamos imaginando, tão-somente, por que um homem precisa adoecer para ter acesso a uma verdade dessa espécie." (Freud, Luto e Melancolia)

Análise de um caso de histeria - o caso Katharina

Posted: 9.2.14 by Glauber Ataide in Marcadores:
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O texto abaixo é a análise feita por Freud de uma jovem com evidentes sintomas histéricos. Não é um caso clínico completo, haja vista que se resumiu a apenas um encontro. No entanto, para aqueles que nunca leram um caso clínico de Freud, este pequeno relato serve como uma introdução a este tipo de seus escritos, contando para isso com a vantagem de ser o menor encontrado em suas obras (apenas 9 páginas). Nesta época a psicanálise dava seus primeiros passos, e Freud ainda fazia uso da hipnose, técnica que, embora mencionada, ele não utilizou neste caso e veio a abandonar posteriormente.

Caso 4 - O caso Katharina

Nas férias de verão do ano de 189.. fiz uma excursão ao Hohe Tauern para que por algum tempo pudesse esquecer a medicina e, mais particularmente, as neuroses. Quase havia conseguido isso quando, um belo dia, desviei-me da estrada principal para subir uma montanha que ficava um pouco afastada e que era renomada por suas vistas e sua cabana de hospedagem bem administrada. Alcancei o cimo após uma subida estafante e, sentindo-me revigorado e descansado, sentei-me, mergulhando em profunda contemplação do encanto do panorama distante. Estava tão perdido em meus pensamentos que, a princípio, não relacionei comigo estas palavras, quando alcançaram meus ouvidos: “O senhor é médico?” Mas a pergunta fora endereçada a mim, e pela moça de expressão meio amuada, de talvez dezoito anos de idade, que me servira a refeição e à qual a proprietária se dirigira pelo nome de “Katharina”. A julgar por seus trajes e seu porte, não podia ser uma empregada, mas era sem dúvida filha ou parenta da hospedeira.

Voltando a mim, respondi:

—Sim, sou médico, mas como você soube disso?
—O senhor escreveu seu nome no livro de visitantes. E pensei que, se o senhor pudesse dispor de alguns momentos… A verdade, senhor, é que meus nervos estão ruins. Fui ver um médico em L— por causa deles, e ele me receitou alguma coisa, mas ainda não estou boa.

Assim, lá estava eu novamente às voltas com as neuroses — pois nada mais poderia haver de errado com aquela moça de constituição forte e sólida e de aparência tristonha. Fiquei interessado ao constatar que as neuroses podiam florescer assim, a uma altitude superior a 2.000 metros; portanto, fiz-lhe outras perguntas. Relato a conversa que se seguiu entre nós tal como ficou gravada em minha memória, e não alterei o dialeto da paciente.

—Bem, e de que é que você sofre?
—Sinto muita falta de ar. Nem sempre. Mas às vezes ela me apanha de tal forma que acho que vou ficar sufocada.

Isso não pareceu, à primeira vista, um sintoma nervoso. Mas logo me ocorreu que provavelmente era apenas uma descrição representando uma crise de angústia: ela estava destacando a falta de ar do complexo de sensações que decorrem da angústia e atribuindo uma importância indevida a esse fator isolado.

—Sente-se aqui. Como são as coisas quando você fica “sem ar”?
—Acontece de repente. Antes de tudo, parece que há alguma coisa pressionando meus olhos. Minha cabeça fica muito pesada, há um zumbido horrível e fico tão tonta que quase chego a cair. Então alguma coisa me esmaga o peito a tal ponto que quase não consigo respirar.
—E não nota nada na garganta?
—Minha garganta fica apertada, como se eu fosse sufocar.
—Acontece mais alguma coisa na cabeça?
—Sim, umas marteladas, o bastante para fazê-la explodir.
—E não se sente nem um pouco assustada quando isso acontece?
—Sempre acho que vou morrer. Em geral, sou corajosa e ando sozinha por toda parte, desde o porão até a montanha inteira. Mas no dia em que isso acontece não ouso ir a parte alguma; fico o tempo todo achando que há alguém atrás de mim que vai me agarrar de repente.

Portanto, era de fato uma crise de angústia, e introduzida pelos sinais de uma “aura” histérica — ou, mais corretamente, era um ataque histérico cujo conteúdo era a angústia. Mas não seria provável que houvesse também outro conteúdo?

—Quando você tem uma dessas crises, pensa em alguma coisa? E sempre a mesma coisa? Ou vê alguma coisa diante de você?
—Sim. Sempre vejo um rosto medonho que me olha de uma maneira terrível, de modo que fico assustada.

Talvez isso pudesse oferecer um meio rápido de chegarmos ao cerne da questão.

—Você reconhece o rosto? Quero dizer, é um rosto que realmente já viu alguma vez?
—Não.
—Sabe de onde vêm as suas crises?
—Não.
—Quando as teve pela primeira vez?
—Há dois anos, quando ainda morava na outra montanha com minha tia. (Ela dirigia uma cabana de hospedagem e nós nos mudamos para cá há dezoito meses.) Mas elas continuam a acontecer.

Deveria eu fazer uma tentativa de análise? Não podia aventurar-me a transplantar a hipnose para essas altitudes, mas talvez tivesse sucesso com uma simples conversa. Teria que arriscar um bom palpite. Eu havia constatado com bastante freqüência que, nas moças, a angústia era conseqüência do horror de que as mentes virginais são tomadas ao se defrontarem pela primeira vez com o mundo da sexualidade.

Então disse-lhe:

—Se você não sabe, vou dizer-lhe como eu penso que você passou a ter seus ataques. Nessa ocasião, há dois anos, você deve ter visto ou ouvido algo que muito a constrangeu e que teria preferido muitíssimo não ver.
—Céus, é isso mesmo! — respondeu. — Foi quando surpreendi meu tio com a moça, com Franziska, minha prima.
—Que história é essa sobre uma moça? Não vai me contar?
—Suponho que se pode contar tudo a um médico. Bem, naquela época, o senhor sabe, meu tio, o marido de minha tia que o senhor viu aqui, tinha a estalagem na — kogel. Agora eles estão divorciados, e a culpa é minha, pois foi através de mim que se veio a saber que ele estava andando com Franziska.
—E como você descobriu isso?
—Foi assim. Um dia, há dois anos, uns cavalheiros tinham subido a montanha e pediram alguma coisa para comer. Minha tia não estava em casa, e Franziska, que era quem sempre cozinhava, não foi encontrada em parte alguma. E meu tio também não foi encontrado. Procuramos por toda parte, e finamente Alois, o garotinho que era meu primo, disse: “Ora, Franziska deve estar no quarto de papai!” E ambos rimos, mas não estávamos pensando em nada de mau. Fomos então ao quarto do meu tio, mas o encontramos trancado. Isso me pareceu estranho. Então Alois disse: “Há uma janela no corredor de onde se pode olhar para dentro do quarto.” Dirigimo-nos para o corredor, mas Alois recusou-se a ir até a janela e disse que estava com medo. Então, eu falei: “Seu menino bobo! Eu vou. Não tenho o menor medo.” E não tinha nada de mau na mente. Olhei para dentro. O quarto estava um pouco escuro, mas vi meu tio e Franziska; ele estava deitado em cima dela.
—E então?
—Afastei-me da janela imediatamente, apoiei-me na parede e fiquei sem ar, justamente o que me acontece desde então. Tudo ficou opaco, minhas pálpebras se fecharam à força e havia marteladas e um zumbido em minha cabeça.
—Você contou isso a sua tia no mesmo dia?
—Oh, não, não disse nada.
—Então por que ficou tão assustada quando os viu juntos? Você entendeu? Sabia o que estava acontecendo?
—Oh, não. Não compreendi nada naquela ocasião. Tinha apenas dezesseis anos. Não sei por que me assustei.
—Srta. Katharina, se pudesse lembrar-se agora do que lhe aconteceu naquela ocasião em que teve sua primeira crise, no que pensou sobre o fato … isso a ajudaria.
—Sim, se pudesse. Mas fiquei tão assustada que me esqueci de tudo.
(Traduzido na terminologia de nossa “Comunicação Preliminar” |ver em [1]|, isso significa: “O próprio afeto criou um estado hipnóide cujos produtos foram então isolados da ligação associativa com a consciência do ego”.)
—Diga-me, senhorita, será que a cabeça que você sempre vê quando fica sem ar é a de Franziska, tal como a viu naquele momento?
—Não, não, ela não era tão horrível. Além disso, é uma cabeça de homem.
—Ou talvez a de seu tio?
—Não vi o rosto dele assim com tanta clareza. Estava escuro demais no quarto. E por que estaria fazendo uma cara tão medonha exatamente naquela hora?
—Você tem toda razão.
(O caminho de repente pareceu bloqueado. Talvez algo pudesse surgir no restante de sua história.)
—E o que aconteceu depois?
—Bem, os dois devem ter ouvido algum ruído, porque saíram logo em seguida. Senti-me muito mal o tempo todo. Ficava sempre pensando naquilo. Então, dois dias depois, era domingo, havia muito o que fazer, e trabalhei o dia inteiro. E na manhã de segunda-feira tornei a me sentir tonta e caí doente, fiquei acamada por três dias seguidos.

Nós |Breuer e eu| muitas vezes havíamos comparado a sintomatologia da histeria com uma escrita pictográfica que se torna inteligível após a descoberta de algumas inscrições bilíngües. Nesse alfabeto, estar doente significa repulsa. Então eu disse:

—Se você ficou doente três dias depois, creio que isso significa que quando olhou para dentro do quarto sentiu repulsa.
—Sim, tenho certeza de que senti repulsa — disse ela, pensativa —, mas repulsa de quê?
—Não terá visto alguém nu, talvez? Como estavam eles?
—Estava muito escuro para ver qualquer coisa; além disso, ambos estavam vestidos. Oh, se pelo menos soubesse do que foi que senti nojo!

Eu também não tinha nenhuma idéia. Mas disse-lhe que continuasse e que me contasse qualquer coisa que lhe ocorresse, na confiante expectativa de que ela viesse a pensar exatamente no que eu precisava para explicar o caso.

Bem, ela passou a descrever como afinal havia contado sua descoberta à tia, que a achou mudada e suspeitou que estivesse escondendo algum segredo. Seguiram-se algumas cenas muito desagradáveis entre o tio e a tia, no decorrer das quais as crianças vieram a ouvir muitas coisas que lhes abriram os olhos de várias maneiras e que teria sido melhor que não tivessem ouvido. Finalmente, a tia resolveu mudar-se com os filhos e a sobrinha e ficar com a atual estalagem, deixando o tio sozinho com Franziska, que entrementes ficara grávida. Depois disso, contudo, para minha surpresa, Katharina abandonou o fio da meada e começou a me contar dois grupos de histórias mais antigas, que retrocediam a dois ou três anos antes do momento traumático. O primeiro grupo relacionava-se com ocasiões em que o mesmo tio fizera investidas sexuais contra ela própria, quando estava com apenas quatorze anos. Ela descreveu como, certa feita, fora com ele numa viagem até o vale, no inverno, e ali passara a noite na estalagem. Ele ficou no bar bebendo e jogando cartas, mas ela sentiu sono e foi cedo para a cama, no quarto que iam partilhar no andar de cima. Não estava ainda inteiramente adormecida quando ele subiu; depois, tornou a adormecer e acordou de repente, “sentindo o corpo dele” na cama. Deu um salto e admoestou-o: “O que é que o senhor está pretendendo, tio? Por que não fica na sua própria cama?” Ele tentou apaziguá-la: “Ora, sua bobinha, fique quieta. Você não sabe como é bom.” — “Não gosto de suas coisas ‘boas’; o senhor nem ao menos deixa a gente dormir em paz.” Ela ficou de pé na porta, pronta a se refugiar no corredor do lado de fora, até que finalmente ele desistiu e foi dormir. Então ela voltou para sua própria cama e dormiu até de manhã. Pela maneira como relatou ter-se defendido, parece que ela não reconheceu nitidamente a investida como sendo de ordem sexual. Quando lhe perguntei se sabia o que ele estava tentando fazer com ela, respondeu: “Não naquela ocasião.” Disse então que isso lhe ficara claro muito depois: resistira porque era desagradável ser perturbada durante o sono e “porque não era bom”.

Fui obrigado a relatar isso minuciosamente por causa de sua grande importância para a compreensão de tudo o que se seguiu. Ela passou a relatar-me ainda outras experiências um pouco posteriores: como mais uma vez teve de defender-se dele numa estalagem, quando ele estava inteiramente bêbado, e histórias semelhantes. Em resposta a uma pergunta para saber se, nessas ocasiões, sentira algo semelhante a sua posterior falta de ar, ela respondeu com firmeza que em todas as ocasiões sentira a pressão nos olhos e no peito, mas nada semelhante à força que havia caracterizado a cena da descoberta.

Logo após ter terminado esse conjunto de lembranças, ela começou a me contar um segundo conjunto, que se relacionava com ocasiões em que notara algo entre o tio e Franziska. Uma vez, toda a família passara a noite, com a roupa que trazia no corpo, num palheiro, e ela fora subitamente despertada por um ruído; pensou ter reparado que o tio, que estivera deitado entre ela e Franziska, se afastava, e que Franziska estava acabando de se deitar. De outra feita, passavam a noite numa estalagem na aldeia de N—; ela e o tio estavam num quarto, e Franziska, num outro contíguo. Ela acordou de repente durante a noite e viu uma figura alta e branca na porta, prestes a girar a maçaneta: — “Deus do céu, é o senhor, tio? O que está fazendo na porta?” — “Fique quieta. Estava só procurando uma coisa.” — “Mas a saída é pela outra porta.” — “É, foi um engano meu” … e assim por diante.

Perguntei-lhe se ficara desconfiada nessa ocasião. “Não, não dei nenhuma importância àquilo; apenas notei e não pensei mais no assunto.”

Quando lhe perguntei se tinha ficado assustada também nessas ocasiões, respondeu que achava que sim, mas não estava tão certa disso.

Ao fim desses dois conjuntos de lembranças, ela parou. Parecia alguém que tivesse passado por uma transformação. O rosto amuado e infeliz ficara animado, os olhos brilhavam, sentia-se leve e exultante. Entrementes, a compreensão de seu caso tornara-se clara para mim. A última parte do que me contara, numa forma aparentemente sem sentido, proporcionou uma admirável explicação de seu comportamento na cena da descoberta. Naquela ocasião, ela carregava consigo dois conjuntos de experiências de que se recordava mas que não compreendia, e das quais não havia extraído nenhuma inferência. Quando vislumbrou o casal no ato sexual, estabeleceu de imediato uma ligação entre a nova impressão e aqueles dois conjuntos de lembranças, começou a compreendê-los e, ao mesmo tempo, a rechaçá-los. Seguiu-se então um curto período de elaboração, de “incubação”, após o qual os sintomas de conversão se instalaram, com os vômitos funcionando como um substituto para a repulsa moral e física. Isto solucionou o enigma. Ela não sentira repulsa pela visão das duas pessoas, mas pela lembrança que aquela visão despertara. E, levando tudo em conta, esta só poderia ser a lembrança da investida contra ela na noite em que “sentira o corpo do tio”.

Assim, quando ela terminou sua confissão, eu lhe disse:

—Sei agora o que foi que você pensou ao olhar para dentro do quarto: “Agora ele está fazendo com ela o que queria fazer comigo naquela noite e nas outras vezes.” Foi disso que você sentiu repulsa, porque lembrou-se da sensação de quando despertou durante a noite e sentiu o corpo dele.
—É bem possível — respondeu — que tenha sido isso o que me causou repulsa e que tenha sido nisso que pensei.
—Diga-me só mais uma coisa. Você agora é uma moça crescida e sabe toda espécie de coisas…
—Sim, agora eu sou.
—Diga-me apenas uma coisa. Qual foi a parte do corpo dele que você sentiu naquela noite?
Mas ela não me deu mais nenhuma resposta definida. Sorriu de maneira constrangida, como se tivesse sido apanhada, como alguém que é obrigado a admitir que se atingiu uma posição fundamental na qual não resta mais muita coisa a dizer. Pude imaginar qual fora a sensação tátil que ela depois aprendera a interpretar. Sua expressão facial parecia dizer que ela achava que eu tinha razão em minha conjetura. Mas não pude ir mais além e, de qualquer modo, fiquei-lhe grato por me haver tornado muito mais fácil conversar com ela do que com as senhoras pudicas da minha clínica na cidade, que consideram vergonhoso tudo o que é natural.

Assim, o caso ficou esclarecido. Mas esperemos um momento! O que dizer da alucinação periódica da cabeça que surgia durante suas crises e lhe infundia terror? De onde provinha? Perguntei-lhe então sobre isso e, como se seu conhecimento também tivesse sido ampliado por nossa conversa, ela respondeu prontamente:

—Sim, agora eu sei. A cabeça é a do meu tio, agora a reconheço, mas não daquela época. Mais tarde quando todas as brigas tinham irrompido, meu tio deu vazão a uma cólera absurda contra mim. Vivia dizendo que era tudo culpa minha: se eu não tivesse dado com a língua nos dentes, aquilo nunca teria redundado em divórcio. Ele vivia ameaçando fazer alguma coisa contra mim; e quando me avistava a distância, seu rosto se transfigurava de ódio e ele partia para cima de mim com a mão levantada. Eu sempre fugia dele e sempre ficava apavorada com a idéia de que um dia ele me pegasse desprevenida. O rosto que sempre vejo agora é o dele, quando ficava furioso.

Esses dados me fizeram recordar que seu primeiro sintoma histérico — o vômito — havia passado, a crise de angústia permanecera e adquirira um novo conteúdo. Por conseguinte, estávamos lidando com uma histeria que fora ab-reagida num grau considerável. E, de fato, ela havia informado a tia de sua descoberta pouco depois do acontecimento.

—Você contou a sua tia as outras histórias… sobre as investidas que ele fez contra você?
—Contei. Não imediatamente, mas depois, quando já se falava em divórcio. Minha tia disse: “Vamos guardar isso de reserva. Se ele criar caso no tribunal, contaremos isso também.”

Posso compreender muito bem que tenha sido precisamente este último período — quando ocorreram cenas cada vez mais agitadas na casa e quando o estado da própria paciente deixou de interessar a tia, que estava inteiramente absorta na disputa — que tenha sido esse período de acúmulo e retenção que lhe tenha deixado o legado do símbolo mnêmico |do rosto alucinado|.

Espero que essa moça, cuja sensibilidade sexual fora afetada numa idade tão precoce, tenha tirado algum benefício de nossa conversa. Desde então não voltei a vê-la.


DISCUSSÃO

Se alguém afirmasse que o presente relato não é tanto um caso analisado de histeria, e sim um caso solucionado por conjeturas, eu nada teria a dizer contra ele. É certo que a paciente concordou que aquilo que introduzi em sua história provavelmente era verdade, mas ela não estava em condições de reconhecê-lo como algo que houvesse experimentado. Creio que teria sido necessária a hipnose para conseguir isso. 
Admitindo que minhas conjeturas tenham sido certas, tentarei agora inserir o caso no quadro esquemático de uma histeria “adquirida”, nos moldes sugeridos pelo Caso 3. Parece plausível, portanto, comparar os dois conjuntos de experiências eróticas com momentos “traumáticos”, e a cena da descoberta do casal, com um momento “auxiliar”. | ver em [1] e seg.| A semelhança está no fato de que, nas experiências anteriores, criou-se um elemento da consciência que foi excluído da atividade de pensamento do ego e permaneceu, por assim dizer, armazenado, ao passo que, na última cena, uma nova impressão ocasionou forçosamente uma ligação associativa entre esse grupo separado e o ego. Por outro lado, existem diferenças que não podem ser desprezadas. A causa do isolamento não foi, como no Caso 3, um ato de vontade do ego, mas ignorância por parte deste, que ainda não era capaz de lidar com experiências sexuais. Nesse sentido, o caso de Katharina é típico. Em toda análise de casos de histeria baseados em traumas sexuais, verificamos que as impressões do período pré-sexual que não produziram nenhum efeito na criança atingem um poder traumático, numa data posterior, como lembranças, quando a moça ou a mulher casada adquire uma compreensão da vida sexual. Pode-se dizer que a divisão dos conjuntos psíquicos é um processo normal no desenvolvimento do adolescente, sendo fácil ver que sua recepção posterior pelo ego proporciona oportunidades freqüentes para perturbações psíquicas. Além disso, gostaria, neste ponto, de externar a dúvida de se uma divisão da consciência devida à ignorância é realmente diferente de uma que se deva à rejeição consciente, e se mesmo os adolescentes não possuem conhecimento sexual com muito mais freqüência do que se supõe ou do que eles mesmos acreditam.

Outra distinção no mecanismo psíquico deste caso reside no fato de que a cena da descoberta, que classificamos de “auxiliar” merece igualmente ser denominada de “traumática”. Ela atuou por seu próprio conteúdo, e não simplesmente como alguma coisa que revivesse experiências traumáticas anteriores. 
Combinou as características de um momento “auxiliar” e de um momento “traumático”. Não parece haver nenhum motivo, contudo, para que essa coincidência nos leve a abandonar uma separação conceitual que em outros casos corresponde também a uma separação no tempo. Outra peculiaridade do caso de Katharina, que, aliás, há muito já nos é familiar, pode ser observada na circunstância de que a conversão, a produção dos fenômenos histéricos, não ocorreu imediatamente após o trauma, e sim depois de um intervalo de incubação. Charcot gostava de classificar esse intervalo de “período de elaboração |élaboration| psíquica”.

A angústia de que Katharina sofria em suas crises era histérica, isto é, era uma reprodução da angústia que surgira em conexão com cada um dos traumas sexuais. Não comentarei aqui o fato que tenho encontrado regularmente num número muito grande de casos — a saber, que a mera suspeita de relações sexuais desperta o afeto de angústia nas pessoas virgens. | ver em [1].|

P.S.: Infelizmente, a versão digital do livro de onde extraí este texto - Estudos sobre a histeria, Vol. II das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud - não traz as notas de rodapé. Mas chamo a atenção para o conteúdo da última nota, que é de fundamental importância, e que esclarece o seguinte sobre o caso: o tio de Katharina era, na verdade, seu pai.

Alternemos a solidão e o mundo

Posted: 28.1.14 by Glauber Ataide in
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"É preciso frequentemente recolhermo-nos em nós mesmos: pois a relação com pessoas diferentes demais de nós perturba o nosso equilíbrio, desperta nossas paixões, irrita nossas restantes fraquezas e nossas chagas ainda não completamente curadas.

"Misturemos, portanto, as duas coisas: alternemos a solidão e o mundo. A solidão nos fará desejar a sociedade e esta nos reconduzirá novamente a nós mesmos; elas serão antídotas, uma à outra: a solidão curando nosso horror à multidão, e a multidão curando nossa aversão à solidão."

(Sêneca, Da tranquilidade da alma)

A morte e a memória

Posted: 20.1.14 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Sócrates dizia que o medo da morte é ignorância, presunção de saber. Afinal, quem poderá dizer se a morte não é algo melhor que a vida? E se não sabemos isso, por que então teme-la? Assim nos diz o ateniense:

“Pois que, ó cidadãos, o temer da morte não é outra coisa que parecer ter sabedoria, não tendo. É de fato parecer saber o que não se sabe. Ninguém sabe, na verdade, se por acaso a morte não é o maior de todos os bens para o homem, e entretanto todos a temem, como se soubessem, com certeza, que é o maior dos males. E o que é senão ignorância, de todas  a mais reprovável, acreditar saber aquilo que não se sabe? Eu,  por mim, ó cidadãos, talvez nisso seja diferente da maioria dos homens, eu diria isto: não sabendo bastante das coisas do Hades, delas não fugirei.” (Platão, Apologia de Sócrates)

Mas o que exatamente tememos na morte, se a reflexão nos mostra que este medo é irracional, remontando suas determinações às mais profundas e inescrutáveis regiões de nossa estrutura humana? Uma tentativa de resposta a essa questão, ainda de forma mítica, vem dos próprios gregos. Em um texto sagrado órfico (século IV a.C.), o qual chegou até nós através de tábuas descobertas só por volta do século XVIII, encontram-se instruções aos mortos que chegassem ao Hades:

“Você encontrará uma fonte à esquerda do Hades, e ao seu lado, um cipreste branco. Nem mesmo se aproxime dessa fonte. Você encontrará outra, a do Lago da Memória, jorrando água fresca. Na frente dela há guardas. Você deve dizer: ‘Sou filho da Terra e do Céu estrelado, vocês sabem disso. Tenho sede e pereço. Dêem-me da água fresca que jorra do Lago da Memória.’ E eles próprios lhe darão de beber da fonte divina, e então você reinará junto aos outros heróis.”

Notamos neste trecho que o objetivo final da instrução é mostrar como encontrar e beber da fonte da memória (Mnemósine) para viver junto aos heróis, passando ao largo da primeira fonte (que nem mesmo é nomeada), geralmente considerada como a fonte do esquecimento (Lethe). O pior da morte, então, não parece ser a mera passagem ao Hades, mas sim o esquecimento.

Esse mesmo esquecimento é o que parece ter sido evitado por Aquiles ao escolher lutar na guerra de Tróia. Não nos relata a Ilíada, de Homero, que Aquiles preferiu ser lembrado após sua morte - mesmo tendo que morrer cedo para isso - a ser esquecido pela posteridade, o que lhe renderia no entanto muitos mais anos de vida? Aquiles tinha duas opções: deixar a guerra e envelhecer em paz, vivendo muitos anos mas sendo esquecido após sua morte, ou continuar lutando, morrer jovem mas ser lembrado por inúmeras gerações pelos feitos que lá realizaria:

“Tétis, a deusa de pés argentinos de quem fui nascido, já me falou sobre o dúplice Fado que à Morte há de dar-me; se continuar a lutar ao redor da cidade de Tróia, não voltarei mais à pátria, mas glória hei de ter sempiterna; se para casa voltar, para o grato torrão de nascença, da fama excelsa hei de ver-me privado, mas vida mui longa conseguirei, sem que o temor da Morte mui cedo me alcance.” (Ilíada IX, 410-416)

Essa concepção grega parece dizer que, de alguma maneira, sobrevivemos à nossa própria morte quando somos lembrados. O pior, então, não é morrer, mas ser esquecido. Pois, se não podemos evitar a morte, pelo menos temos algum controle sobre nossos feitos que podem transcender nossa existência.

Uma outra maneira de transcender a própria finitude residiria, de acordo com Platão, na geração de filhos. A procriação representa o mortal tentando imitar o imortal, impulsionado por Eros. Todos os seres da natureza, ao se reproduzirem, estão sobrevivendo a si próprios em seus filhos:

"... a natureza mortal procura, na medida do possível, ser sempre e ficar imortal. E ela só pode assim, através da geração, porque sempre deixa um outro ser novo em lugar do velho; pois é nisso que se diz que cada espécie animal vive e é a mesma - assim como de criança o homem se diz o mesmo até se tornar velho...” (Platão, O banquete)

Mas se nossos filhos são, de alguma forma, nossa presença continuada neste mundo, mesmo eles não garantem que ainda seremos lembrados após várias gerações. Isso é ainda mais claro para nossa cultura hoje: a maioria de nós tem escasso ou nenhum conhecimento sobre nossos ascendentes a partir da terceira ou quarta geração.

Por isso o homem busca se transcender também através do trabalho (não alienado) e das criações artísticas. Ao se objetivar ou se exteriorizar em suas obras o homem supera a si próprio e sobrevive a seu próprio corpo. O objeto gerado pelo trabalho, assim como a obra de arte, é uma exteriorização do homem, uma objetivação deste. O homem cria um objeto humano e se realiza enquanto humano nessas exteriorizações.

E talvez seja essa a razão do leve apaziguamento que experimentamos em nossa angústia de morte quando percebemos que muitos dos que já morreram ainda são lembrados por seus feitos. Sentimos com isso que, de alguma maneira, mesmo após nossa morte, poderemos continuar neste mundo. A morte não é completa enquanto ainda existir quem de nós se lembre. 

O "inferno" a que Jesus se referia

Posted: 3.1.14 by Glauber Ataide in
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A imagem construída sobre o inferno a partir das descrições encontradas nos Evangelhos, as quais o caracterizam como um lugar de total escuridão, vermes, destruição e permanentemente em chamas, tem alimentado a imaginação e o medo dos homens no ocidente por vários séculos.

Mas essa concepção, mesmo em seus detalhes, não deixa de levantar problemas que exigem uma reinterpretação dos textos dos quais se pensa ter uma composição exata deste lugar.

Um desses pormenores, por exemplo, é a coexistência de uma total escuridão em um lugar no qual o fogo nunca se apaga. Como pode haver escuridão total em um lugar cujas chamas são inextinguíveis?

"E, se o seu olho o fizer tropeçar, arranque-o. É melhor entrar no Reino de Deus com um só olho do que, tendo os dois olhos, ser lançado no inferno, onde o seu verme não morre, e o fogo não se apaga. (Marcos 9:47-48)

Diante dessa e de muitas outras dificuldades, devemos nos perguntar se as referências bíblicas a esse lugar são realmente descrições literais ou se foram um recurso utilizado por Jesus para se fazer entender mais facilmente pelo homem comum, imediato receptor de seus discursos e sermões.

As palavras de Jesus não foram redigidas no momento em que ele as pronunciava. Elas foram registradas décadas após sua morte, devido à necessidade e à preocupação de se preservar sua mensagem, haja vista que as pessoas que tinham andado com ele morriam ao passar dos anos. Assim sendo, percebe-se quão importante era que sua mensagem fosse clara, para que pudesse permanecer na memória de seus seguidores por tantos anos antes de serem transcritas.

Ao analisarmos os trechos nos quais Jesus fala sobre o inferno percebemos que a principal palavra para descrever este lugar é "Gehenna". Esta palavra, na verdade, designa um lugar real chamado Vale de Hinon, situado ao sul de Jerusalém.

Este vale, já na época de Jesus, tinha uma longa história de infâmia, notório pelos sacrifícios de crianças oferecidos a Moloque durante os reinados de Asa e Manassés (2 Reis 16:3; 2 Crôn 28:3; 33:6; Jer 7:31-34; 19:6). Em algumas passagens do Antigo Testamento ele foi indicado como o local do julgamento futuro de Deus (Isa 30:33; 66:24; Jer 7:31-32).

Assim sendo, Jesus não falava aos seus interlocutores de um local imaginário, abstrato, mas sim de um local conhecido por seus ouvintes. Este vale era utilizado como um depósito sanitário, no qual eram lançadas sujeiras e corpos de animais mortos e de criminosos, que eram então queimados.

É por essa razão que Jesus descreve o inferno como um local onde "a chama nunca se apaga e o bicho não morre" (Mc 9:48): é que no Vale de Hinon o fogo era mantido aceso continuamente por questões de higiene. E pelo fato desse vale ser um depósito de corpos de animais e de criminosos mortos, além de outros despejos da cidade, ali havia muitos vermes, tornando-o símbolo da destruição eterna.

Uma leitura contextual desses trechos nos leva então a uma compreensão mais realista sobre as palavras de Cristo sobre o inferno, revelando ao mesmo tempo que não temos razões suficientes para interpretá-las como sendo descrições literais de um lugar de punição eterna. Suas palavras eram dirigidas ao homem comum que podia identificar o "Gehenna" como um local real, situado nas proximidades de Jerusalém, e que já possuía todo um significado de idolatria, punição, morte e destruição.

Uma vez perdida essa referência histórica e contextual, as descrições dos evangelhos acabaram se tornando, com o passar dos séculos, uma descrição literal, o que não parece ter sido a intenção de Jesus.

P.S.: Este texto, que escrevi por volta de 2008, havia se perdido. Por acaso o reencontrei em um blog recentemente, e com pequenas adaptações resolvi resgata-lo.

Freud explica o ciúme

Posted: 9.11.13 by Glauber Ataide in Marcadores:
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O ciúme é um daqueles estados emocionais, como o luto, que podem ser descritos como normais. Se alguém parece não possuí-lo, justifica-se a inferência de que ele experimentou severa repressão e, conseqüentemente, desempenha um papel ainda maior em sua vida mental inconsciente. Os exemplos de ciúme anormalmente intenso encontrados no trabalho analítico revelam-se como constituídos de três camadas. As três camadas ou graus do ciúme podem ser descritas como ciúme (1) competitivo ou normal, (2) projetado, e (3) delirante.

Não há muito a dizer, do ponto de vista analítico, sobre o ciúme normal. É fácil perceber que essencialmente se compõe de pesar, do sofrimento causado pelo pensamento de perder o objeto amado, e da ferida narcísica, na medida em que esta é distinguível da outra ferida; ademais, também de sentimentos de inimizade contra o rival bem-sucedido, e de maior ou menor quantidade de autocrítica, que procura responsabilizar por sua perda o próprio ego do sujeito. Embora possamos chamá-lo de normal, esse ciúme não é, em absoluto, completamente racional, isto é, derivado da situação real, proporcionado às circunstâncias reais e sob o controle completo do ego consciente; isso por achar-se profundamente enraizado no inconsciente, ser uma continuação das primeiras manifestações da vida emocional da criança e originar-se do complexo de Édipo ou de irmão-e-irmã do primeiro período sexual. Além do mais, é digno de nota que, em certas pessoas, ele é experimentado bissexualmente, isto é, um homem não apenas sofrerá pela mulher que ama e odiará o homem seu rival, mas também sentirá pesar pelo homem, a quem ama inconscientemente, e ódio pela mulher, como sua rival; esse último conjunto de sentimentos adicionar-se-á à intensidade de seu ciúme. Eu mesmo conheço um homem que sofria excessivamente durante suas crises de ciúme e que, conforme seu próprio relato, sofria tormentos insuportáveis imaginando-se conscientemente na posição da mulher infiel. A sensação de impotência que então o acometia e as imagens que utilizava para descrever sua condição — exposto ao bico do abutre, como Prometeu, ou arrojado em um ninho de cobras — foram por ele atribuídas a impressões recebidas durante vários atos homossexuais de agressão a que fora submetido quando menino.

O ciúme da segunda camada, o ciúme projetado, deriva-se, tanto nos homens quanto nas mulheres, de sua própria infidelidade concreta na vida real ou de impulsos no sentido dela que sucumbiram à repressão. É fato da experiência cotidiana que a fidelidade, especialmente aquele seu grau exigido pelo matrimônio, só se mantém em face de tentações contínuas. Qualquer pessoa que negue essas tentações em si própria sentirá, não obstante, sua pressão tão fortemente que ficará contente em utilizar um mecanismo inconsciente para mitigar sua situação. Pode obter esse alívio — e, na verdade, a absolvição de sua consciência — se projetar seus próprios impulsos à infidelidade no companheiro a quem deve fidelidade. Esse forte motivo pode então fazer uso do material perceptivo que revela os impulsos inconscientes do mesmo tipo no companheiro e o sujeito pode justificar-se com a reflexão de o outro provavelmente não ser bem melhor que ele próprio.As convenções sociais avisadamente tomaram em consideração esse estado universal de coisas, concedendo certa amplitude ao anseio de atrair da mulher casada e à sede de conquistas do homem casado, na esperança de que essa inevitável tendência à infidelidade encontrasse assim uma válvula de segurança e se tornasse inócua. A convenção estabeleceu que nenhum dos parceiros pode responsabilizar o outro por essas pequenas excursões na direção da infidelidade e elas geralmente resultam no desejo despertado pelo novo objeto encontrando satisfação em certo tipo de retorno à fidelidade ao objeto original. Uma pessoa ciumenta, contudo, não reconhece essa convenção da tolerância; não acredita existirem coisas como interrupção ou retorno, uma vez o caminho tenha sido trilhado, nem crê que um flerte possa ser uma salvaguarda contra a infidelidade real. No tratamento de uma pessoa assim, ciumenta, temos de abster-nos de discutir com ela o material em que baseia suas suspeitas; pode-se apenas visar a levá-la a encarar o assunto sob uma luz diferente.

O ciúme emergente de tal projeção possui efetivamente um caráter quase delirante; é, contudo, ameno ao trabalho analítico de exposição das fantasias inconscientes da própria infidelidade do sujeito. A posição é pior com referência ao ciúme pertencente à terceira camada, o tipo delirante verdadeiro. Este também tem sua origem em impulsos reprimidos no sentido da infidelidade, mas o objeto, nesses casos, é do mesmo sexo do sujeito. O ciúme delirante é o sobrante de um homossexualismo que cumpriu seu curso e corretamente toma sua posição entre as formas clássicas da paranóia. Como tentativa de defesa contra um forte impulso homossexual indevido, ele pode, no homem, ser descrito pela fórmula: ‘Eu não o amo; é ela que o ama!’ Num caso delirante deve-se estar preparado para encontrar ciúmes pertinentes a todas as três camadas, nunca apenas à terceira.

(Extraído de "Alguns mecanismos neuróticos no ciúme, na paranóia e no homossexualismo, Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol. XVIII)

Freud e a homossexualidade feminina

Posted: 25.10.13 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Compartilho abaixo algumas das observações que encontrei pela obra de Freud sobre a homossexualidade feminina. Selecionei apenas três dos textos que estive estudando recentemente, mas há muitos outros.


FRAGMENTO DA ANÁLISE DE UM CASO DE HISTERIA (1905)

"Há muito se sabe e já se tem assinalado que, na puberdade, com freqüência, tanto os meninos quanto as meninas, mesmo nos casos normais, mostram claros indícios da existência de uma inclinação para pessoas do mesmo sexo. A amizade entusiástica por uma colega de escola, acompanhada de juras, beijos, promessas de correspondência eterna e toda a sensibilidade do ciúme, é o precursor comum da primeira paixão intensa de uma moça por um homem. Em circunstâncias favoráveis, a corrente homossexual amiúde seca por completo, mas, quando não se é feliz no amor por um homem, ela torna a ser despertada pela libido nos anos posteriores e é aumentada em maior ou menor intensidade. Se nas pessoas sadias isso pode ser confirmado sem esforço e se levarmos em conta nossas observações anteriores (ver em [1] e [2]) sobre o maior desenvolvimento, nos neuróticos, dos germes normais da perversão, devemos também esperar, na constituição destes, uma predisposição homossexual mais forte. E deve ser assim, pois até hoje nunca passei por uma só psicanálise de um homem ou de uma mulher sem ter de levar em conta uma corrente homossexual bastante significativa. Nas mulheres e moças histéricas cuja libido sexual voltada para o homem é energicamente suprimida, constata-se com regularidade que a libido dirigida para as mulheres é vicariamente reforçada e até parcialmente consciente."

A PSICOGÊNESE DE UM CASO DE HOMOSSEXUALISMO NUMA MULHER (1920)

"Sabe-se bem que, mesmo em uma pessoa normal (1), leva algum tempo antes de se tomar finalmente a decisão com referência ao sexo do objeto amoroso. Entusiasmos homossexuais, amizades exageradamente intensas e matizadas de sensualidades são bastante comuns em ambos os sexos durante os primeiros anos após a puberdade."

SEXUALIDADE FEMININA (1931)

"Antes de tudo, não pode haver dúvida de que a bissexualidade, presente, conforme acreditamos, na disposição inata dos seres humanos, vem para o primeiro plano muito mais claramente nas mulheres do que nos homens. Um homem, afinal de contas, possui apenas uma zona sexual principal, um só órgão sexual, ao passo que a mulher tem duas: a vagina, ou seja, o órgão genital propriamente dito, e o clitóris, análogo ao órgão masculino. Acreditamos que estamos justificados em supor que, por muitos anos, a vagina é virtualmente inexistente e, possivelmente, não produz sensações até a puberdade."

Notas

1) O que Freud quer dizer por "pessoa normal" não se relaciona com a homo\heterossexualidade. Freud nunca considerou a homossexualidade uma "anormalidade" ou uma doença. No contexto do qual esta citação foi extraída ele se refere a neuroses de forma geral, e seu objetivo é justamente mostrar que pessoas heterossexuais e não acometidas de nenhuma neurose também oscilam, durante a vida, entre objetos doe ambos os sexos. 

O que é um conservador?

Posted: 9.10.13 by Glauber Ataide in Marcadores:
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Há três tipos de conservador: um que tem chilique com a palavra “revolução”, outro que tem Palinchilique com a palavra “sexo”, e um terceiro, que arrepia com ambas as palavras.

O primeiro tipo, o que treme ao ouvir a palavra “revolução”, pode ter um tipo de chilique desesperador. Todavia, não é difícil para ele, com o tempo, desenvolver um modo de lidar com isso. Antes que a apresentem a ele, não tarda em ridicularizá-la.

Esse tipo tem lá sua razão. As revoluções políticas nem sempre terminam com menos carnificina que aquela promovida pelo regime derrubado. No entanto, esse tipo de conservador é aquele que cobra realismo de todos, ele quer menos ingenuidade e menos infantilidade. Ora, revoluções são reais, acontecem, e elas são responsáveis por nossa história ser o que é, ou seja, algo aberto para o imprevisível. Quem cobra realismo de outros deveria ter a macheza mínima de suportar irrupções históricas, porque afinal, elas emergem. Quem cobra realismo deveria também, depois, não tentar diminuir as revoluções, principalmente quando a historiografia já nos deu prova de que se trata de alguma coisa importante, que efetivamente mudou o mundo.

O segundo tipo, o que tem convulsões ao ouvir a palavra “sexo”, também às vezes nos assusta com seus gritos. Claro que também este, com o passar do tempo, obtém um modo de escutar e até pronunciar uma tal palavra – “se… se … xo”. Sua estratégia é bem comentada e sabida: medicaliza a palavra. Os médicos falavam de pênis, e isso já era um termo sob uma boa assepsia, agora nem é isso mais que usam. Falam em “membro sexual masculino”. O sexo se transformou uma propriedade do médico que, com seu uniforme branco e sua seriedade profissional, é aquele que pode dissertar sobre tal assunto com a distância que, antes dele, esteve nas mãos do padre.

Não é nada inútil colocar o sexo sob os cuidados médicos. A ciência ajuda a fazer do sexo alguma coisa possível de ser conversada sem misticismo cultivado pela ignorância, e isso é bom. Todavia, o tipo conservador que, enfim, exatamente pelo seu realismo, quer se mostrar corajoso e enfrentar tudo que é natural, não deveria precisar de tantas luvas para falar de sexo.  Afinal, dizem até que os conservadores gostam de Nelson Rodrigues, então eles deveriam ser um pouco mais despudorados. Mas não são. No frigir dos ovos eles estão sempre sentados na sala de jantar, rodeados de crianças que são só inocentes aos seus olhos.

Os motivos pelos quais os conservadores criam problemas diante de “revolução” e “sexo” não são difíceis de notar.

Revolução implica em mudança de controle e, às vezes, de alteração nas próprias formas de controle. O conservador tem um medo danado não só do que os revolucionários podem fazer com ele, mas do que ele pode fazer consigo mesmo em uma sociedade em que, mesmo só por um breve momento, houver liberdade. O conservador é mais ou menos parecido com aquela garota que não sabe se é ou não lésbica, e que então nunca bebe, pois acredita que se beber irá para a cama com todas as colegas naquela noite.

Sexo implica em prazer. Ora, o conservador teme o prazer. Caso ele seja rico, ele teme que seus operários comecem a gastar energia antes no sexo que no trabalho. Caso o conservador seja pobre, ele teme que o sexo o jogue para fora de sua própria família. Pois quem quer sexo quer também o ambiente de desregramento do bar. Isso porá sua família em risco. Mas ele também teme que, em um mundo onde todos queiram ter prazer, não será a filha do patrão que pagará o preço por isso, mas suas filhas. Em geral, não é que ele queira proteger suas filhas. Mas ele tem ciúmes delas, segundo uma tendência incestuosa que ele disfarça.

Esse quadro que pinta o rosto do conservador pode não valer para alguns, justamente porque esses alguns ainda não pensaram com coragem sobre tudo isso. Quando refletirem melhor, se tiverem realmente coragem, confessarão que não estou falando bobagem, e que meu quadro abocanha bem muitos conservadores conhecidos. Talvez até mais do que possamos avaliar em um primeiro momento.

Paulo Ghiraldelli, filósofo